Sob o olhar das Estrelas
Parte 25
Saí de lá e abotoei minha jaqueta a fim de esconder a
frente rasgada do meu vestido. Minhas lágrimas começaram a cair, mesmo tentando
me segurar o máximo possível.
Passei por várias pessoas, sem ter coragem de encará-las.
Vi Felipe conversando com uma garota e parei perto dele, sem encará-lo.
— Carol, essa é a Viviane.
Forcei um sorriso pra ela.
— Felipe, vamos embora.
— Calma, está cedo! O Bruno está falando com um pessoal
da Alemanha, mas ele queria falar com você.
— Eu encontro você o estacionamento. — disse sem dar
tempo a ele de dizer mais nada.
— Mascote, o que foi? — ele disse vindo atrás de mim —
Você estava chorando?
Balancei a cabeça em negação e as lágrimas tornaram a
cair.
— O que aconteceu?
— Te conto no caminho. Nós dois fomos expulsos da casa
dessa maluca.
— O quê? Como assim?
— Vamos sair daqui, por favor!
Em poucos minutos eu e Felipe estávamos indo embora. Contei
cada detalhe do que a Marina me fez. Ele ficou tão chocado quanto eu estava.
Devo ter chorado o caminho inteiro de volta, de tanto nervoso que estava reprimido.
Fiquei sem conversar com o Bruno no domingo e na
segunda-feira o dia todo. Na terça-feira, para minha surpresa, César entrou em
minha sala, para dar um alô aos seus ex-alunos. Fiquei desconcertada ao vê-lo.
Estava claro que ele havia passado de lá para me ver ou me impressionar, mas
fiquei na minha e apenas dei-lhe um sorriso tímido. Naquela terça-feira, tive
aula à tarde toda e quando saí, passei do supermercado para pegar umas coisas,
já que minha dispensa estava vazia.
Conforme aproximei meu carro da entrado do prédio, vi
Bruno encostado no carro dele.
Ele estava lindo, usando uma calça cargo e camiseta preta
e boné virado para trás. Não o via daquela forma, desde que ele era um garoto. Aquele
era o estilo do Bruno, não todo mauricinho como ele estava na festa.
Entrei com o carro no estacionamento comum o prédio e ele
veio ao meu encontro. Desci do carro, peguei minhas compras e fui até ele.
— Oi!
— E aí sumida?
Forcei um sorriso.
— Tive exame na faculdade, por isso não retornei suas
ligações.
— Achei que tivesse acontecido alguma coisa.
— Não. Não aconteceu nada. — menti.
Bruno me ajudou com as sacolas, mas estávamos meio sem
assunto. Entramos em meu apartamento e fui até a cozinha colocar as compras
sobre o balcão. Ele chegou em seguida e quando virei, quase nos trombamos.
Disfarcei e virei-me novamente para pegar um copo de
água. Fui pra sala e me joguei na poltrona. Bruno sentou-se no outro sofá me
encarando.
— Está tudo bem?
— Aham.
— Por que você saiu da festa sem se despedir?
— Ah, eu estava cansada e com dor de cabeça. — menti
outra vez.
Bruno apenas concordou com a cabeça.
— Você podia ao menos ter se despedido de mim.
— Eu procurei por você, mas você estava ocupado com seus
amigos internacionais. — desdenhei.
“ Droga, conto ou não conto? ”
— Falando nisso, tenho uma novidade! — ele disse
animadamente. — Consegui um emprego! Quer dizer, quase. Na realidade preciso
terminar a faculdade. O emprego é na Alemanha, mas tudo depende de uma prova
que farei, para saber se serei aceito ou não. Se conseguir me sair bem, ficarei
no mínimo seis meses em Berlim, depois posso me transferir para a filial de São
Paulo.
Olhei para ele e vi a felicidade estampada em seu rosto.
E vi que não tinha o direito de estragar aquele momento.
— Caramba, que legal! Meus parabéns! — falei sem muito
entusiasmo.
— É, de certa forma devo isso a Marina. Ela me apresentou
o dono da empresa, ele estava na festa.
Assenti em silêncio. Talvez a Marina tivesse razão. Todas
as portas se abririam pra ele, se ela estivesse por perto, já eu, não tinha
nada a oferecer a ele.
— Sim, mas você também tem seus méritos. Você sabe que é
bom no que faz.
— Eu sei, mas não negar que a influência dela me ajudou.
Jamais teria a chance de conversar diretamente com o dono da empresa, se não
fosse através dela.
— Tem razão. Sorte sua tê-la por perto. — falei ao me
levantar, para ir até a cozinha levar meu copo de água, tentando recuperar meus
sentidos após aquele golpe.
Estava trêmula de ódio por causa daquela desequilibrada.
Voltei para a sala disfarçando o máximo que eu podia.
— Carol, sei que a Marina tem os defeitos dela, e nós tivemos
nossas diferenças, mas parece que ela está mudando.
— Ela tem se esforçado pra que as coisas melhorem entre
nós e parece que tem dado certo. Tanto que ela fez questão da presença de vocês
na festa dela. Isso me deixou muito feliz.
Concordei em
silêncio. Não tinha palavras para
descrever minha indignação.
— Que bom, Bruno. Espero mesmo que tudo fique bem entre
vocês.
— É, eu também.
Ele ficou em silêncio e me encarou por um tempo.
— Mas e você? A Marina me disse que... — ele fez uma
pausa.
Olhei sem entender.
— Bom, ela me disse que viu você e o tal professor
juntos.
Meu queixo caiu.
— Juntos! Sim! Você também viu. Ele conversou comigo boa
parte da festa.
— Não dessa forma. — disse ele parecendo chateado — Vocês
estavam se beijando.
Arregalei meus olhos, cética.
— Como é que é? Ela disse isso?
— Disse. Por quê? Não era pra eu saber?
Eu ri, mas foi de indignação.
— Por que eu esconderia isso de você? Nós não temos nada,
esqueceu? É com ela que você namora, não comigo.
— Por que está agindo assim? Você não o beijou?
— Olha Bruno, ela é a sua namorada, não é? É nela que
você precisa acreditar, não em mim. — falei ainda mais irritada. — E mesmo que
eu tenha ficado com o César, não devo explicações nem a ela, nem a você e nem a
ninguém.
— Sim, eu sei. Caramba! Não sabia que ia ficar tão
irritada. Achei que fossemos amigos.
— Pois é, eu também achei que fosse meu amigo. Mas acho
que me enganei.
Quando fui me levantar outra vez, ele se colocou de pé e
segurou meu braço.
— Por que acha que não sou seu amigo? Tenho demonstrado
isso o tempo todo, não tenho? Se perguntei daquele babaca porque me preocupo
com você, caso contrário, não daria a mínima se está indo ou não pra cama com
ele.
Senti como uma apunhalada em meu peito. Eu o empurrei e
saí em direção da cozinha.
— Quer saber? Vá se ferrar você e sua preocupação. Eu vou
pra cama com quem eu quero. Você não tem absolutamente nada a ver com isso.
— Tá certo. Já entendi. É por isso que tem fugido de mim,
por que está saindo com aquele imbecil. Deve estar ficando ocupada demais com
ele.
Comecei a rir.
— Ah, você é hilário quando quer. Agora me fala, porque
se importa tanto se eu estou saindo ou não com o César? Você namora, esqueceu?
Não sou propriedade sua.
— Porra, Carol, só estou aqui porque me importo com você.
Não achei que fosse cair na conversa dele.
— Como assim? O que ele tem de errado?
Ele riu com sarcasmo.
— O que ele tem de errado? Ele é muito mais velho do que
você. Isso já é um motivo.
— Muito mais velho? O César deve ser no máximo uns oito
anos a mais do que eu. Não acho que isso seja uma diferença gritante. Além
disso, muito me espanta você falando de diferença de idade. Até onde eu sei a
maluca da sua namorada também é mais velha.
— Mas é diferente, porra.
— Por que diferente?
— Eu conheço esse tipo de cara. E você vai quebrar a
cara, pode apostar.
— Nossa, Bruno, agora fiquei curiosa. Diga-me, o que tem
de tão errado no César?
— Caras como ele, fazem de tudo pra levar as alunas pra
cama e depois ficam contando vantagem. É isso. Eu tenho professores assim, e
eles contam pra gente o que faz com as garotas. Você quer isso pra você? Quer
que a faculdade toda fale de você? Fale que está trepando com seu professor?
Quer que te chamem de vadia pelas costas?
Engoli seco e quando vi, minha mão estava espalmando o
rosto dele.
— Seu desgraçado! É isso que você acha que eu sou?
Bruno colocou a mão no rosto e deu um passo para trás. Eu
nunca tinha feito aquilo antes e confesso que me senti de alma lavada.
— Saí daqui, Bruno!
— Não, não vou sair. Não assim. Depois de toda essa merda
que aconteceu aqui.
Engoli seco.
— Eu não devo explicações da minha vida pra você. Não
tenho que sair lhe informando sobre com quem eu saio ou não. No entanto, saiba
que eu não fiquei com o César. Não dei um beijo sequer nele. Nós conversamos e
foi ótimo ter passado um tempo com ele, afinal, você mal ficou comigo e com o
Felipe, porém, não passou disso. Mas quer saber? Minha resposta será sim quando
ele me convidar pra sair, porque ele me parece ser um cara muito legal, além de
inteligente e um tremendo gato. E pouco me importa o que as pessoas dirão em
relação a isso. Não ligo para que os outros pensem, o que importa é que eu sei
que não sou uma vadia. E o que mais me entristece é que eu achei que você
também soubesse.
— Droga, Carol, você entendeu errado. Nunca achei isso de
você. Eu sei quem você é. Não quis ofendê-la, desculpa-me, por favor!
Ele deu um passo em minha direção e eu permaneci
congelada.
— A Marina deve ter dito isso pra me provocar. Merda, e
eu estava tão puto por ver vocês dois junto que acabei acreditando.
— Ela inventou isso, Bruno. Mas isso não importa. O que
importa é que veio até aqui pra me cobrar uma coisa da qual você não tem o
direito. Nunca cobrei nada de você em relação às suas namoradas. Nunca julguei
nenhuma delas, pelo contrário, ouvi você reclamar da Marina por meses, mas
nunca disse nada sobre ela.
— Droga, eu fiz merda, eu sei. Me desculpa, por favor!
Bruno me encarou com os olhos suplicantes. Ele deu outro
passo à frente e me abraçou forte.
— Não quero ficar mal com você. Ficaria maluco se isso
acontecesse outra vez.
Eu também o abracei. Estar nos braços dele era como estar
em casa outra vez.
— Droga, eu também não quero isso. Acontece que você me
tirou do sério.
— Eu sei, me desculpa. Você tem razão. Não tenho que...
Enfim, só quero eu saiba que eu me importo muito com você.
Bruno segurou meu rosto entre suas mãos. Estávamos tão
próximo que nossos lábios estavam quase se tocando. Nossas respirações se
misturavam. Fechei meus olhos e me afastei, antes de trair a mim mesma.
— Desculpa-me também. Acabei sendo grossa com você.
Ele sorriu e passou a mão em seu cabelo.
—Fiquei preocupado por não atender às minhas ligações.
Passou um filme em minha cabeça, foi por isso que eu vim. Tinha que ter certeza
de que as coisas estavam bem entre nós, ainda mais agora que ficarei uns dias
fora.
— Como assim? Achei que fossemos pra Porto Alegre nas
férias.
Ele respirou consternado.
— Não vai dar. Eu vou pra França com a Marina.
Outro golpe.
— Ah, claro. Com a Marina. Esqueci que agora não faço
parte da sua classe social.
Ele me encarou sem entender.
— Qual é? Não é nada disso. Serão apenas alguns dias.
— Claro, Bruno. Vai ser incrível, tenho certeza.
Disfarcei minha frustração e forcei um sorriso a ele.
— E quando você vai?
— Na quinta-feira.
— Mas as aulas ainda nem terminaram.
— Minhas notas estão boas e não tenho problemas com
faltas, então consegui sair uns dias antes.
Apenas concordei sem dizer nada.
Sentia como se eu tivesse perdendo o Bruno de vez para
— Vou preparar alguma para gente comer, está com fome? — falei
sufocando minha tristeza.
Bruno se juntou a mim na cozinha e como mágica começamos
a nos entender novamente. Fizemos uma massa e enquanto Bruno finalizava fui
tomar um banho.
Deixei a água cair, pensando se diria a ele ou não. Mas o
fato era que Bruno sabia bem quem era a namorada dele e ele tinha que terminar
com a Marina por iniciativa dele, não por influência minha.
Coloquei um short branco, uma camisa jeans, chinelos e me
juntei a ele. Jantamos, tomamos vinho e conversamos por algum tempo, mas Bruno
precisava ir embora. Quando nós fomos nos despedir eu o abracei mais do que
deveria.
— Ei não fica assim! Nós nos falaremos todos os dias. — Bruno
disse também chateado.
Aquele não era o motivo da minha tristeza. O motivo era que
eu sabia que as coisas estavam mudando entre nós. Sentia como se eu o tivesse
perdendo de vez.
— Sim, eu sei! É que sentirei sua falta.
Bruno me encarou e minhas lágrimas começaram a escorrer.
— Ah, não! Não faz isso comigo. — ele disse me abraçando.
E nesse momento eu simplesmente desabei. Bruno me
abraçava ainda mais, e eu sentia seu rosto mergulhado em meus cabelos.
Depois de alguns tempos consegui encará-lo e ele enxugou
minhas lágrimas.
— Eu amo você, linda. Não fique assim.
Sorri entristecida e beijei seu rosto.
— Boa viagem! A gente se vê em breve.
Ele concordou angustiado, selou meus lábios demoradamente
e saiu em seguida.
Nossa relação estava acabando e o Bruno nem estava se
dando conta disso. Liguei para o Felipe que foi logo em seguida e me aguentou
chorando horas e horas .
Bruno me ligou no dia seguinte e no outro, antes de
embarcar. Eu ainda estava destruída. Naquela quinta-feira à noite, saí com
Felipe e decidi encher a cara.
Na semana seguinte, numa terça-feira, César me parou
quando estava saindo da minha sala. Conversamos por um instante, mas eu estava
atrasada para a minha próxima aula. Horas depois meu celular vibrou, era um
número desconhecido.
Hoje é meu dia de sorte. Primeiro falei com a garota mais linda da
universidade, depois consegui o telefone dela.
Ri descrente.
Como conseguiu meu número?
Digamos que tenho meus contatos no Rh.
Meu coração estava acelerado.
Achei que o Rh dessa faculdade fosse mais discreto.
Segundos depois ele respondeu.
Rá, você me pagou. Precisei subornar uma de suas amigas. Espero que não
fique brava.
Comecei a rir sozinha e continuei a falar com ele.
Passamos a semana toda trocando mensagens e no final de semana
ele me convidou para sair.
César me levou para jantar em um restaurante lindíssimo e
tradicional de São Paulo, onde passamos horas conversando. Era incrível como
tínhamos gostos em comum, como música, filmes, comidas, livros, entre outras
coisas.
Quando ele me deixou em frente ao meu prédio, ele me
surpreendeu com um beijo. Tinha que admitir, o beijo dele era incrível. Cheguei
a ficar sem ar.
E foi assim no dia seguinte e no outro, no outro... Até que dias após estarmos saindo, ele me
levou ao apartamento dele e... Enfim acabou acontecendo. E confesso que ele era
tudo o que eu precisava naquele momento da minha vida.
Eu e Bruno nos falávamos quase todos os dias, porém, somente
por mensagens, pois com certeza, a desequilibrada não estava desgrudando dele
na viagem.
Fui para Porto Alegre em minha segunda semana de férias.
Foi então que Bruno me ligou e parecia bem chateado com alguma coisa. Perguntei
o que era, mas ele não falou. Aproveitei a ligação e contei a ele sobre o
César. O que o deixou completamente sem reação.
Mesmo estando em Porto Alegre, falava com César todos os
dias, e no primeiro final de semana em que eu estava lá, ele me ligou dizendo
que estava na cidade para me ver. Fiquei radiante e surpresa ao mesmo tempo.
Passei meu endereço e logo depois ele passou para me buscar.
Ficamos juntos o final de semana todo, onde ele me pediu
em namoro e eu aceitei sem hesitar. No domingo à noite, ele fez questão de
convidar minha mãe e o namorado para sair com a gente. Era estranho tanta
proximidade em tão pouco tempo, mas eu estava feliz e minha mãe...Bom...
Digamos que ela se encantou por ele.
César foi embora na segunda pela manhã, já eu, fiquei. Saí
duas ou três noites com Tiago e Gustavo. Chegamos a ver a Paty, ela foi falar
comigo, onde chorou muito ao me pedir desculpa por ter mentido para mim. Acabei
relevando, não queria ter inimizade com ela, afinal, tínhamos sido grandes
amigas e a verdade é que todo mundo está sujeita a cometer erros. No entanto,
nada mais seria como antes.
No domingo cheguei em São Paulo por volta das nove horas
da noite. César, que me ligava diariamente, fez-me prometer que ligaria para
ele ir me buscar assim que eu desembarcasse, mas fiquei encabulada e acabei
ligando para o Felipe.
Foi o tempo de pegar minha mala e ir esperar o Felipe no
estacionamento, que vi o carro dele se aproximar. Quando o carro parou, não
pude acreditar, era o Bruno quem estava dirigindo.
Meu coração quase saiu pela boca. Fiquei desconcertada
quando nossos olhares se cruzaram. Nesse momento, não sentia mais minhas
pernas. Bruno saiu do carro em seguida e correu me abraçar.
Sentir o cheiro da pele dele tão próxima a minha, fez com
que eu não pensasse mais em nada.
— Eu não acredito que você está aqui! — disse
abraçando-o.
Bruno me abraçou ainda mais forte.
— Senti sua falta! Senti muito sua falta!
Eu o abracei de novo e de novo. Não queria mais largá-lo.
— O que houve? Você não ia ficar o mês todo fora?
— Tenho uma coisa para te contar. Mas agora vamos sair do
meio da rua.
Entrei descrente no carro de Felipe, e então meu celular
tocou, era o César. Falei com ele rapidamente, Bruno dirigia o carro, sem
deixar de prestar atenção em minha conversa.
Quando Bruno viu que me despedi do César mandando um
beijo, ele me encarou, mas não disse nada. Desliguei o celular, suspirando
fundo.
—Você me disse que tinha saído algumas vezes com esse
cara, mas não sabia que estavam tão próximos.
— Nós estamos namorando. Ele foi pra Porto Alegre no fim
de semana e me pediu em namoro.
Bruno não me olhou nesse momento. Era como se ele tivesse
digerindo minhas palavras.
Ele balançou a cabeça em negação, soltando um riso
triste.
— Tá falando sério?
— Bom, foi tudo rápido demais. Mas na verdade, ele
apareceu em um momento que eu mais estava precisando e tem sido muito bom estar
com ele.
Bruno ficou em silêncio, completamente sem reação.
— Mas me fala, porque voltaram tão cedo? A viagem foi
boa? Quando chegaram?
— E o destino sempre nos passando a perna!
Olhei sem entender.
— Voltei da França sozinho. Terminei com a Marina.
Eu o encarei cética.
— Você... Você... Não. Isso só pode ser brincadeira.
Balancei a cabeça em negação.
— Não é brincadeira, Carol. Eu a deixei na França e vim
embora. Tá tudo acabado entre nós.
— Você esperou até que eu encontrasse um cara legal e só
então terminou com a Marina?
— Como eu ia imaginar que você... Droga, Carol, achei que
dessa vez...
— Quer saber Bruno? Você não tem esse direito de
simplesmente chegar e bagunçar meus sentimentos desse jeito.
Ele me olhou consternado. Minhas lágrimas começaram a
cair no mesmo instante e então ele parou o carro do Felipe no acostamento e
virou-se para mim.
— Carol, eu não estava mais aguentando essa situação!
Estava sendo uma tortura para mim ficar perto de você e tão longe ao mesmo
tempo. Eu... Eu só pensava em beijá-la e não podia. Isso estava acabando
comigo.
— Você não faz ideia do quanto chorei por você, do quanto
sofri vendo você falar dela, estar com ela. E quando enfim resolvo viver minha
vida, você chega e simplesmente diz que terminou seu namoro! Bastou eu dizer
que estava saindo com alguém pra você terminar com ela e voltar correndo pra
mim?
Bruno estava tão nervoso quanto eu.
— Será o destino o culpado? Ou você que não percebeu que
eu estava ao seu lado só esperando você tomar uma decisão e ficar comigo.
Nós... Nós estivemos tão perto, por várias vezes, mas ainda assim você persistiu
nesse namoro que estava na cara que não ia dar certo nunca.
— Acontece que todas as vezes que eu reclamava, esperava
que no fundo, você desse um sinal para mim, para que eu pudesse tomar a decisão
certa. Entretanto, você sempre na defensiva, sempre na sua. Tive medo de no
fundo você não querer nada comigo.
Eu ri, balançando a cabeça em negação.
— Não acredito nisso!
— Eu também não acredito. Não imaginei que as coisas
entre você e aquele cara estivessem nesse ponto.
Ficamos parados por minutos, sem dizermos uma só palavra.
— Vamos sair daqui! — disse ele, dando partida no carro
algum tempo depois.
Bruno dirigiu sem dizer uma palavra, assim como eu, que
estava perdida em meus pensamentos.
Ele foi direto para o apartamento de Felipe, sem ao menos
me perguntar onde eu ficaria; ajudou-me com a minha mala e seguimos para o
vigésimo quinto andar, onde o Felipe morava.
— Odeio você! — disse encarando-o.
Ele me abraçou fortemente e beijou o topo da cabeça. E
ficamos assim até o andar de Felipe.
— E eu te amo. — sussurrou ele, fazendo minhas pernas
bambearem.
Assim que chegamos, Felipe nos recepcionou todo em
sorrisos.
— Enfim, os protagonistas da minha novela favorita
chegaram.
Bufei, mas não disse nada. Bruno colocou minhas coisas no
canto da sala e sentou-se. Fui até a geladeira e me servi de um copo de água. E
em seguida me sentei em uma poltrona, ficando de frente para Bruno. Felipe se
jogou no sofá ao meu lado, ficando entre nós dois.
— Estou ansioso. Finalmente se entenderam?
Bruno fez que não.
— A Carol está namorando.
Felipe me encarou incrédulo.
— Não, porra, eu ouvi direito?
— Eu e o César... Enfim...
Voltei-me para o Bruno.
— Mas e então, o que aconteceu entre vocês? — indaguei.
— Bom, tudo começou com uma discussão por sua causa.
Felipe me olhou e riu alto.
Olhamos sérios para Felipe e ele imediatamente se
redimiu.
— Caralho! Escapou. — disse ele sem graça.
— É, ela me viu ligando para você e simplesmente destruiu
meu celular. Foi uma briga horrível. Então a coisa começou a desandar. Mas
antes disso, nós chegamos a ter outras discussões durante a viagem, o mais
engraçado era que nossas brigas estavam se tornando tão corriqueiras que eu nem
estranhava mais.
Felipe me encarou, arqueando as sobrancelhas.
— Então, durante um jantar na última quarta-feira, a
Marina começou a fazer planos para nós, para mim na verdade, ela queria que eu
fosse morar com ela depois que eu voltasse da Alemanha.
Bruno deitou a cabeça no sofá, encarando o teto.
— E então disse que não! Disse que tinha outros planos
para quando voltasse da Alemanha. Que viria morar em São Paulo, que era aqui
que eu queria começar minha vida, perto dos meus amigos, e que não estava
pensando em casamento.
Nesse momento Bruno me encarou.
— Ela ficou descontrolada, chegou a jogar uma taça com
champanhe em mim. Não disse uma única palavra. Levantei-me pra ir embora e então
ela foi até mim e me puxou. Queria que eu brigasse com ela a todo custo, sei lá,
mas estava tão farto daquilo tudo e apenas a ignorei, e com isso ela ficou
ainda mais descontrolada, até minha camisa ela rasgou. Segundos depois, ela viu
o que tinha feito, começou a chorar, a me pedir perdão, como todas as outras
vezes. E eu simplesmente a deixei falando sozinha e fui arrumar minhas coisas.
— Cara, que mulher maluca, ela gosta de um barraco, hein?
De bater, puxar cabelo, rasgar vestidos, camisas. Essa mulher precisa ser
interditada.
Olhei para Felipe recriminando-o com o olhar.
— Como assim vestidos?
— Carol, acho que está na hora de abrir o jogo. O Bruno já
tomou a decisão dele.
Bruno me encarou sem entender.
— Por que abrir o jogo?
Olhei impassível em direção a Felipe.
— É que...No dia daquela festa, eu estava conversando com
o César e a Marina foi me chamar, disse que queria falar comigo. Ela me levou para
o escritório e começou a me questionar sobre eu e você, sobre nossa relação. Eu
disse que éramos apenas amigos, mas ela não acreditava. Então ela começou a
falar da sua tatuagem, do quão ridícula e deprimente era. Enfim, disse várias e
várias coisas. Aí ela puxou meu braço querendo saber se eu também tinha feito
uma, e quando ela viu... Bom, já dá para imaginar a cena que ela fez.
— Ah, cara você não faz ideia. Ela encheu a mascote de
porrada. Quase arrancou os cabelos dela, bateu na cara e ainda a xingou de um
monte de coisas que não valem a pena repetir. Ela é maluca, cara. Como você não
viu isso antes?
Senti meu rosto queimar de vergonha.
— Como é que é? A Marina fez isso?
— Fez, cara, e ainda rasgou o vestido da mascote. O
vestido caro dela.
— Que horas foi isso? Eu estava aonde? E por que não me
disse?
— Você estava falando com os alemães. Eu... Eu pensei em
dizer a você, mas... Ela me ameaçou, Bruno. Disse que se largasse dela por
causa disso, ela acabaria com a sua carreira.
— Não, Carol, você tinha que ter me dito. Eu... Droga, eu
nem sei o que eu teria feito — disse ele, vindo até mim — Eu sabia que ele é
uma descontrolada, mas não achei que fosse descer tanto. Que merda! Como eu não
me dei conta? Foi por isso que saiu daquela forma. Claro, eu deveria ter
deduzido que tivesse acontecido alguma coisa.
— Eu fiquei sem saber como agir, Bruno. Foi
por isso que eu saí sem me despedir. Ela me expulsou da festa. Disse que eu não
era bem-vinda, e que não fazia parte do nível social dos outros convidados. Foi
terrível. Só o que eu pensei, foi em sair de lá o quanto antes.
Nesse momento eu olhei para a cara do Felipe que não
disfarçou sua chateação.
— Ela é uma vadia desequilibrada.
— Eu não posso acreditar nisso! Ela ainda me fez
acreditar que você estava aos beijos com aquele cara, merda, seu namorado,
agora. Fiquei cego quando eu soube. Ela armou tudo. Tentou me jogar contra você
e com isso, eu mesmo a joguei nos braços daquela cara. Droga. Fiz tudo errado.
— Bruno, o César não tem nada a ver com essa história.
— Eu sei, Carol, mas se eu tivesse sacado antes, eu não
teria vindo discutir com você, não teria ido pra França e agora nós
estaríamos... Enfim, as coisas poderiam estar dando certo pra gente.
Engoli seco. Bruno me encarou consternado.
— Eu sinto muito. Não deveria tê-la colocado nessa
situação. Não deveria ter permitido que você fosse até a casa daquela maluca. A
culpa é minha, ela a machucou por minha culpa.
— Não foi culpa sua. Acontece que a Marina é desequilibrada.
Ninguém tem culpa da loucura dela.
Bruno sentou-se ao meu lado.
— Tenho que admitir, sua namorada, quer dizer,
ex-namorada é forte e intimidadora. Acho que tem cabelos da Carol até hoje no
carpete em meu carro.
Peguei uma almofada e a acertei em Felipe.
Ele riu.
— Não Brunão, é sério! A mascote voltou para casa como se
tivesse sido batida no liquidificador. Cara, fiquei irado. Minha vontade era de
voltar a casa dela e arrancar os silicones daquela puta no tapa. Aquela mulher
não é normal.
— Você tinha que ter me contado. — disse Bruno quase em
sussurro.
Encarei Bruno sem reação.
— Eu vou descer para comer alguma coisa. Vocês têm muito
para conversar. — disse Felipe saindo em
seguida.
Bruno me encarou e esperei Felipe sair.
— Pensei em contar para você, entretanto, dois dias
depois da festa você me procurou totalmente eufórico com sua proposta de
emprego, dizendo que devia tudo a Marina. Então eu me bloqueei. Fiquei sem
saber o que fazer, mas achei melhor não lhe contar, afinal, você mesmo disse
que as coisas estavam começando a dar certo entre vocês. E não seria eu a
estragar o que vocês tinham. Decidi que era melhor você descobrir quem era a
Marina de fato com seus próprios olhos.
— Eu sou um idiota! Um grande idiota! Como eu não percebi?
Sabia que você estava diferente, vi o modo como ficou quando disse sobre o tal
professor. Eu... eu caí direitinho.
— Pois é, e você acreditou nela.
Bruno balançou a cabeça em negação.
— Carol, me perdoa! Por favor. — disse ele, me abraçando
forte.
Meu coração estava despedaçado.
— Ela não podia ter feito isso com você. Eu não podia ter
feito isso com você. Mais uma vez eu fiz tudo errado.
Seu abraço era intenso, entretanto, ele se afastou e
segurou meu rosto entre suas mãos.
— Você é a garota certa pra mim. Disso nunca tive dúvida.
Eu amo você e vou viver minha vida inteira me apaixonando cada vez mais por
você.
Engoli seco. Minha respiração estava entrecortada.
— Mas agora eu a perdi outra vez, não foi?
Tudo parecia estar fora de órbita. Minha vista estava
turva. Meu coração todo bagunçado.
— Bruno... Eu... — minhas lágrimas começaram a escorrer —
Eu não sei o que dizer. Tudo parecia em ordem até então e agora... Eu... Eu...
Não sei o que fazer.
Bruno enxugou minhas lágrimas em vão.
— Só o que eu sei é que você nunca me perdeu.
Independente do que aconteça, nós somos amigos. Isso nunca vai mudar.
Ele assentiu magoado.
— Isso significa que você não vai...
Quando abri a boca para responder, meu celular tocou. Era
o César. Troquei uma ou duas palavras com ele, que estava em frente ao meu
apartamento.
— Bruno, eu tenho que ir.
Ele balançou a cabeça em silêncio e quando estávamos
saindo, virou-se para mim.
— Não vou desistir de você, pode apostar.

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