quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 24, por Érika Prevideli


Sob o olhar das Estrelas
Parte 24

— Promete me ligar, se precisar de alguma coisa?
Concordei e ele me abraçou. Senti meu coração estava dilacerado, nunca imaginei que o coração pudesse doer de tanta tristeza, e com o Bruno, aquela era a segunda vez.
— Eu te ligo amanhã. — ele sussurrou.
Forcei um sorriso.
— Boa noite.
Minutos depois eles se foram e eu me vi sozinha chorando em meu apartamento, que por sorte, Daniel não sabia onde era.
Passei o resto da madrugada toda em claro. Lembrando de cada olhar que eu havia trocado com o Bruno. Da nossa excitação em fazer uma tatuagem que significava tanto para nós dois. Depois o momento no qual ele quase me beijou, quando ele me defendeu e finalmente quando ele se despediu de mim, deixando-me sozinha e indo embora com namorada dele.
No sábado, os rapazes foram me buscar. Eu parecia um urso panda de tantas olheiras. Saímos para almoçar e como deixei meu celular desligado, Bruno ligou para Felipe querendo falar comigo. Não estava em condições de falar com ele naquele dia, ainda assim ele ligou várias vezes para o Felipe. A tarde voltamos para o estúdio, onde os três resolveram fazer novas tatuagens e eu só os observei, lembrando da noite anterior, do quanto eu e Bruno estávamos felizes naquele lugar. No domingo os meninos foram embora e eu fiquei recolhendo meus cacos. De novo, não tive forças de ligar para o Bruno ou responder a uma das várias mensagens dele. Na segunda-feira, para minha surpresa, César passou da minha sala para me dar um oi. Vibrei por dentro, tanto que não conseguia mais me concentrar no restante da aula. No final da tarde, quando voltei para meu apartamento, vi Bruno parado em frente ao meu prédio, esperando por mim.
Balancei a cabeça em negação e meus lábios me traíram, soltando um sorriso imenso.
— Desculpa, desculpa! Droga, nem sei o que dizer.
— Estranho, sua namorada não veio? — perguntei ironicamente.
Bruno balançou a cabeça em negação, consternado.
— Não consigo parar de pensar em você, desde que a deixei aqui na madrugada de sábado. Fiquei maluco pra saber como você estava. Com medo de que aquele... Aquele cara aparecesse. Com medo de que não fosse mais querer falar comigo. Não sei ficar longe de você, Carol. Eu morreria se isso voltasse a acontecer.
— Eu disse que ele não ia aparecer e mesmo que se aparecesse, é como a Marina disse: eu sei me defender. Não tem que se preocupar.
Bruno deu um passo à frente.
Engoli seco. Não ia mais permitir que ele me tocasse. Ele tinha uma namorada e eu tinha que aceitar isso de uma forma ou de outra.
— Eu me preocupo com você. é impossível não me preocupar.
— Pois não deveria. Já sou bem grandinha.
— Por que não atendeu minhas ligações.
Não disse nada e mudei o peso do meu corpo para a outra perna.
— Eu... Ah... Na verdade, não sei. Acho que precisava de um tempo pra digerir tudo o que aconteceu.
— Você não me quer mais na sua vida?
— Não é isso. Claro que não. É que... Enfim, não quero mais confundir as coisas entre nós. Somos apenas amigos. E é assim que tem que ser. Eu... — respirei fundo — Só precisava ficar sozinha e colocar isso de uma vez por todas na minha cabeça.
Ele me encarou aturdido.
— Não imaginava que ela fosse tão bonita.
Bruno sorriu com desdém.
— Ela disse a mesma coisa sobre você.
— Ah, imagino! —  falei descrente.
— É sério! A Marina ficou morrendo de ciúmes quando a conheceu. Na verdade, ela já morria de ciúmes de você, mas quando a viu pessoalmente ficou maluca.
— Qual é? Não queira fazer com que eu me sinta melhor. Você não vai conseguir, pode apostar.
— Juro. Ela ficou histérica com o fato de você ser linda. Isso fez com que ela perdesse todos os limites. E quer saber? Nós tivemos uma briga colossal.
Olhei sem entender.
— Como assim?
— É complicado, Carol, acontece que ela e sim muito bonita, porém, é totalmente descontrolada e insegura. No caminho até São José dos Campos, ela fez um escândalo comigo, por eu não ter atendido o celular, dizendo eu queria escondê-la de vocês, mas o que mais pegou, foi o fato de você ser linda. Você tirou o chão dela. Além disso, percebeu que eu não parava de te olhar e claro, odiou quando defendi daquele...
Olhei para ele sem reação.
— Vem, vamos entrar!
Bruno me seguiu e fomos para meu apartamento.
Assim que chegamos, coloquei minha mochila sobre a mesa e ele se sentou no sofá.
— É bem legal aqui.
— É pequeno, mas é perfeito pra mim. Além disso, é bem seguro, então...
Ele assentiu.
Sentei-me ao lado dele e quando olhei em seu braço, vi marcar de arranhões por todo lado.
— O que é isso?
Bruno disfarçou constrangido.
— Bruno, que foi isso?
Ele me encarou consternado.
— Eu disse que foi uma briga colossal.
— Vocês se agrediram?
Ele riu mais provavelmente de nervoso.
— Carol eu nunca agrediria ninguém, você me conhece. Já a Marina... Eu disse que ela perdeu todos os limites.
— Ela fez isso em você? Como pode?
Nesse momento, ele encostou a cabeça no sofá, olhando para o teto.
— A Marina viu a tatuagem e quis saber a todo custo o que esse C significava. Quando eu disse que fiz em sua homenagem, ela quase teve um ataque, quase arrancou meu braço. Nunca vi alguém transtornada daquela forma, começou a me unhar, rasgou minha camisa, quebrou tudo ao redor dela, foi horrível. Eu terminei com ela, disse que não dava mais, pois eu não aguento mais essas crises que ela tem, mas aí a coisa foi ainda pior.
Olhei cética pra ele.
— Foi uma cena lamentável, quando ameacei ir embora, caiu de joelhos nos meus pés, tendo uma crise nervosa, implorando para que eu não fizesse aquilo; foi degradante. Estou esgotado com essa situação. E o pior é que o tempo tá passando e eu não consigo me desvencilhar dela. Acabo ficando com pena e... Enfim, fico protelando. Ela me controla a cada passo, está insuportável.
— Caramba! Nem sei o que dizer.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Ela ficou fora de si. Essa não foi a primeira vez. Eu sei que é patético, que eu deveria tomar uma atitude, mas... Eu não consigo, sinto-me impotente quando esse tipo de situação acontece, no entanto, isso está me matando por dentro.
O observei e constatei que ele realmente estava esgotado emocionalmente.
Precisava perguntar, mas estava com medo de ouvir a verdade.
— E você...Você a ama?
Nesse momento ele olhou no fundo dos meus olhos.
— Não. Eu não a amo. Nunca foi amor.
Engoli seco.
— No começo confesso que me empolguei com ela. Ela é linda, inteligente, independente. No entanto, com o passar do tempo, fui vendo quem a Marina realmente é. E isso me assusta.
— Como assim?
— Ela é mimada, quer tudo da maneira dela. Trata as pessoas com indiferença, principalmente quem não é do meio social dela. É arrogante, possessiva, insegura e ciumenta ao extremo.
— Bom, e por que não toma uma atitude. Ninguém é obrigado a conviver com uma pessoa assim?
Bruno deitou a cabeça no sofá e ficou encarando o teto.
— Acontece que no fundo, eu tenho medo de terminar com ela e algo de ruim acontecer. Não sei do que ela é capaz, Carol. Ela é maluca. Já chegou a dizer que se eu terminasse com ela, cometeria uma loucura. Eu fico maluco quando isso acontece. Sinto-me de mãos atadas, porém, sei que esse é o modo que ela usa pra me manipular.
— Então por isso não tem coragem de terminar?
— Sim, entre outros motivos. Quando brigamos e ela arma todo aquele drama, eu acabo ficando com pena e... Enfim, não consigo sair dessa.
Respirei fundo, sem saber o que dizer a ele.
— Droga, estou aqui te enchendo com tudo isso. Você não precisa ouvir meus problemas.
Forcei um sorriso.
— Somos amigos, não somos? Amigos são para essas coisas.
Bruno sorriu e me abraçou.
— Desculpe-me por ter estragado seu aniversário. Nunca achei que...
— Shiu. Você não estragou nada. Vamos deixar esse assunto pra lá.
Ele assentiu e me abraçou. Era nítido que ele estava esgotado emocionalmente. Pelo visto, ela tinha ficado tão mal, assim quanto eu fiquei.
— Está com fome?
— Faminto.
— Vou preparar alguma coisa pra gente comer.
— Eu ajudo você.
— Não. Fique aqui e descanse um pouco. Eu cuido de tudo.
— Sério? Vou acabar ficando mal-acostumado assim.
Baguncei o cabelo dele e me levantei.
— Não vai ser nenhum banquete como está acostumado a comer com a sua dondoca, mas prometo caprichar.
Ele fez uma careta e se aninhou em meu sofá.
...
Bruno passou a ir uma vez por semana para São Paulo, onde eu, ele e o Felipe sempre fazíamos alguma coisa: pedíamos pizza, jogávamos cartas, íamos a shows, cinemas, jogos de futebol ou basquete, bares, enfim, coisas que grandes amigos faziam.
Dias se passaram e eu e Bruno estávamos cada vez mais próximos. Marina até tentou, porém, não conseguiu fazer com que ele parasse ir para São Paulo. Essas discussões o deixava cada vez mais desanimado com o relacionamento. Mas também não se separava dela.
Eu, por outro lado, fingia não sentir mais nada por ele, o que era uma grande mentira, pois doía toda vez que ele ia embora, afinal, sabia que era com ela que ele passava a maioria das noites.
Pelo menos, entre todas as lágrimas que eu derrubava, tinha algo que andava tirando um sorriso meu: César. Pois é, estávamos sempre nos vendo na faculdade e ele vivia me encarando incansavelmente. Porém, ainda não tínhamos conversado desde a noite do meu aniversário.
No começo da última semana de junho, Marina me ligou pessoalmente, o que me deixou desconcertada. Tive medo que ela pudesse ser grossa comigo, porém, foi extremamente educada e convidou a mim e ao Felipe para uma festa na casa dela em São José dos Campos. Essa festa seria no domingo durante o almoço. Eu e Felipe cogitamos não ir, mas achamos que ficaria muito chato. Então, no domingo por volta das onze da manhã, Felipe foi me buscar.
O dia estava ensolarado, mas, o vento estava gelado. Usei um vestido branco, rodado, um pouco acima dos joelhos. Passei uma semana atrás de um vestido lindo, até que achei aquele em uma boutique bem conhecida, confesso que ele tinha ficado lindo em mim, valorizando cada parte do meu corpo. Mas eu precisava esconder minha tatuagem, então coloquei uma jaqueta jeans por precaução, assim não corria o risco de a Marina ver a tatuagem. Afinal, ela já tinha feito um estardalhaço com a tatuagem do Bruno e não precisávamos de outra cena como aquela.
Por volta da uma da tarde, chegamos em frente à enorme casa da Marina. O lugar parecia ter sido tirado de uma revista de decoração. Era incrível.
A festa estava acontecendo no jardim da casa. Bruno nos esperava ansioso e ele estava lindo com uma camisa rosa, dobrada nas mangas e bermuda cargo. Fiquei sem ar ao vê-lo. Senti meu coração bater tão forte que achei que fosse desmoronar na frente dele. Marina nos recebeu extremamente bem no começo da festa, mas depois era como se eu e Felipe não estivéssemos lá. E não deixava Bruno ao nosso lado por mais de cinco minutos, pois sempre o chamava para conversar com seus convidados.
Eu e Felipe estávamos deslocados com toda aquela gente, porém, meus olhares acabaram encontrando os olhares de César, que sorriu de orelha a orelha ao me ver no meio de todas aquelas pessoas. Ele pediu licença para uns amigos e veio em minha direção.
— Não acredito no que eu estou vendo! — disse ele parando ao meu lado.
Sorri por dentro. César me abraçou e beijou meu rosto.
— Você está linda, Carolina!
— Hum, obrigada! — respondi acanhada.
— Não sabia que você era amiga da Marina.
— Não. Ah... Ela namora um amigo meu.
Falando nele, Bruno estava conversando com uns caras, porém, não tirava os olhos da minha direção. Parecia tenso por me ver conversar com o César, o que de certa forma, fez muito bem para o meu ego.
— Bom, eu também não fazia ideia de que fosse amigo da Marina.
Ele sorriu.
— É. Nós nos conhecemos há algum tempo. Dou aula na faculdade dela.
— Ah, que legal.
Um garçom passou e César pegou duas taças de champanhes, entregando-me uma. Bruno não disfarçava sua irritação, por me ver sorrindo para César, mas fingi não perceber.
— Ele é seu namorado? — investigou César, apontando para Felipe, que sorriu.
— Quem me dera, cara.
Nós rimos.
— Somos bons amigos. — disse.
Felipe assentiu.
— Amigos de infância. — emendou ele.
César sorriu satisfeito.
Como eles já se conheciam do bar, da noite do meu aniversário, começaram a conversar. A conversa fluía tão bem, que parecia que conhecíamos César há anos.
O almoço foi servido e César continuou comigo e com o Felipe. Bruno estava em uma mesa com a Marina, a mãe dela e mais alguns amigos. Contudo, sempre que podia colocava os olhos em nós. Felipe percebeu, é claro. O pior de tudo, foi que Marina também pareceu ter percebido. Tanto que uma das vezes que Bruno estava me encarando, vi que Marina o observava olhando para mim
— Merda, o cara vai acabar arrumando confusão. — sussurrou Felipe.
— É, eu percebi. — sussurrei de volta.
— Ele deve estar puto e você sabe o motivo. — disse ele, olhando na direção de César, que tinha saído pra buscar mais bebidas.
— Não estou fazendo nada de errado, aliás, nem devo satisfação a ele sobre com quem eu converso.
— Ainda mais porque ele está ao lado da namorada dele.
— Exatamente.
— É foda, mascote.
Respirei fundo e tentei olhar para todo lado, que não na direção de Bruno, porém, ele saiu do lugar dele e veio em nossa direção.
— Gostando da festa? — indagou ele, olhando para o Felipe.
— Demais, cara. Muito animada. — desdenhou ele — Como você aguenta essa gente chata o tempo todo.
Eu ri.
— É, eu também não faço ideia.
Ele olhou pra mim, parecendo irritado.
— Seu amigo parou de dar em cima de você?
Fiz cara de desentendida.
— Quem? O César?
Ele assentiu, olhando fixamente pra mim.
— Será? Eu nem percebi. Devo está perdendo meu feeling.
— Você parece bem animada ao lado dele. Não parou de sorrir o tempo todo.
Ri alto.
— Você é hilário, Bruno.
— Merda, vocês não vão brigar aqui, não é mesmo? — perguntou Felipe.
— Não, claro que não, ninguém está brigando. É só o Bruno bancando o hipócrita.
— Não estou sendo hipócrita, é só que o cara está dando em cima de você descaradamente e você parece nem se importar.
— E por que me importaria? Você olhou bem pra ele? Ele é um gato e é livre, assim como eu.
Bruno bufou.
— Oi. — disse César, chegando em seguida.
Ele cumprimentou Bruno que não disfarçava a insatisfação dele.
— Ah, vocês estão aí. — disse Marina, vindo em nossa direção.
Felipe saiu para atender ao celular.
— Não sabia que vocês se conheciam — disse ela, olhando para mim e para o César, abraçando Bruno em seguida.
— Eu fui o professor da Carolina no primeiro semestre. — disse ele, olhando pra mim.
Bruno respirava com dificuldade.
— Isso é bom, poderíamos marcar de sair os quatro um dia desses, o que acha, amor?
Engoli seco.
Bruno mordeu o lábio inferior, tentando disfarçar sua irritação.
— Seria ótimo.
César sorriu.
— Vamos marcar. Quem sabe assim a Carolina aceita sair comigo um dia desses. — disse ele, encarando-me.
Sorri sem graça.
— Ah, Carol, não vai se arrepender. O César é uma pessoa incrível, nos conhecemos há anos, tenho certeza de que não vai se arrepender.
Senti meu rosto corar.
— Eles até se combinam, não é mesmo, Bruno?
Os olhos de Bruno queimaram sobre os meus.
— Você está deixando a Carol sem jeito. Acho que ela é bem grandinha pra escolher quem ela quiser.
Marina o fulminou.
— Desculpa, não quis deixá-la sem graça. — sussurrou César.
— Não, tudo bem. — respondi com a voz fraca.
— Então aceite o pedido de rapaz e depois marcamos uma noite para sairmos os quatro, tudo bem? — falou Marina, com ar desafiador.
Dei um sorriso forçado a ela.
— Agora me deem licença, tenho que ver uns convidados.
Bruno e César se encararam.
— A gente se fala depois, Carol. — falou Bruno, saindo exasperado.
  Foi então César me chamou para dar uma volta pelo enorme jardim.
— Você volta para São Paulo ou ficará para a festa de amanhã?
— Não! Nós iremos voltar. Amanhã tenho umas coisas para fazer e o Felipe também tem os compromissos dele.
Era mentira, na verdade, nós não tínhamos sido convidados para a festa do dia seguinte.
— Então nesse caso, poderíamos fazer alguma coisa, o que você acha?
Olhei para ele ficando desconcertada.
Marina estava com um grupo de homens e nos viu caminhando. Sorriu pra mim e veio em nossa direção.
— César, o Valentim quer falar com você. Ele estava te procurando. E se não se incomodar Carol, queria leva-la para conhecer minha casa.
César me olhou, dando-me um sorriso.
— Tudo bem. Vou deixá-las à vontade. A gente se fala depois, Carolina.
Assenti em silêncio e ele saiu, depois de dar-me uma piscadela.
— Ele é muito gentil, não é mesmo? — disse Marina enquanto me observava.
— Ah, é sim, e muito atencioso também.
Ela me analisava e em seguida soltou um sorriso forçado.
— Vem! Vamos dar uma volta! Quero falar com você.
Concordei e fomos caminhando sentido à casa.  Marina sorria sendo carismática com todas as outras pessoas. Andava toda dona de si, como se fosse um ser inabalável.
Entramos na casa dela que era um verdadeiro luxo. Então fomos para um escritório, onde ela fechou a porta atrás de nós.
Olhei ao redor e tinha fotos dela por toda parte. Uma estante enorme cheia de livros, uma enorme mesa de mármore, onde ficava um MacBook e diversas outras coisas.
— Está gostando da festa?
— Ah, sim. Está tudo perfeito e meus parabéns, sua casa é linda.
Ela sorriu orgulhosa.
— Essa casa é da minha mãe. Mas sim, é uma casa muito bonita.
— Eu sinto muito pelo seu pai. Eu soube que o perdeu há pouco tempo.
— É, não tem sido fácil. A saudade é grande, mas a vida é assim, pessoas entram e saem de nossas vidas o tempo todo, temos que nos adaptar a viver apenas com o vazio que elas nos deixam.
— É preciso ser forte.
— Sim e eu sou.
Concordei e ela cravou os olhos em mim.
— Carol, eu preciso saber de uma coisa. Não sei se é coisa da minha cabeça, ou...
Já sabia exatamente do que ela iria falar. Minhas pernas estavam trêmulas.
— O que há entre você e o Bruno? Sim, porque creio que não seja apenas uma linda amizade, assim como ele vive dizendo. É nítido que tem mais alguma coisa.
Fiz cara de paisagem e balancei a cabeça em negação, embora estivesse aflita por dentro.
— Conheço o Bruno desde que éramos crianças. Ele sempre foi meu melhor amigo, confidente, eu diria. Sempre fomos muito ligados.
Meu coração estava descompassado.
— O Bruno significa muito para mim, nossa amizade é muito sincera. Mas não é nada além disso.
Marina me avaliava com desprezo.
Sentia minha pulsação acelerada. Minha boca estava seca e eu estava morrendo de medo do olhar dela para mim.
— Bom, ele parecia bem irritado ao vê-la com o César, você mesma viu o modo como ele ficou.
— Hmmm, acho que ele tentou evitar um constrangimento. Ele sabe que eu sou tímida. Deve ser isso.
Ela riu com desdém.
— Engraçado, você e o Felipe estão sempre juntos, mas... — Marina fez uma pausa, avaliando-me — Nunca o vi olhando pra você da forma como o Bruno olha e nunca a vi olhando para o Felipe, como você olha para o Bruno. Não deve ser coincidência.
Abri a boca para falar alguma coisa, mas não sabia o que dizer.
— Eu... Ah... Não estou entendendo aonde quer chegar.
— Tem certeza? — indagou, com olhar desafiador.
—  Absoluta. Eu disse, o Bruno é meu amigo. Melhor amigo. Só não estávamos tão próximos porque ele mora em Lorena e eu em São Paulo.
Ela assentiu.
— E quanto àquela tatuagem ridícula que o Bruno fez em sua homenagem? O que significa?
Eu ri de nervoso.
— A tatuagem não é ridícula. Pelo contrário. Ele teve a ideia de fazer uma homenagem e pra ser sincera eu amei. É como eu disse, somos amigos desde crianças. Nossa ligação não começou de agora.
Marina arqueou uma das sobrancelhas.
— Que coisa mais deprimente!
— Por que deprimente? Você nunca teve amigos?
— Sim, tive, tenho vários, aliás, mas nunca tatuei a inicial de nenhum deles em meu pulso.
Forcei um sorriso a ela. Senti meu sangue correr quente dentro de mim. Estava me sentindo totalmente desconfortável naquela situação.
— Eu fiz uma mandala com as iniciais de todos meus amigos. Assim como eles fizeram. Você não conhece nossa história, por isso pode soar deprimente pra você. Acontece que um é muito importante para outro. Não saberia viver sem nenhum deles.
— Tá, mas e quanto a tatuagem do pulso? Você também fez uma para o Bruno ou só você foi a homenageada?
Ao escutar aquela pergunta, queria me esconder embaixo da mesa dela.
Fiquei muda, sem saber o que dizer e então ela me repreendeu.
— Fala garota! Fiz uma pergunta.
Marina puxou meu braço esquerdo e viu que não tinha nada. Então puxou o outro, e ergueu a dobra da minha jaqueta. Onde viu minha tatuagem, com a inicial do nome do Bruno reluzente. Fechei os olhos, tentando pensar numa saída inteligente. Mas ela segurou meu braço, cravando suas unhas em minha pele.
— Sua vadiazinha! Nunca me enganei com você! Nunca! Eu sabia que tinha mais alguma coisa. Eu vi você olhando para ele a festa toda.
— Marina, não é nada disso. Você está vendo coisa onde não existe.
Quando disse isso, senti o peso da mão dela em meu rosto. Em seguida ela me pegou pelo cabelo, chegando a envergar meu corpo. Tentei me livrar dela, mas ela era bem mais forte do que eu.
— Sua vadia, eu quero que saia agora mesmo da minha casa, da minha festa. Você nunca foi e nunca será bem-vinda aqui, entendeu?
Balancei a cabeça concordando.
— Marina, você precisa acreditar em mim, o Bruno é meu amigo.  — falei tentando em vão me liberar.
Sentia meus cabelos sendo arrancados do meu couro cabeludo, de tanto que ela os puxava.
— Não existe nada entre mim e o Bruno!
— Saí da minha casa ou vou armar um escândalo aqui! O Bruno está lá fora, conversando com pessoas importantes, que têm grandes planos para a carreira dele. E tudo isso graças a mim. Mas você, não tem nada a oferecer para ele. Então caí fora.
Me livrei dos puxões dela e a encarei.
— Eu não quero o Bruno. Sou amiga dele. Você deveria entender que ele está com você porque é de você que ele gosta. Não tem porque ser tão insegura. Não tem motivos pra isso. E sim, eu vou embora, não se preocupe!
— Ah, não se faça de boazinha, Carolina. Conheço garotas como você. Eu sei que ele me ama. Não precisa me dizer. Ele mesmo me diz isso milhares de vezes quando estamos na cama. Acontece que garotas como você ficam em cima, até que o cara acabe cedendo. Eu vejo o tanto que liga pra ele. Eu vejo a marcação cerrada que faz em cima dele. Na certa, já foi pra cama com ele várias vezes de tanto que insistiu. Talvez seja por isso que ele nunca a levou a sério. E quer saber? Nunca a levará.
Eu tinha uma bola de tênis parada em minha garganta. Quando fui sair, ela segurou minha mão.
— Se você disser alguma coisa do que houve aqui para o Bruno, acabo com você. E se algo de ruim acontecer entre nós dois por sua causa, acabo com a carreira dele, esteja certa disso.
Eu ri descrente.
— Como eu me enganei com você! Você me pareceu ser uma pessoa tão educada, tão fina. Mas vi que é pura encenação.
Quando fui me virar, ela puxou meu vestido, rasgando a alça dele e segurou meu pulso, cravando suas unhas em mim outra vez.
— Já eu, não me enganei com você em momento algum, desde a primeira vez que nos falamos, saquei que era uma putinha desesperada pra cair na cama dele. Mas olhe pra você! Você não é nada comparada a mim. Ela nunca escolherá você.
— Então por que está tão preocupada?
Puxei meu braço. Ela riu.
— Não estou preocupada. Só não quero que ache que eu sou boba. Não pense que está agindo pelas minhas costas. E não quero precisar ser agravável com você só para agradar meu namorado. Eu a convidei hoje, porque queria esfregar na sua cara que você não se insere nesse círculo social. O Bruno sabe que estando ao meu lado todas as portas se abrirão pra ele.
— Acabou o seu show?
Quando ela foi tentar me acertar outra vez, segurei a mão dela.
— Você é maluca. É deprimente ver o quanto você é desiquilibrada. O Bruno não merece isso.

— Você ainda não viu nada sobre o quanto sou maluca, agora some daqui e leve seu amiguinho babaca. — ela disse me empurrando com toda a fúria dela e abrindo a porta em seguida.

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