quarta-feira, 29 de julho de 2015

Faça por mim parte 15 por Érika Prevideli

Faça por mim

Parte 15


Fiquei incrédula. “Como assim, quem era Aline? ”
Procurei para ver se continha outras mensagens da tal da Aline, mas não havia mais nada. Disquei o número do celular que estava na mensagem. Então uma voz feminina atendeu.
—Oi, amor! Sabia que você me ligaria, tudo bem?
—Quem é? —perguntei com a voz trêmula.
—Humm, com quem você quer falar?
—Você mandou uma mensagem para o Leonardo. Eu queria saber quem é?
—É a Aline. Ele está por aí?
Nisso Léo saiu do banheiro, só de toalha.
—O que aconteceu?
É pra você Léo, é a Aline. —disse encarando-o.
 Ele olhou-me, passou as mãos nos cabelos, e virou-se de costas. Como se pensasse no que fazer. Virou-se novamente e tirou o celular das minhas mãos.
—Eu já te disse que não quero falar com você! —ele disse desligando o celular em seguida.
—Quem é Aline?          
—Deixa eu te explicar?
 Sentei-me na cama incrédula e o encarei.
—Então me explica!
Ele novamente passou as mãos pelos cabelos. Abriu a mala, pegou uma boxer limpa e a vestiu, em seguida jogou a toalha no canto do quarto. Léo sentou-se perto de mim, pegando na minha mão, eu estava tremendo de raiva.
—Léo, só me explica. —falei enfurecida.
—Eu poderia inventar uma desculpa, poderia ter mentido falar que a tal garota se confundiu, mas não é nada disso, eu não vou mentir mais ainda.
Fiquei em silêncio.
Léo respirou fundo, parecendo tomar coragem para começar a despejar a traição sobre mim.
—Eu a conheci naquele domingo que nós discutimos. Ela também estava indo para Seattle, nós fomos conversando, depois trocamos nossos telefones, depois de uns dois dias ela me ligou, e eu estava puto da vida com você, Ana. Então sei lá, mas acabou rolando, foi isso.
—Léo, nem sei o que te dizer! —falei balançando a cabeça em negação.
—Foi uma besteira Ana, eu juro, só foi...
Eu ri, balançando a cabeça. Levantei-me, dei uma volta pelo quarto e parei na frente dele.
—Quantas vezes Léo? Quantos encontros furtivos vocês tiveram?
—Só foi naquela semana, eu juro.
—É mentira! Ela acabou de te chamar de amor. Eu não sou boba, me fala a verdade.
Léo ficou desnorteado, não conseguia ao menos me encarar
—Léo fala a verdade, a merda já foi feita, pelo menos seja sincero!
-Eu juro que é verdade.
 Balancei a cabeça.
—É mentira! —disse convicta.
 Fui até a cozinha, peguei a chave do meu carro. —Eu vou sair, mas a hora que eu voltar, não quero te ver aqui.
—Ana, espera! —ele isse aflito.
Saí sem olhar para trás. Sentia o sangue quente correr em minhas veias, precisava sair para respirar, para pensar. Era tudo acontecendo ao mesmo tempo. Meu mundo estava desabando sobre mim mais uma vez.
Dirigi cerca de uma hora. Fiquei pensando em minha noite com o Rafael enquanto o Léo estava na casa dos meus pais, no quanto ele deve ter me odiado. Mas era diferente, o Rafael era o amor da minha vida. Porém, não deixava de ser uma traição, e muito séria aliás. Fora a minha gravidez que eu escondia até aquele momento.
Respirei fundo e tentei me acalmar, afinal, eu havia errado ainda mais do que ele. Resolvi voltar e escutá-lo novamente caso ele ainda estivesse lá. Talvez eu o perdoasse. Talvez ele estivesse falando a verdade, foi só um encontro sem nada demais, apenas para me castigar.
Quando entrei em meu apartamento, ele estava vestido, sentado no sofá com a cabeça baixa. O celular dele estava destruído. Sentei-me de frente para ele, eu estava com os olhos inchados e ele também. Léo não me olhou, continuava olhando para baixo.
 —Em três meses ela foi umas algumas vezes para Seattle e também me encontrou quando fui para a Europa. Mas eu juro por tudo que eu falei com ela, quando você foi para lá passar o final de semana comigo. Você até me perguntou o porquê eu estava estranho, era justamente por isso, eu me sentia péssimo mentindo para você. Então naquela mesma noite, eu liguei para a Aline e disse que não queria mais vê-la, que eu ia voltar para o Brasil e morar com a minha noiva.  Eu pedi que ela não me ligasse mais, e ela concordou numa boa. Eu não sei o porquê ela me ligou novamente. Ontem, depois que você aceitou meu pedido, eu prometi para mim mesmo Ana, que seria só você. Eu estava tentando te falar há dias, mas eu não tinha coragem.
Encostei minha cabeça no sofá, não esperava que ele fosse tão verdadeiro. E Léo olhou para mim angustiado.
—Vocês se encontravam quase todos os finais de semana? Cacete Léo, você tem visto mais ela do que a idiota da sua noiva?
—Ana eu te juro, eu já tinha falado para ela que não queria mais vê-la, eu juro Ana, me perdoa! Essa garota grudou em mim. Ela estava me cercando por todos os lados. Mas já faz algumas semanas que eu não atendia mais as ligações dela, e nem retornava as mensagens.
Balancei a cabeça. Coloquei as mãos no meu rosto, e comecei a chorar.
-
Foi ela que ligou para você ontem, quando estávamos no hotel?
Ele fez uma pausa.
-Foi, foi ela sim. E talvez por isso que ela tenha mandado a mensagem. Eu não atendia as ligações dela há dias. Ontem quando meu celular tocou eu só atendi para que ela não ficasse ligando toda hora. E mais uma vez eu disse para ela não me ligar mais. Eu te amo Ana, eu amo você. Mas você ficou diferente comigo. Eu fiquei cego de ciúmes quando voltamos de Canela, foi por isso que eu fiquei dias sem procurar você. Sei lá, queria te fazer sofrer, eu fui um idiota, eu sei, mas foi por impulso. Eu amo você mais que tudo, você precisa acreditar em mim.
—Como assim? Me ama mais que tudo transando com outra há quase quatro meses?
Fui até meu quarto, juntei as coisas dele que estavam espelhadas pelo meu quarto, e as levei para a sala.
—Léo, juro que voltei para meu apartamento disposta a te dar mais uma chance. Talvez você tivesse feito isso apenas por raiva de mim. Claro que nada justificaria. Mas enfim, se tivesse sido apenas uma transa qualquer. Contudo, o problema é que não foi. Foram diversas vezes, diversos encontros. Eu nunca voltaria a confiar em você novamente.
—Ana, me perdoa! —ele disse me segurando enquanto chorava.     
 Eu me mantive imóvel, mas depois tentei me soltar dele.
—Léo, não estou com raiva de você. Por incrível que pareça. Essas coisas acontecem, mas eu não posso aceitar essa situação. Simplesmente acabou.
—Não Ana, me perdoa! Por favor, você não pode fazer isso comigo.
Léo me segurava pelo braço, e eu não conseguia fazê-lo me soltar, então eu gritei.
-Me solta Léo. Não dificulte ainda mais as coisas. Por favor vai embora.
 Ele me soltou depois de muita insistência. Eu me tranquei em meu quarto, e deitei-me em posição fetal, onde fiquei chorando, por horas. Chorava por raiva de ser traída por ele, que até então eu achava um homem sob qualquer suspeita e totalmente apaixonado por mim. Chorava por ver mais uma vez meu mundo desabando sobre minha cabeça e chorava pensando no que eu iria fazer, a partir daquele momento.
Já era tarde da noite, tudo estava quieto, eu abri um pouco da porta, não havia mais ninguém. Saí em silêncio, as coisas dele não estava mais lá, só o celular quebrado no chão da sala, e um bilhete sobre a mesa.

Ana, fui um imbecil, acabei de ferir a única pessoa que eu realmente amo, e que é a única que se importa comigo.
Amo você, amo mais que tudo.
Por favor, me perdoa.
Léo.

Peguei o bilhete, rasguei-o. E fui tomar um banho. No fundo eu sentia que na verdade eu não tinha nenhuma moral para julgá-lo. Eu também tinha sido infiel, também tinha o enganado. Mas eu havia feito isso com uma pessoa que marcou a minha vida, eu não tinha trocado o Léo por alguém que eu nunca tinha visto em minha frente. E eu jamais faria isso com ele por causa de um desconhecido. Eu só fiz o que fiz, porque era o Rafael, era o amor da minha vida, o cara por quem eu chorei durante anos.
Não que isso me deixasse menos culpada, mas era assim que eu me sentia. Talvez na verdade, essa seria a válvula de escape que eu precisava.




25
Pai


O mês de julho voou, todos os dias recebia uma dezena de mensagens do Léo, implorando perdão, e várias chamadas perdidas. Ele chegou a ir ao meu apartamento, mas o porteiro foi avisado para não deixá-lo mais subir.  Na agência a Dani também foi instruída para não passar ligações dele.
Eu sentia muita falta do Léo, sentia falta de falar com ele. Mas, já que ambos erraram de uma maneira imperdoável, não tinha mais o porquê desse relacionamento ir para frente.
Provavelmente não iria mais acreditar nele, e em hipótese alguma eu voltaria para ele sem contar a minha história com o Rafael. Se eu voltasse com o Léo, eu teria que colocar as cartas na mesa, e lhe contar toda a verdade. Porém, isso também o machucaria demais, talvez até mais do que ele me magoou. Então, esse era o principal motivo pelo qual eu não queria mais vê-lo, ou conversar com ele. No fundo eu queria poupá-lo de saber de algo tão doloroso. Porém, a minha mágoa em relação a ele ainda era grande, porque no fundo, nunca imaginei que o Léo fosse capaz de fazer isso comigo. Afinal, sempre achei que o Léo fosse alguém melhor do que eu fui para ele.
Théo também sofria a perda da Vanessa, tentou encontrá-la de várias formas, mas ela só fugia dele.
Meu único divertimento era as saídas com a Alessandra, quando ela não estava com o Willian. Íamos para a academia, corríamos, jantávamos e saíamos para beber. Essa era a vantagem de ter uma amiga com um namorado que tinha outra família, porque ele não tinha muito tempo para ela, então ela tinha bastante tempo para me fazer companhia. Mas isso era só uma questão de tempo, pois Willian estava prestes a largar da esposa. Aliás, a esposa dele estava prestes a largá-lo. Ela queria voltar para o interior, voltar a estudar e ficar perto da família dela. Willian sempre se queixava que a esposa parecia não o amar o suficiente a ponto de largar tudo para trás e ter uma vida com ele na cidade grande. Ela vivia tacando na cara dele que por causa do casamento ela precisou largar os estudos e deixar toda sua família para traz. Então, ela se mostrava cada vez mais infeliz no casamento e com isso ela estava constantemente viajando com os filhos, e ficava semanas fora. Talvez, tenha sido isso que levou Willian a envolver-se com a Alessandra, não que isso fosse um motivo.
Quando Willian vinha desabafar comigo, eu sempre dava a eles bons conselhos, dizia para ele ser sincero com a esposa, caso ele quisesse salvar o casamento, ele teria que sentar-se com ela e ouvir o que ela tinha a dizer a ele, para que juntos encontrassem uma solução que fosse bom para os dois, e é claro, abandonar de vez a Alessandra. Ou então, se o casamento não lhe importasse mais, que ele colocasse as cartas sobre a mesa, e tivesse uma conversa franca com a esposa, assumindo de vez a Alessandra. Mas no fundo, ele não queria perder nem a Alessandra e nem a esposa, e isso eu julgava totalmente errado.
 Em agosto foi a mesma coisa. Porém, as mensagens e ligações do Léo estavam diminuindo, e eu ainda sentia falta dele. Mas sentia mais ainda falta de saber notícias do Rafael, saber como ele estava em sua nova vida.
 Foi quando recebi uma ligação em uma terça feira da minha mãe, que estava arrasada, pois a Fernanda havia perdido o bebê. Minha mãe não entrou muito em detalhes, mas ela deixou escapar que a Fernanda havia consumido drogas e isso fez com que o problema de coração que ela tinha se agravasse, a pressão subiu demais e a criança veio a falecer. Fiquei muito triste, eu pensava no Rafael que provavelmente estava arrasado. Pensava na dor que eu senti há alguns meses, quando perdi meu bebê, embora, a situação fosse bem diferente, porque na realidade, foi a Fernanda que provocou a morte do filho.
Embora não quisesse me sentir assim, anda assim, algo gritava de felicidade dentro de mim, e eu odiava sentir isso, pois sabia que todos estavam sofrendo, incluindo o Rafael. Então passei a me amaldiçoar por ser tão má. Ficava imaginando como seria a vida deles, agora que eles não tinham mais o bebê.
Rebeca também me ligou para contar assim que soube, ela me disse que ficava sabendo das coisas quando Rafael desabafava com o Enzo. E que o casamento deles era um fracasso, que estava por um fio. Outra vez me odiei por gostar de saber sobre isso. Eu não queria me permitir sentir esses sentimentos tão ruins, mas era inevitável.
Então, para evitar conversas e comentários, preferi não dizer para a Rebeca sobre o fim do meu relacionamento com o Léo, senão ela provavelmente contaria para o Enzo que contaria para o Rafael, e isso o deixaria ainda mais confuso. Eu disse apenas para a minha mãe, e eu tinha certeza que ela não diria nada para o Rafa. Ele já tinha problemas demais na vida dele para preocupar-se com os meus.
Tive uma semana com uma gripe muito forte, trabalhei empurrada naqueles dias, mas com o clima tão ruim na agência não queria perder dia de serviço, e nem queria ficar em casa sofrendo.
Em uma sexta-feira em meados de agosto todos iam no H2CHOPP, menos Théo que ia para Curitiba falar mais uma vez com a Vanessa, e eu resolvi ir para casa, tive febre durante a tarde, e só queria minha cama. Quando cheguei ao apartamento, o porteiro me avisou que eu tinha visita. Achei que fosse o Léo, mas não era, era meu pai, eu assustei muito, pois ele não era de fazer visitas sem me avisar, então mais do que depressa mandei-o subir.
Assim que abri a porta, ele apareceu,
—Pai! Que surpresa! —falei sorrindo, estendendo os braços.
 Ele me abraçou.
—Filha você está bem? —ele me perguntou preocupado, provavelmente por ver minha cara de gripe.
—Entra pai! Estou sim, passei uns dias com gripe, mas estou melhor.
Ele colocou a mão em minha testa e constatou que eu estava febril.
—Ana, você está com febre, filha.
—Fiquei o dia todo assim, mas assim que eu tomar um banho, a febre irá embora. Mas que felicidade em ver o Senhor aqui. —disse abraçando-o novamente.
Ele entrou e colocou sua pequena mala de mão ao lado do sofá e sentou-se em seguida e eu sentei-me ao lado dele.
—Aconteceu alguma coisa em casa? A mamãe está bem?
Ele sorriu, entretanto, parecia tenso.
—Não Ana, não se preocupe! Está tudo em ordem. Só queria falar com você, e ver como você estava.
Estranhei, afinal, meu pai nunca foi de vir me visitar sozinho. E estranhei mais ainda pelo fato dele querer falar comigo a sós.
—E o seu noivo Ana, vocês não voltaram mesmo?
—Então pai, é complicado. —disse passando a mão pelo cabelo.  -Aconteceram algumas coisas entre eu e o Léo, que não tinha mais como ficarmos juntos. Eu não o amava como ele merecia, e acho que foi isso que o levou a me magoar da forma que ele me magoou. Então não o culpo.
—Mas você não deve se culpar pelo o que ele fez com você.
—Não pai, eu sei disso! Nada justifica uma traição. Mas na verdade acho que eu estava mais com o Leonardo por comodidade, talvez por medo de ficar sozinha. Ele sempre foi muito bom para mim, isso eu não posso negar. E eu gostava muito dele, mas não o suficiente. Ele nunca foi o amor da minha vida.
—Minha filha, eu tinha certeza que vocês dois se casariam. E ele ao que me pareceu é um rapaz bacana. Confesso que até a mim ele decepcionou.
—E ele é uma pessoa bacana, mais do que isso, ele é incrível. É um cara esforçado, centrado, ambicioso na medida certa. Mas apesar de tudo isso, eu nunca me imaginei casada com o Léo. Há alguns meses ele me falou da ideia de voltar para o Brasil. Falou até em morarmos juntos, eu fiquei animada e confusa ao mesmo tempo. Fiquei animada pois minha vida não seria mais tão sozinha, e fiquei confusa de justamente perder minha individualidade com uma pessoa que eu não tinha certeza que eu amava. No fundo eu nunca quis isso, eu nunca quis me casar com ele. Acho que eu nunca abriria mão de nada por causa dele, então acredito que isso não é amor o suficiente.
Meu pai suspirou.
—Ana, essas coisas são complicadas. Um casamento não é uma coisa simples. São duas pessoas que moram juntas, mas que tem personalidades diferentes, pensam diferentes, discordam várias vezes, entre outras coisas. Então para assumir um compromisso desse, é necessário amar muito, abrir mão de algumas coisas, respeitar a maneira que o outro pensa, respeitar o espaço do outro, dar o braço a torcer algumas vezes mesmo que você esteja certo; então é necessário ter muita certeza do que se quer.
—Eu sei pai, é como eu disse, o Léo é uma pessoa incrível, então eu espero que ele encontre alguém que faça tudo isso por ele.  Na verdade, eu o amava como pessoa, e ainda amo. Mas não o suficiente para me casar com ele. Portanto, não o julgue pelo o que ele fez, e não fique magoado com ele. Eu também o magoei bastante, talvez até mais do que ele me magoou.
 Meu pai me olhou sem entender, mas não quis entrar em detalhes.
—Temos o Rafael como exemplo de casamento sem amor, você viu no que deu?
—E como eles estão?
—Ah, minha filha ela entrou em depressão. Acho que a sua mãe não te contou da maneira como aconteceu, mas o Rafa descobriu que ela estava usando droga, e devido a um problema cardíaco grave que ela tem, ela passou muito mal e quase morreu. Os médicos a salvaram; contudo, o bebê não teve a mesma sorte.
—Minha mãe me contou por cima.
—Sua mãe queria te contar pessoalmente, mas foi isso. A Fernanda ficava mais em Porto Alegre com os amigos, do que em Canela com o Rafael. Ele concordou que ela terminasse os estudos, então ela passava a semana fora e voltava para Canela aos finais de semana. Mas o Rafael descobriu que ela continuava saindo, indo a festas, como se fosse solteira. Até que uma noite ligaram para a casa dos pais dela em Canela e disseram que ela precisou ser hospitalizada em Porto Alegre. O Paulo em seguida ligou para o Rafael e eles foram para o hospital. Quando chegaram em Porto Alegre, o médico disse que levaram a Fernanda desacordada, ela havia ingerido álcool e uma grande quantidade de cocaína e teve uma overdose. Já no hospital ela teve uma parada cardíaca, mas o bebê não resistiu.
—Que história horrível! Como ela pode fazer isso com o próprio filho? E o Rafael como reagiu? 
—Ele ficou arrasado por causa da criança. Mas no fundo ele sabia que a Fernanda não levaria essa gravidez à sério. O Rafael não largou dela ainda, pelo estado que em que ela se encontra, ele está a ajudando; todavia, eu não sei como as coisas vão terminar.
Meu pai abaixou a cabeça, parecendo estar bem chateado. Mas depois de alguns instantes, olhou-me no fundo dos meus olhos.
—Ana, o que me trouxe até aqui é justamente para falar do Rafael.
Ergui as sobrancelhas. Senti um frio na barriga com medo do que estava por vir.
—O que aconteceu com o Rafael?
Meu pai fez uma pausa.
—Fiquei mais de um mês sem falar com o Rafael, voltei a conversar agora, quando eles perderam o bebê.
—Mas por quê, o que houve?
 Ele olhou para mim, como se tentasse decifrar o que eu estava pensando.
—Eu soube de vocês dois.
 Fiquei congelada.
—Alguns dias após o casamento, o Rafael se mostrava a pessoa mais infeliz do mundo. Era nítido a tristeza dele. Ele até tentou, mas a Fernanda tornou-se uma pessoa ainda mais arrogante do que ela era. E eu e sua mãe víamos o jeito que ela o tratava, assim como nos tratava, com a maior indiferença. Isso fez com que sua mãe tivesse uma crise nervosa, e no meio de um ataque do choro, ela me contou sobre vocês dois.
—Pai, eu...
—Me deixa falar, Ana. Ela me disse sobre quando vocês eram crianças, que vocês já se gostavam; de quando vocês eram adolescentes, o porquê de você ter feito tanta questão de ir morar fora.
Eu corei. Ele fez outra pausa, como se tentasse escolher corretamente as palavras.
—Pai, me desculpe...
—Ana! —ele disse  fazendo sinal para eu deixá-lo falar. –Sua mãe também me disse sobre esses últimos dias que você ficou na fazenda.
Olhei para ele, em seguida abaixei a cabeça, sentindo vergonha.
—Cheguei a odiar o Rafael por isso e cheguei a odiá-la também.  Me senti traído pelas pessoas que eu mais amava no mundo. Então fui falar com ele e nós discutimos e foi uma discussão terrível.
—Uns dias depois, o Rafa me procurou, me falou que quando vocês tinham quinze anos, ele pensou em falar comigo, mas ele tinha certeza que eu o odiaria, e ele não queria me magoar, então, preferiu se calar e te afastar dele, para que você conhecesse outra pessoa.
Meu pai olhava para mim, mas eu não conseguia encará-lo.
—Quando você foi embora para os Estados Unidos, ele ficou muito mal, mas ele havia prometido para si mesmo que em agradecimento a mim, seria um filho exemplar.
Concordei meneando a cabeça.
—E sempre foi, não é pai?
—Sempre Ana! Ele sempre foi o meu orgulho. E eu preciso até lhe pedir desculpas, porque focamos tanto em criar o Rafael que acabamos abrindo mão de você.
—Não pai, claro que não! Vocês sempre foram maravilhosos para mim.
—Eu sei filha, mas nós podíamos ter sido mais presentes em sua vida. Eu acho que nós falhamos em relação a isso.
—Pai, eu que optei por morar fora. Vocês só me apoiaram.
—Eu sei, mas talvez tenha faltado mais incentivo e apoio da nossa parte em ter você por perto. Mas nós achávamos que era o melhor a fazermos por você. E no fundo, não era. É como se eu e sua mãe tivéssemos jogado você para o mundo, desde quando você tinha dezesseis anos. Você era uma menina quando saiu de casa, e nunca mais voltou. Eu vejo assim, quando paro para pensar. Nós nunca nem insistimos, aliás, nem ao menos pedimos para que você morasse mais perto da nossa família. Talvez, se eu e sua mãe tivéssemos sentado com você e tido uma conversa franca, tudo seria diferente.
Fiquei quieta e refletindo o que ele estava dizendo.
—O Rafael também me falou que veio atrás de você, e você já estava namorando, então, a partir daí ele se empenhou em ser uma pessoa à sua altura, estudado, independente, e foi isso que ele fez. Tornou-se esse homem que ele é hoje.
Ele suspirou.
—Ele me disse o porquê ele construiu aquela casa no lago. Filha, e eu me lembrei de que você sempre falava que queria morar ali, que era seu sonho ter uma casa do outro lado daquele lago.
 Sorri, concordando, em seguida, abaixei a cabeça e comecei a chorar.
—Nesse dia que o Rafael me procurou e me disse tudo isso, eu achei que fosse uma grande baboseira. E cheguei a expulsá-lo da minha casa. Falei coisas horríveis para ele, das quais não gosto nem de me lembrar.
Estava paralisada, sem reação alguma.
—Nunca juntei as coisas. Nunca parei para pensar nos fatos. E eles estavam diante ao meu nariz o tempo todo. Talvez se eu tivesse sido um pai mais atencioso, eu teria notado o comportamento de vocês dois. Mas não, isso nunca se passou pela minha cabeça. Agora eu vejo vocês dois assim, cada um para um lado, um mais infeliz que o outro, e tudo porque eu...
Ele fez um silêncio.
—Pai, por favor, me perdoa? Eu nunca, nunca, tive a intenção...
Nesse momento a emoção, misturada com a culpa era muito grande. Eu não conseguia mais falar.
—Nós não fizemos por mal, pai, nós nunca tivemos a intenção de magoá-lo, sabíamos que o senhor nunca aceitaria. Mas esses dias que eu fiquei na fazenda, tive a prova que eu nunca deixei de amar o Rafael, mesmo depois de anos. Na verdade, eu morria de medo de voltar para casa e ver o Rafael e voltar a sentir tudo o que eu sentia por ele. Mas quando eu o vi, no aeroporto, eu tive a certeza que eu nunca o esqueci. Eu sei que pode parecer exagero, mas não é. É um sentimento muito forte entre nós.
Meu pai se levantou, foi até a sacada, abriu a porta, e ficou ali por um tempo, calado. Eu continuei sentada, chorando. Sentia que meu corpo febril estava prestes a desmoronar. Então, depois de alguns instantes, ele veio em minha direção, tirou um lenço de pano do seu bolso, me entregando. E sentou-se na mesinha de centro, ficando de frente para mim.
—Ana, o Rafael me disse as mesmas coisas, e eu continuei o odiando por isso. Mas depois eu percebi que é tudo uma grande besteira, pois na realidade vocês não são irmãos; claro, criei os dois como se fossem, mas não são irmãos de sangue. É difícil para mim. Foi difícil eu entender... (meu pai novamente fez outra pausa e sorriu passando a mão pelos cabelos).
—Eu sei que ele é seu filho. É filho de coração. Você nunca fez diferença entre nós. E tenho certeza, que onde o Sr. Joaquim estiver, ele sabe que fez a coisa certa. Não existiria no mundo pessoas melhores do que vocês para cuidar do Rafael.
Meu pai ficou pensativo, era como se tivesse voltado no tempo, lembrando do amigo que chegou em sua casa, com o filho no colo, pedindo a sua ajuda.
—Você tem razão, ele é meu filho, mas vocês não são irmãos, nem primos, e nem têm nenhum laço sanguíneo, então, isso podia acontece. Nunca pensei, nunca achei possível, mas aconteceu, vocês se tornaram homem e mulher; os dois tornaram-se atraentes, e se apaixonaram. É claro, que é difícil para aceitar, entender, mas é assim que é. Conversei muito com sua mãe Ana, ela abriu a minha cabeça em relação a tudo isso. E ela tem razão. Venho sofrendo com isso há um mês, mas não a nada para se fazer. As coisas são como são.
Continuei colada no sofá, não conseguia nem ao menos me mover diante de tudo o que eu estava escutando.
—Não serei hipócrita, é claro que seria muito mais fácil se tudo fosse diferente, se o Rafael estivesse casado e feliz com o casamento. Se você tivesse feliz com o seu noivado, fazendo planos para casar. Mas como podemos ver, as coisas não são assim, são bem diferentes. Hoje vejo que vocês dois estão sofrendo e estão infelizes.   E me dói muito ver meus dois filhos sofrendo dessa maneira.
Ele abaixou a cabeça e colocou o rosto entre as mãos, e em seguida olhou para mim novamente.
—Eu não sei o que vai acontecer, não sei nem se ao menos o Rafael vai romper com a Fernanda. Mas se por acaso isso acontecer, pode ter certeza de uma coisa minha filha, não vou mais ser um obstáculo na vida de vocês dois. Eu apoiarei vocês com certeza.
Me senti anestesiada. Afinal, nunca, em toda minha vida, imaginei que um dia pudesse escutar meu pai dizendo essas palavras. Nunca imaginei que meu pai tivesse essa atitude. Era o meu maior desejo, e ele estava sendo realizado. Eu o abracei em seguida. Abracei-o muito forte, e minhas lágrimas não paravam de cair.
—E me perdoa filha! Por minha causa vocês se tornaram pessoas tão infelizes. —ele disse baixinho em meu ouvido.
—Pai, me perdoa por essa decepção! Sei que não deve estar sendo fácil para o senhor, eu sei que fui uma decepção em sua vida, então me perdoa?
  Meu pai juntou minhas mãos que estavam quentes, e olhou nos meus olhos.
—Ana, vocês nunca foram decepção para mim, minha filha. E nunca serão. Só quero ver vocês dois felizes, juntos ou separados, mas felizes. E se a felicidade de vocês depende de vocês ficarem juntos, por mim tudo bem, pelo menos isso significaria que a nossa família ficaria unida. —falou meu pai, enxugando as lágrimas.
Nós nos abraçamos por alguns minutos. Ficaria por horas, se pudesse.
—Ana, a vida é curta, para ficar adiando a felicidade, olha quanto tempo, quantos anos foram perdidos. Foi uma sucessão de erros; minha ignorância, a omissão da sua mãe, a falta de diálogo entre eu você e seu irmão, quer dizer, entre eu, você e o Rafael.
Ele riu
—Vai ser duro, mas irei me acostumar.
Eu ri também.
—Mas agora o Rafael está casado. E  quero que eles se entendam. Se isso fazer dele um homem feliz, então eu também ficarei feliz.
—Eu sei que você pensa assim Ana. Você é uma pessoa com um coração bom. Tenho certeza que você não deseja ver o mal deles. Pelo contrário, você tocou a sua vida novamente. Poderia ter ficado lá, e ter tornado tudo mais difícil para o Rafael decidir. Mas não! Você foi sensata, agiu com muita integridade. Eu imagino o que você sentiu no dia daquele casamento. Não deve ter sido fácil para você, mas mesmo assim você esteve presente, participou, agiu com total discrição, com muita classe. Eu tenho muito orgulho de você minha filha.
Balancei a cabeça.
—Só o tempo dirá se esse casamento dará certo. Aliás filha, que o Rafael nem sabe que eu estou aqui, deixa ele colocar a cabeça no lugar, tomar as decisões dele. Não quero interferir ou influenciá-lo em nada.
—Você tem razão, pai. Ele tem que ver por ele mesmo o que é melhor. Talvez eles se acertem, ou talvez... sei lá. Mas eu não falei mais com ele, e nem irei comentar nada com ninguém sobre a nossa conversa.
—Obrigado minha filha, quando for a hora certa, ele saberá. Agora Ana, vai tomar um banho, que eu vou descer pegar algum antitérmico, na farmácia aqui perto.
Fiz o que ele pediu, e ele saiu.
Fui tomar um banho, estava perplexa. Nunca imaginei meu pai em meu apartamento tendo uma conversa como a que tivemos, nunca imaginei que esse momento chegaria. Jamais imaginei que ele aceitaria uma coisa dessas. Mas o momento chegou, e foi mágico, era tudo o que eu sempre esperei a minha vida toda, poder enfim admitir para os meus pais o quanto eu amava o Rafael, sem que eles achassem que eu estava cometendo um enorme pecado. E o que mais me deixou feliz, foi o modo em que meu pai reagiu, deixando o coração dele falar mais alto.
Ele sempre foi um pai excelente, carinhoso, amoroso; sempre foi perfeito para mim. Mas no fundo, eu sempre achei que quando ele soubesse entre mim e o Rafael, ele se sentiria traído e nunca mais voltasse a falar comigo.
Assim que acabei de tomar um banho, olhei-me no espelho e vi a imagem de uma garota mais sorridente o possível. Mesmo que eu não ficasse com o Rafael, eu havia tirado um peso das minhas costas, do qual eu carregava desde menina.
Coloquei uma calça de moletom e uma blusinha de manga longa, estava sentindo muito frio. Algum tempo depois, meu pai chegou com uma sacola da farmácia, e uma sacola do restaurante que ficava próximo ao meu prédio.
—Meu Deus, nunca me acostumaria a viver em um lugar como esse. Todo lugar é cheio de gente, tem fila para tudo. E acha que isso é hora para jantar? Achei que o restaurante fosse estar quase fechando, e estava lotado, e eu estou faminto. Ele disse erguendo as sacolas.
Apenas sorri.
—Tome aqui Ana, antitérmico e anti-inflamatório. Logo você se sentirá melhor.
—Obrigada pai! —disse e tomei ambos comprimidos com água em seguida o ajudei arrumando o balcão para jantarmos. Estava me sentindo radiante, pelo menos uma coisa boa entre tantas ruins ultimamente.
Jantamos arroz, filet à parmegiana, batata frita e suco de laranja. Enquanto jantávamos conversamos sobre a minha mãe, sobre a fazenda. Eu contei a ele sobre os problemas que o Théo vinha passando. Depois combinamos o horário que eu o levaria para o aeroporto no dia seguinte. Meu pai se encarregou da louça, enquanto eu preparava a cama do quarto de hóspedes para ele. Eu insisti para que ele dormisse em minha cama e eu na cama de solteiro, mas ele não aceitou, então caprichei o mais que eu podia, eu jamais queria vê-lo tendo uma noite desconfortável em meu apartamento.
No dia seguinte, dez horas da manhã estávamos no aeroporto, ele havia preparado café da manhã para mim, só ele e o Rafael haviam feito café para mim em meu apartamento. Eu amei.
—Amo você, filha. —disse meu pai me dando um grande abraço.
—Também amo o senhor pai e obrigada por tudo.
Ele sorriu.
—Se cuida Ana.
Fiz que sim com a cabeça e ele se foi.

3 comentários:

  1. AGORA AS COISAS ESTÃO MELHORANDO PRA ESSES DOIS

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  2. Aiiii que bommm....uma luz no fim do túnel....quero maisssss

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  3. Aaeeeeee, agora sim uma notícia boa!!!
    Aguardando os próximos capítulos ansiosamente.

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