sábado, 25 de julho de 2015

Faça por mim Parte 11 por Érika Prevideli

Faça por mim

Parte 11




17
Chegadas e Partidas

Fiz o caminho de volta para a fazenda dos meus pais soluçando de tanto chorar. Era como se eu deixasse um pedaço do meu coração junto com o Rafael.
As imagens daquela noite: ver o Rafa tocando nossa música só para mim, depois chorar pela minha partida, rindo juntos na cozinha e por último aquele amor com vontade de que não terminasse nunca, com certeza, nunca mais sairia nem da minha mente e nem do meu coração.
 Ficava me perguntando em como iria encarar o Léo depois de tudo o que tinha acontecido, como pude fazer isso com ele e não sentir absolutamente nada de remorso.
Chequei em casa já se passava das quatro e vinte da manhã.  Entrei na ponta dos pés para que ninguém me escutasse chegar. Subi as escadas silenciosamente, pois meus pais acordariam a qualquer minuto.
Passei pelo quarto do Léo e gelei ao ver que luz estava acesa.  Talvez ele tivesse acordado àquela hora, ou talvez ele nem tivesse dormindo, me esperando chegar. Senti um frio na barriga de como alguém que foi pego em flagrante.
Entrei em meu quarto e fui para o chuveiro, o cheiro do Rafael ainda estava na minha pele, e eu não queria que saísse nunca mais.
Encarei-me no espelho como o pior ser humano do mundo. Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo, coloquei um jeans claro, uma camisa jeans escura e sapatilhas. Dei um jeito em meu rosto, pois estava com cara de quem dormiu apenas umas duas horas nos braços do homem mais lindo do mundo e depois em lágrimas o abandonou. Peguei minhas malas e minha bolsa de mão. Quando estava de saída, minha mãe entrou em meu quarto.
–Oi mãe.
–Ana, você não podia ter feito isso! Não com seu noivo aqui.
A encarei por um minuto e comecei a chorar novamente.
–Eu sei mãe! Estou perdendo o juízo. Mas eu amo o Rafael amo muito. Dói demais, ter que deixá-lo aqui.
Minhas lágrimas escorriam e ela me abraçou em seguida.
–Desculpa por te magoar mais uma vez.
–Não é a mim que você está ferindo, é a si mesma. Você não percebe isso?
Fiquei abraçada a ela, sem querer sair nunca mais daquele colo.
–Amo você minha filha. Não aguento ver todo esse sofrimento.
Minutos depois, fomos obrigadas a descer. Já estava quase na hora de ir embora. Minha mãe desceu na frente e eu fui lavar meu rosto.
Cinco e dez da manhã já estava pronta. Dei uma olhada em meu quarto, ali, havia vivido em duas semanas, os momentos mais alegres e os mais tristes da minha vida. E saí sem olhar para trás. Passei em frente o quarto do Léo, e bati na porta.
–Já vou descer. –ele espondeu secamente.
Não insisti, desci sem ele. Meus pais já estavam na cozinha. Minha mãe havia preparado uma mesa para o café da manhã.
–Bom dia filha! –disse meu pai dando-me um beijo.
–Bom dia. –respondi sentindo-me pessoa menos animada do mundo.
–E ontem como foi? –ele indagou.
Não podia nem chegar perto de contar o que havia acontecido, no mínimo, ele teria um ataque do coração.
–Por falar nisso, que horas você chegou Ana? –perguntou meu pai com uma cara esquisita.
–Cheguei tarde pai, o Rafa estava tocando violão, e depois conversamos bastante.
–Ele havia bebido?
–Não, claro que não! Só não queria ver ninguém.
–Mas depois que você saiu eu vi que não tinha lhe entregado as minhas chaves como você entrou? –ele perguntou desconfiado.
–Eu dei meu controle a ela. –interrompeu minha mãe salvando-me de uma situação difícil. –Deixe-a contar homem.
 Léo apareceu na cozinha.
–Bom dia! –ele disse sem esboçar nenhum resquício de sorriso
Olhei para ele, me sentindo a pior pessoa da face da Terra.
–Bom dia! –respondi com um nó na garganta.
–Que horas você voltou Ana? –disse Léo repetindo a mesma pergunta do meu pai.
–Era um pouco tarde Léo, não quis acordar você.
–E aí filha? Como ele estava? –interrompeu minha mãe, possivelmente desviando o assunto.
–Está melhor! Ele disse que passou o dia com a Déb. Falou um pouco sobre o quanto é grato a vocês e ao pai dele. E disse que também amará essa criança. Nem que ele não se casar com a Fernanda, aliás, ele nem tocou nesse assunto, mas o filho, ele assumirá com certeza.
Menti, isso foi tudo eu quem disse a ele. Minha mãe suspirou aliviada.
–Quando vimos já era tarde; o Rafa até me pediu desculpas por eu ter ficado lá tanto tempo. Entretanto, eu precisava fazer isso, não queria ir embora sem falar com ele. Queria que as coisas ficassem bem entre nós novamente.
 Léo permaneceu-se calado. Parecia totalmente aborrecido. Apenas tomou o seu café puro. Minha mãe lhe ofereceu outras coisas, mas ele não aceitou nada.
–Precisamos ir! –ele disse sem olhar para mim.  –Muito obrigado Fenando e Clara pela hospitalidade, fui muito bem recebido por vocês. –disse Léo com toda cordialidade.
 Corri pegar o presente que eu comprara para Maria. Voltei, eles estavam se abraçando.
–Foi um prazer recebê-lo na nossa casa. –disse meu pai acompanhando-o.
Eles saíram na frente, fiquei para trás com minha mãe. Ela me abraçou apertado. E eu comecei a chorar.
–Mãe, meu coração está dilacerado! Você não tem ideia de como está sendo difícil para mim. Como foi difícil deixá-lo sozinho, sendo que eu o amo tanto.
Minha mãe me abraçou ainda mais forte.
–Eu nem sei o que lhe dizer! Agora é só deixar que o próprio destino se encarrega. Se vocês tiverem que ficar juntos, nada nesse mundo irá atrapalhar passe o tempo que passar!  Mas você está fazendo a coisa certa, está dando a ele o espaço que ele precisa pra tomar suas próprias decisões.
 Apenas concordei. Ela olhou para meu rosto, e secou minhas lágrimas.
–Não fique assim, Ana! Não posso ver você chorando. Há um belo rapaz lá fora, que te ama, e te ama muito, dê uma chance a ele, se não der certo, pelo menos vocês tentaram. Eu só quero ver você e o Rafael felizes. Vocês são minha vida!
Maria que estava de folga chegou somente para despedir-se de mim. Entreguei a ela o presente que eu tinha comprado.
–O que é isso, minha filha? –Maria perguntou-me com os olhos inundados de lágrimas.
–Maria, é só uma lembrança. Você é uma pessoa iluminada, merece muito mais, só tenho que lhe agradecer por tudo o que você faz pela nossa família, e por toda sua paciência, cuidado, carinho comigo nesses dias.
Abraçamo-nos e ela chorou ainda mais. Sequei minhas lágrimas, e segui para o carro. Despedi-me do meu pai que também acabou ficando emocionado.
–Hei, se cuida hein! Caso contrário voltarei para te dar uns puxões de orelha, tome seus remédios direitinho e faça seu repouso.
Ele fez que sim e abraçou-me.  Minhas malas já estavam todas no porta malas do carro de aluguel.
E assim partimos, deixando ali, um pedaço generoso do meu coração, da minha alma, deixando para trás os últimos dias que tive, que foram os melhores e os piores da minha vida. E levando comigo as recordações de uma noite de amor, com o único e verdadeiro amor da minha vida.
Fiquei apenas imaginando a reação dele ao acordar, e perceber que estava sozinho, sabendo que eu já havia partido.  Minhas lágrimas aumentavam em cada curva, a dor no meu peito me consumia. A dor era tamanha que parecia crescer comprimindo meus órgãos por dentro.
Léo, não disse uma única palavra, apenas dirigiu. O caminho da fazenda até o aeroporto durava cerca de quase duas horas.  Passados uns cinquenta minutos dentro do carro, minhas lagrimas já haviam cessado e eu já me sentia mais calma, porém, estava pensativa e calada.
Léo olhou para mim, e olhei para ele, que estava realmente zangado. Quando começou a falar:
–Que palhaçada foi aquela ontem?
-Por que palhaçada?
-Por que? Você me fez de bobo ontem Ana. Disse ele fuzilando-me com o olhar. -Um cara que eu não conheço liga para você, no seu celular, e em seguida você simplesmente sai de casa, e passa a noite fora! Léo esbravejou-se dando um soco no volante.
Senti o sangue correr mais rápido nas minhas veias. Em quase quatro anos de namoro eu nunca o vi tão alterado daquela maneira, aliás, eu nunca o vi alterado antes.
–O quê? Olha a maneira que você está falando? Não foi assim. Era o Rafael com quem eu fui conversar Léo, eu precisava falar com ele.
–Ah, Ana, seu irmão! Como eu vou saber se era com seu irmão que você estava, até àquela hora.  –ele falou levantando a voz.
–Você está falando sério Léo? Porque se você estiver, eu sinto muito, mas não tem mais nem o porquê continuarmos essa conversa.
Ele dirigiu transbordando de raiva.
–Você passou a noite fora. –disse ele falando entre os dentes.
Eu congelei no banco.
–Eu sonhei com você. Que você estava chorando, então acordei Ana, olhei, era umas quatro horas da manhã. Fui até seu quarto, para ver se você estava bem, e adivinha? Abri a porta e você não estava. Sua cama estava intacta, você não tinha voltado.
Suspirei. Não sabia mais onde buscar minha força para continuar a falar depois de ser desmascarada.
–Você quer que eu fique como? Quer que eu pense o quê? Fala para mim? Venho aqui por sua causa, porque eu estava com saudades, queria ficar junto de você, queria conhecer seus pais, e você simplesmente some, um cara te liga e você sai e passa a noite fora.
–Eu estava com o Rafael! – disse aumentando o tom de voz bem mais do que  queria. Ele precisava de mim, e eu precisava falar com ele, eu não queria e não podia ir embora brigada com ele. Fazia cinco anos Léo, cinco anos que eu não via o Rafael e agora sabe-se lá quando vou vê-lo novamente. Tudo bem, eu errei em ter perdido a noção do tempo, de ter deixado você, mas não podia deixar de ir até lá.
 Minhas lágrimas começaram a rolar novamente.
–E quer saber? Não me arrependo de ter ido. O Rafa me ouviu, conversou comigo, desabafou, e agora eu estou aqui Léo, indo embora com você.
–Aquele porra do seu irmão, meio irmão, sei lá, o que você são. Mas eu fui lá por você, queria ficar com você. E você simplesmente some! Não, não dá para entender.
 –Eu sei Léo, me desculpa? Eu errei realmente.  Mas é minha família, é o Rafael, e se tivesse que ficar para ajudá-lo eu o faria.
–Nossa! Você mudou mesmo, hein! –disse ele com desdém
–Talvez não tenha mudado o suficiente. –rebati.
–Para quem passou cinco anos evitando a família, você virou uma defensora e tanto de um marmanjo que sabe muito bem como cuidar-se, ou pelo menos deveria.
Tive ódio em ouvi-lo falar daquela maneira do Rafael.
–Léo, passei quase quatro anos dedicando cada folga, cada feriado em ficar com você. Não imaginei que você fosse criar tanto caso por eu passar quinze dias com a minha família.
–Não criei caso porque você veio visitar sua família, você está distorcendo os fatos. E eu também gostei muito daqui, falei sério quando disse isso ontem. O que não dá para aceitar é você sair feito uma babá do seu irmão. Um cara que além de tudo me destratou desde a hora que cheguei.
–Não quero mais falar com você sobre isso! –disse exacerbada.
Seguimos o resto da viagem em silêncio. Esse silêncio foi quebrado quando o celular dele tocou.
–Oi, mãe, tudo bom?
–Estamos indo para o aeroporto.
–Sério? Ah, pode ser. Espera aí.
Ele afastou o celular, perguntando:
–Meus pais estão em São Paulo esse final de semana e querem saber se queremos passar o dia com eles. Minha mãe busca a gente no aeroporto, o que você acha?
Não disse nada, mas fiz que sim com a cabeça. Ele voltou para o telefonema.
–Mãe, vamos sim, em torno de dez horas já estamos chegando, você pode nos buscar?
–Então tá, beijos, tchau.
Ele olhou para mim ainda magoado. Continuei calada. Ele também não disse mais nada.
Sr. Roberto e Marina, eram os pais de Léo, que era filho único. Os dois eram bem jovens para serem pais de um rapaz de 28 anos, Marina sempre impecavelmente bem arrumada, com tudo no lugar, tinha a vida que a maioria das mulheres gostaria, desfrutando a vida boa que o dinheiro do marido lhe rendia. Era uma socialite nata. Quando estava em São Paulo, onde eles tinham uma casa muito luxuosa, em um condomínio fechado, ela vivia em almoços e chás beneficentes com suas amigas peruas. Sr. Roberto, assim como Léo era um homem muito centrado e voltado para os negócios, era muito educado e muito simpático, diria, que em simpatia ele dava um show em sua esposa.
 Léo foi criado assim como eu ; criado para se virar sozinho no mundo, acho que por isso acabamos nos apegando tanto, e nos dando tão bem.
Mesmo quando desembarcamos em São Paulo, Léo manteve-se calado, com certeza estava me odiando, e eu também estava me odiando por agir sem pensar, mas não tinha como voltar atrás.
Léo não era uma pessoa que gostava de prolongar uma discussão, sempre que discutíamos ele arrumava uma maneira e voltar a conversar. Ele segurou na minha mão, soltando apenas para retirar as malas da esteira.
Quando avistamos a mãe dele, um sorriso tomou seu rosto, eles se abraçaram demoradamente, como se fizesse muito tempo que eles não se viam.
–Meu menino, cada dia mais lindo! –disse Marina apertando-lhe sua mão.
Marina estava chiquérrima, em um vestido de seda na cor nude, cabelos escovados na altura dos ombros, uma bolsa de mão da Prada.
–Ana, querida, quanto tempo! Como você está? O que aconteceu com você? Parece que você não dorme há dias. –ela disse ao ver minhas olheiras.
Sorri com um sorriso amarelo.
–Como vai Marina?
–Eu estou ótima. Mas, aconteceu algo? Seu pai está bem?
–Está sim! Está se recuperando. Só estou cansada. –disse sorrindo mais uma vez sem graça.
–Então vamos crianças! –ela disse segurando a mão do Léo.
–Marina me desculpa! Irei pegar um taxi, vou direto para o meu apartamento.
–Mas, por quê? Você não vai passar o dia com a gente? –ela perguntou.
A expressão do Léo, caiu, seu sorriso saiu de cena, contudo, manteve-se calado.
–Mariana, estou com muita dor de cabeça. Seria uma companhia péssima.
–Ana, você que sabe querida, se quiser ir será bem-vinda como sempre foi. –disse Marina não fazendo nem um pouco questão da minha presença.
–Vamos Ana! Mais tarde iremos para o seu apartamento.
–Não Léo! Vá com sua mãe. Depois a gente se fala.
Relutantemente ele me deu um abraço, me selou os lábios e se foi com a mãe dele. Suspirei aliviada. Chamei um táxi, afinal meu apartamento era do lado oposto da casa deles.



18

Sozinha 


Cheguei ao meu apartamento, passava das onze horas da manhã. Assim que abri a porta, vi meu cantinho tranquilo, sossegado, e agradecia aos céus por estar em casa e sozinha. Joguei minhas coisas no chão, soltei toda a tristeza presa em meu peito. Deitei em minha cama, e chorei, chorei muito, chorava pelo Rafael, pelo Léo e por toda a mentira que eu havia inventado nos últimos dias.
Acabei pegando no sono, quando acordei, já estava à noite. No celular, não havia nem sinal do Léo, nem do Rafael, me vi sozinha. Comecei a desarrumar minhas malas, guardando minhas roupas, e preparando minhas coisas para o outro dia, onde tudo voltaria ao normal.
Fui até a cozinha, fiz um lanche frio. Mais tarde, tomei um banho, pijamas e já estava na cama novamente.
Minha semana começou agitada, pudera, era a primeira semana de março. Assim que voltei, fiquei um pouco perdida, mas no dia seguinte foi como se eu nunca tivesse saído de férias. Começamos a trabalhar na campanha da Carmem Steffans, e eles me queriam como a fotógrafa. Isso fez com que eu passasse mais tempo trabalhando do que o normal. Chegava tarde da noite, comia alguma coisa, tomava banho e dormia.
Não tinha notícias do Léo; minha mãe havia me ligado algumas vezes, mas nunca me falava do Rafael, e eu também não perguntava.
O pessoal da agência gostava de sair para beber as quintas e sextas feiras no H2Chopp, uma choperia que ficava bem em frente à agência. Mas naquela semana eu não estava disposta, então fiquei em casa.
Na sexta-feira cheguei ao meu apartamento já era passava das nove horas da noite, era até que cedo em relação aos outros dias. Tomei um banho e deitei-me para ver um filme. Meu celular vibrou, era Rebeca:


Ana, uma semana se passou e já estou morrendo de saudades. Como você está?
A tristeza do Rafael é sem fim, ele quase enlouqueceu.  No domingo assim que ele acordou, saiu correndo para a fazenda, mas você já havia saído há algumas horas. Ele ficou desesperado. Mas o Enzo e a Déb, estão dando uma força para ele.
O Rafa meteu a cara no trabalho, sai da fábrica todo dia tarde da noite. Parece-me que ele voltou para a casa dos seus pais, ele disse para o Enzo que era uma tortura ficar na casa do lago sozinho sem você.
Fica bem amiga! Adoro você.
Saudades, Rebeca


Li e reli aquela mensagem umas cem vezes, ficava imaginando a cena no momento em que o Rafael acordou leu meu bilhete e correu para fazenda. Meu coração voltou a ficar apertado.
Então depois que criei coragem resolvi escrever para ela.


Querida Rebeca, saí daí deixando parte do meu coração. Essa semana para mim foi crucial, acho que eu e o Rafael tivemos a mesma reação, ambos enfiamos a cara no trabalho. Também ando saindo tarde todas as noites da agência, prefiro ficar lá, a ficar em casa sozinha.
O Rafael ainda tem o Enzo, a Déb, você e meus pais. Mas eu não tenho ninguém. Então está sendo muito difícil para mim, mas irei sair dessa.
O Léo resolveu me dar um gelo depois que saímos daí. Ele ficou louco porque passei a noite fora quando fui falar com o Rafael, também pudera. E até agora estou sem notícias dele.
Sinto falta de todos, e sinto muita falta das nossas conversas. Dá um beijo no seu principezinho por mim. Amo vocês!
 Ana



Apertei o enviar, desliguei a televisão e fui para cama, mas o sono não vinha.


19
O quê?

Três semanas se passaram que eu mal senti; afinal, o trabalho estava ocupando todo meu tempo e minha mente principalmente. Eram várias produções de vídeo, áudio, folder, outdoor, anúncios de revistas e jornais; enfim, tarefas que deixaram a mim e toda a equipe atarefada até altas horas da noite.
Mas ainda assim, não conseguia tirar o Rafael da minha cabeça e muito menos do meu coração. Pensava nele ao acordar, dormia pensando nele e ele estava presente em meus sonhos. Doía demais não ter notícias dele. E eu não queria ficar perguntando do Rafa nem para minha mãe e nem para a Rebeca, já que ele também não me ligou mais. E isso me matava por dentro.
Na última quinta-feira de março, mais precisamente dia vinte e sete, eu, Alessandra, Daniela, Willian e o Théo fomos ao H2Chopp comemorar o aniversário da Dani que fazia 23 anos.
Bebemos uma, duas, três, quatro, cinco e não sei mais quantas rodadas de chope, já estava bem alta, quando peguei meu celular e havia algumas ligações perdidas do Léo, que depois de um mês resolveu se manifestar. Sem pensar liguei para ele.
–Oi Ana!
–Oi Léo.
–Oi Léo. –gritou o pessoal da mesa.
–O que é isso? Você está em uma festa?
–A Dani está fazendo aniversário, saímos para comemorar, onde você está? –perguntei saindo da mesa, pois mal podia escutá-lo.
–Estou no Canadá em uma conferência. Já faz uns dias que estou aqui, e só liguei porque senti sua falta. Como vi que você não atendeu minhas ligações, achei que não quisesse mais falar comigo. E agora quando vi meu celular vibrar, mal acreditei que fosse você.
Abri um sorriso, eu realmente sentia falta de conversar, e da amizade dele.
–Fiquei muito feliz por você ter me ligado. É claro que eu quero falar com você. Quando você volta ao Brasil?
–Então Ana, eu ainda não sei. Daqui uns dez dias talvez. E queria saber se posso ver você. Nós precisamos conversar. Não quero que fiquei esse clima entre nós. Sinto sua falta.
Sorri.
–Também sinto sua falta. Mas sim, vamos conversar. Me liga quando chegar e não some, tá?
–Prometo não sumir mais. Amo você Ana.
Fiz uma longa pausa sem saber o que responder.
–Espero você me ligar Léo. Um beijo!
Encerrei a ligação sem ter dizer que eu o amava, pois não o amava da maneira que ele merecia. Claro que seria muito mais fácil amar o Léo, mas não era mais isso que eu sentia por ele.
A Alessandra, o Willian, o Théo e a Dani estavam todos eufóricos. Bebendo, falando besteiras, rindo de qualquer coisa. E assim que eu parei de falar com o Leonardo, me bateu uma tristeza enorme. Talvez, se eu não tivesse voltado para Canela, minha vida estaria nos eixos, eu estava com o Léo e estava feliz, como há alguns meses. Mas a realidade era outra. Eu estava sem o Léo e totalmente infeliz por causa do Rafael e nada no mundo fazia eu me sentir melhor.
Théo pediu uma porção de frios e outra rodada de chope. Quando vi a Alessandra espetando um pedaço de lombo, senti um nó em meu estômago e confesso que quase vomitei ali mesmo.
“Ana, chega de beber, você já passou da conta! ” Pensei.
–Lê, eu preciso ir para casa, estou cansada.
–Como assim? Ainda está cedo!
–Eu sei, mas é que eu estou um pouco indisposta. Vamos combinar alguma coisa para o final de semana, entretanto, hoje realmente quero ir para casa.
Ela concordou relutantemente, assim como os outros, que insistiram para que eu ficasse. Inventei várias desculpas, deixei minha parte do dinheiro e saí.
Fui para o estacionamento da agência onde havia deixado meu carro. Estava um pouco zonza, o que provavelmente era o efeito do álcool. Cerca de dez minutos após ter saído do bar, estava em uma avenida muito movimentada, quando um motoqueiro me fechou e acabei perdendo a direção. Só ouvi o barulho ensurdecedor e a pancada forte em minha cabeça. Minha vista escureceu, não vi mais nada, porém escutava algumas vozes próximas a mim.
Abri os olhos e me vi em um lugar todo claro, calmo e muito silencioso. Olhei ao redor e vi a Alessandra cochilando sentada em uma poltrona.
–Alessandra!?
Alessandra assustou, dando um pulo na poltrona.
–Ei, você acordou! Quase me matou de susto, sabia? –ela disse vindo em minha direção.
–O que aconteceu?
Dito isso, percebi que cada centímetro do meu corpo doía. E minha cabeça, parecia querer explodir.
–Oh, amiga, você bateu o carro ontem à noite.
Ao ouvir aquelas palavras, me lembrei de ter saído totalmente zonza da choperia, e quando estava em uma avenida muito movimentada, a alguns quilômetros do prédio onde eu morava, um motoqueiro me fechou, e eu tentei desviar, mas acabei acertando em outro carro.
–Mas, não se preocupe! Você não quebrou nada. Quer dizer, teve algumas escoriações e precisou dar uns pontos bem aqui. Alessandra disse apontando minha testa. O médico já vem conversar com você.
–Teve alguma vítima?
–Não, o motoqueiro que te fechou, acabou fugindo. O carro que você bateu só amassou, mas ninguém se feriu. Quanto a isso, já fui atrás de tudo e seu seguro irá cobrir. O Théo e o Willian ficaram aqui até amanhecer, mas foram para a casa.
Concordei sem perguntar mais nada.
–Ah, Ana, e seus pais? Você quer que eu os avise?
–Ah, não! Não quero preocupá-los com isso. Eles já estão com problemas demais. Eu me viro.
–Tem certeza?
–Tenho sim Lê e obrigada por tudo.
Ela sorriu compassiva e passou a mão em meu rosto.
A enfermeira entrou em seguida, me fazendo algumas perguntas de praxe e logo depois o médico entrou.
–Bom dia, senhorita Ana Holpe. Sou o Dr. César, como está se sentindo?
–Bom dia Dr. César. Estou bem, um pouco dolorida, mas estou bem.
–Bom, isso é assim mesmo. Por sorte, não houve nenhuma fratura. Foram apenas algumas escoriações, mas você está bem. Quer dizer, vocês estão bem.
Olhei para ele sem entender.
–Como assim vocês?
Ele me olhou incrédulo.
–Você e o bebê. Fizemos vários exames e está tudo em ordem. Seu bebê está bem.
–O quê? Meu bebê? Qual bebê?
Alessandra me olhou complacente. Concordando com a cabeça.
–Ah, nesse caso, suponho que você ainda não sabia da gravidez? Pois bem Ana, você está de aproximadamente cinco semanas. –disse o doutor.
Só não caí, porque estava deitada. Meu coração disparou. Minhas estruturas estremeceram.
–É Ana. Hoje pela manhã, acompanhei o seu ultrassom com o doutor César. Você vai ser mamãe, minha amiga.
Meu oxigênio chegou a faltar.
–Como assim mamãe?
O médico sorriu sem graça, com certeza ao ver minha cara de desespero.
–Ana, não sei o porquê do seu espanto, mas sinta-se iluminada. Você carrega uma outra vida dentro de si, e que por Deus, não aconteceu nada, mesmo após esse acidente. Ainda assim, peço repouso por alguns dias. Nunca se sabe o que pode vir a acontecer. Prefiro até que você ainda fique mais uns dias aqui com a gente, em observação.
Concordei abobalhada, sem dizer uma palavra.
–Eu estarei por aqui. Qualquer coisa é só me chamar.
O Dr. César saiu e eu encarei a Alessandra.
–Grávida!!! Não pode ser!
Ela me encarou sem saber o que me dizer.
–Amiga, eu... (uma pausa). Nem sei o que dizer. Mas preciso perguntar. Esse filho é do Léo ou do Rafael?
A pergunta dela ecoou em minha cabeça e minhas lágrimas começaram a cair.
–Lê, no dia que fiquei noiva do Léo,  estava em meus últimos dias de menstruação. E o Léo, jamais deixou de se prevenir. Ele tinha pânico se algo saísse fora dos planos dele.
–Carambaaaa! –ela disse fazendo uma careta. –E você não se preveniu com o Rafael?
Apenas balancei a cabeça em negação.
–Ana minha amiga, meus parabéns! Mas você está fodida! O que você vai fazer?
Minhas lágrimas começaram a cair em bicas. Sem conseguir me acalmar, Alessandra precisou chamar uma enfermeira para me dar um copo de água com açúcar.
...
Passei o final de semana inteiro no hospital. Alessandra se desdobrou para ficar ao meu lado, e eu jamais me esquecerei do quanto ela me apoiou.
Fui para casa na segunda-feira pela manhã. Alessandra e Willian que me levaram, mas eles tinham que ir trabalhar. Naquele dia, chorei o dia todo, sem saber o que fazer, para que lado correr. Alessandra e o Willian eram os únicos que sabiam da minha gravidez e eu não tinha mais com quem contar.
Na terça-feira pela manhã, acordei com os olhos inchados de tanto chorar. Estava começando com os enjoos. Até o cheiro da pasta de dente me fez vomitar. Ainda assim, estava decidida a ir trabalhar. Foi aí que ouvi meu celular tocar. Corri atender, mas não deu tempo.
Meu coração gelou assim que eu vi que era uma chamada perdida do Rafael, mas em seguida chegou uma mensagem.

Ana, bom dia!
 Esses dias sem você foram cruciais para mim! Estar longe de você é como se eu não estivesse completo. É uma dor que não cessa. Espero que você tenha razão quando falou sobre o que o destino nos reserva.

Vou fazer o que você me pediu, hoje irei ao pediatra com a Fernanda, só queria que você soubesse por mim.
Estou fazendo por você!
 Rafael.


Ao ler aquela mensagem, foi como se uma bala atravessasse meu peito. Reli para ter certeza se era verdade. Larguei meu celular no chão, e fiquei andando de um lado para o outro em torno da minha sala. Não conseguia respirar, não conseguia mais pensar. Senti uma dor tão forte que parecia que ia morrer. Comecei a chorar descontroladamente, colocando a mão sobre a minha barriga. E no fundo, sabia que o Rafael só estava seguindo o percurso que era inevitável. Começar a acompanhar a Fernanda em suas consultas, e consequentemente acabar casando-se com ela. Porque ele era assim, o Rafa jamais viraria as costas para ela com ela gerando um filho dele.
“ Mas e quanto a mim? E ao nosso filho? ” –eu me perguntava.
“Preciso dizer a ele sobre a minha gravidez! Eu preciso! ” Falava para mim mesma em soluços de tanto chorar. “ Não! É claro que não posso fazer isso! Eu não tenho mais esse direito! Meu Deus, o que eu faço? ”
Não sabia o que fazer, só tinha vontade de chorar, mais nada.
 Já se passava da hora do almoço, liguei para a Alessandra e pedi que ela fosse até meu apartamento. Em poucos minutos ela estava lá tocando minha campainha.
Assim que abri a porta, desmoronei ao vê-la. E ela me abraçou imediatamente.
–Calma Ana! Me conta o que houve.
Chorava tentado buscar forças sem saber de onde, para poder contar tudo a ela. Alessandra sentou-se no sofá, segurando minhas mãos.
–Ana, respira fundo! Você sabe que essa fase é um momento delicado, mas não iremos achar uma solução para tudo isso. O que você não pode fazer é ficar nessa situação, não faz bem para você nem para essa criança.
Concordei, tentando me acalmar.
–Agora me fala, o que houve?
–O Rafa me ligou, mas não consegui atender o celular, então ele me mandou uma mensagem, dizendo acompanhará a Fernanda ao pré-natal do filho deles.
–Tá! E isso é motivo para você ficar nesse estado? Quem foi que pediu que ele fizesse isso? Quem foi que desistiu dele? Não foi você? Ou estou enganada.
Alessandra era minha amiga, mas ela era dura o suficiente quando era necessário. Minhas lágrimas ainda caiam em bicas, era como se não acabasse mais.
–Eu... (fiz uma pausa) eu sei, mas é que era o mais certo para ele fazer. Você sabe quais eram meus motivos para eu ter dito tudo o que eu disse a ele.
–Sei sim! O medo foi seu motivo. Medo de lutar por quem você ama. E ele só aceitou suas condições, porque é outro que tem medo de enfrentar os sentimentos dele. Agora me fala, o porquê você ficou surpresa ao ler a mensagem dele? Você quem pediu isso a ele, você entregou o Rafael de bandeja para a tal garota.
Concordei sem saber o que dizer. Alessandra levantou-se e foi até a sacada, como se respirasse ar puro. Alguns instantes depois, ela voltou e sentou-se novamente ao meu lado.
–Ana, o que você pretende daqui para frente? Eu digo em relação a essa criança. Porque se você decidir levar essa gravidez em diante, o Rafael precisa saber.
–Como assim o que  pretendo fazer?
Ela riu nervosamente.
–Você já decidiu se levará essa gravidez em diante?
Eu me calei.
–Você sabe que se pensa em interromper essa gravidez, não poderá adiar mais. E se for levar essa gravidez a diante, existem “n” problemas a considerar. Por exemplo, o Rafael precisa saber sobre esse filho. Seus pais precisam saber sobre sua gravidez, o Léo que daqui a pouco estará de volta ao Brasil precisa saber sobre a sua situação. E aí, como você vai fazer, como você pensa em sair desse emaranhado de problemas?
O pior é que eu não tinha respostas para nenhuma das perguntas dela. Eu não tinha ideia do que fazer.
–Lê, o que eu faço? Estou totalmente perdida. –falei abraçando-a em seguida.
Alessandra não disse uma palavra, apenas retribuiu ao meu abraço.
–Nunca imaginei que passaria por isso, e sozinha ainda por cima. E não tenho a mínima ideia do que fazer.
–Olha para mim! –ela me disse me fazendo encará-la. –Você não está sozinha, nunca diga isso. Você tem a mim, pode contar comigo para o que der e vier.
Suspirei emocionada com a atitude dela.
–Se você optar em interromper a gravidez, saiba que estarei ao seu lado, segurando sua mão. E se você decidir levar essa gravidez a diante, eu te ajudarei no que for necessário. Nem que essa criança precisar ser criada por você e por mim. Eu prometo a você que se você precisar, eu lhe ajudo com esse filho. Mas minha amiga, essa é uma decisão que cabe única e exclusivamente a você decidir. Eu não posso e nem tenho o direito de influenciar você.
Eu a encarei, absorvendo cada palavra que ela havia me dito. Respirei fundo tentando achar as palavras certas.
–Não posso interromper essa gravidez, isso nunca nem passou pela minha cabeça. Se precisar criar essa criança sozinha eu criarei. Sei que será uma barra, mas jamais poderia tomar uma atitude diferente.
Ela me encarou e concordou com a cabeça.
–Você sabe que não será fácil. Mas eu a admiro ainda mais por isso. E a ajudarei no que precisar, pode contar comigo.
Alessandra me abraçou e nós duas choramos em silêncio.
Naquela tarde, Alessandra não voltou mais para o escritório e ficou comigo o tempo todo, indo embora apenas ao anoitecer.

Já passava das nove horas da noite, quando Léo me ligou. Conversamos bastante, mas não tive coragem de dizer a ele sobre meu bebê. 
Voltei a trabalhar no dia seguinte, e fui paparicada o tempo todo pela Alessandra e pelo Willian. Eles eram os únicos que sabiam sobre minha gravidez. Tentei esquecer os problemas que me rondavam e mais uma vez meti a cara no trabalho. Mas era incrível, tinha enjoos a cada cheiro diferente.

5 comentários:

  1. Olhaa....Não sei o que pensar ... estou em choque kkkkk ... vou tentar controlar minha ansiedase, enqto aguardo a próxima postagem. bjs

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  2. Estava torcendo para que ela ficasse grávida... Rsrsrsrs... Só espero que eles consigam se acertar...
    Esperando a próxima postagem ansiosamente...

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. fiquei feliz com essa gravides ,mais ela tem que contar pro Rafael.....

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