Faça por mim
Parte 07
–E aí que eu estou
GRÁVIDA!
Ouvir essas
palavras foi o mesmo que um estrondo em meus ouvidos. Como se eu estivesse
ficando surda. Senti uma vermelhidão nas vistas que me impediam de enxergar.
Foi a pior sensação que eu já senti no mundo. Era como se um buraco abrisse sob
meus pés, levando embora todos os meus sonhos. Todos ficaram estarrecidos, meu
pai arregalou os olhos olhando para Rafael, minha mãe em seguida olhou para
mim, como se ela pudesse sentir o que estava acontecendo comigo. E o Rafael
ficou imóvel.
Depois de alguns
instantes ele soltou.
–Grávida!!!?????
–Mas você me disse que tomava pílulas, e eu me
preveni. –protestou Rafael.
–Não todas às
vezes. –ela rebateu.
–Mas e a pílula?
–ele insistiu.
–Não sei se me
esqueci de alguma, ou se foi um antibiótico que tomei que cortou o efeito.
–Esqueceu? Como esqueceu?
Todos na sala
ficaram quietos observando a discussão dos dois.
–Calma meu filho!
–falou meu pai, tentando amenizar o susto.
–Como esqueceu? –Rafael
insistiu irritado.
–Sei lá, também
não sei o que aconteceu, mas aconteceu! –ela disse impassível.
–Sim aconteceu e
ela não fez sozinha. –interferiu Isabel que se mantinha calada até então.
Era como se fosse
um jogo de ping pong, quem falasse virava o centro das atenções.
–E como vou saber
se esse filho é meu? Afinal, eu não sei se você tem alguém em Porto Alegre. –questionou
Rafael incrédulo.
Nesse momento, o
pai da Fernanda levantou-se, apontando o dedo para o Rafael.
–Não fale assim
com a minha filha! Quem você pensa que é seu moleque?
Meu pai também se levantou,
tentando acalmar o prefeito.
–Calma Paulo!
Tenha um pouco de paciência. O garoto foi pego desprevenido.
Igor observava
tudo, divertindo-se com a situação.
–O garoto foi desprevenido,
isso sim. –disse Paulo arfando de nervoso.
–Rafael, depois
que nós começamos a sair, não saí com mais ninguém. –disse Fernanda
justificando-se.
Rafael riu, balançando a cabeça em tom de
negação.
–Tentei falar com
você inúmeras vezes, mas você não me retornava mais. E onde me via, me
ignorava. Disse Fernanda, com certa aflição no rosto.
Fernanda manteve-se calma e fria o tempo todo.
–Não acredito nisso! –disse Rafael
levantando-se, caminhando de um lado para o outro.
–Calma pessoal, um
filho é motivo de alegria, daqui uns anos estaremos rindo de tudo isso, e a
crianças correndo para lá e para cá. –disse meu pai abrandando.
Rafael
fitou-o com os olhos e deu-lhe as costas.
–Nunca vou rir
disso! –disse ele retirando-se da sala.
–Aonde você vai
rapaz? –interpelou Paulo.
–Dá uns minutinhos
pra ele, ele está nervoso. –pediu minha mãe tentando apaziguar.
Estava sem meu oxigênio, não podia mais nem
respirar, uma sensação ruim foi se apoderando de mim, eu não conseguia me mover,
queria ir até ele, mas não dava, era como se meus pés estivessem amarrados.
–Vou falar com
ele. –disse meu pai.
Fernanda fez sinal para ele deixar, e ela
levantou-se e saiu. A sala ficou toda em silêncio.
–É, por isso que
eu digo, quando a cabeça de baixo não pensa, o resto todo padece, disse o
idiota do Igor.
O olhei fuzilando com os olhos. Era possível
ouvir os dois discutindo, Rafael alterava a voz, e Fernanda alterava mais
ainda.
A discussão
começou a aumentar, minha mãe levantou-se e foi até eles, mais uma vez tentando
colocar panos quentes. Isabel também saiu. Quando vi, todos já estavam na área
de fora da casa, e eu fiquei ali dentro, imóvel, incrédula.
Fernanda entrou pegou sua bolsa e saiu
novamente, a mãe dela fez o mesmo. Da minha poltrona pude ver que Rafael estava
em pé encostado com a cabeça baixa, e meu pai conversando com o prefeito,
Fernanda estava do outro lado com a mão na barriga, parecia chorar e sua mãe a
consolava.
Então ela tirou um
papel da bolsa entregando-o para Rafael.
–Está aqui, a
data, o horário do primeiro ultrassom do seu filho, se você quiser ir...
Ele não pegou o papel e ela o entregou para
minha mãe, e em seguida desceu as escadas.
A mãe dela despediu-se
dos meus pais, mas não se dirigiu a ele, que continuava com a cabeça baixa.
–Acalme-se garoto,
coloca a cabeça no lugar, nos falamos depois. –disse Paulo dando um tapinha no
ombro de Rafael e saindo em seguida.
Rafa não se manifestou, parecia congelado.
Igor foi o único que foi a se despedir de mim.
Mas passou pelo Rafael e não disse nada. Rafael entrou, pegou as chaves
do carro, e me olhou, eu continuava ali parada, olhei para ele e ele só
balançou a cabeça. Parecia destruído, passou pelos meus pais e saiu. Minha mãe
entrou apreensiva, olhou para mim com quem dizia “eu avisei”! Meu pai entrou
balançando a cabeça e resmungando.
Subi para o
quarto, parecia estar em um pesadelo, comecei a chorar inconsolavelmente,
sentia meu coração doer de tanta tristeza. Ouvi minha mãe bater na porta do meu
quarto, mas não tive coragem de abri-la.
Abracei meu
travesseiro, eu estava chorando muito, tinha vontade de gritar, mas não podia.
Foi à dor mais difícil que eu já havia sentido na vida, uma sensação de
derrota, perda, impotência, traição, tudo ao mesmo tempo.
12
O Silêncio
O sol já batia na
janela com toda sua força. Olhei meu celular, passava das sete horas da manhã,
tinha dormido cerca de duas horas apenas, lembro-me a última vez que olhei meu celular
passava das cinco horas da manhã. E até aquele momento, nem sinal do Rafael,
ele não havia voltado para casa, seu celular desligado, e também não me mandou
nenhuma mensagem. Já estava acostumada em acordar e ver várias mensagens do
Rafa me dando bom dia, falando que me
amava, mas dessa vez era um silêncio absoluto.
O que mais me
doía, era saber que ele estava mal, estava sofrendo, sentindo-se culpado, sei
lá, a dor que vi nos olhos dele quando ele entrou na sala para pegar suas
chaves chegou a doer meu coração.
Olhei pela janela,
tudo estava quieto, tranquilo. A casa estava silenciosa. Mais uma vez tentei
ligar para ele, mas só caía na caixa postal. Caí na cama e senti uma vontade
imensa de chorar, pensando como seriam as coisas dali em diante. Mais uma vez
eu não ficaria com o Rafael, e agora a situação era bem pior, bem mais dolorido
do que há uns anos. Agora realmente tínhamos nos acertado, e ele mais disposto
do que nunca para lutar por nós. Mas com a notícia dessa criança tudo era
diferente. Eu voltaria para São Paulo, e
as lembranças dos dias que passamos juntos me matariam pouco a pouco enquanto
seguia com minha vida.
Com o decorrer do tempo, eles provavelmente se
casariam, ou talvez Rafael só assumisse a criança. Mas o que importava é que eles
teriam um laço eterno, um filho, e isso é mais forte que qualquer coisa. Pensei
em "nossa casa”, como ele dizia, e o imaginei com sua família morando lá,
e desfrutando de tudo aquilo. Ele realizou meu sonho, mas esse sonho estava
prestes a se tornar de outra pessoa.
Senti meu coração apertar com cada pensamento, a dor era insuportável.
Algum tempo
depois, alguém bateu na minha porta, uma, duas, três vezes.
–Ana minha filha,
abre a porta para mim.
–Ana, você está
bem? –perguntou minha mãe do lado de fora.
–Preciso falar com
você! –Filha, por favor, me deixa entrar. –insistiu ela.
Dito isso, não
aguentei, e minha mãe também não desistiria. Então abri a porta.
Quando ela me viu,
seu rosto caiu, eu estava em um estado deplorável. Sem dormir e chorando a noite
toda. Ela apenas me abraçou, e nesse momento desmoronei mais uma vez.
Ela ficou ali,
abraçada comigo por um bom tempo. Seu abraço era reconfortante.
–Ele voltou mãe? –perguntei
consternada.
–Não filha! Mas
ele está na casa dele, seu pai foi pra lá assim que amanheceu, ele não atendeu,
mas a caminhonete estava lá. Mas estava sentindo minha filha. Sabia que isso
não acabaria bem, e eu sabia que você e o Rafael sofreriam novamente.
–Mãe, ela fez de
propósito, tenho certeza.
–Não tenho dúvida,
Ana. Mas uma coisa é certa, a Fernanda não fez esse filho sozinha, e agora é
responsabilidade dos dois, tanto dela quanto do Rafael, e essa responsabilidade
é para a vida toda. Porque casando ou não, ele vai assumir essa criança, e a
Fernanda não vai dar sossego para ele, pode ter certeza.
Concordei em
pensamento. Se ele não se casasse, ela não daria folga para ele momento nenhum.
–Eu queria falar
com ele, mãe.
–Não filha! Dá um
tempo para ele, ela quer ficar sozinho, você sabe que ele nunca foi de se
abrir.
Ela também tinha
razão, pois se ele quisesse falar comigo, teria me ligado assim que saiu, ou de
madrugada, ou de manhã, mas não o fez.
–Levanta dessa
cama, toma um banho, se arruma, e tenta esquecer um pouco esse assunto.
Dito isso, minhas
lágrimas escorriam ainda mais.
–Ah, você tem
aquele aniversário hoje não tem?
Caramba, nem
lembrava mais do aniversário. Uma luz acendeu-se em minha cabeça, afinal,
Rafael também havia sido convidado, talvez ele fosse apenas para conversar
comigo num ambiente neutro.
Então fiz o que
minha mãe falou, tomei um bom banho, abri toda a janela do meu quarto para
correr um ar puro. Desci, tomei um café
preto, meu rosto ainda estava inchado.
Maria provavelmente assustou-se ao olhar para mim, aproveitou-se quando
minha mãe deu uma saída e perguntou-me:
–Nada dele ainda?
Fiz que não com a
cabeça.
–Coitado do meu
menino! Aquela maluca aproveitou da situação e deu o golpe da barriga. Mas eu
sei que ele não a ama! –ela disse olhando diretamente em meus olhos. E você
também sabe disso não é minha filha?
Eu só suspirei.
–Parece até que
o amor de vocês vem de outras vidas. Então, fique tranquila que tudo tem seu
tempo. E tudo vai dar certo!
Maria me conhecia
desde muito pequena. Mas até então não tinha certeza se ela sabia sobre o meu amor
por Rafael. Entretanto, ao escutar o que ela disse não me restou nenhuma
dúvida.
A abracei, e
novamente comecei a chorar.
–Não fica assim
minha menina! Tudo vai passar e acabar bem. Vocês já sofreram demais. –disse ela sussurrando em meu ouvido.
Quando minha mãe
voltou, nós nos soltamos, sequei minhas lágrimas e ninguém disse mais nada.
Dei uma volta na
fazenda, para ver se eu via o Rafael, mas nada, nem sinal. Fiquei por perto do
meu pai, enquanto ele acompanhava o veterinário cuidando de alguns animais.
Horas depois, tomei outro banho, já estava mais calma. Arrumei-me para o
aniversário. Minha mãe me emprestou o CRV dela, demorei, mas achei o local da
festa, dei uma última checada em meu celular; porém, Rafael não tinha dado
nenhum sinal.
Fui muito bem
recebida na festa. Rebeca ficou muito
feliz quando cheguei, todavia, ficou preocupada assim que olhou para mim,
percebendo no mesmo instante que algo tinha acontecido. Mas a princípio não
comentou nada. Todos, sem exceção, me perguntaram do Rafael. E acabei
inventando uma desculpa por ele não ter aparecido.
O Arthur foi em
minha direção, ele nem me conhecia, mas me abraçou e pegou seu embrulho, que
era maior que ele.
O lugar era bem
simples, mas tudo bem organizado. Rebeca colocou-me na mesa dela, que geralmente
ficava vazia. Enzo também não estava na festa, eu olhava em volta e não
conhecia ninguém, me sentia totalmente desambientada.
Um homem, alto,
moreno, físico muito musculoso, estava sempre por perto de Rebeca e do Arthur,
deduzi que provavelmente era o ex-marido dela.
O dia estava ideal
para quem quisesse ver mulheres grávidas por toda parte, pais corujas
carregando seus bebês, maridos fazendo carinho na barriga de suas esposas
grávidas, elas pareciam brotar, nunca em toda minha vida havia reparado no
tanto de mulheres grávidas que existiam. Era como se elas se multiplicassem.
Lógicamente que era porque era um assunto do qual eu queria tentar esquecer. E aquilo
tudo me deixou ainda mais depressiva. Rebeca foi até mim, já cansada de dar
atenção para os convidados. Sentou-se comigo, enquanto o tal rapaz estava
tirando fotos com o Arthur.
–Ana, te achei tão
abatida, aconteceu alguma coisa?
Fiz que sim com a
cabeça, dando um sorriso amarelo.
–Seu pai
descobriu?
–Não Rê, o
problema é ainda outro.
Rebeca me olhou
penalizada.
–Imagino o quanto
deve ser difícil a situação de vocês, por causa da relação do Rafael com seus
pais. Vocês terão que serem fortes e unidos!
Continuei calada.
–Eu também briguei
com o Enzo, pedi que ele viesse, porém, não ia apresentá-lo hoje para a minha
família como meu namorado, então ele achou que estava sendo rejeitado, que eu
quero esconder ne tanto.osso relacionamento das outras pessoas, enfim, foi uma
discussão e tanto.
Fomos
interrompidas várias vezes, alguém vinha e falava com a Rebeca, ou alguma
criança chorando ia pedir algo, ou então algum convidado diferente chegava.
–Vamos sair
amanhã? Assim conversaremos com calma.
–Vamos sim Rebeca,
preciso desabafar senão vou explodir, preciso desabafar. É seu ex-marido? Perguntei
apontando discretamente para o rapaz musculoso.
–Sim, é ele, e ele não desgrudou do meu pé a festa toda,
que Deus me dê paciência viu! –disse Rebeca irritada.
Nós rimos, e ela pediu licença, pois alguém
chamava por ela. Esperei os parabéns me despedi da família dela e fui embora.
Passava das quatro horas da tarde, o sol ainda estava quente e eu não tinha
vontade de voltar para casa. Quando dei
por mim, estava fazendo o caminho da casa do lago. Cheguei em frente a casa,
tudo fechado. Como tinha o controle e as chaves, resolvi entrar.
Parei a CRV perto
da caminhonete do Rafael, porém, não havia nem sinal dele. Entrei pela sala,
pude ver algumas latas de cerveja espalhada na mesinha, um litro de uísque 18
anos quase no fim. Fui ao quarto, a cama estava desarrumada, mas ele também não
estava lá. Fui ao escritório ao lado, olhei pela vidraça e o vi bem de longe.
Rafael estava em um deck perto do lago, usava bermuda cargo caqui e um boné
preto. Estava sem camisa tocando violão. Desci e dei a volta na casa, o caminho entre
as flores nos levava à uma área de churrasco, muito bem projetada, toda fechada
com placas de vidro por causa do ar condicionado ou do frio de fora. Uma
piscina enorme ficava na lateral da casa de frente para um lindo jardim.
Sentei-me numa cadeira de balanço, e de longe podia observar o Rafael que acompanhava
a música com o violão ora cantando, ora parando um pouquinho para tomar um gole
de cerveja. Do local onde o Rafael estava, ele não podia me ver, estava de
costas, porém, eu conseguia vê-lo perfeitamente. Sua pele branquinha sob sol,
suas costas com algumas sardas que eu amava, seus braços perfeitamente
delineados com cada músculo torneado, sua tatuagem exposta, assim como suas
pernas lindas. Foi uma visão do céu. Cada músculo movia-se conforme ele tocava
o violão.
Quando Rafael era criança e estava com algum
problema, ou estava nervoso por algum motivo, ele trancava-se em seu quarto,
pegava seu violão e tocava a tarde toda, era a única coisa que o acalmava.
Então, ao vê-o tocando daquela maneira, isolado do mundo, de frente para o
lago, eu sabia que ele não estava nada bem. Minha vontade era de correr em direção
a ele, abraçá-lo, beijá-lo; contudo, eu não conseguia, me sentia imóvel como na
noite anterior.
Fiquei ali por uns
minutos e vi que mesmo a cerveja dele tendo acabado, ele não se levantou para
pegar outra.
Resolvi ir embora,
tinha que dar a ele o espaço que ele precisava.
Saí assim como entrei, sem ser ouvida. Estacionei o CRV em frente ao
lago, perto da árvore onde eu costumava ficar. Fiquei sentada ali por algum
tempo, pensando como a vida dava voltas, no dia interior eu estava no céu, e
naquele momento meu mundo tinha desabado.
Meu celular tocou,
senti um frio na barriga, mas era o Léo. Relutei para atender, mas não podia
ignorá-lo mais uma vez.
–Oi, Léo.
–Oi linda, tudo
bem? Sonhei com você essa noite, você
falava que não estava bem! Aconteceu alguma coisa?
Era incrível como
ele era sensitivo. Ele sabia dizer
exatamente quando eu estava passando por algum problema. Suspirei.
–Ah, Léo, nosso
jantar em família acabou virando uma catástrofe.
–Mas o que houve?
Um casal de amigos
dos meus pais foram jantar conosco. E a filha deles, a Fernanda, saiu algumas
vezes com o Rafael. E o motivo da visita deles na verdade foi que a tal
Fernanda está gravida. Só que eles nem estão mais juntos. O Rafael nem estava
mais falando com ela, e a situação foi extremamente desconfortável. Mas obrigada por ter me ligado, ouvir sua voz
me faz sentir menos sozinha.
–Isso passa Ana!
Daqui a pouco tudo fica bem. Eles acabam se acertando. –disse Léo.
Isso era o que
mais me doía, mas com certeza essa era a maior verdade.
A segunda-feira
transcorreu assim como o domingo, sem notícias, sem nenhuma mensagem ou
telefonema do Rafael. A noite eu e a Rebeca saímos pra conversar e beber alguma
coisa. Fomos para uma choperia em Gramado, muito movimentada, geralmente por
estudantes de universidades das cidades vizinhas. Pedimos dois chopes e então
Rebeca me olhou apreensiva.
–Ana, o que
aconteceu? O Rafael estava insuportável na fábrica hoje, depois foi para a loja
se trancou na sala dele, e ficou a tarde toda por lá. O único que conseguiu
falar com ele foi o Enzo, e ficaram horas conversando. E o Enzo também não fala
comigo desde do aniversário.
Suspirei. O garçom
chegou entregando nossos chopes.
–Rebeca, sábado à
noite foi um caos. O pai da Fernanda ligou para o meu pai, dizendo que iria
visitá-lo, juntamente com a família. Então meu pai os convidou para um jantar
informal. Mas antes mesmo de ir, Paulo perguntou se o Rafael estaria presente,
pois ele precisava tratar de um assunto com o Rafa. Meu pai estranhou, mas não
questionou.
Rebeca estreitou
as sobrancelhas.
–Quando nós
chegamos, no finalzinho da tarde, meu pai disse ao Rafael para que nós não
arrumássemos nenhum compromisso, pois o Paulo precisava falar com ele. Percebi
que o Rafa ficou preocupado, assim como eu fiquei. Você se lembra, na noite
anterior a Fernanda chegou a ameaçá-lo.
–Sim, eu me
lembro, você me contou.
–Então, a família
inteira foi para esse jantar, o pai, mãe, a Fernanda, e o irmão dela. Imagina o
clima que não ficou.
Rebeca apenas
concordou assustada.
–Logo após o
jantar, o pai da Fernanda começou a questionar o Rafael sobre o relacionamento
deles. O Rafael falou que não foi um relacionamento, que eles saíram algumas
vezes.
Rebeca ouvia
atentamente.
–Nossa, que coisa
chata. Que infantilidade da parte dela.
–O pior você não
sabe, foi então que ela soltou que estava grávida.
–O quê?
Grávidaaaa? –Rebeca perguntou incrédula. –É por isso que ela não sai do pé
dele! E hoje ela ligou na loja umas três vezes tentando falar com ele, a
primeira vez que eu fui passar ele já gritou que não era para repassar nenhuma
ligação dela, então nas outras vezes, simplesmente falei que ele não estava.
–Pois é Rebeca!
Foi uma discussão terrível. O Rafael e a Fernanda acabaram batendo boca, depois
os pais dela e os meus pais entraram no meio. Foi horrível.
–Ana, não é por
nada. Mas eu conheço a Fernanda, sei que ela é uma garota de balada. Nada contra,
a vida é dela, mas ela não tem limites para nada. Quando eu morava em Porto
Alegre soube que ela quase morreu de overdose, e ela nunca diminuiu a
quantidade de drogas que ela ingere. Ela usa muito. E o irmão dela também.
–O Rafa comentou
sobre isso. Agora te pergunto, como ele vai se envolver com uma garota dessa?
Ele que é totalmente careta.
Rebeca balançou a
cabeça negativamente.
E como ele estava
hoje? Parecia mal, abatido? Perguntei, preocupada.
–Então Ana, o
Rafael chegou na loja mais cedo, até assustei. Foi direto para fábrica. Ficou
um tempo lá, depois me disseram que ele estava insuportável. Na loja, ele não
trocou nenhuma palavra com ninguém. Ficou na sala dele o tempo todo, atendeu
apenas umas ligações de uns clientes de fora e da sua mãe. Quase no final da
tarde a Fernanda ligou na loja, quando fui ver se ele podia atendê-la, ele foi
grosseiro até comigo. Mas agora entendo o porquê.
–Ah, ela ligou na
loja então?
–Ligou.
Fiquei pensativa.
Era a prova que ela não siaria mais do pé dele.
–Estou arrasada
Rebeca, eu queria falar com ele, ver como ele está, mas ele se isolou.
–Ana, o Rafael é
assim mesmo, desde que eu trabalho lá, quando alguma coisa não está bem ele se
tranca, e o único que parece ter acesso a ele é o Enzo. Talvez, ele precise, sei
lá de um tempo para digerir tudo isso.
Ambas bebemos
nossos chopes.
–Na verdade, o
Rafa deve estar pirando com tudo acontecendo ao mesmo tempo, primeiro o susto
com seu pai, depois a reaproximação de vocês e agora essa notícia.
–Eu sei! É que
pelo menos queria tentar ajudá-lo, mas eu não sei o que fazer.
–Agora que a vida
dele estava entrando nos eixos. Nunca o vi tão feliz como esses dias que vocês
estavam juntos. E agora essa gravidez! Então ele deve estar se odiando, pois
ele sabe que por causa dele, mais uma vez vocês não irão ficar juntos.
Tomei outro gole
do chope. Fiquei pensativa, talvez fosse isso mesmo, esse silêncio do Rafael
era porque ele estava se sentindo culpado.
–Eu nem imagino
como você se sente. Que situação terrível.
–Nem me fale! Esses
dias estão sendo horríveis. O pior de tudo é ficar sem falar com ele. Mas
enfim, me desculpa! Eu aqui, desabafando, falando, falando, e você como está? Você
e o Enzo brigaram?
–Que isso Ana! Achei
que o meu problema fosse grande. Mas a situação é bem pior.
Apenas concordei
com a cabeça.
–Eu e o Enzo não
chegamos a brigar, é ele que está complicando as coisas. Faz alguns meses que me separei, durante a
semana eu preciso ficar com o Arthur, hoje eu consegui sair porque era com você,
então minha mãe ficou com meu filho para mim. Mas o Enzo quer me ver todos os
dias, quer ir à minha casa, e eu acho que está muito cedo. Não sei se a minha
mãe entenderia. Por isso que eu queria esperar pelo menos mais um pouco.
Rebeca parecia
exasperada. Fez sinal para o garçom pedindo mais dois chopes.
–Ele não entende,
fala que eu estou querendo esconder nosso relacionamento, mas não é isso. Eu só
quero preservar meu filho. Não quero que saiam dizendo por aí que a mãe do
Arthur é uma devassa.
–Claro, você tem
razão.
Começou a tocar
uma música ambiente, Eric Clapton - Tears in Heaven. E ficamos nós duas falamos
sobre nossos problemas. Meu iphone vibrou era uma mensagem do Léo.
Amor, tudo bem? Você não vai acreditar, estou indo para
o Brasil no final de semana, tenho uma reunião em Porto Alegre, acredita?
Poderei passar o final de semana com você.
Estou
morrendo de Saudades.
Léo
Li a mensagem duas
vezes para ter certeza se era verdade.
–O que foi? –perguntou
Rebeca.
–Olha isso aqui!
–respondi entregando meu iphone para ela ler a mensagem.
–Eu não acredito!
Agora o circo está completo. O que você vai fazer?
–Não sei. –respondi
sem acreditar. –Acho que vou inventar uma desculpa, o que você acha?
–Mas o que você
vai falar? Vai falar que não dá? Acho que não tem como. Ele estará alguns quilômetros
daqui.
Coloquei as mãos
no rosto, tentando esconder minha frustração.
Uma rodada de
chope mais tarde, fomos embora. Cheguei em casa, minha mãe estava na sala me
esperando.
–Oi, filha. Onde
você estava?
–Saí com a Rebeca,
precisava conversar com alguém.
–Você falou com
seu irmão?
–O Rafael não é
meu irmão. –falei saindo em disparada.
–Ana, me desculpa,
saiu sem pensar.
Olhei para ela
compassiva.
–Infelizmente não
o vi e você o viu?
Ela fez que não
com a cabeça.
–Mãe, queria tanto
saber como ele está, queria tentar poder ajudá-lo.
–Eu sei filha, mas
você sabe que o Rafael é muito reservado. É a maneira que ele tem de sofrer.
Acho que desde a morte do pai dele ele criou esse instinto de se isolar quando
acontece alguma coisa.
Ela suspirou.
–Mas a verdade
filha, é que o Rafael só tomará uma atitude em relação a essa criança quando
você não estiver por perto. Então a vida dele entrará nos eixos.
Engoli seco.
–Você acha melhor
eu ir embora? –perguntei temerosa.
–Ana, o Rafael só
encarará o fato de que a Fernanda espera está esperando um filho dele, quando
vocês não estiverem mais pertos um do outro.
Não respondi nada,
no fundo ela tinha razão.
Fui para meu
quarto e liguei para a Alessandra e contei a ela tudo o que se passava. Ela me
deu vários conselhos e todos eles direcionavam para uma mesma direção. Lutar
pelo Rafael.
Depois ela me
falou sobre a situação dela com o Willian, que também estava ficando complicada.
O Willian estava tendo problemas no casamento, sua esposa dava indícios que
queria a separação. Conversamos por algum tempo. E assim que desliguei o
telefone, liguei para o Léo.
Léo estava
radiante em poder passar o final de semana em Canela, e conhecer pessoalmente
meus pais. E eu sabia que aquilo complicaria ainda mais as coisas.

Então né. .. sabiaaaa que teriam surpresinhas kkkk.... agora é torcer para que ambos fiquem felizes de alguma maneira....
ResponderExcluir