segunda-feira, 20 de julho de 2015

Faça por mim. Parte 06 por Érika Prevideli

Faça por mim

Parte 06

                                                     
Entender não significa aceitar


Acordei por volta das dez horas da manhã. Cada centímetro do meu corpo doía. Peguei meu iphone e tinha algumas mensagens da Alessandra e da Rebeca.
Li primeiro a mensagem de Rebeca.

Ana, tudo bem? Ficamos preocupado
 com vocês! Acabou tudo bem?
Beijos Rê

Assim que eu li a mensagem de Rebeca eu digitei e enviei uma resposta.

Rebeca, ele se acalmou, estava um pouco agitado, mas depois que conversamos tudo acabou bem.
Obrigada por tudo! Beijos Ana

Liguei para Alessandra, que queria saber das novidades, ela já estava ciente de tudo, e vibrava com cada fato que eu lhe contava.
Na hora do almoço, Rafael almoçou comigo e com meus pais. Meu pai estava todo contente, e ressaltou que os últimos dias foram ótimos para ele, pois a família estava toda unida. O Rafael também estava muito contente, e nossos olhares se cruzavam quase que a todo o momento.
Percebi que a minha mãe estava estranha, parecia chateada. Permaneceu o almoço todo calada. Após o almoço, eu, meu pai e o Rafael estávamos conversando quando minha mãe entrou na sala.
–Ana, hoje à tarde vamos sair!  Marquei um horário no salão e gostaria que você me acompanhasse. Depois podemos tomar um café.
–Vamos sim mãe, adorei a ideia.
Rafael passou por ela, abraçando-a.
–Quando forem tomar um café, me liguem que encontro vocês.
Minha mãe deu-lhe um sorriso sem graça, mas não respondeu nada para Rafael, que se despediu de nós e foi para a loja.
Naquela tarde, depois de termos passado horas no salão fazendo unhas, cabelo, depilação; eu e minha mãe saímos de lá renovadas, saímos de lá e passamos para comprar um presente de aniversário para o Arthur.
Minha mãe quis voltar dirigindo, ela ainda parecia estar chateada.
–Mãe, vamos tomar um café?
 –Não Ana! Preciso que você conheça um lugar.
Fiquei curiosa, mas não perguntei. Notei que ela fazia o mesmo caminho para a fazenda, contudo, ao invés de seguirmos para lá, ela pegou o caminho do lago. Senti um frio na barriga.
–Aonde estamos indo? –perguntei apreensiva.
–Quero que você conheça um lugar. –disse ela mais uma vez.
Ela só parou o carro quando chegou em frente a casa do Rafael, apertando o controle do portão para entrarmos. Olhei para ela intrigada, mas ela não olhou para mim.
–Lindo esse lugar não é Ana?
Fiquei calada, e fiz que sim com a cabeça.
Minha mãe estacionou a CRV onde geralmente o Rafael estacionava a caminhonete dele. Assim que eu desci do carro, inspirei aquele ar puro das montanhas, e vi que ela olhava para mim de uma maneira diferente.
–É perfeito esse lugar. –disse olhando ao redor.
Sentia-me estranha em estar ali com ela.
Pensei em falar que já conhecia a casa, mas se eu falasse que já tinha ido outras vezes com o Rafael, ela me questionaria o porquê de eu nunca ter dito nada a ela. Ela foi caminhando em minha frente, subindo as escadas na lateral da casa, que dava acesso ao terceiro pavimento, onde se localizava um deck de madeira, com mesinha, espreguiçadeiras e um ofurô. A vista do deck era privilegiada, era possível ver todo o lago, do alto da casa.  Eu já havia estado naquele lugar, naquele ofurô, mas não pude dizer nada.
Dona Clara ficou parada olhando para o lago por alguns instantes, e eu fiquei tentando imaginar o porquê estávamos ali. Então ela voltou-se para mim, estava muito séria.
–Ana, eu quero que você seja sincera, olhando em meus olhos, tenho certeza que você não será capaz de mentir para mim.
Revezei o peso do meu corpo, de uma perna para outra. E olhei diretamente para ela.
–Pode falar! –disse apreensiva.
–Você já conhece esse lugar, não é?
–Conheço. –respondi sem hesitar.
–E é claro que você veio com o Rafael.
–Não é a casa dele mãe? Então claro que foi ele quem me trouxe.
–E quantas vezes vocês estiveram aqui?
–Algumas vezes. Hoje faz uma semana que conheço essa casa.
Ela balançou a cabeça concordando. Caminhou até a mesa, sentando-se, com as mãos entre o rosto.
Fui até ela.
–Mãe, deixa eu te explicar.
Ela balançou a cabeça em tom de negação.
–Eu vi você saindo do quarto do seu irmão hoje pela manhã, Ana.
–Ele não é meu irmão!
-–Ah, não é?  Então de uma hora para outra vocês decidem que não são mais irmãos e você caí na cama dele?
Olhei para ela incrédula, e fui até o parapeito do deck apoiando-me.
Fiquei inspirando aquele ar, juntando forças para dizer tudo o que precisava.
Segui até a mesa onde ela estava e sentei-me ao lado dela.
–Sempre soube que você nunca entenderia.
–Ana, vocês são irmãos!
–Não, não somos! –disse alterando minha voz.
Suspirei, não era o momento para eu perder a razão.
–Olha mãe, eu sou apaixonada pelo Rafael desde os oito anos de idade. Com oito anos eu estava lá do outro lado do lago e nós planejamos que a nossa casa seria aqui.
Ela sorriu ironicamente.
–Com quinze anos eu tive minha primeira noite de amor com ele. Só que nós dois sabíamos que vocês nunca aceitariam nosso romance, então nos afastamos de vez. Aliás, ele se afastou de mim. Justamente por sentir-se mal com essa situação em relação a vocês. Eu quase morri de tanta tristeza! Você se lembra de quando eu quis fazer intercâmbio? Você via que eu não estava bem, tanto que me questionava o porquê da minha tristeza, por várias vezes.
Ela passou as mãos pelos seus cabelos dourados.
–Ana, minha filha, isso era um amor de adolescência. Confesso que imaginava que já tivesse acontecido alguma coisa entre vocês, mas eu sempre soube que isso passaria, e passou filha. Olhe para você, bem-sucedida, dona de si, e está noiva de um rapaz maravilhoso.
–Mãe, eu fugi dos meus sentimentos por anos e anos. Também imaginei que passaria, mas não passou. Quando reencontrei o Rafael no aeroporto, tive certeza de que todos esses anos fugindo foram em vão. Eu o amo mais do que tudo. Nunca senti por ninguém o que sinto pelo Rafael.
–Ana, pensa bem! Seja racional! Todo mundo acharia um absurdo um romance entre vocês. Vocês foram criados como irmãos, ele pode não ter nascido de mim, mas eu o tratei como se ele fosse meu. Então para mim ele é meu filho, assim como você.
–Passamos todos esses anos com medo do que as pessoas diriam, do que vocês diriam. Mas e aí? Só porque nós crescemos juntos, não podemos amar um ao outro? Vou te dizer uma coisa, eu nunca nem olhei pra um garoto da escola, pois sempre foi Rafael. Enquanto as garotas da minha sala suspiravam pelos carinhas da escola, eu suspirava em silêncio pelo Rafa. E sempre foi assim. Tanto que precisei ir embora e somente por isso, fiquei sem voltar pra Canela por cinco anos.
Ela suspirou, acredito que nesse momento ela também precisava organizar suas palavras.
Meu celular vibrou, era uma mensagem do Rafael.
Oi meu amor, tudo bem? Estou procurando vocês na cidade, onde vocês estão? Estou morrendo de saudades.
Amo você.
Seu Rafael

Digitei rapidamente e enviei:

Estamos na sua casa. Minha mãe descobriu sobre nós. Estamos conversando. 
Amo Você!
Sua Ana

Ela me viu digitando uma mensagem, mas não quis saber quem era.
–Ana, se você não tivesse voltada para Canela, as coisas estariam nos seus devidos lugares, não estariam? Até uns dias atrás você estava apaixonada pelo Léo. E o Rafael tocando a vida dele.
Eu ri descrente.
–Então para você seria mais fácil eu nunca ter aparecido. Pelo menos assim eu não tiraria a sua tranquilidade. É isso que você quer dizer?
–Não! Não é isso Ana! Não coloque palavras em minha boca! Você entendeu bem o que eu quis dizer. Quero dizer que até quinze dias atrás, sua vida estava mais do que resolvida, você acabou de ficar noiva, e o Rafa aqui, saindo com várias mulheres diferentes como ele sempre fez. Ou você acha que ele ficou esses anos todos esperando por você?
Nesse instante, senti um nó parado na garganta.
–Eu sei que ele teve outras mulheres, também pudera, ele é lindo, inteligente, bem de vida; estranho seria se ele não tivesse estado com outras mulheres, não é? –disse sendo irônica. –Assim como eu! Também tive outros homens. Mas mesmo assim mãe, é isso que quero que você entenda, no fundo eu nunca os amei. O Léo, por exemplo, eu gosto de estar com ele, conversar com ele, mas ele nunca mexeu tanto comigo como o Rafael mexe.  Eu amo o Rafael e ele me ama também.
Ela me olhava sem dizer nada. Era como se não digerisse uma só palavra das quais eu estava dizendo.
–Olha para isso! –disse mostrando ao nosso redor. –Esta casa é a prova que ele sempre me amou. Ele foi atrás de mim em São Paulo, mas nós não nos falamos porque eu estava com o Léo. Então ele voltou para Canela e decidiu construir a vida dele, ser independente. Foi quando ele foi estudar fora do país, depois voltou e montou a fábrica, construiu essa casa, que era um sonho em comum.
–Como um sonho em comum?
–Mãe, nós dizíamos que no futuro faríamos uma casa aqui no lago.  Eu dizia a ele que esse era meu sonho. Então um dia ele me prometeu que construiria uma casa para nós. E anos depois ele cumpriu com a promessa dele. E realizou meu sonho.
Suspirei, aliviada ao eliminar essas palavras.
–Então é isso o que importa! Com quantas mulheres ele saiu, com quem ele já namorou, isso não me interessa. O que realmente importa é que eu sei que o Rafael sente por mim o mesmo que sinto por ele.
–Tudo bem, Ana! Eu sou capaz de entender. Embora eu discorde! –ressaltou ela. – O que eu entendo é que vocês se tornaram-se homem e mulher, que não são do mesmo sangue, e que vocês tenham se apaixonado. Mas e seu pai? Você acha que ele aceitaria esse romance, um dia? Pra ele, você e o Rafael não tem diferença, são filhos da mesma maneira. Ele nunca entenderia uma história dessas ele acusaria vocês de incesto.
Nisso Rafael subiu às escadas com cara de preocupado. Ele olhou para minha mãe e em seguida para mim.
–O que está acontecendo? –ele perguntou vindo ao meu lado.
–Eu quem pergunto Rafael. O que está acontecendo entre vocês? O que vocês dois estão fazendo? Por que estão fazendo isso comigo e com seu padrinho? Ele considera você como um filho. Você acha certo enganá-lo assim, da maneira que vocês estão enganando?
–Madrinha, eu.
Minha mãe o interrompeu no mesmo segundo.
–Não Rafael! Eu já ouvi a história melosa de vocês dois, de quando vocês eram crianças, e blá, blá, blá!  Então, por favor, pula essa parte. E até falei para a Ana, eu discordo totalmente, mas imaginava que isso pudesse acontecer um dia. Entretanto, e quanto ao seu padrinho? Ele nunca aceitaria essa situação e você sabe muito bem disso.
–Eu vou falar com ele, ele tem que me ouvir.
–Ah, você vai falar com ele? E vocês por acaso se esqueceram de que há uma semana ele quase teve um infarto. Então agora vocês querem matá-lo de vez?
–Não mãe! Nós não vamos matá-lo, mas nós não podemos mais mentir, então é melhor que digamos a verdade, ele pode não aceitar agora, mas um dia ele vai, tenho certeza.
–De jeito nenhum! Não vou permitir que vocês toquem nesse assunto agora. Eu acho que a verdade realmente tem que ser dita, mas não agora. –ela disse convicta.
Eu e o Rafael nos entreolhamos e ele segurou minha mão.
–E eu só falo uma coisa para vocês dois, eu proíbo que vocês repitam o que aconteceu essa noite em minha casa. Minha casa é um lugar de respeito. Ana, imagina se o seu pai tivesse visto a filha dele saindo pela manhã do quarto do irmão dela. Pois na verdade é assim que ele enxerga vocês dois, como dois irmãos.
Concordei meneando a cabeça, não tive argumentos para enfrentá-la, afinal, ela tinha razão. Abaixei minha cabeça, sentindo-me totalmente envergonhada.
–Madrinha, eu amo a Ana, e não vou desistir dela por nada nessa vida.
Ela o encarou.
–Então eu acho que você vai ter que escolher entre a Ana e entre o amor e o respeito do seu padrinho, o homem que criou você como filho dele.
Minha mãe saiu. Foi embora sem dizer nos dizer mais uma palavra.
Rafael me abraçou forte e beijou-me o topo da cabeça.
–Vai ficar tudo bem! Agora só falta seu pai. Nós vamos conseguir, você vai ver!
–Rafael, mas em uma coisa ela tem razão, acho bom esperarmos mais um pouco, eu tenho medo que aconteça algo com ele, e eu nunca me perdoaria.
Ele concordou com a cabeça.
–Que vergonha! Estou me sentindo a pior pessoa do mundo. Minha mãe está muito decepcionada, e com toda a razão.
–Desculpa Ana! Eu quem fiquei falando sobre ir em seu quarto. Foi culpa minha.
–Não, claro que não! A culpa é nossa. Nós fomos inconsequentes.
Ele soltou um sorriso sem graça, e me abraçou ainda mais. E ficamos ali, parados em pé, vendo a tarde cair.





11
Perdendo o Chão


 Voltamos para a fazenda e meu pai veio ao nosso encontro.
–Meninos, vocês não irão sair hoje, não é? Nós vamos receber uma visita.
–Padrinho, combinamos de sair com o Enzo e com a Rebeca para comer alguma coisa.
 –Não tem como deixar para outro dia, meu filho? O prefeito e sua família jantará conosco esta noite.
Olhamo-nos intrigados.
–Mas pai, é um jantar de amigos, não é? O prefeito e a esposa, o senhor e a mamãe. Talvez eles nem se sintam à vontade com a nossa presença. –indaguei.
–Não minha filha, os filhos dele também virão, e ele me pediu a presença do seu irmão.
–Minha presença? Por quê? O que ele quer comigo?
–Não sei, mas o Paulo perguntou se você estaria aqui. Ele disse que precisava muito falar com você.  Também estranhei, mas ele não me adiantou nada.
Rafael passou a mão pelo rosto. Parecia muito preocupado. Senti meu coração apertar.
–Você não andou aprontando nada com a filha dele, não é?
–Nada que ela não quisesse. –disse Rafael dando de ombros para o meu pai.
 Meu celular tocou nessa hora, era o Léo. Me afastei para falar com ele. Senti menos vontade do que o habitual em conversar com ele naquele momento. Estava com medo do que estava por vir, porque uma coisa era certa, a Fernanda não estava de brincadeira, na noite anterior no OPEN DOOR. Rafael e meu pai ainda ficaram conversando na área por algum tempo. Eu podia sentir o olhar de Rafael me queimando ao me ver falar com o Léo. Assim que desliguei o telefone subi as escadarias, ficando de frente com eles. Rafael me olhou sério.
–Pai, onde minha mãe está?
–Ela está na cozinha ajudando a Maria com o jantar.
–E o senhor está bem?
–Claro que sim, estou me sentindo ótimo! –ele disse todo inocente.
–Vou ver se elas precisam de ajuda com o jantar para o prefeito e sua família. –disse irônica.
 Rafael abaixou a cabeça, desviando o olhar do meu.
–Mãe, está tudo bem?  –perguntei, adentrando a cozinha.
Ela me fitou com os olhos.
–Está sim! Você está sabendo que teremos visitas?
–Estou. Está acontecendo alguma coisa?
–Não que eu saiba, por quê? –ela perguntou ironicamente.
–Não sei. O meu pai disse que o prefeito fazia a questão da presença do Rafael.
 Minha mãe ergueu as sobrancelhas recém-esculpidas.
–Você sabe que ele e a Fernanda andaram saindo, não é?
–Sei. Mas o que tem isso?
–Eu não sei do que se trata. O Paulo não disse nada a seu pai. Talvez nem seja sobre os dois, vamos aguardar.
Concordei e subi para o meu quarto. Faltava mais de uma hora para eles chegarem. Deitei um pouco para descansar. Fiquei pensando nos últimos acontecimentos. Pensava no Léo. Afinal, sentia remorso de estar fazendo isso com ele, e infelizmente ele não merecia ser tratado assim. Pensei em minha mãe, na decepção que causei a ela, que ficou totalmente desapontada comigo. E me senti ainda mais preocupada no que estava por vir. Receber a Fernanda em minha casa, nem de longe parecia ser algo inofensivo. Meu celular vibrou, era o Rafael que estava me ligando.
–Você está bem?
Fiquei olhando para o teto, sem saber o que dizer, na verdade com tudo isso eu não estava nada bem.
–Me defina bem?
–Te achei esquisita! Você sumiu, se trancou em seu quarto sem dizer nada.
–Só estou cansada, e você também me pareceu preocupado? Tem algo acontecendo que eu não sei?
Senti que a respiração dele ficou ofegante.
–Ana, você sabe tudo o que aconteceu. E eu também não entendi o porquê do Paulo querer a minha presença. –Mas não estou preocupado, só fiquei surpreso. Você quem me deixou preocupado. Foi por causa da conversa com a sua mãe?
–Rafa, estou bem, fica tranquilo. Só quero descansar e tomar um banho. Meu dia foi um pouco tenso.
–Ana, nós dois juntos vamos fazer com que tudo dê certo. Mesmo que não seja fácil, estou pronto para o que der e vier.
Suspirei exasperada.
–Rafa, estou com medo Rafael, não queria, mas estou.
Ele fez uma pausa.
–Eu sei, mas nunca se esqueça que eu amo você. Eu amo você mais do que tudo, mais do que jamais imaginei amar alguém.
Eu sorri.
–Eu também amo você Rafael. Amo muito! Nós vamos conseguir sim. Eu vou tomar um banho e logo desço para o tal jantar.
–Vou te esperar ansiosamente. E depois do jantar a gente dá um jeito de ir para a nossa casa.
–Rafa, eu estou com um pressentimento ruim. Não sei, mas eu acho que você também está.
–Fica tranquila. Ah, e eu falei com a madrinha. Ela estava bem mais calma. E com o seu pai será assim também, você vai ver. Quanto essa visita de hoje, não se preocupe, não deve ser nada sério.
–Tomara. –disse suspirando.
–Até daqui a pouco.
–Te amo Ana!
Assim que desliguei o telefone, afundei minha cabeça nas almofadas da minha cama, não queria pensar em mais nada, minha cabeça já estava cansada demais. Acabei pegando no sono. Acordei já passava das oito, eles chegariam a qualquer momento. Corri tomar um banho, tomando cuidado para não estragar meus cabelos que estavam escovados do salão. Vesti uma saia preta, uma regata de seda amarela da Chanel e um terninho preto por cima, com as mangas dobradas na altura dos cotovelos, e meu scarpin preto favorito Jimmy Choo. Passei uma maquiagem natural, o mais possível, apenas pó, rímel, lápis de olho e um gloss.
 Ouvi o barulho do carro, olhei pela janela, vi um AUDI Q7 branco estacionando em frente da casa. Esperei alguns minutos para descer. Mas não podia conter a ansiedade, revisei minha maquiagem, e dessa vez acrescentei um pouquinho de blush. Mandei uma mensagem para o Léo, pois estava com remorso.

Olá!!! Jantarzinho com a família hoje.
Beijos
Ana

Ao enviar, fiquei olhando para mim mesma no espelho, quem eu estava enganando? Não, eu não o amava. Não da maneira que eu amava o Rafael.
Quando desci as escadas, todos já estavam na sala. Estavam sentados e conversando Menos Rafael, que estava calado ao lado do meu pai.
Assim que me viram, todos ficaram em um silêncio uníssono. Pude sentir todos me olhando, meu pai e minha mãe pareciam orgulhosos ao me verem, Fernanda me fuzilou com o olhar, não sabia se era raiva ou despeito, Junior, o irmão dela, parecia estar com segundas intenções, e o prefeito e sua esposa pareciam felizes por me conhecer, e o Rafael me olhou apaixonadamente.
Meu pai fez às vezes da casa, apresentou-me ao Sr. Paulo e a Sra. Isabel. Ambos preferiram que eu os chamassem apenas pelos seus nomes, sem formalidades. Paulo era um grande empresário e um dos maiores fazendeiros de Canela, um senhor alto, elegante, cheio de estilo; Isabel sua esposa, uma mulher muito elegante, aparentava ser bem mais nova que o marido, era morena, olhos claros, estatura média, cabelos pretos na altura dos ombros, tinha um olhar sei lá, desafiador.
Igor, o irmão de Fernanda que quase me agarrou no bar, e que havia levado um murro de Rafael, tanto que ainda estava com um hematoma ao redor do olho, tinha seus 24 anos assim como eu.  E era um moço alto, corpo atleta, olhos claros como os da mãe, mas pelo jeito sem nada na cabeça. E por último cumprimentei a Fernanda, que estava muito bonita, com cabelos avermelhados soltos, recém-saídos do salão de beleza. Fernanda tinha estatura média, corpo cheio de curvas, peitos enormes, usava uma maquiagem bem marcada, estava com um vestido de couro preto, bem justo ao corpo, um pouco acima dos joelhos, bem diferente do que eu costumava ver na boate, onde ela sempre estava de saias curtas, blusas agarradas.
–Oi, Ana, é um prazer revê-la.
–O prazer é meu. –disse mentindo.
Meu pai serviu doses de uísque para Paulo e para o Igor, Rafael não aceitou e ficou apenas os observando conversarem.
Minha mãe conversava com Isabel como se conhecessem há anos. Eu respondia algumas coisas que a Isabel me perguntava, mas fiquei prestando atenção na Fernanda. Ela olhava para Rafael algumas vezes, mas em momento nenhum ele olhou para ela.
Resolvi ir até a cozinha para pegar um copo de água. Rafael também se levantou em seguida, passando por mim, para servir-se um pouco de uísque, deu-me uma piscada, e cochichou em meu ouvido sem que ninguém percebesse.
–Você está linda!
 Sorri para ele.
–Você também!  
 E realmente ele estava lindo. Estava com um jeans escuro, e uma camisa xadrez escura, dobrada nas mangas. Cabelos minuciosamente arrumados. Barba feita. E seu cheiro, que era sempre maravilhoso.  Apesar de Rafael ter crescido em uma fazenda, ele sempre teve um estilo bem despojado. E eu amava o jeito dele se vestir.
Maria entrou anunciando que o jantar estava pronto. Rafael parecia desconfortável com todas aquelas pessoas e principalmente com a presença da Fernanda. 
Fomos para a sala de jantar, Rafael sentou ao meu lado, mas de frente para Fernanda, que o seguia com os olhos, prestando atenção em cada movimento dele. Algumas vezes ele segurava minha mão ou apertava minha coxa, por debaixo da mesa, sempre discretamente.
Mal toquei na comida, o simples fato de ver a Fernanda encarando o Rafael como se ele fosse o prato principal estava me deixando irritada.
Paulo queria ser simpático comigo. Querendo saber onde eu morava, o que eu fazia, onde trabalhava com quem trabalhava, se eu namorava, quando fui falar sobre o Léo, pude senti o incomodo do Rafael. Igor me encarava como se eu fosse um pedaço de carne para um predador, aquilo estava me deixando ruborizada.
Após o jantar, todos voltaram para sala, Maria serviu um café.
Acabei enrolando um pouco, ajudando a Maria com as coisas da mesa; quanto menos que ficasse no mesmo ambiente com aquelas visitas, era melhor para mim.
Quando voltei, alguns já estavam tomando seus cafés. Sentei ficando de frente para o Rafael que me encarou e sorriu para mim. Minutos depois Paulo começou seu discurso.
–Bom pessoal, está tudo muito gostoso, o jantar estava maravilhoso, Clara, parabéns como sempre.
Minha mãe corou.
–Mas o que nos trouxe aqui, é um assunto meio sério, aliás, bem sério.
Dito isso percebi um vinco de preocupação no rosto do Rafael.  Todos ficaram em silêncio prestando atenção no que Paulo ia dizer.
–Fernando e Clara, não sei se vocês sabem, mas nossos filhos, a “Fernanda e o Rafael” estão tendo ou tiveram certo envolvimento. –disse Paulo apontando para ambos.
–Tivemos! exclamou Rafael.
 Nesse momento todos os olhos se voltaram para ele. Fernanda se afundou no sofá.
–Então vocês não estão mais juntos Rafael? –perguntou Paulo em tom exasperado.
–Não! Apenas nos encontramos algumas vezes, não foi nada sério. –disse Rafael, com a voz firme e decidida.
–E há quanto tempo vocês estão se "encontrando" algumas vezes?
Rafael suspirou.
–Ah, sei lá, de uns dois meses para cá. Mas era esporadicamente. Quando dava certo da gente se encontrar.
 Nisso Rafael olhou para Fernanda.
 –Foram poucas vezes. –continuou ele.
–Oito vezes, Rafael! Teve um final de semana que eu não vim para Canela, mas você me ligou e foi me encontrar em Porto Alegre, está lembrado?
Quando Fernanda disse isso, meu estômago deu um nó. Minha garganta secou. Eu já não conseguia mais olhar para Rafael.
Ele balançou a cabeça concordando.
–Tudo bem, mas e aí? –questionou Rafael.
Estava sentada de frente para ele, era nítido que ele já estava muito tenso com tudo aquilo.
–E aí que eu estou GRÁVIDA! 

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