quinta-feira, 16 de julho de 2015

Faça por mim Parte 02 - Por Érika Prevideli

 Faça por mim

Parte 02

3
De volta para casa

Dei uma olhada ao redor, não sabia quem iria me buscar. Foi então que o vi! Ele estava em pé bem a minha frente, com as mãos nos bolsos da calça cargo. Estava ainda mais bonito do que a última vez em que nos vimos, mais ou menos uns cinco anos atrás, parecia mais adulto, corpo bem definido, cabelos castanhos claros, bem aparados, e os olhos verdes dos quais eu nunca havia me esquecido.
Rafael me olhava fixamente, também parecia satisfeito em me ver.  Ele caminhou de encontro a mim, quando ficamos frente a frente joguei minhas coisas no chão e nos abraçamos por minutos.
Nesse momento percebi que os anos que passei fora fugindo dos meus próprios sentimentos, não serviram de nada! Só de sentir minha pele tocar na dele me deixava totalmente fora de mim.
–Que saudades! –ele sussurrou em meus ouvidos. 
–Eu também senti saudades, Rafa.
 Nos afastamos olhando-nos mais uma vez.
–Como você está diferente. Está linda!
Eu corei.
–Pois é Rafael, há quanto tempo! Faz o quê uns quatro anos?
–Cinco anos! –ele respondeu sem pensar.
Concordei, meneando a cabeça. Sabia que eram cinco anos, só queria testá-lo para ver se ele também havia contado o tempo.
–Vem aqui, eu te ajudo. –ele disse segurando minhas coisas.
Não sabia ainda como agir, me sentia sem o chão quando eu estava perto dele.
–E meu pai como está?
–Está melhor, mas ele é teimoso, se não pegarmos no pé dele, ele não fará nem o repouso que o médico pediu.
 –É, tem coisas que nunca mudam. Brinquei.
Rafael riu.
Assim que saímos do aeroporto, o vento gelado penetrou na minha blusa de malha. Encolhi-me toda. Ele parou, colocando as malas no chão, retirou sua jaqueta preta e envolvendo-me nela.
–Não Rafael! Não precisa está frio, você vai ficar sem blusa e eu com duas?
–Peguei essa jaqueta justamente no caso de você estar sem.
Meu coração ficou descompassado.
–Então obrigada! –disse dando-lhe um sorriso.
Ele desarmou o alarme da sua caminhonete Toyota Hilux preta e colocou minhas malas no banco traseiro, me ajudando a entrar, então seguimos para Canela.
Senti o perfume que estava em sua jaqueta, só aquele cheiro me deixava sem reação.
Estava me sentindo sem graça de estar ali com ele, dividindo um mesmo espaço tão pequeno, ambos sem assunto. Fiquei olhando a cidade pela janela. Ele estava com a mão no volante, a outra ligou o rádio do carro. Pude perceber ele me olhando pelo canto dos olhos.
Assim que virei ele disfarçou.
–Fiquei tão preocupada! Se acontecesse alguma coisa com meu pai, jamais me perdoaria. Me sinto uma filha péssima, sabia?
–Claro que não, você é uma filha ótima, eles morrem de orgulho por você ter vencido na vida com suas próprias pernas. Assim que o padrinho chamou por você, eu disse que ia te ligar. Ele ficou todo emocionado quando soube que você estava vindo.
Senti meus olhos ficarem inundado de lágrimas.
–Mas ele está bem mesmo? Vocês não estão me escondendo nada?
Rafael instantaneamente apertou minha mão.
–Só foi um susto Ana. Mas ele está bem, já está até em casa, só precisa repousar, tomar os medicamentos que o médico receitou e se cuidar.
Concordei e apertei com força a mão dele enquanto ele dirigia.
–Obrigada por ter sido tão rápido. Se não fosse você, com certeza a coisa se complicaria. E obrigada por cuidar deles esse tempo todo.
–Daria a minha vida por eles e por você Ana.
Olhamo-nos por um instante. O silêncio foi quebrado quando o celular do Rafael tocou.
–Oi madrinha. Já sim! Estamos chegando. –disse ele olhando para mim. –Sim, daqui a pouco estaremos aí, não se preocupe.
–Acho que sua mãe está mais ansiosa para te ver do que seu pai. –comentou Rafael sorrindo.
Seguimos o caminho de casa. Para tentar vencer a timidez, eu perguntei a ele sobre os meses que ele morou nos Estados Unidos quando ele foi estudar. Sobre a fábrica de móveis de madeira de demolição, sobre a fazenda.
Ele contou todo orgulhoso sobre seu trabalho, explicando como ele criava as peças, falando de alguns de seus grandes clientes. Eu só o escutava toda orgulhosa.
Rafael perguntou sobre São Paulo, sobre meus amigos, sobre a agência. Chegamos em Canela por volta das dezenove horas, a fazenda dos meus pais ficava cerca de vinte quilômetros depois.
Vendo toda aquela paisagem e aquelas flores, Rafael me perguntou.
–E aí sente falta daqui?
–Muito! Isso tudo aqui.... –disse apontando para fora do carro. –Parece um cenário de um filme, é perfeito. Acho que tinha me esquecido de como é lindo esse lugar. A vida é tão maluca, que depois de um certo tempo, eu acabei me acostumando a viver naquele lugar tão doido, com tanto trânsito, com pessoas de todos os lados do país, do mundo. Acostumei-me até com o céu cinza e sem cor. Aí chego aqui e me deparo com tudo tão lindo, tão perfeito e calmo.
–Então fica dessa vez? –ele disse com um olhar pidão.
Fiquei sem atitude, só balancei a cabeça em negação, soltando um sorriso sem graça.
O caminho de araucárias e hortênsias nos conduzia da entrada da fazenda, até a casa. Rafael estacionou a Hilux em frente a casa que parecia mais nova. Meu pai havia feito uma boa reforma no ano anterior. Era uma linda casa no estilo europeu, com quatro suítes no andar de cima. A casa ficava um nível acima do gramado enorme, onde o carro estava, havia uma escada que dava acesso à área que contornava toda a fachada da casa. Da área era possível ter uma vista privilegiada de toda a paisagem que a rodeava. Um jardim minuciosamente cuidado parecendo até um cartão postal.
Minha mãe nos viu chegar e correu para me abraçar.
–Minha filha, que saudades! Nem acredito que você está aqui! –ela disse me abraçando em seguida. –Foi tudo bem? Fiquei com medo de ter te preocupado demais, filha!
–Não mãe! Claro que foi tudo bem. E o papai? Estou doida para ir vê-lo.
–Vem filha! ele está no quarto repousando.
 Rafael não saiu do meu lado.  
Assim que cheguei ao quarto, meu pai estava sentado na cama, encostado na cabeceira. Estava com uma camiseta branca, e mantas cobrindo-o da cintura para baixo, parecia bastante abatido. Sempre foi um homem bem forte, estava visivelmente mais magro e com olheiras. Seus cabelos estavam bem mais brancos do que da última vez que eu o vi. Ele sorriu assim que me viu um sorriso tão verdadeiro que senti uma agulhada no peito.
–Oh, minha filha, você veio mesmo! –ele exclamou esticando o braço para me abraçar. –Como você está linda, Ana.
 Abraçamo-nos demoradamente.
–Claro que eu vim! Você quer matar a gente de susto é? –disse em sussurro em seu ouvido.
Olhei bem para ele, passando as mãos pelo seu rosto.
–Você vai até enjoar de mim pai. Irei ficar aqui alguns dias pegando no seu pé, cuidando de você como uma enfermeira rabugenta. Brinquei sorrindo.
–Nunca me enjoaria de ver você!
Rafael sentou-se na poltrona ao lado da cama, cruzando as pernas enquanto nos observava conversar. Minha mãe sentou-se na cama perto dos pés do papai, e eu sentei-me bem ao lado dele. Ficamos conversando por mais de uma hora. Mas meu pai estava dando sinais de que estava com sono, começou a bocejar várias vezes.
–Pai, o senhor precisa descansar.
–Esses remédios me deixam bêbado. –ele disse sorrindo.
–Então vou tomar alguns. –brincou Rafael.
Nós rimos.
–Filha, vamos lá, vou preparar algo pra vocês jantarem, você deve estar faminta.
 Olhei no relógio, era cerca de nove horas da noite. O abracei novamente, dei-lhe um beijo no rosto.
–Amanhã nos falamos mais.  Agora descanse um pouco. –disse, levantando-me da cama.
Rafael também se despediu dele, descendo logo em seguida.
–Mãe, enquanto você prepara o jantar, você se importa que eu guarde minhas coisas e tome um banho rapidinho.
–Claro que não, filha, é sua casa, faça o que quiser! Assim ganho uns minutos para esquentar o jantar que a Maria preparou.
Rafael me ajudou com minhas malas até meu quarto. Meu quarto parecia um quarto de boneca, com os móveis todos brancos, provençais, as paredes pintadas num tom de rosa bem claro e um papel de parede com flores cor de rosa, bem miudinhas. Coloquei as minhas coisas sobre a cama, e quando Rafael estava saindo inclinou-se no meu ouvido sussurrando.
–Seja bem-vinda!
Sorri.
–Obrigada.
Ele saiu do quarto fechando a porta atrás dele. Fiquei ali parada anestesiada. Tirei a jaqueta dele que eu estava usando, inalando o perfume que vinha dela.
“Isso não vai acabar bem. ” –pensei.
Do meu quarto, via toda a parte do jardim em frente a casa, parecia que eu estava numa suíte romance de algum hotel fazenda.
Maria sempre cuidadosa deixou tudo arrumado no meu banheiro. Toalhas, roupão, sabonete, xampus, creme para o corpo. Retirei meus produtos de beleza, higiene pessoal e as minhas maquiagens distribuindo-as sobre minha pia do banheiro.
Tomei um banho, coloquei uma calça legging, uma blusa de frio bem quentinha, sapatilhas e fui encontrar minha mãe na cozinha.
Rafael e minha mãe estavam conversando algo quando eu cheguei, ele a ajudava a colocar as coisas sobre a mesa. Quando me viu, ele me encarou e sorriu.
Tive uma enorme vontade de atacá-lo naquele momento. Aquele sorriso lindo estava me deixando zonza. Jantamos conversando sobre os futuros cuidados do papai, sobre a necessidade de ele dar uma desacelerada no trabalho.
Minha mãe parecia explodir de felicidade em me ver ali. Começamos a fazer planos para os meus dias de férias.
–Rafael quero conhecer sua loja e a fábrica hein!
–Claro! Quando quiser, pode ser amanhã mesmo, só me avisa que eu te levo.
–Falando nisso, amanhã seu pai tem médico, ele vai fazer alguns exames. –disse minha mãe.
–Vou junto mãe, quero conversar com o médico dele.
–Vamos sim filha.
–E amanhã preciso ir para fábrica, já faz duas tardes que eu não apareço, a Rebeca deve estar doida. Dia de pagamento, os funcionários devem estar no pé dela.
–Quem é a Rebeca? –perguntei disfarçando a preocupação de quem ela poderia ser.
–Ela é a gerente! Cuida da parte financeira da loja. –ele respondeu, colocando o prato ao lado, pois já havia terminado de comer.
–Ela é encantadora filha, você precisa conhecê-la.
–Ela é sim, e muito competente. –completou Rafael. –Aliás, todos eles são.
Senti ciúmes da tal Rebeca, sem ao menos conhecê-la.
–Com certeza filho, o Enzo também é um menino que vale ouro.
–Ele é sim.
–Quem é o Enzo? –perguntei perdida no assunto.
–O Enzo é meu braço direito, ele fica na fábrica. Eu penso e ele vai lá e faz.
Nós já havíamos terminado, ajudei minha mãe a tirar a mesa. Ela lavou a louça mesmo depois de eu ter insistido para lavar.
Assim que estava tudo pronto, estava secando minhas mãos, ela viu um brilho nos meus dedos, soltando um gritinho.
–O que é isso, filha? –disse ela segurando minha mão.
Corei. Suspirei fundo. Rafael estava perto e me olhou como se também estivesse curioso.
–O Léo me deu mãe! Foi na noite que vocês tentaram me ligar, estávamos indo para um jantar.
–Minha, filha, você está noiva? Que lindo?
Fiquei em silêncio. Rafael disfarçou sua irritação.  Foi para sala, ligou a televisão. Mas continuou de ouvidos antenados.
–Mas vocês marcaram a data?
–Não mãe! Se tivesse marcado você saberia.
Ela foi caminhando para sala segurando minha mão e falando.
–Como vai ser? Ele mora nos Estados Unidos! Você tem ideia de ir para lá, ou ele pensar em morar no Brasil?
Nem pensamos nisso ainda mãe. –disse dando de ombros.
Sentei-me numa poltrona, cruzando minhas pernas. Rafael olhava para a televisão. Minha mãe sentou-se ao meu lado.
–Você precisa trazê-lo aqui filha, quero conhecê-lo.
–Vocês o conhecerão. Talvez ele venha num final de semanas desses, é muito corrido para ele, mas quem sabe.
Ela suspirou.
–Seu irmão também parece estar de namorada nova.
Eu gelei, minha pulsação começou a acelerar. Rafael olhou para ela negando com a cabeça.
–De onde você tirou essa ideia?
–Ah, ouvi dizer que você está de namorinho com a filha do Paulo, ele é amigo do seu pai, é um dos empresários mais respeitosos da região. E é fazendeiro também. É Fernanda o nome dela, não é Rafa?
Ele olhou para minha mãe e em seguida olhou para mim.
–Que legal Rafa! –falei com a voz trêmula.
–Não tem nada a ver. Eu saí com a menina algumas vezes, mas nem falo mais com ela. A menina é uma doida, igual ao irmão dela.
–Ela eu não sei, mas quanto ao irmão dela, é verdade.  Seu pai me disse o que Bruno não é lá flor que se cheira, então vê bem hein!  
–Madrinha esquece isso! Não tem nada a ver. –disse Rafael olhando para minha mãe e em seguida para televisão. 
Senti que ele ficou envergonhado. Minha mãe fez careta para mim, por ter tocado nesse assunto. Meu iphone vibrou, era a Alessandra.
–Oi Alessandra. –disse levantando e saindo da sala seguindo para a varanda.
–E aí sumida, como estão as coisas? Seu pai está bem?
–Está sim Lê, cheguei já faz um tempinho.
–E o gatão, você o viu?
–E como!
–E ele como está te tratando?
Quando eu ia começar a falar minha mãe juntou-se a mim.
–Amanhã eu te ligo, e o Théo ligou? Deu sinal de vida?
–Ana me fala! Me manda mensagem, estou curiosa.
–Tá depois a gente se fala, beijos.
–Ana, me liga, senão...
Desliguei o telefone, sentei no colo da minha mãe, e ficamos ali abraçadinhas sentindo o frio gelar minha pele.
Instantes depois ela se despediu de mim, me beijando, pois ia se deitar.
–Filha, vá descansar também, seu dia foi bem corrido.
–Eu vou mãe! Irei ficar aqui mais um pouquinho e já vou.
Ela sorriu me deu mais um beijo e entrou em seguida.


4
Sinto sua falta


Fiquei sentada na área externa, embriagada com aquele ar puro, o cheiro de mato e flores, o vento tocando meu rosto. Fechei os olhos e perguntei a mim mesma quem em sã consciência trocaria um paraíso daquele por um apartamento minúsculo em São Paulo.
Ouvi um barulho, olhei para trás e vi o Rafael parado na porta.
Fiz sinal para ele sentar-se ao meu lado, no banco branco de madeira.  Rafael caminhou e sentou-se ao meu lado.
–Você pareceu irritado quando a mamãe falou sobre sua namorada.
Ele riu, balançando a cabeça.
–Que namorada nada! Eu e a Fernanda chegamos a sair algumas vezes, poucas vezes, por sinal. Mas fiquei sabendo que ela é da pá virada. Ela fuma e bebe. E eu descobri que ela é usuária de drogas, então caí fora.
–É bem complicado envolver-se com alguém assim. –eu argumentei.
Ficamos ali parados, escutando o vento.
–É tão lindo tudo isso aqui, tudo tão tranquilo, parece mágico.
–Ana, faz tanto tempo que a gente não se vê, não se fala; éramos inseparáveis você se lembra?
Fiz que sim com a cabeça e ri.
–Você judiava tanto de mim, e eu lá, sempre atrás, sempre te atormentando. –eu disse brincando.
 Ele olhou para mim fazendo um suspense.
–Você nunca me atormentou. Você nem imagina o quanto foi difícil me acostumar sem você aqui. Eu morri mil vezes. –disse Rafael parecendo pensativo.
Não disse nada, apenas olhei para o escuro a minha frente.
Ele passou a mão pelos cabelos.
–A primeira vez que você foi embora, quando você fez aquele intercâmbio, acho que cheguei a ficar doente. Eu não conseguia entender; você só tinha dezesseis anos, e morando tão longe. Achei que você nunca mais voltaria. Então você voltou tão diferente, tão dona de si, mas voltou. Porém, mesmo tão mudada, ainda tinha aquele jeitinho de menininha. Acho que só então voltei a viver por dentro.
Ele riu mais uma vez.
–Depois você foi fazer faculdade em Porto Alegre, vinha aos finais de semana, e eu contava os dias para te ver, e quando você chegava era como se alguém acendesse uma luz em um lugar escuro. Tudo ficava tão melhor!
–Mas você não falava mais comigo. Eu achava que você me odiava.
Ele fez que não com a cabeça.
–Nunca te odiaria Ana. Você me enchia de vida quando estava por perto, eu sei que errei, que te machuquei quando simplesmente me afastei de você, mas não me achava merecedor do seu amor. Me sentia traindo os seus pais.
 Apertei as mãos dele.
–Entendo Rafael. Quer dizer, agora eu entendo! Sofri muito na época, doía demais, mas entendi seus motivos.
Ele encostou a cabeça na parede parecendo voltar no tempo.
–Com o passar do tempo, você começou a vir cada vez menos e menos e nos tornamos cada vez mais estranhos um para o outro.
–É verdade!
–E quando você terminou a faculdade, até pensei que sei lá, você voltasse a morar aqui. Mas não! Em seguida já arrumou emprego e mergulhou de cabeça. E então não voltou mais, esperava você vir de repente de surpresa, mas nunca aconteceu. 
Ele me olhou com tristeza nesse momento.
–Me sinto culpado sabia? Sei lá, parece que quis roubar seu lugar, mas nunca foi isso Ana! Sempre fiquei aqui porque sempre esperei você voltar. Às vezes me pegava pensando: eu aqui desfrutando de tudo isso e você lá sozinha sabe-se lá fazendo o quê. Então eu me sinto muito mal por isso até hoje. E no fundo eu sei que você se afastou tanto assim de todos nós, justamente por minha causa, por eu ter sido tão moleque e de não ter exposto as minhas razões a você.
Em partes ele tinha razão.
–Olha Rafa, eu não sei o que te dizer! Em partes você tem razão, acho que eu acabei me isolando por medo, mas eu fui infantil também, eu deveria saber que nunca daria certo, você nunca me prometeu nada, e eu sei lá, imaginava que nossa história tornar-se-ia um conto de fadas. Mas nunca foi assim e por sorte, eu acordei.
O rosto dele caiu, percebi que ele ficou decepcionado.
–Depois, eu me acostumei. Sempre falava de vir para cá, mas aí surgiam outros planos e eu fui deixando, deixando. O dia a dia foi me consumindo e quando vi, já tinha passado todo esse tempo.
Rafael não falou nada.
Meu celular tocou, olhei para ver quem era e vi que era o Léo. Fiquei sem reação, mas eu tinha que atender.
–Oi Léo.
–Oi meu amor, chegou bem?
–Cheguei sim, está tudo bem. Meu pai está melhor, ele já dormiu, mas está bem.
–Que bom minha linda, e aí como é estar de volta?
 Eu sorri.
–Acabei de falar sobre isso, é tudo tão lindo, não dá vontade de sair daqui nunca mais.
Nisso Rafael levantou-se, indo para dentro de casa.
–Poxa Ana, achei que você fosse falar que estava doida de saudades. E você me diz que não quer voltar nunca mais.
–Claro que estou seu bobo. É que fiquei tanto tempo sem voltar para cá, que havia me esquecido de como é bom estar em casa.
–Eu sei amor! Estou brincando. Aproveita bastante.
–E está tudo bem por aí?
–Está sim, estou no seu apartamento, mas amanhã vou para reunião e de lá vou para casa dos meus pais, eles estarão por aqui nesse final de semana, então vou aproveitar para vê-los, na segunda-feira vou pra Seattle. Mas eu te ligo. E minha linda, amo você!
–Também amo você Léo. Depois nos falamos. Beijos.
Assim que nos despedimos, encerramos a ligação.
Fiquei pensativa. Será que eu o amava? Ou eu estava apenas acostumada com a presença dele. Porque quando estava perto do Rafael, me faltava o ar, sentia frio na barriga, minhas pernas ficavam bambas; e com o Léo era diferente.
Rafael voltou entregando-me duas canecas de chocolate quente, eu sorri para ele feito criança, pois me lembrei que ele costumava me mimar assim quando éramos adolescentes.
Depois Rafael entrou novamente, saindo em seguida com uma manta. Colocou uma mesinha para esticarmos as pernas, nos cobriu, e eu entreguei uma xícara para ele.
Assim que tomei um gole do chocolate quente, senti aquele chocolate meio amargo aquecendo-me por dentro, era como se fosse um paraíso dentro de mim. Soltei um gemido em agradecimento.
–Perfeito!
–Seu noivo já está sentindo sua falta?
–É, parece que sim. Respondi acanhada. Mas nos vemos tão pouco que estamos acostumados com a distância.
Ele fez uma careta.
–Acredita que eu me esqueci de ligar para ele?
–É, isso é mau sinal. Comentou ele sorrindo.
 Sorri ficando sem graça.
Ficamos ali por mais um tempo, mas o frio foi ficando mais severo e tivemos que entrar.
Entramos em silêncio, levamos as xícaras para a cozinha e fomos juntos para o andar de cima. Nos despedimos assim que chegamos na porta do meu quarto. Nos atrapalhamos todo na hora de nos despedirmos, o que era para ser um beijo no rosto, acabou pegando no canto dos meus lábios. Nesse momento eu realmente desejei que ele tivesse errado mais um pouco.
Fui para o meu quarto sentindo-me meio desnorteada. Era incrível o poder que ele exercia sobre mim, fiquei deitada em minha cama, olhando para o teto pensando em tudo o que tínhamos conversado.
Peguei meu iphone e mandei uma mensagem de texto para Alessandra.

-Só faz algumas horas que estou perto dele e sinto que ele é com quem eu quero estar!
  Ana

Sério? Aí que tudo! Queria estar aí para te ajudar. Quero detalhes de tudo, você tem que prometer!!!
-Acho que o playboyzinho vai dançar, hahaha.
Amo você.

Assim que li, escrevi outra mensagem.

Prometo te manter informada.
Ah, e não fala assim do Léo.
Amo você também.
Ana

Você sabe que nos romances eu prefiro os casos mais impossíveis, e esse entre você e o Rafael me parece ideal. E olha que eu nem o conheço pessoalmente.
Boa Sorte.
Detalhes de tudo. Não esqueça!
Amo você.

Eu ri, tinha uma amiga lunática demais para discutir com ela. Coloquei um pijama e em seguida fui dormir.


















8 comentários: