Sob o olhar das Estrelas
Parte 31
Bruno - Finalmente Minha
Aquele foi sem dúvida o melhor presente da minha vida.
Poder finalmente chamar a Carol de minha, minha namorada, minha futura esposa,
minha amiga e mulher, minha companheira para todo o sempre.
Fizemos amor no terraço pela segunda vez, sob o olhar das
estrelas. E naquela noite ela dormiu em minha cama, em meu apartamento, já que
a mãe dela sequer tinha ideia que ela estava em Porto Alegre.
No dia seguinte, estava me arrumando quando ela se
aproximou e deu um nó em minha gravata.
Eu sorri.
— Nada mais sexy do que a garota que a gente ama,
arrumando nossa gravata.
Ela mordeu o lábio inferior.
— Nada mais sexy do que o cara que a gente ama olhando
pra gente dessa maneira.
Eu a puxei e a beijei com todo o amor que havia dentro de
mim.
— Obrigado por estar aqui. Eu te amo.
Carol me abraçou.
— Não perderia esse momento por nada, porque amo você.
Bruno.
Senti o cheiro bom que vinha dela e minhas mãos começaram
a explorar seu corpo.
— Podemos nos atrasar um pouco? Por que tenho algo melhor
em vista do que casar minha mãe.
Ela riu alto e caímos na cama.
Minha mãe
oficializou a união dela com o Aberto, e eu estava tão feliz com minha namorada
ao meu lado, que nem me lembrava mais que no dia anterior havia discutido com a
minha mãe.
Não nos desgrudamos o final de semana inteiro, e todos
souberam que finalmente estávamos namorando. E o melhor era que todos aprovaram
nosso relacionamento, inclusive o Ricardo ficou muito feliz com a notícia.
Voltamos para São Paulo juntos e quando chegamos no
aeroporto, Tiago e Felipe nos esperavam lá, radiantes com a notícia. Fomos
direto a um bar, onde brindamos aquele momento.
Dormi no apartamento da Carol do domingo para a
segunda-feira e depois, e depois... e depois ela dormiu em meu apê por vários
dias. Enfim, não ficamos mais nenhuma noite separados desde que ela me pediu em
namoro.
E eu precisava guardar bem isso, para os filhos dos meus
filhos saberem que a avó deles foi quem pediu minha mão há alguns anos.
Nossa vida se encaixou perfeitamente. Ficávamos juntos o
tempo todo, exceto quando estávamos no trabalho. Eu tratei de ser um namorado
presente em todos os momentos da vida dela e ela amava ser paparicada por mim.
Nos finais de semana, sempre saíamos com os caras e suas respectivas namoradas.
E uma vez vimos o César, que ficou claramente irritado ao nos ver juntos. Mesmo
detestando o cara, entendia a posição dele, afinal, se eu a perdesse, perderia
minha melhor metade.
Seis meses após estarmos namorando, numa sexta-feira,
acordamos e fizemos amor, como todas as manhãs.
Carol caiu exausta no travesseiro e me encarou, com um
sorriso de satisfeita. Meu coração palpitou naquele momento. Jamais me cansaria
de olhar pra ela, porque, Deus do céu, eu tinha em minha cama a garota mais
linda do mundo.
— O que foi? — perguntou ela, com um sorriso nos lábios.
— Você é tão linda. Se eu pudesse, eternizaria esse
momento. — disse a puxando contra meu corpo.
Senti minha ereção reagir novamente.
— Ah, você é incansável.
— Pode apostar que sim. — falei, mergulhando meu rosto em
seus cabelos — Não consigo ficar ao seu lado e não fazer amor com você. Eu te
amo, linda.
Mais tarde, fomos tomar um banho e nos arrumarmos para o
trabalho. Já estava pronto, mas estava procurando por todos os lugares o meu
gel de cabelo.
Ela estava terminando de se arrumar e parecia preocupada.
— Droga, eu preciso do meu gel. Será que acabou?
— Não! Comprei um vidro esses dias.
Voltei ao banheiro e continuei a procurar.
— Deve estar em seu apartamento. — ela gritou.
Saí apressado e o gel realmente estava em meu
apartamento, como ela havia dito.
Voltei para o apartamento dela e ela já estava de saída.
— Estava lá. — falei esboçando um sorriso sem graça. — Isso
é a prova de que deveríamos juntar nossas coisas de vez. Essa história de ficar
coisas minhas aqui e lá, não dá certo.
— Também acho. Assim economizaríamos um aluguel, já que
ficamos juntos todos os dias.
— Você está me convidando para morar com você? — falei
ironicamente.
— Não! Foi você quem disse que deveríamos juntar nossas
coisas. — rebateu ela.
— Essas mulheres de hoje são bem abusadas. — falei
enquanto arrumava minuciosamente meu cabelo com gel. — Primeiro me pediu em
namoro, depois me chama para dividir o apartamento com ela.
— Seu cretino! Foi você quem disse. E pronto mudei de
ideia!
Quando ela foi saindo eu a parei.
— Eu aceito seu pedido.
— Cala a boca. Eu não pedi nada.
— Tudo bem, não precisa implorar. Eu venho morar com
você. Ou sei lá, você vai morar comigo.
— Patético. — ela disse esboçando um sorriso lindo.
— Eu estou brincando.
Vou fazer direito. Você aceita morar comigo?
Ela me encarou como se estivesse se decidindo.
— Estou atrasada agora, mas prometo pensar em sua
proposta.
Carol selou meus lábios e saiu.
— Ei, o café, você não vai tomar?
— Não, eu não posso! Depois eu explico. — ela disse
saindo apressada.
Estranhei, afinal, ela nunca recusava o café.
Sentei-me e enquanto comia alguma coisa, comecei a falar
comigo mesmo.
— Hoje mesmo ligo na imobiliária, dizendo que não
precisaremos mais de um dos apartamentos. Talvez precisemos de um maior. Será?
Ah, e preciso de uma aliança. Isso, uma aliança. Ela vai ficar alucinada. Sim,
irei pedi-la em casamento. Acho que já passou da hora de fazermos isso.
Trabalhei o dia todo pensando na surpresa que faria a
ela. Mal podia esperar até o final do expediente. Peguei meu celular e digitei
uma mensagem.
Meu amor, naquela correria nem disse que amo você.
Segundos depois
ela respondeu.
Então me diga, aliás, nos diga.
“Nos diga? Como assim? ” pensei.
Amo você, mais do que tudo.
Para sempre seu
Segundos depois.
Tenho uma surpresa para você, mas as horas estão custando a passar.
Portanto, chegue cedo em casa. É importante!
Espero que goste. Amo você.
“Ela aceitou minha proposta, tenho certeza! ” pensei
comigo mesmo e fiquei ainda mais ansioso pra ir embora.
Consegui sair do laboratório somente às dezoito horas e
corri até um shopping, onde fui em busca de um anel de noivado. Eu não podia
chegar com um anel qualquer, aquele seria um dos dias mais importantes da minha
vida e eu não queria decepcioná-la. Encontrei um anel que fora feito para ela.
Um solitário da Tifanny. E minha sorte foi que eu tinha uma grana guardada,
assim podia me dar o luxo de extravasar naquele momento.
Saí da loja já passava das dezenove e trinta. Estava me
sentindo o homem mais feliz do mundo. Meu celular tocou, era ela.
— Oi, linda. — falei todo sorridente olhando para a caixa
azul da Tifanny.
— Bruno, você está demorando muito! Vou morrer de
ansiedade assim.
— Calma, daqui alguns minutos estarei aí.
Ela respirou fundo.
— Tudo bem. Dirige com cuidado.
Eu sorri.
— Te amo, minha linda!
Ela ficou em silêncio.
— Também amo você!
Desliguei e fui para o carro. Demorei cerca de dez
minutos somente para sair do shopping, que estava lotado. No caminho para casa
o movimento estava controlado, o que era de se estranhar por ser uma
sexta-feira, ainda assim, estava tão ansioso que parecia não chegar nunca.
Parei em um semáforo e então peguei mais uma vez a
caixinha azul da Tifanny e a abri, admirando o imenso brilhante.
“Ela vai ficar extasiada ao ver esse anel! ”
O sinal abriu e eu acelerei, saindo em seguida. Olhei
mais uma vez para o anel e sorri por dentro. Foi então que ouvi um estrondo
imenso e vi meu carro capotando em meio a avenida. Só tive o reflexo de segurar
a caixinha azul contra meu peito e tudo ficou escuro, quando bati minha cabeça.
14
Carol — A carta
Já estava esperando pelo Bruno desde as dezoito horas, com
o teste de gravidez em uma das mãos e um sapatinho de crochê na outra mão. E
nada dele chegar.
Após ligar para ele às dezenove e meia, resolvi um tomar
um banho correndo. Mal podia acreditar
que dentro de mim, havia um filho meu e do Bruno. Era a sensação mais
emocionante da minha vida. Passei o sabonete em meu ventre bem delicadamente e
agradeci a Deus por aquela dádiva.
Após o banho, passei óleo por todo corpo, era hora de me
cuidar, afinal, logo minha barriga estaria enorme. Coloquei um vestido bem
soltinho e penteei meus cabelos.
Vinte minutos depois e ainda nada dele. Nesse momento,
senti um certo desconforto, como uma tristeza enorme em meu peito, tanto que
meus olhos se encheram de lágrimas.
“Meu Deus, será os hormônios? ” perguntei a mim mesma.
— Calma bebê! Daqui a pouco o papai estará aqui com a gente.
— disse passando a mão em minha barriga.
Fui até a sacada para respirar um ar e para ver se aquela
sensação ruim melhorava.
“Carol, você acabou de descobrir que está grávida. Sério
que já vai começar a dar trabalho? Seja forte garota!” — disse me autocensurando.
Vinte horas e quinze minutos e ainda nada do Bruno.
Liguei para ele novamente e o celular dele tocava, tocava e caía na caixa
postal.
— Caramba, Bruno, justo hoje! — dizia em voz alta.
Tentei novamente e mais uma vez ninguém atendeu.
Liguei a TV e fiquei sapeando os canais, mas nada
segurava minha atenção. Já passava das vinte e uma horas e liguei para o
Felipe, mas o Felipe não sabia dele. Então liguei para o Tiago que também não
tinha notícias do Bruno.
— Inacreditável. — disse, jogando o controle a TV longe.
Peguei o exame de sangue, reli pela milésima vez. O
arrumei sobre a minha cama ao lado do sapatinho de crochê e me deitei um pouco.
O telefone tocou passava das nove e meia da noite.
— Alô.
— Boa noite, aqui é do hospital “ Carlos Amarante”. A senhorita
é o que do Sr. Bruno Gregori Vicenzo?
Meu corpo se arrepiou
inteiro.
— Sou a namorada dele, nós moramos juntos.
— Estou ligando porque o Sr. Vicenzo deu entrada
em nosso hospital por volta das oito horas da noite e precisamos de alguém da
família dele aqui presente.
A partir daí, liguei meu automático. Não ouvia
mais nada do que ela dizia. Era como se eu tivesse fora do ar. Peguei meu carro
e não sei como cheguei até o hospital.
Passei pelos corredores
do hospital sem ao menos sentir minhas pernas e então dei meu nome a recepção.
Algum tempo depois, um dos médicos veio falar comigo. A única coisa que ele me
disse foi:
— O Sr. Bruno Vicenzo, sofreu um acidente de carro
e teve um trauma considerado preocupante. Está com traumatismo craniano e já
está sendo preparado para uma neurocirurgia que acontecerá dentre alguns
minutos.
Caí em desespero. Meu
mundo havia desabado sobre minha cabeça. E me vi sozinha ali naquele hospital
recebendo aquela bomba em minhas mãos.
As primeiras pessoas que
me vieram em mente foram o Felipe e o Tiago, então liguei em prantos para eles.
Em seguida liguei para Ester que assim como eu ficou em estado de choque,
somente depois liguei para minha mãe e o resto das minhas forças se esvaíram ao
ouvir a voz serena dela.
Felipe e Tiago chegaram
em menos de uma hora. O que para mim levou uma eternidade. Desabei ao vê-los e
eles ficaram ao meu lado o tempo todo.
A cirurgia durou um
pouco mais de quatro horas. Tanto que já passava das duas da manhã. Durante
todo o tempo, a única coisa que eu conseguia fazer era rezar e pedir a Deus que
tivesse compaixão do Bruno. Então um dos médicos veio em nossa direção.
— Bom dia, eu sou o Dr. Evandro Martins, sou o
neurocirurgião que cuidou do Bruno.
Estava a ponto de explodir com tanta
preocupação.
— Seu nome é?
— Carolina. — respondi em pânico.
— Nós fizemos tudo o que foi possível e
impossível. E levando em consideração a gravidade do trauma, posso dizer que
tudo está correndo além do que eu e minha equipe esperávamos. A cirurgia correu
tudo bem. Entretanto, só o que temos a fazer é esperar que ele volte do coma.
— E isso costuma demorar?
— Carolina, esse é o grande problema. Não tenho
como saber o momento certo em que ele acordará e “se” ele acordará. Fizemos
tudo o que podíamos, agora temos que esperar e rezar. O Bruno corria o risco de
não aguentar a cirurgia, e esse risco ainda não está descartado. Essas
primeiras setenta e duas horas serão primordiais. Ele será monitorado o tempo
todo. Passado esse tempo, aí sim conversaremos novamente. Mas é uma situação
extremamente delicada e ele ainda corre risco de morte.
Olhei incrédula para o
Felipe e ele segurou minha mão. Minhas lágrimas não cessavam.
— Doutor, quer dizer que se ele passar dessas
setenta e duas horas, ele ainda corre o risco de não acordar? — indagou Tiago.
— Sim, foi isso que eu disse! Isso já não depende
mais de nós. O importante é que ele está vivo. Vamos aguardar e qualquer
novidade vocês serão informados, eu lhes garanto!
Tiago me abraçou nesse
momento e começamos a chorar novamente. Felipe saiu de perto, provavelmente
para não desabar em nossa frente.
Algum tempo depois, fui
até a capela do hospital onde rezei por horas. Felipe e Tiago juntaram-se a mim
e chorávamos feito crianças.
Minha mãe, a Ester e o
Alberto chegaram ao hospital por cerca das seis horas da manhã. Depois de nos
abraçarmos e chorarmos novamente, o Dr. Evandro novamente juntou-se a nós e
explicou tudo novamente para a Ester. Ela mesmo desorientada passou horas
acertando a parte burocrática do hospital. E o Bruno teria o melhor atendimento
possível graças ao bom plano médico que eles possuíam.
Como minha mãe era uma cardiologista
muito conhecida, ela conversou com a equipe do hospital e conseguimos vê-lo por
algum tempo. Fiquei chocada ao vê-lo. Bruno tinha escoriações por todo o corpo,
foram dados vários pontos acima do supercílio esquerdo. E sua cabeça estava
toda raspada e enfaixada.
Ele estava com o rosto
quase irreconhecível, de tão inchado e machucado. Estava todo entubado e
respirando pelos aparelhos.
— Oi, meu amor! — disse a ele em sussurro que parecia estar muito
distante dali. — Só
quero que você saiba que ficarei aqui ao seu lado o tempo todo, você não está
sozinho! Você tem a mim e ao nosso filho, e estamos rezando muito por você, para
que você volte logo. Amo você meu amor e eu preciso de você, nós precisamos de
você!
Minhas lágrimas
começaram a cair eu me inclinei e o beijei. Então a enfermeira me levou. Quando
a Ester foi vê-lo, ela saiu em prantos ao ver o filho naquele estado.
Não disse a ninguém
sobre minha gravidez, pois queria que o Bruno fosse o primeiro a saber.
Bruno conseguiu dar o
primeiro grande passo e conseguiu passar pelas setenta e duas horas. Porém, não
dava sinais de acordar.
Uma semana se passou e
nada. Eu só ia para meu apartamento tomar um banho e então voltava para o
hospital. Ester e minha mãe faziam o mesmo.
Precisei ir até um
ginecologista onde fiz o primeiro ultrassom do meu bebê, e expliquei a ele toda
a minha situação, ele me afastou do emprego, dizendo que minha gravidez era
considerada de risco. Coisa que realmente era verdade, já que estava destruída
emocionalmente.
Vinte dias depois, Bruno
já não estava mais tão inchado e seus ferimentos já estavam cicatrizando. Eu
passava horas apenas o observando. Nesse tempo, quando ficávamos a sós,
conversava com ele sobre nosso filho. Era como se ele estivesse dormindo,
afinal, eu sentia que ele estava ali.
Comprei vários livros e todos
os dias lia para o Bruno. Conversava como se ele pudesse me ouvir e no fundo eu
acreditava que Bruno realmente me escutava.
Felipe e Tiago iam
visitá-lo todos os dias. Felipe parecia cada vez mais preocupado com a situação
do amigo, era perceptível a tristeza e a preocupação nos olhos dele. Quanto ao
Tiago, ele era o sentimental, toda vez que ia ver o amigo, saía de lá com os
olhos inchados de tanto chorar.
Ester havia envelhecido
dez anos em vinte dias, mas ela assim como eu, não perdia as esperanças. E
minha mãe tornou-se a “nossa” mãe durante todo esse tempo. Ela cuidava de mim e
da Ester, era ela que insistia para que nós duas revezássemos, ela que insistia
para que eu me alimentasse um pouco e ficava deitada comigo até conseguir dormir, pois eu me mantinha firme quando
estava no hospital, mas era chegar em casa que desabava e chorava por horas.
Dona Marília foi o nosso pilar, não sei o que faria sem ela ao meu lado.
Meu pai vinha aos finais
de semana e ficava comigo e com minha mãe em meu apartamento. E Ester e o
Alberto ficavam no apartamento do Bruno.
Um mês e nada! Cada vez
que eu voltava do hospital, voltava arrasada e não tinha vontade de fazer mais
nada em minha vida, a não ser chorar.
Fui novamente fazer meu
pré-natal, sem que ninguém soubesse. Os enjoos já estavam começando e o médico
me alertou, afinal, eu havia emagrecido mais de cinco quilos, sendo que estava
de oito semanas. Ele disse que eu teria que ser forte, por mim e principalmente
pelo o bebê que precisava de mim mais do que ninguém desse mundo.
Um mês e meio após a
cirurgia do Bruno e ele ainda não dava nem sinal de acordar. Devido a mesma
posição por dias, começaram a surgir as escaras, e aquilo me matava de tanta
tristeza.
Era uma segunda-feira
quando o Felipe chegou arrasado. Estava com o rosto inchado de chorar. Eu o vi
daquele jeito e não aguentei e desabei com ele.
Felipe conversou com os
médicos, que sempre diziam as mesmas coisas. E depois, me pediu para falar um
pouco com o amigo a sós. Fiz o que ele
me pediu e enquanto ele conversava com o Bruno, fui até a capela. Após algum
tempo, Felipe chegou com a cabeça baixa.
— Mascote, preciso fazer uma coisa que está me
torturando por dentro.
Ele se sentou ao meu
lado, cobriu o rosto com as mãos e chorou feito criança. Eu o abracei até que
ele se acalmou. Momentos depois, ele me encarou.
— Você lembra daquele dia que foi embora de Porto Alegre
sem avisar o Bruno? Quando vocês ficaram e depois você o deixou e foi para o
Canadá?
— Claro. Foi o erro mais tolo que cometi.
Ele assentiu.
— Naquela tarde, eu fui visitar o Bruno. Ele estava
arrasado porque você tinha ido embora e porque era aniversário de morte do pai
dele. Lembro que ele e a Ester tinham ido a Santa Maria e ele começou a falar
umas coisas sobre o pai e...
O encarei tentando
afastar de mim o que imaginara que ele falaria.
— Mascote, naquele dia, ele me entregou isso e me
disse que se caso um dia acontecesse a ele algo parecido com o que aconteceu
com o pai dele, era para eu entregar essa carta para a Ester. Eu não sei bem o
que tem aqui. Mas estou adiando isso desde o dia do acidente. Só que não posso mais
fazer isso! O Bruno confiou em mim e dei a ele a minha palavra.
Levantei-me e caminhei
até uma janela, tentado inalar um pouco de ar, pois eu me lembrei do dia em que
o Bruno me falou sobre escrever aquela carta e meu coração chegou a doer só de
pensar no que poderia estar escrito nela.
Alguns minutos depois
fui novamente até Felipe, que me olhou e começou a chorar.
— Você não pode fazer isso. Eu te imploro! Esquece
essa carta. Eu sei exatamente o que tem nela, e acredite, não é nada bom! Em
nome da nossa amizade, não a entregue a Ester. Se fizer isso, a Ester como mãe,
terá que fazer o que está escrito aí e isso não acabará somente com a vida do
Bruno, acabará com a minha vida.
Minhas lágrimas caiam
sem parar. Felipe me olhou totalmente sem saber o que fazer.
— Mascote, não faz isso comigo!
Minha vista estava
turva.
— Não faz você isso comigo! Por favor! Em nome do
amor que você sente pelo o Bruno e por mim, não entregue essa carta para a
Ester. Eu... Eu imploro.
Eu me ajoelhei aos pés
do Felipe, chorando sem parar.
— O Bruno fez isso de cabeça quente, não tinha
como ele prever o que aconteceria na vida dele. Tenho certeza de que hoje ele
não pensa mais assim. Por favor, Felipe! Pela a nossa amizade, destrua essa
carta, não a entregue para a Ester.
— Não entregue o que para mim? — disse uma voz vindo atrás de
mim.
Levantei-me em câmera
lenta, sentindo meu coração destroçado e vi Ester se aproximando.
— Não Felipe, por favor! — implorei em sussurro.
Ester chegou assustada
ao meu lado, encarei Felipe que estava em pânico.
— O que está acontecendo aqui? — indagou Ester.
Felipe me encarou
exasperado e eu só fiz que não com a cabeça.
— Diga-me Felipe! O que você está me escondendo.
Ester me olhou tentando
decifrar meu semblante. Nesse momento Felipe me encarou e balançou a cabeça em
negação.
— Ester... — ele disse fazendo uma longa pausa.
Minhas lágrimas caiam
sem parar e o encarei totalmente magoada, por ele não atender meu apelo.
— Há cerca de dois anos, mais ou menos, o Bruno me
pediu que se um dia acontecesse algo a ele, onde ele precisasse ficar
internado, assim como o pai dele ficou, era para lhe entregar essa carta.
Felipe tirou de dentro
do bolso da calça um envelope e o entregou para a Ester, que me olhou sem
entender. Eu o encarei totalmente decepcionada.
— Ester, o Bruno fez isso provavelmente de cabeça
quente. Não leve isso em consideração, por favor! Eu lhe imploro! Você vai ver
que o que está escrito aí, vai contra a tudo pelo o que estamos lutando durante
todos esses dias. Então, não faça isso! Eu lhe imploro!
Os olhos de Ester
encheram-se de lágrimas. Ela se afastou e caminhou até a janela, onde abriu o
envelope e leu a carta.
— Mascote, desculpa-me! Eu tinha que fazer isso.
— Eu nunca achei que diria isso. Mas estou odiando
você, Felipe. Você acabou com a minha vida!
— Não fala isso, por favor! Você é minha única
amiga e o Bruno é meu melhor amigo, ele confiou em mim, e eu não podia simplesmente
virar as costas para ele. Tenho sofrido há dias, mas eu não podia mais esperar.
Olhei para ele, balançando
a cabeça em negação e me afastei, sentando-me em um banco da capela distante
dele e da Ester. Rezei com toda a fé que tinha, implorando a Deus, para que
Ester não levasse aquela carta em consideração.
Algum tempo depois,
Ester escorregou lentamente escorada na parede como se sentisse dor e começou a
chorar em desespero. Olhei para o Felipe novamente e o recriminei com o olhar. Fui
até ela e me abaixei ficando ao lado dela.
— Ester, o Bruno não sabia o rumo que a vida dele
tomaria. Então vamos esquecer isso!
— Não, Carol! Meu filho sempre me disso isso. Ele
visitou o pai todos os dias por meses. O Bruno viu o pai dele definhar em uma
cama de hospital e cada vez que ele voltava para casa, voltava arrasado, com
vontade de morrer em ver o pai naquela situação.
Eu chorava
silenciosamente.
— Uma vez, o Bruno
chegou a me dizer que toda a vez que pensava no Roberto, vinha em mente aquele
homem debilitado que aos poucos foi mirrando em uma cama de hospital. Ele já
não se recordava mais de como era o pai dele antes do acidente, o Roberto cheio
de vida, ele sentia falta das vezes que eles brincavam, iam ao estádio ou saiam
juntos para pescar. O Bruno dizia que fechava os olhos e lhe vinha em mente
aquela imagem do pai cheio de tubos, sem poder ao menos respirar sem os
aparelhos. Meu filho sofreu muito por ver a pessoa a quem ele mais amava
naquela situação. Dizia-me que jamais iria queria ser lembrado daquela maneira
e infelizmente é a mesma maneira em que ele se encontra agora. Eu nunca levei aquilo
em consideração, porque não achava que eu passaria por isso novamente em minha
vida. Mas a vida é implacável e ela me deu essa rasteira outra vez. Tudo o que
passei com o Roberto, estou passando com meu filho. Você não faz ideia da dor
que estou sentindo por não poder ajudá-lo. Daria minha vida a ele, porém, sinto
como se ele tivesse me pedindo para tirá-lo dessa situação, entende?
Nesse momento eu já não
conseguia mais ao menos raciocinar.
— Não, eu não entendo! Não posso entender uma
coisa dessas. Ester.
— Então lê você essa carta Carol e me diga o que
fazer.
Olhei para ela e peguei
a tal carta. Ester se afastou de mim e se juntou a Felipe. Minhas mãos tremiam
ao desdobrar o papel.
Querida Dona Ester,
Se estiver lendo essa carta, é sinal de que
as coisas não estão muito bem. Acertei, não é?
Não sei explicar o porquê, mas é como se já
soubesse que isso viria a acontecer comigo.
E infelizmente aconteceu.
Mas paremos de tristeza, enxugue essas
lágrimas e escute o que eu tenho a lhe dizer:
Passei todos os dias, durante meses, indo e
vindo de um hospital, onde vi meu pai se definhando gradativamente. Eu tinha
meu pai como um ídolo, como o homem mais forte do mundo, como meu super-herói,
e não gosto nada, nada de lembrá-lo daquela maneira. Tenho certeza de que se
ele pudesse escolher, escolheria não me deixar vê-lo daquela forma. Aquilo me
marcou muito, mãe! Chorava horas e horas antes de dormir em saber que meu pai,
meu melhor amigo, estava sofrendo tanto, sem que eu pudesse ajudá-lo.
Então, peço-lhe que se isso vier acontecer
comigo, não me deixe passar por tudo que meu pai passou. Seria sofrimento
demais para mim, acabar da maneira que ele acabou.
Quero que todos que me amem, lembrem-se do
Bruno gato e bonitão como eu era; do Bruno alegre, feliz e cheio de vontade de
vencer na vida. Não quero ser lembrado como um ser inanimado, cheio de tubos
saindo do meu corpo quase em decomposição. Porque, é exatamente assim que me
lembro do meu herói, e isso é muito triste. Por favor mãe, é só o que lhe peço!
Amo você mais do que tudo e só tenho que lhe
agradecer por ter sido minha mãe e meu pai durante todos esses anos. Você foi
perfeita em todos os aspectos.
De seu filho que só lhe tem amor,
Bruno.
P.s. Não imagino como estará minha situação nesse
momento. Nem mesmo imagino com quantos anos estarei. Talvez eu esteja casado,
cheio de filhos, ou solteirão, vai saber.
Mas de todo o modo, quero que diga a Carol,
que independente do rumo que nossas vidas seguiram, que eu a amei com todo o
amor, e que ela sempre foi a menina dos meus olhos e do meu coração. Diga
também a ela, que depois que a conheci (assim que entrei naquele prédio) minha
vida mudou para muito melhor!
Ela foi e sempre será a mulher da minha
vida.
Diga a ela que eu a amo e que nós ainda
ficaremos juntos, mesmo que seja em um outro plano.
Agora faça o que tem que ser feito!
Bruno.
Apertei aquela carta
contra meu peito em soluços, sem saber o que pensar. Foi a pior dor que sentira
em toda minha vida.
— Eu também sempre amarei você, Bruno!

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