Sob o olhar das Estrelas
autor: Érika Prevideli
Capítulo 1
Bruno - Seguindo
em frente
Eu
me recusava a aceitar. Como se não bastasse ver meu pai entrevado em uma cama
de hospital por mais de cinco meses, tudo por causa de um acidente de carro; depois
vê-lo partir de minha vida de uma forma tão dolorosa, deixando a mim e a minha
mãe totalmente perdidos, ainda teria que me afastar dos meus amigos do
condomínio onde morava.
Lucas,
Marcelinho e Vitinho eram meus melhores amigos, éramos inseparáveis, e sabíamos
que as coisas não seriam mais iguais assim que eu mudasse de cidade.
Era
uma manhã nublada de sexta-feira, e minha mãe ia e vinha carregando caixas e
colocando-as no caminhão da mudança.
— Filho, já está tudo pronto. Podemos ir?
Balancei
a cabeça em negação, nem me dando o trabalho de responder para a minha mãe e
fui andando na frente dela.
— Bruno, por favor! Não dificulte as coisas ainda mais.
Já te falei, Porto Alegre abrirá novas portas para nós, além da sua avó e da
sua tia morarem lá.
— Eu não quero a minha avó por perto! Quero meus amigos.
— falei com os olhos cheio de lágrimas.
Entrei
no carro da minha mãe e bati a porta com toda a força que eu podia, como se
isso fosse fazê-la mudar de ideia. Ela entrou no carro e olhou compassiva para
mim. No fundo eu sabia que as coisas não estavam sendo fáceis para ela, mas para
mim estavam ainda mais difíceis. Conforme ela ligou o carro, vi meus três
amigos vindo em nossa direção, cada um em sua bicicleta.
— Espera mãe! Vou me despedir deles.
Ela
imediatamente parou o carro e eu desci indo até eles. Eles me abraçaram e
embora achássemos coisa de maricas meninos da nossa idade chorarem, ainda assim
choramos.
— Ei cara, não se preocupe, em breve nos veremos. — disse
Lucas enxugando as lágrimas.
— Minha mãe disse que posso visitar você nas férias. — falou
Vitinho.
— É cara! E pensa nas minas gostosas que você vai conhecer. — completou
Marcelinho.
Nesse
momento todos nós rimos e minha mãe veio em nossa direção.
— Meninos, quando quiserem visitar o Bruno me avisem que
virei buscá-los, eu prometo.
Eles
sorriram forçadamente para ela e em seguida me abraçaram novamente.
— Vamos filho? — ela disse me abraçando.
Concordei
com a cabeça e assim deixamos Santa Maria para trás.
Por volta da uma hora da tarde, estávamos
estacionando nosso carro em frente ao edifício Sete Copas, onde seria meu novo
lar, e eu odiava pensar nisso.
O
caminhão com a mudança parou em seguida atrás de nós e o motorista foi até a
janela do nosso carro e disse que era só esperar o porteiro liberar a entrada.
Minha mãe concordou e em seguida olhou para mim, sorrindo aliviada.
— Chegamos meu filho. Olha como é lindo!
Não
olhei. Fingia não estar escutando. Descemos do carro e entramos no condomínio,
onde ela falou com o porteiro que já estava nos aguardando. Olhei ao redor e
tive que concordar com ela, o lugar era bonito e espaçoso. Havia coqueiros por
todos os lados e um enorme gramado, com flores de todos os tipos.
Quando
estávamos indo em direção ao elevador, vi uma garota sentada ao lado de uma
bicicleta aro vinte, branca e rosa. Ela estava com a cabeça baixa como se algo
tivesse a chateado. A menina tinha os cabelos marrons com tons dourados, e
estava vestindo short jeans, camiseta branca e tênis all star rosa, assim como
sua bicicleta.
— Olha Bruno uma amiguinha. Pergunte o nome dela.
Olhei
para minha mãe revirando os olhos, detestando aquele comentário imbecil.
Passei
pela garota, mas evitei encará-la. Embora ela fosse realmente bonita.
Lembrei-me no mesmo instante de Marcelinho falando algo sobre meninas gostosas.
Ela não era tão gostosa, provavelmente era mais nova do que eu, mas ainda assim
era atraente.
Fomos
para nosso apartamento no vigésimo andar. Dava até frio na barriga de tão alto.
Senti-me desconfortável, pois mesmo sendo um
apartamento legal e moderno, era pequeno demais para quem estava acostumado com
uma casa de quatro quartos, com um quintal enorme em um condomínio fechado.
— Isso aqui será nossa casa? — perguntei
incrédulo.
— Sim, você não gostou? — perguntou
minha mãe decepcionada.
— Mãe, não tem espaço nem para brincar. E como será
quando meus amigos vierem de Santa Maria para cá?
— É por isso que existe o playground. Para as crianças
brincarem, correrem, jogarem bola. Além da piscina, da área de lazer. Então não
se preocupe, você terá espaço de sobra para brincar.
Suspirei
tentando amenizar meu ódio do mundo. Fui até meu quarto, que era grande o
bastante para mim, com armários embutidos e uma cama espaçosa.
— Olha seu quarto que lindo, Bruno! —
ela exclamou.
—
Eu não achei. — falei mentindo e em
seguida caí na cama, colocando meu fone de ouvido e ligando um som do Pearl
Jam.
Nem
a cama era a minha que já estava acostumado, já que o quarto era todo em móveis
planejados.
Após
algumas horas de entra e sai de pessoas carregando móveis para lá e para cá,
tirei meu fone e enfim o apartamento estava em silêncio. Abri a porta do meu
quarto com cuidado e vi minha mãe organizando as roupas dela em seu quarto.
Desde
o acidente do meu pai, minha mãe, Ester Gregori Vicenzo uma promotora de
renome, havia emagrecido pelo menos uns dez quilos. Estava visivelmente abatida
e cansada. Assim que ela me viu abriu-me um sorriso.
— Oh meu amor, acordou? Está quase tudo pronto. Só falta
irmos ao supermercado abastecer a dispensa. Você quer ir comigo, ou prefere
ficar?
— Não sei. — falei me jogando sobre a cama
dela.
Senti
uma tristeza sem fim em meu coração. E mesmo sem querer comecei a chorar. Minha
mãe deitou-se ao meu lado e me abraçou.
— Filho, não fica assim! Vai dar tudo certo, eu prometo a
você. Nós seremos felizes aqui, tenho certeza.
Olhei
para ela desesperançoso.
— Você promete?
— Farei tudo o que estiver e não estiver ao meu alcance.
Você será muito feliz aqui, você vai ver.
Nós
nos abraçamos por um bom tempo. Mais tarde eu e minha mãe decidimos ir
finalmente ao supermercado e assim que chegamos no térreo, no hall social, a
tal garota estava novamente sentada lá e dessa vez parecia estar chorando.
— O que será que houve? — disse
minha mãe quase em sussurro.
— Sei lá, mas ela parecia estar chorando.
— Vai falar com ela filho?
— Tá louca, nem a conheço. — rebati dando de ombros.
Seguimos
para o supermercado, onde minha mãe não mediu esforços e nem dinheiro para
tentar me agradar. Comprou tudo o que eu queria e mais um pouco. Voltamos para
o prédio e não vi mais nem sinal da garota. Naquela noite, recebemos a visita
das minhas tias com meus primos pentelhos e da minha avó.
Pelo
menos isso seria legal, afinal, teria minha avó e minhas tias sempre por perto,
mas eu não disse isso para minha mãe, apenas não dar o braço a torcer.
2
Carol - Sensação
esquisita
Quando
eu vi o garoto de cabelo engraçado entrando no prédio, senti uma sensação
estranha, como se fosse um frio na barriga. Uma coisa que nunca tinha sentido
antes.
Ele
passou me olhando bem no momento que eu estava chateada com meu pai que como
sempre havia esquecido de me buscar na escola, me deixando um bom tempo
esperando por ele. E o pior que quando isso acontecia, eu não podia nem
reclamar, pois meu pai não admitia ser corrigido.
Eu
e meu pai - Ricardo Stuart, raramente nos dávamos bem. Ele era estúpido,
insensível e totalmente egoísta.
Minha
mãe, Marília Vicci Stuart, era o oposto. Ela era uma mulher doce, paciente e
sempre bem-humorada. Mas ficava fora o dia todo, pois era uma cirurgiã
cardiovascular e tinhas muitos e muitos clientes. Talvez fosse isso que mais
incomodava em meu pai: o fato dela ser bem-sucedida, ofuscando o brilho dele,
que só tinha quatro lojas de moveis, tudo graças a minha mãe, que bancou a loja
por anos, e somente depois de anos, meu pai conseguido decolar.
Naquela
sexta-feira, assim que o tal garoto e a mãe dele chegaram, corri para meu
apartamento no vigésimo andar e me trancafiei lá o dia todo. Tinha acabado de
fazer minha tarefa de inglês e comecei a ler um livro quando ouvi a porta se
abrir. Val, nossa secretária do lar havia ido embora, então corri ver quem era
e era meu pai.
Ele
entrou passando por mim e indo em direção ao quarto. Achei estranho ele estar
em casa naquela hora, pois não eram nem cinco da tarde e a loja fechava após às
seis horas. Depois de alguns minutos ele passou pela a sala e vi que havia
tomado banho e estava todo arrumado, e foi para cozinha, provavelmente beber
alguma coisa. Continuei a ler meu livro, fingindo que ele não estava lá,
afinal, ainda estava magoada com ele. Quando eu o vi parado me olhando.
— Carol! — ele esbravejou — Larga esse
livro! Por isso que está ficando uma menina alienada, de tanto ficar presa aqui
nesse apartamento. Vá brincar! arruma uma amiga para brincar. Daqui a pouco
ninguém mais vai querer ser sua amiga, de tão chatinha que você está ficando.
Olhei
para ele, sentindo meu coração doer.
— Vai garota! Desce um pouco, acorda para vida!
— Mas pai...
— Vai Carol! — exclamou ele, dessa vez em um tom ainda mais alto.
Larguei
meu livro sobre o sofá e saí pisando duro, sem olhar na direção dele. Fui até o
hall social, onde eu sempre conversava com Valéria a recepcionista, mas nem ela
estava ali para conversar comigo. Sentei-me na escadinha de mármore e comecei a
chorar com ódio dele, que só sabia me humilhar.
Para
minha infelicidade, o tal garoto do cabelo engraçado e a mãe dele passaram
novamente por mim, dessa vez ela ficou me olhando sensibilizada. Foi a maior
vergonha da minha vida.
Mais
tarde, voltei para meu apartamento e entrei silenciosamente, por sorte meu pai
tinha saído. Fui até meu quarto e fiquei deitada até minha mãe chegar, por
volta das sete horas da noite.
—
Carol! — ela
—
Oi mãe.
—
O que houve? Que cara é essa?
Suspirei.
—
Foi meu pai mãe! Ele só briga comigo. Chegou aqui em casa à tarde e ficou bravo
ao me ver lendo meu livro. Me chamou de alienada e disse que não tenho amigas porque
sou uma chata.
Minha
mãe balançou a cabeça negativamente.
—
Não liga para ele filha. Ele que é chato. Provavelmente ele devia estar cansado,
todos nós quando estamos cansados ficamos de mau humor. Mas me fala: a que
horas foi isso?
—
Umas cinco horas.
—
Nossa, que estranho! O que será que ele veio fazer?
Não
respondi, apenas balancei a cabeça como se não soubesse.
Ela
também ficou pensativa.
—
Vou tomar um banho, vou pedir uma pizza e depois a gente deita para assistir a
um filme, que tal?
—
Ótima ideia. — falei dando um pulo da cama.
Nossa
noite foi perfeita, pizza, refrigerante e um filme lindo que minha mãe me
deixou escolher. Fomos dormir já era bem tarde, e não tinha nem sinal do meu
pai. Percebi minha mãe preocupada e tentando ligar para ele. Mas ele
provavelmente não atendeu.
Acordei
de madrugada ouvindo meus pais discutirem. Minha mãe o criticava pelo horário e
ele retrucava e a ofendia cada vez mais. Então a porta do meu quarto se abriu e
vi que ela veio deitar em minha cama auxiliar. Ela chorava em silêncio e aquilo
fez meu coração doer.
—
Está tudo bem mãe?
—
Oh minha filha, está sim. Só estou com dor de cabeça. Mas a mamãe já tomou um
medicamento, logo irá passar.
—
Se precisa é só me chamar.
—
Fica tranquila Carol, volta a dormir que logo passa.
Eu
não conseguia parar de pensar no quanto odiava meu pai e rezei para que Deus me
perdoasse por ter aqueles pensamentos.
Na
manhã seguinte, fiquei horas em minha aula de ballet, enquanto minha mãe estava
no salão de beleza, era o único tempo da semana que ela tinha para se cuidar.
Um pouco antes do almoço já estávamos liberadas e fomos para uma das lojas do
meu pai.
Meu
pai pareceu feliz em nos ver, ou fingia bem perto dos funcionários e clientes.
Almoçamos juntos em um restaurante elegante. Ele agradou minha mãe de todas as
maneiras possíveis, mas momentos depois descobrimos o porquê. Ele queria o
resto do sábado e o domingo para ir pescar com os amigos. Estava explicado!
Voltamos
para o prédio por volta das duas da tarde. Meu pai subiu todo animado para
arrumar suas coisas, já que sairia em poucos minutos.
—
Mãe, eu vou para piscina, você quer ir?
—
Carolina vou ajudar seu pai, mas depois eu desço.
Eu
sorri. É logico que ela ajudaria meu pai. Coloquei meu biquíni e um vestido de
malha por cima e calcei minhas havaianas.
—
Estou descendo!
Nada
se ouvia da sala.
—
Estou descendo. — falei novamente.
A
porta do quarto deles estava fechada, provavelmente eles estavam se despedindo.
Saí em seguida e fui em direção ao elevador. Assim que entrei, a mãe do garoto
do cabelo engraçado entrou atrás de mim.
—
Oi mocinha!
—
Oi. — respondi morrendo de vergonha.
—
Está tudo bem?
Sorri
acanhada.
—
Está sim, eu vou nadar agora.
—
Eu vou usar a academia, mas depois também quero aproveitar a piscina.
Olhei
para ela e sorri sem graça.
Chegamos
ao hall social, ela olhou para mim e sorriu.
—
Até daqui a pouco.
Abanei
minha mão e saí em seguida. Cheguei à piscina, escolhi uma mesa e coloquei
minha toalha de banho e tirei meu vestido e meu chinelo. Havia alguém
mergulhando, mas não consegui ver quem era, na certa, era um dos meninos dos
primeiros andares, então pulei em seguida. Quando emergi, o garoto do cabelo
engraçado também subiu à tona junto comigo.
—
Aí, você quase me matou! — falei assustada.
—
Oi. — ele disse me dando um sorriso metálico.
—
Oi. — respondi e saí nadando em seguida.
Após
algumas braçadas, fui até a escadinha e me sentei. O garoto ficou parado na
outra borda e ficamos um de frente para o outro, evitando de nos olharmos.
Ele
nadou novamente. Parando de novo na borda da piscina, dessa vez de costas para
mim e então fui eu quem nadei novamente e minutos depois voltei para a
escadinha. Fizemos isso repetidas vezes, até que criei coragem e nadei parando
ao lado dele. Assim que ele me viu, seu rosto ficou vermelho.
—
Oi estranho.
—
Já te disse oi!
“Uau
que tirada. ” Pensei.
—
Então você é meu vizinho?
—
Não sei. Eu sou? Quer dizer, estou morando no prédio, mas não sabia que era no
mesmo andar que o seu.
—
É, somos vizinhos. — falei observando as gotículas de água que estavam em meu
braço. — Como você se chama?
—
Bruno. — ele respondeu sem olhar em meus olhos.
—
Está gostando de morar aqui?
Ele
franziu o cenho e apenas balançou a cabeça em negação. Não tinha mais nada a
perguntar então decidi ficar na minha e olhar o céu, para as árvores, para as formiguinhas
que estavam passando perto da borda da piscina.
—
Qual é seu nome?
—
Carolina. Mas pode me chamar de Carol.
—
Hum.
—
É legal aqui, você vai ver. Quer dizer, ás vezes é bem legal. Sempre nos reunimos
para fazer churrasco, pizzas, jantares, enfim, pessoal é bem unido.
—
Hum.
—
Você só fala hum?
Ele
riu e balançou a cabeça.
—
Eu não queria vir morar aqui, vim contra minha vontade, mas minha mãe foi
transferida para cá e ela também queria recomeçar em outro lugar.
—
O que ela faz?
—
Ela é promotora.
—
Hum.
—
Agora foi você que fez hum.
Eu
sorri acanhada.
—
E seu pai?
Ele
suspirou e abaixou a cabeça.
—
Me pai morreu.
Fiquei
chocada, sem saber o que dizer.
—
Eu sinto muito! Já meu caso é bem diferente. Eu tenho um pai, mas ele parece
não ter uma filha.
—
Como assim?
—
Meu pai é um chato, briga o tempo todo comigo, critica tudo o que eu faço.
Parece que minha presença o incomoda. E ele age da mesma forma com a minha mãe.
Acho que ele não gosta da família que formou.
Ficamos
alguns segundos em silêncio.
—
Às vezes eu desejo que ele suma. Mas aí eu me arrependo por pensar assim, mas
logo depois, desejo novamente.
—
Meu pai era demais. Era meu melhor amigo.
—
Eu sinto muito Bruno.
Ele
ficou quieto.
—
Como ele se chamava?
—
Roberto. — ele disse com o semblante triste. — Roberto Vicenzo.
Eu
não disse nada. Depois de longos minutos, Bruno olhou compassivo para mim.
—
Era por causa do seu pai que você estava chorando ontem?
Senti-me
envergonhada no mesmo instante.
—
É sempre por causa dele, pode se acostumar. — falei dando um sorriso triste.
Ficamos
mais uma vez em silêncio.
—
Aqui no prédio, têm mais garotos da minha idade?
—
Têm alguns. Eles são um pouco mais
velhos. E moram nos primeiros andares. Mas são bem legais.
Bruno
balançou a cabeça parecendo satisfeito.
—
Vamos ver quem chega do outro lado primeiro? — desafiei o garoto.
—
Aposto que sou eu! — Bruno disse saindo nadando em disparada.
Fiquei
com ódio, afinal, ele não me esperou. Nadei até ele e quando vi, ele havia
chegado bem antes de mim.
—
Você trapaceou!
—
Tá bom, desculpa vai! Esqueço que meninas são mais lentas.
—
Isso não vale. Você saiu antes.
—
Então agora vamos sair juntos. — ele disse tomando fôlego. — Preparada?
Só
fiz que sim com a cabeça e saímos em seguida. Fizemos isso quase o resto da
tarde. Rindo feito bobos.
Mais
tarde a mãe de Bruno apareceu.
—
Filho, vocês querem subir para comer alguma coisa?
—
Você quer?
—
Hum, não sei. Preciso avisar minha mãe.
—
Nós somos vizinhos, não somos? É só avisá-la quando chegarmos lá.
Sorri.
“Como não pensei nisso antes! ”
Saímos
da piscina e me enrolei em minha toalha e em seguida me sequei e coloquei meu
vestido. Dessa vez era meu cabelo que estava engraçado e provavelmente
estranho, tanto que ele olhou para mim e sorriu.
Eu,
o Bruno e a mãe dele subimos em seguida. O caminho de elevador até nosso
apartamento só foi de risadinhas minha e dele, dávamos risadas por qualquer
coisa.
—
Como você se chama?
—
Carolina Stuart. — respondi acanhada. — Mas me chame de Carol
—
Nome muito bonito, Carol.
—
E a senhora?
—
Você, por favor! — ela disse me dando um sorriso.
Eu
sorri de volta.
—
Ester Gregori Vicenzo, mas me chame de Ester.
Nós
rimos e a porta do elevador se abriu.
—
Eu vou falar com a minha mãe.
—
Isso. Chame sua mãe, que eu falo com ela. — falou Ester indo atrás de mim ao
lado do filho dela.
Eles
ficaram do lado de fora, enquanto entrei.
Abri
a porta e minha mãe estava no quarto.
—
Mãe, a nossa nova vizinha está aqui, e ela quer falar com você.
Minha
mãe me olhou assustada e quando vi percebi que ela havia chorado.
—
Comigo? O que você aprontou?
—
Nada! Ela só quer pedir uma coisa para você.
Dona
Marília levantou-se, olhou-se no espelho e ajeitou os cabelos saindo em
seguida. Eu aproveitei esse momento para pentear meus cabelos que estavam
parecendo os cabelos da medusa. Passei um creme sem enxague e em seguida os
penteei. Quando estava saindo, resolvi voltar e passar creme em meu corpo e
tirar meu biquíni molhado. Coloquei um short branco e uma camisetinha preta e
tênis. Voltei novamente para a sala e as duas estavam paradas perto da porta, e
Ester e Bruno do lado de fora.
—
Entre um pouco!
—
Não, eu vou preparar alguma coisa para eles comerem. A Carolina quis falar com
você antes.
Minha
mãe me olhou com olhar protetor e me beijou em seguida.
—
Se comporta Carolina.
“O
que ela insinuou? Que eu iria saltar pela sacada. Aff que vergonha. ” Pensei
comigo mesma.
—
Ah mãe, como hoje o papai não está, que tal se fizéssemos um jantar para eles?
As
palavras saíram sem que eu as filtrasse antes. Minha mãe olhou para mim como se
dissesse: — “Eu mato você Carol. ”
—
Claro que sim, se vocês não tiverem compromisso. — concordou mamãe.
Ester
olhou para Bruno e ambos balançaram a cabeça negativamente.
—
Não temos nada. Mas não iremos atrapalhá-las?
—
Claro que não! Será uma honra.
—
Então nesse caso, nós aceitamos o convite, não é mesmo filho?
Bruno
abriu um sorriso e concordou meneando a cabeça.
—
Bom, meninos, então vamos! E até mais tarde Marília.
—
Até mais tarde!
“Sim,
minha mãe vai me matar. ” Pensei comigo mesma.
O
apartamento de Bruno era bem legal, bem decorado e moderno.
Na
cozinha, Ester arrumou a mesa com pães, bolo, bolachas, suco, refrigerante,
frios, requeijão e frutas. Eu morreria com certeza, se comesse tudo aquilo.
Bruno comeu feito um leão e eu mal mordisquei meu pão, o que era obvio que eu
estava morta de vergonha.
—
Carol, quantos anos você tem?
—
Dez.
—
Olha aí Bruno, quase a mesma idade.
—
Eu tenho onze, mãe! — falou Bruno como se fosse anos luz mais velho do que eu.
—
E você estuda onde?
—
Estudo no colégio São Diego.
—
Sério? O Bruno também irá estudar lá.
Bruno
não parecia feliz nesse momento. A mãe dele levantou-se e foi até a pia onde
guardou umas coisas.
—
Vocês querem assistir um filme?
—
Você joga vídeo game? — perguntou-me Bruno sorridente.
—
Um pouco. — menti, pois não sabia absolutamente nada.
Passamos
horas no quarto de Bruno jogando vídeo game, perdi várias vezes, mas ganhei
algumas. Mais tarde, fui tomar banho e ajudar minha mãe que já havia preparado quase
tudo: risoto, filet mignon ao molho de alcaparras e salada verde. Algum tempo
depois, Ester e Bruno chegaram. Ele estava uma gracinha de bermudão, camiseta,
tênis e novamente um topete nos cabelos, o qual eu já estava achando charmoso.
Minha
mãe e Ester conversaram sobre várias coisas, pareciam que se conheciam há anos.
Ao que tudo indicava, provavelmente elas seriam grandes amigas.
E
isso foi o que aconteceu comigo e com o Bruno, nos tornamos grandes amigos.
Éramos inseparáveis.
Na escola, Bruno ficava com a turma dos mais
velhos, já que éramos de séries diferentes, ele estava um ano à minha frente.
Mas íamos juntos para escola e voltávamos juntos para o condomínio. Passávamos
à tarde inteira juntos no apartamento dele ou no meu. Onde estudávamos, brincávamos,
navegávamos na internet, jogávamos vídeo game ou até mesmo dormíamos.
Bruno
fez com que eu me tornasse uma fera no vídeo game, eu era imbatível, como ele
me dizia.
Tínhamos
também mais três grandes amigos que moravam no prédio, o Tiago, Felipe e o
Gustavo. Eu era a única garota da turma, mas eles pareciam me ver como um deles
e eu odiava isso.

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