segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 21, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas

Parte 21

Toda aquela situação me deixou arrasado. Fiquei maluco, dirigindo sem saber pra onde ir. Minha vontade era ir pra São Paulo e falar com a Carol, mas tinha que agir da melhor forma, para não meter os pés pelas mãos, como da outra vez.
Voltei ao apartamento algum tempo depois de ficar dirigindo a esmo. Estava decidido a terminar com a Marina e mandá-la embora. Quando cheguei, tudo estava absolutamente quieto e ela ainda estava lá, com o rosto todo inchado de chorar.
— Bruno, me perdoa! — disse ela em tom de súplica vindo em minha direção, vestindo apenas minha camiseta.
— Marina, é melhor você ir ora casa, eu acho melhor .... — fiquei em silêncio — Nós somos muito diferentes, diferentes em tudo, aliás, eu só tenho vinte e dois anos, e confesso que ainda não sei o que eu quero da minha vida.
Eu menti. Sabia exatamente o que eu queria.
— Não faz isso, Bruno! Eu imploro!
Marina ficou de joelhos em meus pés.
— Não! Não faça isso! Você é linda, é maravilhosa. Não tem que implorar por nada nem por ninguém. O problema sou eu. Eu amo...
— Não, Bruno, por favor, não faz isso comigo!
Marina começou a chorar descontroladamente, eu me ajoelhei perto dela, tentando acalmá-la.
— Eu sou capaz de cometer uma loucura se você me deixar, eu amo você, amo o que temos. Não me deixe. Isso que aconteceu nunca mais irá acontecer, eu prometo.
— Você não tinha o direito de fazer o que fez. Ela não é uma vadia, ela é a minha única e melhor amiga. Somos amigos desde crianças e você a insultou e a humilhou.
— Perdoa-me! Eu admito que errei, só peço que tente ver meu lado. Você... Você mudou completamente ao falar com aquela garota, foi como se eu não tivesse mais aqui.
Marina me abraçou como se dependesse de mim para respirar. Senti-me sufocado com aquela situação, mas o desespero dela era tanto que eu não tive como deixá-la.
Alguns dias se passaram e a Carol não me ligou mais, então numa quarta-feira, eu liguei para ela.
— Alô.
A voz dela já era o suficiente para me tirar o chão.
— Oi, liguei para saber como você está. Precisava escutar sua voz.
— Estou bem. Agora estou bem. Mas e você, como vão as coisas?
Eu ri. Tudo estava péssimo para mim.
— Na verdade está tudo uma droga. Mas...
— E o estágio, terminou?
— Não. Ainda faltam uns meses.
Ficamos em silêncio.
— Bom, não vou mais tomar seu tempo, só liguei para dizer um oi, e dizer que... — uma pausa —  E que eu sinto sua falta.
— Fiquei feliz que tenha ligado. Eu também sinto sua falta.
Ficamos em silêncio. Não tinha mais nada a ser dito por nenhum de nós dois.
— Bruno, ah.... Eu tenho que desligar. A gente se fala.
Meu coração ficou apertado.
— Tchau, Bruno!
Deitei em minha cama, sem saber o que pensar. Eu gostava de estar com a Marina. Ela era perfeita na cama, era linda, era engraçada. Mas era como se ela quisesse me dominar. Queria ter poder sobre mim e isso me sufocava cada vez mais. Já eu e a Carol, éramos totalmente iguais, ela era a minha cara metade, embora, estivéssemos agindo feito estranhos, após tantos desencontros.
Na última semana de março, era a formatura de Tiago e eu precisava ir para Porto Alegre. Quando eu disse para a Marina sobre a formatura, seu semblante mudou, pois eu teria que ir sozinho porque ela ia receber a visita de uns empresários franceses, que estavam no Brasil e queriam conhecer a faculdade.
Ainda assim, ela me fez jantar com ela na sexta-feira à noite, onde me apresentou seus amigos franceses, o que me fez perder o primeiro dia da festa do Tiago. Sentia-me uma marionete nas mãos dela, sem contar que ficava completamente desambientado com toda aquela gente.
Cheguei em Porto Alegre no sábado à noite, porque precisei acompanhar a Marina e os amigos em uma partida de golfe e aquilo me tirou do sério, pois acabei perdendo meu voo. Minha mãe estava me esperando no aeroporto e me abraçou muito forte ao me ver. Era bom estar de volta! Era bom estar em casa e era bom poder ficar longe da Marina. Quando estávamos indo para o carro, ela me parou.
— Filho, o Alberto está comigo, então, por favor, seja agradável com ele.
— Quem? — indaguei surpreso.
— Você sabe quem ele é.
Sim, eu sabia que esse era o nome do namorado dela já tinha tocado no nome dele várias vezes, o que eu não sabia era que teria que conhecê-lo e isso me deixou puto. Balancei a cabeça em negação, sem disfarçar meu ciúme. Logicamente era machismo da minha parta, porém, não queria desrespeitar meu pai.
O cara engomadinho estava nos esperando encostado em seu Audi A5 prata.
— Alberto, esse é o meu filho Bruno.
— Como vai Bruno? É um prazer conhecê-lo. — ele falou estendendo a mão para mim — Sua mãe fala muito de você.
Olhei para ele e em seguida olhei para minha mãe que parecia aflita.
— Espero que sim. — respondi com rispidez.
Minha mãe me encarou séria.
— E aí, cara, o prazer é todo meu. — falei mortificado por dentro.
Depois dos apertos de mão, seguimos para nosso apartamento, senti calafrios só de imaginar topar com a Carol. Tomei um banho, vesti meu terno Armani que havia ganhado da Marina e em questão de minutos já estava pronto. Mesmo atrasado, precisei conversar um pouco com o tal do Alberto, que quis saber minha vida inteira em minutos.
Já passava das onze horas, fui até o apartamento da Carol e toquei a campainha, mas não tinha mais ninguém. Aliás, eu nem sabia se ela estava em Porto Alegre. Saí em seguida apressado com o carro da minha mãe indo para a festa do Tiago.
Cheguei à festa e quando a recepcionista estava me levando até a mesa em que meus amigos estariam, eu a vi, de longe, abraçando o Tiago. Ela provavelmente também tinha acabado de chegar. Fui me aproximando e senti minhas pernas amolecerem. Carol estava linda, com um vestido longo preto de mangas longas, com as costas inteira de fora. Cheguei ao lado deles que conversavam animadamente e então ela me viu.
Carol estava diferente, com os cabelos alguns tons mais claros, porém, lindos. Estavam soltos e bem lisos, divididos ao meio.
— Ei, irmão, você veio! — disse Tiago me abraçando fortemente.
— Claro, poxa! Desculpe por não ter vindo ontem, acabou surgindo um imprevisto.
— Que isso Brunão, o importante é que você conseguiu vir hoje!
Gustavo e Felipe vieram em seguida e me cumprimentaram. Virei-me para Carol e senti meu coração acelerar como se fosse sair pela boca.
— Oi, Carol! — eu disse sem mal conseguir respirar.
Ela sorriu e me abraçou, como se não se deixasse abalar por minha presença.
O cheiro dela como sempre me fez levitar. Não entendia como uma garota linda como um anjo, podia ser gostosa como o inferno.
— Oi Bruno, como vai?
Ela se afastou e sorriu pra mim e seu e seu sorriso encheu meu coração de alegria. Como um sorriso era capaz de fazer aquilo com alguém? O sorriso dela conseguia me devolver toda a paz que eu precisava.
— Melhor agora. — respondi embasbacado.
Meus olhos caminharam por todo seu corpo e merda, consegui deixá-la sem jeito, de tanto que a encarei.
— Acho melhor a gente se sentar. — disse ela, apontando nossos lugares.
Carol se sentou entre Tiago e Felipe, e eles conversavam com todo o entrosamento do mundo. Eu observava a cada gesto dela, o modo delicado que ela tinha, a voz gostosa que saía da boca dela, o sorriso maravilhoso e o olhar que tirava todo meu foco.
Ela era linda, sem precisar se esforçar. Só o que eu sabia era que Carol era a mulher da minha vida. E eu não tinha dúvida daquilo! Por mais que eu conhecesse outras mulheres, mulheres lindas como a Marina, nenhuma se comparava a ela. Gustavo conversa comigo e eu mal conseguia me concentrar. Estava no automático, enfeitiçado com a garota que estava logo a minha frente.
A conversa foi se estendendo e algumas doses de uísque mais tarde, todos já estavam rindo. Porém, ainda não tínhamos conversado diretamente. Mais uma vez, existia uma parede entre nós e aquilo estava me matando. Já a Marina, não me dava sôssego e meu celular não parava de tocar, porém, não atendi a nenhuma ligação.
Para minha surpresa, quando os formandos foram chamados para fazer a fila, onde entrariam com seus padrinhos e madrinhas, Tiago disse algo a ela e a pegou pela mão. Os dois saíram rindo e aquilo me fez morrer um pouco por dentro. Era meu amigo, de mãos dadas com a minha garota.
Minutos depois, nós nos levantamos, pois, os formandos iriam entrar para a dança e as fotos. Olhava ao redor e não via a Carol em nenhuma parte. Tiago foi um dos últimos a entrar e apareceu de braços dados com ela.
Meu ar chegou a faltar naquele momento. Ela estava divinamente linda e entrou toda confiante e sorridente. Quando eles passaram por mim, nossos olhares se cruzaram e então ela sorriu.
Depois de longos minutos, Carol dançou com Tiago, deixando-me ainda mais perturbado. Meus olhos não saíam da direção de onde ela estava. Era como se não houvesse mais ninguém ao meu redor.
A cada foto que eles tiravam juntos, via uma sorriso lindo brotar em seus lábios. Ela parecia bem ao lado dele, assim como se sentia confortável com Felipe e Gistavo. Foi então que vi que ao longo dos anos eu e a Carol perdemos toda aquela inocência e cumplicidade que tínhamos. E aquilo fez meu coração doer. Já com os caras, a amizade era a mesma, ou então ainda maior.
— Cara, você pode parar de babar um pouco pela mascote. Tá dando na cara. — brincou Felipe.
— A essa altura, já deve ter molhado a cueca. — emendou Gustavo.
Os dois riram e eu mostrei o dedo do meio pra eles.
— O Tiago não poderia ter feito escolha melhor. Merda, por que não pensei nisso. — ironizou Gustavo.
— Vá se ferrar, idiota.
Ele ergueu o copo e riu.
— Você precisa se decidir, cara. O tempo está passando.
Eu o encarei, agora, ponderando suas palavras. Ele tinha razão. O tempo estava passando.
Ela voltou algum tempo depois, o que pra mim levou uma eternidade.
— Missão cumprida. Tudo bem que quase morri de vergonha.
— Você estava linda.  — deixei escapar.
— Linda? Devo ter ficado vermelha como uma pimenta. Com certeza irei estragar todas as fotos do Tiago. Olha minhas mãos, estão trêmulas e geladas.
Segurei as mãos dela e realmente estavam como pedras de gelo.
— Caramba. Pra quê tanto nervosismo.
— Você me conhece, sabe que eu sou tímida. — disse ela, dando-me uma piscadela.
— Desde quando você é tímida. — Gustavo disse, a provocando.
Ela mostrou o dedo do meio pra ele, porém, continuei segurando uma de suas mãos e ela não mencionou soltá-la.
— Ei vamos, vamos dançar? — indagou Tiago, vindo todo afobado.
— Vamos? — perguntou-me ela dando-me um sorriso lindo.
— Vamos.
Como eu negaria um perdido dela? Seguimos para a pista de dança, ainda com as mãos dadas e dançamos várias e várias músicas.
Até que a nossa música Why Georgia do John Mayer tocou e ela cantou cada palavra e sempre olhando em meus olhos, quando chegou na parte: “Don't believe me, Don't believe me. When I say i've got it down”. Carol a segurou minhas duas mãos e cantou olhando em meus olhos eu quase a agarrei naquele momento, inclinei-me para beijá-la, mas então ela disfarçou e se afastou de mim, soltando minhas mãos, continuando a cantar.
E só então que vi que estava longe de ter superado o que eu sentia por ela, assim como ela também não tinha superado.
Ficamos ali, algum tempo e nosso olhares se cruzavam a todo instante. Dançamos ao som do Coldplay, Pharrell, Maroon5, U2, entre outras. A festa chegou ao fim, sem que eu visse a hora passar.
— Ei, vamos na One? Está tendo outra festa lá. — falou Gustavo.
— Eu topo. — disse Felipe.
— Também estou dentro. —  falou Tiago.
— Vamos mascote? — perguntou Felipe.
— Eu passo, vou para casa. Vão vocês e se divirtam por mim!
— Vamos, Carol, deixa de ser mole. — disse Gustavo.
— É sério, estou cansada!
Gustavo olhou para ela, como se a seduzisse.
— Então eu a levo pra casa. — disse ele, dando uma piscadela pra ela.
Senti meu sangue ferver.
Ela fez uma careta pra ele e lhe acertou a bolsa de mão.
— Então vamos nessa, Bruno. — disse Felipe.
— Não! Eu também vou embora.
— Nem ferrando, cara! Você vai com a gente sim! Não aceito não como resposta.
Carol me olhou, mas não disse nada.
— Vão vocês, eu também preciso ir. Amanhã vou embora bem cedo.
— Deixa de ser velho, Bruno. Vá com seus amigos. — disse ela sem parecer nada convincente.
— É cara, vamos nessa. — emendou Gustavo — Vamos pegar umas gostosas.
— Eu tô dentro. Preciso mesmo de uma boa e velha noite de sexo. — falou Tiago.
Nós rimos.
— Beleza, então vamos! — falei contrariado.
Estávamos todos indo em direção ao estacionamento, acelerei o passo e fiquei ao lado da Carol.
— Você está de carro? Ou sua mãe lhe trouxe?
— Puts, é verdade! Precisamos levar a mascote pra casa. — falou Felipe.
— Estou com o carro da minha mãe. Não se preocupem!
Gustavo estava bem atrás de nós.
— Hmmm, eu não sei. Estou pensando em pegar uma carona com a Carol. Não é sempre que encontro um pedaço de mau caminho como esse.
Cheguei a apertar os nós dos meus dedos, fiquei louco de ciúmes só de ouvir o Gustavo falar daquela maneira.
— Vá se ferrar, Gustavo! — ela disse sem ao menos olhá-lo.
— Mas é verdade. Esse decote das suas costas está me desconcentrando.
Dessa vez ela sorriu, balançando a cabeça em negação. Não sabia se ele fazia aquilo para me provocar (e conseguia) ou porque ainda era louco por ela, o que me deixava ainda mais fodido.
Levamos a Carol até a Toyota SW4 prata da mãe dela.
— Tem certeza que não quer que eu vá com você? — insistiu ele.
Ela balançou a cabeça em negação.
— Absoluta. Boa noite, meninos.
Ele sorriu ficando sem graça e foi em direção a caminhonete dele.
— Divirtam-se rapazes. — disse ela  enquanto abria a porta do carro.
A observei entrar, então ela deu partida e saiu em seguida.
— Vamos nessa? — perguntou Tiago passando o braço em meus ombros.
— Quem vai comigo? — indagou Felipe.
— Vou com o Bruno. — disse Tiago.
— Se quiser ir com ele, não tem problema. — falei, rezando para que ele topasse, assim, poderia ir atrás da Carol.
— Não, eu conheço você! Se eu for com o Felipe, você não vai. — argumentou Tiago abrindo a porta do carro da minha mãe.
Saímos do estacionamento e Felipe foi na frente. Peguei o lado oposto dele, indo em direção ao prédio. Tiago percebeu apenas quando estávamos chegando.
— Ei seu viado! O que veio fazer aqui?
— Cara, eu preciso falar com a Carol.
Tiago balançou a cabeça e sorriu.
Estacionei o Santa Fé da minha mãe em frente ao prédio.
— Cara, só cuidado com o carro.
— Como assim?
— Vai com o carro! Amanhã eu pego a chave.
— Ei, você está louco? E depois, como eu vou pegar alguma gostosa no carro da promotora?
— Você não vai pegar nenhuma gostosa no carro da minha mãe. Pega em outro lugar. Vai lá, confio em você! — falei saindo do carro.
Sim era loucura, mas o Tiago era cuidadoso, e eu precisava falar com a Carol.
O porteiro abriu assim que me viu.
— A Carol chegou?
— Subiu tem uns minutos.
Subi em seguida. Ainda no elevador, peguei meu celular e tinha um milhão de chamadas perdidas da Marina e mais um milhão de mensagens. Não li a nenhuma delas, só o que eu fiz foi desligá-lo. Cheguei em frente ao apartamento dela e estava tudo quieto. A chave ainda estava no vaso de flor que ficava ao lado da porta, o que indicava que ela ainda não havia entrado.
“Sei exatamente onde ela está! ” Pensei indo em direção ao elevador.
Assim que cheguei ao terraço, eu a vi, em pé, com os braços cruzados, como se estivesse protegendo-se do frio e olhando para as estrelas. Fui em silêncio ao lado dela.
— Daria um milhão pelos seus pensamentos!
Carol pulou assim que ouviu minha voz.
— Você quase me matou de susto!
— Desculpa, não quis assustar você.
— Achei que já estivessem na boate.
— Não estava nem um pouco a fim de ir. Deixei eles pensarem que eu fosse, mas chegando aqui na frente, deixei o Tiago ir com o carro da minha mãe.
— Mentira?
— Só espero que ele não faça nenhuma besteira.
Ela fez uma careta de medo e depois sorriu, balançando a cabeça em negação. Ela estava tremendo de frio. Tirei meu terno e a envolvi com ele.
— Você está diferente.
— Como assim diferente?
— Não sei. Suas roupas estão diferentes, seu cabelo. Esse relógio.
Eu ri ficando sem graça. Sim, eram todos presentes da Marina.
 Segurei a mão dela e a levei até o banco branco de madeira.
Carol sentou-se cruzando as pernas.
— Até os sapatos estão diferentes.
— Para com isso, eu não estou diferente!
Ela me encarou
— Claro que está, conheço você como ninguém. Você nunca compraria um terno Armani e muito menos um relógio desses, qual é? Um Bulgari?
Ela em seguida pegou meu pulso para comprovar o que estava dizendo e balançou a cabeça em negação.
— Das duas uma: ou você mudou muito ou está deixando alguém mudá-lo.
Era a segunda opção.
— Não estou mudando, é sério! Ela me deu de aniversário.
— Uau, ela conhece você a quanto tempo? Então no próximo aniversário você vai ganhar o quê? Um apartamento duplex?
Ali estava a garota que me conhecia como ninguém e a única que teve coragem de dizer na minha cara o que os outros não disseram.
— Tem razão, foi exagerado da parte dela, mas confesso que não gostei. Às vezes não me reconheço nessas roupas.
— É, nem eu. — respondeu ela, consternada.
Ficamos em silêncio por um instante, eu não sabia o que dizer, afinal o foco da conversa era a Marina e não era pra ser assim.
— Ela ainda me acha um vadiazinha?
— Não, claro que não! Defendi você até o fim. Nós discutimos muito depois daquilo, e quer saber? Até hoje as coisas não melhoraram.
— Sinto muito, Bruno! Não quis causar problemas.
— Sente nada. — falei ironicamente.
Ela sorriu.
— É sério, sinto muito mesmo.
Eu a desafiei com o olhar e nós rimos.
— Bobo.
Segurei a mão dela que estava congelando.
— Só liguei naquela noite, porque não fazia ideia de tinha encontrado alguém.
Respirei fundo.
— Foi tudo muito rápido.
Ela assentiu em silêncio.
— É tudo tão estranho, porque não sei mais nada sobre a sua vida. Não costumávamos ser assim. Éramos tão ligados que na maioria das vezes eu sabia até o que você estava pensando, mas hoje em dia, tenho muito mais contato com os caras do que com você. E isso é terrível, sabia?
— Vem aqui! — eu disse a abraçando.
— Nós estragamos tudo, não foi?
— Não, claro que não!  Não sabíamos como seriam as coisas. Não tínhamos ideia que seria tão complicado.
— No fundo eu sentia que isso aconteceria. Nenhuma amizade resiste a tantas mágoas, tantos ressentimentos.
— Ei, estamos aqui, não estamos?
— Eu sei, Bruno, mas é diferente. Você não está aqui porque é meu amigo, meu confidente. Estamos aqui por outra razão, da qual a gente sabe que não dará certo. Acho que nós não fomos feitos para ficarmos juntos. É como se houvesse uma nuvem negra, sobre nós dois como casal.  Aliás — ela riu — Nós nunca fomos um casal. Não sei porquê insistimos no contrário.
— Eu amo você Carol. Não importa quanto tempo passe, não importa quem eu conheça, mas quando estou perto de você, fico sem chão.
Carol me encarou, mas depois desviou o olhar.
— Quando eu voltei do Canadá, voltei disposta a... Enfim, dar uma chance pra nós dois. Mas aí veio a Paty e me deu aquele banho de água fria e acabou estragando tudo. Quer dizer, eu acabei estragando tudo. Ela conseguiu o que ela queria.
— Eu odiei você naquela noite. Não tem ideia do quanto fiquei puto por não ter acreditado em mim.
— Eu sei, mas...
— Saí daqui disposto a não olhar pra trás. Precisava virar a página, afinal, passei anos esperando que a gente pudesse se acertar.
— Por isso não atendeu minhas ligações?
— Foi. Eu sabia que se falasse com você, mandaria meu orgulho à merda. Tá, fui um idiota, agora me dei conta disso.
Ela riu com tristeza.
— Desculpa por ter ido embora sem avisar. Fiquei com medo de sofrer tudo outra vez. Desculpa por não ter acreditado em você. Desculpa por ter perdido a chance de tentar acertar as coisas entre nós.
Virei-me, ficando de frente com ela e encostei minha testa na sua. Vi que suas lágrimas começaram a cair e eu a abracei forte.
— Ei, vem aqui! Não quero ver você chorar. Isso já passou. E não tem que pedir desculpas, não foi culpa sua. Não foi culpa de ninguém. Talvez não fosse o momento certo.
Ela me abraçou ainda mais forte. Meu coração batia tão forte, que tive medo que ela pudesse perceber o quanto estava nervoso por tê-la em meus braços.
O cheiro dela estava me deixando louco, já não estava mais respondendo por mim. Então eu me afastei e segurei o rosto dela. Ficamos a milímetros de distância. E nossos lábios se tocaram.
A beijei com todo meu amor e ela retribuiu da melhor forma possível. Quando a puxei pra ainda mais perto de mim, ela parou e me encarou aturdida.
— Não, Bruno. Eu preciso ir.
— Espera, por favor! — supliquei encostando minha testa na testa dela.
Ficamos nos olhando por alguns segundos. Eu não queria que o tempo passasse.
— Promete uma coisa para mim?
— Claro que sim.
— Promete que voltará a ser meu amigo? Seja pelo menos meu amigo. Por favor? Eu sinto tanto sua falta.
— Você sabe que eu quero ser muito mais do que seu amigo, não sabe?
— Mas enquanto esse dia não chega, seja meu amigo! Vamos voltar a ser como éramos antes. Eu — ela sorriu — Eu sinto falta de quando você me ligava até para perguntar uma sugestão sobre o seu jantar ou o que vestir. Você era tão dependente de mim e eu amava isso,  mas tudo acabou, e não quero que seja assim. Não quero que seja o fim da nossa história, já que não podemos ficar juntos, podemos ser amigos. Quero rir das suas graças, das suas mancadas, saber como foi seu dia. ,Até da sua namorada rica, mas sem muitos detalhes dela, por favor!
Nós rimos.
— Não me tire mais da sua vida, Bruno. Isso doeu demais em mim.
— Nunca a tirei da minha vida.
Carol me encarou e seus olhos buscaram meus lábios.
— Quando você cantou aquela música para mim, fiquei sem chão sabia? Você disse que não superou, e saiba que eu também não superei.
Ela assentiu em silêncio.
— Eu nunca superei.
Engoli seco. Minha vontade era beijar aquela garota a noite toda e fazer amor com ela, ali mesmo, como da última vez.
— Eu prometo que a partir de hoje estarei presente todos os dias em sua vida. Mesmo não sendo da maneira da qual eu mais queria. Mas esse dia ainda vai chegar. Tenho certeza. E você ainda terá que me aguentar, morando em São Paulo, perto de você ou com você.
Ela sorriu lindamente.
— Promete?

— Prometo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário