domingo, 26 de julho de 2015

Faça por mim. Parte 12 por Érika Prevideli

Faça por mim 

Parte 12



Na sexta-feira daquela semana, o Léo me ligou que estava no Brasil e queria me ver. Inventei a desculpa mais esfarrapada pra não me encontrar com ele. Mas no sábado, não teve jeito. Ele me ligou várias vezes, pois estava em São Paulo e precisava me ver.
Não tinha como dizer não a ele. E decidi que lhe contaria sobre a minha gravidez. Quer dizer, estava tomando coragem.
Tirei o sábado para cuidar de mim, fiz umas compras após o almoço e quando passei em uma loja de roupinhas de recém-nascido, fiquei paralisada na vitrine, totalmente sem reação, observando cada coisa. Foi a primeira vez que me senti realmente grávida. Até então, nunca que uma loja daquelas me chamaria a atenção, mas quando eu vi a delicadeza daquelas coisas, os pequenos detalhes, a pureza que cada item nos transmitia, simplesmente me dei conta de que estava grávida. Foi a primeira vez que eu passei a mão em minha barriga, como se fizesse o meu primeiro contato com meu filho. Aquilo foi algo mágico, senti como se uma luz se acendesse dentro de mim. Entrei na loja e fiquei perplexa com a quantidade de coisas que havia para um bebê, a variedade delas, a tranquilidade das cores. Aquilo despertou a mãe que existia em meu eu interior. Saí de lá quase uma hora depois, e eu fui a primeira a presentear meu bebê com sapatinhos de crochê e alguns macacões.
“Será sempre assim meu bebê! Mas saiba que sempre estarei ao seu lado, te protegendo, eu prometo”. Pensei enquanto saí da loja com o coração apertado.
Em seguida, parei em um salão de beleza e me dei uma geral em meu visual, pois estava um horror. Estava no salão quando Léo me ligou novamente e combinei de ele ir me buscar por volta das oito e meia da noite. Já que ainda estava sem meu carro, por causa da batida.
Fui para meu apartamento e minutos depois estava pronta. Coloquei um vestido de girlie de renda branca sobre tule cor da pele. Um vestido extremamente lindo, todo rodado e muito feminino.  Usei um scarpin altíssimo nude. Coloquei um par de brincos Légers da Cartier com diamantes, em ouro rosa, que havia ganhado no natal passado do Léo, e minha pulseira também em ouro rosa que ele havia me dado há alguns dias. Fiz uma maquiagem bem dramática e quando estava me perfumando, me encarei no espelho e me perguntei, como seria dali para frente. Porque até então, era possível esconder a gravidez, pois estava sem nenhum vestígio de barriga, mas logo ela começaria a aparecer e aí sim as coisas mudariam totalmente.
Respirei fundo, passei a mão em minha barriga mais uma vez e fechei meus olhos e pedi por forças para enfrentar essa nova fase da minha vida.
Alguns minutos depois, a campainha tocou. Olhei pelo olho mágico e vi o Léo. Assim que abri a porta, Léo olhou para mim dos pés à cabeça.
–Caramba Ana, você está simplesmente linda. –ele falou, soltando um sorriso maroto.
“E grávida!” Pensei.
–Oi Léo.
Leonardo inclinou-se e me selou os lábios.
–Senti sua falta, sabia?
–Entra um pouco Léo.
Léo entrou e olhou tudo ao redor, como se quisesse ver se estava da maneira como ele havia deixado.
–Senti falta daqui também. Acho que tudo o que é ligado a você, me fez falta.
Léo me abraçou e me beijou apaixonadamente em seguida.
“Ana, você tem um bebê aqui dentro! Não se esqueça! Agora as coisas mudaram! ” Dizia silenciosamente a mim mesma.
Nesse momento, involuntariamente acabei me esquivando dos beijos do Léo. Era como se estivesse pecando, e na verdade estava pecando e muito. Pois tinha um filho de outro homem em meu ventre.
–Hum, Léo, você quer beber alguma coisa, antes de sairmos?
Ele me encarou, e sorriu.
–Acho que nem quero mais sair. Você está, tão... (Léo suspirou) tão linda, que sei lá, pensei em mudar os planos.
Ri nervosamente.
–Não! Vamos sair sim! Embora, minha vontade seja outra, mas disse que queria sair pra jantar com você. Então é isso que faremos.
Concordei aliviada. Saímos em seguida e do meu apartamento até o restaurante, Léo foi falando mais do que eu. Eu só ficava pensando em como dizer a ele sobre meu bebê.
Chegamos ao DOM, que era um restaurante com um número restrito de clientes atendidos diariamente, as reservas precisavam serem feitas com antecedência, mas como Léo conhecia o Chef Alex Atala, ele conseguiu nossas reservas para o mesmo dia.
O garçom trouxe-nos a carta de vinho e Léo escolheu um belo vinho, o E.Guigal Condrieu 2010.
Brindamos e quando tomei o primeiro gole, o aroma intensamente frutado e floral, juntamente com o paladar rico e elegantemente ácido, com o final longo e persistente, me fez lembrar que eu não podia beber. Eu quase me engasguei ao me lembrar da minha situação. E imediatamente dei um gole em minha água.
–O que houve? Não gostou? Perguntou-me Léo, sem atender.
–Não, pelo contrário, é perfeito. É que eu não posso beber. Aliás, não lhe disse, mas estou sem beber há alguns dias. Mais necessariamente desde a última quinta-feira, que você me ligou, um pouco mais de uma semana.
–O dia que você estava na choperia com o pessoal da agência?
–Isso, exato! Eu precisava te contar, mas queria que fosse pessoalmente.
Léo me olhou assustado. Eu estava trêmula e as palavras me faltavam.
–Naquela noite, logo que nos falamos, eu acabei indo embora. Estava cansada, e já tinha bebido além da conta, e quando saí de lá, bati meu carro.
–O quê? Como assim?
Nesse momento, contei para o Léo tudo sobre o acidente. Mas quanto mais eu adiava o assunto em questão, mais coragem me faltava para contar a ele sobre minha gravidez. E fui adiando, adiando e quando vi, simplesmente não conseguia falar.
O jantar foi perfeito, regado a vinho branco e no meu caso, água mineral. Minha cabeça ainda doía muito, porém, o que mais doía era a minha consciência, pois estava sendo desleal com o Léo, que não merecia ser ainda mais enganado.
Saímos de lá já era bem tarde, e seguimos para o meu apartamento.
“Eu vou contar! Preciso contar. ” –dizia a mim mesma. “Eu não tenho coragem! Meu Deus, me ajuda”!
Me vi em uma encruzilhada, torturante, da qual eu não conseguia agir.
Assim que entramos, Léo, entrou como se estivesse na casa dele e confesso que aquilo estava me deixando cada vez mais sem ação.
Ele sentou-se e me puxou sobre ele.
–Eu não via a hora de poder fazer isso. –ele falou me beijando em seguida.
–Léo, a gente precisa conversar.
Eu sabia que ele me odiaria para sempre, mas eu tinha que continuar.
–Muitas coisas aconteceram, e ainda não tivemos uma conversa franca desde quando voltamos de Canela.
–Ana, eu só peço a você, vamos esquecer de tudo o que aconteceu. Você errou, mas eu também errei muito. Confesso que fiz coisas, das quais não me orgulho desde então. Mas agora nós estamos aqui, só nós dois e não quero que nada estrague nosso momento. Eu amo você a Ana. E é você que eu quero.
–Mas é que...
Nesse momento, Léo colocou o dedo sobre meus lábios me impedindo de falar.
–Não diga nada, é só o que eu te peço.
Aquilo era como se ele me ferisse ainda mais. Quando eu meio que tinha tomado coragem, ele simplesmente abortou minhas palavras, me deixando sem muitas escolhas. Léo me beijou mais e mais e quando foi tentar algo mais íntimo, eu o impedi.
—Preciso que você vá embora. Aconteceu muita coisa, e eu realmente preciso pensar sobre nós dois.
Ele me encarou sem entender.
—Você está terminando comigo?
—Não! Não é isso. Só preciso de um tempo.
—Eu vou pra Europa, não sei por quanto tempo ficarei por lá, mas quando eu voltar, espero que a gente possa resolver essa situação de uma vez por todas.
Apenas concordei. Léo aproximou-se de mim, selou meus lábios e se foi.
Ele era um homem perfeito, burra era eu que não sabia dar valor a ele. Quer dizer, sempre dei valor a ele, até reencontrar o Rafael.
Na semana seguinte, fui até meu ginecologista, e pela primeira vez escutei o coraçãozinho do meu bebê, foi sem dúvida nenhuma uma experiência única e extremamente emocionante; chorei de felicidade e de tristeza, por não ter ninguém ao meu lado naquele momento. A Alessandra estava atarefada com uma campanha, então nem quis atrapalha-la com isso.
Chorei porque queria alguém para dividir comigo aquela emoção, queria o Rafael ao meu lado, escutando os batimentos do coraçãozinho do nosso filho, do qual ele nem imaginava existir. E no fundo tinha certeza que ele se emocionaria assim como eu.
Queria pelo menos a companhia da minha mãe, me apoiando e dividindo aquele momento comigo. E como as coisas eram engraçadas, ela acompanhou a Fernanda na primeira consulta dela, mas eu que era a filha, precisei ir sozinha. E claro, que não era a culpa dela, pois ela também não fazia ideia da minha gravidez.
Vi que estava sozinha, passando pelo momento mais delicado da minha vida. Mas a culpa era toda minha, e eu tinha que arcar com as consequências. Tinha que fazer isso por mim e pelo meu filho, que naquele momento, passou a ser a coisa mais importante da minha vida.
Quando eu o vi pelo ultrassom, eu ria e chorava ao mesmo tempo. Na certa, meu ginecologista me achou maluca. Mas ele foi extremamente cavalheiro e paciente comigo.
Saí de lá, com uma receita médica enorme e cheia de recomendações. Foi então, que passei a tomar diversas vitaminas, ácido fólico, ferro, entre outras coisas. Fiz inúmeros exames de sangue e mudei totalmente minha alimentação.
Os enjoos começaram a serem cada vez mais intensos. Desde o creme dental, até o perfume que a Alessandra usava. Vomitava praticamente o dia todo.  Fora o sono que eu sentia que era incontrolável. Nos momentos que podia, fechava meus olhos e cochilava, nem que fosse por cinco minutos. Era como se o meu bebê tirasse todas minhas energias.

  

20
Uma questão de tempo


Algumas semanas se passaram. Eu estava com oito semanas de gestação. As ligações da minha mãe sempre rápidas e resumidas, tanto que nunca tinha tido chance de contar a ela sobre meu acidente, tampouco sobre minha gravidez.
 Na terceira semana de abril, estava em minha sala, e meus dedos me traíram. Então liguei para Rebeca, a fim de saber alguma notícia do Rafael.
–RP ART em Móveis, boa tarde, Rebeca.
–Isso é quase um discurso. –brinquei.
–Ana? É você?
–Boa tarde Rebeca, sou eu sim. –falei dando um sorriso.
–Eu não acredito! Como você está? Tudo bem? –ela disse demonstrando certa alegria em falar comigo.
“Estou bem, grávida e vomitando a cada segundo, tendo um sono incontrolável, uma fome fora do comum e meus seios doem exacerbadamente.” Pensei.
–Oi Rebeca. Estou bem sim e você? Como vão as coisas por aí?
Senti um tremor na voz dela, a ligação ficou um pouco chiada.
–Tudo bem. Bem corrido aliás. Ah tenho novidades! O Enzo foi conhecer minha família e todos o adoraram.
–Sério Rê? Que legal, e o Arthur como reagiu?
–Ah, menina eles estão se dando muito bem, às vezes até se esquecem de mim.
–Que ótimo! Está vendo, tinha certeza que todos iriam gostar dele, o Enzo é uma pessoa ótima, assim como você, não tem como não dar certo. E seu ex. como reagiu?
–Ele vê o Arthurzinho cada vez menos, agora está com uma namorada da academia dele, então...
–Hum sei como é.
–Mas e você Ana como está?
–Estou trabalhando muito. Mal tenho tempo para respirar.  Não tenho tempo mais para nada, chego em casa já é hora de dormir.
–E você e o Léo, como estão?
Suspirei.
–Ficamos um tempo separados, mas voltamos a conversar.
Relutei em perguntar, mas meus lábios também me traíram.
–E o Rafael, como está?
Rebeca fez uma pausa.
–O Rafael está correndo para lá e para cá, está muito corrido aqui. Fechamos com o dono de um restaurante aí de São Paulo, no Jardins. Vamos redecorar todo o espaço dele.
–Sério? Que ótimo Rebeca, o mercado dos Jardins é o mais competitivo, uma vez nele, é sucesso garantido. Fico muito orgulhosa de todos vocês.
–Então, o Rafael precisou contratar mais funcionários para a loja e para a fábrica, para darmos conta. A loja está bombando de tantos pedidos.
–Mas e ele... (eu queria dizer a ela tudo o que eu precisava, mas eu não podia fazer aquilo por telefone, só que dependendo da resposta dela, talvez, eu criasse coragem para pegar o primeiro voo e ir para Canela e contar a todos sobre meu bebê.)
 Ela gaguejou.
–Bom, ele... Rebeca fez outra pausa. –Parece que ele está se acertando com a Fernanda. Eles estão meio que juntos.
Senti meu estômago embrulhar. Dessa vez quem ficou em silêncio fui eu. Era como se eu visse meu mundo desabar, lentamente, bem a minha frente.
Inconsciente levei a mão em minha barriga. Como se pudesse sentir a energia do meu filho, para me dar forças ao ouvir aquilo.
–Isso era só uma questão de tempo, eu disse que isso era inevitável.
Não sabia mais o que dizer, era como se uma bola de golfe tivesse parado em minha garganta.
–É verdade Ana, você disse mesmo.
–Rebeca, só quero que ele fique bem, se for com ela, então tudo bem para mim. –continuei tentando ser indiferente.
Por sorte a Dani entrou em minha sala.
–Ana, o Théo quer uma reunião em dez minutos na sala dele.
–Já estou indo Dani, obrigada.
Rebeca ouviu do outro lado da linha.
–Eles não nos dão folga, não é? Esses patrões são muito “folgados”. –disse Rebeca enfatizando o folgado.
–São sim! Embora esteja acostumada. Acho que o Théo faz reunião até para transar com a esposa dele.
Sorri para disfarçar minha mágoa.
– Rê me liga sempre que der, viu? Vê se não some, e manda um beijo para o Arthur e para o Enzo.
–Ah mando sim, pode deixar que ligo mais vezes, se cuida amiga, beijos.
Desliguei o telefone, joguei minha cabeça para trás, e inevitavelmente minhas lágrimas começaram a cair. Senti meu coração ficar apertado. Chegava a doer.
Théo entrou na minha sala, vendo-me chorar e ficou desesperado.
–Ana, aconteceu alguma coisa?
–Não Théo, tudo bem, só problemas de família. –respondi secando minhas lágrimas e empurrando para dentro a bola de golfe que estava parada na garganta.
–Você quer ir para casa, sei lá, se precisar daqueles dias de férias que você voltou antes não tem problema.
–Não, não, tudo bem! Só me dá cinco minutos que já vou para sua sala. –disse levantando-me e me servindo de um copo de água.
–O tempo que precisar, minha querida. –disse Théo me plantando um beijo em meu rosto. –E Ana, sei mais ou menos o que está se passando com você.
Olhei para ele, ainda com o rosto inundado de lágrimas.
–Como assim?
–Você está grávida, não está?
Chorei ainda mais, ao saber que até o Théo já sabia. Théo me abraçou.
–Não fica assim, vai dar tudo certo, você vai ver. O Leonardo vai amar essa notícia. Não tem como não amar. Sei que você está assustada, eu também ficaria. Mais tudo ficará bem.
Desabei no ombro dele. Se o Leonardo fosse o pai do meu filho, tudo seria perfeito. Mas infelizmente não era assim, as coisas eram bem mais complicadas.
–Quem te contou?
–E precisa alguém contar? Você vai ao banheiro de hora em hora. Saquei há alguns dias. E toda vez que olho pra você, você está com a mão em sua barriga. Fora que você está com cara de quem vai ser mãe. Mas, não se preocupe, não comentei com ninguém, embora, tenho certeza que a Lê sabe, mas da minha boca, ninguém mais ficará sabendo.
–Obrigada Théo!  Nem sei o que lhe dizer. Mas esse filho não é do Léo. É uma história bem complicada.
Théo me encarou como quem me desaprovasse.
–Não diga nada! Só quero que você fique bem. E se quiser ir para sua casa, pode ir e fica tranquila, depois repasso o conteúdo da reunião.
–Não, quero participar da reunião. Só lhe peço alguns minutos.
Ele concordou e saiu da sala. Dani me avisou sobre outra ligação.
–Ana, Rebeca na linha pode atender?
Estranhei, pois havia acabado de falar com ela.
–Oi Rebeca, pode falar.
–Ana, desculpa, sei que você está ocupada. Mas precisava te falar. Assim que você ligou o Rafael estava entrando na loja, quando ele passou por mim ele me ouviu falar seu nome, e do nada ele parou em minha mesa, para saber se era você. Quando eu confirmei, ele pegou a extensão, acredita? Estou trémula até agora. Fiquei em uma situação, falando com você, e falando dele para você e ele na minha frente, e escutando tudo o que nós conversávamos.
–Não acredito! –disse incrédula.
“Santo Deus e eu perguntando dele. Que ódio, que ódio, que ódio mil vezes. ”
–Tudo bem, Rebeca, deixa para lá.     
–E foi por isso que demorei para ligar para você, quando soube dos dois fiquei com ódio e não sabia como iria te falar.
–Rê, fica tranquila! Estou bem. –respondi abafando a tristeza. –Depois a gente se fala. E Rebeca, obrigada viu.
Ela desligou, mas a dor que eu sentia não passava. Era como se eu tivesse uma faca cravada em meu peito. Busquei minha força de onde não tinha, e voltei a trabalhar.
Naquela noite, fui para casa arrasada. Fiz o caminho da agência até meu apartamento chorando muito. Era só o que eu sabia fazer, chorar.
Cheguei em casa e fui tomar um banho, e senti uma cólica muito forte. Após um banho, deitei em minha cama e acabei pegando no sono. Acordei mais tarde com o telefone do Léo, conversei com ele, por alguns minutos, mais precisei desligar rapidamente ao senti que a calça do me pijama estava úmida. Corri ligar a luz e vi que tinha sangrado. Fiquei em desespero e liguei para meu médico, mais o celular dele caia na caixa postal. Liguei para a Alessandra, mas ela estava na academia e provavelmente não estava ouvindo o celular.
Chorava de medo de perder meu bebê, estava em pânico. Troquei apenas a calça e corri para o hospital. Assim que eu cheguei, precisei ser internada. Estava com dores terríveis em minha barriga. Meu médico chegou alguns minutos depois, quando eu já estava fazendo um ultrassom, e aí que venho a notícia. Eu tinha sofrido um aborto espontâneo.
Ouvi aquela notícia foi uma dor esmagadora. Tinha perdido meu bem mais precioso, meu filho! E eu havia prometido a ele que o protegeria de qualquer coisa, mas falhei.
—Ana, não foi culpa sua de maneira alguma. É muito comum, as mães perderem seus bebês até o terceiro mês, na primeira gestação. Eu sou prova de que você estava se cuidando. Tomando todos os medicamentos, fazendo os acompanhamentos. Você passou pelo stress do seu acidente, e fora o stress do dia a dia. Então, minha querida, não se culpe. E no seu caso, o aborto foi completo, isso significa que nem precisará fazer uma curetagem, que é um caso mais invasivo. Sinto muito, mas não fique assim. Você é nova, e poderá ter muitos filhos. Eu te garanto. —disse o Dr. Luís, meu ginecologista.
Eu chorava mais e mais, tanto que ele achou melhor a enfermeira me dar um calmante. Mas nada aliviava minha tristeza, era como se um oco se abrisse em mim.
Algum tempo depois de ele me acalmar, me esclarecer sobre os diversos casos de abortos espontâneos, a Alessandra chegou, esbaforida.
—Ana, amiga, o que houve?
Dr. Luís respirou fundo e olhou complacente para ela.
—A Ana infelizmente sofreu um aborto espontâneo.
—Mas por quê?
A perda de um bebê nas primeiras vinte e quatro semanas de gestação é um fato mais comum do que se imagina. Embora seja difícil precisar, uma grande porcentagem das gestações de que se tem registro terminam em aborto espontâneo. 
Às vezes a mulher sofre um aborto sem nem saber que estava grávida
.  É como eu disse a Ana, ela não tem absolutamente culpa de nada, ela estava se cuidando muito bem.
—Sim, sim! Ela estava doutor, sou prova disso!
Nesse momento ela olhou pesarosa em minha direção.
— Oh, minha amiga, não fica assim. —disse Alessandra me abraçando em seguida.
—Bom, irei deixá-las a sós. Mas se precisarem, não hesitem em me chamar. E Ana, fica calma! Tudo tem sua hora.
Apenas balancei a cabeça e ele se foi.
Alessandra sentou-se ao meu lado.
—Amiga, o doutor tem razão. Eu sei que é muito difícil, mas talvez realmente não fosse o momento certo. O importante é que você fez tudo corretamente.
Eu não tinha forças de dizer nada naquele momento. Também não queria admitir que talvez eles tivessem razão, mas era o momento mais doloroso da minha vida. E mais uma vez, eu só tinha a Alessandra ao meu lado.
Fiquei no hospital por dois dias. O Dr. Luís só quis me liberar, quando estivesse bem física e psicologicamente.
Chorei por dias, sem saber o que fazer, era uma dor que não cessava.




21
Visita Inesperada

As semanas de maio foram semanas nas quais eu refleti muito sobre minha vida. E foi então que eu decidi, que assim como o Rafael estava seguindo a vida dele, eu também tinha que seguir com a minha. E eu precisava mais do que nunca do Léo para superar tudo o que havia acontecido comigo e então fui atrás dele.
 Apesar do cansaço e da correria, Léo esteve presente todos os finais de semana no mês de maio, o que nos uniu ainda mais. E claro, ele não ficou sabendo sobre a gravidez e muito menos sobre meu aborto espontâneo.  
Em junho, minha mãe foi me visitar. Não sei o porquê, mas ela se viu em dívida comigo, como ela mesmo disse. Tanto que ficou quase uma semana inteira em meu apartamento, e isso me encheu de alegria. Eu tinha um colo de mãe, todos os dias, quando chegava da agência. Mal sabia ela, do quanto eu precisei do colo dela, por tudo o que eu tinha passado há alguns dias.
O Léo manteve-se muito ocupado no mês de junho, então, na terceira semana de junho, eu resolvi fazer uma surpresa a ele, e fui um final de semana para Seattle. Foi divertido, Léo conseguiu o final de semana de folga para ficar comigo. Porém, na segunda-feira pela manhã, quando ele me levou para o aeroporto senti que algo o perturbava.
—Está tudo bem Léo? Estou te achando estranho.
—Oh, minha linda, não é nada, é que eu não aguento mais essa distância, estive conversando com meu pai, e ele também está sobrecarregado no Brasil, então pensei de sei lá, de repente voltar.
Abri um sorriso, não sabia se era de felicidade ou de surpresa.
—Sério? Eu iria adorar. —disse entusiasmada.
—Então, essa semana voltarei a falar com ele, aí te falo.
—É tudo o que eu mais quero, pode ter certeza.
—Fica tranquila, vou conversar com ele, e as coisas irão ficar mais fáceis para nós, você vai ver. Estou cansado com esse vai e vem. Acho que já é hora de voltar.
Eu sorri e o abracei, em seguida beijei seus lábios, pois meu voo já estava chamando. Abraçamo-nos demoradamente e embarquei.
Naquela semana, na quinta-feira, assim que eu acordei, recebi uma mensagem de Rebeca.


Ana, bom dia! E as coisas por aí tudo bem?
Planos para hoje? Estou com saudades...
Beijos 
Rê.

Li a mensagem e fiquei meio que sem entender. Meu sono era maior. Apenas digitei uma mensagem curta e enviei.

Tudo bem Rê, e com você? Aqui está uma loucura. Mas hoje é dia de sair com a turma da agência. É nosso costume de toda quinta-feira, irmos ao H2CHOPP.
Quando você puder me visitar, te levarei a essa choperia, você irá amar.
E como vão as coisas?
Saudades de todos
 Beijos,
 Ana

Passado algum tempo, resolvi deixar a preguiça de lado e fui me arrumar. Resolvi dar uma valorizada no visual para ir trabalhar. Usei um vestido preto, mangas longas, de gola alta, com um botão atrás do pescoço, deixando parte das costas toda de fora, meias calças fio 40, scarpin preto, e levei um casaco de lã vermelho caso precisasse. Estava de rabo de cavalo, mostrando a fenda das costas.
Trabalhamos todos animados, Théo estava de ótimo humor, prometeu pagar duas rodadas de bebida para nossa turma. Aquela seria a primeira vez que eu sairia com o pessoal, após o acidente que eu tive de carro e principalmente após perder meu bebê. Meus amigos estavam animados, por eu estar de volta a turma, como eles diziam e a Alessandra mais empolgada do que nunca.
Por volta das oito horas da noite, mais ou menos um grupo de quinze pessoas entrou comigo na choperia, entre eles Théo, Alessandra, Willian e Dani. Ventava e garoava muito. Arrumamos uma mesa de frente para o palco, uma banda legalzinha tocava um pop rock. Tirei meu casaco, colocando-o atrás da minha cadeira. Alessandra como sempre quis sentar-se entre mim e Willian. Quando levantamos as canecas para fazermos um brinde à mão aberta do Théo, e a minha “volta”, senti um olhar me penetrando, vinha do balcão. Eu olhei em volta, depois tornei a olhar para frente, não tive dúvida. Era o Rafael.  Foi quando ele sorriu para mim. Minhas pernas ficaram bambas, e era como se tudo ao meu redor, ficasse em câmera lenta.  Pedi licença aos meus amigos e saí.
Ouvia eles gritarem meu nome de longe, estavam alvoroçados.
Aproximei-me do Rafael, que estava sentado em frente balcão do bar. Ele estava lindo de tirar o fôlego. De jeans, camiseta branca e uma camisa jeans com as mangas dobradas, aberta sobre a camiseta. Estava lindo e despojado como sempre.
—Rafa, você aqui? Não posso acreditar!
Ele olhou para mim, balançando a cabeça confirmando.
—Está vendo como eu te acho. —disse Rafael colocando a mão sobre meu braço, e me abraçando em seguida. Senti o cheiro dele de almíscar, que fez com que meu corpo estremecesse.
—Você está linda como sempre. —ele disse devorando-me com os olhos.
—Quando você chegou?
—Faz algumas horas. Precisei ameaçar a Rebeca para descobrir onde você estaria hoje. —ele falou com um leve sorriso nos lábios.
—Bom, pelo menos dessa vez, você não usou a extensão para escutar nossa conversa.
—Como você sabe?
—Ela é minha amiga, esqueceu?
—Estou vendo que não posso mais confiar nem em quem trabalha para mim? —ele ironizou tomando um gole de chope.
—Você sabe que sim. —falei sem sorrir muito.
—Como você está? —ele indagou.
Se eu dissesse tudo o que tinha acontecido comigo, ele certamente começaria a chorar. Mas eu não tinha o direito de dizer nada, pelo menos até ter certeza do que ele estava fazendo ali, bem a minha frente.
—Digamos que sobrevivendo. —falei esboçando um sorriso sem graça. —Foi bem difícil, mas eu estou levando.
Rafael me encarou consternado. Eu precisava mudar o rumo da conversa, senão o clima irá pesar demais.
—Você está bebendo o melhor chope de São Paulo. Esse eu recomendo. —falei de me sentindo uma tremenda idiota, por não saber como iniciar uma conversa com ele.
—Então, me acompanha! —ele disse chamando o garçom em seguida.
—Ah, não Rafael! Estou, sem beber há alguns dias. Estou meio que dando um tempo na bebida.
—Mas aconteceu alguma coisa? —ele indagou.
“Com certeza aconteceu muita coisa, desde então. Por exemplo, descobri que seria mãe de um filho seu, e o perdi pouco tempo depois. ”  pensei.
—É que bati meu carro, num dia desses. E depois disso, decidi me policiar quando  estiver dirigindo, então...
—Como assim? Mas o que houve? Você se machucou?
—Foi um pequeno acidente. Tive apenas algumas escoriações. Mas por sorte, não foi nada além disso. Não se preocupe.
—Você sabe que eu me preocupo com você.
Eu ri com desdém.
—É sério, não foi nada. Mas, caramba, você me surpreendeu, nem posso acreditar que você está aqui!
Ele sorriu ficando sem graça.
—É sempre animado assim por aqui? —ele disse apontando minha turma com a cabeça.
—Na maioria das vezes até que não, mas hoje o chefe está de bom humor, prometeu pagar umas rodadas de chope, então o pessoal está mais solto que o normal.
Rafael sorriu, mas senti que havia certo ar de preocupação.
—Agora me fala, você não veio aqui pra conhecer meus amigos e muito menos chegou aqui por acaso, então o que aconteceu?
—Nós precisamos conversar. —ele disse girando a caneca enquanto olhava o líquido âmbar no copo.
Eu o analisei, como se tentasse desvendar o que ele tinha a me dizer.
“Sim, e como precisamos! ” pensei.
—Nesse caso você prefere ficar aqui, ou sei lá, ir para um outro lugar?
Uma coisa era certa, eu não iria além de uma conversa, devia isso a mim e principalmente ao Leonardo. Entretanto, eu precisava saber o que ele tinha a me dizer.
—Mas, não vou te atrapalhar? Você está com seus amigos.
—Eles irão entender.
Rafael olhou para mim, concordando.
Segurei a mão dele, pude sentir que estavam trêmulas.
—Só vem comigo, vamos lá, preciso pegar minhas coisas, e já apresento você.
Rafael foi sem hesitar.
Todos olharam para ele, depois para mim e para as nossas mãos entrelaçadas.
—Pessoal, esse aqui é o Rafael, ele é.... (nesse momento, eu não sabia ao certo como apresentá-lo aos meus amigos) bom, eu e o Rafael fomos criados juntos.
—Opa, Rafael, seja bem-vindo! —disse Théo erguendo a caneca. —Junte-se a nós!
Todos sem exceção falaram oi. Dani e Alessandra se entreolharam.
Apresentei a Alessandra para ele. Lê deu um beijo no rosto de Rafael e falou em seguida:
 —A Ana me fala muito de você sabia?
Ele corou.
—Ah, e essa é a Daniela. —falei apontando para a Dani, tentando disfarçar meu constrangimento devido ao comentário da Alessandra.
Rafa cumprimentou a Dani, totalmente acanhado.
—Meus pais estão na cidade e o Rafa veio me buscar, eles querem um jantar em família, então, preciso ir.
—Ahh, Aninha, já vai? –disse Théo, levantando-se da mesa, vindo até nós.
Théo passou seu braço sobre meu ombro. Apertando-me, quase sumi perto dele.
—Rafael, a Ana é uma pessoa muito competente. Tenho orgulho em tê-la na minha equipe, sabia? Ela é meu amuleto da sorte. E é um prazer conhecê-lo também. Quando quiser, aparece por aqui para conhecer a agência e depois tomarmos uns drinks.
Rafael me olhou todo orgulhoso. Fiquei desconcertada em ouvir aquele elogio do Théo, ainda mais na frente do Rafael.
—Virei com certeza. —espondeu Rafael, estendendo-lhe a mão.
Théo apertou a mão dele e em seguida puxou-o para um abraço. Alessandra foi até mim me puxando de lado.
—Amiga, estou chocada, ele é um gato! Aquele playboyzinho não chega nem aos pés dele.
Olhei para ela franzindo o cenho.
—Não fala assim do Léo! Você sabe o quanto ele está sendo importante pra mim.
—Tá, eu sei, mas esse aí é um deuso! Ele é perfeito.
Sorri, balançando a cabeça em negação e em seguida me despedi dela e dos outros. E Rafael fez o mesmo. Só paramos para ele acertar a comanda dele e saímos em seguida.
—Pelo jeito, o Théo gostou de você.
—E pelo o que eu pude perceber, ele gosta muito de você, aliás, todos gostam. —disse Rafael.
—Eles são minha família, sabia? —falei olhando-o consternada.
Ele soltou outro sorriso sem graça.
Saímos da choperia, estava garoando, cobri meus cabelos com meu casaco. Rafael passou o braço ao meu redor, tentando me proteger do frio e da garoa.
—Aonde vamos? Você me dá uma carona? Vim do hotel até aqui de taxi.
—Vem! Meu carro está no estacionamento da agência. —falei e em seguida, segurei a mão dele, puxando-o para atravessar a avenida, assim que o sinal abriu.
Passamos pela agência, mas deu para ele ver apenas a fachada da TG3 e seguimos para o estacionamento. O segurança me viu e abriu o portão em seguida.
Já estávamos no estacionamento coberto, meu casaco protegeu meus cabelos que estavam em ordem, mas eu estava tremendo de frio, meus seios denunciavam o frio que eu sentia, marcando meu vestido. Entramos em meu Volvo XC60 e nos entreolhamos, um calor brotou dos nossos corpos, ele segurou minha mão, pude sentir toda minha estrutura ficar abalada.
—Você quer ir para onde? —perguntei quebrando o silêncio.
—Estou no Fasano, quer ir para lá? Vai que seu noivo chega de repente em seu apartamento.
—Ele está em Seattle. —falei disfarçando meu nervosismo.
Estar com o Rafael parecia sempre ser a primeira vez.
—Você decide! —ele brincou, erguendo as mãos. —Estou de carona.
—Nesse caso, vamos para um ambiente neutro. —falei decidida, seguindo em direção ao Fasano.
Dirigi cerca de vinte minutos e nesses minutos, o silêncio era gritante. Até que começamos a conversar sobre a fazenda, a correria dele com a loja, sobre o restaurante onde ele fechou os negócios, mas em momento nenhum tocamos no assunto principal.
Assim que chegamos ao Jardins, avistamos o Fasano. Paramos em frente ao hotel, o manobrista levou meu carro, enquanto eu colocava meu casaco. Rafael veio até mim e me ajudou a vesti-lo, e seguimos para dentro do hotel. No elevador, o silêncio novamente pairou no ar; não olhei para ele. Mas tanto eu como ele, estávamos visivelmente abalados por estarmos um na companhia do outro. Para disfarçar minha tensão, tirei meu iphone da bolsa para checar se havia alguma ligação. Havia uma mensagem do Léo, mas deixei para ler depois.
Assim que abrimos a porta do quarto do hotel, dei de cara com uma arquitetura em que o design contemporâneo junta-se à riqueza de detalhes clássicos, como os móveis de época. Havia ido ao hotel, duas ou três vezes no começo do namoro com o Léo, mas não me lembrava de quão bonito ele era.
 Rafael fechou a porta atrás de nós e em seguida veio até mim, me ajudar a retirar meu casaco. Pude sentir sua respiração em meu pescoço e novamente senti minhas estruturas abaladas, prestes a desmoronar.
—Pronto, aqui estamos! –falei.
Ele ficou parado, me olhando com as mãos nos bolsos.
—Agora me fala, o que te trouxe até aqui? Deve ser algo muito importante.
Ele continuou me olhando, mas abaixou a cabeça.
Senti que não deveria ser algo bom só pela expressão triste dele. Rafael, mantinha-se afastado de mim, assim como eu preferia manter certa distância, caso contrário não respondia por mim.
—O que aconteceu com você e seu noivo, naquele dia? A Rebeca me disse que vocês discutiram depois daquela noite.
Rafael tentou desviar o assunto principal. Ele parecia bem nervoso, e eu sabia que aquilo não significava boa coisa.
—Posso? —perguntei, apontando a poltrona.
—Opa, desculpe, claro que sim! 
Precisei me sentar, caso contrário ia desmaiar na frente dele.
—O Leonardo ficou furioso. Ele viu que eu passei a noite fora. Nós acabamos discutindo no caminho de volta, e claro, ele não deixou de ter razão. Mas ainda assim, não me arrependo de ter ido falar com você.
Rafael sentou-se em outra poltrona de frente para mim, cruzando suas pernas, enquanto eu falava ele mexia na barra da calça jeans, evitando ao máximo olhar para mim. Aquela situação estava me deixando incomodada.
Foi quando ele olhou para mim e isso fez com que sentisse um frio na barriga.
—Sinto muito Ana! —ele falou e dessa vez olhando no fundo dos meus olhos. —Eu fiquei muito mal quando acordei e vi que você não estava. Não sabia que horas você ia embora, sabia que era no domingo, mas nunca imaginei que fosse tão cedo como foi.
Suspirei e o encarei, mas ele desviou o olhar.
—Saí correndo para casa dos seus pais, era em torno das oito da manhã e eles estavam na missa, mas a Maria me disse que você tinha ido embora logo que o dia amanheceu. Eu... (Rafael fez uma pausa) achei que fosse enlouquecer. —disse ele levantando-se e andando pelo quarto.
—Ana foram os piores dias da minha vida.
Caminhei até ele, ele estava de costas para mim, quis abraçá-lo, mas não tive coragem. O virei, para que ele olhasse em meus olhos.
—Rafael, ir embora e deixar você ali, foi... (suspirei) foi terrível. Foi uma dor inexplicável. Sabe quando você acha que está fazendo a coisa certa, mas ainda assim vê seu mundo desabar? Eu fiquei muito mal com tudo aquilo. E aconteceram coisas que ... (pensei em contar a ele sobre nosso filho, mas desisti). Bom, me arrastei de casa para o trabalho, porque eu tinha que o fazer, mas foi muito difícil. E a solidão me consumia cada vez mais. Justamente no momento em que eu mais precisava de um colo, de uma palavra amiga, me vi totalmente sozinha.Porém, eu não tinha outra escolha.
Ele olhou no fundo dos meus olhos, segurou meus braços juntos em frente do meu corpo e disse com uma voz de alguém muito ferido.
—Você tinha escolha Ana! Você poderia ter ficado lá, ao meu lado. Nós lutaríamos juntos.
“ Sim! Ele tinha razão! E eu iria me arrepender disso pelo o resto da minha vida. ”
Rafael soltou-me os braços virando-se de costas para mim novamente. Caminhou até uma porta de vidro que dava para a sacada e ficou olhando para o lado de fora. Fiquei sem reação, ele nunca havia me tratado daquela maneira, parecia sentir ódio de mim. Impulsivamente fui até ele fazendo-o olhar para mim.
—Quer saber Rafael você tem razão! Você está coberto de razão. Eu poderia ter ficado ao seu lado e lutado com você. Mas fui covarde. Eu como sempre, pesei os prós e os contras. E tive medo de um dia, você jogar em minha cara que eu atrapalhei sua vida. Tive medo da reação do meu pai, tive medo de não conseguir dividir você com essa criança, tive medo de tudo! E sei que vou me arrepender a cada segundo da minha vida por ter deixado você naquele dia. Entretanto, eu precisava dar esse espaço para você. E você só tomaria uma decisão sobre o que fazer, quando eu estivesse longe. Eu sei que você me culpa, mas será que só eu sou a errada nessa história? E quanto a mim? E quanto ao que eu senti?
Nesse momento eu me afastei dele, dando alguns passos para trás.
—Saí da sua casa, deixando uma parte de mim com você. Você não faz ideia do quanto sofri. Você não faz ideia de tudo o que houve comigo nesses dias. Então não é justo você simplesmente chegar em mim e despejar todo o seu ódio. Porque se tem alguém que saiu ferido nessa história, esse alguém fui eu. Pode ter certeza disso.
Fui em direção a poltrona onde estavam as minhas coisas e me inclinei para pegá-las, a fim de sair dali o quanto antes. Rafael foi até mim e me segurou, beijando-me em seguida.
Seu beijo mostrava o quanto ele ainda me desejava, e o pior era que eu sentia o mesmo. Um simples beijo dele tinha o poder de me tirar fora do ar.
Suas mãos percorriam meu corpo, como se ele tivesse me explorando e eu me vi cada vez mais envolvida.
—Por que eu amo tanto você assim? —ele disse em sussurro. Voltando a me beijar em seguida.
Eu o parei, por mais difícil que fosse para mim. Rafael cheirou meus cabelos, inalando profundamente meu cheiro e mais uma vez eu o afastei de mim. Ele colocou as mãos no bolso da calça e caminhou pelo quarto. Me mantive paralisada, pois um passo em falso, eu cairia em tentação.
Ele sentou-se em uma poltrona, com a cabeça entre as mãos. Olhei para ele com vontade de abraçá-lo, mas eu não sabia ao certo o que ele estava fazendo ali, o que ele queria me dizer.
—Rafa, é melhor eu ir embora.
Nesse momento ele olhou para mim. Seu olhar parecia perfurar o meu. Foi quando eu ouvi as únicas palavras, das quais eu jamais achei que escutaria em toda minha vida.

—Ana, eu vou me casar!

2 comentários:

  1. Ai aí aiiii .... Que tristeza!!!
    Morrendo de pena da Ana!!!
    Quero mais...

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  2. ai ai ai ai ai .... chocada novamenteeee kkkk ...sem palavras...

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