Faça por mim
Parte 16
26
Invasão dos americanos
Assim que voltei
para o meu apartamento liguei para minha mãe. Não me cabia de tanta felicidade.
Agradeci a ela por tudo o que ela me fez, e em especial por ela ter ajudado o
meu pai a aceitar a minha relação com o Rafael. Sem a ajuda dela, ele jamais
entenderia. Minha mãe ficou muito feliz por tudo ter acabado bem, pois ela
estava realmente preocupada como seria nosso encontro, nossa conversa.
Meu final de
semana foi sem sair do apartamento me recuperando da gripe. Contei com a ajuda
da Alessandra, que apareceu no sábado à noite para me fazer companhia. Me fez
uma sopa de legumes de uma receita que ela havia tirado da internet. Assistimos
filmes e falamos sobre nossos casos amorosos complicados.
A semana seguinte
foi bem tranquila. Théo havia tirado uns dias de férias, e já estava com dez
dias sem ele na agência e ele ainda não havia voltado de Curitiba; bom sinal,
pelo menos estava se entendendo com a Vanessa.
Léo, me ligou na
quinta-feira, resolvi atendê-lo.
—Oi Léo.
—Ana, nem
acredito, que estou ouvindo a sua voz. Como você está?
Falar com o Léo foi uma sensação estranha. Senti
um frio na barriga ao escutar a voz dele. Mas não era uma sensação que me
deixava nervosa, sem fala. Foi como falar com um grande amigo que eu não
conversava há algum tempo.
—Estou bem Léo e
você?
—Ana, precisava
falar com você. —ele disse suspirando. —Quase enlouqueci depois que você me
deixou. Fiquei louco e você me evitando sempre.
—Léo, é bom falar
com você também. Também te confesso que foram dias difíceis, mas agora estou bem.
—Que bom ouvir
isso! Fiquei tão preocupado com você, sinto tanto a sua falta. Podemos sair
qualquer dia para beber alguma coisa? —ele perguntou.
Suspirei.
—Olha Léo, acho
que não! Eu quero sim voltar a ver você, podemos até marcar alguma coisa sim,
mas não agora. Quero que você fique bem, e o que eu posso te falar é que no
momento só podemos ser amigos. Não dá
mais para nos enganarmos, e a culpa não é só sua. Errei muito em relação ao
nosso relacionamento, por isso que as coisas chegaram onde chegaram.
Um silêncio tomou
conta do telefonema.
—Tudo bem, Ana,
quando eu for para São Paulo te ligo, pode ser?
—Claro, pode sim!
—Tchau, Ana, um
beijo.
—Léo, fica bem! Torço
para que você seja muito feliz. Você foi alguém muito importante para mim.
Ele suspirou
fundo.
—Tchau Léo.
...
Théo voltou
somente no final da outra semana, mas estava estranho, manteve-se calado, mas
pelo menos ele e Vanessa estavam se entendendo. Ela estava até voltando a ligar
para ele na agência, mas continuava em Curitiba.
Uns dias depois,
tivemos uma visita estranha; pessoas conhecendo toda a agência, todo o quadro
de funcionários, depois ficaram trancados na sala de Théo por horas.
Nos dias seguintes
foi a mesma coisa. Vários grupos de pessoas visitavam a agência em dias
diferentes. Foram no total de seis visitas, os funcionários falavam em fusão de
agências, em compra e venda, mas ninguém sabia ao certo de nada.
No primeiro final
de semana de setembro, ia ter um show do Paul McCartney
em São Paulo. Théo assim como na maioria dos shows, havia conseguido cortesias
para o camarote. Mas, como ele estava passando os finais de semana em Curitiba
ele não ia poder ir. Então, ele deixou as cortesias em minha mesa, dentro de um
envelope com os dizeres:
Querida
Ana, tenho essas cortesias para o show do McCartney,
estou indo ver a Vanessa e não poderei ir. Não pensei em outra pessoa a não ser
você para me representar, além do mais, você precisa se divertir garota! E esse
show é perfeito e inesquecível. Tenho certeza que você irá amar.
Com carinho, Théo.
Eu li e reli o
bilhete algumas vezes. Achei muito nobre da parte do Théo em lembrar-se de mim.
Mas no fundo eu não queria ir. O show do Paul McCartney
era sem dúvida o preferido do Léo. Ele amava, já tinha ido a vários e eu já
tinha o acompanhado algumas vezes. Então eu sentia que se ele soubesse do show
ele viria com certeza. Mas quando a Alessandra ficou sabendo, ela quase me enlouqueceu,
dizia que eu não podia recusar em hipótese alguma, que era um presente e não
era de bom tom não aceitá-lo; e claro principalmente porque eu não podia fazer
isso com ela, porque é claro que se eu fosse eu a levaria comigo. Então depois
de tanta falação em minha cabeça eu acabei cedendo e concordei em ir.
Era uma quinta-feira. Saímos da agência, fomos direto
ao meu apartamento para nos arrumarmos. Usei uma saia midi rodada preta com
estampas com uma camisetinha preta, scarpins e uma bolsa da Chanel. Alessandra
estava de saia preta, blusa preta, scarpins Manolo Blahnik pink e uma bolsinha
da Louis Vuitton, como ela mesma disse, estávamos de arrasar. Seguimos para o Allianz Parque no carro da
Alessandra. Assim que chegamos, eu estava me sentindo um pouco tensa, temia ver
o Léo, e temia ainda mais a minha reação. Encontramos alguns amigos, clientes
da agência, colaboradores, fotógrafos, modelos, enfim, todos estavam muito
animados com o show. Por sorte, em nosso camarote a maioria eram pessoas
conhecidas, pessoas essas que faziam parte do círculo social do Théo. Willian
com sempre não dava folga para Alessandra, já tinha ligado várias vezes para
ela, como se quisesse controlá-la mesmo de longe.
Um pouco antes
do show começar, eu resolvi ir ao banheiro. Alessandra estava engatada em uma
conversa com umas garotas que estavam no camarote, então eu disse a ela que
iria sozinha, mas não me demoraria. E foi como eu disse, fui ao banheiro, fiz
xixi, lavei as mãos, retoquei minha maquiagem. Quando eu estava saindo, vi um
par de olhos azuis me olhando. Olhei novamente e notei um homem encostado em um
pilar. Vestia jeans e camisa preta dobrada nas mangas. Senti um leve frio na
barriga, mas era nítido que ele pareceu muito mais nervoso do que eu. Caminhei
até ele sem desviar o olhar, assim como ele também não desviou.
—Oi Léo. —disse
parando em frente a ele.
Ele
nervosamente me abriu um sorriso.
—Oi Ana, como
vai?
—Estou bem.
Sabe que no fundo algo me dizia que você estaria aqui.
—Acho que você
me conhece bem, não é?
Sorri.
—É, talvez seja
isso mesmo.
Confesso que
encontrar com o Léo era algo que me deixou nervosa. Talvez seja por causa do
nosso último encontro, com tantas lágrimas e decepções, talvez fosse saudades,
afinal de contas o Léo era o meu noivo, e nós estávamos juntos há alguns anos.
—Mas e com
você, está tudo bem? Já está morando no Brasil?
Léo olhou para
mim, mas depois abaixou a cabeça, ele realmente parecia nervoso.
—Estou bem!
Agora estou bem. Quanto ao Brasil, ainda não! Resolvi esperar mais um pouco.
Apenas balancei
a cabeça concordando com ele.
—Olha Léo —suspirei
profundamente tomando coragem para falar o que era necessário. —Para mim foi
muito difícil também, e jamais imaginei que nosso relacionamento terminasse da
maneira que terminou, mas saiba que você foi uma pessoa extremamente importante
em minha vida, espero que você seja muito feliz.
—Ana, eu...
Quando ele ia
completar a frase, uma bela garota, na faixa dos seus vinte e poucos anos,
estatura média, magra, com seios fartos, e loura, sim muito loura de olhos
azuis, estacionou ao lado dele, toda sorridente.
—Oi amor,
demorei? —la disse toda sorridente, olhando para ele e em seguida para mim.
Léo ficou
totalmente desorientado, olhou para a garota, olhou para mim, olhou para o
chão, não sabia o que fazer.
—Ah, Ana, essa
é a Aline.
A tal garota,
arregalou os seus belos olhos azuis assim que ouviu meu nome.
—Ana, você é a....
Fiquei firme em
minha posição. Precisava me manter firme. Afinal, ela era a tal garota que
colocou um belo par de chifres em minha cabeça, e o pior de tudo é que ela era
linda.
—Prazer Aline,
eu sou a Ana, como vai? —disse estendendo minha mão para cumprimentá-la.
Aline apertou
minha mão, me cumprimentando com um beijinho informal no rosto.
—Ana, eu não
sei nem o que lhe dizer.
—Aline, não
precisa dizer nada, nem explicar nada. Já passou, fica tranquila.
—E Léo foi um
prazer revê-lo, mas eu preciso ir, que a Alessandra está me esperando.
Léo soltou um
sorriso sem graça, e concordou com a cabeça.
Me despedi
deles e segui para o camarote. Sentia minhas pernas trêmulas. Não de raiva, mas
confesso ter ficado surpresa. Eu imaginei que o encontraria naquele show, mas
não imaginei que ele estivesse acompanhado e principalmente acompanhado com a
tal Aline. Porém, no fundo eu me senti aliviada, o Léo mesmo tendo feito tudo o
que ele fez comigo, era um cara muito legal e muito especial, e eu queria me
lembrar dele assim, sem ressentimentos e sem mágoas.
Assim que
encontrei a Alessandra no camarote, contei a ela o que havia acontecido e ela
ficou irada. Ela já não ia muito com a cara dele, depois do que contei então!
O show foi perfeito, não; melhor dizendo, foi
emocionante. Paul começou tocando Eight Days a Week,e em seguida foi um
desfile de clássicos, entre eles "Let It Be", "Hey Jude,
"Yesterday", "Back in the U.S.S.R.",
"Eleanor Rigby" e
All My Loving, entre outras,
distribuídas em quase três horas de show. É claro que algumas delas de faziam
me lembrar do Léo, principalmente sabendo que ele estava perto de mim. Mas em
todas elas, meu pensamento era unicamente voltado para o Rafael.
...
Em um feriado,
mais ou menos uma semana após o show, minha mãe me ligou.
—Oi filha, tudo
bem?
—Oi mãe, você não
quer vir me ajudar a fazer faxina? Eu estou doida aqui perdida em meio de tanta
bagunça. —disse brincando com ela.
—Oh minha filha,
bem que eu queria.
—Vem e traz a
Maria, estou com saudades da comida dela.
—Ana, filha ingrata!
E da minha comida não? —ela perguntou provavelmente sorrindo.
—Da sua também sua
boba. —respondi fazendo biquinho.
Minha mãe ficou em
silêncio.
—Mãe, tudo bem?
Você ficou chateada? Me desculpa.
—Não filha,
imagina. É que tenho uma notícia para te dar.
Senti a minha
vista escurecer. Sentei-me esperando o pior.
Imaginei várias coisas.
—Fala, mãe! —disse
eu histérica. —É com meu pai?
—Não filha, ele
está ótimo, e continua teimoso feito um cavalo. —brincou.
Suspirei aliviada.
—Então o que é?
—O Rafael se
separou.
Fiquei calada e
imóvel. Era como se eu tivesse criado raízes na sala do meu apartamento.
—Ana? Filha você
está me ouvindo? —ela perguntou devido ao meu longo silêncio.
—Sim, claro! Senti
meus anjos tocarem sinos nos meus ouvidos. —O que aconteceu?
—Foi uma barra,
seu pai lhe contou que a Fernanda entrou em depressão?
—Sim, ele
comentou.
—Então, alguns
dias depois, ela quis voltar a estudar. O Rafael achava que era muito cedo, mas
ela insistiu demais e ele acabou aceitando. Alguns dias depois que ela estava
em Porto Alegre, ele foi visitá-la sem avisar. Quando chegou no apartamento
dela, o porteiro perguntou se ele estava com os amigos delas, pois alguns já
haviam chegado. O Rafa ficou sem entender, mas acabou concordando porque ficou
desconfiado. Então o porteiro disse para ele subir, e quando ele chegou, viu
que ela estava com as amigas e uns rapazes, todos bebendo e usando drogas. O Rafael não disse nada, apenas deu meia
volta e ligou para os pais dela. E no dia seguinte, ele procurou um advogado.
Fiquei em choque.
—Como ele está?
—Ele ficou mal
Ana. Afinal, ele sacrificou muita coisa por causa desse casamento. Mas o que
mais doeu mesmo, foi a perda do bebê. Essa garota não pensou no próprio filho,
muito menos no Rafael, e nem nela própria. Mas ele já deu entrada no divórcio,
confesso que agora ele parece estar melhor do que quando estava casado.
—E quando foi
isso?
—Semana passada.
—Nem sei o que
dizer mãe.
—Eu sei, filha, é
complicado.
—Hum ele está chegando.
Depois eu te ligo.
—Tudo bem mãe,
beijo.
—Beijo, tchau. —disse
ela baixinho.
Fiquei perplexa,
queria ficar triste, mas senti uma sensação de alívio, algo indescritível.
Outubro chegou,
com ele veio um monte de trabalhos novos; precisávamos correr para dar conta de
entregar tantas campanhas. Um grupo de publicitários americanos instalou-se na
agência, Théo dizia que era um rodízio de funcionários, eles ficaram até final
de novembro trabalhando com a gente. Comecei a dividir minha sala com Willian,
Alessandra e outros dois publicitários americanos. Saíamos muito tarde todas as
noites, e sempre acabávamos no H2CHOPP. Os americanos, apesar de serem bem
reservados, acabaram se tornando nossos amigos.
27
Fim da família TG3
Na última semana
de outubro, Théo nos convocou para uma reunião extraordinária. Todos os
funcionários da agência estavam presentes.
—Ou é chumbo, ou é
coisa boa. —concluiu Alessandra, enquanto nos organizávamos na sala de
convenções.
—Cara de coisa
ruim. —palpitou Dani.
—Shiu!!! —fez
Willian reprendendo as duas.
—Bom pessoal, eu
queria agradecer a atenção de vocês. Começou Théo, que parecia estar muito
nervoso, mais do que o normal, aliás.
A sala de reuniões
havia cerca de setenta pessoas, desde porteiro até os chefes.
—Quero começar
esse discurso, agradecendo a cada um de vocês. Todos vocês foram fundamentais
para essa agência, desde o serviço mais simples, até o mais complexo. Vocês são
pessoas extremamente competentes, responsáveis, batalhadores. Aqui nasceu uma
família, a minha família, a família TG3. Passei maior parte da minha vida
adulta aqui dentro.
Théo suspirou e em
seguida tomou um gole de água.
Comecei a ficar
nervosa, estava tensa apenas em vê-lo falar daquela maneira.
—Quando me casei,
eu já havia montado essa agência, eu a levantei, e graças a vocês ela se tornou
o sucesso que é hoje. —ele disse sorrindo em seguida.
—Minha esposa
sempre precisou aceitar o segundo lugar em minha vida. Eu mal tinha tempo para
ela, tanto que tive uma semana de lua de mel, depois disso, nunca mais tive
férias, era raro quando conseguia tirar um final de semana de folga.
Théo tomou outro
gole de água.
—A Vanessa, minha
companheira, mais de 20 anos, aprendeu a viver sozinha. Eu chegava depois das
dez da noite os dias, porque eu respirava essa agência. Eu vivi a vida de cada
um de vocês, sabia de cada problema, cada alegria, cada vitória, cada
conquista, cada derrota. Mas com tudo isso, eu deixei de viver com ela, de
enxergar os problemas, as alegrias e as vitórias dela. Deixei de realizar o
sonho que minha esposa tinha, que era ser mãe. Toda vez que ela chorava por
descobrir que ela não estava grávida, eu raramente estava presente para
consolá-la. E hoje o sonho dela de ser
mãe, tornou-se impossível.
Olhei para
Alessandra, que ergueu a sobrancelha.
—É chumbo. —falamos juntas, e em
seguida olhamos para frente.
—Como vocês já
sabem, ela me abandonou há alguns meses; eu sofri, sofri muito, mas agora ela
me aceitou de volta, com uma condição.
Todos ficaram se
entreolhando esperando pelo pior.
—Eu tive que
escolher entre ela e entre o meu trabalho, ou seja, entre a agência. Eu só
gostaria que vocês soubessem que eu amo vocês, amo demais cada um de vocês; mas
eu sou doente de amor pela minha esposa, então me decidi por ela. Decidi dedicar-me
a ela. Quero viver minha velhice ao lado
dela. Senão qual o sentido de lutar a vida inteira, e chegar a uma vida
financeira estável e não ter com quem desfrutar; não ter a pessoa que dedicou a
vida inteira ao meu lado para usufruir do que eu conquistei. Eu devo muito à
Vanessa, eu sou muito grato por toda a paciência que ela teve por tantos anos,
então eu não podia decidir outra coisa a não ser ficar com ela. E é exatamente
isso que quero fazer, ficar ao lado dela. Portanto estou me mudando para Curitiba
para retomar meu casamento.
Todos ficaram em
silêncio. Esperando a próxima fala.
—Vocês viram que
algumas pessoas vieram conhecer agência, a maioria delas tiveram interesse; mas
a melhor proposta, foi desse grupo de americanos, que vocês tiveram o prazer ou
desprazer de conhecê-los. A proposta deles, foi imperdível, era praticamente
duas vezes mais do que eu pedi. Eles vieram, conheceram e aprovaram nosso
potencial.
Théo fez outra
pausa.
—Fechei o
contrato, há um mês. Mas era sigiloso. Eu ainda não podia contar a vocês; eles
me fizeram assinar um contrato confidencial. Eu sofri, um mês calado, mas tive
de honrar minha palavra.
Olhei para
Alessandra e para Willian. Ficamos perplexos. Willian mudou o peso do corpo
para outra perna, passou a mão pelo cabelo e em seguida apertou a mão de
Alessandra.
—Eles colocaram o
pessoal deles para ver a maneira que vocês trabalhavam, se relacionavam.
—Ou seja, eles
vieram nos testar? —disse Lucas de um outro grupo de publicitários.
—De certa forma
sim, Lucas. Eles quiseram observá-los, estudá-los. Para a partir daí decidir
quem fica e quem sai. Odiava ver vocês tendo que passar por isso, sendo
testados constantemente sem poder dizer nada, mas eu fiquei de mãos atadas. Mas
agora eles se pronunciaram, me convocaram para uma reunião e anunciaram que o
quadro de funcionários sofrerá alterações
Foi então que todos
os presentes começaram a falar de uma vez.
—Pessoal, pessoal!
—Théo gritou chamando atenção. —A maioria dos funcionários permanecerão na
agência. É claro, eles gostaram do nosso trabalho. Alguns infelizmente serão
dispensados, já que alguns funcionários de fora, virão para ocupar as lacunas
que ficarão. E alguns serão remanejados para os Estados Unidos. Me reunirei com
os funcionários que foram indicados para serem remanejados e conversaremos
sobre isso mais tarde. Já os funcionários que serão dispensados, eu me proponho
pessoalmente a ligar para os diversos contatos que eu tenho, para ajudá-los
arrumar um outro emprego. Saibam que meu coração ficará com uma lacuna imensa,
mas eu não tinha outra opção.
28
WP4
Group
—Théo e quando eles assumirão? —perguntei.
—Ana, pedi que eles me dessem pelo menos
essa semana, assim terei tempo de organizar tudo para que eles possam assumir
definitivamente.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo.
—Mas Théo, e quanto aos funcionários que
serão dispensados? Em pleno final de ano, você sabe que empresa nenhuma contrata
funcionários nessa época. —questionou Willian.
—Olha Willian, eu sei que a época é ruim,
mas o meu pessoal é muito bom. E tem várias outras agências que estão de olho
em vocês. Tenho certeza que quando eu fizer minhas ligações, conseguirei
imediatamente que todos sejam contratados. E conheço muita gente, portanto
fiquem tranquilos.
Théo respirou fundo, parecendo que ia ter
um ataque.
—Eu sei que a questão toda é complicada.
Vai ser uma mudança difícil para todos nós, para mim, para os funcionários que
ficarão e para os funcionários que sairão. Mas eu dou a minha palavra que
nenhum funcionário meu ficará desempregado. Peço perdão a todos vocês, eu
também fui pego de surpresa, mas estou disposto a ajudá-los. Eu só deixo aqui o
meu muito obrigado e quero que saiba que eu amo vocês, amo essa família.
Théo saiu em seguida, provavelmente para a
sala dele.
A sala de reunião se transformou numa
total algazarra, todos falavam ao mesmo tempo, uns choravam, outros protestavam.
A manhã foi totalmente tumultuada. Mas
depois de passado o susto, cada um começou a ir para seu departamento,
esperando para serem chamados pelo RH onde descobririam se ficariam ou não. Eu segui para minha sala, estava anestesiada.
Alessandra apareceu chorando, ela temia
ser dispensada.
—Calma Lê, tudo dará certo, você vai ver.
—Como calma Ana? Você esqueceu que meu
apartamento é totalmente financiado? Infelizmente não tive a mesma sorte que
você teve na vida. Cada coisa que eu tenho, foi fruto do meu esforço. Nunca
ganhei absolutamente nada dos meu pais, nem minha faculdade foi paga por eles.
Eu dependo desse emprego para tudo.
Concordei sem dizer nada.
Willian apareceu totalmente tenso em minha
sala, sem saber o que pensar. Ficamos algum tempo reunidos, conversando. Théo
entrou após bater em minha porta, e todos nós olhamos para ele. Ele sentou-se
em frente a minha mesa, parecendo um pouco mais calmo.
—E então Théo, como ficaremos? —indagou
Willian.
—Meninos, todos vocês sabem que sempre gostei muito dessa equipe. Os outros
sempre me cobraram que essa equipe era minha preferida, e realmente sempre foi.
Peço perdão a vocês por não ter dito o que estava acontecendo, e sei que é
difícil, mas espero que vocês me entendam.
—Entender Théo? Que porra é essa? Eu tenho
dívidas, você viu que eu financiei meu apartamento, meu carro, e se eu for
dispensada, como eu fico? E o Willian com duas crianças. E a Ana? Você quer que
a gente entenda você e os pitis da sua mulher? —disse Alessandra indignada,
enquanto pegava sua bolsa.
—Lê, por favor, aonde você vai? Vamos
conversar. —disse Théo em tom de súplica.
—Eu vou sair, por que você vai me mandar
embora? Só não se esqueça de uma coisa. —ela disse apontando para rosto dele. —Se
você tem essa vida boa de hoje, é graças ao nosso serviço, nós também vivemos
por essa agência, e mais, eu achei que acima de chefe, você fosse nosso amigo.
Théo caminhou até ela e em seguida colocou
a mão na porta, impedindo-a de sair.
—Você não vai sair, não agora! Eu ainda sou
seu chefe e quero que fique.
Ela me olhou sem graça e acatou a ordem
dele. Théo voltou e sentou-se novamente.
—Sim, além de ser o chefe de vocês, também
me considero amigo de cada um de vocês três. Vocês estiveram presentes em minha
vida, em cada faze, seja ela boa ou ruim. E a minha única reinvindicação foi
que não mexessem nessa equipe. Qualquer alteração poderia ser feita, menos na
equipe de vocês. Portanto, não se preocupe Alessandra, sei que como os outros
funcionários, você depende desse emprego para pagar seu carro, seu apartamento,
enfim, todos os seus gastos. E, portanto, o seu emprego, o emprego da Ana e do
Willian estão garantidos.
Todos suspiraram aliviados.
—E quanto aos outros Théo?
—Ana, eu vou começar hoje mesmo a ligar
para alguns amigos meus. Conheço muita gente, e muitas empresas me devem alguns
favores, netão, como serão poucos os funcionários dispensados, eu tenho certeza
que conseguirei uma vaga para cada um deles.
—Se você precisar de ajuda, poderemos te
ajudar a falar com seus amigos.
—Oh, Ana, vou precisar sim. Mas tem uma
coisa. Vocês estão entre os dez publicitários daqui da agência terão que ir
para Nova Iorque, onde passarão por uma espécie de treinamento com a equipe
deles, será o mesmo processo da equipe deles que passaram por aqui. E então,
vocês retornam para São Paulo, e ficarão sabendo quais dos dez, foram
selecionados para continuar em Nova Iorque.
—E quantos no total ficarão em Nova
Iorque?
—Isso eu não sei, talvez uns cinco. —Théo
respondeu.
Nós nos entreolhamos assustados e animados
ao mesmo tempo.
—Então é isso, vão para casa, arrumem as
malas e providenciem seus passaportes, pois na segunda-feira vocês se apresentarão
em Nova Iorque.
—Obrigada Théo! E me desculpe por ter sido
impaciente e grossa com você.
Alessandra o abraçou em seguida. Eu e o
Willian fizemos a mesma coisa.
—Sentirei falta de vocês, meus amigos. —disse
Théo emocionado.
Alessandra e Willian saíram em seguida. E
Théo me encarou, com o olhar cansado.
—Desculpa Ana por ter escondido tudo isso
depois, não quero que você me odeie.
—Odiar você? Como Théo? Você foi meu
mestre esse tempo todo, você me ensinou tudo o que eu sei. Eu sou sua fã,
sempre fui, e sou muito grata a você. Só não sei se estou apta a ir pra Nova
Iorque.
—É a chance da sua vida! Será sua
ascensão, pode ter certeza.
Concordei pensativa. Não tinha nada a
perder. Estava sem namorado, sozinha e precisava dar um tempo para minha cabeça
que só pensava no Rafael, no divórcio dele e no porquê ele nem havia me ligado
para falar sobre o divórcio.
Na segunda-feira, desembarcamos em Nova
Iorque por volta das dez horas da noite. Fomos recepcionados pela a mesma
equipe que ficou na TG3 com a gente. Eles foram extremamente simpáticos e
excelentes anfitriões.
Na terça-feira, fomos conhecer a WP4
Group, a agência que havia comprado a TG3 que ficava na Times Square em Midtown . Era simplesmente de tirar o chapéu. Ficamos
embasbacados com a estrutura física que eles tinham.
Assistimos a diversas palestras,
respondemos a longos questionários, passamos por alguns testes, onde éramos
analisados e observados todo o tempo.
Willian soube que sua
esposa havia voltado para o interior e que ela estava dando a entrada no
divórcio, ele ficou arrasado, principalmente por causa dos filhos. Alessandra
ficou extremamente preocupada, só de imaginar que talvez, ele fosse querer
morar com ela.
Passamos três semanas e Nova Iorque, e na
quarta-feira, da última semana de novembro, desembarcamos no Brasil. Assim que
cheguei em meu prédio, tinha uma série de recados para mim, entre eles, a
notícia que o Rafael tinha ido me procurar, o porteiro disse a ele que eu
estava trabalhando em Nova Iorque. Certamente ele não deve ter entendido nada,
afinal, não disse nada a ninguém sobre a minha viagem.
Naquele dia, mal consegui dormir, tentando
imaginar o porquê da visita surpresa do Rafa. Na quinta-feira, assim que
acordei, liguei para minha mãe.
—Ana? Você quer me matar de susto? Por
onde você andou?
—Oi mãe, senti sua falta também. —falei
sarcasticamente. —Mãe, precisei ir para
Nova Iorque, nos fomos fazer um treinamento por causa da agência.
—E custava ter me avisado? —ela disse me
repreendendo.
—Eu sei mãe, me desculpa. E meu pai, está
tudo bem com ele?
—Está sim. Melhor que eu, eu diria.
Minha vontade era de perguntar sobre o
Rafael, mas não tive coragem.
—Mãe, o Théo vendeu a agência, e hoje nós
iremos saber qual de nós será remanejado para trabalhar na agência de Nova Iorque.
—E você pretende mudar-se pra lá?
Respirei sem saber o que responder. Na
verdade, nem eu sabia o que eu queria.
—Profissionalmente seria excelente para
mim.
—Filha, sinceramente não sei o que dizer,
mas essa é uma escolha sua. Só para você saber (ela fez uma pausa), o divórcio
do Rafael saiu e ele correu para São Paulo atrás de você.
—É, eu soube que ele esteve aqui.
No fundo meu medo era gigantesco de sofrer
pelo Rafael novamente.
—Mãe, eu não sei o que fazer!
—Ana, minha filha, talvez tenha chegado a
hora de vocês finalmente se acertarem, você não acha?
Eu sorri por dentro.
Fui para a agência algum tempo depois.
Encontrei a agência totalmente mudada. Alguns funcionários novos e outros dos
quais eu estava habituada encontrar já não estava mais lá. Tivemos uma reunião
com os novos donos da agência, onde conhecemos os novos diretores, que eram
americanos. Théo estava lá também, mas não como patrão, estava somente para nos
recepcionar de volta. Após a reunião com toda a equipe, eu e os outros publicitários
que estavam comigo em Nova Iorque, tivemos uma reunião comandada por Théo, de
portas trancadas. Foi onde ficamos sabendo quem ficaria no Brasil e quem
entraria para o novo time da WP4 Group.
Quando ouvi meu nome, não pude acreditar.
Eu e mais quatro fomos os selecionados para voltar para a WP4. Alessandra e
Willian ficariam no Brasil com os demais.
Théo foi o primeiro a me parabenizar.
—Eu sabia que você estava dentro, meus
parabéns Ana.
Fiquei perplexa e perdida.
—Théo, não sei nem o que dizer.
—Só comemore. —ele disse com um sorriso
imenso nos lábios.
Alessandra olhou para mim, totalmente
chateada.
—Eu queria estar feliz por você. Mas, por
mais egoísta que isso possa parecer, estou muito triste, pois iremos nos separar.
Suspirei fundo e concordei com ela.
Willian também me parabenizou, embora ele também não parecia muito feliz.
—Perdi minha parceira! Não sei se fico
feliz por você, ou se, assim como a Lê, fico triste pela nossa separação.
—Vocês não estão me ajudando. —falei
abraçando Willian em seguida.
Algum tempo depois, voltei para a minha
sala e comecei a juntar minhas coisas. Théo entrou em seguida.
—E aí garota, como se sente?
—Quer saber? Péssima. Sem saber o que
fazer.
—Como assim, Ana?
—É sério Théo. Não sei o que fazer. Sei
lá, recomeçar tudo novamente, do nada, sem ao menos conhecer quase ninguém,
longe de todos.
Théo me analisou enquanto colocava meus
objetos dentro de uma caixa.
—Ana, você é nova. Tem uma vida inteira
pela frente. Precisa arriscar se quiser conquistar seu espaço.
—Mas Théo, e minha família? Eu já convivo
tão pouco com eles. E meus amigos?
Ele suspirou.
—Bom, nesse caso, você precisaria abrir
mão disso também. Mas não por muito tempo. Talvez, daqui alguns meses, você
consiga voltar. Você tem talento, eles não iriam abri mão de uma profissional
com seu talento. Quer um conselho?
Olhei para ele e fiz que sim com a cabeça.
Théo foi até mim e segurou minha mão.
—Vai para casa, faça suas malas e vai para
Canela. Fica esse final de semana com seus pais e na segunda-feira, embarque
para Nova Iorque. E faça um teste. Se não der certo, você volta.
—E se eles não me aceitarem de volta?
—Bom Ana, daqui pra frente, eu não sei
como isso aqui vai funcionar. Mas sei lá, arrisca. Só não deixa de tentar.
Talvez lá você se encontre.
Fiquei pensativa analisando o conselho do
Théo.
—É, talvez você tenha razão.
Willian e Alessandra entraram em minha
sala.
—E meu apartamento? Eu ainda preciso ver o
que fazer com ele.
Willian me olhou surpreso.
—Você vai alugar seu apartamento?
Eu ri sem saber o que fazer.
—Cara, nem sei o que fazer da minha vida.
—Aluga ele para mim! Afinal, meu antigo
apartamento é grande demais para mim. Já que agora estou literalmente solteiro,
preciso de um lugar menor. E se quiser vender seu carro, também me ofereço como
comprador, já que minha digníssima ex-esposa, levou até o meu carro.
—Que horror, Willian! Você nem sabe o que
a Ana irá fazer e quer se apoderar das coisas dela.
—Eu quero comprar o carro dela. Isso não é
me apoderar.
Ela bufou.
—Até que é uma boa ideia. —falei dando a
ele um sorriso.
—Faz isso que te falei Ana. Pensa bem, mas
não desperdice essa oportunidade. E H2CHOPP hoje, por minha conta. —disse Théo
dando um tapinha nas costas de Willian e saindo em seguida.
Contei para Alessandra e para Willian
sobre o conselho de Théo, e eles concordaram imediatamente com o que Théo havia
dito.
No final da tarde, meu celular tocou.
Senti meu estômago dar um nó ao ver o nome do Rafael no identificador.
—Alô! —falei com a voz trêmula.
Senti que Rafael suspirou do outro lado da
linha.
—Oi Ana, tudo bem?
Eu sorri, sem saber o que dizer.
—Oi Rafael, estou bem sim e você como
está?
Ele ficou quieto
—Ana, acabou tudo! Bom não sei se acabou
ou se nunca existiu casamento nenhum. E só
quero que você saiba que eu sinto sua falta mais do que nunca. E não tem mais gravidez,
nem casamento e nem o medo dos seus pais não aceitarem nosso relacionamento.
Fiquei calada, sem saber o que dizer.
—Rafa, eu sinto muito por tudo o que
houve, principalmente por causa do bebê. Eu quis te ligar, mas não sabia nem o
que te dizer.
—Eu sei. Na verdade, foi bem difícil, mas
agora tenho certeza que as coisas irão começar a dar certo. E por falar nisso,
eu estive em seu apartamento e soube que você estava trabalhando em Nova
Iorque.
—É, na verdade participei de um
treinamento em Nova Iorque, onde seriam selecionados alguns publicitários daqui
da TG3 para fazer parte da agência de lá, já que eles compraram a agência do
Théo.
—Mas você não vai para lá, não é?
Respirei fundo.
—Então, na verdade, fui uma das cinco
selecionadas.
Rafael ficou em silêncio.
—E quando é isso?
—Começo na próxima semana.
Rafael soltou um sorriso triste.
—Bom, nem sei o que te dizer.
—Rafa, eu também não sei o que eu faço.
—Ana, eu sei que foi muito difícil para
você também, mas eu só quero que você saiba que eu amo você, nada mudou. Aliás,
mudou sim, nada mais nos impede de ficarmos juntos, só depende de você.
Alessandra entrou novamente em minha sala.
—estão me chamando, preciso desligar, mas depois falo com você,
pode ser?
—Tudo bem Ana, amo você!
Eu sorri.
—Também amo você Rafael.
Alessandra me olhou descrente.
Rafael desligou o telefone e eu olhei para
a Alessandra que sorria de orelha a orelha.
—Como assim? Ouvi direito?
—O que eu faço? —falei escondendo meu
rosto.
—Bom, ele é um gato e está totalmente
disponível e esperando por você. Mas Nova Iorque é o sonho de consumo de
qualquer publicitário. É um páreo bem difícil.
—Eu amo o Rafael, Alessandra.
—Eu sei, mas não faça nada precipitado.
Escute o Théo. Vai para Canela e vê como as coisas ficam.
Fui para meu apartamento, onde empacotei
todas as minhas coisas, com a ajuda da Alessandra. Após tantos conselhos, decidi ouvir o Théo e
não desperdiçar minha chance.

QUE DECISÃO DIFICIL ,....
ResponderExcluirOlhaaa...Ana terá que ser forteeee.... decisão complicadaaa..
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