Faça por mim
Parte 15
Fiquei incrédula. “Como
assim, quem era Aline? ”
Procurei para ver
se continha outras mensagens da tal da Aline, mas não havia mais nada. Disquei
o número do celular que estava na mensagem. Então uma voz feminina atendeu.
—Oi, amor! Sabia
que você me ligaria, tudo bem?
—Quem é? —perguntei
com a voz trêmula.
—Humm, com quem
você quer falar?
—Você mandou uma
mensagem para o Leonardo. Eu queria saber quem é?
—É a Aline. Ele
está por aí?
Nisso Léo saiu do
banheiro, só de toalha.
—O que aconteceu?
É pra você Léo, é
a Aline. —disse encarando-o.
Ele olhou-me, passou as mãos nos cabelos, e
virou-se de costas. Como se pensasse no que fazer. Virou-se novamente e tirou o
celular das minhas mãos.
—Eu já te disse
que não quero falar com você! —ele disse desligando o celular em seguida.
—Quem é
Aline?
—Deixa eu te
explicar?
Sentei-me na cama incrédula e o encarei.
—Então me explica!
Ele novamente
passou as mãos pelos cabelos. Abriu a mala, pegou uma boxer limpa e a vestiu,
em seguida jogou a toalha no canto do quarto. Léo sentou-se perto de mim,
pegando na minha mão, eu estava tremendo de raiva.
—Léo, só me
explica. —falei enfurecida.
—Eu poderia
inventar uma desculpa, poderia ter mentido falar que a tal garota se confundiu,
mas não é nada disso, eu não vou mentir mais ainda.
Fiquei em
silêncio.
Léo respirou
fundo, parecendo tomar coragem para começar a despejar a traição sobre mim.
—Eu a conheci
naquele domingo que nós discutimos. Ela também estava indo para Seattle, nós
fomos conversando, depois trocamos nossos telefones, depois de uns dois dias
ela me ligou, e eu estava puto da vida com você, Ana. Então sei lá, mas acabou
rolando, foi isso.
—Léo, nem sei o
que te dizer! —falei balançando a cabeça em negação.
—Foi uma besteira
Ana, eu juro, só foi...
Eu ri, balançando
a cabeça. Levantei-me, dei uma volta pelo quarto e parei na frente dele.
—Quantas vezes
Léo? Quantos encontros furtivos vocês tiveram?
—Só foi naquela
semana, eu juro.
—É mentira! Ela
acabou de te chamar de amor. Eu não sou boba, me fala a verdade.
Léo ficou
desnorteado, não conseguia ao menos me encarar
—Léo fala a
verdade, a merda já foi feita, pelo menos seja sincero!
-Eu juro que é
verdade.
Balancei a cabeça.
—É mentira! —disse
convicta.
Fui até a cozinha, peguei a chave do meu
carro. —Eu vou sair, mas a hora que eu voltar, não quero te ver aqui.
—Ana, espera! —ele
isse aflito.
Saí sem olhar para
trás. Sentia o sangue quente correr em minhas veias, precisava sair para
respirar, para pensar. Era tudo acontecendo ao mesmo tempo. Meu mundo estava
desabando sobre mim mais uma vez.
Dirigi cerca de
uma hora. Fiquei pensando em minha noite com o Rafael enquanto o Léo estava na
casa dos meus pais, no quanto ele deve ter me odiado. Mas era diferente, o
Rafael era o amor da minha vida. Porém, não deixava de ser uma traição, e muito
séria aliás. Fora a minha gravidez que eu escondia até aquele momento.
Respirei fundo e
tentei me acalmar, afinal, eu havia errado ainda mais do que ele. Resolvi
voltar e escutá-lo novamente caso ele ainda estivesse lá. Talvez eu o perdoasse.
Talvez ele estivesse falando a verdade, foi só um encontro sem nada demais,
apenas para me castigar.
Quando entrei em
meu apartamento, ele estava vestido, sentado no sofá com a cabeça baixa. O
celular dele estava destruído. Sentei-me de frente para ele, eu estava com os
olhos inchados e ele também. Léo não me olhou, continuava olhando para baixo.
—Em três meses ela foi umas algumas vezes para
Seattle e também me encontrou quando fui para a Europa. Mas eu juro por tudo
que eu falei com ela, quando você foi para lá passar o final de semana comigo.
Você até me perguntou o porquê eu estava estranho, era justamente por isso, eu
me sentia péssimo mentindo para você. Então naquela mesma noite, eu liguei para
a Aline e disse que não queria mais vê-la, que eu ia voltar para o Brasil e
morar com a minha noiva. Eu pedi que ela
não me ligasse mais, e ela concordou numa boa. Eu não sei o porquê ela me ligou
novamente. Ontem, depois que você aceitou meu pedido, eu prometi para mim mesmo
Ana, que seria só você. Eu estava tentando te falar há dias, mas eu não tinha
coragem.
Encostei minha
cabeça no sofá, não esperava que ele fosse tão verdadeiro. E Léo olhou para mim
angustiado.
—Vocês se
encontravam quase todos os finais de semana? Cacete Léo, você tem visto mais ela
do que a idiota da sua noiva?
—Ana eu te juro,
eu já tinha falado para ela que não queria mais vê-la, eu juro Ana, me perdoa! Essa
garota grudou em mim. Ela estava me cercando por todos os lados. Mas já faz
algumas semanas que eu não atendia mais as ligações dela, e nem retornava as
mensagens.
Balancei a cabeça.
Coloquei as mãos no meu rosto, e comecei a chorar.
-
Foi ela que ligou
para você ontem, quando estávamos no hotel?
Ele fez uma pausa.
-Foi, foi ela sim.
E talvez por isso que ela tenha mandado a mensagem. Eu não atendia as ligações
dela há dias. Ontem quando meu celular tocou eu só atendi para que ela não
ficasse ligando toda hora. E mais uma vez eu disse para ela não me ligar mais.
Eu te amo Ana, eu amo você. Mas você ficou diferente comigo. Eu fiquei cego de
ciúmes quando voltamos de Canela, foi por isso que eu fiquei dias sem procurar
você. Sei lá, queria te fazer sofrer, eu fui um idiota, eu sei, mas foi por
impulso. Eu amo você mais que tudo, você precisa acreditar em mim.
—Como assim? Me
ama mais que tudo transando com outra há quase quatro meses?
Fui até meu
quarto, juntei as coisas dele que estavam espelhadas pelo meu quarto, e as
levei para a sala.
—Léo, juro que
voltei para meu apartamento disposta a te dar mais uma chance. Talvez você
tivesse feito isso apenas por raiva de mim. Claro que nada justificaria. Mas
enfim, se tivesse sido apenas uma transa qualquer. Contudo, o problema é que não
foi. Foram diversas vezes, diversos encontros. Eu nunca voltaria a confiar em
você novamente.
—Ana, me
perdoa! —ele disse me segurando enquanto chorava.
Eu me mantive imóvel, mas depois tentei me
soltar dele.
—Léo, não estou
com raiva de você. Por incrível que pareça. Essas coisas acontecem, mas eu não
posso aceitar essa situação. Simplesmente acabou.
—Não Ana, me
perdoa! Por favor, você não pode fazer isso comigo.
Léo me segurava
pelo braço, e eu não conseguia fazê-lo me soltar, então eu gritei.
-Me solta Léo. Não
dificulte ainda mais as coisas. Por favor vai embora.
Ele me soltou depois de muita insistência. Eu
me tranquei em meu quarto, e deitei-me em posição fetal, onde fiquei chorando,
por horas. Chorava por raiva de ser traída por ele, que até então eu achava um
homem sob qualquer suspeita e totalmente apaixonado por mim. Chorava por ver
mais uma vez meu mundo desabando sobre minha cabeça e chorava pensando no que
eu iria fazer, a partir daquele momento.
Já era tarde da
noite, tudo estava quieto, eu abri um pouco da porta, não havia mais ninguém. Saí
em silêncio, as coisas dele não estava mais lá, só o celular quebrado no chão
da sala, e um bilhete sobre a mesa.
Ana, fui um imbecil, acabei de ferir a única pessoa
que eu realmente amo, e que é a única que se importa comigo.
Amo você, amo mais que tudo.
Por favor, me perdoa.
Léo.
Peguei o bilhete,
rasguei-o. E fui tomar um banho. No fundo eu sentia que na verdade eu não tinha
nenhuma moral para julgá-lo. Eu também tinha sido infiel, também tinha o
enganado. Mas eu havia feito isso com uma pessoa que marcou a minha vida, eu
não tinha trocado o Léo por alguém que eu nunca tinha visto em minha frente. E
eu jamais faria isso com ele por causa de um desconhecido. Eu só fiz o que fiz,
porque era o Rafael, era o amor da minha vida, o cara por quem eu chorei
durante anos.
Não que isso me
deixasse menos culpada, mas era assim que eu me sentia. Talvez na verdade, essa
seria a válvula de escape que eu precisava.
25
Pai
O mês de julho
voou, todos os dias recebia uma dezena de mensagens do Léo, implorando perdão,
e várias chamadas perdidas. Ele chegou a ir ao meu apartamento, mas o porteiro
foi avisado para não deixá-lo mais subir.
Na agência a Dani também foi instruída para não passar ligações dele.
Eu sentia muita
falta do Léo, sentia falta de falar com ele. Mas, já que ambos erraram de uma
maneira imperdoável, não tinha mais o porquê desse relacionamento ir para
frente.
Provavelmente não
iria mais acreditar nele, e em hipótese alguma eu voltaria para ele sem contar
a minha história com o Rafael. Se eu voltasse com o Léo, eu teria que colocar
as cartas na mesa, e lhe contar toda a verdade. Porém, isso também o machucaria
demais, talvez até mais do que ele me magoou. Então, esse era o principal
motivo pelo qual eu não queria mais vê-lo, ou conversar com ele. No fundo eu
queria poupá-lo de saber de algo tão doloroso. Porém, a minha mágoa em relação
a ele ainda era grande, porque no fundo, nunca imaginei que o Léo fosse capaz de
fazer isso comigo. Afinal, sempre achei que o Léo fosse alguém melhor do que eu
fui para ele.
Théo também sofria
a perda da Vanessa, tentou encontrá-la de várias formas, mas ela só fugia dele.
Meu único
divertimento era as saídas com a Alessandra, quando ela não estava com o
Willian. Íamos para a academia, corríamos, jantávamos e saíamos para beber.
Essa era a vantagem de ter uma amiga com um namorado que tinha outra família,
porque ele não tinha muito tempo para ela, então ela tinha bastante tempo para
me fazer companhia. Mas isso era só uma questão de tempo, pois Willian estava
prestes a largar da esposa. Aliás, a esposa dele estava prestes a largá-lo. Ela
queria voltar para o interior, voltar a estudar e ficar perto da família dela.
Willian sempre se queixava que a esposa parecia não o amar o suficiente a ponto
de largar tudo para trás e ter uma vida com ele na cidade grande. Ela vivia
tacando na cara dele que por causa do casamento ela precisou largar os estudos
e deixar toda sua família para traz. Então, ela se mostrava cada vez mais
infeliz no casamento e com isso ela estava constantemente viajando com os
filhos, e ficava semanas fora. Talvez, tenha sido isso que levou Willian a
envolver-se com a Alessandra, não que isso fosse um motivo.
Quando Willian
vinha desabafar comigo, eu sempre dava a eles bons conselhos, dizia para ele
ser sincero com a esposa, caso ele quisesse salvar o casamento, ele teria que
sentar-se com ela e ouvir o que ela tinha a dizer a ele, para que juntos
encontrassem uma solução que fosse bom para os dois, e é claro, abandonar de
vez a Alessandra. Ou então, se o casamento não lhe importasse mais, que ele
colocasse as cartas sobre a mesa, e tivesse uma conversa franca com a esposa,
assumindo de vez a Alessandra. Mas no fundo, ele não queria perder nem a
Alessandra e nem a esposa, e isso eu julgava totalmente errado.
Em agosto foi a mesma coisa. Porém, as
mensagens e ligações do Léo estavam diminuindo, e eu ainda sentia falta dele.
Mas sentia mais ainda falta de saber notícias do Rafael, saber como ele estava
em sua nova vida.
Foi quando recebi uma ligação em uma terça
feira da minha mãe, que estava arrasada, pois a Fernanda havia perdido o bebê.
Minha mãe não entrou muito em detalhes, mas ela deixou escapar que a Fernanda
havia consumido drogas e isso fez com que o problema de coração que ela tinha
se agravasse, a pressão subiu demais e a criança veio a falecer. Fiquei muito
triste, eu pensava no Rafael que provavelmente estava arrasado. Pensava na dor
que eu senti há alguns meses, quando perdi meu bebê, embora, a situação fosse
bem diferente, porque na realidade, foi a Fernanda que provocou a morte do
filho.
Embora não
quisesse me sentir assim, anda assim, algo gritava de felicidade dentro de mim,
e eu odiava sentir isso, pois sabia que todos estavam sofrendo, incluindo o
Rafael. Então passei a me amaldiçoar por ser tão má. Ficava imaginando como
seria a vida deles, agora que eles não tinham mais o bebê.
Rebeca também me
ligou para contar assim que soube, ela me disse que ficava sabendo das coisas
quando Rafael desabafava com o Enzo. E que o casamento deles era um fracasso,
que estava por um fio. Outra vez me odiei por gostar de saber sobre isso. Eu
não queria me permitir sentir esses sentimentos tão ruins, mas era inevitável.
Então, para evitar
conversas e comentários, preferi não dizer para a Rebeca sobre o fim do meu
relacionamento com o Léo, senão ela provavelmente contaria para o Enzo que
contaria para o Rafael, e isso o deixaria ainda mais confuso. Eu disse apenas
para a minha mãe, e eu tinha certeza que ela não diria nada para o Rafa. Ele já
tinha problemas demais na vida dele para preocupar-se com os meus.
Tive uma semana
com uma gripe muito forte, trabalhei empurrada naqueles dias, mas com o clima
tão ruim na agência não queria perder dia de serviço, e nem queria ficar em
casa sofrendo.
Em uma sexta-feira
em meados de agosto todos iam no H2CHOPP, menos Théo que ia para Curitiba falar
mais uma vez com a Vanessa, e eu resolvi ir para casa, tive febre durante a
tarde, e só queria minha cama. Quando cheguei ao apartamento, o porteiro me
avisou que eu tinha visita. Achei que fosse o Léo, mas não era, era meu pai, eu
assustei muito, pois ele não era de fazer visitas sem me avisar, então mais do
que depressa mandei-o subir.
Assim que abri a
porta, ele apareceu,
—Pai! Que
surpresa! —falei sorrindo, estendendo os braços.
Ele me abraçou.
—Filha você está
bem? —ele me perguntou preocupado, provavelmente por ver minha cara de gripe.
—Entra pai! Estou
sim, passei uns dias com gripe, mas estou melhor.
Ele colocou a mão
em minha testa e constatou que eu estava febril.
—Ana, você está
com febre, filha.
—Fiquei o dia todo
assim, mas assim que eu tomar um banho, a febre irá embora. Mas que felicidade em
ver o Senhor aqui. —disse abraçando-o novamente.
Ele entrou e
colocou sua pequena mala de mão ao lado do sofá e sentou-se em seguida e eu
sentei-me ao lado dele.
—Aconteceu alguma
coisa em casa? A mamãe está bem?
Ele sorriu,
entretanto, parecia tenso.
—Não Ana, não se
preocupe! Está tudo em ordem. Só queria falar com você, e ver como você estava.
Estranhei, afinal,
meu pai nunca foi de vir me visitar sozinho. E estranhei mais ainda pelo fato
dele querer falar comigo a sós.
—E o seu noivo
Ana, vocês não voltaram mesmo?
—Então pai, é
complicado. —disse passando a mão pelo cabelo.
-Aconteceram algumas coisas entre eu e o Léo, que não tinha mais como
ficarmos juntos. Eu não o amava como ele merecia, e acho que foi isso que o
levou a me magoar da forma que ele me magoou. Então não o culpo.
—Mas você não deve
se culpar pelo o que ele fez com você.
—Não pai, eu sei
disso! Nada justifica uma traição. Mas na verdade acho que eu estava mais com o
Leonardo por comodidade, talvez por medo de ficar sozinha. Ele sempre foi muito
bom para mim, isso eu não posso negar. E eu gostava muito dele, mas não o
suficiente. Ele nunca foi o amor da minha vida.
—Minha filha, eu
tinha certeza que vocês dois se casariam. E ele ao que me pareceu é um rapaz
bacana. Confesso que até a mim ele decepcionou.
—E ele é uma
pessoa bacana, mais do que isso, ele é incrível. É um cara esforçado, centrado,
ambicioso na medida certa. Mas apesar de tudo isso, eu nunca me imaginei casada
com o Léo. Há alguns meses ele me falou da ideia de voltar para o Brasil. Falou
até em morarmos juntos, eu fiquei animada e confusa ao mesmo tempo. Fiquei
animada pois minha vida não seria mais tão sozinha, e fiquei confusa de
justamente perder minha individualidade com uma pessoa que eu não tinha certeza
que eu amava. No fundo eu nunca quis isso, eu nunca quis me casar com ele. Acho
que eu nunca abriria mão de nada por causa dele, então acredito que isso não é
amor o suficiente.
Meu pai suspirou.
—Ana, essas coisas
são complicadas. Um casamento não é uma coisa simples. São duas pessoas que
moram juntas, mas que tem personalidades diferentes, pensam diferentes,
discordam várias vezes, entre outras coisas. Então para assumir um compromisso
desse, é necessário amar muito, abrir mão de algumas coisas, respeitar a
maneira que o outro pensa, respeitar o espaço do outro, dar o braço a torcer
algumas vezes mesmo que você esteja certo; então é necessário ter muita certeza
do que se quer.
—Eu sei pai, é
como eu disse, o Léo é uma pessoa incrível, então eu espero que ele encontre
alguém que faça tudo isso por ele. Na
verdade, eu o amava como pessoa, e ainda amo. Mas não o suficiente para me
casar com ele. Portanto, não o julgue pelo o que ele fez, e não fique magoado
com ele. Eu também o magoei bastante, talvez até mais do que ele me magoou.
Meu pai me olhou sem entender, mas não quis
entrar em detalhes.
—Temos o Rafael
como exemplo de casamento sem amor, você viu no que deu?
—E como eles estão?
—Ah, minha filha
ela entrou em depressão. Acho que a sua mãe não te contou da maneira como
aconteceu, mas o Rafa descobriu que ela estava usando droga, e devido a um
problema cardíaco grave que ela tem, ela passou muito mal e quase morreu. Os
médicos a salvaram; contudo, o bebê não teve a mesma sorte.
—Minha mãe me
contou por cima.
—Sua mãe queria te
contar pessoalmente, mas foi isso. A Fernanda ficava mais em Porto Alegre com
os amigos, do que em Canela com o Rafael. Ele concordou que ela terminasse os
estudos, então ela passava a semana fora e voltava para Canela aos finais de
semana. Mas o Rafael descobriu que ela continuava saindo, indo a festas, como
se fosse solteira. Até que uma noite ligaram para a casa dos pais dela em
Canela e disseram que ela precisou ser hospitalizada em Porto Alegre. O Paulo
em seguida ligou para o Rafael e eles foram para o hospital. Quando chegaram em
Porto Alegre, o médico disse que levaram a Fernanda desacordada, ela havia
ingerido álcool e uma grande quantidade de cocaína e teve uma overdose. Já no
hospital ela teve uma parada cardíaca, mas o bebê não resistiu.
—Que história
horrível! Como ela pode fazer isso com o próprio filho? E o Rafael como
reagiu?
—Ele ficou
arrasado por causa da criança. Mas no fundo ele sabia que a Fernanda não
levaria essa gravidez à sério. O Rafael não largou dela ainda, pelo estado que
em que ela se encontra, ele está a ajudando; todavia, eu não sei como as coisas
vão terminar.
Meu pai abaixou a
cabeça, parecendo estar bem chateado. Mas depois de alguns instantes, olhou-me
no fundo dos meus olhos.
—Ana, o que me
trouxe até aqui é justamente para falar do Rafael.
Ergui as
sobrancelhas. Senti um frio na barriga com medo do que estava por vir.
—O que aconteceu
com o Rafael?
Meu pai fez uma
pausa.
—Fiquei mais de um
mês sem falar com o Rafael, voltei a conversar agora, quando eles perderam o
bebê.
—Mas por quê, o
que houve?
Ele olhou para mim, como se tentasse decifrar
o que eu estava pensando.
—Eu soube de vocês
dois.
Fiquei congelada.
—Alguns dias após
o casamento, o Rafael se mostrava a pessoa mais infeliz do mundo. Era nítido a
tristeza dele. Ele até tentou, mas a Fernanda tornou-se uma pessoa ainda mais
arrogante do que ela era. E eu e sua mãe víamos o jeito que ela o tratava,
assim como nos tratava, com a maior indiferença. Isso fez com que sua mãe
tivesse uma crise nervosa, e no meio de um ataque do choro, ela me contou sobre
vocês dois.
—Pai, eu...
—Me deixa falar,
Ana. Ela me disse sobre quando vocês eram crianças, que vocês já se gostavam;
de quando vocês eram adolescentes, o porquê de você ter feito tanta questão de
ir morar fora.
Eu corei. Ele fez
outra pausa, como se tentasse escolher corretamente as palavras.
—Pai, me desculpe...
—Ana! —ele disse fazendo sinal para eu deixá-lo falar. –Sua mãe
também me disse sobre esses últimos dias que você ficou na fazenda.
Olhei para ele, em
seguida abaixei a cabeça, sentindo vergonha.
—Cheguei a odiar o
Rafael por isso e cheguei a odiá-la também.
Me senti traído pelas pessoas que eu mais amava no mundo. Então fui
falar com ele e nós discutimos e foi uma discussão terrível.
—Uns dias depois,
o Rafa me procurou, me falou que quando vocês tinham quinze anos, ele pensou em
falar comigo, mas ele tinha certeza que eu o odiaria, e ele não queria me
magoar, então, preferiu se calar e te afastar dele, para que você conhecesse
outra pessoa.
Meu pai olhava
para mim, mas eu não conseguia encará-lo.
—Quando você foi
embora para os Estados Unidos, ele ficou muito mal, mas ele havia prometido
para si mesmo que em agradecimento a mim, seria um filho exemplar.
Concordei meneando
a cabeça.
—E sempre foi, não
é pai?
—Sempre Ana! Ele
sempre foi o meu orgulho. E eu preciso até lhe pedir desculpas, porque focamos
tanto em criar o Rafael que acabamos abrindo mão de você.
—Não pai, claro
que não! Vocês sempre foram maravilhosos para mim.
—Eu sei filha, mas
nós podíamos ter sido mais presentes em sua vida. Eu acho que nós falhamos em
relação a isso.
—Pai, eu que optei
por morar fora. Vocês só me apoiaram.
—Eu sei, mas
talvez tenha faltado mais incentivo e apoio da nossa parte em ter você por
perto. Mas nós achávamos que era o melhor a fazermos por você. E no fundo, não
era. É como se eu e sua mãe tivéssemos jogado você para o mundo, desde quando
você tinha dezesseis anos. Você era uma menina quando saiu de casa, e nunca
mais voltou. Eu vejo assim, quando paro para pensar. Nós nunca nem insistimos,
aliás, nem ao menos pedimos para que você morasse mais perto da nossa família.
Talvez, se eu e sua mãe tivéssemos sentado com você e tido uma conversa franca,
tudo seria diferente.
Fiquei quieta e
refletindo o que ele estava dizendo.
—O Rafael também
me falou que veio atrás de você, e você já estava namorando, então, a partir
daí ele se empenhou em ser uma pessoa à sua altura, estudado, independente, e
foi isso que ele fez. Tornou-se esse homem que ele é hoje.
Ele suspirou.
—Ele me disse o
porquê ele construiu aquela casa no lago. Filha, e eu me lembrei de que você
sempre falava que queria morar ali, que era seu sonho ter uma casa do outro
lado daquele lago.
Sorri, concordando, em seguida, abaixei a
cabeça e comecei a chorar.
—Nesse dia que o Rafael
me procurou e me disse tudo isso, eu achei que fosse uma grande baboseira. E
cheguei a expulsá-lo da minha casa. Falei coisas horríveis para ele, das quais
não gosto nem de me lembrar.
Estava paralisada,
sem reação alguma.
—Nunca juntei as
coisas. Nunca parei para pensar nos fatos. E eles estavam diante ao meu nariz o
tempo todo. Talvez se eu tivesse sido um pai mais atencioso, eu teria notado o
comportamento de vocês dois. Mas não, isso nunca se passou pela minha cabeça.
Agora eu vejo vocês dois assim, cada um para um lado, um mais infeliz que o
outro, e tudo porque eu...
Ele fez um
silêncio.
—Pai, por favor,
me perdoa? Eu nunca, nunca, tive a intenção...
Nesse momento a
emoção, misturada com a culpa era muito grande. Eu não conseguia mais falar.
—Nós não fizemos
por mal, pai, nós nunca tivemos a intenção de magoá-lo, sabíamos que o senhor
nunca aceitaria. Mas esses dias que eu fiquei na fazenda, tive a prova que eu
nunca deixei de amar o Rafael, mesmo depois de anos. Na verdade, eu morria de
medo de voltar para casa e ver o Rafael e voltar a sentir tudo o que eu sentia
por ele. Mas quando eu o vi, no aeroporto, eu tive a certeza que eu nunca o
esqueci. Eu sei que pode parecer exagero, mas não é. É um sentimento muito
forte entre nós.
Meu pai se
levantou, foi até a sacada, abriu a porta, e ficou ali por um tempo, calado. Eu
continuei sentada, chorando. Sentia que meu corpo febril estava prestes a
desmoronar. Então, depois de alguns instantes, ele veio em minha direção, tirou
um lenço de pano do seu bolso, me entregando. E sentou-se na mesinha de centro,
ficando de frente para mim.
—Ana, o Rafael me
disse as mesmas coisas, e eu continuei o odiando por isso. Mas depois eu
percebi que é tudo uma grande besteira, pois na realidade vocês não são irmãos;
claro, criei os dois como se fossem, mas não são irmãos de sangue. É difícil
para mim. Foi difícil eu entender... (meu pai novamente fez outra pausa e
sorriu passando a mão pelos cabelos).
—Eu sei que ele é
seu filho. É filho de coração. Você nunca fez diferença entre nós. E tenho
certeza, que onde o Sr. Joaquim estiver, ele sabe que fez a coisa certa. Não
existiria no mundo pessoas melhores do que vocês para cuidar do Rafael.
Meu pai ficou
pensativo, era como se tivesse voltado no tempo, lembrando do amigo que chegou
em sua casa, com o filho no colo, pedindo a sua ajuda.
—Você tem razão,
ele é meu filho, mas vocês não são irmãos, nem primos, e nem têm nenhum laço
sanguíneo, então, isso podia acontece. Nunca pensei, nunca achei possível, mas
aconteceu, vocês se tornaram homem e mulher; os dois tornaram-se atraentes, e
se apaixonaram. É claro, que é difícil para aceitar, entender, mas é assim que
é. Conversei muito com sua mãe Ana, ela abriu a minha cabeça em relação a tudo
isso. E ela tem razão. Venho sofrendo com isso há um mês, mas não a nada para
se fazer. As coisas são como são.
Continuei colada
no sofá, não conseguia nem ao menos me mover diante de tudo o que eu estava
escutando.
—Não serei
hipócrita, é claro que seria muito mais fácil se tudo fosse diferente, se o
Rafael estivesse casado e feliz com o casamento. Se você tivesse feliz com o
seu noivado, fazendo planos para casar. Mas como podemos ver, as coisas não são
assim, são bem diferentes. Hoje vejo que vocês dois estão sofrendo e estão
infelizes. E me dói muito ver meus dois
filhos sofrendo dessa maneira.
Ele abaixou a
cabeça e colocou o rosto entre as mãos, e em seguida olhou para mim novamente.
—Eu não sei o que
vai acontecer, não sei nem se ao menos o Rafael vai romper com a Fernanda. Mas
se por acaso isso acontecer, pode ter certeza de uma coisa minha filha, não vou
mais ser um obstáculo na vida de vocês dois. Eu apoiarei vocês com certeza.
Me senti
anestesiada. Afinal, nunca, em toda minha vida, imaginei que um dia pudesse
escutar meu pai dizendo essas palavras. Nunca imaginei que meu pai tivesse essa
atitude. Era o meu maior desejo, e ele estava sendo realizado. Eu o abracei em
seguida. Abracei-o muito forte, e minhas lágrimas não paravam de cair.
—E me perdoa filha!
Por minha causa vocês se tornaram pessoas tão infelizes. —ele disse baixinho em
meu ouvido.
—Pai, me perdoa
por essa decepção! Sei que não deve estar sendo fácil para o senhor, eu sei que
fui uma decepção em sua vida, então me perdoa?
Meu pai juntou minhas mãos que estavam
quentes, e olhou nos meus olhos.
—Ana, vocês nunca
foram decepção para mim, minha filha. E nunca serão. Só quero ver vocês dois
felizes, juntos ou separados, mas felizes. E se a felicidade de vocês depende
de vocês ficarem juntos, por mim tudo bem, pelo menos isso significaria que a
nossa família ficaria unida. —falou meu pai, enxugando as lágrimas.
Nós nos abraçamos
por alguns minutos. Ficaria por horas, se pudesse.
—Ana, a vida é
curta, para ficar adiando a felicidade, olha quanto tempo, quantos anos foram
perdidos. Foi uma sucessão de erros; minha ignorância, a omissão da sua mãe, a
falta de diálogo entre eu você e seu irmão, quer dizer, entre eu, você e o
Rafael.
Ele riu
—Vai ser duro, mas
irei me acostumar.
Eu ri também.
—Mas agora o
Rafael está casado. E quero que eles se
entendam. Se isso fazer dele um homem feliz, então eu também ficarei feliz.
—Eu sei que você
pensa assim Ana. Você é uma pessoa com um coração bom. Tenho certeza que você não
deseja ver o mal deles. Pelo contrário, você tocou a sua vida novamente.
Poderia ter ficado lá, e ter tornado tudo mais difícil para o Rafael decidir.
Mas não! Você foi sensata, agiu com muita integridade. Eu imagino o que você
sentiu no dia daquele casamento. Não deve ter sido fácil para você, mas mesmo
assim você esteve presente, participou, agiu com total discrição, com muita
classe. Eu tenho muito orgulho de você minha filha.
Balancei a cabeça.
—Só o tempo dirá
se esse casamento dará certo. Aliás filha, que o Rafael nem sabe que eu estou
aqui, deixa ele colocar a cabeça no lugar, tomar as decisões dele. Não quero
interferir ou influenciá-lo em nada.
—Você tem razão,
pai. Ele tem que ver por ele mesmo o que é melhor. Talvez eles se acertem, ou
talvez... sei lá. Mas eu não falei mais com ele, e nem irei comentar nada com
ninguém sobre a nossa conversa.
—Obrigado minha
filha, quando for a hora certa, ele saberá. Agora Ana, vai tomar um banho, que
eu vou descer pegar algum antitérmico, na farmácia aqui perto.
Fiz o que ele
pediu, e ele saiu.
Fui tomar um
banho, estava perplexa. Nunca imaginei meu pai em meu apartamento tendo uma
conversa como a que tivemos, nunca imaginei que esse momento chegaria. Jamais
imaginei que ele aceitaria uma coisa dessas. Mas o momento chegou, e foi
mágico, era tudo o que eu sempre esperei a minha vida toda, poder enfim admitir
para os meus pais o quanto eu amava o Rafael, sem que eles achassem que eu
estava cometendo um enorme pecado. E o que mais me deixou feliz, foi o modo em
que meu pai reagiu, deixando o coração dele falar mais alto.
Ele sempre foi um
pai excelente, carinhoso, amoroso; sempre foi perfeito para mim. Mas no fundo,
eu sempre achei que quando ele soubesse entre mim e o Rafael, ele se sentiria
traído e nunca mais voltasse a falar comigo.
Assim que acabei
de tomar um banho, olhei-me no espelho e vi a imagem de uma garota mais
sorridente o possível. Mesmo que eu não ficasse com o Rafael, eu havia tirado
um peso das minhas costas, do qual eu carregava desde menina.
Coloquei uma calça
de moletom e uma blusinha de manga longa, estava sentindo muito frio. Algum
tempo depois, meu pai chegou com uma sacola da farmácia, e uma sacola do
restaurante que ficava próximo ao meu prédio.
—Meu Deus, nunca
me acostumaria a viver em um lugar como esse. Todo lugar é cheio de gente, tem
fila para tudo. E acha que isso é hora para jantar? Achei que o restaurante
fosse estar quase fechando, e estava lotado, e eu estou faminto. Ele disse
erguendo as sacolas.
Apenas sorri.
—Tome aqui Ana,
antitérmico e anti-inflamatório. Logo você se sentirá melhor.
—Obrigada pai! —disse
e tomei ambos comprimidos com água em seguida o ajudei arrumando o balcão para
jantarmos. Estava me sentindo radiante, pelo menos uma coisa boa entre tantas
ruins ultimamente.
Jantamos arroz,
filet à parmegiana, batata frita e suco de laranja. Enquanto jantávamos
conversamos sobre a minha mãe, sobre a fazenda. Eu contei a ele sobre os
problemas que o Théo vinha passando. Depois combinamos o horário que eu o
levaria para o aeroporto no dia seguinte. Meu pai se encarregou da louça,
enquanto eu preparava a cama do quarto de hóspedes para ele. Eu insisti para
que ele dormisse em minha cama e eu na cama de solteiro, mas ele não aceitou,
então caprichei o mais que eu podia, eu jamais queria vê-lo tendo uma noite
desconfortável em meu apartamento.
No dia seguinte,
dez horas da manhã estávamos no aeroporto, ele havia preparado café da manhã para
mim, só ele e o Rafael haviam feito café para mim em meu apartamento. Eu amei.
—Amo você, filha.
—disse meu pai me dando um grande abraço.
—Também amo o
senhor pai e obrigada por tudo.
Ele sorriu.
—Se cuida Ana.
Fiz que sim com a
cabeça e ele se foi.

AGORA AS COISAS ESTÃO MELHORANDO PRA ESSES DOIS
ResponderExcluirAiiii que bommm....uma luz no fim do túnel....quero maisssss
ResponderExcluirAaeeeeee, agora sim uma notícia boa!!!
ResponderExcluirAguardando os próximos capítulos ansiosamente.