domingo, 24 de setembro de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 26, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas

Parte 26

Bruno - Caminhos paralelos
E mais uma vez nós estávamos seguindo caminhos diferentes. Quando enfim caí na real, vi que havia perdido mais uma vez a única garota da qual amei de verdade.
Mesmo assim, passei a ir para São Paulo todo final de semana e quando dava, aparecia no meio da semana também. Fiz da casa de Felipe minha segunda casa. Eu e a Carol nós falávamos todos os dias, e então o jogo estava invertido. O sol tinha trocado de lugar com a lua. Afinal, dessa vez era ela quem estava namorando e o foda era que ela parecia estar feliz. Isso me matava por dentro. Por sorte o cara trabalhava demais, então tínhamos algum tempo livre, e eu aproveitava cada segundo ao lado dela.
Os meses foram passando, passando e quando vi era final do ano. E como em nossa vida tudo era complicado, para o nosso azar, nossas formaturas caíram na mesma data, sendo assim, nem eu e nem a Carol, fizemos questão de participar das festas e comemoramos da nossa maneira com nossos amigos. E essa comemoração foi a minha despedida, pois em janeiro eu iria para Alemanha.
Eu sabia que indo embora, Carol ficaria ainda mais disponível para o namorado e aquilo me consumia. Eu tinha a opção de não aceitar o emprego, mas ficar e vê-la ao lado dele o tempo todo iria ser uma tortura para mim. Doía demais ver os dois juntos, por mais que eu disfarçasse, não estava sabendo lidar com a situação.
Nossa despedida foi em meio à lagrimas. Tanto da minha parte quanto da dela. Carol me abraçou tão forte na hora do embarque, que estava prestes a jogar tudo para o alto e recusar o emprego. Mas não o fiz. Ao invés disso, beijei o topo da cabeça dela e quando fui sair, não resisti e beijei os lábios dela.
Comecei a trabalhar em Berlim e foram dias cruéis. Não me adaptava com o lugar, nem com as pessoas, e a saudade de casa e dos meus amigos era imensa. Mas o que mais pegava era a saudade da Carol.
Felipe arrumou um emprego para o Tiago no mesmo jornal em que ele trabalhava, e Tiago passou a ser companhia constante da Carol e do Felipe. Carol estava trabalhando no Banco Central, após ter sido aprovada no concurso público e estava amando o emprego e sua vida parecia estar entrando nos eixos. Trabalho mais do que estável, namorado, família e amigos. E eu me sentia cada vez mais perdido, longe de todos e longe da garota que eu amava. Então, só o que eu pensava era em voltar para o Brasil, embora o emprego fosse bom, o salário enorme e uma proposta tentadora de continuar em Berlim caso eu quisesse. Entretanto, se optasse em voltar para o Brasil, ainda teria o emprego, na filial em São Paulo, porém, o salário era bem menor. O lado bom é que teria a todos que eu amava por perto. A dúvida estava instaurada em minha cabeça e eu não fazia ideia do que fazer.
Era uma terça-feira qualquer de maio, e a Carol me chamou no Skype por volta das onze horas da noite em Berlim. Entrei todo sorridente e a encontrei com os olhos inchados.
— Ei, o que aconteceu?
— Senti muito sua falta hoje, sabia?
Eu ri.
— Também sinto sua falta. Mas por que você chorou? Não me diga que aquele babaca fez alguma coisa?
Quando disse isso, as lágrimas dela começaram a cair sem parar. Congelei por dentro, com medo do pior.
— Carol, me fala!
— Quando você volta?
— Ainda não sei. Meu contrato termina em junho. Aí preciso decidir se fico ou se volto.
— Ficar? Como assim?
— É, recebi uma proposta, na verdade é uma proposta tentadora, mas ainda não decidi.
— E quanto a morarmos em São Paulo? Você já deixou isso para trás?
— Claro que não! É por isso que não dei nenhuma resposta.
Carol ficou em silêncio por alguns minutos e depois me encarou, cheia de dúvidas e tristeza em seu olhar.
— Bruno, o César me deu isso aqui. — ela disse me mostrando um anel que estava em sua mão direita.
Eu gelei por dentro.
— Vocês ficaram noivos?
Ela só fez que sim com a cabeça.
As palavras sumiram. Abri a boca pra dizer alguma coisa e acabei desistindo. Ela também estava em silêncio, na certa esperando que eu me posicionasse.
— Bruno, fala comigo!
— Bom, eu não sei nem o que dizer! É pra eu ficar feliz com a notícia? Tipo dar os parabéns como todo mundo faz?
— Me diga você!
Sentia como se tivesse levado um murro na cara. Não. Na cara não, no saco, daqueles que de tão doloroso, chega a esvaziar todo o ar dos pulmões.
— Bom... Eu... Eu preciso dormir, então a gente se fala depois. — falei desligando o notebook em seguida.
Meu coração ficou despedaçado e eu não sabia mais o que pensar, muito menos o que fazer.
Fiquei dias sem falar com ela, sem atender os telefones ou responder suas mensagens. Sentia como se eu tivesse sido traído, o que na verdade era injusto, pois eu quem a tinha jogado nos braços dele desde a primeira vez.
Quando meu chefe foi falar comigo na última semana de maio, eu já tinha a resposta para ele.
— E aí Bruno, o que decidiu?
Meu chefe era brasileiro assim como eu, e morava em Berlim há anos e pelo o que tudo indicava ele nunca mais voltaria para o Brasil.
— Marcus, a proposta é irrecusável, mas no momento eu não posso ficar. Preciso primeiro acertar minha vida e minha vida está no Brasil.
— Você tem certeza? Você é novo ainda, e é o momento de fazer sua carreira.
Eu sorri.
— Eu sei, mas é que no momento eu tenho outras prioridades. Claro que eu preciso do meu emprego, mas não posso ficar aqui. Quem sabe um dia eu volto para cá, com a minha família completa.
— Nesse caso, você é quem manda, seu emprego em São Paulo também está garantido. — ele disse saindo em seguida.
Senti como se uma tonelada tivesse saído as minhas costas. Assim que cheguei em casa, liguei para a Carol.
— Decidiu aparecer? — ela perguntou irritada.
— Você pode falar ou seu futuro marido está aí?
— Engraçadinho. O que você quer?
— Só liguei para dizer que estou com saudades e sinto sua falta.
Carol ficou muda.
— Ei, ainda está aí?
— Claro que sim! — ela disse com a voz estranha. — E eu morro de saudades de você. Você não tem o direito de sumir assim.
Percebi que a Carol estava chorando. Nós conversamos um pouco e logo depois ouvi a campainha dela tocar, sabia que na certa era o “mala” do professorzinho.
No dia sete de junho embarquei para o Brasil, e ia chegar a tempo da festa de vinte e dois anos da Carol, que seria uma festa surpresa no apartamento do Felipe. No dia oito pela manhã estava desembarcando em São Paulo e apenas duas pessoas sabiam da minha volta, minha mãe e Felipe que me buscou e me levou direto para o apartamento dele. Descansei um pouco enquanto Felipe foi trabalhar, mas após o almoço ele voltou, onde preparamos a festa da Carol. Felipe arrumou uma desculpa e ligou para que ela e o  namorado fossem jantar no apartamento dele naquela noite, já que era a véspera do aniversário.
Por volta das sete horas da noite, os convidados começaram a chegar, os primeiros foram minha mãe, Marília e o Gustavo, que fizeram a maior festa quando me viram. Mais tarde, foram chegando uns amigos da Carol, amigos esses que eu não fazia ideia de quem eram, logo depois chegou Tiago com a namorada paulistana.
 Então o porteiro nos avisou que Carol estava subindo. Meu coração faltou sair pela boca, afinal, fazia seis meses que não nos víamos pessoalmente.
A campainha tocou e todos ficamos em silêncio. Eu fui para o fundo da sala, assim ela veria primeiramente os outros convidados. Felipe abriu a porta e eu a vi, e ela estava ainda mais linda do que na última vez. Eu não entendia como isso era possível. Afinal, ela a cada dia que passava ela ficava ainda mais linda. Carol estava com um vestido preto justo ao corpo de mangas longas. E o mala do namorado ao lado dela, sorridente como o gato de Alice.
Todos nós começamos a cantar parabéns assim que ela se deparou com a sala repleta de gente. Carol ficou estagnada ao ver a surpresa e abraçou primeiramente Felipe, e em seguida o namorado, que a beijou por uma eternidade.
“ Maldito idiota.”
Fiquei cego de ciúmes naquele momento. Marília foi abraçar a filha e ela ficou emocionada ao ver a mãe, depois cumprimentou Tiago e o Gustavo, que para a minha surpresa se portou totalmente diferente na presença do namorado da Carol. Seus outros amigos a cumprimentaram e eu só observava de longe. Foi então que ela viu a minha mãe, nesse momento eu fui para o quarto de Felipe, pois minha mãe diria a ela para que fosse até o quarto de Felipe, pois eu estaria online para falar com ela pelo Skype. Tínhamos pensado em tudo.
Alguns minutos depois, ouvi o clique da maçaneta. Fui para detrás da porta, assim ela não me veria logo de cara.
— Até o Bruno sabia? Eu vou matá-lo. — ela disse indo em direção ao ipad.
Minha mãe piscou para mim ao me ver.— Ah, ele não está online!
— Sério! Que estranho! Vou ver com o Felipe o que ele combinou com o Bruno.
Nesse momento, minha mãe saiu nos deixando a sós.
Fui até ela que estava de costas para mim, sentada na cama.
— Feliz aniversário, linda.
Carol virou-se e seus olhos brilharam ao me ver.
— Eu... Eu não acredito nisso! — ela disse me abraçando fortemente em seguida.
Eu a abracei como desejava abraçá-la há meses. Meu coração ficou descompassado só de sentir seu corpo junto ao meu. Tê-la em meus braços era como estar no paraiso.
— Não posso acreditar que você está aqui! — ela insistiu. — Caramba Bruno, conversamos o quê? Há uns dois dias? E você nem comentou que viria. Você não sabe o quanto isso me deixou feliz. Não. Feliz não. E muito maior do que isso, nem sei como explicar.
Eu sorri.
— É seu aniversário. Eu sempre dou um jeito de aparecer.
Ela sorriu e eu sorri ainda mais.
— Isso é para você. — eu disse entregando-lhe uma caixinha da Tiffany.
— O quê? Você é maluco? — ela disse esboçando um largo sorriso.
— Por você!  — eu disse em sussurro.
Carol me encarou por um minuto, descendo seu olhar para meus lábios. Sabia que naquele exato momento ela estava pensando no mesmo que eu. Nossas respirações se fundiram. Ele umidificou os lábios e eu me inclinei para beijá-la.
Nossos lábios se tocaram, porém, ela se deu conta do que estávamos fazendo e recuou.
— Uau, o que tem aqui. — disse abrindo a caixa, só para disfarçar.
Os olhos dela se projetaram sobre o colar duplo em ouro amarelo com o pingente do infinito.
— Bruno, isso é... Meu Deus, é incrível.
— Esse colar é para você se lembrar que meu amor por você é perene.
Ela me olhos e vi suas lágrimas brotando.
— Você vai me matar desse jeito.
Sorri orgulhoso.
— Bom, não era essa a intenção.
Ela sorriu.
— Senti muito sua falta!
— Também senti sua falta, Bruno.
Tornamos a nos encarar. O silêncio paraiva entre nós, embora o som que vinha da sala era alto. Eu a puxei em meus braços, inalando o cheiro bom que vinha dela.
— Só pensava em ficar assim com você. Quase enlouqueci sozinho naquele lugar.
Carol passou a mão em meu rosto.
— Você não tem ideia do quanto estou feliz. Ter você aqui comigo é o melhor presente do mundo.
Sorri agradecido e a beijei outra vez. Meu coração estava descompassado. Os lábios dela imploravam pelos meus, meu corpo implorava pelo dela.
— Carol! — exclamou César abrindo a porta.
Carol deu um pulo para trás. César nos encarou desconfiado, embora não tivesse visto nada.
— Ah, César! Olha que surpresa linda! Ele voltou. — ela disse olhando para mim.
César paralisou. Não sei ao certo no que ele estava pensando, mas sabia que minha presença também o incomodava.
— E aí Bruno, não sabia que tinha voltado.
— É eu cheguei hoje.
— Ah, legal. — disse sem ser convincente e virou-se para ela. —  Carolina, seus convidados estão esperando por você.
— Hmmm... Estou indo. — Carol falou forçando um sorriso.
— Bruno, coloca para mim. — ela disse me entregando o colar.
César nos encarou exacerbado. Eu mais do que depressa peguei o colar e o coloquei em seu pescoço. Estava morrendo de felicidade por dentro.
— Ficou lindo! — eu disse ao admirar a joia no pescoço dela.
Ela sorriu.
— Não é perfeito? — indagou ela mostrando para César.
— Mmmm... É bonito. Então vamos?
Carol concordou com a cabeça.
— Bruno, eu nem sei como dizer. Você mais uma vez me deixou sem palavras. Obrigada. Obrigada por estar aqui, obrigada pelo presente e obrigada por fazer parte da minha vida. Não teria graça sem você por perto.
— Eu disse que voltaria e que começaríamos nossa vida em São Paulo, não disse?
Ela sorriu lindamente.
— Espero por isso há anos. Confesso que tive medo quando você disse que ainda estava decidindo sobre o que faria. Mas, tenho a certeza absoluta que você fez a escolha certa.
— Eu também tenho! — falei sem hesitar.
— Podemos ir? — insistiu César.
Carol assentiu para ele, no entanto segurou a minha mão e me guiou pela sala. César provavelmente não deve ter gostado nada, nada daquela cena, tanto que me encarou com cara de ódio.
Ela me apresentou a todos os amigos e ficamos juntos praticamente a noite toda. Mas o professor fez questão de marcar território.
Na hora do primeiro pedaço de bolo, Carol ficou um tanto quanto em jeito, pois todos silenciosamente a encaravam.
— Escolher uma única pessoa para homenagear com o primeiro pedaço de bolo pode soar injusto às vezes. Como hoje por exemplo, tenho pessoas que estão aqui presentes que significam muito para mim. Porém, não poderia deixar de dizer o quanto fiquei surpresa com a presença de uma certa pessoa que atravessou o oceano pra vir se juntar a mim. Aliás, a cada aniversário, ele sempre dá um jeito de estar por perto e isso faz de mim a pessoa mais sortuda do mundo. Então, não poderia ser diferente, meu primeiro pedaço de bolo vai pra você, Bruno.
Sorri desconcertado com o discurso dela. Fui até ela e a abracei, inalando o cheiro bom que vinha de sua pele.
— Obrigado! Amo você! — falei em sussurro.
Ela sorriu, mas disfarçou. Entregou-me um pedaço de bolo e eu saí, indo em direção aos caras. O tal professor estava vermelho feito pimenta. Era evidente seu descontentamento.
Por volta da uma hora da manhã, ele a chamou para ir embora. Eles conversaram e a impressão que eu tive foi que estavam discutindo.
Vi que eles conversaram por um tempo, então ele se foi. Carol ficou conversando com a mãe dela e aproveitei para me aproximar.
— Ele saiu bravo ou foi impressão minha?
— Bravo? Que nada! Estava furioso. — ela disse fazendo uma careta. — Poxa, é minha festa, são meus convidados e eu não posso simplesmente deixá-los e ir embora com ele.
— Eu concordo.
—  Depois quero saber de tudo, os mínimos detalhes da viagem e principalmente se é verdade que você veio para ficar.
— Isso eu posso adiantar. Voltei para ficar. Já vou começar procurar um apartamento. Meu emprego já está garantido. Vou apresentar na próxima semana na empresa aqui em São Paulo.
— Mas e quanto à proposta tentadora? Você desistiu?
— A grana era boa, isso não vou negar, mas do que adianta se as pessoas que amo estão aqui.
Carol olhou nos meus olhos, deixando um resquício de sorriso escapar.
— Você não faz ideia do quanto fico feliz em ver você pensando assim. — ela disse me abraçando. — Ah, e eu também preciso de um apê novo. Poderíamos ser vizinhos novamente, o que acha?
— Na verdade prefiro ser seu namorado em vez de ser apenas seu vizinho.
Carol mordeu o lábio e sorriu, balançando a cabeça em negação.
— Tá, vamos começar devagar. Tudo bem ser seu vizinho a princípio.
— Ah, meu Deus, isso não vai prestar.
Ri alto.
Os caras se juntaram a nós. Gustavo a puxou e a abraçou.
— Finalmente o babacão foi embora.
— Não fala assim, ele é um cara legal.
Discordei em silêncio e virei o copo de cerveja.
 Ficamos juntos até o último convidado ir embora.
Eu e mãe da Carol passamos a quinta e a sexta-feira em busca dos apartamentos, mas não achamos. No sábado pela manhã, uma corretora me ligou dizendo que tinha achado dois apartamentos vizinhos no Jardim Paulista, o que seria excelente para mim e para a Carol.
Liguei para a Carol e fomos no mesmo instante conhecer o local, que era perfeito. O prédio era novo, então havia vários apartamentos sem alugar, entre todos eles, dois estavam no vigésimo andar. E logicamente que nem quisemos ver os outros.
Carol parecia uma criança de tão feliz e eu ainda mais. Marilia ficou radiante, pois sabia que um cuidaria do outro, sem contar que o condomínio ficava em um lugar privilegiado e seguro.
— É esse. — disse ela, abraçando-me.

Ficamos o sábado praticamente inteiro juntos, mas a noite ela tinha que sair com o namorado, o que me deixava arrasado por dentro.

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