sexta-feira, 24 de julho de 2015

Faça por mim. Parte 10 por Érika Prevideli

Faça por mim

Parte 10


15
Amigas


O almoço foi servido. Apenas nós quatro almoçamos, Rafael não apareceu. A mesa estava farta, Maria como sempre havia caprichado. Até o Léo ficou surpreso. Meu pai para quebrar o silêncio resolveu puxar assunto.
–Olha Leonardo, sei que você está acostumado a comer pratos sofisticados dos restaurantes americanos, então não repara, pois aqui não é assim, come-se muito bem, mas é tudo muito simples.
–Imagina, Fernando, estou deslumbrado com esse lugar, é tudo muito lindo. É tão tranquilo, sossegado, e essas paisagens então nem se fala, fiquei encantado. Mas o que mais me agradou foi essa comida. Vocês estão de parabéns, por tudo. –ele disse apontando para a mesa.
–É o tempero da Maria quem prova nunca mais esquece. –falou minha mãe.
–Quem sabe, no futuro, nós nos instalemos aqui, não é? –falou Léo dando uma piscada para mim.
Retribui com um sorriso forçado.
Se um dia eu voltasse a morar ali, não era com o Léo que eu planejava.
–Meu filho construiu uma bela casa aqui, é na propriedade ao lado. A casa dele é cercada por um lago maravilhoso e uma vegetação de tirar o fôlego. –disse meu pai todo orgulhoso do Rafael.
 Sim era preciso eu ir embora dali o quanto antes, era tortura demais para uma pessoa só. Enquanto eu estivesse por perto, eu jamais me livraria dos meus sentimentos pelo Rafael. Minha mãe olhou para mim e percebeu que meus olhos se encheram de lágrimas.
–Deve ser um lugar lindo. –disse Léo, ainda sobre a casa do lago.
 –Por falar nisso, nós conversamos com seu irmão, logo pela manhã. –Léo disse olhando para mim.
–É mesmo? E ele estava melhor?
–Estava sim e ele pediu desculpas sobre ontem. –disse Léo.
–Ele é um garoto excelente, você só o pegou em um dia ruim, aliás, dias ruins. –meu pai disse.
Apenas suspirei. Pois eu sabia que eu também, contribuí nestes dias ruins.
–Nós vimos a Fernanda hoje, ela estava fumando, acredita Fernando? –disse minha mãe, ainda indignada.
Meu pai balançou a cabeça em tom de negação, mas não disse uma só palavra.
Após o almoço, Léo descansou um pouco em meu quarto, enquanto eu arrumava minha mala, que estava voltando mais cheia do que chegou. Mais tarde, Léo e meu pai foram pescar com o Tomas.
Rebeca me ligou que passaria de casa para dar-me um abraço antes que eu fosse embora. Quando ela e o Arthur chegaram, Arthur abriu um imenso sorriso e correu em minha direção.
–Tia Ana! –disse ele, todo eufórico.
–Vem aqui, meu principezinho.
 Ele se jogou em meu colo, e me abraçou, como se me conhecesse a vida toda.
–Ana, não é justo isso. –disse Rebeca com certa tristeza no olhar.
-O quê? –perguntei com um meio sorriso.
–Você chega, encanta todo mundo e depois vai embora. E agora, como nós ficaremos aqui sem você?
Não disse nada, apenas dei-lhe um abraço.
Eu, minha mãe, Rebeca e Arthur ficamos conversando no jardim, o final de tarde era lindo, principalmente ali entre as flores.
Minha mãe estava bem diferente depois da conversa que nós duas tivemos. Ela queria agradar-me, estava sempre por perto. Mas precisou sair para ajudar Maria com o jantar.
–Rebeca, gostaria que vocês jantassem com a gente.
–Dona Clara, infelizmente hoje não dá, o pai do Arthur irá buscá-lo, ele passa da minha casa lá pelas oito horas da noite. Eles vão a um aniversário de um sobrinho dele, então preciso ir antes para arrumar o Arthur. Mas agradeço.
–Que pena, faria muito gosto da companhia de vocês, mas então fica para uma outra vez. –disse minha mãe sendo agradável.
Rebeca concordou.
–Meninas, me deem licença que vou ajudar a Maria com o jantar, mas volto já. Quer ir comigo Arthurzinho. –perguntou minha mãe. –Vamos, tem bolo, sorvete, suco.
 Arthur lambeu os lábios e foi com ela. Rebeca suspirou, parecia preocupada.
–Ana, estou preocupada com o Rafael.
–Por que, aconteceu mais alguma coisa?
–O Rafa não foi ontem na loja, e também não apareceu hoje, o Enzo ficou feito louco atrás dele, o celular só desligado. E nós temos aquele pedido grande das peças que serão exportadas para Miami e precisamos dele. –disse ela aflita.
Passei a mão pelos cabelos.
–Rebeca, ontem quando ele me viu com o Léo foi horrível! O Léo foi cumprimentá-lo, dizendo que era um prazer conhecer meu irmão. O Rafa me encarou me questionando se era isso que nós éramos. Ninguém entendeu nada! O Léo ficou totalmente sem graça com a mão estendida, e o Rafa o ignorando. Só depois que meu pai interferiu ele cumprimentou o Léo e saiu sem dizer nada. Acredita?
–Ele está desesperado porque você vai embora. Tanto que nem foi esses dias pra loja. Falei com a Déb e ela me disse que ontem ele ficou muito mal quando saiu daqui.
–Rebeca, sei lá, dá uma força para o Rafa, fala para o Enzo conversar com ele também, ele precisa de você. E ele gosta muito do Enzo.
–Por que você não tenta falar com ele, antes de ir, Ana? Afinal vocês estão brigados. Eu sei que a situação de vocês é complicada agora, mas pelo menos não fica esse ressentimento, não é?
–É, talvez você tenha razão.
–A Déb disse ao Enzo que o Rafael vai assumir o filho, mas não irá se casar com a Fernanda. Parece que ontem, ele estava disposto a falar com seu pai, mas sua mãe implorou para que ele não fizesse.
Senti meu coração apertar ao ouvir isso. Maria apareceu com uma bandeja, contendo suco, bolo, doces, fizemos um lanche. Mas logo Rebeca precisou ir.
Nos despedimos com muita tristeza. Ela me deu um abraço tão forte, que parecíamos ser amigas há anos. Enquanto Rebeca secava as lágrimas, Arthur se pendurou no meu pescoço me enchendo de beijos, e em seguida eles se foram.
Fui para meu quarto, e chorei muito, a tristeza parecia esmagar meu coração.


  
16
Assim como seu Pai


Logo Léo chegou, abrindo a porta do meu quarto, como o quarto estava escuro ele não podia ver que eu havia chorado.
–Ei dorminhoca, cheguei! –disse ele abraçando-me e beijando meus lábios.
–Vocês demoraram.
–Nossa amor, que pique que o seu pai tem, ele não desacelera. Isso porque está em repouso.
–Repouso, que nada. –disse forçando um sorriso. –Mas aí, gostou daqui?
–Amei, precisamos vir mais vezes.
Fiz que sim com a cabeça. O celular dele tocou, ele fez um sinal que precisava atender, e foi para o quarto de hóspedes.
–Ufaaa. –disse caindo na cama. Falar ou ficar perto do Léo como se nada tivesse acontecido estava sendo uma sentença.
Tomei um banho quente, afinal, fazia muito frio lá fora.  Coloquei uma calça montaria preta, um casaco preto e um cachecol vermelho por cima, e minhas botas. Jantamos apenas os quatro novamente, minha mãe não disfarçava o ar de preocupada com o Rafael que não tinha dado sinal de vida.
–E o Rafael cadê? –disse meu pai ao ver a preocupação de minha mãe.
–Não sei! Eu ligo, ele não atende, não dá nem sinal, não sei se almoçou, se jantou.
Léo apenas me olhou, não quis se meter no assunto de família.
–Eu não sei o que esse menino está pensando.  –disse meu pai demonstrando certa irritação.
Tentei mudar a direção da conversa falando sobre o horário do nosso voo.
–Mãe, amanhã sairemos bem cedo, por volta das cinco e meia da manhã.
–Nossa filha, mas por que tão cedo?
–Só tinha horário no primeiro voo. –respondi, mentindo, porque na verdade queria ir embora o quanto antes.
–Achei que pelo menos ficariam para o almoço.
–Não faltará oportunidade Clara, viremos mais vezes com certeza.
Após o jantar, fomos para sala. Meu pai como de costume, tomou um cafezinho após o jantar, Léo preferiu não tomar. O cansaço estava nítido no rosto do Léo, um dia todo andando a cavalo pela fazenda, depois pescando, tinha o deixado acabado. Ainda mais ele que era acostumado a passar horas em frente a um computador, sentado. A única atividade física dele era academia esporadicamente.
Ficamos jogando cartas, Léo deixou meu pai ganhar algumas vezes, mas depois os dois competiram realmente. E então Léo ganhou três rodadas seguintes. Meu celular tocou cerca de onze horas. Era o Enzo.
–Enzo, tudo bem? –atendi preocupada.
–Oi, Ana, desculpe, te incomodar!
–Não tem problema Enzo, pode falar.
–Ana estou preocupado! Estou em frente ao portão do Rafael, já toquei o interfone um milhão de vezes.  Mas ninguém atende. Procurei pelo Rafa pela cidade toda, mas não o achei. Há uns dias o Rafael me disse que você tem o controle do portão, pensei em passar daí da fazenda para pegá-lo, ou pensei que talvez você pudesse vir até tentar falar com ele. Quem sabe você ele escuta.
–Humm Enzo, vou ver o que faço e te ligo de volta. –disse gaguejando.
–Não, tudo bem. Eu espero aqui. Só estou preocupado, pois o Rafa não atende o celular e não aparece na fábrica desde ontem, não sei se a Rebeca comentou com você.
–É, ela me disse.
Senti os olhos do meu pai e do Léo crescerem para cima de mim, Léo pareceu irritado por eu estar falando com algum cara que ele não conhecia.
–Enzo, te ligo em um minuto, pode ser?
–Claro, Ana! Obrigado, beijo.
–Quem era? –perguntou meu pai, preocupado.
Minha mãe surgiu da cozinha para ver o que havia acontecido.
–Era o Enzo pai, ele está preocupado com o Rafael, ele não foi para loja hoje, e não atende o celular, ele está em casa, mas também não atende o interfone.
–Talvez ele tenha saído. –disse Léo.
–Não! Ele está lá com certeza.
Meu pai levantou-se.
–Eu vou até lá, tenho as chaves.
–Pai, pensei em ir, queria aproveitar para despedir-me dele, amanhã saio cedo, e não queria ir embora nesse clima.  –supliquei.
–Vai sim, filha! O Rafael gosta de falar com você, conversa com ele, não gosto que vocês fiquem brigados. –disse minha mãe, que tinha entendido que eu queria ir falar com ele e sozinha.
–Por mim tudo bem, se não for incomodar vocês. –disse meu pai.
Léo se levantou prontamente em ajudar.
–Claro que não, não atrapalha em nada. –respondeu ele.
Olhei para minha mãe, exasperada e tomei coragem.
–Léo, você se importa de ficar? Queria falar com ele, talvez se você for junto, ele fique retraído, sei lá. Pelo menos, se eu for sozinha, sei que ele vai me ouvir e desabafar.
A cara do Léo caiu. É claro que ele não negaria meu pedido na frente dos meus pais.
–Não, tudo bem. Você tem razão Ana, vai sim! –ele exclamou. –Também preciso arrumar minhas coisas para amanhã, e dormir, pois estou bastante cansado.
–Filha assim que você chegar, me liga para saber se ele está bem. –disse minha mãe sem esconder a preocupação.
–Claro mãe, ligo sim.
Me despedi do meu pai e do Léo que não estava com a melhor expressão. Minha mãe piscou para mim, sabendo que por dentro eu estava feliz em poder falar com o Rafael a sós.
–Obrigada, mãe! –disse sussurrando.
Assim que entrei na CRV da minha mãe liguei para o Enzo.
–Oi, Ana.
–Enzo, desculpa a demora, precisei despistar o meu pai que queria ir em meu lugar, e o Léo, meu noivo também está em casa.
–Ana, desculpa pelo transtorno.
–Eu que preciso agradecer a você Enzo! E em alguns minutos estarei aí. Beijos.
Cerca de dez minutos depois, parei o carro em frente ao portão enorme do Rafael, Enzo estava encostado em sua caminhonete me esperando.
Abaixei o vidro da CRV, e ele se aproximou.
–Oi Ana, você quer que eu entre com você? Ou...
–Enzo, eu preciso falar com ele a sós, preciso muito!
Ele sorriu, Enzo mais do que ninguém sabia que nós dois precisávamos conversar.
–Então se precisar de mim me liga que eu volto.
-–Pode deixar! Qualquer coisa eu te ligo.
Ele só balançou a cabeça, entrou em seu carro e saiu enquanto eu abria o portão com o controle que o Rafael havia me dado.
Conforme entrava com o carro, pude reparar que a casa estava toda escura. Só a luz da sala estava ligada. Parei o CRV bem ao lado da caminhonete do Rafa e segui em direção a casa. De longe, pude ouvir novamente ele dedilhar o violão. Suspirei aliviada. Imediatamente disquei para o celular da minha mãe.
–Oi Ana.
–Mãe, está tudo bem! O Rafa está na sala tocando violão, já vou falar com ele.
Ela também suspirou aliviada.
–Que bom filha, obrigada!
A porta estava fechada, mas assim que cheguei perto, pude ouvir que ele tocava uma melodia bem triste. Girei a maçaneta e a porta estava destrancada. Meu coração faltava pular da boca.
Assim que a abri, Rafael me viu e imediatamente parou de tocar, olhou para mim, senti seus olhos pesados, cansados e extremamente tristes.  Vestia uma camisa branca, dobrada na altura dos cotovelos, calça jeans, e estava descalço.
–Posso entrar?
Ele não respondeu, apenas balançou a cabeça fazendo que sim. Entrei, as chaves do carro sobre o aparador. E me sentei numa poltrona, cruzando minhas pernas, feito uma criança. Ele manteve a cabeça baixa.
–Continue. Toque alguma coisa para mim! –disse dando-lhe o meu melhor sorriso. Era o sorriso mais sincero, porque aquele lugar era o único lugar do mundo onde realmente queria estar.
Então ele começou a tocar nossa música, aquela que ele prometeu que aprenderia a tocar para mim.
Observei-o atentamente, enquanto ele tocava, seus dedos deslizavam com tanta facilidade sobre cada corda, que pareciam dar vida a cada nota musical. Rafael estava tocando a música perfeitamente, parecia o próprio David Gilmour.
Nossos olhares se cruzaram, mas em seguida ele voltou a olhar para as cordas do violão. Eu não me cansava de olhá-lo, sua pele branquinha, seu rosto parecia desenhado à mão, seus lábio deliciosos, seus cabelos castanhos claros cuidadosamente alinhados, seus olhos verdes que tinham o poder de penetrar na minha alma. 
Ele terminou de tocara nossa melodia, colocou o violão ao seu lado e me olhou fixamente. Minha única reação naquele momento foi soltar um sorriso, embora minha vontade fosse simplesmente correr em direção a ele. Mas ele se manteve na defensiva, não expressou nenhum tipo de sentimento naquele momento, além de uma mágoa no olhar.
–É sábado à noite, você não deveria estar com seu noivo?
–Deveria! Mas precisava ver como você estava. O Enzo me ligou preocupado, tentou falar com você o dia todo, e agora a pouco ele veio até aqui e tocou o interfone, porque você não o recebeu?
–Já sou bem grandinho para o Enzo estar preocupado comigo.
–Não é só o Enzo que está preocupado Rafael, eu também estou, meus pais, a Rebeca, a Maria, a Déb, enfim, todo mundo que se importa com você.
–Acho que eles não entenderam que eu quero ficar sozinho. –ele disse, se mostrando indiferente aos outros, e a mim também.
Balancei a cabeça sem conseguir negar minha frustração em vê-lo sendo tão frio  comigo.
–Tudo bem, irei deixá-lo sozinho.
Assim que me levantei, ele também se levantou e foi atrás de mim, tocando meu braço.
–Não Ana! Não quero que vá embora! Eu nunca mandaria você embora.
Senti nesse momento que toda sua frieza havia se dissipado. O abracei, e ele me retribuiu o abraço.
–Me desculpa por ontem? Fui um tremendo cretino, eu jamais quis prejudicar você, entendeu? –ele disse segurando meu rosto.
–Rafael, eu amo você. Amo tanto que chega a doer. Então por favor, ouça o que tenho para te falar, não posso ir embora amanhã sabendo que existe algum tipo de mágoa ou rancor entre nós, por favor!
Ele se afastou e sentou-se novamente, puxando-me ao lado dele.
–Então você vai mesmo?
Eu balancei a cabeça afirmando.
–Tenho que ir.
Era nítido da expressão de decepção em seu rosto.
–Mas, eu não podia ir sem falar com você. Sabe, Rafa, essa vida da gente é tão maluca, o destino é tão doido, que arrumou um jeito com que eu viesse aqui. –disse tomando fôlego e pensando nas palavras certas para dizer a ele naquele momento.
–Realmente, deveria estar com meu noivo que veio até aqui só para me ver, mas não. Estou aqui, e sabe por quê? Porque acima de tudo, você é a pessoa mais importante da minha vida. E eu não quero e não posso ver você nessa situação.
Senti minha voz trêmula.
 –Cheguei até a me arrepender de ter vindo para Canela, mas quer saber? Não me arrependo mais. Quando estou perto de você, todas as minhas dúvidas somem, pode passar o tempo que for, aconteça o que acontecer, que meu amor por você continua cada vez mais forte. E acredito que isso aconteça com você também.
Ele concordou, balançando a cabeça.
Suspirei.
–Vivi todos esses anos esperando por você, e se precisar espero mais um pouco, porque tenho certeza de uma coisa, que se o nosso destino for ficarmos juntos, pode acontecer o que for, pode passar o tempo que for, que ficaremos juntos.
Ele olhou para mim sem entender.
–Rafa, muita coisa aconteceu com a gente. Nos apaixonamos mesmo sendo criados como irmãos; seguimos vidas totalmente diferentes, nos encontramos depois de anos e descobrimos que nosso amor nunca deixou de existir. Agora, mesmo nos amando, temos que nos separar novamente. Então, isso significa que a nossa história ainda não chegou ao fim. Pode ser que essa gravidez aconteceu porque ainda não seja a hora de ficarmos juntos. Nós magoaríamos as pessoas que mais amamos. Acho que as coisas não acontecem na nossa vida por acaso.
As minhas lágrimas começaram a rolar. Ele as secou delicadamente. Beijou o topo da minha cabeça e me abraçou.
–Mas você acha que o destino realmente nos separaria para nos juntar novamente? Isso não tem sentindo Ana.
Olhei convicta para ele.
–Se for para eu ficar com você, se for esse meu destino, pode passar o tempo que for, que nós ficaremos juntos. Hoje por exemplo, não me imaginava vir até aqui em sua casa, sendo que o Léo está na casa dos meus pais esperando por mim. Entretanto, o destino deu um jeito e eu estou aqui.
Me sentia totalmente nervosa, sentia meu corpo estremecer só de estar perto dele.
–Pode ser egoísmo da minha parte, mas não estou preparada para dividir você com mais ninguém, preciso ter você por inteiro. E sei que uma gravidez não é brincadeira. E essa criança que está por vir, não tem culpa que os pais foram inconsequentes, não tem culpa de vocês não se amarem. Ela só precisa ser amada.
Rafael desviou o olhar, parecia pensativo.
–Então, o primeiro passo, é você encarar que errou e assumir o seu erro, doa a quem doer. Mesmo que você não ame e não se case com a Fernanda, mas o seu filho você tem que aceitar, não apenas assumir esse filho ou filha, mas aceitá-lo de coração, amá-lo. Assim como o seu pai fez por você, quando ele engravidou sua mãe; eles mal se conheciam, mas ele assumiu tanto a ela quanto a você e com todo amor do mundo. Tanto é que mesmo no final da vida dele, ele se preocupou tanto com você, que o deixou sob os cuidados das pessoas mais apropriadas, em que ele mais confiava para cuidar do filho dele. E essas duas pessoas também lhe aceitaram de coração e te amaram de uma maneira inexplicável. Então aceite e ame essa criança, faça isso por ela, faça isso pelo seu pai, faça por seus padrinhos, faça por você...
Ele me abraçou, e explodimos em uma emoção sem fim. Foi sem dúvida a conversa mais sincera e mais difícil de toda a minha vida.
Quando nos acalmamos, sequei as lágrimas dele e ele me beijou. Foi um beijo terno e apaixonado. Pude sentir seu corpo inteiro tenso ir relaxando em meus braços.  Ficamos algum tempo abraçados, porém, sem dizermos mais nem uma palavra. Acredito que ele estava digerindo tudo o que havia lhe dito. Depois de um certo tempo, o silêncio já estava sendo perturbador, eu queria saber o que ele estava pensando, mas não tive coragem de lhe perguntar. Alguns minutos depois precisei quebrar o silêncio.
–Agora vem aqui! –disse libertando-me dos braços dele e o puxando em direção à cozinha.
–Deixa cuidar de você, por favor! Você está com fome?
Rafa ficou parado em meio a sala me encarando. Senti meu corpo inteiro estremecer apenas mediante aos olhares dele.
–Não! Estava com a Déb mais cedo, acabei fazendo um lanche por lá. E seu humm... (Rafael fez uma pausa), o tal do Leonardo, não está bravo que você está aqui?
–O Léo queria vir comigo, mas eu disse que precisava falar com você sozinha. Ele não negaria um pedido meu na frente dos meus pais.
–Ele parece ser um cara legal, falei com ele hoje na fazenda.
Suspirei sentindo-me mal por enganar o Léo.
–Ele é sim, talvez legal demais para mim. Estou agindo feito uma...sei lá, uma vadia. Nunca fiz isso antes Rafael, eu nunca o traí o Leonardo, jamais. Mas aqui, as coisas fugiram do controle, não sei o que aconteceu.
–Ei! Nunca diga isso! Você nunca seria uma vadia. E nós sabemos o que aconteceu aqui Ana, foi algo que nunca terminou. E antes mesmo de você conhecê-lo, nós já tínhamos uma história.
–Eu sei, mas de todo modo, não é certo. Existem pessoas que não merecem ser tratadas dessa maneira. E o Léo é uma delas. Eu sei que errei, e errei muito, eu deveria ter sido honesta com ele assim que nós ... você sabe. Deveria ter ligado para ele e acabado com tudo.  
–Vem aqui, vamos beber alguma coisa. –ele falou enquanto segurava minha mão. 
Fomos até a cozinha, onde abri o armário e peguei dois copos.
–Eu amo a maneira de como você combina com esse lugar. –disse Rafael enquanto olhava cada movimento que eu fazia.
Fiquei totalmente sem jeito.
–E eu amo esse lugar. –disse com um nó na garganta, olhando para cada detalhe daquela casa linda, que ele havia feito pensando em mim.
Afastei as tristezas da minha cabeça para não começar a chorar novamente. E mudei de assunto.
–Você quer beber o quê? Água, um vinho, uísque, suco? –ele indagou.
–Água.
Rafael completou nossos copos com água e me encarou por um momento.
–Rafa, liga pro Enzo amanhã, ele está realmente preocupado.
–Eu vou! –disse Rafa enquanto corria o dedo na borda do copo.
Estava tão desnorteada, que não sabia mais o que dizer. Bebi um pouco da água e quando o olhei, ele me encarava.
Em seguida ele tomou-me em seus braços.
–Você não vai embora agora, não é?
Olhei para o relógio, já passava da meia noite.
Senti meus anjos tilintarem com seus sininhos em meus ouvidos.
–Rafa, preciso ir, você sabe.
–Fica só mais um pouco Ana, por favor?
Não conseguia reagir e ao mesmo tempo não conseguia discordar. Eu sabia o quão errado era eu ficar, mas em meu íntimo eu não queria ir embora.
–Tudo bem, só mais um pouco!
Ele sorriu, me pegou pela mão, e então subimos.
–Preciso tomar um banho, juro que não demoro.  –disse Rafael, levando-me até o quarto principal.
Concordei meneando a cabeça, em seguida ele inclinou-se dando-me um beijo na cabeça.
Assim que Rafael entrou no banheiro, fiquei parada de frente para o imenso painel de vidro, vendo toda aquela paisagem. Imaginei outra pessoa em breve ali em meu lugar. Senti um tremor no peito só de imaginar, mas mantive-me firme.
Podia ouvir o barulho do chuveiro, ficava imaginando-o se ensaboando, se enxaguando, e isso me deixava atordoada.
“Preciso ir embora, senão...” Pensei. Quando estava saindo, Rafael saiu do banheiro.
Assim que olhei para trás, ele estava apenas com uma cueca boxer, vindo em minha direção. Olhei todo aquele corpo, e me virei novamente ruborizada. Soltei um sorriso e balancei a cabeça.
–Isso já é tortura! –falei virando-me para a vidraça.
Ele estava todo perfumado, o cheiro de almíscar invadiu o quarto e meus poros.
–Vem aqui, fica só um pouquinho deitada aqui comigo. –Não vou fazer nada, prometo.  –Rafael falou me puxando para a cama junto dele.
Embora estivesse totalmente em dúvida e receosa, deitei-me ao lado dele. Rafael me encarou ficando poucos centímetros de distância. Seus dedos passeavam pela minha face, e em seguida ele tocou meus lábios, com os dedos.
–Você é tão linda! –ele disse olhando para mim com toda a sinceridade do mundo.
Fechei meus olhos e senti seus lábios tocarem os meus.  Acabei me perdendo totalmente nos beijos dele. Sem que eu tivesse tempo para pensar no certo ou errado, quando dei por mim, sua língua já passeava em toda minha pele nua e minhas costas se arqueando de tanto prazer. Rafael subiu em direção ao meu pescoço e meus ouvidos.
–Te amo Ana, como nunca amei e nunca vou amar ninguém. 
–Eu amo você mais do que tudo Rafael. –respondi sentindo um prazer imensurável.
Rafael penetrou em mim, vagarosamente, com todo o cuidado, sem pressa nenhuma, como se isso evitasse que as horas passassem, não querendo que aquele momento terminasse nunca.  Era o nosso amor de despedida.
Seus movimentos calmos e suaves começaram a entrar em um ritmo mais intenso. Ele me beijava e dizia que me amava repetidas vezes. As pressões foram aumentando, foram ficando mais rígidas até que nossos corpos estremeceram juntos. Foi a sensação de prazer mais intensa que alguém pudesse ter.
Assim que nossas respirações voltaram ao normal, ele inclinou-se sobre mim beijando-me suavemente.
–Amo você, Ana. Nunca se esqueça disso. –disse ele entre um beijo e outro.
Acordei, estávamos totalmente enroscados um no outro. Rafael me segurava como se eu fosse fugir. Dei um pulo na cama com medo de ter perdido a hora. Estiquei meu braço, peguei o celular dele ao lado da cama, eram quatro horas, uma hora e quinze minutos depois eu já deveria estar partindo e eu ainda nem havia voltado para a casa dos meus pais.
Cuidadosamente saí debaixo dele, sem que ele acordasse. Peguei minhas coisas fui ao banheiro, vesti-me; arrumei meus cabelos e sai na ponta dos pés. Rafael ainda estava na mesma posição. Fiquei olhando para ele, sentindo-me a pessoa mais idiota do mundo, em deixá-lo ali, sozinho sem mim. Fui até o escritório, peguei um papel e uma caneta e escrevi:

Rafael, faça por essa criança o que seu pai e meus pais fizeram por você. Dê todo seu amor a esse filho! Faça isso por mim.
Com amor
 Ana.


Coloquei o bilhete sob o celular dele juntamente com meu cachecol ao lado da cama.

4 comentários:

  1. Ai ai ai.... cada dia mais emocionante .... como a Ana é forteeee ...

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  2. Aaeeeeee!!! Que esses dois se entendam logo....
    Vamos esperar os próximos capítulos...

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. que amor lindo desses dois .............

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