terça-feira, 28 de julho de 2015

Faça por mim. Parte 14 por Érika prevideli

Faça por mim


Parte 14


23
O grande triste dia


Naquela manhã de sábado, acordei sentindo-me angustiada. Também pudera, era o dia em que o amor da minha vida estaria se casando. Eu e o Léo saímos logo cedo para correr. Na volta Léo quis parar em uma padaria para tomar um café da manhã, onde eu passei a maior parte do tempo calada.
Após o almoço, fui à um salão de beleza. Queria sair pronta de São Paulo, deixando apenas o vestido para colocar quando chegasse em Canela, já que chegaríamos uma hora antes do casamento. Léo tinha planejado tudo, fretou um avião de pequeno porte, reservou hotel em Canela, e um carro de aluguel. Minha mãe havia insistido dias antes para que ficássemos na fazenda, mas eu achei melhor não. Já era tortura demais eu estar presente na hora da cerimonia, e acompanhar de perto os preparativos então, seria o fim para mim.
Léo ficou me esperando em meu apartamento, acertando os últimos detalhes do voo e descansando. Quando cheguei do salão, ele estava pronto e deitado no sofá.
—Uau, você está linda! Mas estamos atrasados Ana, já são quase cinco horas.
—Eu sei Léo, estava uma correria aquele lugar. Só um minuto e já saímos. — disse enquanto pegava minha mala e o cabide com meu vestido, e seguimos para o aeroporto. Minha cara estava mais para um funeral do que para um casamento, de tanta tristeza que estava sentindo. Meu celular vibrou, era a Alessandra.

Amiga, queria estar ao seu lado nesse momento. Imagino que não deve estar sendo fácil.  Mas estarei em pensamento com certeza.
Amo você.
Lê.

Senti uma vontade gigantesca de chorar, mas me segurei. Léo olhou para mim e percebeu que eu não estava bem.
—Ana, aconteceu alguma coisa? Estou te achando tensa.
Suspirei agoniada e disfarcei.
—Não Léo, acho que é nervosismo. Sabe como é, casamentos deixam as mulheres mais sentimentais.
—Oh, meu amor, não fica assim! —disse Léo plantando um sorriso em meus lábios.
Sorri para ele, e em seguida continuei a olhar pela janela, com meus pensamentos perdidos entre as nuvens.
Assim que pousamos em Canela, um carro de aluguel já esperava por nós. Fomos direto ao hotel. Estava muito frio.  Naquela época era comum a temperatura ficar abaixo de zero. Por isso o casamento seria realizado em um salão de festa na cidade mesmo. Faltava um pouco menos de uma hora para a cerimônia. Léo começou a se arrumar, enquanto eu retocava minha maquiagem. Peguei meu celular e vi que havia duas mensagens, uma do Rafael e outra da Rebeca; e cinco ligações perdidas da minha mãe.
Apertei para ler a mensagem do Rafael.
Ana, você não vem?
Esperei por você o dia todo.
Rafael
Li a segunda mensagem.
Eu te entendo, caso você não venha.
Mas é que eu que eu precisava ver você.
Saiba que eu te amo
R.
Em seguida li a mensagem da Rebeca.
Ana, cadê você? O Rafael já me ligou umas cinco vezes para saber se eu tinha notícias sua. Você está bem?
Beijos Rê
Não respondi nenhuma das mensagens e também não liguei para minha mãe. Léo apareceu no quarto, estava lindo de tirar o fôlego. Usava terno preto com suaves riscas de giz, camisa branca e gravata champanhe, parecia um garoto propaganda da Armani.  Eu estava com um vestido longo lindo da marca Alfreda, que era todo em renda italiana, no champanhe e dourado, com costas abertas e detalhe bordado na frente. Meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo baixo, moderno.
—Meu Deus Ana, você está de tirar o fôlego, fiquei excitado só de te olhar. —disse Léo, envolvendo-se em minha cintura.
—Credo, Léo! —respondi dando um tapinha em seu ombro.
Ele revirou os olhos.
—É sério! Você está perfeita, está linda! Com certeza estarei acompanhado da mulher mais linda desse casamento.
Sorri para ele, sentindo-me sem graça. Dei-lhe um selinho em seus lábios, e em seguida seguimos para cerimônia. Meu estômago estava dando nós, parecia haver um buraco negro gélido dentro de mim. Chegamos exatamente em cima do horário. Assim que o manobrista levou nosso carro, nós seguimos para a entrada do salão onde seria realizada a cerimônia. Já que não seria uma cerimônia religiosa, daquelas realizadas em igrejas, com padres e coisa e tal.
Os convidados já haviam entrado. De longe, vi uma porta se abrindo, e o noivo adentrando no salão que estava aparentemente lindíssimo e lotado de convidados. Tocava uma música clássica enquanto Rafael entrava. E era obvio que Rafael ainda não sabia que eu havia chegado. Pude ver que a imensa porta se fechou assim que ele passou.
Léo apertou minha mão.
—Está pronta?
—Sim! —respondi mentindo, afinal, nunca estaria pronta para aquela situação.
 Seguimos para uma fila, que provavelmente seria dos padrinhos.
—Vocês são padrinhos ou convidados? —perguntou-nos uma mulher toda de preto, que parecia ser uma cerimonialista.
—Padrinhos. —respondeu Léo todo orgulhoso.
—Vocês estão atrasados!  —ela falou enquanto nos apontava a fila dos padrinhos.
—Ela é o que? Cerimonialista ou a Malévola? —perguntou Léo me cutucando.
Léo nesse momento, conseguiu tirar um sorriso dos meus lábios.
—Hei, Ana!
 Ouvi uma voz feminina vindo da fila. Era a Rebeca, linda, em um vestido rodado azul petróleo sobre um tule nude. Ela estava com o Enzo, que ficou sem graça ao me ver com o Léo.
—Ana, filha!
Ouvi minha mãe dando um gritinho em seguida. A cerimonialista fez sinal para ficarem quietos. Minha mãe veio em minha direção, meu pai e Rebeca e Enzo fizeram o mesmo. Todos os outros da fila ficaram olhando, com cara feia.
—Filha! Eu estava aflita, achei que vocês não viessem mais! —ela disse abraçando-me.
—Desculpa! A culpa foi toda minha, Clara. Tive uma reunião na hora do almoço e fez com que nos atrasássemos pra sair de São Paulo. —falou Léo protegendo-me.
Minha mãe assentiu com a cabeça. Meu pai também me abraçou.
—Você está linda, filha.
Sorri sentindo-me totalmente nervosa e apreensiva.
—Obrigada, pai, o Senhor está um gato.
Ele corou. Meus pais cumprimentaram Léo. Foi quando Rebeca me puxou para um abraço.
—Você quer matar a gente de preocupação? Aposto que você está mais linda que a noiva! Ela sussurrou em meu ouvido. Que saudades de você, Ana.
—Oi Rebeca, tudo bem? Eu ia te ligar, mas vi sua ligação assim que cheguei aqui, me desculpa.
—Claro que sim Ana.
—Esse é o Leonardo, meu noivo. —disse apresentando Léo para Rebeca e Enzo.
—Eles são meus amigos Léo. A Rebeca é uma amiga querida. —disse soltando um sorriso para Rebeca.
—É sempre um prazer conhecer os amigos da Ana. —disse Léo sendo todo amável.
—Vocês querem ir para fila, por favor. —disse a cerimonialista megera vindo em nossa direção.
A fila era composta pelos pais dos noivos e dois casais de padrinhos de cada lado. E entraria um casal por vez. Eu e o Léo ficamos por último.
A grande porta se abriu.  Um som de piano começou a tocar A Thousand Years, de Christina Perri. E cada casal foi entrando, um de cada vez, começando pelos pais da noiva. Como éramos os últimos, quem estava dentro do salão não podia nos ver.
Começamos a entrar, vi que Rafael ficou desconcertado. Imaginei que ele esperava que eu não aparecesse mais. Percebi de longe seu nervosismo, ele abria a mão e a fechava.
Assim que fomos nos aproximando eu abri um sorriso para ele, sentia-me zonza, parecia que eu ia cair, meus olhos não saiam dos olhos dele. Léo comentou alguma coisa, da qual não conseguia ouvir, era como se eu estivesse flutuando.
Ficamos entre meus pais, Rebeca e Enzo. Rafael não tinha reação, parecia que estava congelado. Alguém anunciou que a noiva estava chegando.
Ele olhou para porta, em seguida para mim, e para porta novamente. Eu comecei a evitar de olhar na direção dele. Olhava para os convidados, para os padrinhos da Fernanda. Mas quando meus olhos passavam por Rafael e eu o via me olhando, sentia minhas pernas estremecerem.
—Nossa seu irmão parece nervoso! —disse Léo.
Só concordei com a cabeça.
—Você está bem? Sua mão está gelada.
—Estou sim. Respondi soltando um risinho amarelo.
O pianista começou a tocar One do U2. Precisava lembrar-me de riscar essa música da minha vida, pois com certeza me lembraria daquele momento terrível para sempre.
Léo, percebeu que eu estava nervosa, e colocou a mão por trás da minha cintura, fazendo movimentos circulares nas minhas costas.
A noiva estava, hum, estava bonita! Tudo bem, estava linda! Usava um vestido de renda branco, com mangas longas, decote em v, com um véu imenso. Rafael a olhou, assim como todos os outros convidados, ele permaneceu sério sem desviar o olhar, enquanto ela caminhava na direção dele. Assim que eles se encontraram, ele selou os lábios dela.
Senti uma facada em meu coração. Vi naquele momento, todos os meus sonhos, desde que era criança, se esvaírem. Me senti a pessoa mais infeliz na face da Terra. Fechei meus olhos, tentando por pelo menos algum momento, fingi que eu não estava presente, naquele lugar.
 Os dois se viraram e o juiz de paz começou o blá, blá, blá. Casaram-se em comunhão parcial de bens. Depois, do sim, cada casal que saía cumprimentava os noivos, até chegar a nossa vez. Léo abraçou Fernanda e eu timidamente abracei o Rafael, que me retribuiu com um abraço forte. Senti o seu cheiro de perfume almíscar e isso fez com que meu corpo inteiro ficasse abalado enquanto nós nos abraçávamos.
—Achei que você não viesse mais! Estava aflito. —sussurrou ele em meu ouvido.
—Eu disse que não perderia ver você de terno e gravata por nada desse mundo. —respondi, tentando esconder meu nervosismo atrás de um sorriso forçado.
Nesse momento achei que fosse desmaiar. Ele segurou-me um pouquinho mais e nossos olhares estavam compenetrados, entretanto, Léo já estava parado atrás de nós, com um sorriso de garoto propaganda de creme dental. Eles se abraçaram e eu cumprimentei a Fernanda.
—Parabéns Fernanda, você está linda.
—Ana, obrigada. —disse ela, com um sorriso de orelha a orelha.
Saímos de lá e a cerimonialista megera nos levou em nossa mesa, enquanto os outros convidados parabenizavam os noivos.
Sentamos ao lado dos meus pais, da Rebeca e do Enzo, Maria e Tomas. Cumprimentei alguns parentes distantes, amigos de infância e amigos da loja do Rafael, em seguida sentei-me com o Léo, que estava se enturmando com o Enzo, onde ficaram conversando parte da festa. Algum tempo depois, Rebeca trocou de lugar com o Léo e sentou-se ao meu lado.
—E aí como você está? —ela me perguntou discretamente.
—Sobrevivi! —respondi com meio sorriso.
—Ana, eu imagino o quão difícil está sendo para você.
Eu a encarei por um momento. Mas senti que minhas lágrimas começaram a inundar meus olhos. Disfarcei, tomei um pouco de champanhe e suspirei fundo.
—Têm sido dias difíceis, mas vai passar, tenho certeza.
Ela concordou. Eu e Rebeca colocamos o assunto em dia, sempre muito elegantemente, mas sem tocar no nome do Rafael. Ela me deixou a par sobre o namoro dela com o Enzo, a relação amigável dele com o Arthur, o modo como a mãe dela estava aceitando o Enzo melhor do que ela imaginava.
Depois, sentei-me ao lado de Maria, dando-lhe a maior atenção possível, pois ela estava sentindo-se deslocada, e isso fez com que ela se sentisse mais à vontade. Tomas, meu pai, Enzo e Léo estavam todos enturmados e falando de um único assunto: pescaria.
Rafael aproximou-se da nossa mesa, havia um lugar ao lado do meu pai, e ele sentou-se, ele me olhou, mas eu desviei o olhar prestando a atenção na conversa do Enzo e do Léo, que estavam planejando uma pescaria em alto mar, na qual eles convidaram meu pai e Tomas que também toparam na hora. Quando convidaram Rafael, ele apenas sorriu, mas desviou o assunto e ficou conversando algo com meu pai, sobre o qual não entendi o que era. Nisso Rafael levantou-se e parou perto de mim, Léo levantou-se no mesmo instante para parabenizá-lo pela festa e pelo casamento. Continuei imóvel sem olhar para ele. Minha mãe percebeu meu nervosismo, e segurou minha mão por debaixo da mesa. Enzo e Tomas fizeram assim como Léo, levantaram-se para parabenizar Rafael, que sentou-se ao lado do meu pai novamente. Foi quando Fernanda apareceu em nossa mesa.
—Rafael procurei por você por toda parte. Vem! Vamos fazer mais algumas fotos.
Fernanda nem se quer olhou para as pessoas que estava em nossa mesa. Era como se fossemos todos invisíveis.
—Fernanda, acabei de me sentar. Daqui a pouco eu vou. —ele disse.
—Daqui a pouco nada! Vem, vamos! —disse ela puxando-o pelo braço.
Ele olhou sério para ela.
—Daqui a pouco! Por favor Fernanda!
Fernanda fez uma careta e saiu pisando duro.
Eu e Rebeca nos entreolhamos e um clima de constrangedor pairou sobre nossa mesa. Rafael conversava com meu pai, e olhava para mim o tempo todo, eu não tinha mais para onde olhar, quando de repente nossos olhares se cruzaram, ficamos nos entreolhando por alguns segundos, e nesse momento meu pai propôs um brinde ao noivo. Todos os convidados da nossa mesa levantaram as taças com champanhe, e eu acabei fazendo o mesmo. Os olhos de Rafael queimavam sobre mim, mas eu disfarcei o quanto pude.
Um pouco mais tarde, a cerimonialista megera foi em nossa mesa pedir que Rafael fosse tirar algumas fotos com a Fernanda, e Rafael relutantemente atendeu ao pedido dela.
O jantar foi servido, e eu, minha mãe, Rebeca e Maria ficamos o tempo todo conversando, tomando champanhe e dando risadas, aliás, elas estavam empenhadas em fazer com que eu me sentisse melhor, mesmo eu disfarçando o máximo possível.
Déb passou por mim, parando em minha mesa para me cumprimentar. Eu me levantei no mesmo instante e nós nos abraçamos.
—Minha nossa, como você está linda Ana! Senti sua falta garota. Como você está? —Déb perguntou-me olhando em meus olhos.
Sorri consternada.
—Estou bem, Déb. —disse em meio a um suspiro.
Déb olhou para mim como se estivesse lendo o meu olhar.
—Eu não tinha intenção de vir ao esse casamento, Ana. Não tenho afinidade nenhuma com essa garota. Só vim em consideração ao meu irmão de coração, que é o Rafael. Você sabe que eu amo aquela cara, e tenho por ele uma admiração imensa, então é somente por ele que estou aqui. E quando vejo ele olhar para você da maneira que ele está olhando desde que você entrou naquela igreja, tenho vontade de, sei lá, dizer alto para todo mundo que é você quem ele ama. Mas infelizmente não posso me meter nesse assunto de vocês dois. —ela disse quase em sussurro.
—Déb, aconteceu tanta coisa desde que eu voltei para São Paulo, que você não faz ideia do quanto sofri. Mas fazer o quê! São coisas da vida. Era para ser assim.
—Ana, tudo tem seu tempo. Eu prefiro pensar assim.
Concordei em silêncio. E de longe vi o Rafael conversando com alguns convidados, olhando em nossa direção.
—É sobre isso que eu digo. —ela disse olhando para ele. —Ele não tirou os olhos de você. Será possível que só eu percebi?
Fiquei ainda mais sem graça.
Abracei Déb novamente, segurando-me para não chorar. Foi quando eu vi Léo nos olhando intrigado. Fiz sinal para que ele se levantasse e ele o fez, no mesmo instante.
—Essa é a Déb, minha amiga. Ela tem o melhor pub que eu já fui em minha vida.
Déb sorriu orgulhosa.
—Déb, esse é o Leonardo, meu noivo.
Ela soltou um sorriso amarelo, contudo, o cumprimentou.
Algum tempo depois, o DJ anunciou que a noiva ia jogar o buquê, nesse momento Rafael vinha voltando para mesa, com uma taça de vinho branco, ele parou ao lado do meu pai, que se levantou para lhe dizer algo.
Quando todas as “solteiras e encalhadas, ” como disse o DJ, foram correndo pegar o buquê, meu pai insistiu para que eu e a Rebeca também fôssemos, Enzo começou a dar risada, e Léo assim como meu pai também começou a me pressionar.
—Está faltando mais alguém? —gritou o DJ no microfone.
—Falta a Ana! —gritou meu pai.
Queria me enfiar embaixo da mesa nessa hora. Todos em volta olharam para nós.  Puxei a Rebeca para que ela fosse comigo. Senti que Rafael me acompanhou com os olhos.
Ficamos bem mais para trás do que as outras meninas. A noiva fazia a contagem regressiva enquanto a Rebeca começou a me falar.
—Ana, o Rafael não tirou os olhos de você! Toda hora que eu olho para ele, eu o vejo te encarando. Não sei como seu noivo não percebeu.
—Eu percebi! —respondi.
—O Enzo também percebeu. Acho que todo mundo percebeu. —continuou ela.
 Naquele momento em que aproveitávamos para conversarmos a sós, senti algo fofo bater contra meu peito, e uma porção de mulheres me empurrando. Coloquei a mão e por azar era o buquê. Isso porque eu não queria nem ao menos me levantar, quanto mais ser a atração do buquê da noiva.
Todo mundo começou a bater palma. Então o Léo caminhou até mim com um sorriso gigante e fez sinal para o DJ que colocou a música One do U2. Ele segurou em minha cintura, e começamos a dançar. A festa inteira ficou nos observando, enquanto dançávamos juntinhos; vi que Rafael também olhava, mas não tinha o sorriso no rosto como as outras pessoas.
Léo disse algumas besteiras em meu ouvido me fazendo rir. Então ele olhou no fundo dos meus olhos.
—Você aceita se casar comigo, Ana Holpe?
Não sabia o que responder. Então olhei para o lado e vi a Fernanda ao lado do Rafael, ela parecia não se divertir por eu estar chamando a atenção dos convidados dela.
Olhei novamente para o Léo que aguardava minha resposta.
—Sim. —respondi olhando nos olhos azuis de Léo.
Léo me abraçou e me beijou em meio a festa. Todo mundo começou a bater palmas. Então ele parou de me beijar e segurou meu rosto entre as suas mãos.
—Eu amo você Ana!
 A música acabou e outros casais invadiram a pista para dançar assim que a outra música começou. Léo pegou em minha mão e voltamos sorrindo para mesa.
—Cacete! Até me esqueci de que o seu pai estava aqui. —disse Léo sem graça.
—Não se preocupe, ele não vai falar nada. —falei apertando a mão dele.
 Fiquei grata ao Léo, que por alguns minutos me fez esquecer que eu estava na festa de casamento do Rafael.
Quando nos aproximamos da nossa mesa, meus pais, Enzo e Rebeca, Maria e Tomas, entre outros convidados que estavam ao redor começaram a bater palmas. Léo se dirigiu até meu pai, que estava ao lado do Rafael e da Fernanda.
—Sr. Fernando, já que estamos no clima, o senhor me concede a mão da Ana em casamento?
Meu pai olhou para mim e voltou a olhar para ele.
—É sério?
—Sim, claro que é! E ela aceitou. Mas eu queria a permissão do senhor.
Minha mãe ficou toda sorridente, Enzo e Rebeca ficaram tão sem graças quanto eu. Rafael franziu o cenho, esperando a resposta do meu pai.
—Faria muito gosto desse casamento, meu filho.
Léo o abraçou em agradecimento. Rafael olhou-me seriamente e saiu deixando a Fernanda para traz.
Corei.
As pessoas começaram a me parabenizar, mas queria sair correndo dali, naquele momento, Fernanda parou em minha frente.
Parabéns Ana, espero que o seu noivo seja um pouco mais agradável do que o meu.
Eu olhei para ela sem saber o que dizer e ela saiu em seguida. Parando na mesa de algumas amigas dela. Rebeca olhou para Enzo, que olhou para mim sem jeito, passando a mão nos cabelos.
Nos sentamos novamente e um bom tempo se passou, sem que eu visse sinal do Rafael. Leonardo estava tão enturmado com meu pai e com o Enzo, que era como se eles se conhecessem há anos. Quase no final da festa, Rebeca me chamou para acompanhá-la até o banheiro.  
—Ana, o que foi aquilo? Eu diria que foi lindo o que o seu noivo fez, mas você viu a reação do Rafael? Ele ficou possesso.
—Rebeca, estou nervosa até agora. Esse casamento todo está sendo uma prova de fogo para mim. Preciso e quero ir embora urgente, não aguento mais.
—Tenho que concordar com você. Se está um clima tenso pra nós que estamos só observando do lado de fora, eu imagino para você e para o Rafael como deve estar sendo.
Concordei em silêncio. Então algumas garotas chegaram e começaram a conversar com a Rebeca. Retoquei minha maquiagem, e fiz sinal para a Rebeca dizendo que a esperaria do lado de fora do banheiro.
Havia uma sacada que dava para um jardim imenso, uma porta de correr enorme estava aberta. Fiquei na sacada esperando por Rebeca. Deixei o ar gelado tomar conta de mim, fechei os olhos, inalando o ar puro das montanhas.
—Então você vai se casar? —disse uma voz masculina.
Abri os olhos e era o Rafael, parado ao meu lado, com as mãos dentro dos bolsos da calça social. A essa altura ele já estava sem o terno e sem a gravata, só de camisa dobrada na altura dos cotovelos.
—Parece que sim. —respondi sem encará-lo.
—Parabéns! Sua festa de casamento está linda, por sinal.
Ele ficou quieto.
—Essa festa não é minha, não participei de nada, aliás, minha vontade era de nem estar aqui. —ele disse encostando a cabeça na porta.
Fiquei quieta, olhei para trás e vi que Rebeca nos viu e fez um sinal dizendo que ficaria por perto. Olhei para o Rafael e ele olhava fixamente para o nada, então ele olhou para mim, seu olhar parecia perdido e triste.
—Você está linda Ana.
Sorri consternada.
—E você também Rafael. Porém, está casado.
Rafael olhou para a frente, balançando a cabeça em negação.
—Estou me perguntando até agora, o porquê   fiz isso com a minha vida. Sabe quando você faz uma coisa, achando que era o certo, mas se arrepende no segundo seguinte. É assim que eu me sinto. 
—Quer saber de uma coisa Rafael? É exatamente assim que eu me sinto.
Nós ficamos em silêncio. Um não sabia mais o que dizer ao outro. Alguns instantes depois eu quebrei o silêncio, pois tinha uma coisa que eu precisava muito saber.
—Vocês vão morar onde? Na casa do lago?
Ele olhou para mim descrente.
—Claro que não! Primeiro que eu tinha outros planos com aquela casa, e eles não incluíam a Fernanda.  Então pensei até em vendê-la, mas desisti. Entretanto, eu jamais a levaria para morar ali.
 Olhei sem graça para ele, e abaixei a cabeça. Ele continuou.
—Eu fiz aquela casa para nós dois, para você.
—Mas e então? —perguntei.
—O pai dela deu um apartamento para ela na cidade, mas ela quer continuar a estudar, então ela continua em Porto Alegre, e volta aos finais de semana.
—Casamento moderno!
Ele sorriu ressentido.
—Se você fosse a minha esposa, eu jamais aceitaria isso. Não desgrudaria de você um dia sequer.
Suspirei! Sentindo-me cada vez mais tensa.
—Olha Rafael, agora está feito. Você está casado, e eu provavelmente também irei me casar. Não sei se isso irá durar, não sei nem ao menos se estamos fazendo a coisa certa. A única coisa da qual sei, é que, estar aqui, no seu casamento, vendo você ao lado da sua esposa, não está sendo fácil. Hoje eu vi o homem que eu mais amei e que ainda amo se casando com outra mulher. Procurei me manter firme, sofri calada. Confesso que está sendo como se eu estivesse vivendo um pesadelo. Agora o que precisamos fazer é viver nossas vidas. Espero que você e a Fernanda sejam felizes, e esse filho traga pra vocês muitas felicidades.
Rafael sorriu balançando a cabeça em tom de negação.
—Preciso ir Rafael.
—Ana, espera! —ele disse em súplica.
Eu o encarei e senti uma bola de tênis dentro da minha garganta.
—Você lembra quando você tentou me beijar na caminhonete, naquela noite, logo que eu cheguei?
Ele fez que sim com a cabeça.
—Eu disse a você que eu já havia sofrido demais por sua causa, e que no momento em que havia me curado, não podia me permitir sentir por você o que eu senti um dia. Eu devia isso a mim, mas eu falhei. Me deixei levar pelos seus sorrisos, seus olhares, seus beijos. E o que aconteceu? Hoje estou aqui, com o coração estraçalhado novamente, tendo que fingir que estou bem para todos que me cercam. E vendo você ao lado da sua esposa que está grávida de um filho seu. Sim, eu realmente falhei. Jamais deveria ter me aproximado de você, seria tudo mais fácil agora.
 Rafael me encarava, sem dizer uma única palavra.
—Eu realmente preciso ir Rafael. —falei deixando-o sozinho.
Fui ao banheiro novamente e Rebeca foi atrás de mim.
—O que aconteceu? —ela perguntou baixinho, mesmo sem haver ninguém, além de nós duas.
—Não posso mais ficar perto dele Rebeca, está sendo uma tortura para mim.  —disse olhando para cima para conter as lágrimas.
—Ana, ele é o noivo mais infeliz que já vi.
—Eu também estou infeliz. —respondi. 
Rebeca me abraçou, e senti minhas lágrimas caírem.
 —Isso começou errado, eles já não estão se suportando. Você acha que vai dar certo? Claro que não.
—Está tudo errado, Rebeca! O Rafael se casando, eu aceitando o pedido de casamento do Léo. Está tudo errado! Nós dois seremos infelizes para sempre.
—Ei, fica calma. Tudo tem sua hora. Você vai ver.
—Eu queria acreditar nisso.
Rebeca me ajudou a secar minhas lágrimas. Nesse momento, o banheiro foi invadido por garotas bêbadas e nos saímos em seguida.
Cheguei à mesa, chamei o Léo para irmos embora e sem seguida nos despedimos de todos. Rebeca deu-me um abraço apertado, Enzo também me abraçou forte e cochichou no meu ouvido.
—Estou orgulhoso de você Ana.
Apenas sorri um sorriso triste.
—Ana, vamos para casa, filha.
—Não mãe, vocês estão cansados! E nossas coisas já estão todas no hotel, mas amanhã passo de lá antes de irmos embora.
 Ela concordou parecendo estar chateada.
—Então vocês almoçam com a gente. Não aceito não como resposta.
Concordei balançando a cabeça.


24
Diga-me a Verdade


No domingo, como prometido, fomos almoçar com meus pais, que estavam radiantes com a nossa presença. O almoço estava perfeito. Meu pai mais falante do que nunca, mas eu percebi que minha mãe no fundo parecia preocupada.
Quando terminamos de almoçar, ajudei minha mãe a organizar as coisas e em seguida nos juntamos com Léo e meu pai que estavam na sala, ficamos conversando, vendo as fotos do casamento que o Léo havia tirado com o celular dele. Algum tempo depois, enquanto meu pai conversava com o Léo sobre alguns investimentos, minha mãe me chamou para ir até o quarto.
Fomos para o meu quarto com a desculpa que ela queria que eu visse algumas roupas que ela havia comprado. Assim que ela entrou, ela trancou a porta e sentou-se em uma poltrona. Me sentei em minha antiga cama, ficando de frente para ela. Foi quando vi suas lágrimas escorrendo.
—Ei mãe, o que foi?
—Ana, estou com o coração apertado, o Rafael estava numa tristeza de dar dó, ele fez uma besteira em casar-se com aquela moça. E o jeito que ela o trata? Ela é fria, é autoritária e parece detestar as pessoas que cercam o Rafael.
Eu a abracei.
—Sinto muito, minha filha. Sinto muito por vocês.
—Mãe, para mim foi uma tortura sem fim, sabia? Eu ficava imaginando como seria vê-lo ao lado dela. E quando os vi, senti meu coração partir em mil pedaços.
Ela concordou com a cabeça, me abraçando ainda mais forte.
—Eu percebi Ana, você conseguiu disfarçar, mas eu percebi que seu olhar estava triste, assim como o do Rafa.
Ficamos ali, por um momento, um momento só nosso, mas logo Léo me chamou para irmos embora. Já estava quase na hora do nosso voo.
Chegamos em São Paulo, eu me sentia exausta, fui direto para o quarto, colocar minhas coisas sobre a cama.
—Nossa, estou morto, e amanhã tenho que ir viajar de novo! Não aguento mais esse vai e volta.  —disse Léo caindo na cama.
—E quanto a voltar a morar no Brasil? —perguntei.
—Eles me pediram um mês, acredito que em no máximo uns dois meses estaremos morando sob mesmo teto.
Olhei surpresa para ele.
—Sério? Você não me disse mais nada. Achei que fosse demorar bem mais. —falei surpresa.
Léo levantou-se, tirou a camiseta e a calça, ficando apenas de boxers branca.
—Pois é, meu amor, são planos! —ele disse saindo em direção ao banheiro, em seguida ouvi o chuveiro abrir.
—Minha futura esposa, vem aqui que eu quero levar você às alturas. —Léo gritou do banheiro.
Ergui minhas sobrancelhas e sorri.
—Só irei desfazer minhas malas.
—Ah, Ana, vem aqui, estou com vontade de você de novo.
—Tá, tudo bem, só um minuto! —disse o espiando pela porta. Léo estava todo ensaboado, enxaguando os cabelos. Nenhuma mulher se cansaria de observá-lo, afinal, ele era extremamente lindo.
Voltei para o meu quarto, e quando ia começar a tirar minhas roupas, para me juntar a ele no banho, vi o celular dele piscar. Peguei para ver o que era, e vi que era uma mensagem.
Fiquei sem graça em invadir a privacidade dele, mas acabei lendo.

Léo, quinta-feira estarei em Seattle, queria ver você! Que tal você me pegar no aeroporto? Estou morrendo de saudades de você, do seu corpo, dos seus beijos.
 Sua Aline


Fiquei incrédula. “Como assim, quem era Aline? ” 

4 comentários:

  1. Ai senhorrrrr.... era tudo o que não precisava neste momento .....

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  2. Cada capítulo uma surpresa... E esta foi desesperadora... Afinal o Léo não é tão perfeito...
    Com muita dó da Ana....

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