Sob o olhar das Estrelas
Parte 04
Fomos
acordados pela minha mãe e a mãe da Carol, que me repreendeu por eu nem ter
avisado minha mãe que ficaria ali.
Saímos
os quatro para almoçarmos fora, e quando já estávamos no restaurante, o celular
da Carol vibrou. Ela olhou desinteressada mas sorriu imediatamente e eu deduzi
que fosse o maldito bastardo. Aquilo me corroía por dentro. Ela digitou alguma
coisa enviando em seguida, e em sequência o celular voltou a vibrar. Carol
digitou mais alguma coisa e enviou novamente e em questão de segundos o celular
voltou a vibrar.
—
Carolina, desliga esse celular! Estamos almoçando. — disse Marília
advertindo-a.
—
Vou desligar. — ela falou digitando algo e desligando o celular em seguida.
Passamos
praticamente o dia todo juntos e por sorte ela deve ter esquecido de ligar
celular novamente. Quando chegamos ao prédio, decidimos nadar e fui me trocar,
enquanto ela também se arrumava na casa dela.
Carol
apareceu na minha casa apenas de saída de banho e me senti desconfortável e
ansioso por vê-la apenas de biquíni. Não seria a primeira vez que a veria de
biquíni, mas seria a primeira vez que a veria com outros olhos de biquíni. A
descida do elevador foi bem esquisita, mas quando chegamos na piscina, eu pulei
e fiquei observando-a. Carol amarrou o cabelo em um coque e em seguida tirou a
saída de banho, como que em câmera lenta. Quando eu vi o corpo dela, confesso
ter ficado abalado. Ela era perfeitamente linda, o corpo dela parecia ter sido
esculpido. Carol virou-se para mim e eu imediatamente disfarcei. Foi a mesma
sensação de anos atrás, quando nos conhecemos.
Eu
nadei tentando disfarçar meu estado, mas depois de algum tempo parei perto dela
e juntos desfrutamos uma linda tarde de sol. Conversamos sobre diversas coisas,
e era como se eu a visse pela primeira vez, pois prestava atenção em cada
movimento dos lábios dela, de como ela se preocupava com o cabelo, de como ela
gesticulava as mãos. Até os pelinhos do braço eram perfeitamente alinhados e
dourados. A água da piscina refletia em seus olhos verdes. Seus seios eram
impecavelmente lindos.
“Estou
apaixonado por ela, não pode ser, não tem outra explicação! ” Pensei comigo
mesmo, enquanto ela entrava cuidadosamente na piscina. Percebi que a pele dela
ficou toda arrepiada, e eu tive que dar um mergulho para disfarçar minha reação,
e a reação do meu parceiro, que teimava em se manifestar.
A
semana passou voando. E eu me pegava olhando para a Carol de longe durante o
intervalo da aula. Vendo a maneira gostosa que ela sorria a todo momento,
notando que as calças jeans que ela usava, já não eram mais largas e sim justas
ao seu corpo, deixando-a ainda mais sensual. Percebi que a camiseta do uniforme
já não era aquela camiseta grande e larga, e sim uma camiseta justinha,
deixando os seios dela discretamente em evidência.
Fui
pego em flagrante por ela algumas vezes durante os intervalos, onde nossos
olhares se cruzavam e ela me acenava e dava-me um lindo sorriso. Então eu
sorria de volta e estufava meu peito como se tivesse recebido um prêmio.
Na
quinta-feira, eu a esperei para voltarmos para o prédio, e ela veio em minha
direção falando ao celular. Parou um pouco antes de chegar até mim e continuou
conversando, e somente quando ela desligou o celular tornou a caminhar em minha
direção.
—
Aconteceu alguma coisa?
Ela
balançou a cabeça negativamente.
—
O Guilherme quer me ver, eu não sei o que fazer.
—
Por que ver você?
“Não
acredito que você perguntou isso seu burro. É claro que ele quer ficar com ela,
seu babaca. ” Pensei comigo mesmo.
—
Na verdade desde o domingo ele está me mandando mensagens, e nós estamos nos
conversando desde então. Quando foi ontem à noite, depois que voltamos do
terraço, o Guilherme me ligou e ficamos quase uma hora conversando, e ele me
disse que queria me ver e hoje me ligou novamente, para sei lá, inventar alguma
coisa e sair com ele à noite, mas minha mãe me mataria.
Fiquei
em silêncio odiando o tal cara com todas as minhas forças.
—
O que eu faço? — Carol perguntou me olhando desesperada.
—
Você mesmo disse, sua mãe mata você. Você nem conhece o cara, como vai sair com
ele à noite.
Ela
ficou pensativa.
—
É, você tem razão.
Continuamos
o caminho ambos em silêncio e naquele dia foi ela quem almoçou em minha casa, e
após o almoço ambos desmaiamos no sofá. Quer dizer, eu fiquei velando o sono
dela até não aguentar mais. A tarde quando ela acordou assustada se despediu de
mim e foi para o apartamento dela. Eu me segurei para não ir até lá, mas menos
de duas horas depois, tomei um banho e fui dando uma desculpa tosca e colei
nela até a hora de ir dormirmos.
No
dia seguinte, foi a mesma coisa, fomos juntos para a escola, eu fiquei olhando
para ela durante todo o intervalo, mas na hora de voltarmos para o prédio eu
estava esperando por ela que era sempre uma das últimas a sair. E eu tinha
decidido falar com ela e expor meus sentimentos, afinal, não estava mais
aguentando, e eu sabia que iria correr um risco ao me declarar a ela, mas eu
precisava tentar.
Eu
vi quando um Audi A3 preto zerado parou perto de mim, e um carinha desceu e
encostou no carro. Carol finalmente saiu, olhou ao redor como se me procurasse
e quando me viu, abriu um sorriso lindo e acenou a mão. O tal cara me olhou
desconfiado, mas não disse nada. Ela veio em minha direção toda sorridente e
quando estava se aproximando viu o cara encostado no carro e sorriu
nervosamente para ele. Ele foi de encontro a ela e deu-lhe um beijo no rosto.
Ela disse algo para ele e em seguida veio até mim.
—
É esse o Guilherme, o que eu faço? — sussurrou quase que inaudível.
—
Vamos para casa! — falei sem esboçar nenhum sorriso.
Guilherme
veio até nós e Carol olhou para ele e em seguida para mim.
—
Ah, Guilherme esse é o Bruno, meu amigo, nós moramos no mesmo prédio e eu vou
embora com ele todos os dias.
—
Oi Bruno. — o tal carinha falou entendendo-me a mão.
O
cara era boa pinta, não podia negar e eu me senti um zero à esquerda com a
minha mochila nas costas contendo meu material escolar. Apertei a mão dele
somente para não parecer sem educação.
—
Oi.
—
Vamos? Eu levo vocês.
—
E aí Bruno, vamos? — disse Carol sorrindo.
—
Não! Vão vocês, eu tenho que resolver umas coisas.
Carol
me olhou exasperada e eu apenas balancei a cabeça como se desse meu aval para
que ela fosse. Fiz isso sentindo meu coração despedaçado. Ela se inclinou em
minha direção e me deu um beijo o rosto.
—
Falo com você depois.
Só
fiz que sim com a cabeça e saí em seguida.
—
Tchau Bruno.
Desgraçado
maldito. Resmunguei.
—
Tchau.
Naquela
tarde não vi a Carol. Me tranquei em meu quarto o dia todo, não queria ver
ninguém, falar com ninguém e tentava ao máximo pensar em outra coisa, sem ser
nela, mas era impossível. Só imaginava aquele cara agarrando-a dentro daquele
carro.
Após
o jantar, tomei um banho e me arrumei, pois ia ao apartamento dela como de
costume, mas desisti assim que cheguei na sala, e voltei para meu quarto. Foi a
primeira tarde da qual eu não sabia dela e não tinha falado com ela. Peguei meu
caderno de química e tentei começar a estudar para minha prova, mas depois de alguns
minutos alguém bateu na porta do meu quarto abrindo-a em seguida.
—
Ei sumido! — disse Carol.
—
Posso entrar?
—
Entra aí.
—
Esperei você à tarde, mas você não apareceu.
—
Achei que tivesse com seu namorado.
—
Ele não é meu namorado.
—
Mas você ficou com ele, não ficou?
Nesse
momento eu a encarei, pois queria ver a expressão do rosto dela.
—
Fiquei. — ela respondeu parecendo envergonhada. — Mas eu não demorei para
chegar, achei até que você tivesse me esperando em meu quarto. Mas a Dalva me
disse que você não tinha aparecido.
—
Fica tranquila Carol, fiquei estudando. Falei apontando para meu caderno.
Ela
sorriu para mim e não dissemos mais nada.
—
Bom, eu vou deixar você estudar. — Carol falou indo em direção da porta.
Eu
não podia permitir que ela me deixasse sozinho novamente. Levantei-me e fui até
ela e a abracei puxando-a para minha cama.
—
Vem aqui, já cansei de estudar.
Ela
caiu sobre mim e riu alto. Senti o cheiro vindo da pele dela e aquilo quase me
matou de tanta vontade de beijá-la.
—
Seu maluco, você vai me machucar.
Fiz
cócegas nela e me diverti vendo o modo que ela ficava ao rir
descontroladamente. Um tempo depois ficamos deitados lado a lado, mas não
tocamos mais no assunto do tal Guilherme, ficamos somente como antigamente,
embora o antigamente não existisse mais, mais fingíamos muito bem.
Conversamos
bastante e não sei como acabamos pegando no sono. Acordei e me vi entrelaçado
com ela, em minha cama de solteiro e aquele foi o momento mais mágico da minha
vida. Ela acordou por volta das três horas da manhã e deu um pulo na cama
quando se viu em meu quarto.
—
Caramba, preciso ir! — Carol disse passando por cima de mim.
Fingi
estar dormindo, então ela me chacoalhou e foi como se eu acordasse naquele
momento.
—
Bruno, já passa das três, preciso ir.
Eu
a acompanhei até a porta do apartamento dela.
—
Boa noite, vejo você amanhã. — ela disse dando-me um beijo no rosto.
Eu
imediatamente coloquei minha cabeça em seus cabelos, inalando o cheiro bom que
vinha dela.
—
Até amanhã.
Ficamos
o sábado e o domingo juntos praticamente o dia todo. E o tal Guilherme mandava
uma mensagem a cada minuto. Era irritante olhar para ela e vê-la com o celular
na mão. Até que ela pareceu se cansar e jogou o celular sobre a cama.
Na
semana seguinte, tive que me contentar em acompanhá-la até o colégio e
observá-la de longe no intervalo, pois todos os dias, o Guilherme ia buscá-la
na hora da saída. Então eu voltava para o prédio sozinho e arrasado. Mesmo
assim, não quis me afastar dela durante nossas tardes. Carol me mandava uma
mensagem assim que chegava e eu ia para o apartamento dela ou ela ia até o meu.
Disso eu não abriria mão.
Os
meses foram passando, e eu me via cada dia mais apaixonado pela Carol. Era algo
gritante dentro de mim, e eu tinha que me controlar todos os dias, já que ela
estava namorando. Quando eu soube que o Guilherme ia conhecer a Marília, meu
mundo caiu, foi a pior decepção da minha vida. Mas mesmo assim ele foi, e até
minha mãe foi chamada para conhecer o tal namorado.
Marília
estipulou que eles se vissem apenas nas sextas, sábado à noite e no domingo à
tarde. E ela acabou sabendo que ele a buscava no final da aula todos os dias.
Com isso, tive que me contentar com as migalhas de poder estar ao lado dela
durante nossas tardes e as noites de segunda à quinta-feira. Mesmo apaixonado
por ela, eu continuava tratando-a como antes, pelo menos assim a teria ao meu
lado, ou era isso, ou não era nada.
Uma
noite qualquer, estávamos deitados no terraço ouvindo música. Ambos estávamos
deitados olhando para o céu e Carol tentando tampar a lua com o próprio dedão.
—
Bruno, me responde uma coisa?
—
Claro.
—
Qual é seu maior medo?
Eu
pensei, pensei e respirei fundo.
—
São dois maiores medos.
—
Dois? Quais?
—
O primeiro é perder isso que temos.
Ela
sentou-se e me olhou em seguida.
—
É sério, morro de medo de perder você, ainda mais agora que você está
namorando. Eu não saberia viver sem você.
Ela
sorriu de orelha a orelha e me abraçou em seguida.
—
Você roubou minha resposta.
—
Por quê?
—
Porque eu ia responder isso, estava aqui pensando que meu maior medo é que isso
que a gente tem, um dia termine. Eu morreria se isso acontecesse, quer dizer,
você é parte de mim e não me vejo sem ver você, pelo menos um pouquinho por
dia, mas eu tenho que ver você todos os dias. E eu sei que ano que vem você
termina o ensino médio e vai estudar fora, e aí? Como eu vou ficar aqui?
—
Mas você também vai estudar fora.
—
Eu sei, e é por isso que eu digo. Vamos seguir caminhos diferentes e tudo isso
vai puff (ela disse assoprando) vai acabar.
—
Nós precisamos arrumar uma maneira de não acabar.
—
Precisamos mesmo. — Carol falou deitando-se novamente.
Eu
me deitei ao lado dela e ficamos observando as estrelas mais uma vez.
—
E o outro medo?
—
Esse, eu tenho desde que meu pai morreu.
Carol
sentou-se novamente para me observar. Eu levantei minha cabeça e deitei no colo
dela, ainda conseguindo ver as estrelas.
—
Como assim? — Carol perguntou passando a mão pelos meus cabelos.
—
Carol, eu não gosto de falar nisso. (Fiz uma pausa) mas quando meu pai sofreu
aquele acidente de carro, ele ficou em coma por quase seis meses até falecer. E
vê-lo daquela maneira, deitado, vegetando, todos os dias por meses foi algo que
acabava nos matando dia a dia. Afinal, íamos todos os dias visitá-lo na
esperança de encontrá-lo melhor, cada dia era uma nova esperança, mas nos
decepcionávamos assim que chegávamos lá. Ele estava morto, quer dizer,
respirava pelos aparelhos, mas estava praticamente morto.
Carol
me olhou sensibilizada.
—
Por isso que quando ele se foi, eu tomei uma decisão, se um dia algo parecido
acontecesse comigo e eu precisasse ficar internado, sem expectativa de melhora
como ele ficou, não quero sofrer como meu pai, e não quero fazer as pessoas que
me amam morrerem lentamente assim como foi comigo e com minha mãe. É tortura
demais ficar naquela situação.
—
Bruno, não fala isso! Pelo amor de Deus.
—
Você me promete que se um dia algo parecido acontecer comigo, você não vai me
deixar sofrer, respirando apenas por aparelhos. Sei lá, eu sei que eutanásia é
proibida no Brasil, mas tem que haver um jeito. Eu tenho pânico só de imaginar
uma coisa dessas.
Carol
me olhou apreensiva.
—
Eu não posso prometer uma coisa dessas, quer dizer, eu sei que enquanto você
estiver ali, mesmo respirando por aparelhos, há uma chance de você voltar. E se
essa chance não ocorrer em uma semana, pode ocorrer nos dias seguintes em
meses, mas há uma chance. E somente os médicos saberão se há possibilidades de
você voltar ou não. Ninguém pode acelerar esse processo.
—
Carol, quem chega nessa situação dificilmente volta. É só sofrimento para a
pessoa que está passando por isso, e para a família. Eu não quero encher minha
família de esperança por dias e dias e ainda assim morrer.
Carol
riu descrente.
—
Você não sabe o que está pedindo Bruno. E se fosse eu? Se eu estivesse em coma
e algumas semanas se passassem sem nenhuma melhora, você mandaria desligar meus
aparelhos?
Carol
me colocou na parede ao me perguntar sobre isso. E eu morreria se isso
acontecesse.
—
Se fosse sua vontade eu não poderia ir contra você.
Eu
menti, pois eu lutaria por ela até o último segundo.
—
Eu penso diferente de você, Bruno. Pois se isso acontecesse com você, me
agarraria a cada segundo da sua vida, na esperança de você voltar, se você não
voltasse pelo menos eu teria a certeza que havia lutado com todas as minhas
forças, assim como sua mãe fez com seu pai. Pois eu jamais conseguiria viver
pensando que se talvez eu tivesse esperado um pouco mais, você poderia ter uma
melhora e voltado.
—
Você só diz isso porque não viveu isso de perto.
—
Não! Eu digo isso porque eu odiaria a mim mesma por interromper sua vida, por
causa de um pedido idiota seu.
Carol
levantou-se em seguida deixando minha cabeça no chão duro novamente, e saiu em
direção ao parapeito do terraço. Me levantei e fui até ela.
—
Ei, porque ficou brava?
Quando
ela olhou para mim, seus olhos estavam cheios d´agua.
—
Por favor, Bruno, nunca me peça uma coisa dessas. Eu odiaria você se fizesse
isso comigo. E eu agradeço aos céus por isso ainda ser considerado crime em
nosso país.
Eu
a abracei em seguida e ela se acomodou em meus braços.
—
Eu amo você sabia?
Meus
lábios me traíram nesse momento.
Carol
me olhou nesse momento e eu a encarei.
—
Eu amo você, e por isso nunca deixaria que isso acontecesse.
Me
inclinei em direção aos lábios dela e a beijei sem pensar no que poderia
acontecer depois. Carol correspondeu da maneira que eu mais queria e me beijou
de uma forma memorável. Para a minha infelicidade, o celular dela tocou e ela
afastou-se de mim imediatamente. Era o namorado dela. Eles conversaram e ela
foi para longe de mim enquanto falava com ele e eu a odiei nesse momento.
Fiquei
encostado no outro lado do terraço, perdido em meus pensamentos e então ela
veio até mim novamente.
—
Bruno, nós somos amigos. Isso não pode acontecer, você sabe.
Olhei
para ela sem entender.
—
Por que não pode acontecer?
—
Porque estragaria tudo. Estragaria nossa amizade, e eu não quero isso.
—
Carol você não entende.
—
Não Bruno! Você não entende! Eu gostei de você por quase dois anos, você não
imagina o quanto eu sofria em silêncio ao ouvir você falando de todas as
meninas com quem você ficava e ainda contava os detalhes para mim. Até que você
simplesmente chegou em mim e pediu que eu o ajudasse com a minha melhor amiga.
Essa foi a maior decepção da minha vida! Ver você com a Pati foi minha maior
decepção. E quando eu resolvo esquecer de você, você simplesmente decide vir
atrás de mim. Então não! Isso definitivamente não pode acontecer.
Carol
saiu deixando-me sozinho e em choque por saber que ela gostava de mim e eu
nunca havia percebido. Pensei na maneira que ela provavelmente ficou ao me
escutar falando da Patrícia e insistindo para que ele conversasse com a amiga
sobre mim. Isso sem falar das outras garotas do colégio que eu ficava e depois
contava a ela cada detalhe. Fui um tremendo imbecil.
Naquela
noite decidi tirá-la do meu coração, pois se não fizesse isso, seria o fim da
nossa amizade e eu morreria se isso acontecesse.
Simplesmente
não tocamos mais no assunto do nosso beijo. Eu comecei a sair com os caras do
prédio, começamos a frequentar de leve algumas baladas e com isso saía com uma
garota diferente a cada final de semana.
Saía
aos finais de semana, para esquecer o fato de Carol estar com o namorado, pois
aquilo me corroía por dentro. Era a maneira que eu achei de deixar de pensar
nela, pelo menos por algumas horas. E quando estávamos juntos, eu nunca dizia a
ela sobre as garotas com quem eu estava saindo e nem ela me falava sobre o namorado.
Tentei
me afastar dela por um tempo, mas era humanamente impossível. Não conseguia
ficar sem vê-la nem por um dia. Mesmo ela namorando e eu saindo com outras
meninas, havia uma espécie de imã que nos atraía de uma forma inexplicável.
Tive
então que passar por cima dos meus sentimentos e aproveitar cada segundo que eu
podia ao lado dela. Ainda íamos juntos para o colégio, eu a admirava de longe
durante os intervalos e mesmo quando as garotas vinham falar comigo, ainda
assim, não tirava os olhos dela. Ficávamos juntos a maioria das tardes, e de
segunda à quinta-feira ela era exclusivamente minha; nesses dias íamos ao
cinema, ou tomávamos sorvete, ou então eu locava alguns filmes e quando não
tínhamos nada para fazer, ficávamos no terraço, mesmo sem nada para dizer um ao
outro, mas deitávamos e observávamos as estrelas, dividindo um fone de ouvido
para escutarmos nossas músicas prediletas, dentre elas, elegemos a música Why
Georgia, do John Mayer, como nossa música. E esse era o melhor de todos os
programas.
Eu
não a beijei mais, mas também nunca havia conseguido esquecer a sensação que os
beijos dela me provocaram.
4
Carol - Vai e
volta
Depois
que fiquei com Bruno no terraço não tinha mais nem vontade de falar com o
Guilherme.
Ele
percebeu que eu estava estranha, estava fria, andava calada, mas ele nem
imaginava o porquê. Guilherme era um namorado perfeito, era além de lindo com
seu corpo esculpido, olhos azuis, cabelos dourados; era romântico, engraçado,
cuidadoso e muito presente. Aliás que era presente até demais. Não desgrudava
de mim, quando eu não estava com ele fisicamente, precisava estar com o celular
nas mãos, pois ele me mandava mensagens de cinco em cinco minutos. Por esse
motivo, às vezes eu fingia esquecer o celular desligado.
O
defeito de Guilherme era os ciúmes. Ele era extremamente ciumento, e a causa
maior do ciúme era o Bruno. Ele não se conformava com a minha proximidade com o
Bruno. Falava que o Bruno me olhava de uma forma diferente de amizade, e não se
cansava de dizer que o Bruno não gostava dele, o que era bem verdade.
Algumas
semanas depois de ter ficado com o Bruno, tive uma discussão com o Guilherme e
nós chegamos a romper o namoro. E foi bem na época em que o Bruno estava
começando a sair com os meninos, e eles estavam pegando “todas”, como dizia
Gustavo. Soube que Bruno estava ficando com meninas diferentes a cada noite e
até várias meninas na mesma noite. E eu pude constatar isso no colégio, pois de
uma hora para outra as garotas começaram a se jogar em cima dele durante o
intervalo. Eu ficava de longe, com minha turma e fingia não notar, mas sempre
que podia eu o olhava e lá estava ele cercado delas.
Foi
por esse motivo que decidi voltar com Guilherme, dias depois, pois se antes eu
tinha sofrido pelo Bruno, naquele momento então, seria muito pior, pois ele
havia descoberto as tentações do mundo, e parecia estar gostando muito.
Tentei
me manter afastada dele, mas era impossível. Sentia falta de falar com ele, rir
das mesmas coisas, discutir com ele, enfim, não podia me ver longe daquele
garoto. Então quando estávamos juntos, esquecíamos todo o resto e curtíamos
nosso momento, eu fingia não sentir nada por ele e ele fingia acreditar.
Meses
se passaram, e eu me torturava com o final do ano chegando, afinal, era o
último ano dele no mesmo colégio que eu. E a cada dia que passava era um dia a
menos que ficaríamos juntos. Queria ter o poder de parar o tempo porque sabia
que em alguns meses ele se mudaria para qualquer outra cidade para fazer
faculdade.
Nós
aproveitamos cada momento juntos, fomos a jogos de futebol, jogos de basquete,
cinema, choperia, barzinhos; enfim, sempre arrumávamos uma desculpa para
estarmos juntos. Isso durante os dias que eu não estava com meu namorado.
Os
meninos sempre nos acompanhavam, ou era eu que os acompanhava, não sabia ao
certo. Mas o que eu sabia era que eles faziam questão da minha presença, quando
eu estava disponível.
E
aos finais de semana, quando eu estava com o Guilherme, eles saíam juntos e
aprontavam todas, e isso acaba tonando-se assunto para a semana toda. Eu me
divertia em escutar o que eles aprontavam, mas quando escutava algo sobre o
Bruno com as garotas que ele estava saindo, quase morria de ciúmes, embora
fingia ser indiferente.
Bruno
começou a maratona dos estudos para o vestibular. Mesmo quando estava em meu
apartamento durante as tardes que passávamos juntos, passava parte do tempo
estudando.
Um
dia antes de Bruno viajar para São Paulo, onde prestaria vestibular, nós
estávamos no terraço do prédio, compartilhando meu fone de ouvido e escutando
nossa trilha sonora e claro, nossa Why Georgia.
—
Está nervoso para a prova?
—
Acho que não. Quer dizer, não sei como será na hora, mas eu acho que me
preparei bem.
—
Você até que estudou bastante.
—
Até que estudei? Tenho estudado todos os dias.
—
Eu sei, por isso tenho certeza que se sairá bem.
Senti
meu coração doer de tristeza, porque estava a dias de perdê-lo.
—
Você vai ser um ótimo engenheiro químico, você vai ver!
—
Tomara!
Ficamos
em silêncio.
—
Só não sei como será sem você me amolando todos os dias. — ele disse soltando
um sorriso triste.
—
Eu amolando você? Seu cretino, você que não me dá paz.
—
Mas você sentirá falta.
—
O pior é que é verdade.
—
E depois Carol? Como vamos fazer? Digo, depois que nos formarmos. Eu não quero
seguir um caminho oposto do seu.
—
Mas isso é um fato Bruno. Você vai escolher um emprego onde mais beneficiará
você, e sabe-se lá em qual cidade será isso. E comigo será a mesma coisa.
—
Mas podíamos escolher a mesma cidade. Sei lá, nos focarmos em uma cidade e
lutarmos por um emprego nela.
—
Qual cidade?
Nesse
momento estávamos deitados um ao lado do outro, olhando para o céu, e então
Bruno apoiou-se sobre o cotovelo ficando de frente para mim.
—
Ah, sei lá. Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo.
—
Eu pretendo estudar em São Paulo. — falei convicta.
—
Pode ser São Paulo! Eu me formo, faço alguns cursos extracurriculares, enquanto
você termina sua faculdade e depois arrumamos dois apartamentos, um ao lado do
outro, como é agora. Já pensou que maravilha! Sem horários, sem explicações,
sem o seu namorado.
Nesse
momento ele sorriu e consequentemente eu também.
— É pelo amor de Deus! Não quero dar de cara
com aquele “mala” todos os dias.
—
É, o pior será o entra e saí de vadias por sua causa em meu prédio.
—
Tenho que concordar, porque provavelmente elas formarão fila em frente ao nosso
prédio, só para me ver.
—
Como você é idiota. — falei balançando a cabeça em negação.
—
Carol é sério! Então será São Paulo?
Bruno
me olhou sério, como se estivéssemos firmando um compromisso.
—
Você fala isso agora. Quero ver daqui alguns anos e você receber uma proposta
imperdível, aqui, ou fora do país por exemplo.
—
Se você me falar que será em São Paulo, será São Paulo! Mesmo que eu receba uma
proposta milionária.
Eu
ri alto naquele momento. Olhei para ele e ele continuava sério.
—
Tudo bem, São Paulo!
Apertamos
a mão um do outro firmando nosso compromisso.
Mais
tarde nos despedimos porque ele passaria uns dias fora prestando o vestibular,
e seria assim nos próximos finais de semana, onde Bruno iria fazer provas em
vários cantos do Brasil. Eu o abracei sentindo uma bola de sinuca presa em
minha garganta.
—
Boa sorte! Estarei rezando para você.
Bruno
colocou o rosto em meus cabelos, inalando meu cheiro.
—
Obrigado! — disse ele me dando um beijo demorado na bochecha.
Quando
estava entrando em meu apartamento, coloquei a mão em meu bolso e me lembrei
que eu e minha mãe havíamos comprado uma lembrancinha para ele, naquela tarde.
—
Ah, isso aqui é para proteger você.
Ele
me olhou incrédulo.
—
O que é isso?
Bruno
abriu a pequena caixinha prata e viu o escapulário de ouro.
—
Carol, nem sei o que dizer! Eu adorei! Mas não precisava.
—
Usa para dar sorte. É um presente meu e da minha mãe.
Bruno
sorriu e imediatamente colocou o escapulário.
—
Você me dá sorte!
Suspirei
tentando disfarçar o nervosismo.
—
Obrigado e agradece sua mãe por mim.
Balancei
a cabeça concordando e dei-lhe um beijo no rosto.
Assim
que entrei em meu apartamento, fui direto para meu quarto, onde caí em minha
cama e comecei a chorar sem parar, imaginando como seria nossa despedida.
Após
a maratona de vestibulares, Bruno enfim estava de férias e ao invés da
formatura, ele preferiu viajar. E eu, minha mãe, Ester, Gustavo, Felipe e Tiago
fomos juntos com ele para o litoral de Santa Catarina onde passamos dez dias.
Tiramos
milhares e milhares de fotos. Fotos minhas e do Bruno juntos, do Bruno com os
meninos, das nossas mães; enfim, foram os dez dias mais perfeitos da minha
vida, que passaram num piscar de olhos.
Quando
voltamos para Porto Alegre, Bruno soube que havia passado em três universidades
públicas. Das quais ele escolheu a USP, com campus em Lorena. Ou seja, ele
estaria pelo menos umas quinze horas de distância de mim.
Senti
meu mundo desabar, e era uma tortura para mim vê-lo arrumar suas coisas para ir
embora. Na véspera, nosso clima foi de velório, ele também não parecia nada
feliz com a partida.
Eu
fui com Ester levar Bruno para Lorena, onde conhecemos a república que ele
moraria. Mas, assim que Ester chegou lá, mudou de ideia e em cima da hora,
acabou alugando um apartamento só para ele, bem perto do campus.
Passei
três dias em Lorena, e confesso ter sido os piores dias da minha vida, pois eu
sabia que quando eu fosse embora, Bruno ficaria, e uma parte de mim ficaria
também.
No
dia de ir embora, Bruno abraçou Ester que estava muito emocionada, e em seguida
veio até mim e me levantou do chão me abraçando tão forte que mal podia
respirar.
—
Se cuida Carol! — ele falou com os olhos cheios d’água. — Se aquele mané fizer
alguma coisa de ruim para você, eu o mato.
Eu
ri, provavelmente Guilherme largaria de mim assim que eu voltasse, afinal, ele
não queria que eu fosse para Lorena de maneira alguma.
—
Eu vou me cuidar! E só peço que você também se cuide. Não deixe que as
tentações mudem quem você é.
—
Você sabe que não. — ele disse me colocando no chão. — Irei sentir sua falta! —
continuou ele.
Minhas
lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, sem que eu conseguisse me
controlar.
—
Sentirei sua falta mais do que tudo! — falei abraçando-o novamente.
—
São Paulo! Não esquece!
Concordei
e Bruno beijou o topo da minha cabeça e em seguida saí, deixando-o para trás.
—
Carol!
Eu
voltei correndo e nesse momento ele me beijo, não importando que a Ester estava
vendo aquela cena em frente ao prédio dele. Nosso beijo foi maravilhoso, e eu
nunca iria me esquecer daquela sensação, porém, também tinha gosto de
despedida.
Eu
e Ester fomos de táxi até o aeroporto de São Jose do Campos e de lá voamos para
Porto Alegre, e eu fui chorando praticamente todo o trajeto, e Ester nem
mencionou o porquê daquele beijo.

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