quinta-feira, 23 de julho de 2015

Faça por mim. Parte 09 por Érika Prevideli

 Faça por mim 

Parte 09

14

É isso que somos?

Quinta-feira fiquei o dia todo na companhia do meu pai, vi Rafael de longe algumas vezes, porém, não nos conversamos.
Na sexta-feira, enrolei na cama até a hora do almoço, Maria já tinha ido duas vezes para ver se eu estava viva. Mas só queria ficar no meu canto. Liguei para o Théo, para saber se tudo bem se eu voltasse duas semanas antes do término das minhas férias e ele deu graças à Deus. Pelo menos alguém sentia minha falta. Liguei pra minha ajudante, combinei com ela para que ela fosse dar uma arrumada em meu apartamento no sábado, pois domingo já estaria de volta.
Olhei pela janela, o sol estava bem quente. Coloquei um biquíni, uma saída de banho e fui para a piscina um pouco. A água estava congelando, mesmo assim dei um mergulho, pude senti a carne do meu corpo endurecer.
 Maria me levou um suco.
–Minha filha estava preocupada, você não comeu nada hoje.
Eu ri, era maravilhoso ter uma Maria por perto.
–Oh Maria, obrigada! Vou sentir sua falta, sabia?
–Nem me fala filha. Agora todo mundo parece que resolveu me abandonar. Hoje o Rafa nem deu as caras, ontem ele saiu daqui brigado com a sua mãe.
–É, ela me comentou alguma coisa.
–Ana, minha filha, não briga com ela você também, ela só faz para ajudar.
–Eu sei Maria, acabei falando umas coisas para ela, mas me arrependi no mesmo instante, minha mãe não tem culpa dos nossos deslizes.
–Vocês também não têm culpa, Ana. Só que a vida é assim, nem tudo é da maneira que a gente quer. –ela disse cheia de tristeza no olhar.
Uma coisa era certa, se tinha alguém que torcia por mim e pelo Rafael, com certeza era a Maria. Fiz, mais uma horinha na piscina, depois saí e fui direto para cozinha comer alguma coisa. Minha mãe estava lá.
–Mãe a piscina estava uma delícia, devia ter entrado comigo.
–Faz tanto tempo que não uso essa piscina, com certeza deveria mesmo. Mas vem aqui, come alguma coisa, você já não almoçou.
Ela preparou uma mesa de lanche da tarde repleta de pães, bolo simples, bolo recheado, suco, chá, frutas, queijos, presunto, cereais, enfim, se eu tivesse comido tudo o que tinha lá, com certeza engordaria uns cinco quilos.
Minha mãe sentou-se comigo e chamei Maria para sentar-se também. No começo ela relutou, mas depois com muita insistência minha e de minha mãe, ela acabou concordando. Fazia muito tempo que nós não tínhamos um tempo assim, para podermos conversar, dar risada, fofocar; foi muito bom com certeza. No final da tarde, subi para arrumar-me.
Como Léo não sabia o caminho de casa combinamos um ponto de referência na cidade para nos encontrarmos. Ele estava com um carro de aluguel, fiquei parada na avenida encostada na CRV da minha mãe. Quando ele se aproximou os faróis do carro começaram a piscar sem parar.
Como na cena de um filme, ele parou o carro, correu em minha direção, me tomando nos braços dele e me girando. Beijou-me apaixonadamente. Quanto ao meu beijo, já não era o mesmo. Não sentia mais aquela paixão do começo, embora ele não merecesse.
–Ei, minha linda, quantas saudades de você!  –disse Léo, olhando no fundo dos meus olhos.
–Também estava com saudades. –respondi o abraçando fortemente.
 E foi sincero o que eu disse, porque o Léo além de tudo ele era meu porto seguro. 
–Vamos que meus pais estão doidos para conhecerem você.
Ele suspirou.
–Jura que nós vamos em carros separados, queria ir sentindo seu cheiro, segurando sua mão. –disse ele salpicando beijinhos em meu rosto.
–É rápido, eu prometo.
–Hum você está tão cheirosa, tão linda, gostosa. –continuou Léo dando-me mais beijos.
–Vamos Léo, depois a gente mata a saudades. –disse dando de ombros.
Ele saiu levantando as mãos para o céu.
–Essa mulher me mata senhor!
Sorri ao escutar isso.
Vinte minutos depois, estávamos estacionando os carros em frente à casa da fazenda.  Gelei ao ver o Rafael encostado no pilar da área externa conversando com meus pais.
Saímos do carro, Léo sempre muito bem vestido, diria que ele era o homem mais elegante que eu já tinha visto. Ainda estava com as roupas da reunião, usava calça social preta, camisa branca, e um terno preto aberto por cima, apenas tinha tirado a gravata.
Ele foi em minha direção e pegou uma das minhas mãos, e caminhamos até a casa. Os olhares do Rafael e dos meus pais se voltaram para nós. Rafael não escondia sua decepção.
Subi as escadas com meus olhos em Rafael, Léo sussurrou algo do qual nem ouvi direito. Ficamos frente à frente com meus pais e com ele.
–Pai, mãe esse é o Leonardo.
Rafael me fuzilou com o olhar, cruzando os braços, e mordendo o lábio inferior.
–Boa noite! –disse o Léo estendendo as mãos para o meu pai.
–É um prazer conhecê-lo, Sr.Fernando Holpe.
–Boa noite, filho, o prazer é todo meu, e, por favor, só Fernando.
Léo concordou com a cabeça.
–Boa noite, Léo, seja bem-vindo! É um prazer conhecer você pessoalmente. –disse minha mãe estendendo-lhe a mão.
–Boa noite Dona Clara, o prazer é todo meu. Agora vejo porque minha noiva é tão bela. –Léo disse sendo todo simpático.
Minha mãe corou.
–Obrigada meu filho.
–E esse é o Rafael. –eu disse sentindo meu estomago dar um nó.
–Ah, seu irmão! Prazer em conhecê-lo Rafael. –disse Léo estendendo a mão para ele.
Rafael, não estendeu de volta.
–Irmão? É isso que nós somos? –disse Rafa me encarando com o olhar pesaroso.
Todos olharam para ele, em seguida para mim. Senti uma bomba relógio no ar prestes a explodir.
–Quero dizer, irmão de criação. Desculpa! Falei algo de errado? –perguntou Léo, todo sem jeito.
–Rafael por que você não sobe e toma um banho. –disse minha mãe aflita.
–Rafael, cumprimente o noivo da sua irmã! –disse meu pai já irritado.
–A Ana não é minha irmã! Por que vocês insistem nisso?
Meu pai olhou para Rafael sem entender o que estava se passando. Rafa olhou para mim, e olhei em pânico para ele.
–Oi, sou o Rafael, cresci com a Ana, mas não somos irmãos.
Os dois apertaram as mãos e o Rafael em seguida desceu as escadas. Minha mãe saiu atrás dele, chamando-o, até que ele parou e ela lhe disse alguma coisa, Rafael olhou para a gente, mas foi embora em seguida. Minha mãe subiu as escadas, vindo em nossa direção toda chateada.
–Me desculpe Leonardo. O Rafael não costuma agir dessa maneira, é que ele está passando por alguns problemas.
–Não, tudo bem! Não se preocupe Dona Clara, eu sei como são essas coisas.
–Vamos entrar! –disse meu pai, que também parecia bem chateado.
Seguimos para sala.
–Sente-se, fique à vontade, sinta-se em casa. –disse meu pai.
–Você bebe alguma coisa? Uísque, cerveja, água?
Léo me olhou, parecia perdido.
–Posso te preparar um uísque Léo? –perguntei.
 Ele fez que sim com a cabeça.
Entreguei-lhe uma dose de uísque dezoito anos e ele pegou sem hesitar.
–E o Senhor, sente-se melhor?
Meu pai suspirou.
–Ah, bem melhor.! Foi apenas um susto, quinze dias hoje não é Clara? –perguntou meu pai.
Minha mãe fez que sim com a cabeça.
–Fiz um repouso forçado, estou sendo medicado, mas graças a Deus está tudo bem.
–É, o repouso é tudo. –comentou Léo.
–Com certeza sim, mas é difícil hein? –disse meu pai fazendo careta.
–É difícil mantê-lo em casa Léo, quando menos espero ele já escapou. –brincou minha mãe.
Todos nós rimos.
–Então você estava por aqui? –disse meu pai, puxando assunto.
–Estava. Cheguei ontem. Nós tivemos uma reunião importante aqui em Porto Alegre.
–E como funciona isso que você faz? –indagou meu pai.
Léo deu um gole em seu uísque.
–É o seguinte, a empresa em que trabalho, na verdade funciona como uma financiadora. Pesquisamos grandes ou pequenas empresas que estão no vermelho ou prestes a falir e passamos a administrá-las. E claro, é necessário injetar muito dinheiro para recuperá-las. Quando elas começam a engrenar, a andar com suas próprias pernas, parte do lucro e uma porcentagem das ações das empresas passam a ser da nossa empresa.
–Ah, então o prazer de vocês, é a desgraça dos outros. –disse meu pai dando uma piscadela.
Fiquei envergonhada com o comentário descabido do meu pai.
–É, digamos que sim! Eu prefiro encarar de outra forma. Nós salvamos empresas, evitando milhares de desempregos. –respondeu Léo, dando outro gole em seu uísque.
–Entretanto, sua interpretação também pode estar correta Fernando, porque se essas empresas não precisassem do nosso dinheiro, nós não iríamos ter esse giro de ações. Dessa forma eu quem estaria desempregado. –disse Léo sorrindo.
–E você sempre morou em Seattle?
–Não, meus pais moram em São Paulo. Meu pai é dono de uma financiadora.
–Que bacana! Os dois no mesmo ramo. –disse meu pai.
–Praticamente sim. –disse Léo tomando um gole do uísque.
–Mas conheci a Ana em Seattle, ela foi a evento da agência e eu também estava estava presente. –disse Léo todo orgulhoso.
–Ela nos disse. –disse minha mãe toda sorridente.
–Mundo pequeno, não é meu filho. Os dois saem do Brasil para se conhecerem em outro país.
Léo olhou para mim, dando uma piscada.
–Foi a melhor coisa que Seattle me proporcionou. –disse ele sorridente.
Sorri, sentindo um remorso imenso dentro de mim.
–Mas e a fazenda Fernando como funciona? –indagou Léo.
Eu e minha mãe deixamos os dois falando dos negócios e fomos para a cozinha.
–Mãe, o que aconteceu com a o Rafael?
–Minha filha, ele andou bebendo e veio aqui. Vem aqui! –disse ela me puxando para longe da Maria.
–Ele queria falar com seu pai sobre vocês. Implorei para ele não fazer isso. Ele começou a discutir comigo, então seu pai apareceu, quando ele ia começar a falar, vocês chegaram.
–E o que você disse a ele quando ele estava indo embora?
–Ana, eu estava muito nervosa.  Perguntei a ele se era assim que ele queria ver o seu bem, difamando você na frente do seu pai e do seu noivo. E que se ele fizesse isso, ele corria o risco de perdê-la para sempre.
Suspirei exasperada. Maria preparava o jantar, mas também parecia preocupada com o Rafael.
Voltei para a sala, continuamos conversando. A essa altura o assunto já tinha mudado, meu pai falava sobre a paixão por cavalos, por leilões, pescaria, e então os dois acharam um amor em comum, Léo também adorava uma boa pescaria.
Mais tarde o jantar foi servido. Léo adorou o tempero de Maria. Depois do jantar, voltamos para a sala, minha mãe juntou-se a nós, e mais uma vez desculpou-se pelo Rafael.
–Léo, estou muito envergonhada com a atitude do Rafael, me desculpe novamente.
-–Clara, não se preocupe! Toda família tem seus problemas, e não é fácil o que ele está passando, a Ana me contou por cima, é um assunto delicado, temos que ser pacientes.
–É! Eu disse isso a ela. –disse meu pai. –Mas ela faz questão de ficar tocando no assunto, foi ontem ao médico com a garota e quis a todo custo contar detalhe por detalhe da consulta! –disse meu pai advertindo-a.
–O Rafael precisa ter o tempo dele, ninguém pode forçá-lo. Daqui a pouco, ele mesmo sentirá a necessidade de acompanhá-la nas consultas. Pode não ser na próxima vez, nem na próxima. Mas logo estará acompanhando a garota, e então, assim que ele escutar o coraçãozinho pela priemira vez, se sentirá pai com certeza. –disse Léo convicto.
–Tá vendo! –disse meu pai olhando para minha mãe. –Falei a mesma coisa.
Uma tristeza invadiu meu peito, Leonardo realmente tinha razão, bastava à primeira ida ao pediatra, que o Rafael se apaixonaria pelo seu filho. E por mais egoísta que possa parecer senti um ciúme gigante crescendo em meu peito.
Já era quase meia noite e ainda estávamos conversando, mas meu pai começou a dar sinais de que estava cansado.
–Meus filhos, me deem licença, mas já vou me recolher. –disse meu pai, levantando-se.
 Léo levantou-se para apertar sua mão.
–Fiquem à vontade! E Leonardo como eu disse, sinta-se em casa.
–Obrigado Fernando e boa noite para o senhor.
Minha mãe fez a mesma coisa.
–Léo, arrumei o quarto de hóspedes, tem tudo o que você precisa. Mas qualquer coisa pode me avisar, ou avise a Ana, quero que você se sinta em casa.
–Agradeço Clara, já estou me sentindo em casa, fica tranquila, e obrigado pelo jantar maravilhoso.
Minha mãe despediu-se de nós e subiu em seguida.
–Então podemos fazer amor aqui na sala? –perguntou Léo.
–Como assim.
–Seu pai falou para eu me sentir e casa, e em casa fazemos amor em toda parte. –disse ele com um sorriso malicioso no rosto.
–Seu bobo! –disse batendo-lhe com uma almofada.
Fomos até o carro, pegar a mala dele. Ele deixou a mala no canto da escada, e demos uma volta pelo jardim, que estava todo iluminado. Sentamos um pouco e Léo tirou o terno, ficando apenas de camisa.
–Ana, esse lugar é lindo! É inexplicável a paz que ele transmite.
–Você não viu nada! Amanhã vamos conhecer tudo, e a cavalo.
–Hummm. Não pode ser caminhando? –Léo perguntou sorrindo.
 Léo não era muito de animais. Ele gostava, mas desde que se mantivessem à uma certa distância dele.
Estavamos andando e ele parou e beijou-me, carinhosamente, com meu rosto entre as suas mãos.
–Te amo, minha linda, te amo muito!
Eu o abracei, mas não consegui responder o mesmo. E nós nos beijamos. Rezei silenciosamente para que Rafael não chegasse naquele momento. Eu não queria que além de tudo, ele me visse beijando o Léo.
Algum tempo depois subimos e eu mostrei-lhe seu quarto, Léo colocou a mala sobre a cama, abriu e tirou uma caixinha preta da CARTIER, entregando-me.
–Léo, você é louco? O que é isso?
–Sou louco por você! –ele disse sorridente.
Sorri nervosamente em resposta. Abri, era um bracelete em ouro rosa, com o símbolo do infinito em cima.
–Perfeita Léo! Amei.
Senti um nó formar-se em minha garganta, naquele momento não me sentia digna em ganhar nem uma bala dele, muito menos algo de valor.
Dei-lhe um beijo. E coloquei imediatamente o bracelete e o abracei forte, queria poder voltar no tempo. Léo era um homem perfeito, gentil, amável, amigo e eu não podia magoá-lo.
Instantes depois, ajudei-o com as roupas e as coisas do banho. Enquanto ele foi tomar um banho, fui para o meu quarto. Chequei meu celular, havia uma mensagem do Rafael.
Ana você acabou comigo!
Sentei-me sobre a cama, arrasada por ler aquelas palavras. Digitei o número dele e apertei o verde, mas só caia na caixa postal.
De repente, escutei bater em minha porta. Abri, e acabei rindo. Era o Léo, na ponta dos pés, ele vestia camiseta branca e shorts da Polo. Bem diferente de quando ficava em meu apartamento, que usava apenas suas cuecas boxes. E como sempre ele estava todo cheiroso e com os cabelos molhados.
–Posso ficar aqui um pouco?
Olhei em direção ao quarto dos meus pais, já era mais de uma hora da manhã.
–Promete se comportar? –perguntei com um sorriso nos lábios.
–Palavra de escoteiro! –ele disse com a mão na cabeça.
Deixei-o entrar e em seguida ele mergulhou em minha cama, deitando-se em meu travesseiro, com as mãos sob a cabeça.
Fui ao meu banheiro, e voltei apenas de pijama.
–Então foi aqui que você cresceu? Imagino você adolescente aqui, sentada nessa cama. Você tinha um diário, não é? Toda garota tem um diário.
–Meus segredos eram só meus, nunca os dividi nem com os diários. –falei dando-lhe um sorriso triste.
 Ele puxou-me sobre seu corpo e me beijou, suas mãos deslizavam meu corpo, levou uma de suas mãos dentro da minha blusa, apalpando meu seio. Sua ereção cresceu sob mim. Mas eu o parei.
–Não Léo, aqui, não!
–Ana estou louco de vontade de você! Só pensei nisso desde que a vi.
–Aqui não dá, sei lá, não rola. Meus pais estão no quarto ao lado. Não é certo.
 Ele sentou-se.
–Você tem razão! –ele disse disfarçando sua frustração.
–E quanto ao seu irmão? Não parecia nada bem. Parecia estar com raiva de mim, sei lá.  E porque ele falou daquela maneira com você?
Suspirei, tentando ganhar um pouco de tempo para pensar no que dizer.
–É que hoje à tarde nós discutimos e eu caí na besteira de jogar na cara dele que ele não era meu irmão. E acho que ele ficou muito mal com isso, e eu também.
–Você não deveria falar assim, imagina se fosse o contrário e ele tacasse isso na sua cara! Mas ele também foi muito estúpido, sei lá, parecia estar com ódio.
–Eu sei Léo, me arrependi depois. Fiquei preocupada porque o Rafael não é de tratar as pessoas assim e ele nunca age desta maneira, ele é um cara muito bacana. Mas a culpa foi minha.
–Eu sei linda, não precisa se explicar. Vem aqui!
 Léo me puxou para deitar sobre seu peito, eu deitei. E ainda assim, não conseguia parar de pensar em Rafael, e em como ele estava.
Léo ficou acariciando meus cabelos e assim acabei pegando no sono.
–Acordei já era umas quatro horas da manhã. O Léo não estava mais lá, ele tinha voltado para o seu quarto, mas me deixou no meu travesseiro e coberta, feito uma criança. Dei uma olhada em meu celular para verificar se o Rafael havia me mandado outra mensagem, mas não tinha nem sinal dele. Voltei a dormir e acordei por das nove horas da manhã, o ar da fazenda me deixava cada dia mais dorminhoca.
Tomei um banho, vesti um jeans e uma camisa branca, o dia estava nublado. Então peguei um cardigã vermelho e coloquei sobre a camisa.
 Passei pelo quarto do Rafael, estava vazio, tudo no seu lugar, senti uma tristeza imensa. O quarto do Léo também estava vazio, o que indicava que ele já havia descido.
–Bom dia Maria!
–Bom dia Ana, dormiu bem? –Maria perguntou toda preocupada.
Sorri sem graça.
–Dormi sim! O Léo já tomou café da manhã?
–Já sim filha, ele acordou bem cedo, tomou café da manhã e saiu com seu pai. Ele é simpático Ana, é todo engomadinho, mas é bem simpático.
–Ele é sim.
“Eu quem não o mereço. ” Pensei.
–Bom dia filha. Dormiu bem? –perguntou minha mãe adentrando a cozinha.
–Bom dia mãe. Está tudo bem, e o Rafael? Tem notícias dele?
–Ele está na fazenda, já nos falamos. Veio me pedir desculpa por ontem. Ele e seu pai também já conversaram.
Naquela manhã, fui para a cidade com minha mãe, ela precisava comprar algumas coisas para o almoço, e eu queria comprar um presente para Maria em agradecimento pelo cuidado que ela tinha comigo.
Fomos a uma boutique onde vendia roupas para senhoras. Com a ajuda da minha mãe fiz uma boa compra para a Maria. Pedi que minha mãe também escolhesse um presente, muito relutante ela escolheu um conjunto de terninho e saia na cor azul petróleo.
Saindo da boutique, vimos a Fernanda com uma amiga, vindo ao nosso encontro. Fernanda tragava um cigarro, mas disfarçou assim que nos viu, jogando o cigarro fora. Mesmo que ela quisesse, não tinha como não parar para nos cumprimentar.
–Oi dona Clara, oi Ana tudo bem com vocês?  –disse ela nos dando beijinho no rosto.
 Exalava nicotina pelos poros dela.
Não tive vontade e nem reação em conversar com ela, aliás, senti meu sangue pulsando apenas em vê-la em minha frente.
Minha mãe não disfarçou a decepção ao vê-la fumando, sabendo o mal que estava fazendo para o bebê.
–Oi Fernanda, como vai?
–Tudo bem dona Clara, começaram os enjoos, mas até que não estou sofrendo tanto.
Minha mãe deu um sorriso amarelo.
–Mas você precisa parar, não faz bem a você, muito menos ao bebê.
Fernanda ficou ainda mais sem graça.
–Eu sei, mas já estou conseguindo parar, fumo um cigarro por dia, eu fumava bem mais, mas estou me policiando. Mas irei parar de vez, com certeza.
Minha mãe sorriu mais aliviada.
–Ana, você fica na cidade até quando?
Suspirei, sentindo-me desconfortável.
–Vou embora nesse final de semana.
Ela sorriu, porém, me fitava com os olhos, parecia ler meus pensamentos.
–Vamos mãe? –disse apressadamente.
Minha mãe fez que sim com a cabeça.
–Dona Clara e o Rafael como está?
–Está bem! Trabalhando muito, quase não tem tempo de ficar em casa, a vida dele é muito corrida.
–Eu imagino! E ele viu o ultrassom? Como ele reagiu? –perguntou Fernanda.
–Mostrei a ele. Ele ficou calado, mas você sabe, homens não são como nós.
–É só uma questão de tempo, tenho certeza! –falou Fernanda convicta.
Minha mãe, apenas sorriu concordando com a cabeça.
Nos despedimos de Fernanda e ela e a amiga foram para o sentido oposto do nosso.
– Ana, acho que fomos muito grossas, não acha? É que fiquei tão sem reação quando a vi com o cigarro.
–Você foi sincera mãe! E se demonstrou preocupada com ela e com o bebê. Ela não é nenhuma criança que não sabe o que pode e o que não pode.
–É verdade, eu fiquei acanhada ao vê-la fazendo isso, imagine ela como não se sentiu quando nos viu?
–Concordei, mas não disse nada. Por mais que eu não gostasse da Fernanda, não achava certo ficar colocando minha mãe contra ela.
Fomos ao supermercado e seguimos para casa.

Meu pai e o Léo estavam se dando bem. Assim que chegamos, minha mãe seguiu para cozinha, me ofereci para ajudá-las, mas minha mãe fez questão que eu ficasse com o Léo. Fiquei sentada na cadeira de balanço que ficava na área, observando meu pai e o Léo conversarem bem em frente a mim, no jardim. Léo me viu, deu um largo sorriso e me abanou a mão. Foi quando vi a caminhonete do Rafael passar, ele estava saindo, olhou para a minha direção, mas não demonstrou nenhuma reação. Senti meu coração dilacerar.

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