Faça por mim
Parte 12
Na sexta-feira
daquela semana, o Léo me ligou que estava no Brasil e queria me ver. Inventei a
desculpa mais esfarrapada pra não me encontrar com ele. Mas no sábado, não teve
jeito. Ele me ligou várias vezes, pois estava em São Paulo e precisava me ver.
Não tinha como
dizer não a ele. E decidi que lhe contaria sobre a minha gravidez. Quer dizer,
estava tomando coragem.
Tirei o sábado
para cuidar de mim, fiz umas compras após o almoço e quando passei em uma loja
de roupinhas de recém-nascido, fiquei paralisada na vitrine, totalmente sem
reação, observando cada coisa. Foi a primeira vez que me senti realmente
grávida. Até então, nunca que uma loja daquelas me chamaria a atenção, mas
quando eu vi a delicadeza daquelas coisas, os pequenos detalhes, a pureza que
cada item nos transmitia, simplesmente me dei conta de que estava grávida. Foi
a primeira vez que eu passei a mão em minha barriga, como se fizesse o meu
primeiro contato com meu filho. Aquilo foi algo mágico, senti como se uma luz
se acendesse dentro de mim. Entrei na loja e fiquei perplexa com a quantidade
de coisas que havia para um bebê, a variedade delas, a tranquilidade das cores.
Aquilo despertou a mãe que existia em meu eu interior. Saí de lá quase uma hora
depois, e eu fui a primeira a presentear meu bebê com sapatinhos de crochê e
alguns macacões.
“Será sempre assim
meu bebê! Mas saiba que sempre estarei ao seu lado, te protegendo, eu prometo”.
Pensei enquanto saí da loja com o coração apertado.
Em seguida, parei
em um salão de beleza e me dei uma geral em meu visual, pois estava um horror.
Estava no salão quando Léo me ligou novamente e combinei de ele ir me buscar
por volta das oito e meia da noite. Já que ainda estava sem meu carro, por
causa da batida.
Fui para meu
apartamento e minutos depois estava pronta. Coloquei um vestido de girlie de
renda branca sobre tule cor da pele. Um vestido extremamente lindo, todo rodado
e muito feminino. Usei um scarpin
altíssimo nude. Coloquei um par de brincos Légers da Cartier com diamantes, em
ouro rosa, que havia ganhado no natal passado do Léo, e minha pulseira também
em ouro rosa que ele havia me dado há alguns dias. Fiz uma maquiagem bem
dramática e quando estava me perfumando, me encarei no espelho e me perguntei,
como seria dali para frente. Porque até então, era possível esconder a
gravidez, pois estava sem nenhum vestígio de barriga, mas logo ela começaria a
aparecer e aí sim as coisas mudariam totalmente.
Respirei fundo,
passei a mão em minha barriga mais uma vez e fechei meus olhos e pedi por
forças para enfrentar essa nova fase da minha vida.
Alguns minutos
depois, a campainha tocou. Olhei pelo olho mágico e vi o Léo. Assim que abri a
porta, Léo olhou para mim dos pés à cabeça.
–Caramba Ana, você
está simplesmente linda. –ele falou, soltando um sorriso maroto.
“E grávida!”
Pensei.
–Oi Léo.
Leonardo
inclinou-se e me selou os lábios.
–Senti sua falta,
sabia?
–Entra um pouco
Léo.
Léo entrou e olhou
tudo ao redor, como se quisesse ver se estava da maneira como ele havia
deixado.
–Senti falta daqui
também. Acho que tudo o que é ligado a você, me fez falta.
Léo me abraçou e
me beijou apaixonadamente em seguida.
“Ana, você tem um
bebê aqui dentro! Não se esqueça! Agora as coisas mudaram! ” Dizia
silenciosamente a mim mesma.
Nesse momento, involuntariamente
acabei me esquivando dos beijos do Léo. Era como se estivesse pecando, e na
verdade estava pecando e muito. Pois tinha um filho de outro homem em meu
ventre.
–Hum, Léo, você
quer beber alguma coisa, antes de sairmos?
Ele me encarou, e
sorriu.
–Acho que nem
quero mais sair. Você está, tão... (Léo suspirou) tão linda, que sei lá, pensei
em mudar os planos.
Ri nervosamente.
–Não! Vamos sair
sim! Embora, minha vontade seja outra, mas disse que queria sair pra jantar com
você. Então é isso que faremos.
Concordei
aliviada. Saímos em seguida e do meu apartamento até o restaurante, Léo foi falando
mais do que eu. Eu só ficava pensando em como dizer a ele sobre meu bebê.
Chegamos ao DOM,
que era um restaurante com um número restrito de clientes atendidos
diariamente, as reservas precisavam serem feitas com antecedência, mas como Léo
conhecia o Chef Alex Atala, ele conseguiu nossas reservas para o mesmo dia.
O garçom
trouxe-nos a carta de vinho e Léo escolheu um belo vinho, o E.Guigal Condrieu 2010.
Brindamos e quando
tomei o primeiro gole, o aroma intensamente frutado e floral, juntamente com o
paladar rico e elegantemente ácido, com o final longo e persistente, me fez
lembrar que eu não podia beber. Eu quase me engasguei ao me lembrar da minha
situação. E imediatamente dei um gole em minha água.
–O que houve? Não
gostou? Perguntou-me Léo, sem atender.
–Não, pelo
contrário, é perfeito. É que eu não posso beber. Aliás, não lhe disse, mas estou
sem beber há alguns dias. Mais necessariamente desde a última quinta-feira, que
você me ligou, um pouco mais de uma semana.
–O dia que você
estava na choperia com o pessoal da agência?
–Isso, exato! Eu
precisava te contar, mas queria que fosse pessoalmente.
Léo me olhou
assustado. Eu estava trêmula e as palavras me faltavam.
–Naquela noite,
logo que nos falamos, eu acabei indo embora. Estava cansada, e já tinha bebido
além da conta, e quando saí de lá, bati meu carro.
–O quê? Como
assim?
Nesse momento,
contei para o Léo tudo sobre o acidente. Mas quanto mais eu adiava o assunto em
questão, mais coragem me faltava para contar a ele sobre minha gravidez. E fui adiando,
adiando e quando vi, simplesmente não conseguia falar.
O jantar foi
perfeito, regado a vinho branco e no meu caso, água mineral. Minha cabeça ainda
doía muito, porém, o que mais doía era a minha consciência, pois estava sendo
desleal com o Léo, que não merecia ser ainda mais enganado.
Saímos de lá já
era bem tarde, e seguimos para o meu apartamento.
“Eu vou contar!
Preciso contar. ” –dizia a mim mesma. “Eu não tenho coragem! Meu Deus, me
ajuda”!
Me vi em uma
encruzilhada, torturante, da qual eu não conseguia agir.
Assim que
entramos, Léo, entrou como se estivesse na casa dele e confesso que aquilo
estava me deixando cada vez mais sem ação.
Ele sentou-se e me
puxou sobre ele.
–Eu não via a hora
de poder fazer isso. –ele falou me beijando em seguida.
–Léo, a gente
precisa conversar.
Eu sabia que ele
me odiaria para sempre, mas eu tinha que continuar.
–Muitas coisas
aconteceram, e ainda não tivemos uma conversa franca desde quando voltamos de
Canela.
–Ana, eu só peço a
você, vamos esquecer de tudo o que aconteceu. Você errou, mas eu também errei
muito. Confesso que fiz coisas, das quais não me orgulho desde então. Mas agora
nós estamos aqui, só nós dois e não quero que nada estrague nosso momento. Eu
amo você a Ana. E é você que eu quero.
–Mas é que...
Nesse momento, Léo
colocou o dedo sobre meus lábios me impedindo de falar.
–Não diga nada, é
só o que eu te peço.
Aquilo era como se
ele me ferisse ainda mais. Quando eu meio que tinha tomado coragem, ele
simplesmente abortou minhas palavras, me deixando sem muitas escolhas. Léo me
beijou mais e mais e quando foi tentar algo mais íntimo, eu o impedi.
—Preciso que você
vá embora. Aconteceu muita coisa, e eu realmente preciso pensar sobre nós dois.
Ele me encarou sem
entender.
—Você está
terminando comigo?
—Não! Não é isso.
Só preciso de um tempo.
—Eu vou pra
Europa, não sei por quanto tempo ficarei por lá, mas quando eu voltar, espero
que a gente possa resolver essa situação de uma vez por todas.
Apenas concordei.
Léo aproximou-se de mim, selou meus lábios e se foi.
Ele era um homem
perfeito, burra era eu que não sabia dar valor a ele. Quer dizer, sempre dei
valor a ele, até reencontrar o Rafael.
Na semana
seguinte, fui até meu ginecologista, e pela primeira vez escutei o coraçãozinho
do meu bebê, foi sem dúvida nenhuma uma experiência única e extremamente
emocionante; chorei de felicidade e de tristeza, por não ter ninguém ao meu
lado naquele momento. A Alessandra estava atarefada com uma campanha, então nem
quis atrapalha-la com isso.
Chorei porque queria
alguém para dividir comigo aquela emoção, queria o Rafael ao meu lado,
escutando os batimentos do coraçãozinho do nosso filho, do qual ele nem
imaginava existir. E no fundo tinha certeza que ele se emocionaria assim como
eu.
Queria pelo menos
a companhia da minha mãe, me apoiando e dividindo aquele momento comigo. E como
as coisas eram engraçadas, ela acompanhou a Fernanda na primeira consulta dela,
mas eu que era a filha, precisei ir sozinha. E claro, que não era a culpa dela,
pois ela também não fazia ideia da minha gravidez.
Vi que estava
sozinha, passando pelo momento mais delicado da minha vida. Mas a culpa era
toda minha, e eu tinha que arcar com as consequências. Tinha que fazer isso por
mim e pelo meu filho, que naquele momento, passou a ser a coisa mais importante
da minha vida.
Quando eu o vi
pelo ultrassom, eu ria e chorava ao mesmo tempo. Na certa, meu ginecologista me
achou maluca. Mas ele foi extremamente cavalheiro e paciente comigo.
Saí de lá, com uma
receita médica enorme e cheia de recomendações. Foi então, que passei a tomar
diversas vitaminas, ácido fólico, ferro, entre outras coisas. Fiz inúmeros
exames de sangue e mudei totalmente minha alimentação.
Os enjoos
começaram a serem cada vez mais intensos. Desde o creme dental, até o perfume
que a Alessandra usava. Vomitava praticamente o dia todo. Fora o sono que eu sentia que era
incontrolável. Nos momentos que podia, fechava meus olhos e cochilava, nem que
fosse por cinco minutos. Era como se o meu bebê tirasse todas minhas energias.
20
Uma questão de
tempo
Algumas semanas se
passaram. Eu estava com oito semanas de gestação. As ligações da minha mãe sempre rápidas e resumidas,
tanto que nunca tinha tido chance de contar a ela sobre meu acidente, tampouco
sobre minha gravidez.
Na terceira semana de abril, estava em minha
sala, e meus dedos me traíram. Então liguei para Rebeca, a fim de saber alguma
notícia do Rafael.
–RP ART em Móveis,
boa tarde, Rebeca.
–Isso é quase um
discurso. –brinquei.
–Ana? É você?
–Boa tarde Rebeca,
sou eu sim. –falei dando um sorriso.
–Eu não acredito!
Como você está? Tudo bem? –ela disse demonstrando certa alegria em falar
comigo.
“Estou bem,
grávida e vomitando a cada segundo, tendo um sono incontrolável, uma fome fora
do comum e meus seios doem exacerbadamente.” Pensei.
–Oi Rebeca. Estou
bem sim e você? Como vão as coisas por aí?
Senti um tremor na
voz dela, a ligação ficou um pouco chiada.
–Tudo bem. Bem corrido
aliás. Ah tenho novidades! O Enzo foi conhecer minha família e todos o adoraram.
–Sério Rê? Que
legal, e o Arthur como reagiu?
–Ah, menina eles
estão se dando muito bem, às vezes até se esquecem de mim.
–Que ótimo! Está
vendo, tinha certeza que todos iriam gostar dele, o Enzo é uma pessoa ótima,
assim como você, não tem como não dar certo. E seu ex. como reagiu?
–Ele vê o
Arthurzinho cada vez menos, agora está com uma namorada da academia dele,
então...
–Hum sei como é.
–Mas e você Ana
como está?
–Estou trabalhando
muito. Mal tenho tempo para respirar. Não
tenho tempo mais para nada, chego em casa já é hora de dormir.
–E você e o Léo,
como estão?
Suspirei.
–Ficamos um tempo
separados, mas voltamos a conversar.
Relutei em
perguntar, mas meus lábios também me traíram.
–E o Rafael, como
está?
Rebeca fez uma
pausa.
–O Rafael está
correndo para lá e para cá, está muito corrido aqui. Fechamos com o dono de um
restaurante aí de São Paulo, no Jardins. Vamos redecorar todo o espaço dele.
–Sério? Que ótimo
Rebeca, o mercado dos Jardins é o mais competitivo, uma vez nele, é sucesso
garantido. Fico muito orgulhosa de todos vocês.
–Então, o Rafael
precisou contratar mais funcionários para a loja e para a fábrica, para darmos
conta. A loja está bombando de tantos pedidos.
–Mas e ele... (eu
queria dizer a ela tudo o que eu precisava, mas eu não podia fazer aquilo por
telefone, só que dependendo da resposta dela, talvez, eu criasse coragem para
pegar o primeiro voo e ir para Canela e contar a todos sobre meu bebê.)
Ela gaguejou.
–Bom, ele...
Rebeca fez outra pausa. –Parece que ele está se acertando com a Fernanda. Eles
estão meio que juntos.
Senti meu estômago
embrulhar. Dessa vez quem ficou em silêncio fui eu. Era como se eu visse meu
mundo desabar, lentamente, bem a minha frente.
Inconsciente levei
a mão em minha barriga. Como se pudesse sentir a energia do meu filho, para me
dar forças ao ouvir aquilo.
–Isso era só uma
questão de tempo, eu disse que isso era inevitável.
Não sabia mais o
que dizer, era como se uma bola de golfe tivesse parado em minha garganta.
–É verdade Ana,
você disse mesmo.
–Rebeca, só quero
que ele fique bem, se for com ela, então tudo bem para mim. –continuei tentando
ser indiferente.
Por sorte a Dani
entrou em minha sala.
–Ana, o Théo quer
uma reunião em dez minutos na sala dele.
–Já estou indo
Dani, obrigada.
Rebeca ouviu do
outro lado da linha.
–Eles não nos dão folga,
não é? Esses patrões são muito “folgados”. –disse Rebeca enfatizando o folgado.
–São sim! Embora
esteja acostumada. Acho que o Théo faz reunião até para transar com a esposa
dele.
Sorri para
disfarçar minha mágoa.
– Rê me liga
sempre que der, viu? Vê se não some, e manda um beijo para o Arthur e para o
Enzo.
–Ah mando sim,
pode deixar que ligo mais vezes, se cuida amiga, beijos.
Desliguei o
telefone, joguei minha cabeça para trás, e inevitavelmente minhas lágrimas
começaram a cair. Senti meu coração ficar apertado. Chegava a doer.
Théo entrou na
minha sala, vendo-me chorar e ficou desesperado.
–Ana, aconteceu
alguma coisa?
–Não Théo, tudo
bem, só problemas de família. –respondi secando minhas lágrimas e empurrando
para dentro a bola de golfe que estava parada na garganta.
–Você quer ir para
casa, sei lá, se precisar daqueles dias de férias que você voltou antes não tem
problema.
–Não, não, tudo
bem! Só me dá cinco minutos que já vou para sua sala. –disse levantando-me e me
servindo de um copo de água.
–O tempo que
precisar, minha querida. –disse Théo me plantando um beijo em meu rosto. –E
Ana, sei mais ou menos o que está se passando com você.
Olhei para ele,
ainda com o rosto inundado de lágrimas.
–Como assim?
–Você está
grávida, não está?
Chorei ainda mais,
ao saber que até o Théo já sabia. Théo me abraçou.
–Não fica assim,
vai dar tudo certo, você vai ver. O Leonardo vai amar essa notícia. Não tem
como não amar. Sei que você está assustada, eu também ficaria. Mais tudo ficará
bem.
Desabei no ombro
dele. Se o Leonardo fosse o pai do meu filho, tudo seria perfeito. Mas
infelizmente não era assim, as coisas eram bem mais complicadas.
–Quem te contou?
–E precisa alguém
contar? Você vai ao banheiro de hora em hora. Saquei há alguns dias. E toda vez
que olho pra você, você está com a mão em sua barriga. Fora que você está com
cara de quem vai ser mãe. Mas, não se preocupe, não comentei com ninguém,
embora, tenho certeza que a Lê sabe, mas da minha boca, ninguém mais ficará
sabendo.
–Obrigada
Théo! Nem sei o que lhe dizer. Mas esse
filho não é do Léo. É uma história bem complicada.
Théo me encarou
como quem me desaprovasse.
–Não diga nada! Só
quero que você fique bem. E se quiser ir para sua casa, pode ir e fica tranquila,
depois repasso o conteúdo da reunião.
–Não, quero
participar da reunião. Só lhe peço alguns minutos.
Ele concordou e
saiu da sala. Dani me avisou sobre outra ligação.
–Ana, Rebeca na
linha pode atender?
Estranhei, pois
havia acabado de falar com ela.
–Oi Rebeca, pode
falar.
–Ana, desculpa,
sei que você está ocupada. Mas precisava te falar. Assim que você ligou o
Rafael estava entrando na loja, quando ele passou por mim ele me ouviu falar
seu nome, e do nada ele parou em minha mesa, para saber se era você. Quando eu
confirmei, ele pegou a extensão, acredita? Estou trémula até agora. Fiquei em
uma situação, falando com você, e falando dele para você e ele na minha frente,
e escutando tudo o que nós conversávamos.
–Não acredito! –disse
incrédula.
“Santo Deus e eu
perguntando dele. Que ódio, que ódio, que ódio mil vezes. ”
–Tudo bem, Rebeca,
deixa para lá.
–E foi por isso
que demorei para ligar para você, quando soube dos dois fiquei com ódio e não
sabia como iria te falar.
–Rê, fica
tranquila! Estou bem. –respondi abafando a tristeza. –Depois a gente se fala. E
Rebeca, obrigada viu.
Ela desligou, mas
a dor que eu sentia não passava. Era como se eu tivesse uma faca cravada em meu
peito. Busquei minha força de onde não tinha, e voltei a trabalhar.
Naquela noite, fui
para casa arrasada. Fiz o caminho da agência até meu apartamento chorando
muito. Era só o que eu sabia fazer, chorar.
Cheguei em casa e
fui tomar um banho, e senti uma cólica muito forte. Após um banho, deitei em
minha cama e acabei pegando no sono. Acordei mais tarde com o telefone do Léo,
conversei com ele, por alguns minutos, mais precisei desligar rapidamente ao
senti que a calça do me pijama estava úmida. Corri ligar a luz e vi que tinha
sangrado. Fiquei em desespero e liguei para meu médico, mais o celular dele
caia na caixa postal. Liguei para a Alessandra, mas ela estava na academia e
provavelmente não estava ouvindo o celular.
Chorava de medo de
perder meu bebê, estava em pânico. Troquei apenas a calça e corri para o
hospital. Assim que eu cheguei, precisei ser internada. Estava com dores
terríveis em minha barriga. Meu médico chegou alguns minutos depois, quando eu
já estava fazendo um ultrassom, e aí que venho a notícia. Eu tinha sofrido um
aborto espontâneo.
Ouvi aquela notícia
foi uma dor esmagadora. Tinha perdido meu bem mais precioso, meu filho! E eu
havia prometido a ele que o protegeria de qualquer coisa, mas falhei.
—Ana, não foi
culpa sua de maneira alguma. É muito comum, as mães perderem seus bebês até o
terceiro mês, na primeira gestação. Eu sou prova de que você estava se
cuidando. Tomando todos os medicamentos, fazendo os acompanhamentos. Você
passou pelo stress do seu acidente, e fora o stress do dia a dia. Então, minha
querida, não se culpe. E no seu caso, o aborto foi completo, isso significa que
nem precisará fazer uma curetagem, que é um caso mais invasivo. Sinto muito,
mas não fique assim. Você é nova, e poderá ter muitos filhos. Eu te garanto. —disse
o Dr. Luís, meu ginecologista.
Eu chorava mais e
mais, tanto que ele achou melhor a enfermeira me dar um calmante. Mas nada
aliviava minha tristeza, era como se um oco se abrisse em mim.
Algum tempo depois
de ele me acalmar, me esclarecer sobre os diversos casos de abortos
espontâneos, a Alessandra chegou, esbaforida.
—Ana, amiga, o que
houve?
Dr. Luís respirou
fundo e olhou complacente para ela.
—A Ana
infelizmente sofreu um aborto espontâneo.
—Mas por quê?
—A perda de um bebê nas primeiras vinte e quatro
semanas de gestação é um fato mais comum do que se imagina. Embora seja difícil
precisar, uma grande porcentagem das gestações de que se tem registro terminam
em aborto espontâneo.
Às vezes a mulher sofre um aborto sem nem saber que estava grávida. É como eu disse a Ana, ela não tem absolutamente culpa de nada, ela estava se cuidando muito bem.
Às vezes a mulher sofre um aborto sem nem saber que estava grávida. É como eu disse a Ana, ela não tem absolutamente culpa de nada, ela estava se cuidando muito bem.
—Sim, sim! Ela estava
doutor, sou prova disso!
Nesse momento ela olhou
pesarosa em minha direção.
— Oh, minha amiga, não
fica assim. —disse Alessandra me abraçando em seguida.
—Bom, irei deixá-las a
sós. Mas se precisarem, não hesitem em me chamar. E Ana, fica calma! Tudo tem
sua hora.
Apenas balancei a cabeça
e ele se foi.
Alessandra sentou-se ao
meu lado.
—Amiga, o doutor tem
razão. Eu sei que é muito difícil, mas talvez realmente não fosse o momento
certo. O importante é que você fez tudo corretamente.
Eu não tinha forças de
dizer nada naquele momento. Também não queria admitir que talvez eles tivessem
razão, mas era o momento mais doloroso da minha vida. E mais uma vez, eu só
tinha a Alessandra ao meu lado.
Fiquei no hospital
por dois dias. O Dr. Luís só quis me liberar, quando estivesse bem física e psicologicamente.
Chorei por dias,
sem saber o que fazer, era uma dor que não cessava.
21
Visita Inesperada
As semanas de maio
foram semanas nas quais eu refleti muito sobre minha vida. E foi então que eu
decidi, que assim como o Rafael estava seguindo a vida dele, eu também tinha
que seguir com a minha. E eu precisava mais do que nunca do Léo para superar
tudo o que havia acontecido comigo e então fui atrás dele.
Apesar do cansaço e da correria, Léo esteve
presente todos os finais de semana no mês de maio, o que nos uniu ainda mais. E
claro, ele não ficou sabendo sobre a gravidez e muito menos sobre meu aborto
espontâneo.
Em junho, minha
mãe foi me visitar. Não sei o porquê, mas ela se viu em dívida comigo, como ela
mesmo disse. Tanto que ficou quase uma semana inteira em meu apartamento, e
isso me encheu de alegria. Eu tinha um colo de mãe, todos os dias, quando
chegava da agência. Mal sabia ela, do quanto eu precisei do colo dela, por tudo
o que eu tinha passado há alguns dias.
O Léo manteve-se
muito ocupado no mês de junho, então, na terceira semana de junho, eu resolvi
fazer uma surpresa a ele, e fui um final de semana para Seattle. Foi divertido,
Léo conseguiu o final de semana de folga para ficar comigo. Porém, na
segunda-feira pela manhã, quando ele me levou para o aeroporto senti que algo o
perturbava.
—Está tudo bem
Léo? Estou te achando estranho.
—Oh, minha linda,
não é nada, é que eu não aguento mais essa distância, estive conversando com
meu pai, e ele também está sobrecarregado no Brasil, então pensei de sei lá, de
repente voltar.
Abri um sorriso,
não sabia se era de felicidade ou de surpresa.
—Sério? Eu iria
adorar. —disse entusiasmada.
—Então, essa semana
voltarei a falar com ele, aí te falo.
—É tudo o que eu
mais quero, pode ter certeza.
—Fica tranquila,
vou conversar com ele, e as coisas irão ficar mais fáceis para nós, você vai
ver. Estou cansado com esse vai e vem. Acho que já é hora de voltar.
Eu sorri e o
abracei, em seguida beijei seus lábios, pois meu voo já estava chamando.
Abraçamo-nos demoradamente e embarquei.
Naquela semana, na
quinta-feira, assim que eu acordei, recebi uma mensagem de Rebeca.
Ana, bom dia!
E as coisas por aí tudo bem?
Planos para
hoje? Estou com saudades...
Beijos
Rê.
Li a mensagem e fiquei meio que sem entender. Meu sono era maior.
Apenas digitei uma mensagem curta e enviei.
Tudo bem Rê,
e com você? Aqui está uma loucura. Mas hoje é dia de sair com a turma da
agência. É nosso costume de toda quinta-feira, irmos ao H2CHOPP.
Quando você
puder me visitar, te levarei a essa choperia, você irá amar.
E como vão as
coisas?
Saudades de
todos
Beijos,
Ana
Passado algum
tempo, resolvi deixar a preguiça de lado e fui me arrumar. Resolvi dar uma
valorizada no visual para ir trabalhar. Usei um vestido preto, mangas longas,
de gola alta, com um botão atrás do pescoço, deixando parte das costas toda de
fora, meias calças fio 40, scarpin preto, e levei um casaco de lã vermelho caso
precisasse. Estava de rabo de cavalo, mostrando a fenda das costas.
Trabalhamos todos
animados, Théo estava de ótimo humor, prometeu pagar duas rodadas de bebida para
nossa turma. Aquela seria a primeira vez que eu sairia com o pessoal, após o
acidente que eu tive de carro e principalmente após perder meu bebê. Meus
amigos estavam animados, por eu estar de volta a turma, como eles diziam e a
Alessandra mais empolgada do que nunca.
Por volta das oito
horas da noite, mais ou menos um grupo de quinze pessoas entrou comigo na
choperia, entre eles Théo, Alessandra, Willian e Dani. Ventava e garoava muito.
Arrumamos uma mesa de frente para o palco, uma banda legalzinha tocava um pop
rock. Tirei meu casaco, colocando-o atrás da minha cadeira. Alessandra como
sempre quis sentar-se entre mim e Willian. Quando levantamos as canecas para
fazermos um brinde à mão aberta do Théo, e a minha “volta”, senti um olhar me
penetrando, vinha do balcão. Eu olhei em volta, depois tornei a olhar para
frente, não tive dúvida. Era o Rafael. Foi
quando ele sorriu para mim. Minhas pernas ficaram bambas, e era como se tudo ao
meu redor, ficasse em câmera lenta. Pedi
licença aos meus amigos e saí.
Ouvia eles
gritarem meu nome de longe, estavam alvoroçados.
Aproximei-me do
Rafael, que estava sentado em frente balcão do bar. Ele estava lindo de tirar o
fôlego. De jeans, camiseta branca e uma camisa jeans com as mangas dobradas,
aberta sobre a camiseta. Estava lindo e despojado como sempre.
—Rafa, você aqui?
Não posso acreditar!
Ele olhou para
mim, balançando a cabeça confirmando.
—Está vendo como
eu te acho. —disse Rafael colocando a mão sobre meu braço, e me abraçando em
seguida. Senti o cheiro dele de almíscar, que fez com que meu corpo
estremecesse.
—Você está linda
como sempre. —ele disse devorando-me com os olhos.
—Quando você
chegou?
—Faz algumas
horas. Precisei ameaçar a Rebeca para descobrir onde você estaria hoje. —ele
falou com um leve sorriso nos lábios.
—Bom, pelo menos
dessa vez, você não usou a extensão para escutar nossa conversa.
—Como você sabe?
—Ela é minha
amiga, esqueceu?
—Estou vendo que
não posso mais confiar nem em quem trabalha para mim? —ele ironizou tomando um
gole de chope.
—Você sabe que
sim. —falei sem sorrir muito.
—Como você está?
—ele indagou.
Se eu dissesse
tudo o que tinha acontecido comigo, ele certamente começaria a chorar. Mas eu
não tinha o direito de dizer nada, pelo menos até ter certeza do que ele estava
fazendo ali, bem a minha frente.
—Digamos que
sobrevivendo. —falei esboçando um sorriso sem graça. —Foi bem difícil, mas eu
estou levando.
Rafael me encarou
consternado. Eu precisava mudar o rumo da conversa, senão o clima irá pesar
demais.
—Você está bebendo
o melhor chope de São Paulo. Esse eu recomendo. —falei de me sentindo uma
tremenda idiota, por não saber como iniciar uma conversa com ele.
—Então, me
acompanha! —ele disse chamando o garçom em seguida.
—Ah, não Rafael! Estou,
sem beber há alguns dias. Estou meio que dando um tempo na bebida.
—Mas aconteceu
alguma coisa? —ele indagou.
“Com certeza
aconteceu muita coisa, desde então. Por exemplo, descobri que seria mãe de um
filho seu, e o perdi pouco tempo depois. ” pensei.
—É que bati meu
carro, num dia desses. E depois disso, decidi me policiar quando estiver dirigindo, então...
—Como assim? Mas o
que houve? Você se machucou?
—Foi um pequeno
acidente. Tive apenas algumas escoriações. Mas por sorte, não foi nada além
disso. Não se preocupe.
—Você sabe que eu
me preocupo com você.
Eu ri com desdém.
—É sério, não foi
nada. Mas, caramba, você me surpreendeu, nem posso acreditar que você está
aqui!
Ele sorriu ficando
sem graça.
—É sempre animado
assim por aqui? —ele disse apontando minha turma com a cabeça.
—Na maioria das
vezes até que não, mas hoje o chefe está de bom humor, prometeu pagar umas rodadas
de chope, então o pessoal está mais solto que o normal.
Rafael sorriu, mas
senti que havia certo ar de preocupação.
—Agora me fala,
você não veio aqui pra conhecer meus amigos e muito menos chegou aqui por
acaso, então o que aconteceu?
—Nós precisamos
conversar. —ele disse girando a caneca enquanto olhava o líquido âmbar no copo.
Eu o analisei,
como se tentasse desvendar o que ele tinha a me dizer.
“Sim, e como
precisamos! ” pensei.
—Nesse caso você
prefere ficar aqui, ou sei lá, ir para um outro lugar?
Uma coisa era
certa, eu não iria além de uma conversa, devia isso a mim e principalmente ao
Leonardo. Entretanto, eu precisava saber o que ele tinha a me dizer.
—Mas, não vou te
atrapalhar? Você está com seus amigos.
—Eles irão
entender.
Rafael olhou para
mim, concordando.
Segurei a mão
dele, pude sentir que estavam trêmulas.
—Só vem comigo,
vamos lá, preciso pegar minhas coisas, e já apresento você.
Rafael foi sem
hesitar.
Todos olharam para
ele, depois para mim e para as nossas mãos entrelaçadas.
—Pessoal, esse
aqui é o Rafael, ele é.... (nesse momento, eu não sabia ao certo como
apresentá-lo aos meus amigos) bom, eu e o Rafael fomos criados juntos.
—Opa, Rafael, seja
bem-vindo! —disse Théo erguendo a caneca. —Junte-se a nós!
Todos sem exceção
falaram oi. Dani e Alessandra se entreolharam.
Apresentei a
Alessandra para ele. Lê deu um beijo no rosto de Rafael e falou em seguida:
—A Ana me fala muito de você sabia?
Ele corou.
—Ah, e essa é a
Daniela. —falei apontando para a Dani, tentando disfarçar meu constrangimento
devido ao comentário da Alessandra.
Rafa cumprimentou
a Dani, totalmente acanhado.
—Meus pais estão
na cidade e o Rafa veio me buscar, eles querem um jantar em família, então, preciso
ir.
—Ahh, Aninha, já
vai? –disse Théo, levantando-se da mesa, vindo até nós.
Théo passou seu
braço sobre meu ombro. Apertando-me, quase sumi perto dele.
—Rafael, a Ana é
uma pessoa muito competente. Tenho orgulho em tê-la na minha equipe, sabia? Ela
é meu amuleto da sorte. E é um prazer conhecê-lo também. Quando quiser, aparece
por aqui para conhecer a agência e depois tomarmos uns drinks.
Rafael me olhou
todo orgulhoso. Fiquei desconcertada em ouvir aquele elogio do Théo, ainda mais
na frente do Rafael.
—Virei com
certeza. —espondeu Rafael, estendendo-lhe a mão.
Théo apertou a mão
dele e em seguida puxou-o para um abraço. Alessandra foi até mim me puxando de
lado.
—Amiga, estou
chocada, ele é um gato! Aquele playboyzinho não chega nem aos pés dele.
Olhei para ela
franzindo o cenho.
—Não fala assim do
Léo! Você sabe o quanto ele está sendo importante pra mim.
—Tá, eu sei, mas
esse aí é um deuso! Ele é perfeito.
Sorri, balançando
a cabeça em negação e em seguida me despedi dela e dos outros. E Rafael fez o
mesmo. Só paramos para ele acertar a comanda dele e saímos em seguida.
—Pelo jeito, o
Théo gostou de você.
—E pelo o que eu
pude perceber, ele gosta muito de você, aliás, todos gostam. —disse Rafael.
—Eles são minha
família, sabia? —falei olhando-o consternada.
Ele soltou outro
sorriso sem graça.
Saímos da choperia,
estava garoando, cobri meus cabelos com meu casaco. Rafael passou o braço ao
meu redor, tentando me proteger do frio e da garoa.
—Aonde vamos? Você
me dá uma carona? Vim do hotel até aqui de taxi.
—Vem! Meu carro
está no estacionamento da agência. —falei e em seguida, segurei a mão dele,
puxando-o para atravessar a avenida, assim que o sinal abriu.
Passamos pela
agência, mas deu para ele ver apenas a fachada da TG3 e seguimos para o
estacionamento. O segurança me viu e abriu o portão em seguida.
Já estávamos no
estacionamento coberto, meu casaco protegeu meus cabelos que estavam em ordem,
mas eu estava tremendo de frio, meus seios denunciavam o frio que eu sentia,
marcando meu vestido. Entramos em meu Volvo XC60 e nos entreolhamos, um calor
brotou dos nossos corpos, ele segurou minha mão, pude sentir toda minha
estrutura ficar abalada.
—Você quer ir para
onde? —perguntei quebrando o silêncio.
—Estou no Fasano,
quer ir para lá? Vai que seu noivo chega de repente em seu apartamento.
—Ele está em Seattle.
—falei disfarçando meu nervosismo.
Estar com o Rafael
parecia sempre ser a primeira vez.
—Você decide! —ele
brincou, erguendo as mãos. —Estou de carona.
—Nesse caso, vamos
para um ambiente neutro. —falei decidida, seguindo em direção ao Fasano.
Dirigi cerca de
vinte minutos e nesses minutos, o silêncio era gritante. Até que começamos a
conversar sobre a fazenda, a correria dele com a loja, sobre o restaurante onde
ele fechou os negócios, mas em momento nenhum tocamos no assunto principal.
Assim que chegamos
ao Jardins, avistamos o Fasano. Paramos em frente ao hotel, o manobrista levou
meu carro, enquanto eu colocava meu casaco. Rafael veio até mim e me ajudou a
vesti-lo, e seguimos para dentro do hotel. No elevador, o silêncio novamente
pairou no ar; não olhei para ele. Mas tanto eu como ele, estávamos visivelmente
abalados por estarmos um na companhia do outro. Para disfarçar minha tensão, tirei
meu iphone da bolsa para checar se havia alguma ligação. Havia uma mensagem do
Léo, mas deixei para ler depois.
Assim que abrimos
a porta do quarto do hotel, dei de cara com uma arquitetura em que o design
contemporâneo junta-se à riqueza de detalhes clássicos, como os móveis de
época. Havia ido ao hotel, duas ou três vezes no começo do namoro com o Léo,
mas não me lembrava de quão bonito ele era.
Rafael fechou a porta atrás de nós e em
seguida veio até mim, me ajudar a retirar meu casaco. Pude sentir sua
respiração em meu pescoço e novamente senti minhas estruturas abaladas, prestes
a desmoronar.
—Pronto, aqui estamos!
–falei.
Ele ficou parado,
me olhando com as mãos nos bolsos.
—Agora me fala, o
que te trouxe até aqui? Deve ser algo muito importante.
Ele continuou me
olhando, mas abaixou a cabeça.
Senti que não
deveria ser algo bom só pela expressão triste dele. Rafael, mantinha-se
afastado de mim, assim como eu preferia manter certa distância, caso contrário
não respondia por mim.
—O que aconteceu
com você e seu noivo, naquele dia? A Rebeca me disse que vocês discutiram depois
daquela noite.
Rafael tentou desviar
o assunto principal. Ele parecia bem nervoso, e eu sabia que aquilo não
significava boa coisa.
—Posso? —perguntei,
apontando a poltrona.
—Opa, desculpe,
claro que sim!
Precisei me sentar,
caso contrário ia desmaiar na frente dele.
—O Leonardo ficou
furioso. Ele viu que eu passei a noite fora. Nós acabamos discutindo no caminho
de volta, e claro, ele não deixou de ter razão. Mas ainda assim, não me
arrependo de ter ido falar com você.
Rafael sentou-se
em outra poltrona de frente para mim, cruzando suas pernas, enquanto eu falava
ele mexia na barra da calça jeans, evitando ao máximo olhar para mim. Aquela
situação estava me deixando incomodada.
Foi quando ele
olhou para mim e isso fez com que sentisse um frio na barriga.
—Sinto muito Ana!
—ele falou e dessa vez olhando no fundo dos meus olhos. —Eu fiquei muito mal
quando acordei e vi que você não estava. Não sabia que horas você ia embora,
sabia que era no domingo, mas nunca imaginei que fosse tão cedo como foi.
Suspirei e o
encarei, mas ele desviou o olhar.
—Saí correndo para
casa dos seus pais, era em torno das oito da manhã e eles estavam na missa, mas
a Maria me disse que você tinha ido embora logo que o dia amanheceu. Eu...
(Rafael fez uma pausa) achei que fosse enlouquecer. —disse ele levantando-se e
andando pelo quarto.
—Ana foram os
piores dias da minha vida.
Caminhei até ele,
ele estava de costas para mim, quis abraçá-lo, mas não tive coragem. O virei,
para que ele olhasse em meus olhos.
—Rafael, ir embora
e deixar você ali, foi... (suspirei) foi terrível. Foi uma dor inexplicável.
Sabe quando você acha que está fazendo a coisa certa, mas ainda assim vê seu
mundo desabar? Eu fiquei muito mal com tudo aquilo. E aconteceram coisas que
... (pensei em contar a ele sobre nosso filho, mas desisti). Bom, me arrastei
de casa para o trabalho, porque eu
tinha que o fazer, mas foi muito difícil. E a solidão me consumia cada vez mais.
Justamente no momento em que eu mais precisava de um colo, de uma palavra
amiga, me vi totalmente sozinha.Porém, eu não tinha outra escolha.
Ele olhou no fundo
dos meus olhos, segurou meus braços juntos em frente do meu corpo e disse com
uma voz de alguém muito ferido.
—Você tinha
escolha Ana! Você poderia ter ficado lá, ao meu lado. Nós lutaríamos juntos.
“ Sim! Ele tinha
razão! E eu iria me arrepender disso pelo o resto da minha vida. ”
Rafael soltou-me
os braços virando-se de costas para mim novamente. Caminhou até uma porta de
vidro que dava para a sacada e ficou olhando para o lado de fora. Fiquei sem
reação, ele nunca havia me tratado daquela maneira, parecia sentir ódio de mim.
Impulsivamente fui até ele fazendo-o olhar para mim.
—Quer saber Rafael
você tem razão! Você está coberto de razão. Eu poderia ter ficado ao seu lado e
lutado com você. Mas fui covarde. Eu como sempre, pesei os prós e os contras. E
tive medo de um dia, você jogar em minha cara que eu atrapalhei sua vida. Tive
medo da reação do meu pai, tive medo de não conseguir dividir você com essa
criança, tive medo de tudo! E sei que vou me arrepender a cada segundo da minha
vida por ter deixado você naquele dia. Entretanto, eu precisava dar esse espaço
para você. E você só tomaria uma decisão sobre o que fazer, quando eu estivesse
longe. Eu sei que você me culpa, mas será que só eu sou a errada nessa história?
E quanto a mim? E quanto ao que eu senti?
Nesse momento eu
me afastei dele, dando alguns passos para trás.
—Saí da sua casa,
deixando uma parte de mim com você. Você não faz ideia do quanto sofri. Você
não faz ideia de tudo o que houve comigo nesses dias. Então não é justo você
simplesmente chegar em mim e despejar todo o seu ódio. Porque se tem alguém que
saiu ferido nessa história, esse alguém fui eu. Pode ter certeza disso.
Fui em direção a
poltrona onde estavam as minhas coisas e me inclinei para pegá-las, a fim de
sair dali o quanto antes. Rafael foi até mim e me segurou, beijando-me em
seguida.
Seu beijo mostrava
o quanto ele ainda me desejava, e o pior era que eu sentia o mesmo. Um simples
beijo dele tinha o poder de me tirar fora do ar.
Suas mãos
percorriam meu corpo, como se ele tivesse me explorando e eu me vi cada vez
mais envolvida.
—Por que eu amo
tanto você assim? —ele disse em sussurro. Voltando a me beijar em seguida.
Eu o parei, por
mais difícil que fosse para mim. Rafael cheirou meus cabelos, inalando
profundamente meu cheiro e mais uma vez eu o afastei de mim. Ele colocou as
mãos no bolso da calça e caminhou pelo quarto. Me mantive paralisada, pois um
passo em falso, eu cairia em tentação.
Ele sentou-se em
uma poltrona, com a cabeça entre as mãos. Olhei para ele com vontade de
abraçá-lo, mas eu não sabia ao certo o que ele estava fazendo ali, o que ele
queria me dizer.
—Rafa, é melhor eu
ir embora.
Nesse momento ele
olhou para mim. Seu olhar parecia perfurar o meu. Foi quando eu ouvi as únicas
palavras, das quais eu jamais achei que escutaria em toda minha vida.
—Ana, eu vou me
casar!

Ai aí aiiii .... Que tristeza!!!
ResponderExcluirMorrendo de pena da Ana!!!
Quero mais...
ai ai ai ai ai .... chocada novamenteeee kkkk ...sem palavras...
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