quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Sob o olhar das Estrelas Parte 30, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas
Parte 30


— Ah, me desculpem, é que... — Bruno fez uma pausa — Eu liguei em seu celular diversas vezes e então liguei no BC e me disseram que você estava aqui, mas não fazia ideia de que vocês estivessem conversando.
Olhei exasperada para o César.
— É. Eu e o César temos muito o que conversar.
Bruno assentiu sem graça.
— Imagino que sim.
Eles se encararam como se fossem se atacar ali mesmo.
— Bom... Ah... A gente se fala depois. E desculpe por isso, César.
César balançou a cabeça positivamente. Quando Bruno foi sair, segurei a mão dele.
— Aconteceu alguma coisa?
Bruno fez que sim com a cabeça.
— Vem, só preciso te falar uma coisa, prometo ser rápido.
Olhei para o César, como se pedisse permissão a ele e ele assentiu.
Nos afastamos para que ele não nos ouvisse, porém, ainda dava para nos ver.
— Você já falou com ele?
— Bruno, eu ainda não tive chance. Ele não parou de falar desde o momento que chegamos. Disse que precisa saber o que eu sinto por ele e o que existe de fato entre mim e você. Ainda não consegui dizer uma palavra sequer.
Bruno sorriu com desdém.
— E pelo jeito nem vai, não é?
— Bruno!
Ele suspirou fundo.
— Quer saber, não queria ter atrapalhado seu encontrinho com seu noivo. Só vim porque achei que fosse encontrá-la aqui sozinha, como sempre faz. Tentei ligar várias vezes, mas você não me atendeu. Só vim avisar que estou indo pra Porto Alegre.
— Eu acabei deixando o celular no escritório. O César queria falar comigo e eu só aceitei porque preciso resolver logo essa situação.
Bruno encarou César, depois tornou a olhar pra mim.
— Não parecia que você estava colocando um ponto final nesse relacionamento. Pareciam bem próximos. Mas pode ficar tranquila, não vou mais forçar a barra. Faça o que achar melhor. Não quero que tome uma decisão e se arrependa depois. Tô indo nessa.
Quando ele foi sair, eu o segurei.
— Eu vou falar com ele, tá legal.
A respiração dele estava entrecortada.
— Por que está indo pra Porto Alegre?
— Minha mãe me ligou e pediu que eu fosse pra lá porque ela vai oficializar a relação dela com aquele cara. E eu.. Enfim, não sei o que pensar sobre isso. Nunca imaginei que ela se casaria com outro cara.
Olhei perplexa.
— Sério? Mas isso é bom, não é? Quer dizer, ela merece ter alguém ao lado dela, é difícil ser sozinha o tempo todo.
Bruno balançou a cabeça em negação.
— Foi por isso que vim até aqui. Queria que você fosse comigo. Talvez, sei lá, com você ao meu lado, as coisas seriam mais fáceis.
— Eu vou dar um jeito.
— Não! Deixa pra lá. Eu me viro sozinho.
Bruno saiu em seguida me deixando sem reação. Voltei para a mesa e César que estava inquieto esperando por mim.
— O que foi dessa vez?
— Problemas com a mãe dele. A Ester vai se casar novamente, amanhã por sinal, então...Bom ele não está aceitando muito bem.
Bebi um gole de água, tentando disfarçar minha ansiedade.
— Então agora podemos retomar nossa conversa.
Assenti, sentindo meu coração agitado.
— Quero que saiba que eu andei pensando e vi que estou pronto pra assumir um relacionamento mais sério. É como eu disse, quero me casar com você. Quero acordar e vê-la ao meu lado todas as manhãs. Quero chegar em nossa casa e contar a você como foi meu dia e ouvir como foi o seu.
Fechei meus olhos tentando tomar coragem.
— César, queria que as coisas fossem diferentes. Queria me sentir feliz ao escutar tudo isso que você disse, mas não dá mais! Eu gosto muito de você. Você é uma pessoa incrível, acontece que eu não te amo da maneira que você deveria. E eu não me permito o amar pela metade. Isso não seria justo comigo e muito menos com você.
Ele me olhou consternado.
— Você precisa encontrar alguém que o ame de verdade! E você vai, porque você é lindo, é charmoso, extremamente inteligente e é um cara muito legal. E sim, sou uma maluca dispensar você assim, mas é que eu não posso me casar com você. Eu...
— Talvez eu tenha ido muito além ao falar em casamento. Podemos ir com calma se preferir.
— Eu já pensei e repensei e é isso que é preciso ser feito.
— É ele, não é?
— É. Você me perguntou sobre o que eu sinto pelo Bruno e a verdade é que...
Quando fui abrir a boca pra responder, o celular dele tocou.
Um silêncio tomou conta da ligação.
— Tá, estou indo pra aí.
César desligou o celular e pegou a carteira.
— Aconteceu um problema com meu pai e eu preciso ir agora para São Vicente. Podemos continuar essa conversa depois? Quem sabe assim você pensa com mais calma.
— Por favor, não dificulte as coisas. — falei balançando a cabeça em negação.
— Carol, eu tenho que ir ver meu pai. Ele não está muito bem, mas cinco horas vou até seu apartamento e nos falamos, pode ser?
César deixou um dinheiro sobre a mesa, beijou meu rosto e saiu.
 Fiquei paralisada por ter protelado mais uma vez aquele momento.
Assim que cheguei no BC vi as inúmeras chamadas que o Bruno havia me feito antes do almoço. Tentei ligar pra ele, mas o celular estava fora de área. Em seguida, liguei para minha mãe e ela me confirmou sobre a oficialização da união entre a Ester e o Alberto. E disse ainda que a Ester estava arrasada com a reação do Bruno, que não foi das melhores.
Justamente naquela tarde, tive que resolver diversos problemas internos do banco e quando peguei meu celular, vi que Bruno tinha me mandado uma mensagem há pouco mais de meia hora.
Desculpa pelo modo como falei com você. É que... É difícil pra mim vê-los juntos, ainda mais depois do que houve entre nós. Porém, é sua felicidade que está em jogo e só o que eu tenho que fazer é aceitar sua a decisão.
Estou embarcando agora. Nos falamos depois.
Tentei ligar pra ele e mais uma vez estava fora de área.
Olhei em meu relógio e já passava das cinco horas. Liguei para reservar uma passagem e consegui apenas para a nove horas da noite.
 Corri para o meu apartamento e quando cheguei, dei de cara com o César, que já estava me esperando. Doeu meu coração ver o semblante triste dele. Subimos para meu apartamento e logo que entramos me virei para ele, com os olhos cheios de lágrimas.
— César, eu fugi minha vida inteira dos meus sentimentos. Mas agora simplesmente não dá mais. Eu amo o Bruno com todo meu coração. Amo tanto que chega a doer e ele também me ama. Por isso não posso me casar com você. Nunca o faria feliz, amando outro homem.
Ele me encarou como se estivesse petrificado. Era como se ele tivesse sofrido um golpe.
— Esperei o dia todo, torcendo pra que quando chegasse aqui, as coisas entre nós se resolvessem. Eu... Eu amo você. Nunca pensei em gostar tanto assim de alguém, mas você entrou em minha vida e mudou completamente meu jeito de ser e de ver as coisas. Mas agora você está pedindo pra sair da minha vida e... Droga, nem sei o que dizer. Não achei que as coisas fossem chegar a esse ponto. Eu fiz planos pra nós dois.
— César, você foi incrível pra mim. Amei você, mas não da forma que você merecia ser amado. Tentei fazer que as coisas dessem certo entre nós, mas não funcionou. Eu... — engoli seco — Eu amo o Bruno. Eu o amo desde que tinha treze anos. Muito tempo se passou desde então, muita coisa aconteceu, porém, o que eu sinto por ele nunca mudou.
César respirou fundo e andou de um lado para o outro. Então voltou-se para mim.
— Você foi desleal comigo esse tempo todo, Carolina! Vocês riam da minha cara e eu bancando o idiota e aguentando esse cara aqui todas as manhãs tomando café da manhã com você. Você provavelmente caía na cama dele assim que eu virava as costas.
— Não, não confunda as coisas. Nunca aconteceu nada comigo e com o Bruno enquanto estávamos juntos.
Tirando a noite anterior, claro, mas ele não precisava saber daquilo.
— Respeitou-me? Você se divertiu com a minha cara esse tempo todo, trazendo esse cara para seu apartamento comigo aqui. E não quero nem pensar o que faziam quando eu não estava por perto.
— Eu sabia que você não entenderia. E nem tem o porquê entender. Se fosse o contrário certamente pensaria da mesma forma. Mas estou sendo franca com você. Eu amo o Bruno sim, mas sempre respeitei você. No entanto, eu não tenho o porquê ficar me justificando. Sinto muito que não tenha dado certo entre nós e sinto ainda mais por não tentar entender meu lado. É isso, césar, acabou.
Respirei fundo como se tivesse tirado uma tonelada dos meus ombros.
— Enganei-me completamente sobre você. Você não faz ideia da decepção que tive ao ouvir isso. Você foi a maior decepção da minha vida.
— Eu sei disso. E não tiro sua razão. Mas agora eu preciso que você vá.
Tirei meu anel de noivado e entreguei a ele. Ele pegou o anel, foi até a sacada e o arremessou.
— Não quero nada vindo de você. Só espero que não quebre a cara assim como aconteceu comigo, porque é foda ser dispensado dessa forma. E algo me diz que ele fará igual ou algo pior a você. — ele disse saindo em seguida.
— Eu vou correr esse risco. — deixei escapar.
César bateu a porta e se foi.
 Corri tomar um banho rápido e liguei para o Felipe ir me buscar. Enfiei-me em um jeans e coloquei uma regata preta de seda e por cima, um terninho off-white. Calcei um scarpin preto e separei umas roupas para o final de semana.
Por volta das sete e meia da noite, estava no aeroporto me despedindo do Felipe e da namorada.
Meu voo saiu nove horas pontualmente e quando cheguei em Porto Alegre, por volta das onze e meia da noite, liguei para minha mãe, e como toda a vez, ela não estava.
Corri pegar um táxi e fui direto ao prédio. Estava com o coração nas mãos, com medo de ser tarde demais, afinal, toda a vez que um de nós dois resolvia assumir os sentimentos, o outro já havia desistido de esperar. Olhei pela janela do táxi e olhei para as estrelas, rezando que dessa vez fosse diferente. Meia hora depois, estava entrando em meu prédio e segui direto para o apartamento do Bruno. Toquei a campainha duas vezes até que a Ester abriu a porta.
— Carol? Tudo bem? Que surpresa!
— Oi, Ester. — disse dando um abraço forte nela — Só consegui chegar agora, me desculpe pelo horário, mas o Bruno está?
Ela sorriu parecendo aliviada.
— Ainda bem que você chegou! Estou tão aflita com essa situação. O Bruno não está nada feliz comigo, eu tentei conversar com ele, mas ele parece indiferente. E eu não queria que as coisas ficassem assim entre nós dois. Ele é meu único filho e quero que ele me apoie. Mas ele não está aqui. Saiu já tem uma hora, mais ou menos. Ele deve estar no terraço ou saiu com o Gustavo, porque não saiu com meu carro.
Eu sorri.
— Vou deixar minhas coisas aqui e vou atrás dele. — disse colocando minhas coisas na sala da Ester e a beijei em seguida.
— De hoje seu filho não me escapa! — falei dando-lhe uma piscada.
— Ele vai amar ver você aqui.
Segui para o terraço com o coração a mil. Assim que cheguei o vi deitado, olhando para as estrelas. Olhei para o céu e agradeci por aquele momento único.
— Disseram-me que aqui é o melhor lugar do mundo para se observar as estrelas.
Bruno levantou-se em seguida, olhando-me surpreso.
— Você veio?
— Eu disse que daria um jeito. — falei indo em direção a ele.
— Bruno, sua mãe está tão magoada. Dê a ela uma chance. Você não acha que ela merece?
— Claro que sim. Mas é que, sei lá, nunca imaginei ver outro homem morando com minha mãe. Eu só penso em meu pai. É como se ambos o traísse.
— Sua mãe amou incondicionalmente seu pai por anos. E mesmo depois que ele se foi ela ainda continuou o amando e tenho certeza de que ainda o ama. Mas ele se foi, e nada no mundo o trará de volta. Ela ficou, Bruno, criou você sozinha, dedicou-se exclusivamente em criar você. Agora você está seguindo com a sua vida e ela precisa seguir com a dela.
Bruno me encarou consternado.
— Imagina como era solitária a vida dela, sem seu pai e com você morando fora? Nesse momento o Alberto é o homem que ela ama. Ela merece ser feliz, assim como nós dois merecemos.
— Não se compara ao nosso caso, você sabe disso.
— Bom, ele a ama e é por isso que ela quer estar ao lado dele. Tenho certeza de que ele a fará muito feliz.
Bruno me olhou pensativo.
— Talvez você tenha razão.
Eu sorri.
— Você sabe que eu tenho razão!
Ele me encarou como se tivesse algo a me perguntar.
— Eu entendo a sua mãe. Ela escolheu estar ao lado de alguém por quem o coração dela bate forte. Alguém que a complete de verdade. Assim como eu.
Nossos olhares queimavam um no outro. O vento bagunçava todo meu cabelo.
— Hoje eu fui pedida em casamento, confesso que levei um choque, mas enfim, o César disse que quer se casar comigo.
Bruno me olhou consternado.
— Você.... Você não fez isso, fez?
Fiquei em silêncio querendo fazer um suspense.
— Bruno, eu...
Ele me encarou com cético.
— Carol, você não pode ter feito isso! — disse ele, saindo em seguida.
Bruno foi até o parapeito e ficou encarando a cidade iluminada.
Fui até ele e parei ao seu lado.
— Não acredito que disse sim para aquele cara. Logo quando eu achei que as coisas fossem se acertar. — falou, balançando a cabeça em negação.
— Bom, eu disse que viria, e eu vim. E lhe disse que resolveria minha situação e resolvi, em parte, na verdade.
Bruno não olhava pra mim. Segurei a mão dele fiz com que ele me encarasse.
—  E não! Não aceitei me casar com o César. Você deveria saber disso! Ele, nesse momento está me odiando, porque contei que amo você, que é a única pessoa que me completa. Eu o amo de uma maneira inexplicável e é o amor mais puro e transparente que eu já conheci. Mas, ainda não resolvi totalmente minha situação. Por isso que eu vim falar com você e perguntar se você aceita namorar comigo. Sei que isso deveria partir de você, mas não quero correr o risco de nada atrapalhar dessa vez.
Seu semblante mudou no mesmo segundo.
— Não quero apenas namorar com você. Quero me casar com você! Quero passar o resto dos meus dias ao seu lado. É só o que eu quero.
Meus lábios se curvaram num sorriso enorme.
— Então eu sou sua. Finalmente pertencemos um ao outro.
Bruno me abraçou e me beijou como se dependesse daquilo pra viver.
— Você será minha para todo o sempre, assim como eu serei seu enquanto meu coração estiver batendo.

Olhei para ele e coloquei meu braço paralelo ao braço dele, unindo nossas tatuagens.

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