quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 07, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas 

Parte 07

Bruno me olhou mas não respondeu.
— Eu preciso ir para o colégio.
Ele deu um passo para trás e não disse mais nada. Fui até meu apartamento com as pernas trêmulas.
— Carol, achei que você estivesse em seu quarto!
— Ah, mãe, só fui me despedir do Bruno, mas já estou indo para o colégio. — disse indo até meu quarto para pegar minha mochila.
Sentia meu coração acelerado de nervoso, mas não podia demonstrar naquele momento.
— Está tudo bem, filha? — disse minha mãe vindo atrás de mim.
— Ah... está sim, mãe! Já vou porque não posso me atrasar.
Dei-lhe um beijo e saí em seguida. Fiz o caminho do colégio sem enxergar um palmo em minha frente. Mas desviei meu trajeto. Precisava apenas ficar sozinha para pensar no que estava acontecendo. Fiquei sentada em um parque, pensando nas coisas que ouvi Bruno dizer a tal Melissa. Ele se justificava para ela, e senti que parecia estar com medo de desapontá-la.
“Estou com saudade de você. ”  Aquelas palavras não saíam da minha cabeça. Ou seja, o fato era que Bruno não sentia por mim o que eu sentia por ele, e por isso eu tinha que tocar minha vida.
Mas ao mesmo tempo me lembrava do que ele havia me dito. — O que você quer de mim? E no fundo ele tinha razão. Não tinha o direito de cobrar nada do Bruno, sendo que fiquei com Guilherme por quase dois anos.
A verdade era uma só, no fundo minha mãe tinha total razão em relação à minha relação com o Bruno. Afinal, a partir do momento que meus sentimentos mudaram em relação a ele, nossa amizade ficou extremamente abalada.
Naquele dia, nem cheguei a ir para o colégio, fiz hora na rua até dar meu horário de ir para casa. Assim, teria certeza de que quando voltasse, Bruno já teria ido embora e minha mãe estaria no trabalho e foi justamente isso que aconteceu.
Passei junho estudando com um grupo da escola. Fizemos grupos de estudos, onde tirávamos todas as nossas dúvidas sobre determinadas matérias.
Patrícia e Felipe estavam meio que namorando, embora, ela nunca admitiria uma coisa dessas, afinal, mesmo com ele, vivia de olho em outros carinhas. Ainda assim, eles passavam os finais de semana grudados e ela por sinal não saía mais do nosso prédio, o que por um lado foi bom para mim, pois estava constantemente ao lado da minha melhor amiga e ao lado dos meus amigos. Eu e Bruno conversávamos menos do que o normal, mas estávamos tentando manter um relacionamento saudável entre nós.
Na primeira semana de julho, Tiago, Felipe e Gustavo estavam de férias da faculdade, e eu e a Pati de férias do colégio. Combinamos um churrasco no prédio, onde alguns amigos da faculdade de Gustavo e Felipe também iriam. No dia do churrasco, passamos a tarde toda preparando e comprando as coisas enquanto os meninos organizavam o resto. Estávamos todos na área de lazer, onde conheci algumas amigas e alguns amigos de Gustavo e Felipe que foram super legais comigo. Meu celular tocou, e vi que era o Bruno.
— Oi, tudo bem?
— Oi, onde você está?
— Estou no prédio, os meninos estão fazendo um churrasco para os amigos da faculdade. E por aí está tudo bem?
Ele sorriu.
— Estou bem sim. Depois falo com você. — ele falou desligando em seguida.
Fiquei sem entender.
— O que foi? — disse Gustavo vindo em minha direção.
— Ah, o Bruno, me ligou pra saber onde eu estou, mas desligou assim que eu disse. Sinceramente não entendi.
— Acho que já está na hora de você parar de se importar tanto com o Bruno. — disse ele passando o braço ao redor da minha cintura. — Nós poderíamos sair hoje para dar uma volta, acha? — ele disse quase sussurrando.
— Gustavo!
Quando me livrei da pegada de Gustavo, vi Bruno vindo em nossa direção nos encarando. Bruno olhou para mim e abaixou a cabeça e colocou suas mãos na bermuda cargo. Senti minhas pernas ficarem bambas. Meus batimentos cardíacos foram quase a mil. Não resisti e fui de encontro a ele.
— Como você chega sem me avisar? Quer me matar do coração?
Ele riu.
— É bom ver você também.
Eu sorri para ele e o abracei em seguida.
— Senti sua falta.
Bruno me abraçou como se não tivesse intenção de me soltar.
— Ora, ora! A quanto tempo mesmo vocês não se viam? Dez anos? — brincou Pati, vindo em nossa direção.
Bruno me soltou sorrindo, contudo, continuou com uma das mãos em minha cintura.
— Oi Patrícia.
— Oi Bruno, como vai? — ela disse dando-lhe um beijo no rosto.
Senti uma fisgada de ciúme, afinal o beijo dela quase pegou no canto dos lábios dele. Por sorte Bruno desviou.
— E aí Brunão! — falou Gustavo sem esboçar muita alegria.
Bruno o encarou por um momento. Senti certa tensão no ar.
­— E aí cara, como vai?
Eles se abraçaram e em seguida Felipe e Tiago foram cumprimentá-lo. Eu queria me manter distante, mas falhava a todo momento, o tal imã que nos atraía ainda era muito forte.
Tiago serviu Bruno e eles ficaram conversando em uma roda de garotos e de longe era possível escutar as risadas altas. Procurei deixá-los o mais à vontade possível, mas percebi que Bruno me seguia com os olhos.
— Por que vocês não param logo com essa frescura e assumem o que sentem um pelo outro de uma vez? — indagou Patrícia.
— Eu não sei do que você está falando. — menti.
— Ah, você sabe sim! Pensa que eu não vejo essa troca de olhares, sua reação perto dele e a reação dele perto de você, é mais do que nítido.
Dei um sorriso sem graça, não discordei e nem concordei com ela. Quando dei por mim, Bruno já estava novamente ao meu lado.
— E aí Carol? Você nem me disse como vão as coisas.
Patrícia saiu de perto, deixando-me sozinha com ele. Nós começamos a caminhar e sentamos ao redor da piscina.
— Estão bem. Estou estudando bastante, já posso dizer que me sinto pronta para a onda de vestibulares.
— Tem saído?
— Às vezes, já que a Pati está saindo com o Felipe, então acabo saindo com eles. E você, por que não me disse que viria essa semana? Imaginei que viesse apenas na próxima semana ou nem viesse por causa da namorada.
Por mais que eu e Bruno conversámos por mensagens, ele nunca tocava no assunto da namorada, e nem eu perguntava. Então era hora de bancar a indiferente.
— Estava marcado para eu voltar na próxima semana, mas minhas provas terminaram antes, aí quis fazer uma surpresa.
— E sua namorada?
Foi a primeira vez que consegui perguntar a ele sobre a tal Melissa.
— Ela voltou para Campinas.
— E ela é legal?
— É sim! Ela é bem legal. Estamos nos dando bem.
Meu ciúme foi gigantesco nesse momento, porém, tentei disfarçar o máximo que pude.
— Que bom! Fico feliz por vocês.
— E você, não voltou mesmo com o namorado?
Balancei a cabeça em negação.
— Não. Ele me procurou diversas vezes e embora ele fosse um cara legal, não estava mais dando certo.
Bruno ficou pensativo.
— Já o Gustavo não desiste, não é? Está sempre de marcação cerrada.
— Ele é legal, apesar das gracinhas de sempre.
Bruno forçou um sorriso, claramente irritado com o Gustavo.
— Preciso pedir desculpa por aquele dia. Eu fiquei sem reação ao ver você falar com a sua... com a Melissa. Você tinha razão, não posso cobrar nada de você e também não quero que a nossa amizade fique abalada. E mesmo assim, percebi que nos distanciamos um pouco e não podemos deixar que isso nos afaste ainda mais.
Bruno continuou calado.
— Senti sua falta Carol! Tinha vontade de te ligar a todo tempo, mas sei lá... é tão complicado, quer dizer, as coisas ficaram tão complicadas entre nós.
Fiquei sem reação ao escutar as palavras dele.
“Será que ele simplesmente não quer mais nem ao menos ser meu amigo?”
— Você acha que é melhor nós... — fiz uma pausa tentando encontrar as palavras certas — Sei lá, nós nos afastarmos de vez?
Ele se calou e seu olhar ficou perdido por um tempo, até encontrar com o meu.
— Carol, eu sofri muito quando você estava com seu namorado. Você não faz ideia de como foi difícil ter que dividir você com ele. Mas eu fiz isso por você, continuei sendo seu amigo, fiquei ao seu lado sempre que você estava disponível. Não queria me afastar de você e nem te perder. E quando enfim encontro alguém legal, alguém que me vê além de apenas um amigo, você simplesmente se afasta de mim! Fiquei puto com isso, e fiquei ainda mais fodido porque você terminou seu namoro e não se deu nem ao trabalho de me contar, sendo que ligo a todo instante para te contar coisas das mais banais possíveis.
— É tão fácil julgar não é Bruno? Quer dizer, quem ouve você falando, pensa que eu o enrolei esse tempo todo. Sendo que não dava a mínima quando eu era apaixonada por você, tanto que ficou com a minha melhor amiga. E você nunca se colocou em meu lugar para saber como me senti em relação a isso. Isso sem contar que disse na minha cara que não me enxergava como uma garota. Como assim? Eu ali o tempo todo ao seu lado, suspirando por você a todo o momento e você me diz que não me via da forma como eu queria ser vista? Me senti péssima com aquilo. Só depois que encontrei alguém legal e que realmente gostava de mim, você começou a mudar o jeito de me tratar.  E quando eu estava realmente feliz ao lado do meu namorado, você simplesmente chegou em mim e bagunçou todos os meus sentimentos ao falar dos seus sentimentos. Isso fez com que eu ficasse sem saber o que fazer, tanto que cheguei a largar do Guilherme por sua causa. Mas você estava naquela fase de querer beijar todas as garotas da face da Terra, então voltei com ele, sem ao menos dizer a ninguém que havíamos dado um tempo, porque não queria mais sofrer por você. Ainda sim Bruno, briguei com o Guilherme milhões de vezes, porque ele não aceitava nossa amizade, entretanto, jamais me afastei de você por causa dele, pelo contrário, eu e você éramos inseparáveis.
Ele me encarava aturdido.
— Fui pra Lorena com sua mãe, e enfrentei uma guerra depois por causa disso. E depois de um tempo, mais uma vez terminei com ele, porque não achava justo namorar com um cara, gostando de outra pessoa.
A respiração de Bruno estava entrecortada.
— Foi aí que te liguei. Queria muito que soubesse que... Enfim, que eu estava sozinha, acontece que quando liguei pra você, você me disse que estava namorando e que ela é super legal, que te entende, te faz e feliz e blá, blá, blá. Você estava feliz e não seria eu quem ia estragar aquele momento, por isso decidi não dizer nada. Na verdade, foi um balde de água fria.
Bruno me olhou apreensivo.
— No dia do meu aniversário, você me fez uma surpresa da qual nunca me esquecerei, depois me pediu um beijo, mas na manhã seguinte, ouvi você falando para a Melissa que eu era apenas uma amiga de infância. Então a verdade, é que você não sabe ao certo o que quer. Talvez seja melhor a gente se afastar de vez.
Levantei-me e Bruno fez o mesmo, porém segurou meu braço.
— Não quero me afastar de você! Carolina, você não entendeu nada do que disse? Quis dizer que eu fiquei ao seu lado, mesmo estando com o Guilherme colado em você o tempo todo, mas só porque conheci alguém, a primeira coisa que você fez foi sair de cena, sequer me liga ou manda alguma mensagem. Se não for eu ligar pra você, ficamos sem nos falar por sabe-se lá quanto tempo. Agora eu te pergunto: você acha melhor que eu me afaste de você?
— Não. Claro que não. Só disse isso porque, sei lá, achei que quisesse dar um tempo na nossa relação, justamente porque está namorando .
— E você acha que se eu quisesse me afastar estaria aqui? Você é a única pessoa que me faz querer voltar pra casa. Só estou aqui por sua causa, pra te ver.
Olhei atordoada pra ele.
— Carol, eu amo ficar perto de você, estar com você. Não quero brigar. Me desculpa por ter dito todas aquelas coisas. Agora vem aqui. — disse ele, me abraçando.
— Bruno, desculpa-me também. Não vamos mais deixar que nada atrapalhe nossa relação. Eu não saberia viver sem você. Já é tão difícil sem você ao meu lado, e eu morreria ficar sem notícias sua.
Ele me olhou e me beijou o topo da cabeça.
— Quando eu estava com o Guilherme você ainda continuou sendo meu amigo, então é minha vez de ficar ao seu lado, mas se ela fizer você sofrer eu a mato, está ouvindo?
Bruno me olhou e sorriu novamente. Aquele sorriso dele era o suficiente para me matar de felicidade.
— Vem aqui! Ele disse pegando-me no colo e me jogando por cima dos ombros dele.
Eu gritei e comecei a rir, Bruno me carregou em seus ombros até onde nossos amigos estavam.
Tínhamos três semanas para curtirmos as férias juntos. Tudo estava perfeito. Eu tinha o Bruno tempo integral e ele tinha a mim. Quando a namorada dele ligava eu não me afastava, sentia meu coração doer ao vê-lo conversando com ela, mas disfarçava o máximo possível. Até que com o passar dos dias, ele começou a evitar as ligações dela.
E era como antes, havia algo que nos atraía, uma força maior do que nos dois. Estava cada vez mais impossível ficarmos afastados um do outro. E quando eu estava com o Bruno, tudo ficava melhor, mais bonito, mais colorido, mais vivo. Sentia como se eu dependesse dele para sobreviver.
Saíamos quase todos os dias à noite, quando não era apenas nós dois, era com os garotos e a Patrícia. Passávamos as tardes inteiras jogando conversa fora assistindo a filmes ou com Bruno me dando aulas de Química e Física, afinal, ele manjava muito.
Gustavo nos levou a uma boate que havia acabado de inaugurar, e como eu ainda era menor de idade, Bruno entrou como meu responsável, o que o deixou todo dono de si, e eu bem que gostei.
Na segunda semana, a avó de Bruno precisou ser internada, então Ester e uma outra tia se revezavam para ficar com ela no hospital durante à noite. Bruno foi visitá-la algumas vezes e sempre me levava junto dele.
Já estávamos na quarta-feira da segunda semana, e meu coração ficava cada vez mais apertado, pois as férias estavam terminando e logo Bruno voltaria para Lorena.
Naquela manhã, estava deitada em minha cama, pensando como seria quando tudo voltasse ao normal. Seria horrível me acostumar novamente sem ele por perto. E aquilo me dilacerava por dentro.
— Carol? Está acordada, filha?
— Se eu estivesse dormindo, você provavelmente me acordaria ao entrar assim. Falei em tom de brincadeira.
Ela sorriu.
— Filha, lembra que comentei com você sobre um congresso em São Paulo?
Eu me lembrava vagamente de minha mãe ter me comentado sobre um tal congresso de cardiologia.
— Hum, meio que lembro, mas por que está perguntando?
— Eu imaginava que esse congresso seria na próxima semana, mas minha secretária me confirmou ontem à tarde que será amanhã e sexta-feira. Nesse caso irei para o consultório apenas na parte da manhã e à tarde quero sair para comprar algumas coisas. Queria que você viesse comigo, assim compraremos algumas coisas para você levar também.
Olhei para ela sem entender.
— Para eu levar aonde?
— Para São Paulo. Você não vai comigo?
— Não, mãe! Eu nem posso ir, estamos fazendo grupos de estudos. Além disso, são minhas férias e...
— Mas você tinha comentado que gostaria de ir comigo.
— Mãe isso foi antes.
— Antes do quê? Por acaso o fato de você não querer ir tem a ver com o Bruno estar aqui em Porto Alegre.
Sabia que não podia mentir para minha mãe, mas também não precisava dizer-lhe toda a verdade.
— Ah, sei lá, em partes sim, acontece que justo agora a turma toda está reunida, está sendo tão divertido e sei que na próxima semana tudo isso acaba, as aulas voltarão e começa tudo outra vez. Então me deixa ficar, mãe, por favor?
— O quê? Ficar sozinha? Eu tenho medo! Nunca deixei você sozinha, e sei lá, vendo você e o Bruno grudados o tempo todo, não sei se é uma boa ideia.
— Mãe, o Bruno é meu amigo, apenas isso. Meu melhor amigo, aliás, você sabe disso, é assim desde que éramos crianças, e também tem a Ester aqui ao lado, se precisar você conversa com ela, tenho certeza que ela não se importará de cuidar de mim por um final de semana.
— A mãe da Ester está doente, esqueceu? Ela mal fica em casa.
— Tá, eu sei, mas ela não fica todas as noites no hospital e além disso, tem a Pati, posso ficar uma ou duas noites na casa dela.
Ela ponderou e ficou em silêncio por um instante.
— Mãe, por favor!
— Tá certo, só espero não me decepcionar com você.
— Eu já te decepcionei alguma vez?
— Não, nunca.
— Então.
— Tudo bem filha! Eu ligo para a mãe da Patrícia e vejo se tem problema você ficar por lá pelo menos na noite em que a Ester ficará no hospital.
Sorri aliviada.
— Obrigada, mãe!
Ela sorriu e em seguida me beijou.
Naquela tarde, saí com minha mãe e a ajudei a comprar algumas roupas novas e em seguida fomos a um salão de beleza, onde cortamos os nossos cabelos, fizemos escova, as unhas, sobrancelhas e massagens. Saímos de lá renovadas. Assim que chegamos ao apartamento, Bruno me ligou.
— Oi. — falei animadamente.
— Onde você esteve o dia todo? Te liguei várias vezes, fui até aí e nada.
— Ah, a bateria do meu celular acabou para variar. E eu fui fazer umas compras com a minha mãe.
— Hum. Bom, pensei em sairmos para jantar. Minha mãe aceitou em ir com a gente, será que sua mãe topa?
— Preciso ver com ela, ligo para você daqui uns minutos, pode ser?
— Pode. Eu espero.
Podia imaginar Bruno dando um sorriso do outro lado da linha e isso fez com que eu sorrisse também. Fui em seguida falar com minha mãe.
— Mãe, a Ester nos convidou para sairmos pra jantar, o que você acha?
— Ah, filha, eu ainda preciso arrumar minhas coisas para amanhã cedo.
— Depois eu ajudo você.
— Tudo bem. Nem é tanta coisa assim para eu levar. Posso arrumar isso depois.
— Posso ligar para ela para confirmando.
— Pode, Carol. Me diga o que eu não faço por você?
Festejei por dentro. Seria um programinha como os de antigamente. Não tinha nada no mundo que eu gostasse mais que programinhas em família com o Bruno.
Nós fomos para um restaurante de comida japonesa. Fomos os quatro no mesmo carro. Bruno foi dirigindo, eu fui ao lado dele e nossas mães no banco de trás.
O jantar do início ao fim foi muito animado, conversamos muito, rimos muito, fizemos planos para as próximas férias, enfim, foi um jantar em família perfeito.
Quando estávamos esperando a sobremesa, minha mãe olhou para mim e em seguida para o Bruno e por fim para Ester.
— Ester, amanhã cedo eu vou para São Paulo, acontecerá um congresso de cardiologia e eu não queria perder de maneira alguma. Conversei com a Carolina, mas ela não quer ir comigo e eu tenho medo de deixá-la sozinha no apartamento. Nesse caso, queria ver se a Carol pode ficar com você, pelo menos na noite em que não for ficar com a sua mãe.
Bruno me olhou aprovando totalmente a situação.
— Claro que sim! Minha mãe já está melhor, vai para casa dela amanhã pela manhã, então estarei em casa todas as noites e a Carol pode ficar com a gente quanto tempo quiser.
Minha mãe olhou para Bruno e em seguida para Ester.
— Se caso precisar sair algum dia, ela fica na casa da Patrícia, porque tenho medo de deixar esses dois completamente sozinhos. Nunca se sabe.
— Mãe!
— Filha eu confio em vocês! Não é isso, é que na idade de vocês, todo cuidado é pouco.
Bruno ficou corado.
— Não se preocupe, Marília, eu cuido da Carol. Ela é minha melhor amiga, esqueceu?
Quase afundei na cadeira do restaurante, de vergonha e tristeza por ele afirmar “Nós somos apenas amigos” com tanta convicção.
— Eu cuido dos dois, pode ir tranquila. — continuou Ester.
Minha mãe me olhou soltando um sorriso de alívio.
Bruno me encarava algumas vezes, era como se ele não conseguisse tirar os olhos de mim e eu dele. Voltamos para o prédio e nos despedimos na porta dos nossos apartamentos.
— Carol, espero você amanhã! — falou Ester dando-me um beijo no rosto.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sob o olhar das Estrelas, parte 06, por Érika Prevideli

Sob o olhar das Estrelas

Parte 06

Senti meu corpo inteiro arrepiar e quando olhei, vi que era o Bruno.
— Eu n.ã.o a.c.r.e.d.i.t.o! Você veio?
Bruno me abraçou em seguida.
— Jamais perderia seu aniversário. Não seria a mesma coisa se eu apenas te ligasse.
— E sua aula?
— Eu perdi apenas umas aulas da tarde, fui para São José dos Campos e peguei um voo direto para cá. Amanhã eu tenho que ir embora bem cedo, tenho prova após o almoço. Mas só de estar aqui valeu a pena.
Eu não conseguia acreditar, senti-me a pessoa mais feliz do mundo.
— Feliz aniversário Carol. — disse ele me abraçando e me levantando do chão.
— Ah, Bruno, nem acredito que você está aqui! — falei enquanto o abraçava — Agora sim estou feliz!
Bruno me colocou no chão e beijou meu rosto.
— Trouxe um presente para você, está no meu apartamento. Depois você vai até lá comigo, aí eu te entrego.
— Você é meu presente, seu bobo.
Ele sorriu.
— Me segurei para não te ligar o dia todo. Queria que você pensasse que eu tivesse esquecido.
— E realmente pensei. Isso não se faz.
Bruno me abraçou novamente. Seu cheiro era incrível, cheirava a banho e a perfume amadeirado.
— Vem, vamos lá! Os garotos nem vão acreditar que você está aqui. — falei pegando na mão de Bruno e o guiando entre os convidados.
E foi como eu disse, eles mal podiam acreditar quando viram o Bruno. Todos o abraçaram, inclusive a Patrícia, que por sinal me deixou com um pouco de ciúmes. Pois ela quase se tacou no colo dele.
— Eh Brunão, tá namorando? perguntou Tiago, dando-lhe um tapinha.
Bruno olhou para mim sem graça e em seguida olhou para Tiago.
— É, parece que sim.
— Por que não a trouxe para gente conhecer, cara? — indagou Felipe.
— É verdade Bruno! Queremos ver se a garota passa no controle de qualidade. — brincou Pati.
Bruno sorriu sem graça.
— Uma próxima vez. Mas ela não sabe que estou em Porto Alegre, saí de lá correndo, não tive tempo de contar.
Gustavo me encarou. Era como se ele analisasse minha reação ao ouvir Bruno falar sobre sua namorada.
— Não deu tempo ou já está com medo da namorada? — perguntou Tiago em tom de brincadeira.
Os meninos começaram a zoar com Bruno, dizendo que ele já estava sendo mandado, arrumaram vários apelidos pra ele, coisas que apenas eles tinham liberdade de falar. Eu só ria, não me importava com o fato de estarem falando sobre a namorada dele, ou de estarem zoando com o Bruno, o importante era que ele estava comigo naquele momento.
Nós dançamos, rimos, conversamos muito, dançamos outra vez. Como era antigamente, os cinco juntos outra vez; dessa vez com a Patrícia a tiracolo.
Na hora dos parabéns alguém gritou para quem seria o primeiro pedaço de bolo. Eu olhei todos que estavam ao meu redor e respirei fundo tentando tomar coragem.
— Se eu pudesse, dividiria esse primeiro pedaço de bolo em vários primeiros pedaços. Pois aqui se estão as pessoas que eu amo. E entre todos vocês existem aquelas que simplesmente são parte de mim.
Os olhos de Bruno não saíam queimavam sobre os meus. Ele sorriu e eu sorri de volta.
— Entretanto, hoje eu queria oferecer meu primeiro pedaço de bolo a alguém que me surpreendeu muito. Alguém que apareceu e encheu meu coração de alegria.
Todos olharam para Bruno, sem ao menos dizer o nome dele, deixando-o vermelho feito pimenta. Fui até ele e entreguei-lhe o primeiro pedaço, abraçando-o em seguida.
— Obrigada por estar aqui. — sussurrei no ouvido dele.
Bruno não disse nada, pois estava nervoso demais para isso.
Todos bateram palmas e alguns fizeram alguma brincadeira sobre nós, mas eu não me dei ao trabalho de prestar atenção para saber o que diziam.
O pessoal foi embora da festa já era de madrugada. Eu, o Bruno, os garotos e a Patrícia, fomos para o terraço, onde ficamos conversando, mas ele parecia ansioso, tanto que os meninos perceberam e trataram logo de ir embora, Patrícia foi embora e quem a levou foi o Felipe. E era obvio que os dois estavam com segundas intenções.
Gustavo e Tiago se despediram de Bruno que iria embora no outro dia bem cedo. Em seguida, ele me chamou para ir até o apartamento dele, onde entregaria meu presente.  Entrar com Bruno no apartamento dele era uma sensação imensa de nostalgia. Foi como se um filme passasse em minha cabeça lembrando dos bons momentos que passamos ali. Lembrei-me até da primeira vez que estive lá, quando eu e Bruno nos conhecemos na piscina e depois Ester nos levou para fazermos um lanche.
Fomos até o quarto dele que estava intacto sem as bagunças que ele fazia rotineiramente. Só uma mochila estava sobre a cama, ao lado de um embrulho dourado. Bruno sentou-se e eu sentei-me de frente para ele.
— Carol, é só uma recordação para você nunca se esquecer de mim. Fiquei uns dias preparando isso, espero que goste!
— Você está me matando de curiosidade, sabia?
Ele sorriu e me entregou o embrulho dourado. Estava trêmula abrindo o presente. Quando abri vi uma tela.
— Eu não acredito! É o que eu estou pensando? — perguntei incrédula. — Um porta-retratos digital?
Bruno concordou com a cabeça.
— Tem até trilha sonora. Liga pra você ver.
Imediatamente liguei o porta-retratos e mal podia acreditar no que via. Eram fotos minha e do Bruno desde que éramos crianças. Fotos de nós dois na piscina, no playground, andando de bicicleta, jogando com os meninos, de nós dois de uniforme do colégio, foto minha já com uns quinze anos dormindo no sofá da casa dele, foto dele dormindo no meu quarto, fotos na praia, no shopping, no estádio de futebol, no show do Black Eyed Peas, entre outros lugares, todas elas, acompanhadas da trilha sonora de nossas vidas: U2, John Mayer, Guns, entre outras.
— Nem sei o que dizer, é incrível!
— Gostou mesmo?
— Amei, é perfeito! — falei abraçando-o em seguida.
Deitamos e ficamos vendo foto por foto, recordando o passado, enquanto comentávamos e ríamos de tudo. Até que ficamos em silêncio enquanto observávamos as fotos, cada um perdido em seus pensamentos. Os meus pensamentos eram em como o tempo havia passado rápido demais e que eu daria tudo para voltar naquela época, totalmente sem preocupação de nada. Nosso silêncio foi interrompido por nossas mães aparecendo de supetão no quarto do Bruno.
— Carol, já terminamos de organizar tudo, agora vamos que já está tarde, o Bruno precisa sair amanhã bem cedo e você tem aula.
— Tá mãe, já estou indo.
— Estou esperando você aqui na sala. — disse minha mãe saindo em seguida.
— Bruno, juro que você me surpreendeu. Nunca irei me esquecer dessa noite e das surpresas que me fez, muito obrigada!
— Não precisa agradecer. Não poderia deixar de estar aqui. Você é uma pessoa muito especial, nunca se esqueça disso!
Nos abraçamos demoradamente, no entanto, antes que eu caísse em tentação me liberei dos braços dele e dei-lhe um beijo no rosto. Bruno foi comigo até a sala, onde me despedi de Ester e ele se despediu da minha mãe. Antes de ir embora, minha mãe o olhou e sorriu, dizendo:
— Bruno, quando vai trazer sua namorada para que possamos conhecê-la?
Ele me olhou sem graça mas desviei o olhar em seguida. Ester também pareceu sem graça, afinal, ela tinha testemunhado um beijo nosso quando nos despedimos em Lorena.
— Nós ainda estamos nos conhecendo, talvez nem dê certo.
— Vocês têm muito tempo para isso, os estudos em primeiro lugar.
Ele concordou soltando um sorriso acanhado.
— Então vamos, mãe?
— Vamos filha.
Meu olhar se cruzou com o olhar dele e nos despedimos novamente. Assim que entramos em nosso apartamento, fui até meu quarto onde estavam todos os meus presentes e imediatamente coloquei meu porta-retratos ao lado da minha cama. Escovei os dentes, retirei minha maquiagem e coloquei meu pijama. Chamei minha mãe em seguida para que ela visse o presente que Bruno me deu. Ela, assim como eu, achou incrível, e sentou-se em minha cama para ver todas as nossas fotos. Eu ainda olhava abobalhada para o porta-retratos. Foi quando a flagrei me encarando, como se tivesse me inspecionando.
— Está acontecendo alguma coisa entre você e o Bruno?
— Não, claro que não! De onde você tirou essa ideia?
Ela me encarou como se tentasse ler meus pensamentos.
— Carolina conheço bem você. E percebi o quanto você ficou sem graça quando perguntei sobre a namorada dele. E outra, o Bruno não sairia de Lorena até Porto Alegre sem ter um bom motivo. Por exemplo, se fosse o aniversário do Felipe, tenho certeza que ele não viria.
— Mãe, é diferente. Eu e o Bruno somos...
Fiquei pensativa; afinal já não sabia mais o que nós éramos.
— Milha filha, já vi de tudo nessa vida, e uma coisa que eu sempre admirei de verdade é a amizade de vocês dois. É uma amizade pura, sem interesse algum. Mas a partir do momento que um de vocês confundirem os sentimentos, pode ter certeza que tudo irá por água abaixo, ou seja, a amizade de vocês ficará abalada e nunca mais será como antes. Então pensa bem antes de se envolver com seu melhor amigo.
— Mãe, você está louca! Está enxergando coisa onde não existe.
Ela inclinou-se e me beijou o topo da cabeça.
— Espero realmente estar errada. Boa noite, filha!
— Mãe! — exclamei quando a vi saindo do meu quarto. — Obrigada por tudo! Minha festa estava linda, graças a você.
Minha mãe olhou para mim e sorriu serenamente.
— Te amo filha.
— Também amo você, mãe.
Algum tempo depois, quando eu já estava quase dormindo, meu celular vibrou, meu coração acelerou, era uma mensagem do Bruno.
Você ainda me deve aquele beijo, lembra?
Ri sozinha ao ler a mensagem. E em seguida chegou outra.
Queria falar com você, mas ainda não tivemos tempo, que tal no terraço?
“Meu Deus, ele quer falar comigo? O que será?” — perguntei a mim mesma e em seguida digitei uma mensagem para ele.
Bruno, você precisa acordar muito cedo amanhã. E já está tarde!
Em segundos chegou outra mensagem dele.
Só queria conversar com você, vai ser rápido! Além disso você me deve, lembra?
Suspirei tomando coragem.
Tudo bem, só preciso ver se minha mãe já está dormindo.
Meu coração batia mais acelerado a cada instante.
Tá! Espero você.
Dei um pulo da cama e silenciosamente abri a porta do quarto. A sala estava com a televisão ligada, o que eu estranhei. Fui na ponta dos pés e vi minha mãe deitada no sofá assistindo à tv.
Aquilo era realmente estranho, porque minha mãe sempre dormia muito cedo por causa do hospital. Voltei para meu quarto novamente na ponta dos pés e digitei uma resposta para o Bruno.
Minha mãe decidiu assistir tevê uma hora dessas. Não tem como sair agora.
Ele respondeu:
Estranho, uma hora dessas?

Eu achei estranho também, talvez ela não está conseguindo dormir porque viu meu pai com a nova namorada, vai entender! Mas agora fiquei curiosa, o que você queria falar comigo?
Bruno respondeu em segundos
Queria te perguntar duas coisas:
1-Por que o mala do seu namorado não foi?
2-Você mudou comigo desde que te falei que estava namorando a Melissa, você ficou chateada?
“Uau, ele me encurralou. O que eu digo a ele? ”
Hesitei para responder, mas eu precisava. Digitei uma mensagem e enviei em seguida.
Eu não estou mais namorando. E não mudei com você, talvez tenha ficado surpresa, afinal acabou de se mudar, e sei lá, é seu primeiro ano de faculdade, então nunca imaginei que aconteceria tão cedo. Mas é uma escolha sua e se você está feliz, eu também estou. Ah, obrigada por me dizer o nome dela.
Rapidamente chegou outra mensagem
Por que nunca me disse que terminou seu namoro? Quando foi isso? Achei que me contasse tudo o que era importante para você!
E você falou sobre ser cedo pra eu namorar, mas quem começou a namorar com quinze anos?
Tá, agora estávamos discutindo e aquilo me deixava aturdida.
Bruno, liguei para te contar sobre o fim do meu namoro, mas você me falou que estava namorando, então, sei lá, achei que nem tivesse importância. Mas peço desculpas se agi errado. E não estou julgando seu relacionamento, é como eu disse, se você está feliz, eu também estou. E Bruno, não quero discutir com você bem hoje. Estou feliz demais para isso.
Ele enviou outra
Você tem razão. Também fiquei feliz por estar aqui. Boa noite, linda.
Beijos
Na manhã seguinte levantei-me mais cedo para poder me despedir do Bruno antes de ir para a escola. Tomei um banho, coloquei meu uniforme, tomei café da manhã, escovei os dentes novamente e coloquei um trident na boca. Fui até o apartamento de dele era por volta das 6:15 da manhã, já que ele precisaria estar 7:00 no aeroporto. Toquei o interfone e Ester abriu a porta imediatamente. Ela estava elegante como sempre, com sua saia secretária, camisa de seda e terninho.
— Bom dia Ester! Vim me despedir do Bruno, ele já se levantou?
— Oi Carol, bom dia! — ela disse dando-me um beijo no rosto. — O Bruno estava se arrumando, mas já está pronto, se quiser ir até lá, fica à vontade.
Sorri animadamente para ela.
— Eu vou. — falei saindo em seguida.
A porta do quarto de Bruno estava entre aberta e ele estava conversando com alguém ao celular. Eu a abri, mas ele estava de costas e nem me viu, então ouvi parte da conversa dele.
— Eu tentei falar com você ontem, mas seu celular estava desligado e como saí correndo daí não consegui.
— É, de uma amiga de infância. Não tem nada de errado nisso.
Bruno ficou em silêncio enquanto provavelmente ela discutia com ele.
— Eu sei, você tem razão. Nos falamos quando eu chegar aí. Você pode me buscar no aeroporto?
Outra pausa.
— Tudo bem Mel, mas eu já disse, não tem nada demais, ela é apenas uma amiga.
Mais uma pausa.
— Eu te ligo quando eu chegar, e Mel, estou com saudades.
Senti um nó em meu estômago. E quando me virei para sair de lá antes que ele me visse, Ester veio em minha direção.
— Entra Carol, vá lá falar com ele.
Fiquei sem graça de ser pega saindo de fininho.
— Carol! Não sabia que você estava aí.
— Oi Bruno. — disse acanhada.
— Entra! — Bruno falou me pegando pela mão e me levando para o quarto dele e em seguida fechou a porta.
— Não quis lhe causar problemas, sinto muito.
— Você não causou problemas, fica tranquila.
— A Melissa me ligou porque estava preocupada já que não nos falamos ontem.
— Ela quem é sua namorada, você não me deve explicações. E eu sinto muito por ter escutado sua conversa. Mas enfim, só queria me despedir de você.
Eu o abracei em seguida, mas não foi como no dia anterior. Vê-lo conversando com a namorada foi como se um muro se erguesse entre nós novamente.
— Tenha uma boa viagem. — falei e dei-lhe um beijo no rosto e saí em seguida.
Ester não estava na sala, por isso saí sem me despedir. Bruno foi atrás de mim, me chamando pelo corredor. Fingi não escutar e então ele segurou meu braço.
— Não consigo entender você. Quando eu te beijei, você me disse que as coisas deveriam ficar da maneira que estavam. Então eu me afasto. Quando você termina com seu namorado, você simplesmente não me diz nada, mas fica magoada porque estou namorando. Então me fala, o que você quer de mim?
Olhei para ele sem saber o que responder.
— Você mesmo disse para sua namorada que somos apenas amigos de infância. E é só isso que somos, não é?
Bruno me olhou mas não respondeu.
— Eu preciso ir para o colégio.