terça-feira, 26 de setembro de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 28, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas
Parte 28

— Obrigado pelo jantar! — disse o professor apertando minha mão.
— Obrigado por ter vindo. — falei, sentindo um gosto amargo na boca.
Ele apenas balançou a cabeça, despediu-se dos outros e então eles se foram.
— Imbecil!  — pensei alto assim que ele saiu.
— Cara, o clima pesou. — falou Felipe.
— Pesou? Eu achei que fosse ter um tiroteio nessa sala. Foi foda toda essa tensão. — completou Gustavo.
— Ele te odeia cara! — emendou Tiago.
— É bem recíproco. — falei rangendo os dentes.
— Bom, não sei o que houve aqui, mas vamos dar um rolê? — indagou Beto.
— Só se for agora! — disse Gustavo levantando-se em seguida.
Fomos para uma balada alguns minutos depois. A balada estava bombando e tinha garotas de sobra. Todos os meus amigos estavam acompanhados e eu fiquei no bar enchendo a cara. Estava possesso com aquele fdp, e ainda mais possesso em saber que eles estavam a sós no apartamento dela.
Uma garota parou ao meu lado e começou a puxar conversa. Estava cego de tanto beber e quando vi, já estava com ela pendurada em meu pescoço. Enquanto a beijei, olhei para ela e vi a Carol me beijando. Mas era pura piração. A garota não chegava nem aos pés dela.
Os dias foram passando. Todas as manhãs eu ia até o apartamento da Carol, onde tomávamos nosso café da manhã juntos e em seguida saíamos para o trabalho. Durante o almoço, conversávamos por mensagens de texto e a tarde sempre combinávamos alguma coisa.
Ela tinha livre três dias da semana onde o professorzinho dava aula na faculdade. Então, nesses dias sempre saíamos ou assistíamos filmes ou apenas ficávamos juntinhos no apartamento dela ou no meu. Todas as sextas-feiras era sagrado encontrarmos Felipe e Tiago. Era o dia que a Carol tinha para ficar com os amigos, já que o namorado dela ficava fora e ele detestava isso. Íamos a barzinhos, choperias, restaurantes, ou organizávamos jantares no apartamento de um ou de outro, onde passávamos horas jogando baralho e tomando cerveja.
Eu e a Carol estávamos cada vez mais ligados, se é que isso era possível. Eu olhava para ela e sabia exatamente o que ela estava pensando e vice-versa.
Numa manhã de sábado, levantei-me e me arrumei, minutos depois, fui até o apartamento dela preparar meu café. Assim que a porta abriu, vi o professor só de calça jeans, sem camisa, ele parecia estar se arrumando para ir embora.
— Bom dia! — falei entrando em seguida.
Entrei acanhado, mas entrei. Ele me olhou incrédulo.
— Você precisa de alguma coisa?
— Não, só vim preparar meu café. — falei colocando a cápsula de café na cafeteira.
— Mas, como assim? Você simplesmente entra, toma seu café e...
— Sim, faço isso todas as manhãs. Não sabia?
César balançou a cabeça em negação, resmungou alguma coisa e foi em direção ao quarto.
Sim, ele tinha razão! Afinal, eu não admitiria uma coisa daquela se fosse o contrário. O café ficou pronto e eu propositalmente me sentei, peguei um pacote de torrada no armário da Carol, peguei geleia na geladeira e comecei a tomar meu café da manhã bem tranquilamente.
Ela apareceu logo em seguida.
— Hum, que cheiro bom. Fez um para mim?
— Claro. Toma logo ou vai esfriar.
Carol foi até a geladeira e pegou a margarina, em seguida sentou-se ao meu lado e provou o café.
— Doce uma hora dessas. — ela disse fazendo careta e apontando para a geleia.
Peguei a torrada transbordando geleia e a lambi.
— Você é nojento! — ela disse sorrindo.
Em seguida ela fez o mesmo com a margarina e nós caímos na risada.
O professor apareceu na cozinha nitidamente irritado.
— Eu já vou, minha aula começa em quarenta minutos.
— Toma um café. — ela falou toda inocente.
Ele não respondeu nada e saiu em seguida sem ao menos beijá-la.
— Acordou mau humorado?
— Ele é mau humorado!
Balancei a cabeça em negação e ela continuou a comer.
Naquela manhã, saímos para correr e combinamos com o Felipe e com o Tiago de almoçar no Galinha’s Restaurante. O professor ligou para ela quando estávamos chegando e logo depois apareceu por lá.
Se o professor chegasse e a visse com o Felipe e com o Tiago, ele agiria normalmente. Mas quando ele me via ao lado dela, o cara ficava louco de ciúmes. Durante todo o almoço, ele conversou com os caras e me ignorava completamente.
Quando eles foram embora, vi que ele a abraçou e disse alguma coisa em seu ouvido. O que mais de doeu foi ver a Carol rindo do que ele disse. Ou seja, por mais que ela ainda sentisse algo por mim, no fundo ela gostava dele e aquilo só estava me maltratando.
Saí com os caras naquela noite e mais uma vez bebi todas. Estava fazendo isso todos os finais de semana, pois só assim, eu a esquecia por algumas horas, mas acabava falhando na maioria das vezes, tanto que beijava algumas garotas, imaginando ser a Carol. E naquele sábado, foi a primeira vez que eu levei uma garota para meu apartamento. Sempre que saía com alguém, procurava um outro lugar que não fosse minha casa, fazia isso por respeito ao meu canto e principalmente em respeito à Carol.
Mas daquela vez foi diferente, na verdade, eu queria que ela visse que eu também podia seguir com a minha vida, da maneira como ela estava fazendo. Confesso que tive uma noite bem quente. A tal garota era incansável e ela acabou passando a noite lá.  
Em torno das dez horas da manhã, a campainha tocou. Minha cabeça parecia querer explodir de tanto que eu havia bebido.
— Beeee! Beeee!
A garota da qual eu nem me lembrava do nome, apenas me olhou e sorriu.
— Eu vou ver quem é. — falei colocando minha cueca boxer.
Abri a porta e dei de cara com a Carol.
— Aconteceu alguma coisa? Você não foi tomar seu café? — ela disse adentrando em meu apartamento.
— Não, só estou de ressaca. — eu disse caindo no sofá.
— Quer que eu faça o café e lhe traga aqui?
— Não obrigado! Estou meio enjoado. Preciso de uma água com gás. — falei me levantando em seguida.
A garota saiu do quarto apenas com a minha camisa. Ela e a Carol se encararam por alguns segundos. Eu sorri por dentro.
— Ah... Hmmm... Caramba, desculpa-me Bruno, não sabia que você tinha companhia.
— Essa é a...
Fiquei olhando para a garota, tentando adivinhar o nome dela.
— Taís. — ela disse dando um sorriso para a Carol. — Vocês são irmãos? — a garota indagou.
Carol olhou para mim me fuzilando com o olhar.
— Carolina. E não, não somos irmãos.
— Na verdade é como se fôssemos, não é Carol? — falei abraçando a garota.
Ela ficou congelada com a minha atitude.
— Eu preciso sair. Tenho um compromisso com o César, então...
Olhei para ela e apenas concordei.
— Tá, até mais. — falei sem parecer me importar.
Ela não disse nada e saiu em seguida. E pelo tanto que eu a conhecia, sabia que ela estava furiosa.
— Garota estranha! Acho que ela não gostou de me ver aqui. — disse Taís.
— Ela é legal! Acho que ficou sem graça, só isso.
Eu tinha que me conscientizar que a Carol estava noiva e eu não podia viver só de esperança. Eu queria ela para mim, mas ela também tinha que me querer, porém,  tudo indicava ela já não pensava mais assim. Afinal, só dependia dela terminar com a cara.
— Vem, vamos voltar para a cama! — falei pegando a mão da tal menina e indo em direção ao meu quarto, onde passamos boas horas.
A garota ficou em meu apartamento até o começo da tarde, e depois fui jogar bola com meus amigos. Naquela noite, combinamos de ir em uma casa noturna que tinha sido inaugurada há alguns dias, a Queen´s. Quando estava saindo do apartamento, a porta do apartamento da Carol se abriu e ela saiu de lá com o César. Eu os cumprimentei e segui para o elevador. Nós dividimos o mesmo elevador e ela estava linda com um vestidinho de renda preto. Seus cabelos caiam como que em cascatas e o cheiro dela ela avassalador.
César ficou o tempo todo com o braço envolvendo as costas dela. Ele mal respirava com a minha presença e eu mal respirava com a presença da Carol.
Saí de lá ainda mais arrasado. Por mais eu que fizesse, eu não conseguia tirá-la da minha cabeça. Segui em direção ao estacionamento e a Carol e o César foram em direção da entrada principal. Quando eles estavam longe, olhei para trás só para observá-la mais um pouco, ela também olhou e nossos olhares se cruzaram.
Encontrei o Felipe e o Tiago no prédio deles e de lá seguimos para um barzinho.
Eles conversavam entre eles, mas eu não conseguia esquecer a cena da Carol, com o professor grudado nela no elevador.
— Cara, que merda de cara é essa? — indagou Tiago.
— Só estou puto.
— Com o quê? Aconteceu alguma coisa?
— Não. É que ... Merda, vi a Carol com o professorzinho.
— Como assim? Essa não é a primeira vez que você vê os dois juntos. Você vê isso quase que diariamente. — disse Felipe.
— Eu sei disso, mas é que sei lá, foi diferente. O duro é que... — disse passando a mão em meu cabelo — Parece que ela gosta do cara cada vez mais.
— É foda, cara. Não entendo vocês dois, porra. Quando parece que as coisas vão dar certo, o outro ferra com tudo.
Os dois se entreolharam e balançaram a cabeça em negação.
— Eu de você pegava um gostosa só pra esquecer.
— Ah, tenho feito isso o tempo todo, mas não tá funcionando.
Tiago ergueu o copo de cerveja.
— Cara, tem um milhão de garotas lindas e solteiras por aí. Desencana da Carol. Pelo menos essa noite e vamos curtir. — emendou Tiago.
Mais tarde, fomos para a Queen´s. A boate estava cheia, só galera bonita. Paramos no balcão do bar, pois os camarotes já estavam lotados. As garotas iam e vinham como se quisessem ser levadas para casa a todo custo. Era incrível como elas faziam de tudo para chamar nossa atenção. Conversei com uma tal de Betina que faltou pular em meu colo. Ela era bem gostosa, mas era fácil demais. Talvez, no final da noite eu a procurasse, mas era cedo demais para me queimar com ela.
Fui até o banheiro e no caminho algumas garotas me pararam. Era como se fosse um harém com tanta mulher sozinha. Quando voltei para o bar, teve uma garota que estava de costas, falando com o Felipe e ver essa garota, fez minhas pernas estremecerem. Eu já estava meio alterado e achei que tivesse vendo coisas. Aproximei-me mais dela e então ela se virou. Era a Carol. E ela era a única que provocava aquele efeito em mim.
— Oi, linda! — sussurrei em seu ouvido.
— Oi, Bruno. — ela falou secamente, esquivando-se de mim.
Fiquei fodido com ela me tratar daquela maneira sendo que estava toda sorridente para o Felipe e para o Tiago. Ela continuou conversando com eles, ignorando-me por completo, como se eu não tivesse ali.
— Então o professorzinho todo certinho resolveu te trazer para uma balada? — falei em tom de provocação.
Ela me encarou, fulminando-me com o olhar.
— É César o nome dele. E sim, ele é todo certinho. Tenho certeza de que não é acostumado a levar garotas para o apartamento dele, sem mesmo saber o nome delas.
Sim, era aquele o motivo da indiferença dela comigo.
— Claro que ele sabe o nome das garotas que trepam com ele, afinal, ele trepa com as alunas, esqueceu?
— Você é mesmo um grande imbecil quando quer. — disse ela, saindo em seguida.
Fui passando por entre as pessoas até que a alcancei.
— Carol! — falei pegando no braço dela.
— Bruno, me deixa! Eu tenho um noivo, esqueceu? E ele está me esperando.
Nós nos encaramos mantendo certa distância, entretanto as pessoas passavam e nos empurravam a todo o momento.
— O que você quer de mim? Você não me quer mais, isso está bem claro. Mas fica emburrada quando me vê com alguém? Eu não estou conseguindo entender você. E não aguento mais essa situação.
— Quem disse que não pode viver sua vida? O apartamento é seu, leve quem e quantas garotas você quiser.
— Ótimo. É exatamente isso que vou fazer daqui em diante.
— A vida é sua Bruno. Faz dela o que quiser.
Eu a segurei bem perto de mim e a encarei.
—  Você sabe muito bem o que eu quero da minha vida. Pode ter certeza que não foi nem aquela garota que estava em meu apartamento e nenhuma outra que está aqui essa noite, tirando você. Se eu levei alguém para meu apartamento, foi justamente para que você a visse, afinal, não é nada fácil ver você e se namorado juntos quase todos os dias. Está sendo um martírio para mim.
Eu me inclinei, ficando a centímetros dos lábios dela.
— É só você que eu quero. Quando é que vai acabar com essa tortura?
— Bruno...
— Eu amo você, Carol.
Ela engoliu seco. Abri meus lábios. Ela abriu os dela. Quando fui me inclinar para beijá-la, senti alguém trombando em mim.
— Carol!
Olhei e vi o noivo dela. Ela assustou-se assim como eu.
— César... Eu... Ah... Estava conversando com o Bruno.
— Vamos, o pessoal está esperando por você no camarote. — falou ele, com olhar desafiador.
— Vamos. — ela respondeu quase que relutantemente.
Tudo o que eu mais queria era que ela não fosse com ele, mas ela não fez isso.
— Depois a gente se fala.
Concordei com a cabeça e eles saíram em seguida. Fiquei me sentindo um completo idiota, pois tinha me declarado a ela, que não tinha dado a mínima.
Voltei para o bar arrasado e de lá eu podia vê-los no camarote. Os caras conversavam comigo sem imaginar o que eu estava arrasado. Algum tempo depois, vi César a beijando e aquilo me machucou por dentro.
Eu estava cego de ódio e acabei ficando com várias garotas naquela noite. Não sei como fui parar no apartamento do Felipe. Abri os olhos com dificuldade e só então me dei conta de onde estava. Tudo estava girando, tentei chegar ao banheiro, mas acabei vomitando na sala dele toda.
Acordei outra vez por volta das onze da manhã e limpei toda aquela bagunça. Tomei um banho gelado e voltei dormi quase a tarde toda do feriado de segunda-feira.
Voltei para meu apartamento sentindo-me um farrapo humano e por volta das oito horas da noite, a campainha tocou. Tocou uma, duas, três vezes, mas eu não quis atender, pois já imaginara quem era. Então a porta se abriu. E realmente era quem eu pensava, a Carol.
— Não vai mais me atender?
— Você entrou, não foi?
Ela foi até mim, sentando ao meu lado.
— Bruno, por que você está fazendo isso?
Olhei sem entender.
— Eu não estou fazendo nada. Você quem me tratou diferente, desde ontem pela manhã.
— Eu errei, eu sei disso. Acontece que fiquei desconcertada em ver aquela garota aqui. Mas você tem razão, eu não tenho esse direito.
Eu a encarei sem dizer nada. No fundo eu desejei que ela me dissesse outra coisa, mas mais uma vez ela não o fez.
— Eu preciso dormir um pouco. Tranca a porta quando sair.
Levantei em seguida e fui para meu quarto, deixando-a sozinha em minha sala.
Passei uma semana sem ver e sem falar com a Carol, segurei por mais falta que ela me fazia. Mesmo na quinta-feira que era o dia de nos reunirmos com os caras, não dei sinal de vida. Ela tentou me ligar várias vezes, mas eu nunca atendia e nem retornava as ligações.
Foi então que eu tomei uma decisão. Precisava me mudar, precisava sair de perto dela, afinal, não estava mais sabendo lidar com aquela situação, tendo-a por perto todos os dias, sem poder tocá-la. E também não podia mais fugir e ignorá-la como fiz durante toda a semana.

No sábado, acordei bem cedo, estava muito mal, febril e com dores terríveis de cabeça e por todo o corpo. Pensei em ligar para a Carol me levar a um hospital, mas não tive coragem. Fui até o hospital sozinho, onde me medicaram e eu mal conseguia dirigir até o prédio, não sei se foi minha pressão que caiu após a injeção ou era apenas a reação dos medicamentos, só sei que cheguei e apaguei.
Carol —  Tomando a frente
Vi-me simplesmente desolada após o Bruno ter me dado um gelo de uma semana. Eu sentia falta dele como o ar que eu respirava, e ele não fazia ideia disso.
No sábado pela manhã, César ainda estava deitado em minha cama e me peguei olhando para ele e me questionando sobre o que eu estava fazendo da minha vida. Não era justo com ele e nem comigo, amá-lo pela metade. Ele era uma pessoa sensacional, mas não era a pessoa que fazia meu coração bater mais forte e nem aquela que deixava minha pernas bambas. César, mesmo com todas suas inúmeras qualidades, não era a pessoa na qual eu pensava ao me deitar e muito menos a pessoa que eu pensava assim que abria meus olhos. E essa pessoa sempre foi o Bruno, desde que eu o vi chegando em meu prédio, em Porto Alegre, quando ele era um garoto. Desde aquele dia, o Bruno mudou minha vida por completo, e para melhor.
Levantei-me sem que o César percebesse e fui escovar meus dentes. Ainda de pijama, fui até o apartamento do Bruno e toquei a campainha por várias vezes, mas ele não abriu a porta. Voltei para meu apartamento e peguei a cópia da chave do apartamento dele, e quando eu estava saindo novamente, César apareceu.
— Amor, já acordou?
Eu dei um pulo de susto.
— Vem para cama, ainda está cedo!
— Ah, eu estou sem sono. Tenho umas coisas para fazer.
— Tá, eu também preciso ir resolver umas coisas, é que como eu não tenho aula hoje, achei que quisesse ficar a manhã toda comigo.
— César, eu não faço o estilo grudenta, você sabe.
Ele concordou, dando um sorrisinho sem graça. Fui tomar um banho e quando saí ele já estava pronto para sair.
— Ah, Carol, não esquece que hoje à noite, temos uma festa. Meus pais estão comemorando bodas de ouro. Estão loucos pra conhecê-la.
Respirei fundo, sentindo-me tensa. Não estava pronta para conhecer os pais dele. Aliás, nem sabia o que faria em relação ao nosso namoro.
Ele foi até mim e me beijou.
— Eu te amo.
Olhei para ele e sorri sem graça, tentando esquecer aquelas palavras.
— Bom, eu preciso terminar de me arrumar, porque tenho horário na manicure.
— Você está diferente. Tá acontecendo alguma coisa?
Engoli seco.
— Não. Tá tudo bem. — menti.
César saiu consternado.
Depois de sair da manicure, voltei para o apartamento. O carro de Bruno já estava no estacionamento, e eu fui direto ao apartamento dele. Mais uma vez ele não me atendeu. Tirei a cópia da chave de dentro da minha bolsa e abri a porta silenciosamente. Caso ele estivesse acompanhado eu sairia sem ser notada.
O apartamento estava num silêncio total. A sala estava vazia e sobre o aparador estavam as chaves do Volvo XC30 que ele comprara logo que chegara de Berlim, juntamente com o celular e uma sacola de medicamentos.
“Que estranho! ”
Fui até o quarto dele e me deparei com o Bruno enrolado em um edredom. Olhei para meu relógio e já passava das dez da manhã e o Bruno nunca ficava na cama até aquele horário. Aproximei-me dele e percebi que ele estava transpirando.
— Bruno! — sussurrei.
Ele parecia estar em um sono profundo.
Voltei para a sala e vi que ele tinha comprado antibióticos e antitérmico.
Fui até a cozinha e lavei toda a louça para ele. Quando vi, já estava arrumando todo apartamento para ele. Troquei as toalhas de banho por limpas e coloquei toda a roupa suja dele na máquina de lavar, assim a passadeira terminava o trabalho na segunda-feira.
Fui olhar a geladeira, mas não tinha muita coisa para eu fazer para o almoço. Corri até o supermercado que ficava bem próximo ao nosso prédio e comprei frutas, legumes, frios, carnes e várias outras coisas. Pouco mais de uma hora estava de volta. E quando abri a porta do apartamento eu o vi sentado no sofá. Quase morri de susto em ser pega em flagrante.
— E aí, como você está? — falei indo até ele.
— O que você está fazendo aqui? Você quem arrumou tudo?
— Aham. — falei dando de ombros e levando as sacolas até a cozinha.
Bruno foi até mim e parecia um farrapo humano. Barba por fazer, cabelos despenteados e bastante abatido.
— Eu sei que você não me quer por aqui. Mas precisava vê-lo e o vi na cama todo enrolado. E então vi que você comprou todos aqueles remédios e fiquei preocupada.
— É, não sei o aconteceu. Acordei muito mal. Fui até um pronto atendimento e me deram uma injeção que me apagou, e pediram que eu comprasse esses medicamentos para tomá-los mais tarde. Mas é só uma gripe forte. Eu vou sobreviver. — ele disse me dando um sorriso.
— Fico feliz em escutar isso. — falei dando-lhe meu melhor sorriso.
— Carol você não precisava ter feito tudo isso. Não quero dar trabalho. Sei que você tem suas coisas pra fazer.
— Você nunca me deu trabalho. E seu fosse comigo, tenho certeza de que faria o mesmo.
Ele assentiu.
— Comprei uma coisas pra fazer nosso almoço. Estou morrendo de fome. Isso é, se não se importar.
— Eu vou amar.
Bruno se inclinou e beijou meu rosto.
— Só vou tomar um banho e te ajudo.
— Não se preocupe, eu cuido de tudo.
Bruno foi para o banheiro e eu fui até o quarto dele, onde troquei toda a roupa de cama, peguei a fronha que estava no travesseiro dele e a inalei, sentindo seu cheiro. Aquilo era o melhor cheiro do mundo para mim.
Em seguida, organizei todo o quarto e quando ele saiu do banheiro enrolado na toalha, ficou me olhando, meio que assustado ao me ver ali.
— Eu... Ah... Só vim... — disse apontando para a cama.
— Tá, fique à vontade.
Bruno deixou a toalha cair propositalmente e pegou uma cueca boxer em sua gaveta. Eu desviei o olhar e fingi não ter visto nada. Apanhei os lençóis que estavam no chão e segui para a lavanderia.
“ Isso já é tortura.”
Fiz um almoço para nós dois e pedi que ele ficasse descansando, afinal, ainda parecia bastante cansado. Após almoçarmos, ajudei Bruno com a louça. Fui para meu apartamento tomar um banho, mas voltei poucos minutos depois e ficamos deitados a tarde toda assistindo seriados. No final do dia, a febre do Bruno tinha voltado, então dei a ele os medicamentos e alguns minutos depois ele acabou pegando no sono. Olhei no relógio e já passava das seis da tarde.
“Droga! Daqui a pouco é a tal festa. ”
Ela estava dormindo pacificamente. Sentei ao seu lado e o observei por um tempo. Daria tudo pra poder ficar com ele naquela noite. Tirei a temperatura dele e vi que ainda estava alta. Eu tinha que ir me arrumar e fui sentindo meu coração dilacerado por deixa-lo daquela forma.
Faltava dez minutos para o César ir me buscar e eu já estava pronta. Fui até o apartamento do Bruno e ele já estava acordado.
— E aí, está melhor?
— Uau, acho que morri e fui para o céu. Você é um anjo, certo? — brincou ele.
— Seu bobo.
Ele sorriu. Fui até ele e percebi que a febre não havia cessado.
— Que estranho, você está medicado, era para a febre ter ido embora.
—  Não se preocupe! Vai ver que os medicamentos ainda não fizeram efeito. Agora, você precisa ir. Não quero que você se atrase.
— É, eu tenho uma festa, mas promete que me liga se você se sentir mal?
— Prometo!
Fui até ele e beijei seu rosto, que estava pegando fogo.
— Não posso deixar você assim. Você está muito quente.
— Eu estou bem, vá curti sua noite. Vou tomar outro banho e a febre vai passar. Relaxa. — ele disse ao se colocar de pé.
Bruno me acompanhou até a porta e quando a porta se abriu, dei de cara com o César em frente à porta do meu apartamento.
— Hmmm, o professorzinho não vai gostar nada nada. — sussurrou ele.
— A gente se fala depois. — sussurrei de volta — Ah, e me liga se precisar.
— O que você estava fazendo aí?
— O Bruno não está bem, teve febre o dia todo e eu vim ver se ele havia melhorado.
César não disse nada e balançou a cabeça negativamente. Descemos os vinte andares em silêncio, mas quando o elevador se abriu ele me olhou bufando.
— Carol, até quando isso? Esse cara que não saí do seu apartamento, e você que não para de se preocupar com ele, como se ele fosse uma criança. Já estou tão farto com tudo isso, você não faz ideia.
Seguimos até o carro e eu ainda estava em silêncio. Entrei em seu Jetta e César entrou em seguida.
— Eu simplesmente não sei até quando vou tolerar essa situação! Tá foda. Tenho você, mas não é por completo.
Sentia meu sangue quente correr em minhas veias.
— Quer saber, César? Você está certo, você não tem que aceitar essa situação. Eu em seu lugar não aceitaria, só que por mais que eu lhe explique, você jamais entenderia, o Bruno faz parte da minha vida, ele é meu melhor amigo e eu nunca vou deixá-lo para trás. E mais uma coisa, eu não posso simplesmente sair e deixá-lo sozinho com febre, então vá para a sua festa e aproveite bem sua noite.
Saí do carro, bati a porta e voltei para o prédio. César saiu cantando pneu e eu segui direto para o apartamento do Bruno. Toquei a campainha e ele abriu a porta.

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