quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 12, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas

Parte 12

Coloquei uma boxer, calça jeans e uma camiseta limpa. Quando vi Carol já estava totalmente vestida. Sua expressão era uma mistura de assustada com chateada.
— Carol, sinto muito. Era pra esse momento ser totalmente diferente, mas eu preciso ir até lá.
— Claro que sim. Não se preocupe, Bruno!
— Você vai ficar bem? — falei segurando-a pela cintura.
Ela me encarou e depois de longos segundos soltou um sorriso sem graça.
— Não se preocupe, estou bem! Vá ver sua namorada.
— Eu ligo para você assim que tiver notícias.
Ela apenas balançou a cabeça. Inclinei-me para beijá-la, mas ela manteve seus lábios cerrados. Abrindo-os com relutância.
— Não fica chateada comigo, por favor? — supliquei — Eu só preciso ir até lá e ver como ela está.
Ela soltou um sorriso triste e concordou, sem dizer uma única palavra. Saímos instantes depois, Carol parou no apartamento dela e eu fui em direção ao elevador. No caminho até o hospital, tentei organizar meus pensamentos. Mas por Deus do céu, estava muito confuso, sem saber o que fazer.
“Tudo minha culpa, tudo minha culpa. A Melissa queria falar comigo e eu a ignorei por várias vezes. E se algo mais grave tivesse acontecido a ela? Nunca mais me perdoaria. ”
Cerca de meia hora depois estava entrando no hospital. Após alguns minutos, andando a procura do quarto que me passaram, achei um posto de atendimento e me encaminharam corretamente até o andar que a Mel estava. Abri a porta com cuidado e a vi, deitada, com um curativo enorme na região do supercílio. Ela estava dormindo. Entrei em silêncio e vi sua boca inchada por causa da pancada; seu braço esquerdo imobilizado, várias escoriações em sua mão direita e ao longo do braço.
Fiquei atemorizado ao vê-la naquela situação.
— Bom dia! — disse uma moça alta, toda de branco entrando no quarto.
— Você é o...
— Sou o Bruno, sou o... — as palavras me faltaram naquele momento.
— Ah, sim, é o namorado da Melissa. Fui eu quem falei com você, há alguns minutos.
— E como ela está?
— Ela quebrou o braço direito, o pulso esquerdo, a clavícula e bateu a cabeça com muita força, tanto que a região do supercílio estava aberta.  Mas fizemos diversos exames e verificamos que está tudo bem. Ela ficou desacordava por horas e só veio acordar hoje pela manhã. Estava bem consciente, tanto que pediu que eu ligasse para você. Claro, ela precisará ficar em observação por alguns dias, devido a pancada. Mas está fora de perigo. Só peço que entre em contato com a família dela, pois eles precisam ser informados do acidente. Existem alguns documentos que precisam ser preenchidos, pois fazem parte da burocracia do hospital. Além de outros documentos que envolvem todo o acidente.
— Sim, claro! Entrarei em contato com os pais dela agora mesmo.
— Eu lhe agradeço. E daqui a pouco o Dr. Dante passará daqui para visitá-la e você poderá conversar com ele e tirar qualquer dúvida.
Concordei e ela saiu em seguida. Estava inconformado encarando a Melissa naquela situação. Passei minha mão levemente sobre a mão dela e mesmo assim ela não acordou. Parecia estar em um sono profundo.
Só consegui falar com a mãe dela quase uma hora depois. Ela ficou desesperada. Desligou o telefone dizendo que pegaria um voo direto para Porto Alegre.
Liguei para minha mãe que ficou de ir me encontrar mais tarde no hospital e em seguida liguei para a Carol. Mas ela não atendeu o celular nem o telefone fixo.
Depois de algumas horas minha mãe foi me encontrar. Também parecia assustada com o que havia acontecido, ela ficou comigo por algum tempo e então eu pedi para que ela fosse para casa, pois a Melissa ainda estava dormindo e minha mãe parecia exausta.
Olhava para Melissa e me sentia péssimo por tê-la ignorado nos últimos dias, entretanto, sentia-me devastado por ter deixado a Carol sozinha daquela maneira, ainda mais depois da noite linda que tivemos. Nunca mais me esqueceria daquela noite. Estar com ela fora sem dúvida alguma a melhor coisa que já havia me acontecido e eu sabia que precisava dizer aquilo a ela.
Por outro lado, pensava no que a Melissa estava passando enquanto eu estava com a Carol. Ela poderia ter morrido naquele acidente, ainda mais depois que fiquei sabendo que o carro dela deu perca total ao ter se chocado com outro carro. O policial disse que foi por muita sorte que o tal acidente não teve vítimas.
A mãe de Melissa chegou por volta das quatro horas da tarde. Ficou em choque ao ver a filha naquela situação. Depois que ela se acalmou começamos a conversar e ela me disse que a Mel tinha saído de casa brigada com ela, pois descobriu que os pais estavam se separando.
Luíza, a mãe da Melissa, saiu para acertar toda a papelada do hospital e do seguro do carro. Eu estava sentado na poltrona olhando para meu celular, pensando no que diria a Carol, quando ouvi uma voz fraca.
— Ora, ora, só assim para conseguir falar com você!
Fui até ela e segurei sua mão.
— Ei, que bom que você acordou. Estava preocupado com você. Você quase me matou de susto.
Ela sorriu com dificuldade.
— Eu quase morri! — Queria fazer uma surpresa para você, mas não queria que fosse dessa maneira, desculpe-me se te preocupei.
— Não diga isso! Você não tem que se desculpar de nada.
Ela me encarou com os olhos marejados.
— E minha mãe? Ela já sabe?
— Sim, ela está aqui. Só foi preencher as documentações do hospital, mas logo estará de volta.
Melissa apertou minha mão.
— Bruno, fiquei arrasada quando soube da separação deles. Ainda não consigo me conformar com isso. Por isso resolvi vir para cá. Só pensei em ficar com você e ficar longe de todas aquelas brigas.
— Mel, eu... Eu nem sei o que te dizer.
— Promete que vai ficar aqui comigo?
Minha vista ficou turva. A única coisa que me passou pela cabeça foi a Carol. Eu não podia abandoná-la, não depois do que tinha acontecido entre nós dois. Definitivamente era com ela que eu queria ficar, por outro lado, tinha a Melissa que estava naquela situação por minha causa e toda vez que olhava pra ela, a culpa me consumia. Sendo assim, a situação me forçava a seguir outro caminho. Não podia agir como um idiota com ela, não com ela toda machucada daquela forma.
— Não irei sair daqui, eu prometo.
Luíza chegou e correu abraçar a filha. Elas choraram muito e eu fiquei ao lado assistindo tudo aquilo, ainda sem saber o que pensar.
Já havia anoitecido quando o pai da Melissa chegou. Nós conversamos por um tempo, mas eu queria deixá-los a sós. Avisei a Melissa que ia para casa apenas tomar um banho, e que voltaria em alguns minutos. Ela concordou apreensiva.
Cheguei ao prédio e fui direto ao apartamento da Carol. Toquei a campainha duas vezes, então a porta se abriu.
Carol parecia triste, seu olhar parecia perdido.
— Oi, precisava ver você. — falei abraçando-a em seguida.
Estar perto dela era perturbador, pois eu não conseguia me controlar, minha vontade era de beijá-la, de abraçá-la. E ao mesmo tempo me trazia a paz e a calma que eu procurava.
Ela me abraçou, mas não disse nada.
— Eu... eu sinto muito de ter deixado você sozinha hoje pela manhã, mas eu precisava ter ido até lá. Você não imagina como estou me sentindo com tudo isso. Foi tudo minha culpa o que aconteceu com a Melissa, afinal, ela havia me ligado várias vezes e eu vinha ignorando as ligações dela. Talvez se tivéssemos conversado nada disso teria acontecido. E me sinto ainda pior por estar fazendo você passar por isso, depois que...
— Oi Bruno! Como você está? — perguntou Marília vindo na nossa direção. — Vamos entrar!
Eu nem me lembrava que a Marília poderia estar no apartamento naquela hora e eu lá abraçando e apertando a Carol contra meu corpo.
— Oi Marília!
— E sua namorada, como está? Sua mãe me disse sobre o acidente.
— Ela está fora de perigo, mas ainda terá que ficar em observação.
— Nós sentimos muito. — disse Marília colocando a mão sobre o ombro de Carol.
— Se precisar de alguma coisa! Eu não atendo naquele hospital, mas conheço vários profissionais de lá. Então, o que você precisar, pode contar comigo.
— Muito obrigado Marília.
Carol não disse uma única palavra. Estava tão desolada quanto eu.
— Bom... Ah... Mmmm... Eu vou tomar um banho. — disse gaguejando.  Tenho que voltar para o hospital. — falei sem tirar meus olhos dos olhos dela.
Ela assentiu em silêncio. Aquilo me matava por dentro. Sabia que aquilo a machucava e eu não conseguia pensar em nada, a não ser resolver nossa situação de vez.
Despedi-me delas e fui para meu apartamento.
Entrei no banho e me lembrei que naquela mesma manhã, eu estava dividindo aquele pequeno espaço com a garota que eu mais amava no mundo. E agora ela mal olhava para mim e tinha motivos para isso. Deixei a água cair sobre minha cabeça e comecei a esmurrar a parede, descarregando minha revolta em relação ao destino.
Depois de quase arrebentar os nós dos meus dedos, terminei meu banho e me arrumei. Minha mãe preparou um lanche para eu comer, mas estava totalmente sem fome.
— Você parece preocupado. É com a Melissa? Ela vai ficar bem.
Balancei a cabeça em negação, mas não consegui dizer nada.
— Foi tudo a minha culpa. Eu não atendi as ligações dela e...
— Não diga isso. Não sabemos ao certo o que aconteceu na estrada, talvez ela tenha sido imprudente ou o outro motorista, mas não se culpe. Você nem sabia que ela estava vindo pra cá.
Respirei fundo.
— Eu ia terminar com ela, mãe. Liguei várias vezes pra ela ontem, pois ia colocar um ponto final em tudo.
— Bom, imagino que agora vai ter que adiar esse rompimento.
— É. Parece que sim.
Ela assentiu e me analisou.
—Droga, eu tenho que ir. — disse, evitando que ela me bombardeasse com suas perguntas.
Melissa estava dormindo quando eu cheguei. A mãe dela conversou um pouco comigo, mas instantes depois foi fazer uma reserva em um hotel.
Fiquei quatro dias dentro daquele hospital. Saindo apenas para ir para casa tomar banho. Não consegui mais falar com a Carol desde a noite de sábado. Ela não atendia nenhuma das minhas milhares de ligações e sequer respondia minhas mensagens. Fui algumas vezes em seu apartamento, mas sempre dava com a cara na porta. Eu me sentia um completo cretino por tê-la deixado naquela manhã e confesso que não conseguia parar de pensar o quanto amei estar com ela em meus braços.
Já a Melissa não queria que eu saísse do lado dela por nada e a culpa que eu carregava fazia com que eu me sentisse na obrigação de cuidar dela.
Na terça-feira Melissa teve alta e foi uma nova briga. Luísa, queria que ela voltasse para Campinas, porém, ela foi irredutível, pois queria ficar em meu apartamento. Eu tentei argumentar, mas nada do que eu dissesse a faria mudar de ideia e toda aquela situação me deixava ainda mais sem saber como agir.
Foi aí que eu percebi que a Melissa era uma daquelas garotas mimadas que fazia birra para conseguir as coisas, tanto que a mãe acabou cedendo e a deixou ir embora comigo, com a condição que ela iria embora para Campinas no final de semana.
Meu coração batia descompassado. Sentia-me péssimo em chegar com a Melissa em meu prédio, correndo o risco de encontrar a Carol. Era como se eu a estivesse traindo ao levar minha namorada pra lá. Não teve como não me lembrar da Carol logo que entrei no elevador, afinal, há poucos dias tínhamos nos pegado ali mesmo e então com outra pessoa ao meu lado. Assim que o elevador parou no vigésimo andar, a porta se abriu e senti meus joelhos fraquejarem. Dei de cara com a Carol e a Marília esperando o elevador. O semblante da Carol mudou no mesmo instante. Ela assim como eu ficou totalmente desconcertada ao me ver com a Melissa. Naquele momento a minha vontade era de sumir para não ter que encará-la. Doeu demais ver o olhar triste e magoado que ela me lançou e eu sabia que doía ainda mais nela.
— Bruno, que surpresa! — exclamou Marília. — presumo que você seja a Melissa, certo?
Melissa abriu um meio sorriso para Marília.
— Sim, sou eu.
— Fiquei sabendo do acidente. Eu sinto muito. Mas felizmente agora está bem.
— Ah com certeza! Dos males o menor.
Olhei para Carol e ela desviou o olhar.
— E vocês são? — indagou Melissa.
— Ah, essa é a Marília e essa é a Carol. — disse totalmente sem jeito.
— É um prazer conhecê-las.
— O prazer é todo nosso. — respondeu Marília.
Carol apenas deu um sorriso sem graça.
— Bom, vamos indo filha?
Carol balançou a cabeça concordando com a mãe.
— Vejo vocês depois e seja bem-vinda Melissa.
— Obrigada Marília!
Elas entraram no elevador e nesse momento Carol ficou de costas para mim. Minhas estruturas estavam trêmulas, foi a sensação mais desconfortável da minha vida.
Abri a porta do apartamento e quando minha mãe nos viu ficou tão surpresa quanto a mãe de Melissa quando soube que ela não iria para casa.
— Meu Deus, que surpresa! — exclamou minha mãe mais espantada do que feliz.
— Está melhor Melissa?
— Ah, estou sim, obrigada Ester.
— Mãe, a Melissa quis vir pra cá. Ela ficará até o final de semana.
— Ah sim, claro, sem problemas! — minha mãe concordou sem ser convincente.
— Espero não atrapalhar.
— Não, claro que não! Fica à vontade. Eu só vou organizar o quarto de hóspedes, mas sinta-se em casa.
— Não se preocupe, eu fico no quarto do Bruno.
Ela assentiu sem graça.
— Claro. Mmmm... Vou buscar roupas de cama limpas.
Segui minha mãe, pois eu sabia que ela estava aflita.
— Bruno, você está louco? O que vamos fazer com essa garota aqui, dessa maneira. Eu tenho que trabalhar e quem vai cuidar dela? Ela não consegue nem se trocar sozinha, com o braço imobilizado, clavícula fraturada e com todos esses ferimentos.
— Mãe, não foi minha culpa! Ela simplesmente decidiu que queria ficar aqui e não teve ninguém que a fizesse mudar de ideia.
— Essa garota precisa de cuidados, de alguém que a ajude em tudo. E nessa situação cabe somente a mãe dela fazer isso.
— Eu sei, mas o que eu poderia dizer a ela? Até tentei convencê-la a ir pra casa, mas ela não quis conversa.
Minha mãe balançou a cabeça em tom de negação.
— Você precisa de ajuda? — indaguei.
— Não Bruno, pode deixar eu me viro aqui. Vai cuidar da sua visita.
Naquela noite eu e minha mãe ficamos pajeando a Melissa o tempo todo. Era ajuda para ir ao banheiro, beber água, comer, deitar-se, tomar banho. Enfim, eu mal podia me sentar que ela pedia que eu a ajudasse em algo e mais uma vez a culpa tomou conta de mim, fazendo com que eu a deixasse o mais confortável possível.
Estava deitado em meu quarto no meio da noite pensando na Carol.  Melissa  já estava dormindo. Saí devagar e fui para a ala, onde tentei em vão falar com a Carol. Liguei uma, duas, três vezes e nada. Quando estava prestes a ir até o apartamento dela, Melissa me chamou para me juntar a ela. Bufei em silêncio e voltei para o meu quarto.
Na quarta-feira foi a mesma coisa. Minha mãe não pode ir trabalhar para me ajudar, e ficamos o dia todo à disposição dela. No final da tarde, a campainha tocou e eu saí para atender. Era a Marília e ela estava sem a Carol.
— Oi Marília, entra!
— Como vai Bruno? Vim ver se vocês precisam de algo?
Marília me deu um beijo no rosto e entrou em seguida.
— Na verdade estamos meio perdidos. — falei quase em sussurro.
Ela riu sem entender.
— Oi Marília, que bom que veio! — disse minha mãe vindo ao nosso encontro.
— Bruno! — gritou Melissa do quarto.
Minha mãe revirou os olhos e sorriu em seguida.
— É sua vez. — ela sussurrou.
Fui até o quarto e a Mel queria que eu ficasse por perto. Sentei-me ao lado dela, mas na verdade queria ir até a sala para saber da Carol.
— Quem está aí?
— É a Marília.
— A mãe da sua amiga?
Fiz uma pausa. A Carol não era apenas a minha amiga.
— Sim, é a mãe da Carol.
— Você sempre fala tanto dessa Carol, do quanto são amigos e ela mal olhou para você. Ou será que foi por minha causa?
— É coisa da sua cabeça. A Carol é legal.
— Não foi o que me pareceu. Ela me pareceu bem arrogante.
Fiquei irado ao escutá-la julgando a Carol.
— Eu vou ver se minha mãe precisa de alguma coisa.
— Bruno, fica aqui! Não quero ficar sozinha.
— Eu já volto. — falei saindo em seguida.
— Bruno! Bruno!
Minha mãe estava na sacada conversando com a Marília. Fui até elas.
— E a Carol, onde está?
— Bruno, não me pergunte o porquê, porque eu também não entendi nada, mas a Carol quis ficar uns dias na casa do pai.
— O quê? A Carol na casa do pai? — indagou minha mãe descrente.
— Ah, acredite, eu também estou desacreditada. Mas ontem à noite, a Carolina me veio com essa história, eu estranhei e muito, mas enfim, é o pai dela.
— E quando ela foi para lá?
— Hoje pela manhã. Parece que o Ricardo nem foi trabalhar. Foram passear e ela me ligou que vai sair para jantar com ele e com a namorada dele.
— Estou pasma! — falou minha mãe, dando-me uma olhada.
Eu sabia o porquê da Carol querer ir para casa do Ricardo. Assim ela não correria o risco de me encontrar.

Melissa apareceu na sala atrás de mim. Minha mãe a chamou para que ela se juntasse a nós na sacada. Ela foi e ficamos conversando, quando meu celular tocou. Era o Felipe. Ele e o Tiago perguntaram se podiam subir para visitar a Melissa. Aquilo foi um alívio para mim, quanto mais pessoas ao redor, menos a Melissa me sugava.

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