Sob o olhar das Estrelas
Parte 30
— Ah, me desculpem, é que... — Bruno fez uma pausa — Eu
liguei em seu celular diversas vezes e então liguei no BC e me disseram que
você estava aqui, mas não fazia ideia de que vocês estivessem conversando.
Olhei exasperada para o César.
— É. Eu e o César temos muito o que conversar.
Bruno assentiu sem graça.
— Imagino que sim.
Eles se encararam como se fossem se atacar ali mesmo.
— Bom... Ah... A gente se fala depois. E desculpe por
isso, César.
César balançou a cabeça positivamente. Quando Bruno foi
sair, segurei a mão dele.
— Aconteceu alguma coisa?
Bruno fez que sim com a cabeça.
— Vem, só preciso te falar uma coisa, prometo ser rápido.
Olhei para o César, como se pedisse permissão a ele e ele
assentiu.
Nos afastamos para que ele não nos ouvisse, porém, ainda
dava para nos ver.
— Você já falou com ele?
— Bruno, eu ainda não tive chance. Ele não parou de falar
desde o momento que chegamos. Disse que precisa saber o que eu sinto por ele e
o que existe de fato entre mim e você. Ainda não consegui dizer uma palavra
sequer.
Bruno sorriu com desdém.
— E pelo jeito nem vai, não é?
— Bruno!
Ele suspirou fundo.
— Quer saber, não queria ter atrapalhado seu encontrinho
com seu noivo. Só vim porque achei que fosse encontrá-la aqui sozinha, como
sempre faz. Tentei ligar várias vezes, mas você não me atendeu. Só vim avisar
que estou indo pra Porto Alegre.
— Eu acabei deixando o celular no escritório. O César
queria falar comigo e eu só aceitei porque preciso resolver logo essa situação.
Bruno encarou César, depois tornou a olhar pra mim.
— Não parecia que você estava colocando um ponto final
nesse relacionamento. Pareciam bem próximos. Mas pode ficar tranquila, não vou
mais forçar a barra. Faça o que achar melhor. Não quero que tome uma decisão e
se arrependa depois. Tô indo nessa.
Quando ele foi sair, eu o segurei.
— Eu vou falar com ele, tá legal.
A respiração dele estava entrecortada.
— Por que está indo pra Porto Alegre?
— Minha mãe me ligou e pediu que eu fosse pra lá porque
ela vai oficializar a relação dela com aquele cara. E eu.. Enfim, não sei o que
pensar sobre isso. Nunca imaginei que ela se casaria com outro cara.
Olhei perplexa.
— Sério? Mas isso é bom, não é? Quer dizer, ela merece
ter alguém ao lado dela, é difícil ser sozinha o tempo todo.
Bruno balançou a cabeça em negação.
— Foi por isso que vim até aqui. Queria que você fosse
comigo. Talvez, sei lá, com você ao meu lado, as coisas seriam mais fáceis.
— Eu vou dar um jeito.
— Não! Deixa pra lá. Eu me viro sozinho.
Bruno saiu em seguida me deixando sem reação. Voltei para
a mesa e César que estava inquieto esperando por mim.
— O que foi dessa vez?
— Problemas com a mãe dele. A Ester vai se casar novamente,
amanhã por sinal, então...Bom ele não está aceitando muito bem.
Bebi um gole de água, tentando disfarçar minha ansiedade.
— Então agora podemos retomar nossa conversa.
Assenti, sentindo meu coração agitado.
— Quero que saiba que eu andei pensando e vi que estou
pronto pra assumir um relacionamento mais sério. É como eu disse, quero me
casar com você. Quero acordar e vê-la ao meu lado todas as manhãs. Quero chegar
em nossa casa e contar a você como foi meu dia e ouvir como foi o seu.
Fechei meus olhos tentando tomar coragem.
— César, queria que as coisas fossem diferentes. Queria
me sentir feliz ao escutar tudo isso que você disse, mas não dá mais! Eu gosto
muito de você. Você é uma pessoa incrível, acontece que eu não te amo da
maneira que você deveria. E eu não me permito o amar pela metade. Isso não
seria justo comigo e muito menos com você.
Ele me olhou consternado.
— Você precisa encontrar alguém que o ame de verdade! E
você vai, porque você é lindo, é charmoso, extremamente inteligente e é um cara
muito legal. E sim, sou uma maluca dispensar você assim, mas é que eu não posso
me casar com você. Eu...
— Talvez eu tenha ido muito além ao falar em casamento.
Podemos ir com calma se preferir.
— Eu já pensei e repensei e é isso que é preciso ser
feito.
— É ele, não é?
— É. Você me perguntou sobre o que eu sinto pelo Bruno e
a verdade é que...
Quando fui abrir a boca pra responder, o celular dele tocou.
Um silêncio tomou conta da ligação.
— Tá, estou indo pra aí.
César desligou o celular e pegou a carteira.
— Aconteceu um problema com meu pai e eu preciso ir agora
para São Vicente. Podemos continuar essa conversa depois? Quem sabe assim você
pensa com mais calma.
— Por favor, não dificulte as coisas. — falei balançando
a cabeça em negação.
— Carol, eu tenho que ir ver meu pai. Ele não está muito
bem, mas cinco horas vou até seu apartamento e nos falamos, pode ser?
César deixou um dinheiro sobre a mesa, beijou meu rosto e
saiu.
Fiquei paralisada
por ter protelado mais uma vez aquele momento.
Assim que cheguei no BC vi as inúmeras chamadas que o
Bruno havia me feito antes do almoço. Tentei ligar pra ele, mas o celular
estava fora de área. Em seguida, liguei para minha mãe e ela me confirmou sobre
a oficialização da união entre a Ester e o Alberto. E disse ainda que a Ester
estava arrasada com a reação do Bruno, que não foi das melhores.
Justamente naquela tarde, tive que resolver diversos
problemas internos do banco e quando peguei meu celular, vi que Bruno tinha me
mandado uma mensagem há pouco mais de meia hora.
Desculpa pelo modo como falei com você. É que... É difícil pra mim
vê-los juntos, ainda mais depois do que houve entre nós. Porém, é sua
felicidade que está em jogo e só o que eu tenho que fazer é aceitar sua a decisão.
Estou embarcando agora. Nos falamos depois.
Tentei ligar pra ele e mais uma vez estava fora de área.
Olhei em meu relógio e já passava das cinco horas. Liguei
para reservar uma passagem e consegui apenas para a nove horas da noite.
Corri para o meu
apartamento e quando cheguei, dei de cara com o César, que já estava me
esperando. Doeu meu coração ver o semblante triste dele. Subimos para meu
apartamento e logo que entramos me virei para ele, com os olhos cheios de
lágrimas.
— César, eu fugi minha vida inteira dos meus sentimentos.
Mas agora simplesmente não dá mais. Eu amo o Bruno com todo meu coração. Amo
tanto que chega a doer e ele também me ama. Por isso não posso me casar com
você. Nunca o faria feliz, amando outro homem.
Ele me encarou como se estivesse petrificado. Era como se
ele tivesse sofrido um golpe.
— Esperei o dia todo, torcendo pra que quando chegasse
aqui, as coisas entre nós se resolvessem. Eu... Eu amo você. Nunca pensei em
gostar tanto assim de alguém, mas você entrou em minha vida e mudou
completamente meu jeito de ser e de ver as coisas. Mas agora você está pedindo pra
sair da minha vida e... Droga, nem sei o que dizer. Não achei que as coisas
fossem chegar a esse ponto. Eu fiz planos pra nós dois.
— César, você foi incrível pra mim. Amei você, mas não da
forma que você merecia ser amado. Tentei fazer que as coisas dessem certo entre
nós, mas não funcionou. Eu... — engoli seco — Eu amo o Bruno. Eu o amo desde
que tinha treze anos. Muito tempo se passou desde então, muita coisa aconteceu,
porém, o que eu sinto por ele nunca mudou.
César respirou fundo e andou de um lado para o outro. Então
voltou-se para mim.
— Você foi desleal comigo esse tempo todo, Carolina!
Vocês riam da minha cara e eu bancando o idiota e aguentando esse cara aqui
todas as manhãs tomando café da manhã com você. Você provavelmente caía na cama
dele assim que eu virava as costas.
— Não, não confunda as coisas. Nunca aconteceu nada
comigo e com o Bruno enquanto estávamos juntos.
Tirando a noite anterior, claro, mas ele não precisava
saber daquilo.
— Respeitou-me? Você se divertiu com a minha cara esse
tempo todo, trazendo esse cara para seu apartamento comigo aqui. E não quero
nem pensar o que faziam quando eu não estava por perto.
— Eu sabia que você não entenderia. E nem tem o porquê
entender. Se fosse o contrário certamente pensaria da mesma forma. Mas estou
sendo franca com você. Eu amo o Bruno sim, mas sempre respeitei você. No
entanto, eu não tenho o porquê ficar me justificando. Sinto muito que não tenha
dado certo entre nós e sinto ainda mais por não tentar entender meu lado. É isso,
césar, acabou.
Respirei fundo como se tivesse tirado uma tonelada dos
meus ombros.
— Enganei-me completamente sobre você. Você não faz ideia
da decepção que tive ao ouvir isso. Você foi a maior decepção da minha vida.
— Eu sei disso. E não tiro sua razão. Mas agora eu
preciso que você vá.
Tirei meu anel de noivado e entreguei a ele. Ele pegou o
anel, foi até a sacada e o arremessou.
— Não quero nada vindo de você. Só espero que não quebre
a cara assim como aconteceu comigo, porque é foda ser dispensado dessa forma. E
algo me diz que ele fará igual ou algo pior a você. — ele disse saindo em
seguida.
— Eu vou correr esse risco. — deixei escapar.
César bateu a porta e se foi.
Corri tomar um
banho rápido e liguei para o Felipe ir me buscar. Enfiei-me em um jeans e coloquei
uma regata preta de seda e por cima, um terninho off-white. Calcei um scarpin preto
e separei umas roupas para o final de semana.
Por volta das sete e meia da noite, estava no aeroporto
me despedindo do Felipe e da namorada.
Meu voo saiu nove horas pontualmente e quando cheguei em
Porto Alegre, por volta das onze e meia da noite, liguei para minha mãe, e como
toda a vez, ela não estava.
Corri pegar um táxi e fui direto ao prédio. Estava com o
coração nas mãos, com medo de ser tarde demais, afinal, toda a vez que um de
nós dois resolvia assumir os sentimentos, o outro já havia desistido de
esperar. Olhei pela janela do táxi e olhei para as estrelas, rezando que dessa
vez fosse diferente. Meia hora depois, estava entrando em meu prédio e segui
direto para o apartamento do Bruno. Toquei a campainha duas vezes até que a
Ester abriu a porta.
— Carol? Tudo bem? Que surpresa!
— Oi, Ester. — disse dando um abraço forte nela — Só
consegui chegar agora, me desculpe pelo horário, mas o Bruno está?
Ela sorriu parecendo aliviada.
— Ainda bem que você chegou! Estou tão aflita com essa
situação. O Bruno não está nada feliz comigo, eu tentei conversar com ele, mas
ele parece indiferente. E eu não queria que as coisas ficassem assim entre nós
dois. Ele é meu único filho e quero que ele me apoie. Mas ele não está aqui.
Saiu já tem uma hora, mais ou menos. Ele deve estar no terraço ou saiu com o
Gustavo, porque não saiu com meu carro.
Eu sorri.
— Vou deixar minhas coisas aqui e vou atrás dele. — disse
colocando minhas coisas na sala da Ester e a beijei em seguida.
— De hoje seu filho não me escapa! — falei dando-lhe uma
piscada.
— Ele vai amar ver você aqui.
Segui para o terraço com o coração a mil. Assim que cheguei
o vi deitado, olhando para as estrelas. Olhei para o céu e agradeci por aquele
momento único.
— Disseram-me que aqui é o melhor lugar do mundo para se
observar as estrelas.
Bruno levantou-se em seguida, olhando-me surpreso.
— Você veio?
— Eu disse que daria um jeito. — falei indo em direção a
ele.
— Bruno, sua mãe está tão magoada. Dê a ela uma chance. Você
não acha que ela merece?
— Claro que sim. Mas é que, sei lá, nunca imaginei ver
outro homem morando com minha mãe. Eu só penso em meu pai. É como se ambos o
traísse.
— Sua mãe amou incondicionalmente seu pai por anos. E
mesmo depois que ele se foi ela ainda continuou o amando e tenho certeza de que
ainda o ama. Mas ele se foi, e nada no mundo o trará de volta. Ela ficou,
Bruno, criou você sozinha, dedicou-se exclusivamente em criar você. Agora você
está seguindo com a sua vida e ela precisa seguir com a dela.
Bruno me encarou consternado.
— Imagina como era solitária a vida dela, sem seu pai e
com você morando fora? Nesse momento o Alberto é o homem que ela ama. Ela
merece ser feliz, assim como nós dois merecemos.
— Não se compara ao nosso caso, você sabe disso.
— Bom, ele a ama e é por isso que ela quer estar ao lado
dele. Tenho certeza de que ele a fará muito feliz.
Bruno me olhou pensativo.
— Talvez você tenha razão.
Eu sorri.
— Você sabe que eu tenho razão!
Ele me encarou como se tivesse algo a me perguntar.
— Eu entendo a sua mãe. Ela escolheu estar ao lado de alguém
por quem o coração dela bate forte. Alguém que a complete de verdade. Assim
como eu.
Nossos olhares queimavam um no outro. O vento bagunçava
todo meu cabelo.
— Hoje eu fui pedida em casamento, confesso que levei um
choque, mas enfim, o César disse que quer se casar comigo.
Bruno me olhou consternado.
— Você.... Você não fez isso, fez?
Fiquei em silêncio querendo fazer um suspense.
— Bruno, eu...
Ele me encarou com cético.
— Carol, você não pode ter feito isso! — disse ele,
saindo em seguida.
Bruno foi até o parapeito e ficou encarando a cidade
iluminada.
Fui até ele e parei ao seu lado.
— Não acredito que disse sim para aquele cara. Logo quando
eu achei que as coisas fossem se acertar. — falou, balançando a cabeça em
negação.
— Bom, eu disse que viria, e eu vim. E lhe disse que
resolveria minha situação e resolvi, em parte, na verdade.
Bruno não olhava pra mim. Segurei a mão dele fiz com que
ele me encarasse.
— E não! Não
aceitei me casar com o César. Você deveria saber disso! Ele, nesse momento está
me odiando, porque contei que amo você, que é a única pessoa que me completa.
Eu o amo de uma maneira inexplicável e é o amor mais puro e transparente que eu
já conheci. Mas, ainda não resolvi totalmente minha situação. Por isso que eu
vim falar com você e perguntar se você aceita namorar comigo. Sei que isso
deveria partir de você, mas não quero correr o risco de nada atrapalhar dessa
vez.
Seu semblante mudou no mesmo segundo.
— Não quero apenas namorar com você. Quero me casar com
você! Quero passar o resto dos meus dias ao seu lado. É só o que eu quero.
Meus lábios se curvaram num sorriso enorme.
— Então eu sou sua. Finalmente pertencemos um ao outro.
Bruno me abraçou e me beijou como se dependesse daquilo
pra viver.
— Você será minha para todo o sempre, assim como eu serei
seu enquanto meu coração estiver batendo.
Olhei para ele e coloquei meu braço paralelo ao braço
dele, unindo nossas tatuagens.

Nenhum comentário:
Postar um comentário