sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 14, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas

Parte 14

Gustavo veio em minha direção, abraçou-me e me girou ao redor do corpo dele.
— Uau, como você está gata! E seu cheiro? Minha nossa, Carol!— indagou ele mergulhando o rosto em meus cabelos.
— Obrigada! — falei acanhada.
— Você demorou? Droga, eu queria ter ido buscá-la.
— Eu sei, na verdade era pra vir com a minha mãe, mas meu pai quis me trazer.
— Eu entendo. Se você fosse minha filha, eu nem deixaria você sair assim.
Eu ri do jeito dele. Bruno ainda estava me olhando, parecia enfurecido.
— Vem vamos! — disse Gustavo pegando em minha mão.
— Espera! Gustavo, eu não...
— Você está na festa do seu amigo. Esquece o resto. Se alguém que está aqui te incomoda, apenas ignore.
Concordei sem dizer nada. Gustavo me carregou justamente para onde estava Bruno e a namorada. Tiago também estava lá com uma garota e foi me cumprimentar assim que me viu.
 — Ei sumida! Abandonou os amigos, é? — ele disse dando-me uma piscada.
Eu o abracei em seguida.
— Você está bem? — Tiago sussurrou em meu ouvido.
Todos eles sabiam que eu estava incomodada com o fato de o Bruno estar com a namorada.
— Estou sim, pode ficar tranquilo!
Tiago me apresentou a garota que estava com ele e como ela estava ao lado do Bruno e da namorada, era impossível não os cumprimentar.
— Oi, Bruno! — disse totalmente sem jeito.
Bruno colocou a mão em minha cintura e aquilo foi suficiente para deixar minhas pernas bambas.
— Oi, Carol!
Meu coração disparou.
— Carol, você já conhece a namorada do Bruno? — ironizou Gustavo.
— Ah, nós nos vimos, mais foi tudo muito rápido, é Melissa, não é?
Ela sorriu feito o gato de Alice.
— Isso mesmo, é um prazer conhecê-la Carol. O Bruno sempre falou muito bem de você.
Melissa se inclinou e beijou meu rosto. Olhei para Bruno que abaixou a cabeça.
— O prazer é todo meu, Melissa. Ele também sempre fala muito de você.
— Espero que sejam coisas boas. — desdenhou ela.
— Ah, com certeza são sim. — disse esboçando outro sorriso. — E você, está melhor?
— Estou sim! Agora é só o incomodo do braço, mas as dores já estão indo embora.
— Que bom, fico feliz!
Melissa concordou me lançando um sorriso. Gustavo me puxou em seguida, fazendo com que ficássemos cara a cara.
— Vem! Vamos beber alguma coisa.
Assenti e ele me levou até o barman.
— Não quero beber, meu pai vem me buscar, esqueceu?
— Tá, não se preocupe. É bem fraquinho, eu garanto. — ele disse entregando-me uma taça.
Gustavo me puxou para dançarmos e se inclinou em meu ouvido.
— Liga pro seu pai, fala que você vai com a Pati. Assim eu a levo pra casa.
Soltei um sorriso sem graça.
— Ele me fez prometer que eu ligaria. Tá tentando recuperar o tempo perdido.
Gustavo concordou frustrado. E por sorte Pati veio e marcou território.
— O Felipe está chamando você, agora deixa a Carol comigo, vamos dançar e sem você por perto.
Ele me encarou como se quisesse minha aprovação.
— Você ouviu a primeira dama da festa.
Ele forçou um sorriso.
— E aí, como foi?
— O Gustavo disse que ele não viria.
— O Bruno disse que não viria, mas decidiu vir em cima da hora.
— Droga. Estou sem saber como agir perto dos dois.
— Prometo não sair do seu lado à noite toda.
— Espero! Porque o Gustavo está de marcação comigo e eu já não sei como me esquivar dele.
— Ah, já percebi, ele não parava de perguntar de você. O Bruno estava quase acertando a cara dele.
— Ah, é? Bem feito para ele.
— Também acho. Eu de você ficaria com o Gustavo. O Bruno morreria de ódio.
— Isso não seria justo com o Gustavo. Não posso usá-lo para fazer ciúmes para o Bruno.
— Afff, você é muito certinha. Por isso que o Bruno não leva você a sério.
Senti como uma facada no peito, mas não disse mais nada. Afinal, ela tinha razão.
Ficamos dançando e eu tentei disfarçar meu nervosismo. Algum tempo depois, Gustavo me levou outra bebida e ficou ao meu lado, Felipe em seguida juntou-se a nós.
Fomos pra mesa, na qual Tiago estava com a garota dele e em seguida Bruno veio e sentou-se com a Melissa, ficando de frente para mim. Simplesmente o evitei o tempo todo, já Gustavo o provocou a todo o momento, cantando-me, brincando comigo e passando a mão em meus cabelos. Houve um momento que eles começaram a se alfinetarem verbalmente e nesse momento, levantei-me e saí.
— Ei, onde você vai? — disse Gustavo vindo em minha direção.
— Sei que você está tentando me proteger, mas pare de provocar o Bruno, isso me afeta de certo modo.
— Só estou fazendo isso para você não ficar por baixo.
Nesse momento olhei para Bruno e ele estava me encarando.
— Eu não estou por baixo pode ficar tranquilo. Mas vou embora se você continuar com isso.
Gustavo balançou a cabeça positivamente.
— Tá, tudo bem, me desculpe! Não quis te magoar. É que você sabe, fiquei muito fodido com o que o Bruno fez com você.
— Ele não fez nada! Eu fiquei com ele porque eu quis. Sabia que ele estava com a Melissa, sempre soube. Aliás, eu fui a primeira pessoa a saber do namoro dele. O Bruno é meu amigo, sempre foi e nada vai mudar.
— O Bruno vacilou com você. Há uns dias vocês estavam desfilando de mãos dadas e ele disse na minha cara que ia resolver a situação com a garota dele, mas agora é ao lado dela que ele está. Não tem como fingir que não aconteceu nada, Carol. Você ficou mal por isso, tanto que preferiu ficar com seu pai. Não é justo que ele a engane dessa forma. Ele é meu amigo, já disse, mas você é importante pra mim e eu não aguento vê-la triste dessa forma.
— Eu estou bem, Gustavo. É sério.
— Tem certeza?
— Claro que sim! Mas o clima está pesando com suas provocações, então te peço por favor, pare com isso.
Gustavo me encarou e concordou.
— Tá legal. Quer sair daqui, sei lá, dar um volta? Podemos ir embora se quiser.
Nesse momento, ele se aproximou de mim mais do que eu queria.
— Você é meu amigo e eu não quero estragar isso também.
— Nós não vamos estragar nada, eu sou maluco por você há anos. Só me dá uma chance! Prometo fazer de tudo pra que não se arrependa.
Minha respiração estava entrecortada. Olhei na direção da mesa e não só Bruno, mas todos estavam olhando para toda aquela cena.
— Gustavo, eu amo você! Mas não da maneira que gostaria, você é meu amigo, apenas isso.
Ele me olhou frustrado, inclinou-se e sussurrou em meu ouvido.
— Eu amo você de todas as formas, pode ter certeza! Se um dia você achar que eu mereço uma chance, provarei que eu posso fazê-la feliz. Saiba que eu jamais trocaria você por outra garota.
Eu apenas concordei e saí em seguida. Fui buscar uma água e liguei para meu pai ir me buscar. Precisava sair daquele ambiente o quanto antes, já que o clima estava pesando mais do que imaginara.
 Fui até o banheiro e vi alguém resmungando, como se estivesse com algum problema em seguida ouvi um barulho. Mesmo assim, entrei e fiz xixi. Quando estava saindo, vi Melissa com a meia calça toda enrolada, tentando arrumá-la com apenas uma mão.
— Melissa, posso ajudá-la?
Ela sorriu aliviada.
— Com certeza.
Abaixei-me e a ajudei a levantar a meia calça, em seguida arrumei sua saia.
— Você me salvou! Estava quase saindo com a meia abaixada para pedir ajuda.
— Imagina! Devia ter me chamado quando estávamos na mesa que eu vinha com você.
— Muito obrigada!
— Bom, se precisar de ajuda, pode me chamar. — falei dando-lhe um sorriso.
— Você é muito legal, Carol. Vou te contar um segredo: toda vez que o Bruno falava de você ou mencionava seu nome, morria de ciúmes. Mas agora vejo que ele está coberto de razão em ser seu amigo.
Senti um remorso tão grande que cheguei a ficar sem ar. Ela não podia me achar legal, ainda mais depois do que eu havia feito com ela.
— Hmmm... Mmmm... Obrigada! Você também é muito legal — gaguejei.
— Obrigada! É uma pena que você ficou fora esses dias. Talvez teríamos nos tornado grandes amigas.
— Ah, é, fui pra casa do meu pai. Eu tinha prometido ficar uns dias com ele nesses férias, então...
— E como é esse lance de pais separados? Quer dizer, você demorou para se adaptar? Porque os meus pais também estão se separando e eu não estou sabendo lidar com isso.
— Na verdade isso foi a melhor coisa que aconteceu na vida deles. Hoje posso dizer que eles estão plenamente felizes. Porque era um inferno o casamento deles e isso me atingia muito, eram muitas brigas, muitas discussões, desconfiança, enfim, não era saudável para mim e nem para eles. E depois da separação, nossas vidas melhoraram em todos os sentidos. Então se seus pais estão se separando, significa que eles buscam uma nova chance de serem felizes, porém, mesmo separados, continuarão sendo seus pais para sempre, isso nunca irá mudar.
Melissa me olhou como se me analisasse.
— Ninguém nunca me falou isso, assim, dessa maneira. Parece que dessa forma como você colocou, as coisas tornam-se mais fáceis.
— Eu digo porque passei por isso. E era horrível conviver com meus pais sabendo que qualquer coisa que um dissesse viraria uma grande briga. Eles viviam pisando em ovos, ainda assim não conseguiam se entender. Então dê aos seus pais essa chance, talvez eles nem fiquem muito tempo separados ou talvez encontrem a felicidade em outras pessoas. Casamentos começam e terminam todos os dias.
— É, talvez você tenha razão. Obrigada novamente!
Olhei para a Melissa sentindo-me péssima por amar o Bruno.
— Bom, eu preciso ir. Meu pai já deve estar me esperando.
— É, eu e o Bruno também já vamos. — ela disse enquanto saíamos do banheiro.
Bruno estava parado do lado de fora e ficou surpreso ao nos ver saindo juntas e sorridentes do banheiro. Minhas pernas fraquejaram quando seus olhos buscaram os meus.
— Bruno, a Carol me salvou! Não consegui erguer minha meia-calça que estava toda enrolada e ela me socorreu.
Sorri sem graça.
— Obrigado, Carol. — ele disse ainda mais sem jeito.
— Não precisa agradecer.— falei dando-lhe um olhar consternado — Eu já vou indo. Meu pai deve estar me esperando.
— Ah, gato, vamos pra casa também! Estou cansada. — falou Melissa.
Bruno concordou em silêncio e tornou a me encarar.
— Quer que eu a leve pra casa? Assim seu pai não precisa vir até aqui.
Senti meu rosto corar.
— Não, Bruno, eu agradeço. Provavelmente ele já deve estar aqui.
Bruno balançou a cabeça parecendo chateado.
— Foi um prazer ver vocês!
Nesse momento me despedi de Melissa e de Bruno e saí em seguida.
Cinco meses se passaram, meses que eu me dediquei única e exclusivamente em estudar para me sair bem nos vestibulares. E foi bem assim. Prestei inúmeros vestibulares e arrasei em todos, tanto que eu podia escolher qual faculdade cursaria.
No começo de janeiro estava exausta, após a maratona de provas. Foi então que enfim consegui viajar para o exterior. Como eu e Pati seguiríamos caminhos diferentes, decidimos viajar juntas como despedida. Ficamos fora por quase um mês, e nessas férias, a única notícia que tive do Bruno foi que ele estava em Porto Alegre e Felipe ainda contou para a Pati que o Bruno não estava mais namorando. Porém, eu nunca mais tinha atendido as ligações dele, tanto que ele já nem me ligava mais. Quando cheguei em Porto Alegre, Bruno já havia voltado para Lorena e na semana seguinte foi minha vez de me mudar para São Paulo.
Os meses de adaptação longe de casa foram cruciais. Não conseguia me acostumar com a falta que eu sentia da minha mãe, era quase uma tortura ficar tão longe de casa, longe dos cuidados dela, longe dos meus amigos, longe do meu canto.
Morava sozinha em um apartamento perto do campus da faculdade. Tinha feito pouquíssimos amigos em meses. Tanto que em minhas primeiras férias de volta a Porto Alegre, chorei muito e quase não voltei para São Paulo. Queria a todo custo continuar em minha cidade, principalmente perto da minha mãe.  Só voltei, porque havia ganhado um carro de presente de aniversário de meu pai, mas eu teria que retirá-lo em uma concessionária em Sampa. Meu pai viajou comigo, e só voltou para Porto Alegre quando que eu estava com meu carro em mãos.
Em todo esse tempo, só havia falado com o Bruno duas vezes, a primeira vez em março no dia do aniversário dele de dezenove anos, quando eu liguei para parabenizá-lo e a segunda vez foi em junho em meu aniversário de dezoito anos, quando ele me ligou. Fiquei extremamente desorientada quando falei com ele, pois a saudade que eu sentia era algo devastador. Me matava um pouco a cada dia.
No segundo semestre, conheci Daniel. Ele estava no sexto semestre de economia. Apaixonei-me pelo Dani assim que o conheci, em uma festa da USP, a FEA-Fest. Começamos a sair a partir daí. Ele era lindo, na verdade muito mais do que lindo. Daniel tirava meu chão toda vez que saíamos. As meninas da minha turma e das outras turmas morriam por causa dele e não entendia o porquê, mas ele havia me escolhido.
Nos tornamos inseparáveis. Ele ficava em meu apartamento todos os dias da semana, indo embora somente de madrugada. Nos finais de semana, sempre íamos para o litoral com os amigos dele, pois os pais de Daniel tinham uma casa enorme em Maresias.
O único problema era que ele era explosivo demais e muito, muito ciumento. Tanto que não podia me ver conversando com nenhum colega de classe, pois era briga na certa.
Nas férias de final de ano fui para Porto Alegre, onde passei apenas quinze dias e depois encontrei o Daniel em Maresias e lá ficamos o restante das férias. Nessas férias, assim como na anterior, eu e Bruno nos desencontramos, dessa vez, segundo minha mãe ele chegou em Porto Alegre no dia seguinte que eu havia saído.
Daniel queria a todo custo que eu parasse com as pílulas, pois queria que eu engravidasse. Isso me deixava em pânico, primeiro que era muito cedo, segundo porque isso estava fora de cogitação, afinal, eu tinha mais três anos de faculdade pela frente, então, logicamente nunca levei em consideração os apelos dele.
Entretanto, amava estar ao lado dele, ele me fazia esquecer quase todo o resto. Mesmo sendo meio sem juízo, era romântico e apaixonado e fazia tudo para estar ao meu lado.
No terceiro semestre da faculdade, eu e Daniel começamos a entrar em atritos. Ele estava aos poucos se instalando em meu apartamento, mas isso não m incomodava tanto assim, porém, ele começou a andar com uns carinhas estranhos da faculdade. Estava ficando cada vez mais ciumento e cada vez mais impulsivo, vendo coisas onde não existia.
Em março liguei para o Bruno, pois era aniversário de vinte anos dele. Dessa vez nos falamos por mais de horas ao telefone. Mesmo com tanto tempo sem nos falarmos, ainda estávamos em perfeita sintonia. Contei a ele sobre meu namorado problema e ele me disse que também estava saindo com uma garota que era extremamente ciumenta.
Bruno também me ligou em meu aniversário de dezenove anos, mas conversamos muito pouco, pois Daniel não saía do meu lado, tanto que assim que desliguei o telefone, tivemos uma briga gigantesca por causa do telefonema de Bruno. Naquela noite, ele me disse coisas horríveis e quase foi para cima de mim, e depois sumiu, voltando apenas na manhã seguinte.
Chorei a noite inteira, após o Daniel ter feito toda aquela cena bem no dia do meu aniversário. Quando ele apareceu, na manhã seguinte, implorou que eu o perdoasse, mas fiquei sem conversar com ele por quinze dia. Depois acabei cedendo e voltamos a nos entender.
Voltei para Porto Alegre em alguns feriados e ele foi comigo, mas sempre ficávamos pouco tempo. Minha mãe não foi com a cara dele desde a primeira vez que o conheceu e ele não fazia questão de agradá-la.
Na faculdade, Daniel não me dava um minuto sequer de folga, ele me deixava na porta da minha sala e a cada troca de professor, lá estava ele, na desculpa de me dar m beijo. E claro, me esperava todos os dias para irmos embora juntos.
Passei as férias de julho quase toda em Maresias, mas nas duas últimas semanas, mesmo contra a vontade de Daniel, o deixei com os amigos e voltei para Porto Alegre, pois sentia falta da minha vida. Eu estava me renunciando para viver em função dele e chegou uma hora que decidi dar um basta.
Quando voltei para São Paulo, tivemos uma conversa séria e disse que continuaria namorando com ele, desde que ele não ficasse mais em meu apartamento durante a semana, afinal, ele estava quase morando comigo e eu queria minha individualidade de volta. Daniel não aceitou, então nós nos separamos. Entretanto, algumas semanas depois, ele me procurou e aceitou minhas imposições.
Todas as garotas do meu curso ficavam extasiadas quando ele estava por perto. Achavam que ele era o homem perfeito, romântico e apaixonado; contudo, ninguém o conhecia a fundo como eu, ninguém imaginava o quão complicado ele era, o quão difícil estava nosso relacionamento e principalmente, ninguém sabia o quanto ele estava me sufocando.
...
Estávamos em setembro, era uma sexta-feira e como tive aula até o final da tarde, parei no apartamento do Dani. Ele tinha acabado de chegar do estágio e ficou todo eufórico com a minha chegada. Namoramos um pouco de depois de um banho, ele saiu para comprar nosso jantar. Foi a primeira vez que tive a curiosidade de mexer nas coisas dele. Eu meio que estava desconfiando de suas atitudes, por isso, resolvi procurar algo que justificasse sua mudança.
Foi então que encontrei uma bolsa escondida dentro do armário do quarto de hóspedes. Abri a bolsa e me deparei com um arsenal de drogas. Tinha drogas de todos os tipos. Drogas das quais eu nem imaginara que existisse. Fiquei em choque ao ver tudo aquilo. Achei também duas armas e tinha bastante dinheiro em uma outra bolsa um pouco menor. Não sabia se era para uso próprio ou ele estava repassando aquelas drogas. Fiquei em pânico! Meu coração ficou descompassado. Peguei minhas coisas e saí de lá sem avisar nada a ninguém. Já estava tarde da noite e não sabia para onde ir, pois se fosse para meu apartamento, na certa ele iria atrás de mim. Foi então que peguei meu carro e dirigi quase a noite toda e voltei para Porto Alegre, onde fiquei dez dias, sem atender aos telefonemas dele. Ele chegou a ir atrás de mim, mas minha mãe não autorizou a entrada dele no prédio.
Quando voltei para São Paulo, mudei de apartamento e passei a evitar os lugares que ele frequentava. Mesmo assim, ele fez um verdadeiro inferno em minha vida. Ficava plantado em frente à minha sala de aula e me perseguia quando eu saía do campus, afinal, ele sabia todos os meus horários. 
Depois de muita conversa e muitos nãos, ele parou de me procurar. Então soube uns dias depois que ele teve uma overdose e foi internado em uma clínica de reabilitação no interior do estado. A mãe dele entrou em contato comigo e teve a audácia de me culpar pelo estado dele, alegando que o filho só estava naquela situação porque eu tinha terminado com ele.
A partir daí quase todos os finais de semana eu voltava para Porto Alegre e ficava com minha mãe. Ester estava namorando um promotor, Alberto era o nome dele e ela mesma me contou que Bruno estava sem falar com ela há dias. Cogitei em falar com ele sobre o relacionamento de sua mãe, no entanto, não tínhamos mais nenhuma proximidade pra falar de um assunto como aquele.
Encontrei algumas vezes com Gustavo, Felipe e Tiago. Gustavo estava namorando uma garota da faculdade, mas Felipe e Tiago estavam solteiros. Assim, todas as vezes que voltava para Porto Alegre, saíamos juntos, nem que fosse só pra beber alguma coisa.
Nas férias de dezembro, fiquei em Porto Alegre o tempo todo. E mais uma vez não encontrei com Bruno, dessa vez ele estava estagiando em um laboratório multinacional.
Patrícia também estava na cidade e ficamos juntas a maior parte do tempo. Saíamos com Felipe, Tiago, Gustavo e a namorada. Foram as melhores férias que tive desde o início da faculdade, afinal, estava com meus amigos. Só faltava o Bruno para completar. Algumas vezes Felipe tirava fotos de todos nós e mandava para ele que nos ligava em seguida.

Quando comecei o terceiro ano da faculdade, mais precisamente o quinto semestre, conheci o Fábio. Ele veio transferido do noturno e ficamos bem próximos. Fábio era divertido, muito inteligente, centrado e era bonito. Não era lindo como o Daniel, mas pelo menos era mais estável.
Estudávamos juntos, saíamos juntos, íamos ao cinema e quando percebemos estávamos apaixonados. Ou não! Eu não sabia ao certo. Talvez fosse apenas a convivência. Mas o que importava era que ele era muito legal e extremamente carinhoso.
Fábio pensava como eu, tanto em relação aos estudos, quanto em relação a individualidade. Gostávamos de ficar juntos, todavia, cada um em seu apartamento. Eu não cobrava nada dele e nem ele de mim.
Nas férias de julho, eu já estava com vinte anos, e nós fomos para o Canadá, onde fizemos alguns cursos de férias. Saímos de lá, programados para voltarmos no final do ano. Mas, em novembro recebi um itinerário onde havia as datas das festas de formatura dos meus amigos. E eu estava proibida de não comparecer.
A primeira seria no final de dezembro, que seria a formatura do curso de Ciência da Computação do Gustavo, na segunda quinzena de janeiro, seria a formatura de Jornalismo do Felipe e alguns dias depois, a formatura do curso de Publicidade e Propaganda do Tiago. Todos eles me avisaram com antecedência para que eu não marcasse nada. Porém, eles ainda não sabiam que eu estaria fora do país, com o Fábio.
Conversei com o Fábio e combinamos que eu iria com ele para o Canadá, mas eu ficaria apenas alguns dias. Voltando a tempo para a formatura do Gustavo. Fábio ficaria em Vancouver até terminar os cursos, voltando para o Brasil apenas em fevereiro.
Assim que as aulas terminaram, eu, Fábio e mais alguns amigos fizemos nossas malas e partimos para o Canadá. Contudo, algumas semanas depois, tomei um voo para Porto Alegre, chegando apenas um dia antes da formatura de Gustavo. O avião pousou em Porto Alegre já era tarde da noite, minha mãe já me esperava assim que desembarquei. Quando ela me viu, abriu um sorriso imenso.
— Oh, minha filha, que saudades! — ela disse me abraçando. — E aí como foi?
— Frio, mãe! Muito frio! Estávamos virando picolé.
Eu parecia um esquimó, com roupas pesadas e botas e carregando um casaco em pleno verão brasileiro.
Quase uma hora depois já estávamos entrando em nosso apartamento. Estava realizada só de chegar em casa.
— Vai querer descer um pouco? Os meninos estão fazendo churrasco lá embaixo.
— Ah, acho que não. Estou exausta depois de tantas horas de voo. Preciso mesmo é de um banho e dormir.
— Você está certa, minha filha.  Eu nem falei nada para os garotos que você estava chegando de viagem. Gustavo acha que você não chegará a tempo.
— Hum, ótimo! — falei dando um sorriso. Assim eu faço uma surpresa a eles. E o Bruno, está de volta?
— Está. Chegou tem umas duas semanas. Mas logo ele volta por causa dos estágios.
Eu gelei por dentro.
— Ah, é verdade, havia me esquecido dos estágios.
— E o Fábio, não vem mesmo?
— Não mãe! O curso termina em fevereiro. Acredito que ele perderá até as primeiras semanas de aula.
— Entendi. Ele é realmente muito centrado. Gosto disso.
Sorri.
— Vou preparar alguma coisa para você comer. E seu pai pediu que ligasse para ele. Ele quer ver você esse final de semana.
— Tá, amanhã falo com ele.
Minha mãe me beijou novamente e saiu em seguida. Fiquei totalmente tentada em descer e rever meus amigos, mas ao mesmo tempo estava nervosa e insegura, afinal, seria a primeira vez que eu encontraria com Bruno, desde o ensino médio.
Tomei um banho demorado e em seguida comi um lanche que minha mãe havia me preparado. Ficamos conversando por um tempo e logo fui dormir. Acordei na manhã seguinte, uma quinta-feira, por volta das dez horas da manhã. Dei um pulo, pois tinha muitas coisas para fazer naquele dia.
Saí com a minha mãe. Compramos meus vestidos e sapatos para a formatura. Em seguida almoçamos com meu pai. Ele e minha mãe estavam bem mais próximos que antes, pareciam grandes amigos.
Mais tarde, minha mãe me levou ao salão do Bob, salão que ela frequentava. Fiz tudo o que precisava para sair de lá realmente apresentável.
Voltamos para o prédio já passava das seis horas da tarde. Liguei para a Pati que quase morreu de felicidade ao saber que eu estava na cidade. Combinamos de nos encontrarmos no clube onde seria a festa do Gustavo.
Usei um vestido longo na cor pink. Como seriam três dias de festa, comprei três vestidos com cores e modelos totalmente diferentes um do outro. O vestido era um luxo, com algumas aberturas na lateral, deixando parte da minha cintura a amostra. Meus cabelos estavam soltos, com as pontas levemente encaracoladas.
— Filha, está linda! Amei essa cor para você.
— Uau! Olha para você! Você está perfeita. Aonde vai? — indaguei.
— Hum, bom, eu...
— Dona Marília, que suspense é esse?
— Tá, você me pegou! — ela disse ficando corada. — Tenho um encontro essa noite.
Fiquei pasma, sem palavras. Mas ao mesmo tempo senti orgulho da minha mãe. Afinal, ela era a pessoa mais recatada que eu conhecia. Esse era o primeiro encontro que soube que ela teria desde que se separou de meu pai. Certamente ela já havia tido outros, entretanto, era muito discreta.
— Mãe, jura? Finalmente. Fico muito feliz. — falei e a abracei em seguida.
— Achei que você fosse me criticar.
— Eu? Por que faria isso? Você é linda. Tem mais que arrumar alguém. No entanto, preciso conhecê-lo.
— Sim, você vai, mas não hoje. — ela disse enquanto passava lápis nos olhos.
— E vocês estão namorando?
— Hum... Digamos que sim.
Eu ri alto.
— Não acredito, mãe. Por que não me disse antes?
— Carolina, precisava ter certeza que daria certo. E pelo que parece está tudo saindo bem. Então quando for o momento você o conhecerá.
Olhei para ela concordando.
Já passava das nove horas da noite quando minha mãe me deixou em frente ao clube.
— Depois você me liga?
— Não se preocupe mãe. Aí dentro tem todos os meus amigos, então algum deles pode me levar. Aproveite sua noite!
Ela inclinou-se e me beijou em seguida.
— Ah, e por favor se previna hein! Não quero um irmão a essa altura do campeonato. — disse eu sarcasticamente.
— Carolina! O que é isso! Olha o respeito. Ela disse séria, mas acabou sorrindo depois.
Meu celular tocou, era a Patrícia. Havia acontecido um imprevisto e ela chegaria atrasada. Pediu que eu entrasse sem ela. Minhas pernas amoleceram, pois eu contava com a presença dela para me sentir mais confiante para quando eu visse o Bruno.
Saí do carro assim que me despedi da minha mãe e entrei com relutância.  O caminho até o salão onde estava acontecendo a festa era todo enfeitado com flores e velas. A cada passo que eu dava, meu coração ficava ainda mais disparado. Entreguei meu convite a recepcionista que me levou até a mesa que estava reservada. Assim que fui adentrando o salão, avistei os rapazes de longe. E claro que eu dividiria a mesa ao lado de todos os eles.
— Ah, já avistei a mesa. — falei para a recepcionista.
Ela sorriu e voltou para seu lugar. Fui caminhando lentamente em direção a eles. Felipe foi o primeiro a me ver, cutucando o Bruno em seguida. Meus lábios me traíram e caminhei sorrindo, não sabia se
eu estava sorrindo de alegria ou de nervosismo por ver o Bruno depois de tanto tempo.

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