quarta-feira, 22 de julho de 2015

Faça por mim Parte 08 por Érika Prevideli

Faça por mim

Parte 08



13

Clara
Terça-feira, foi a mesma coisa. Acordei cedo, saí para correr na fazenda, corri cerca de nove quilômetros, o sol já estralava sobre minha pele, mas nem sinal do Rafael. Após o almoço, troquei algumas mensagens com a Rebeca. Soube que o Rafa foi trabalhar, ainda estava de péssimo humor, soube também que Fernanda ligou novamente, mas ele não a atendeu. Rebeca também me disse que meu pai esteve lá, e eles saíram para conversar, e depois disso Rafael não voltou mais para a loja.
Digitei uma mensagem para ela.

Rebeca, não aguento mais isso! Esse silêncio está me matando, ficar na casa dos meus pais sem poder falar com o Rafael tornou-se uma tortura para mim.
Então decidi antecipar minha ida para São Paulo, vou aproveitar a vinda do Léo e nesse final de semana mesmo vou embora
Gostaria de te ver até lá. Obrigada por tudo, beijos. 
                                                                    Ana.
Ela visualizou a mensagem algumas horas depois.

Amiga, de desculpa, estou atarefada com algumas entregas, muito serviço aqui para fazer, e meu “patrão” está impaciente, você nem imagina.
Quanto a ir embora, não faz isso Ana! Tenta mais um pouco.
 Não sei se me acostumaria sem você por aqui?
Você em poucos dias tornou-se muito importante para mim. Gostaria de poder te ajudar, mas não sei como.
Vamos marcar alguma coisa no final de semana, ou se quiser ir a minha casa também será muito bem-vinda! Mas não tome nenhuma decisão precipitada.       
  Adoro você  
           RÊ

Passei o dia todo com meu pai, paparicando-o, embora ele já estivesse perfeitamente bem.
Na quarta-feira, mudei minha rotina. Fiquei na cama até tarde, assistindo telejornal e desenhos animados, estava totalmente sem ânimo para sair da cama.
–Ana, trouxe café, posso entrar?
Ouvi a voz de Maria.
–Entra, está aberta.
–Oi filha, está tão quietinha. Resolvi trazer alguma coisa para você comer. –disse ela toda cuidadosa.
Maria colocou uma bandeja com café, leite, cereais, pão, bolo e frutas ao lado da minha cama.
–Maria, obrigada! Não precisava! E minha mãe onde está?
Ela sentou-se na beirada da minha cama.
–Foi a tal consulta com a Fernanda, já que o Rafael não se interessou, sua mãe foi no lugar. Acho que para não ficar chato.
Senti um nó na barriga e um aperto no peito.
–O Rafa está na fazenda hoje. –disse ela, com um sorriso acolhedor para mim.
–Sério?
–Sério, minha filha.  Ele já entrou aqui, deu uma olhada na casa, mas não tinha ninguém, então ele tomou um café preto, e me perguntou como você estava.
–E? –perguntei ansiosa.
–E que eu disse a verdade ué. –disse Maria, levantando-se e indo em direção à porta balcão. –disse que você está péssima.
–Maria! –disse tacando-lhe uma almofada.
–Ah, minha filha, eu ia mentir?
–E ele?
–O Rafael está numa tristeza só. Quando falei como você estava, ele quase subiu para vir ao seu quarto falar com você. Mas seu pai chegou em seguida.
Minhas lágrimas começaram a cair novamente. No fundo tinha certeza que ele também estava sofrendo como eu.
O telefone tocou e Maria saiu em disparada. Saber que ele estava ali tão próximo era confortante e dolorido ao mesmo tempo.
 Praticamente nem toquei no café da manhã. Tomei um banho, coloquei um short branco com uma camisa jeans com as mangas dobradas e uma bota cano curto. Fiz uma trança e desci, segui para o celeiro pedir para o Tomas preparar um cavalo. Fiz sem olhar em direção ao escritório, que era bem próximo de onde eu estava.
Montei e saí para um passeio. Cavalguei cerca de uma hora, depois como de costume parei no lago, meu sexto sentido me dizia que o Rafael apareceria por lá.
Assim que me aproximei, avistei a caminhonete do Rafa parada entre as árvores. Meu coração acelerou, sentia o sangue correr mais rápido.  Caminhei bem devagar até ele. Rafael estava sentado sob a árvore em frente ao lago.
Desci e amarrei meu cavalo. Podia sentir Rafael me observar em cada movimento.
Não disse nada, arrumei meu cabelo, soltando a trança e deixando-o solto.
–Você fica linda de trança, sabia?
–Obrigada. –respondi secamente.
Dei a volta e sentei-me ao lado dele.
–E aí, resolveu aparecer? –isse sem esconder minha mágoa.
Olhei direto nos olhos dele, e ele nos meus. Seus olhos estavam mais verdes que o habitual, e a barba por fazer.  O pior é que estava ainda mais lindo.
–Desculpa Ana! Eu não, não.... Um silêncio o interrompeu, como se lhe faltassem às palavras.
Ele colocou seus cotovelos sobre as pernas e, e o rosto entre as mãos. Não sabia se eu falava sobre a raiva que estava sentindo por ele, ou se o consolava. Quando minhas mãos me traíram, acariciando-lhes os cabelos.
–Ei! Estava aflita de preocupação com você, por que você fez isso comigo Rafael?
Ele olhou para mim magoado.
–Eu não sabia nem como olhar para você. Fui um tremendo de um idiota, Ana. Como pude me deixar enganar assim.
–Você nunca me disse que tinha ido atrás dela, apenas que tinham se encontrado aqui.
–Eu fui, mas, sei lá,  estava entediado. E ela era uma transa fácil. É egoísta e péssimo da minha parte dizer isso, mas é a verdade. Ana, não sinto nada por ela, nada. Ela não tem nada a ver comigo, pode ser machismo, mas era um passatempo, nada sério.
Ele suspirou, parecia exausto.
–É, e esse passatempo vai te custar caro. Com isso, vocês terão uma ligação pelo resto da sua vida.  –disse consternada.
–Eu sei! Meu Deus, o que eu fiz! –disse ele passando as mãos nos cabelos. Como eu queria que fosse mentira.
Seu olhar penetrava na minha alma.
–E agora?
–Não sei.  –respondi com sinceridade.
Ele segurou meu rosto entre suas mãos, e me beijou. Parecia haver sofrimento em seu beijo. Encostou sua testa na minha e ficou olhando para os meus olhos.
–Ontem a Rebeca me mandou uma mensagem. Por favor, me fala que é mentira que você vai embora.
Eu me afastei, sabia que dependendo da minha resposta, acarretaria mais sofrimento para aquele momento.
–Rafael, eu preciso ir!
 Ele fez que não com a cabeça.
 –Preciso sim, sabe por quê? Você só vai conseguir tomar uma atitude correta depois que tiver partido. Você precisa ter esse tempo para você,  e é melhor eu não estar por perto.
–Não! Claro que não! Esses dias todos só pensei em falar com seu pai, quero me casar com você Ana. Eu assumo esse filho, é claro, não vou fugir das minhas responsabilidades, mas com você ao meu lado.
Eu ri, mas um riso de tristeza.
–Não é assim Rafael! Se já era difícil nossa situação antes, imagina agora! Meu pai nunca aceitaria eu e você juntos, principalmente tendo engravidado a filha do amigo dele.
–Vamos tentar falar com ele, por favor, Ana! –implorou Rafael.
Balancei a cabeça em tom de negação.
–Não dá Rafael, meu pai não pode passar por nenhum tipo de nervoso. E tem outra coisa.
Ele olhou para mim surpreso.
–O quê?
 –O Léo chega na sexta-feira.
 Como assim? Perguntou Rafael franzindo o cenho.
 –Você correu chamá-lo para ter uma desculpa para ir embora?
–Eu não o chamei. Ele tem uma conferência aqui em Porto Alegre, e disse que queria passar em Canela para conhecer meus pais. O que eu ia fazer?
Ele deu de ombros para mim, levantou-se, caminhou até a beira do lago, e voltou, soltando um riso irônico.
–Então era isso o tempo todo! Como eu sou burro.
Arqueei minhas sobrancelhas.
–Como assim?
–Você vem, bagunça minha vida, me deixa louco, mas na verdade você sempre soube que seria só uma distração e ia embora.
–O quê? Não me compare com você, que porque estava entediado saí com qualquer vagabunda, e muito menos, me trate como uma vagabunda! Você nunca foi uma distração para mim.
 Levantei ficando de frente a ele.
–O Léo é meu noivo, você queria o quê? Que eu dissesse para ele não vir porque o cara que foi criado comigo e com quem estou transando está cheio de problemas porque é um irresponsável! –disse alterada.
–Posso ter sido irresponsável, mas é você quem quer fugir. –ele disse elevando o tom de voz.
Virei-me de costas, mas voltei em seguida.
–Fugir? Hahaha você deve estar de brincadeira! Estou te procurando, tentando falar com você faz quatro dias, e você nem aí para mim, te liguei, mandei mensagem, fui à sua casa, e nada. –disse elevando mais ainda o tom de voz. –Você é tão egoísta, que só estava preocupado com você, mas e eu? Você nem ao menos se perguntou como eu estava me sentindo com tudo isso? Na tarde do sábado estávamos tudo bem, e após o jantar do mesmo dia descubro que você vai ser pai! E eu Rafael? E eu?
–Tive vergonha de falar com você! Medo, covardia, não sei. Fiquei louco, meu mundo desabou sobre mim Ana. Mas eu preciso de você aqui comigo.
–É você teve medo igual da outra vez que transou comigo e depois me ignorou, por dias, meses, anos. –disse com dificuldade para respirar.
–Então vai Ana! Foge! É mais fácil, não é?
 Fiquei irada, saí em direção ao meu cavalo, desamarrei-o, montei, e fui até ele.
–Sabe qual é a diferença entre você e o Leonardo? É que o Léo me faz sentir importante na vida dele, se ele tem algum problema seja ele qual for, é para mim que ele corre, o Léo sabe que sempre irei escutá-lo, dar conselhos, ou apenas conversar. Agora você não! Você se isola, não importa quem você machuque e pode apostar que machuca demais esse gelo que você dá em quem está ao seu lado.
Saí em disparada. Fiquei cega de ódio, ele queria arrumar alguém para colocar a culpa dos seus problemas, mas definitivamente não seria eu.
Voltei para casa e saí com a caminhonete do meu pai. Fui para a cidade esfriar a cabeça, fiz umas compras, passei na loja do Rafael para falar com Rebeca. Ela estava atendendo umas pessoas, então fiquei circulando pela loja enquanto ela terminava.
–E aí Ana, tudo bem? –disse Rebeca vindo ao meu encontro algum tempo depois.
–Oi, tudo bem! –respondi.
Não sei a cara que fiz, mas ela pegou minhas mãos apertando-as.
–Você não me parece bem, quer beber alguma coisa?
–Não obrigada! Estou indo almoçar, mas passei daqui para saber se você quer dar uma volta hoje à noite. Poderíamos levar o Arthur para Gramado no parque, cinema, sei lá. É que eu só preciso sair um pouco e espairecer.
–Podemos ir sim, claro, ele vai adorar.
–Passo da sua casa então, umas oito horas pode ser?
–Claro, pode sim Ana. Mas você está bem, mesmo? Fique aqui mais um pouco.
–Não, tudo bem. Vejo você a noite.
Despedimo-nos, enquanto entrou um casal para ver alguns móveis. Ela me acompanhou, chamando outro vendedor para atendê-los. Voltei para casa e fiquei o dia todo com meu pai, bajulando-o o dia todo, mas era nítido a preocupação dele com o Rafael.
Mais tarde, liguei para reservar minha passagem de volta para São Paulo, o horário do voo era no domingo às sete horas da manhã. Deitei um pouco para descansar, pois  me sentia mentalmente esgotava. Acabei pegando no sono. Pelo tanto que dormi, parecia mais que havia entrado em um coma.
Acordei já passava das sete horas, tomei um banho rápido, prendi meus cabelos em um rabo de cavalo, coloquei um vestidinho branco de algodão que eu havia comprado em uma viagem no exterior com o Léo, e um par de sandálias coral. O branco destacou minha pele morena, realcei meus olhos com lápis e rímel, e passei um batom cor de boca. Em quarenta minutos estava pronta.
Estava descendo as escadas quando ouvi a voz do Rafael. Diminui um pouco os passos para ver se escutava o que eles diziam.
–Madrinha, se eu não fui, é porque não quero saber notícias da Fernanda. A senhora não tinha que ter ido.
–Mas Rafa achei chato. E agora pelo menos sabemos que grávida é certeza que ela está! –disse minha mãe.
Ele ficou em silêncio
–Precisa ver Fernando, que coisa mais linda, deu até para escutar coraçãozinho, olha aqui o ultrassom, Olha Rafael. –insistiu ela.
Ainda estava parada no topo da escada, eles não podiam me ver.
–Olha Rafael, que coisinha mais sagrada!
Ele continuou em silêncio. Desci as escadas, e assim que eles me viram todos os olhos voltaram-se para mim. Rafael que estava olhando o ultrassom, abaixou-o assim que me viu.
–Como você está bonita filha, vai aonde? –perguntou meu pai.
–Vou sair. –respondi inclinando-me e dando um beijo em seu rosto. –Você pode me emprestar sua caminhonete novamente?
O olhar de Rafael se cruzou com o meu, parecia arrependido do que havia dito horas antes.
–Vai com meu carro filha! –disse minha mãe.
–Não! Não precisa. –falei secamente.
Não queria transparecer, mas estava odiando minha mãe naquele momento.
–Claro Ana, vai com a caminhonete. Fica à vontade. –disse meu pai.
–Você viu filha? Aqui está à foto do bebê. –disse ele todo inocente.
–É ultrassom Nando, não é foto. –corrigiu minha mãe.
–Ah sei lá, tudo a mesma coisa, mas olha aqui Ana, que coisa perfeita.
Olhei o ultrassom, senti meu coração bater mais acelerado, devo ter feito à cara mais infeliz que pude.
–Parabéns Rafael.
Ele balançou a cabeça, mas não disse nada. Peguei as chaves e saí.
Foi humilhante aquela cena para mim. E seria assim sempre; a cada ultrassom, a cada consulta, quando o bebê nascesse; enfim, ficar ali seria uma tortura crucial. Então, mais do que nunca ir embora era a melhor opção.
Eu, Rebeca e Arthur fomos em um parque em Gramado. Dei de presente a ele um cartão permanente, no qual enquanto o parque estivesse na cidade ele podia brincar à vontade. Era meu presente de despedida. Rebeca não queria aceitar, mas de tanto eu insistir e de ver a alegria de Arthur ela acabou aceitando.
Mais tarde fomos a um restaurante que havia por perto do parque para fechar à noite. Arthur quis ir brincar com as crianças que estavam ali em uma sala de jogos. Assim eu e Rebeca conseguimos conversar.
–Ana, vocês se conversaram? –indagou Rebeca.
–Conversamos sim! Mas foi um desastre, acabamos discutindo. Ele disse queria falar com meu pai, mas eu disse que agora as coisas tinham se complicado ainda mais, e quando contei que o Léo viria para cá, ele acabou comigo. Disse que eu brinquei com os sentimentos dele, pois eu nunca tive a intenção de ficar, você acredita?
–Que babaca! Não acredito que ele fez isso? –contestou Rebeca.
–Mas por que você não tenta falar com seu pai? Sei lá, de repente ele concorda numa boa.
Suspirei profundamente.
–Rebeca não dá! Principalemente depois do que vi agora a pouco. Quando estava saindo para ir buscar você e o Arthur, o Rafael estava em casa conversando com meus pais; minha mãe contava a ele sobre a consulta em que ela acompanhou a Fernanda, falando cada detalhe. Depois insistiu para que ele olhasse para o ultrassom, parecia que ela estava forçando a barra. Foi então que senti que para mim não dá! Acho que sou egoísta demais para tê-lo pela metade.
Respirei fundo, meu coração chegava a doer.
–Vai ser sempre assim! Mesmo que ele fique comigo, sempre terá essa criança, que eu sei que não tem culpa de absolutamente nada, mas ela estará sempre por perto. Meus pais ficariam loucos com o neto ou a neta. Isso sem falar da Fernanda que nunca mais sairá do pé dele.
Rebeca apenas concordou com a cabeça.
–E ainda tem a minha mãe. Ela descobriu sobre a gente. Ficou uma fera. Mas em seguida veio a história da gravidez, acho que pra ela essa notícia acabou vindo em boa hora. Pelo menos assim pouparíamos o meu pai de uma decepção maior. Ela conversou comigo e em um desabafo disse que era melhor eu ir embora, não disse com essas palavras, mas foi o que ela quis dizer. Disse que somente depois que eu for embora, o Rafael encarará o fato da Fernanda estar grávida, ele tomará uma decisão somente quando eu estiver longe
–Sério que ela te falou isso? –questionou Rebeca.
Balancei a cabeça afirmando.
–Mas não foi por mal, eu sei! E no fundo acho que ela tem razão.  Sabe Rebeca, eu moro fora desde os meus dezesseis anos. Fiquei dois anos nos Estados Unidos e no Canadá, depois fui fazer faculdade fora, assim que terminei a faculdade fui para São Paulo, então ela se acostumou tanto a só cuidar do Rafael, que mesmo inconscientemente sou tratada como visita em minha própria casa, e a visita quando demora em ir embora começa a incomodar os outros. E nesse caso é assim, porque desde que cheguei muitas coisas aconteceram, ela ficou sabendo a verdade sobre mim e o Rafael, depois foi à gravidez. Então se eu for embora às coisas realmente ficarão mais fáceis.
Ela balançou a cabeça, concordou com que eu estava falando e me deu um abraço.
–Por que as coisas precisam ser tão difíceis?  Vocês se amam tanto, não é justo! Mas o que você precisar, pode contar comigo. Ajudarei no que for preciso, no que estiver ao meu alcance, pode ter certeza!  Descobri em você uma amiga que nunca tive. –disse Rebeca sensibilizada.
–Não fala assim! Já estou chorona, não me faça chorar mais! –disse enxugando minhas lágrimas.
As lágrimas de Rebeca também começaram a cair e logo Arthur voltou para a nossa mesa.
–Por que você está chorando tia?
–Ohhh, meu amorzinho, não é nada, a tia estava falando que amei conhecer você, e que quando você quiser ir me visitar fala para a sua mãe que vocês podem ficar em minha casa. E faremos várias coisas legais.
Rebeca deu uma piscadela para mim. Arthur me abraçou, e fez que sim com a cabeça.
–Mas você vai voltar para me ver? –disse ele dengoso.
–Claro que sim! Sempre que puder estarei aqui, eu prometo!
Ele sorriu, e eu também sorri ao ver aquele sorriso sincero.
–Mãe, estou com sono. –disse Arthur.
–Nós já vamos, filho. –respondeu Rebeca.
 Peguei a comanda e ela abriu a bolsa para pegar o dinheiro.
–Não! Nem pensar. Eu convidei vocês.
–Não Ana! Não é justo.
–Por favor, Rebeca, deixa-me fazer isso.
–Tudo bem. –disse ela, contrariada.
Voltamos para Canela e assim que cheguei em frente casa de Rebeca nos despedimos, ela me abraçou emocionada, em seguida fui embora.
No caminho de casa, um farol no meio da estrada piscou para mim, diminuí a velocidade e vi que era o Rafael. Ele desceu da caminhonete e fez sinal para entrar na minha. Destravei a porta e ele entrou. Rafael não disse nada, apenas encostou a cabeça no banco.
–Olha Rafael, eu não estou a fim de brigar com você! Então, por favor, não torne as coisas mais difíceis para mim do que já estão.
Rafael ficou em silêncio, olhando para teto do carro.
–Como a nossa vida muda de uma hora para outra.
Só fiz que sim com a cabeça.
Rafael olhou penaroso para mim. Olhei para ele, estava com os olhos cheios de lágrimas, não queria chorar perto dele, mas não pude evitar. Ele me abraçou. O abraço dele era tudo o que precisava naquele momento.
–Desculpa! Me desculpa. Me desculpa mil vezes! Fui completo idiota. Você é a última pessoa do mundo que merece ser destratada.
Minhas lágrimas caiam ainda mais. Cheguei até a molhar a camisa dele.  Ficamos ali, por algum tempo. Apenas abraçados, não conseguiamos falar mais nada.
–Vamos pra nossa casa um pouco?
–Não, eu preciso ir embora. Mas obrigada mesmo assim.
Ele balançou a cabeça decepcionado, me selou os lábios e se foi.
Minha vontade era de ir correndo para a casa dele, claro que sim! Entretanto, eu não podia, não mais. Assim que cheguei em casa, guardei a caminhonete na garagem, quando uma luz se acendeu. Era minha mãe.
–Oi, filha, onde você foi?
–Por quê? –respondi friamente.
–Por nada! Estava preocupada. –ela respondeu.
Subi as escadas e ela foi atrás de mim. Entrei em meu quarto, ela também entrou fechando a porta.
–Eu fiz alguma coisa? –questionou ela.
-Não! Claro que não.
Dona Clara sentou-se me observando enquanto tirava minhas roupas, me enfiei em um pijama, escovei os dentes, removi a maquiagem, fiz xixi e ela ainda continuava ali.
–Mãe, está tarde, preciso dormir.
–Ana, o que está acontecendo?
Sentei-me na minha cama encostando meu corpo na cabeceira.
–Foi por que contei ao Rafa sobre a consulta? –perguntou ela.
–Quer saber mãe? Você não tinha nem que ter ido nessa consulta. Você nem sabe se esse filho é dele. E outra, você nem a conhece, isso é uma coisa que ela tem que ir acompanhada da mãe dela. –desabafei.
Ela ficou olhando-me imóvel.
–Ela tem que ir acompanhada do pai da criança. Só fui por esse motivo, porque ele não quis ir.
–Como você já disse, só eu indo embora as coisas se acertarão, não é? Então não se preocupe, nesse final de semana mesmo sairei da sua vida novamente.
–Filha pelo amor de Deus, você entendeu tudo errado. Me desculpe se foi essa a impressão que deu. Mas não é isso, quero te proteger para que você não sofra.
Ri balançando a cabeça.
–Ah, mãe pelo amor de Deus, me proteger? Quem você quer enganar? Essa gravidez veio na hora certa, não foi? Pelo menos eu e o Rafael de uma vez por todas seguiremos caminhos opostos.
Ela ficou sem palavras.
–Olha mãe, não estou te cobrando nada, não é isso. Só fiquei muito chateada, fiquei sim. Você fica forçando a barra com o Rafael com essa gravidez. Deixa ele, a vida é dele.  Foram eles que foram imprudentes e irresponsáveis. Você não tem que se intrometer. E outra, todos falam que essa Fernanda é uma desajuizada, bebe demais usa drogas demais. Será que vale a pena investir nesse relacionamento? Ainda assim, você parece fazer questão que seu filhinho se case com ela. Mas escreve uma coisa, se o Rafael se casar com ela, ele será o homem mais infeliz do mundo, porque ele não a ama. E só fará isso por consideração a vocês.
–Nossa filha! Não sei nem o que dizer.  Não sabia que você achava tudo isso de mim. –ela disse consternada.
Minha mãe levantou-se andando pelo quarto.
–Assim que você saiu, o Rafael discutiu comigo. Revoltou-se dizendo que eu estava forçando a barra; pegou as roupas dele e foi embora. E agora você me fala tudo isso.

Ela parou ficando de frente para a sacada do meu quarto. Acredito que estava chorando. Deitei na cama e me cobri. Ela ficou ali parada, mas logo saiu sem dizer nada. Me arrependi de cada palavra no mesmo instante, nunca havia falado daquela maneira com a minha mãe, mas era tarde demais e não tinha como voltar atrás.

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