quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 06, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas

Parte 06

Senti meu corpo inteiro arrepiar e quando olhei, vi que era o Bruno.
— Eu n.ã.o a.c.r.e.d.i.t.o! Você veio?
Bruno me abraçou em seguida.
— Jamais perderia seu aniversário. Não seria a mesma coisa se eu apenas te ligasse.
— E sua aula?
— Eu perdi apenas umas aulas da tarde, fui para São José dos Campos e peguei um voo direto para cá. Amanhã eu tenho que ir embora bem cedo, tenho prova após o almoço. Mas só de estar aqui valeu a pena.
Eu não conseguia acreditar, senti-me a pessoa mais feliz do mundo.
— Feliz aniversário Carol. — disse ele me abraçando e me levantando do chão.
— Ah, Bruno, nem acredito que você está aqui! — falei enquanto o abraçava — Agora sim estou feliz!
Bruno me colocou no chão e beijou meu rosto.
— Trouxe um presente para você, está no meu apartamento. Depois você vai até lá comigo, aí eu te entrego.
— Você é meu presente, seu bobo.
Ele sorriu.
— Me segurei para não te ligar o dia todo. Queria que você pensasse que eu tivesse esquecido.
— E realmente pensei. Isso não se faz.
Bruno me abraçou novamente. Seu cheiro era incrível, cheirava a banho e a perfume amadeirado.
— Vem, vamos lá! Os garotos nem vão acreditar que você está aqui. — falei pegando na mão de Bruno e o guiando entre os convidados.
E foi como eu disse, eles mal podiam acreditar quando viram o Bruno. Todos o abraçaram, inclusive a Patrícia, que por sinal me deixou com um pouco de ciúmes. Pois ela quase se tacou no colo dele.
— Eh Brunão, tá namorando? perguntou Tiago, dando-lhe um tapinha.
Bruno olhou para mim sem graça e em seguida olhou para Tiago.
— É, parece que sim.
— Por que não a trouxe para gente conhecer, cara? — indagou Felipe.
— É verdade Bruno! Queremos ver se a garota passa no controle de qualidade. — brincou Pati.
Bruno sorriu sem graça.
— Uma próxima vez. Mas ela não sabe que estou em Porto Alegre, saí de lá correndo, não tive tempo de contar.
Gustavo me encarou. Era como se ele analisasse minha reação ao ouvir Bruno falar sobre sua namorada.
— Não deu tempo ou já está com medo da namorada? — perguntou Tiago em tom de brincadeira.
Os meninos começaram a zoar com Bruno, dizendo que ele já estava sendo mandado, arrumaram vários apelidos pra ele, coisas que apenas eles tinham liberdade de falar. Eu só ria, não me importava com o fato de estarem falando sobre a namorada dele, ou de estarem zoando com o Bruno, o importante era que ele estava comigo naquele momento.
Nós dançamos, rimos, conversamos muito, dançamos outra vez. Como era antigamente, os cinco juntos outra vez; dessa vez com a Patrícia a tiracolo.
Na hora dos parabéns alguém gritou para quem seria o primeiro pedaço de bolo. Eu olhei todos que estavam ao meu redor e respirei fundo tentando tomar coragem.
— Se eu pudesse, dividiria esse primeiro pedaço de bolo em vários primeiros pedaços. Pois aqui se estão as pessoas que eu amo. E entre todos vocês existem aquelas que simplesmente são parte de mim.
Os olhos de Bruno não saíam queimavam sobre os meus. Ele sorriu e eu sorri de volta.
— Entretanto, hoje eu queria oferecer meu primeiro pedaço de bolo a alguém que me surpreendeu muito. Alguém que apareceu e encheu meu coração de alegria.
Todos olharam para Bruno, sem ao menos dizer o nome dele, deixando-o vermelho feito pimenta. Fui até ele e entreguei-lhe o primeiro pedaço, abraçando-o em seguida.
— Obrigada por estar aqui. — sussurrei no ouvido dele.
Bruno não disse nada, pois estava nervoso demais para isso.
Todos bateram palmas e alguns fizeram alguma brincadeira sobre nós, mas eu não me dei ao trabalho de prestar atenção para saber o que diziam.
O pessoal foi embora da festa já era de madrugada. Eu, o Bruno, os garotos e a Patrícia, fomos para o terraço, onde ficamos conversando, mas ele parecia ansioso, tanto que os meninos perceberam e trataram logo de ir embora, Patrícia foi embora e quem a levou foi o Felipe. E era obvio que os dois estavam com segundas intenções.
Gustavo e Tiago se despediram de Bruno que iria embora no outro dia bem cedo. Em seguida, ele me chamou para ir até o apartamento dele, onde entregaria meu presente.  Entrar com Bruno no apartamento dele era uma sensação imensa de nostalgia. Foi como se um filme passasse em minha cabeça lembrando dos bons momentos que passamos ali. Lembrei-me até da primeira vez que estive lá, quando eu e Bruno nos conhecemos na piscina e depois Ester nos levou para fazermos um lanche.
Fomos até o quarto dele que estava intacto sem as bagunças que ele fazia rotineiramente. Só uma mochila estava sobre a cama, ao lado de um embrulho dourado. Bruno sentou-se e eu sentei-me de frente para ele.
— Carol, é só uma recordação para você nunca se esquecer de mim. Fiquei uns dias preparando isso, espero que goste!
— Você está me matando de curiosidade, sabia?
Ele sorriu e me entregou o embrulho dourado. Estava trêmula abrindo o presente. Quando abri vi uma tela.
— Eu não acredito! É o que eu estou pensando? — perguntei incrédula. — Um porta-retratos digital?
Bruno concordou com a cabeça.
— Tem até trilha sonora. Liga pra você ver.
Imediatamente liguei o porta-retratos e mal podia acreditar no que via. Eram fotos minha e do Bruno desde que éramos crianças. Fotos de nós dois na piscina, no playground, andando de bicicleta, jogando com os meninos, de nós dois de uniforme do colégio, foto minha já com uns quinze anos dormindo no sofá da casa dele, foto dele dormindo no meu quarto, fotos na praia, no shopping, no estádio de futebol, no show do Black Eyed Peas, entre outros lugares, todas elas, acompanhadas da trilha sonora de nossas vidas: U2, John Mayer, Guns, entre outras.
— Nem sei o que dizer, é incrível!
— Gostou mesmo?
— Amei, é perfeito! — falei abraçando-o em seguida.
Deitamos e ficamos vendo foto por foto, recordando o passado, enquanto comentávamos e ríamos de tudo. Até que ficamos em silêncio enquanto observávamos as fotos, cada um perdido em seus pensamentos. Os meus pensamentos eram em como o tempo havia passado rápido demais e que eu daria tudo para voltar naquela época, totalmente sem preocupação de nada. Nosso silêncio foi interrompido por nossas mães aparecendo de supetão no quarto do Bruno.
— Carol, já terminamos de organizar tudo, agora vamos que já está tarde, o Bruno precisa sair amanhã bem cedo e você tem aula.
— Tá mãe, já estou indo.
— Estou esperando você aqui na sala. — disse minha mãe saindo em seguida.
— Bruno, juro que você me surpreendeu. Nunca irei me esquecer dessa noite e das surpresas que me fez, muito obrigada!
— Não precisa agradecer. Não poderia deixar de estar aqui. Você é uma pessoa muito especial, nunca se esqueça disso!
Nos abraçamos demoradamente, no entanto, antes que eu caísse em tentação me liberei dos braços dele e dei-lhe um beijo no rosto. Bruno foi comigo até a sala, onde me despedi de Ester e ele se despediu da minha mãe. Antes de ir embora, minha mãe o olhou e sorriu, dizendo:
— Bruno, quando vai trazer sua namorada para que possamos conhecê-la?
Ele me olhou sem graça mas desviei o olhar em seguida. Ester também pareceu sem graça, afinal, ela tinha testemunhado um beijo nosso quando nos despedimos em Lorena.
— Nós ainda estamos nos conhecendo, talvez nem dê certo.
— Vocês têm muito tempo para isso, os estudos em primeiro lugar.
Ele concordou soltando um sorriso acanhado.
— Então vamos, mãe?
— Vamos filha.
Meu olhar se cruzou com o olhar dele e nos despedimos novamente. Assim que entramos em nosso apartamento, fui até meu quarto onde estavam todos os meus presentes e imediatamente coloquei meu porta-retratos ao lado da minha cama. Escovei os dentes, retirei minha maquiagem e coloquei meu pijama. Chamei minha mãe em seguida para que ela visse o presente que Bruno me deu. Ela, assim como eu, achou incrível, e sentou-se em minha cama para ver todas as nossas fotos. Eu ainda olhava abobalhada para o porta-retratos. Foi quando a flagrei me encarando, como se tivesse me inspecionando.
— Está acontecendo alguma coisa entre você e o Bruno?
— Não, claro que não! De onde você tirou essa ideia?
Ela me encarou como se tentasse ler meus pensamentos.
— Carolina conheço bem você. E percebi o quanto você ficou sem graça quando perguntei sobre a namorada dele. E outra, o Bruno não sairia de Lorena até Porto Alegre sem ter um bom motivo. Por exemplo, se fosse o aniversário do Felipe, tenho certeza que ele não viria.
— Mãe, é diferente. Eu e o Bruno somos...
Fiquei pensativa; afinal já não sabia mais o que nós éramos.
— Milha filha, já vi de tudo nessa vida, e uma coisa que eu sempre admirei de verdade é a amizade de vocês dois. É uma amizade pura, sem interesse algum. Mas a partir do momento que um de vocês confundirem os sentimentos, pode ter certeza que tudo irá por água abaixo, ou seja, a amizade de vocês ficará abalada e nunca mais será como antes. Então pensa bem antes de se envolver com seu melhor amigo.
— Mãe, você está louca! Está enxergando coisa onde não existe.
Ela inclinou-se e me beijou o topo da cabeça.
— Espero realmente estar errada. Boa noite, filha!
— Mãe! — exclamei quando a vi saindo do meu quarto. — Obrigada por tudo! Minha festa estava linda, graças a você.
Minha mãe olhou para mim e sorriu serenamente.
— Te amo filha.
— Também amo você, mãe.
Algum tempo depois, quando eu já estava quase dormindo, meu celular vibrou, meu coração acelerou, era uma mensagem do Bruno.
Você ainda me deve aquele beijo, lembra?
Ri sozinha ao ler a mensagem. E em seguida chegou outra.
Queria falar com você, mas ainda não tivemos tempo, que tal no terraço?
“Meu Deus, ele quer falar comigo? O que será?” — perguntei a mim mesma e em seguida digitei uma mensagem para ele.
Bruno, você precisa acordar muito cedo amanhã. E já está tarde!
Em segundos chegou outra mensagem dele.
Só queria conversar com você, vai ser rápido! Além disso você me deve, lembra?
Suspirei tomando coragem.
Tudo bem, só preciso ver se minha mãe já está dormindo.
Meu coração batia mais acelerado a cada instante.
Tá! Espero você.
Dei um pulo da cama e silenciosamente abri a porta do quarto. A sala estava com a televisão ligada, o que eu estranhei. Fui na ponta dos pés e vi minha mãe deitada no sofá assistindo à tv.
Aquilo era realmente estranho, porque minha mãe sempre dormia muito cedo por causa do hospital. Voltei para meu quarto novamente na ponta dos pés e digitei uma resposta para o Bruno.
Minha mãe decidiu assistir tevê uma hora dessas. Não tem como sair agora.
Ele respondeu:
Estranho, uma hora dessas?

Eu achei estranho também, talvez ela não está conseguindo dormir porque viu meu pai com a nova namorada, vai entender! Mas agora fiquei curiosa, o que você queria falar comigo?
Bruno respondeu em segundos
Queria te perguntar duas coisas:
1-Por que o mala do seu namorado não foi?
2-Você mudou comigo desde que te falei que estava namorando a Melissa, você ficou chateada?
“Uau, ele me encurralou. O que eu digo a ele? ”
Hesitei para responder, mas eu precisava. Digitei uma mensagem e enviei em seguida.
Eu não estou mais namorando. E não mudei com você, talvez tenha ficado surpresa, afinal acabou de se mudar, e sei lá, é seu primeiro ano de faculdade, então nunca imaginei que aconteceria tão cedo. Mas é uma escolha sua e se você está feliz, eu também estou. Ah, obrigada por me dizer o nome dela.
Rapidamente chegou outra mensagem
Por que nunca me disse que terminou seu namoro? Quando foi isso? Achei que me contasse tudo o que era importante para você!
E você falou sobre ser cedo pra eu namorar, mas quem começou a namorar com quinze anos?
Tá, agora estávamos discutindo e aquilo me deixava aturdida.
Bruno, liguei para te contar sobre o fim do meu namoro, mas você me falou que estava namorando, então, sei lá, achei que nem tivesse importância. Mas peço desculpas se agi errado. E não estou julgando seu relacionamento, é como eu disse, se você está feliz, eu também estou. E Bruno, não quero discutir com você bem hoje. Estou feliz demais para isso.
Ele enviou outra
Você tem razão. Também fiquei feliz por estar aqui. Boa noite, linda.
Beijos
Na manhã seguinte levantei-me mais cedo para poder me despedir do Bruno antes de ir para a escola. Tomei um banho, coloquei meu uniforme, tomei café da manhã, escovei os dentes novamente e coloquei um trident na boca. Fui até o apartamento de dele era por volta das 6:15 da manhã, já que ele precisaria estar 7:00 no aeroporto. Toquei o interfone e Ester abriu a porta imediatamente. Ela estava elegante como sempre, com sua saia secretária, camisa de seda e terninho.
— Bom dia Ester! Vim me despedir do Bruno, ele já se levantou?
— Oi Carol, bom dia! — ela disse dando-me um beijo no rosto. — O Bruno estava se arrumando, mas já está pronto, se quiser ir até lá, fica à vontade.
Sorri animadamente para ela.
— Eu vou. — falei saindo em seguida.
A porta do quarto de Bruno estava entre aberta e ele estava conversando com alguém ao celular. Eu a abri, mas ele estava de costas e nem me viu, então ouvi parte da conversa dele.
— Eu tentei falar com você ontem, mas seu celular estava desligado e como saí correndo daí não consegui.
— É, de uma amiga de infância. Não tem nada de errado nisso.
Bruno ficou em silêncio enquanto provavelmente ela discutia com ele.
— Eu sei, você tem razão. Nos falamos quando eu chegar aí. Você pode me buscar no aeroporto?
Outra pausa.
— Tudo bem Mel, mas eu já disse, não tem nada demais, ela é apenas uma amiga.
Mais uma pausa.
— Eu te ligo quando eu chegar, e Mel, estou com saudades.
Senti um nó em meu estômago. E quando me virei para sair de lá antes que ele me visse, Ester veio em minha direção.
— Entra Carol, vá lá falar com ele.
Fiquei sem graça de ser pega saindo de fininho.
— Carol! Não sabia que você estava aí.
— Oi Bruno. — disse acanhada.
— Entra! — Bruno falou me pegando pela mão e me levando para o quarto dele e em seguida fechou a porta.
— Não quis lhe causar problemas, sinto muito.
— Você não causou problemas, fica tranquila.
— A Melissa me ligou porque estava preocupada já que não nos falamos ontem.
— Ela quem é sua namorada, você não me deve explicações. E eu sinto muito por ter escutado sua conversa. Mas enfim, só queria me despedir de você.
Eu o abracei em seguida, mas não foi como no dia anterior. Vê-lo conversando com a namorada foi como se um muro se erguesse entre nós novamente.
— Tenha uma boa viagem. — falei e dei-lhe um beijo no rosto e saí em seguida.
Ester não estava na sala, por isso saí sem me despedir. Bruno foi atrás de mim, me chamando pelo corredor. Fingi não escutar e então ele segurou meu braço.
— Não consigo entender você. Quando eu te beijei, você me disse que as coisas deveriam ficar da maneira que estavam. Então eu me afasto. Quando você termina com seu namorado, você simplesmente não me diz nada, mas fica magoada porque estou namorando. Então me fala, o que você quer de mim?
Olhei para ele sem saber o que responder.
— Você mesmo disse para sua namorada que somos apenas amigos de infância. E é só isso que somos, não é?
Bruno me olhou mas não respondeu.
— Eu preciso ir para o colégio. 



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