domingo, 31 de maio de 2015

" Recomeços " parte 10 por Érika Prevideli


 " Recomeços "


Parte 10

15
Juntando os cacos

Dirigi a esmo por horas, já havia deixado o estado paranaense para trás e entrado no estado catarinense a horas. Parei em um posto de gasolina para abastecer o carro, e um senhor muito simpático me atendeu e pedi para que ele completasse o tanque.
-Vai para onde?
-Olha, estou me fazendo essa mesma pergunta a horas, o que o senhor me sugere?
-Depende, o que a senhora procura? Serra ou litoral? Agito ou tranquilidade?
-Humm. Fiz uma pausa, analisando as opções me dada. –Tranquilidade, é só disso que preciso, estava até pensando em ir para o litoral, mas acho que nessa fase da minha vida vou de serra.
-Boa escolha. Eu morei anos da minha vida na serra catarinense, só saí porque minha esposa na época começou a trabalhar por esses lados.
-Que lugar o senhor me indica?
-Olha, eu sou suspeito falar, mas gosto muito de São Joaquim, nasci lá, me criei lá e se Deus quiser passarei o resto da minha velhice lá.
-Então é para lá que eu vou. Eu disse sorrindo em agradecimento.
-Você não vai se arrepender. Ele disse enquanto eu pagava.
Nos despedimos, ele me desejou sorte e segui rumo à São Joaquim. Um pouco menos de seis horas após ter saído de Curitiba cheguei ao meu destino desejado.
Realmente São Joaquim era uma cidade muito acolhedora, tranquila e aconchegante. Era o que eu estava precisando. Minha barriga roncava de fome, então dei uma rodada na cidade e achei um café muito simpático.
O café era um lugar muito confortável, rústico e moderno ao mesmo tempo. Fiz o meu pedido e quando a atendente saiu, peguei meu celular de dentro da bolsa e o liguei para verificar se João Pedro tinha me ligado. E claro, vi inúmeras chamadas não atendidas dele e de Malu e várias mensagens de texto. A atendente trouxe meu pedido e então guardei meu celular novamente na bolsa deixando para ler as mensagens mais tarde.
Quando fui pagar minha comanda, a atendente me deu um sorriso.
-Veio conhecer a cidade?
-É, digamos que sim. Vou passar uns dias aqui.
-É a primeira vez?
-É sim.
-É muito bom aqui, você vai gostar.
-Falando nisso, conhece algum lugar bom que eu possa me instalar por uns dias.
-Você está com sorte. Disse a atendente entregando-me um cartão de um hotel. –É um lugar um pouco afastado, mas é muito bonito e confortável. Atrás do cartão ensina como chegar até lá.
Olhei o cartão e sorri. Tudo estava dando certo até aquele presente momento. Saí do café depois de agradecer a Silvia, a atendente do café.
Alguns minutos depois cheguei em frente ao hotel. Era realmente um lugar lindo, todo feito de madeira e pedras, em meio a vegetação.
Fiz o check in e fui para meu quarto, a camareira me ajudou com as malas e saiu em seguida. O quarto era todo romântico, possivelmente era uma suíte para casais em lua de mel, contava com uma enorme varanda com vista para um lindo bosque.
-E agora, o que eu faço? Disse para mim mesma me jogando na cama.
Fiquei alguns minutos olhando para o teto do quarto, mas instantes depois peguei meu celular para ler as mensagens.

Alice, estou desesperado, eu amo você, sei que fui um tremendo idiota, mas me perdoa por favor!
JP


Alice, não me deixa! Eu não sei viver sem você! O que eu posso fazer para você me perdoar?
Amo você mais do que tudo!
JP


Senti meu coração despedaçado, e ainda havia várias mensagens de João Pedro, mas se eu as lesse naquele momento, ficaria mais depressiva. Então desliguei meu celular e tentei dormir um pouco.
Acordei já era noite, me vi entediada, perdida, sem saber o que fazer num sábado à noite, em uma cidade desconhecida e o pior de tudo, totalmente sozinha. Tomei um banho de banheira e bebi champanhe rindo da minha própria desgraça, a solidão. Me perguntava a todo momento como estaria João Pedro, queria poder abraçá-lo, beijá-lo e amá-lo como na noite anterior.
Coloquei um pijama, liguei meu notebook para saber mais sobre a cidade que eu estava e continuei tomando champanhe. De pesquisas atrações na cidade, fui para as redes sociais e digitei o nome da tal garota, mas era impossível saber algo sobre ela sem um sobrenome, então desisti da minha busca lunática e liguei para a minha mãe.
-Oi, Alice! Onde você está? Estou te ligando o dia todo.
-Oi mãe, é bom falar com você também.
-Filha, o João Pedro esteve aqui atrás de você, estava arrasado. Ele me contou sobre o que você viu.
-Pois é mãe, uma vez você me disse que nenhum amor era eterno, e você estava coberta de razão.
-Alice, o João ama você. Ele errou, mas todo mundo erra.
-Eu sei, mãe, é por isso que eu preciso de um tempo para mim. O João me magoou muito, eu não sei se seria capaz de perdoá-lo. Talvez se ficarmos juntos eu vou ficar com esse gosto amargo para o resto dos nossos dias. E eu quero estar em paz para poder recomeçar minha vida.
-Filha, eu não vou tirar sua razão. Pensa sobre tudo isso, mas não se esqueça de que o João Pedro é uma pessoa maravilhosa, e ele a ama, e você também ama seu marido. Se você resolver perdoá-lo, não se sinta mal por isso, você não será a primeira nem a última pessoa a fazer isso. E as coisas estavam realmente complicadas entre vocês, então dê a ele um voto de confiança. Tenho certeza que ele faria o mesmo por você.
Fiquei pensativa.
-Mas onde você está?
-Eu viajei um pouco, mas não estou longe, depois eu digo onde estou. Só liguei para avisar que está tudo bem, eu estou bem na medida do possível.
-Mas, filha, que cidade você está?
-Mãe!
-Tá bom, não precisa dizer. E eu não iria contar para o João, só queria saber.
-Sei.
-Alice, eu te amo. O que você precisar pode contar comigo.
-Eu sei mãe, por isso que eu liguei. Queria ouvir a voz de alguém, mas eu vou desligar, vou comer alguma coisa e amanhã eu ligo para você.
-Filha, fica bem. Eu amo você.
-Também amo você.
Eu desliguei o telefone ciente que minha mãe era uma advogada de defesa do João Pedro, e sabia que ela estaria ligando no mesmo segundo em que eu desliguei o telefone, para dizer a ele que eu estava bem. Outra garrafa de champanhe depois, me vi chorando revendo fotos minha com o João Pedro e com nosso filho.
Eu olhava meu celular que estava desligado e minha vontade era de ligá-lo, pois eu sabia que João estava tentando me ligar. Mas eu não o fiz. Mais uma vez, fui para o notebook e tentei começar a idealizar uma nova história, um novo livro. Mas nada me vinha em mente. Olhei no relógio e ainda era nove horas da noite. Então decidi me trocar e descer para comer alguma coisa.
No restaurante do hotel tinham casais jovens, casais velhinhos, famílias com seus filhos. Só não tinha ninguém tão solitário assim como eu, com quem pudesse dividir uma mesa para conversar. Tomei um caldo quente e logo voltei para meu quarto.
No outro dia, acordei bem cedo, pois havia ido dormir muito cedo também, coloquei uma roupa de corrida e saí. Corri cerca de duas horas, passando pela cidade e por bosques que cercavam o hotel. Voltei para o hotel, tomei um banho e só então fui tomar café da manhã.
Estava sentada tomando um café preto, e observei um homem tão solitário quanto eu. Provavelmente esperava por sua mulher. Era alto, louro e olhos azuis da cor do céu.
Algumas vezes ele olhava para mim, e quando eu olhava ele disfarçava e lia o jornal. Senti-me sem graça e olhava em todos os lugares, menos para ele. O tempo passou, meu café acabou, assim como meus queijos e o pão. Ou eu me levantada e saía ou voltaria para pegar mais alguma coisa, então levantei-me e me servi de mais café, também peguei um exemplar do jornal e comecei a folheá-lo.
Sentia os olhos do tal homem sobre mim, a cada virada de página do jornal, ele disfarçava e olhava outra direção. Acabei o segundo café, devolvi o jornal no lugar que o encontrei e saí sentido ao jardim.
O dia estava bem gelado, dei uma volta pelo jardim, mas logo subi para o quarto novamente, que já estava impecável.
-Meu Deus, o que eu vou ficar fazendo aqui! Eu disse colocando as mãos na cabeça e andando em círculos.
Olhei no relógio e ainda eram nove horas da manhã, e eu já não tinha mais nada para fazer. Peguei minhas malas e comecei a colocar as roupas novamente dentro dela. Fui até a sacada, sentei-me na espreguiçadeira e fiquei colocando minhas ideias em ordem.
Algumas horas depois, estava quase tendo uma overdose de tanto tédio, peguei o carro e fui conhecer a cidade, que era toda charmosa e romântica. Fui ao parque, ao lago, a igreja, depois parei para almoçar em um restaurante local. Mais tarde voltei para o hotel e caí em tentação em ligar para Malu.
-Eu vou matar você Alice! Eu entendo que você queira se isolar, dar um tempo, mas achei que pelo menos eu saberia.
Eu sorri por dentro, essa era a Malu que eu conhecia e da qual estava morrendo de saudades.
-Oh, minha amiga, queria tanto que você estivesse comigo.
-Alice, me fala, como você está.
-Malu, eu... eu nem sei o que dizer, não sei o que pensar, estou muito confusa.
-O João Pedro está aqui.
Senti minhas pernas ficarem bambas.
-Mas fica tranquila que eu estou no quarto com a Mariah.
-E como ele está?
-Péssimo, acredita que chegou até a me dar pena dele, sim, porque eu estava com muito ódio, mas depois que eu vi a situação dele hoje, senti pena.
Fechei os olhos, tentando imaginá-lo.
-O Bruno foi até lá ontem pela manhã, assim que você saiu ele ligou desesperado; parece que a fulana ligou para ele, então quando ele viu que era ela ele arremessou o celular e o destruiu por completo. O Bruno tentou acalmá-lo, dizendo que a sua saída era provisória, que tudo voltaria ao normal, mas o João acha que pelo o modo que você saiu, foi definitivo.
-Malu, eu queria dar uma guinada em minha vida, queria começar pelo meu casamento, mas depois do que houve, eu não ia conseguir, e no fundo eu sabia que não pararia por aí, tanto que ontem pela manhã eu vi duas mensagens que ela mandou para o João, e deduzi que seria um inferno. Por isso decidi me afastar e tentar recomeçar, mas dessa vez sem o João Pedro. Mas está sendo tão difícil, é como se.... Eu suspirei tentando encontrar as melhores palavras. –Eu não sei se vou me encaixar em uma nova rotina, em uma vida diferente, me sinto perdida, sem saber onde ir, sem saber o que fazer, e as horas não passam.
-Alice, eu imagino que não deve estar sendo nada fácil, e também nem sei o que lhe aconselhar, porque sinceramente eu não sei o que faria em seu lugar. Não é justo aceitar o que aconteceu, mas será que é certo entregá-lo de bandeja para um oportunista? Porque ela o conheceu, viu que ele estava visivelmente triste, com problemas, jogou uma conversa nele e ele foi caindo. Viu que o cara é bonito, tem dinheiro e estava totalmente carente, então ela deu o bote. E você o deixando sozinho, é como oferecer carne aos leões.
Eu não tinha pensado naquela possibilidade. Realmente o João enchia os olhos de qualquer mulher, em diferentes aspectos.
-É amiga, você acabou de me deixar ainda mais confusa.
-Aiii não, eu não quero lhe influenciar. Essa decisão só cabe exclusivamente a você. Mas eu espero que você pelo menos tenha escolhido um lugar badaladíssimo para ter esse “tempo”, escolheu, não é?
Eu ri.
-Não, pelo amor de Deus, que foi essa risada, tenho até medo da sua escolha.
-Você me conhece, um lugar badaladíssimo seria a minha escolha?
-Não! Não vai me dizer que você que acabou de romper um casamento, temporariamente ou definitivamente, eu não sei, e escolheu um lugar pacato e nostálgico para dar ainda mais ênfase em sua tristeza.
-Eu diria, tranquilo e acolhedor.
-Aí Alice, você me decepciona amiga, se você estivesse em um lugar agitado você com certeza não me ligaria toda deprimida.
Eu suspirei concordando.
-Talvez eu precise de um pouco de mais agito mesmo, mas calma, eu chego lá.
-Espero, amiga. E quanto ao João, estarei de olhos grudados nele, qualquer coisa eu aviso você. E vê se atende pelo menos minha ligação sua vaca.
Ri ao ouvir o elogio da minha melhor amiga.
-Amo você! Falei.
-Eu amo você, e se cuida.
O João Pedro na casa da Malu. Fiquei imaginando que para ele estar na casa dela em pleno domingo, é porque ele estava realmente muito mal, pois aos domingos, João queria apenas relaxar e ficar quieto em casa como de costume.
No outro dia, a primeira coisa que eu fiz após chegar da minha corrida, foi ligar para minha editora chefe da revista, a Fabi.
-Oi Alice, quanto tempo, como você está?
-Oi Fabi, estou melhor, você acaba aprendendo a lidar com a própria dor.
-Minha amiga, eu sei bem como se sente.
-É Fabi, eu sabia que você me entenderia. Mas Fabi, depois de todos esses meses, decidi que preciso voltar a trabalhar, por isso resolvi te ligar. Você ainda tem um emprego para mim?
-Olha, Alice, a diretoria toda foi mexida, alguns editores foram dispensados e novos foram contratados, então eu não sei se eles aceitariam ter você em nossa equipe nas suas condições, a não ser que você volte a trabalhar aqui com a gente fisicamente.
-Fabi, o pior é que outras coisas aconteceram, eu e o João Pedro estamos passando por uma situação complicada em nosso casamento, e eu precisei sair da cidade, por isso que nesse momento, eu teria que continuar trabalhando à distância. Mas você sabe que mesmo nas minhas condições, sempre entreguei meu trabalho antes do prazo pedido.
-Claro que eu sei. Mas acontece que agora não depende só de mim, mas eu vou ver o que eu posso fazer por você, pode ter certeza que no que depender de mim você está dentro.
Eu sorri.
-Obrigada, Fabi. Eu conto com sua ajuda. Eu vou dar a você o número do hotel que eu estou, e você me liga, pois, meu celular fica desligado quase o tempo todo.
-Assim que eu tiver uma posição, eu ligo para você, pode ficar tranquila.
Passei o número do hotel à Fabi, que era além de minha chefe, uma ótima amiga, que a alguns anos atrás, ela e a sua companheira perderam uma filha com meses de idade por motivo de doença, por isso que ela sabia o tamanho da minha dor.
A falta de Pedro era algo indescritível e eu sabia que eu nunca me acostumaria a ficar sem ele.
Aos poucos você começa a aprender a lidar com a saudade, com a falta, mas cada vez que eu colocava a cabeça no travesseiro era nele que eu pensava em primeiro lugar. Todos os lugares que eu ia, imaginava o quanto iria gostar daquele lugar, ou não iria gostar. É como eu disse, você aprende a lidar com a dor, mas nunca deixará de senti-la.

16
André

Depois do banho, desci para tomar café da manhã, e novamente encontrei o tal homem do dia anterior, que assim como no dia anterior, estava tomando seu café da manhã, ele era atraente o suficiente para chamar a atenção de todos os olhares femininos que passavam por ele.
Deixei a chave do meu carro, juntamente com meu celular sobre uma mesa ao lado da janela e fui até o buffet me servir. Decidi começar pelas frutas, já que minha vida estava entrando em uma nova fase, era ideal começar a me alimentar de forma mais saudável.
Quando estava me servindo com alguns pedaços de mamão, o senhor olhos azuis parou ao meu lado, segurando um prato vazio.
-Dizem que não se acha frutas por aí, como essas que eles servem aqui.
Eu o olhei desconfiada.
-Sério? E qual o segredo delas?
-Elas são totalmente livres de agrotóxicos e a maioria delas são produzidas especialmente para uso do hotel e de um café bar aqui perto.
Eu não sabia se ele estava querendo ser simpático, ou se fazia propaganda das frutas que ele produzia, ou se estava me paquerando.
-Experimente esse morango. Disse ele, espetando uma das metades de morango que estavam em seu prato.
Fiquei ruborizada e totalmente sem ação. Abri minha boca e ele enfiou o morango e eu o mordi em seguida. Era realmente doce, macio e parecia leve. Realmente diferente dos que eu costumava comprar em Curitiba.
-Humm, é bem gostoso, bem diferente dos que eu costumo comprar.
Ele abriu um sorriso, e comeu o pedaço do morango que havia sobrado no garfo. Eu em seguida, peguei um guardanapo de papel e levei-o até a boca, para o caso de haver algum vestígio de morango em meus lábios.
Fiquei tão sem graça que adicionei mais morangos em meu prato e em seguida servi-me de suco de laranja e fui até a mesa.
O senhor olhos azuis foi até a mesa dele, mas eu não fiquei olhando, segundos depois ele estava em frente minha mesa, segurando seu prato de frutas com uma meleca em cima, que eu deduzi ser mel com aveia.
-Posso?
-Hum, claro, fica à vontade.
Então ele se sentou, colocando o celular sobre a mesa.
-Você provavelmente deve ser o rapaz das frutas, acertei?
Ele sorriu de forma espontânea.
-Não, definitivamente não.
-E você deve ser modelo fotográfica, acertei?
Eu quase me engasguei com meu suco de laranja.
-Nossa, acertou em cheio.
Ele levantou as sobrancelhas e sorriu. Eu não sabia o porquê estava querendo parecer engraçada, talvez era uma forma para esconder meu nervosismo.
-E você está gostando da cidade? É sua primeira vez aqui, ou veio por causa da festa?
-É a minha primeira vez, na verdade eu cheguei aqui por acaso, mas estou gostando sim, e que festa é essa que você está falando?
Quando ele ia responder, o celular dele tocou. Eu disfarcei e mordi um pedaço de mamão, olhando para o jardim através da janela.
-Oi Silvinha, bom dia! Sério? Isso é ótimo, avise-o que chegarei por volta das treze horas.
Ele fez uma pausa.
-Está certo, e se precisar de algo me ligue. Tchau, obrigado.
O senhor olhos azuis colocou o celular sobre a mesa.          
-Desculpa, mas era importante.
-Não, tudo bem.
-Então essa semana está sendo realizada uma festa aqui na cidade, é uma feira com eventos, diversas atrações, vem gente do país inteiro prestigiar, então logo mais isso aqui assim como todos os outros hotéis, restaurantes e bares da cidade estarão lotados.
-Sério? Eu não sabia mesmo.
-É bem legal, se tiver um tempo essa semana, dê uma passada de lá, você vai gostar. Mas a cidade também tem outras coisas legais para conhecer, próximo da cidade têm inúmeras cachoeiras que são verdadeiros espetáculos.
Eu sorri maliciosamente.
-Então você é guia turístico, acertei dessa vez?
Ele riu alto dessa vez.
-Não, bem longe disso. Aliás, eu sou o André. Ele disse estendendo-me a mão.
-Eu sou a Alice. Disse apertando a mão dele.
-Do país das maravilhas?
Ao ouvir essas palavras, instantaneamente senti meu coração apertado, me fazendo me lembrar do João Pedro. Meu rosto possivelmente mudou de expressão no mesmo instante.
Nesse momento, um dos garçons aproximou de nossa mesa.
-Com licença. Ele disse olhando para mim e em seguida para André. André o fornecedor está aí, trouxe tudo que você pediu e umas coisas que a Silvinha pediu, você quer ir até lá conferir?
-Humm, que bom. Mas pode dispensá-lo que eu ainda vou demorar um pouco por aqui, assim que terminar eu confiro tudo.
O garçom concordou, meneando a cabeça.
-Está certo, eu digo a ele. Com licença.
-Então você é o homem que compra as frutas?
Ele balançou a cabeça concordando.
-É, de certa forma você está certa, eu sou o proprietário do hotel.
Eu concordei enquanto mastigava meu morango.
-Humm, é bom saber, pois o banheiro do meu quarto está com um grande vazamento, e eu não sabia a quem recorrer.
Ele me olhou incrédulo, e eu comecei a rir.
-Não, é brincadeira. Aliás, meus parabéns, esse hotel é realmente lindo, eu amei.
André sorriu.
-Fico feliz em agradá-la, Alice.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu tomei outro gole do meu suco e percebi André me olhando com seus olhos azuis. Um frio percorreu todo meu corpo.
-Você disse que está aqui por acaso, como assim?
Eu sorri timidamente.
-Eu na verdade não sabia para onde ir, sabe quando você chega naquela fase da vida em que tudo parece estar de ponta cabeça? Eu estou me sentindo exatamente assim, então resolvi sair por aí, atrás de um pouco de sossego.
Eu sorri lembrando-me do porquê cheguei a São Joaquim.
-Vou vai rir, mas eu parei em um posto de gasolina e um senhor me atendeu perguntando-me para onde eu estava indo e eu o perguntei o que ele me sugeria, como eu queria tranquilidade e sossego ele me indicou São Joaquim, e aqui estou eu.
André me observou como se tentasse me desvendar.
-Eu preciso conhecer esse frentista para agradecê-lo.
Senti o sangue aquecer todo meu rosto.
-Com isso você ganhou mais uma hospede. Disse fingindo não entender.
-Pois é. Ele disse sorrindo e desviando o olhar.
-Bom, eu preciso dar uma corrida até o centro da cidade, preciso resolver algumas coisas. Eu disse olhando no relógio.
-Eu também preciso ir resolver umas coisas, mas muito obrigada pela companhia Alice e foi um prazer conhecê-la.
Eu sorri.
-Obrigada você pela companhia André, e o prazer foi todo meu.
Nos levantamos ao mesmo tempo. André me acompanhou até a porta do restaurante.
-Bom então, até mais. Eu falei tentando não parecer tímida.
-Até mais. Ele respondeu dando-me um beijo no rosto.
Senti minhas pernas bambas, seu cheiro me lembrava do perfume de João Pedro.
Quando estava saindo, ele veio até mim.
-Alice, tem um café-bar aqui perto, é um lugar bem bacana, e hoje à noite vai ter uma banda da região, toca um pouco de rock dos anos oitenta e blues, aparece lá, vai ser muito bom.
-Eu vou ver, mas qualquer coisa eu vou sim, onde fica?
André tirou um cartão do bolso e me entregou. Eu peguei o cartão e vi que era o café onde eu havia ido.
-Ah, eu conheço, estive lá ontem, assim que eu cheguei. –Obrigada André. Eu disse sorrindo e saindo em seguida.
Estava me sentindo muito estranha, era a primeira vez em anos que me senti paquerada por outra pessoa que não fosse o João Pedro, e para ser sincera, achei muito bom, pelo menos fez com que eu me sentisse melhor. Fui até uma agência do meu banco e fiz um saque, para o caso de algum imprevisto, em seguida comprei um chip novo para meu celular. Parei uma imobiliária e me informei sobre alguns chalés par alugar, mas nenhum deles me interessou, então a atendente me deu o número de alguns contatos. Depois de andar pelo centro da cidade, fui até uma praça, vi alguns garotos jogando bola, e me sentei para observá-los.
Eram meninos em torno dos oito anos, todos tão cheios de vida, sorrindo, brincando. Era impossível não me lembrar do Pedro, que gostava tanto de brincar de bola com o pai.
 Às vezes a revolta batia forte, pois um menino tão lindo, tão puro, educado, saudável; ter ido embora tão cedo, sem ter tido a chance de conhecer tanta coisa, de viver mais, de ser independente, de ter uma namorada, de fazer uma faculdade, de ter seu próprio carro. Enfim, Pedro só estava no comecinho da vida e me foi arrancado de uma forma tão violenta, tão brutal. Eu tentava não ficar revoltada, mas às vezes era impossível, era difícil de entender e aceitar.
Vi que algumas mães chegaram para buscar suas crianças, algumas delas abraçavam seus filhos, outras não. Talvez se elas imaginassem como era a dor de nunca mais poder abraçar um filho, elas nunca mais os deixariam ou os buscariam sem um grande beijo e um abraço apertado. Eu daria tudo para poder abraçar e beijar Pedro, pelo menos mais uma vez na minha vida.
Quando todas as crianças foram embora eu me levantei, tirei qualquer vestígio de grama que estava em minha saia e voltei para o hotel. Assim que cheguei no hotel, fui informada que Fabi havia me ligado, subi para meu quarto e liguei imediatamente de volta para ela.
-Fabi, é Alice.
-Oi minha querida, é o seguinte, conversei com o pessoal e na próxima semana, haverá um congresso em Florianópolis para os editores da revista. Todos precisaram participar, pois os informará sobre algumas mudanças e algumas novidades para a revista, então se você puder estar participando, o emprego é seu.
Eu vibrei de felicidade.
-Fabi, participarei com certeza.
Ela suspirou aliviada.
-Que bom Alice, fico feliz. Eu vou te mandar um e-mail, lhe passando todas as informações, horários e programações do congresso, daqui alguns minutos pode acessar seu e-mail para conferir e qualquer dúvida me liga.
-Muito obrigada Fabi, não sei nem o que lhe dizer.
-Alice, não precisa me agradecer, eu passei por isso também, e sei o quanto é importante quando se decide retomar a vida e as pessoas ao seu redor lhe apoiam.
-Fabi, nunca irei me esquecer do que está fazendo por mim, obrigada por tudo, e vejo você no congresso.
-Até o congresso, e seja bem-vinda de volta! Beijos amiga e se cuida.
Desliguei o telefone, estava me sentindo radiante, as coisas pareciam estar começando a se encaixarem. Sentei-me um pouco na espreguiçadeira observando a paisagem linda que havia ao redor do hotel. Fechei os olhos para relaxar, e foi como se uma luz se acendesse dentro da minha cabeça com uma nova história de amor. Eu imediatamente peguei uma água mineral, bebendo quase meia garrafa, sentei-me em frente ao meu notebook e comecei a rasurar um novo romance.
Sem que eu percebesse, passei mais de cinco horas digitando. Só parei porque me lembrei do e-mail da Fabi com as instruções para o congresso. Então salvei a minha mais nova história e em seguida fui verificar minha caixa de e-mail.
O e-mail da Fabi já estava lá, com todos os dados que eu precisava. Data, hora, local, hotel que iríamos ficar, programação, enfim, meu itinerário completo. Seria na próxima semana, mais exatamente na terça-feira, então era bom que eu saísse na segunda-feira de São Joaquim, dormisse em Florianópolis, para na terça-feira, oito horas da manhã começar minhas palestras.
Havia dezenas de e-mails de João Pedro, e eu nem imaginava. Mas só de ver o nome dele em minha caixa de entrada, sentia meu coração mais acelerado que o normal.
Abri o primeiro deles, que foi no sábado.
Alice, espero que um dia você possa me perdoar e voltar para mim. Saiba que ter você em meus braços na noite passada, foi sem dúvida a melhor coisa que me aconteceu nos últimos meses. Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida.
Amo você!
JP

Alice, estou ficando maluco nessa casa sem você. Já procurei você por toda a cidade! Pelo menos me manda uma mensagem dizendo que está tudo bem, senão vou pirar.
Destruí meu celular e prometo que nunca mais voltarei naquele bar, sem que seja ao seu lado. E prometo nunca mais falar com aquela pessoa, nunca, nunca mais.
Eu amo você! João Pedro.

Eu suspirei, pois, eu sabia que no fundo, João Pedro também estava sofrendo. Abri a próxima mensagem.
Alice, sua mãe me ligou dizendo que você está bem. Fico mais aliviado, mas ainda preciso falar com você! Por favor, não me castigue ainda mais.
Amo você, JP.

Eu ri sozinha, sabia que minha mãe iria ligar para o João no mesmo instante que eu desliguei o telefone.
Então abri a próxima, que foi no domingo de manhã.

Alice, em toda a minha vida, durante esses trinta e três anos, tive duas noites que foram as piores da minha vida. A primeira delas foi quando uma parte de mim se foi, junto com nosso filho, achei que não fosse suportar tamanha dor. A segunda pior noite foi ontem, sem você aqui, meu mundo não tem mais sentido, o resto que sobrou de mim, foi embora com você! A dor de não saber como você está, o que você está fazendo e onde você está chega a ser desumana.
Por favor, me dá uma chance de provar que tudo ficará bem outra vez! Amo você!
JP


A próxima mensagem foi no domingo à noite. Eu já estava com os olhos encharcados de lágrimas.

Hoje eu passei o dia na casa do Bruno e da Malu.
Não sei o que é pior, ficar aqui sem você, ou ficar com eles durante um dia todo, só falando de você, só pensando em você e sem saber o que você vai fazer em relação a nós dois.
 Sinto sua falta.
Amo você.
JP

Nesse momento, eu já estava chorando sem parar, levantei-me e fiquei andando de um lado para o outro, estava arrasada. Fui desligar o notebook, mas decidi ler apenas mais um e-mail.
Três dias sem você, e quer saber? A dor só tende a aumentar.
Hoje fui até o orfanato onde você doou os brinquedos do nosso filho. Reconheci imediatamente alguns brinquedos nas mãos dos pequenos, além das roupas que alguns dos garotinhos estavam usando. Foi estranho ver alguém vestindo uma camiseta do Pedro, fiquei um pouco em choque no começo, mas depois, tive uma sensação tão boa, uma paz invadiu meu peito, que era como se eu pudesse senti-lo perto de mim.
Estou no escritório agora, mas não consigo esquecer aquela sensação.
Só queria que soubesse!
Ah, vou sair do escritório e vou direto para a nossa casa! Preciso de você lá, ao meu lado!
Amo Você Alice.
João Pedro.

Esse foi sem dúvida o e-mail mais lindo que eu recebi em toda a minha vida. Então não resisti e mandei um e-mail para João.

João Pedro, estou sentada nesse exato momento, de frente para meu notebook onde eu acabei de ler alguns e-mails seu. Confesso que não sabia da existência deles, pois estava desconectada com o mundo.
Quer saber? Minhas lágrimas não param de rolar.
Fiquei muito emocionada com o e-mail sobre o orfanato, foi sem dúvida lindo, me deixou sem palavras. Eu também fiquei confusa quando vi as crianças brincando com as coisinhas do Pedro, cheguei até a sentir ciúmes no começo, mas depois, ao vê-los tão felizes, percebi que havia feito a melhor coisa.
Tenho certeza que Pedro estava ao seu lado, por isso a sensação de paz que você teve!
Ufaaa, é estranho, não é? Eu e você tão longe e ao mesmo tempo tão perto em pensamento.
Bom, mas respondendo suas perguntas, eu estou bem! Estou em um lugar muito bonito, tranquilo, do jeito que eu gosto. Ah, e hoje tive uma notícia ótima, estou de volta ao trabalho, e por falar nisso, trabalhei à tarde toda e estou cheia de novas ideias.
Quanto a ir direto para casa, se fosse há semana que você tivesse tido essa atitude, provavelmente essa troca de e-mails não existiria. Mas enfim, não posso colocar a culpa somente em você, eu também tive a minha parcela de culpa ultimamente. Espero que você fique bem e que pare de beber, pois isso também foi um dos fatores, aliás, foi o que te levou a fazer o que fez.
Saiba que apesar de tudo, sinto sua falta também!
Alice

Li, reli, e não sabia se enviava, mas depois de alguns minutos acabei enviando. Levantei-me e fui tomar um banho, já passava das oito horas da noite, e eu estava morrendo de fome, pois nem me lembrei sequer de almoçar.
Fiquei me ensaboando e lembrando do meu último banho com João que foi sensacional mesmo após a decepção que tive, por causa da vadia do bar.

  
17
Gran Reserva 890

Após o banho, comecei a passar creme em meu corpo, me decidindo se tomava uma sopa ou saía para comer alguma coisa de diferente. Peguei minhas roupas que estavam espalhadas no banheiro, pois no dia seguinte, a camareira ia buscá-las para lavar. Verifiquei os bolsos para ver se não havia esquecido nada, e então encontrei o cartão que André me deu, do Café Bar. Eu sorri por dentro, e minha dúvida entre a sopa e sair sumiu, então, optei por sair.
Sequei meus cabelos. Coloquei uma saia justinha ao corpo, toda bordada de preto e dourado, uma camisetinha branca de malha, por cima uma jaquetinha preta, estava em dúvida entre scarpin ou sandália, mas optei pelas sandálias pretas de salto alto. Fiz uma maquiagem bem neutra e saí.
Assim que saí, senti o ar gelado penetrar em minha pele, mas não quis voltar para me trocar. Quando eu cheguei no café, era de fato o que eu havia ido no sábado, e mesmo sendo uma segunda-feira havia fila para entrar, na qual eu fiquei pelo menos uns dez minutos. Quando entrei, o Café que era bem espaçoso estava lotado.
-Você tem reserva? Perguntou-me uma garçonete.
-Humm, sinceramente não. Respondi.
-Olha, eu sinto muito, mas estamos lotados, e só temos mais algumas mesas que estão reservadas, se você não se importar de ficar na mesa bistrô pelo menos por enquanto, até eu ver o que posso fazer por você.
-Não, claro, sem problemas. Eu disse elevando a voz, porque a banda já estava tocando uma música do Led Zeppelin que eu adorava.
Então eu vi André vindo em minha direção. Ele vestia calça jeans escura e camisa preta, com as mangas dobradas, deixando a amostra seu relógio e uma pulseira de couro. Quando ele chegou bem perto de mim, uma garota que estava sentada, fez um pedido a ele, que anotou em um bloco de papel, enquanto me fez sinal para que eu esperasse. Alguns instantes depois, ele estava bem à minha frente.
-Achei que não viria mais. Ele me disse dando-me um lindo sorriso. –Vem, eu reservei uma mesa para você. Ele disse me guiando.
A atendente olhou para mim sem entender e foi junto comigo. Paramos em uma mesa, perto da janela, com uma visão excelente para os meninos que tocavam, embora não tão perto, por causa do som; diria que era um lugar privilegiado.
-André, mas ela me disse que não fez reserva. Disse a atendente.
André olhou sério para ela e retrucou.
-Eu fiz a reserva para ela.
-Ah, sim, me desculpa, com licença. Disse a moça que ficou envergonhada, e saiu em seguida.
-Aqui está! Disse André afastando-me a cadeira para que eu me sentasse.
-Obrigada! Falei tentando descobrir de fato o que ele fazia naquele café.
Provavelmente também deve ser dele. Pensei comigo mesma.
-Alice, eu quero que se sinta à vontade, esta noite você é minha convidada de honra.
Devo ter ficado vermelha feito pimenta.
-Fico lisonjeada. Aliás parabéns mais uma vez, esse lugar é incrível, e o mais incrível é como que a atmosfera dele muda do dia para a noite! Nem parece o mesmo lugar.
De fato, pois o café estava com uma iluminação difusa e aconchegante, o que tornou o lugar ainda mais sofisticado.
André parecia satisfeito e feliz ao me ver, o que me deixava cada vez mais sem jeito perto dele.
-É, realmente é bem legal aqui, e fico feliz por você ter gostado. Bom, mas o que você vai beber?
-Eu não sei, o que me sugere?
-Depende do que tipo de bebida você gosta, eu diria que um bom vinho combina mais com você.
-Eu vou de vinho então.
-Eu vou buscar a carta de vinhos.
-Não! Vou deixar que você escolha.
André sorriu.
-Deixa comigo. Ele disse saindo em seguida.
Me sentia totalmente estranha por estar em um lugar totalmente novo, e com um cara que eu nunca imaginei conhecer me cortejando.
Fiquei observando André de longe. Ele se dividia dando atenção aos clientes, alguns o paravam para cumprimentá-lo, outros o paravam para fazer algum pedido e ele ainda nem tinha conseguido chegar ao bar. Fiquei olhando para a banda e imaginando Malu ali comigo e fazendo os típicos comentários dela em relação ao André.
Uma mulher parou André, e ele conversou com ela sendo todo simpático, mas olhava para mim de vez em quando. Depois uma funcionária o chamou e ele foi ver o que ela queria, ou seja, ele não teria muito tempo para ficar de conversa comigo. O que na verdade me deixava mais aliviada.
Então ele trouxe uma garrafa de Gran Reserva 890 com duas taças.
-Posso lhe fazer companhia? Indagou.
-Claro! Respondi sentindo-me totalmente sem graça.
André sentou-se de frente para mim, abriu a garrafa de vinho e colocou um pouco em cada taça, entregando-me uma.
-Tim tim. Ele disse batendo em minha taça.
Nós bebemos nossos vinhos em seguida, que era encorpado e intenso.
-Hum, e por que vinho combina comigo?
André me olhou com olhar investigativo.
-Porque você é uma mulher moderna, elegante, requintada.
-Uau, obrigada pelos elogios, mas de vez em quando eu também chuto o balde, tomo um chope, cerveja, uísque.
-E quem não chuta? Ele falou com olhar impetuoso.
-O hotel e o café. Você toca sozinho, ou alguém lhe ajuda?
André passou a mão pelos cabelos claros, olhou ao redor e em seguida penetrou seus olhos azuis feito céu nos meus.
-O hotel é o meu negócio, meu sei lá, ganha pão. Mas esse café é a minha paixão. Sempre tive vontade de ter algo do gênero, queria um lugar onde as pessoas pudessem sair à noite, mas não para jantar, apenas para beber, beliscar alguma coisa, ouvir boa música, um lugar que fosse aconchegante e moderno ao mesmo tempo. Já a minha esposa queria um lugar onde as pessoas pudessem sentar-se numa tarde fria e pudesse degustar um bom achocolatado, ou cappuccino, mas sem ser em uma padaria qualquer, um lugar como esses cafés em Paris. Então resolvemos unir as duas ideias, e deu certo. Hoje meu público alvo engloba todas as idades, e o que eu mais gosto, é que na parte da noite, os frequentadores do bar são pessoas de vinte e poucos anos para cima, sem muito agito, muito barulho. São pessoas mais sérias, e a grande maioria vem das cidades vizinhas, o que diversifica muito o público.
Que ótimo! Eu estava sentada, tomando um vinho com um homem casado. Sério mesmo Alice? Pensei comigo mesma.
-Muito bem, você e sua esposa acertaram em cheio. Eu disse bebericando meu vinho.
-Sim, eu diria que sim. Ele respondeu.
Um garçom passou ao nosso lado e André o chamou pedindo-lhe algo que eu não consegui ouvir. Talvez fosse a esposa dele para que eu a conhecesse.
Os meninos estavam tocando Pink Floyd, o que me lembrou de João Pedro, que adorava a banda. O garçom saiu em seguida e André novamente olhou em minha direção enquanto bebia seu vinho.
-E você Alice, além de modelo faz o quê?
Eu quase soltei uma gargalhada.
-Não, aliás obrigada pelo elogio de hoje cedo, mas eu não sou modelo, quem me dera. Eu disse revirando os olhos.
-Sério? Eu jurava que sim. Aliás que o Mauro, o recepcionista do hotel me disse que ligaram para você de uma revista, hoje após o almoço.
-Sim, é verdade, mas eu sou escritora. Na revista que eu trabalho eu tenho uma coluna, escrevo para as mulheres, sobre relacionamentos, dia a dia, filhos, trabalho, sexo, vícios, enfim faço textos que as instigam a pensar nesses determinados fatos e que estão presentes em nosso dia a dia. É uma revista semanal então tenho que agir rápido, estar sempre cheia de ideias e pesquisando. E escrevo romances também, já lancei dois livros e comecei o terceiro.
-Nossa, fiquei surpreso agora. E para qual revista você trabalha?
-“ Vaidosas”.
-Sim, eu conheço. Ele falou surpreso. Fico lisonjeado em estar sentado tomando um vinho com uma escritora famosa.
-Não, imagina, famosa nada, mas eu amo o que eu faço. Eu amo escrever, é como se eu emprestasse minhas mãos para minha alma.
-Eu admiro, é um dom. André disse dando outro gole em seu vinho.
Eu queria saber mais sobre a esposa, mas não sabia como abordar o tema, olhei para a mão dele, mas não havia sinal de aliança. Olhei para a minha mão e a minha marca era gritante
O garçom chegou trazendo uma tábua de queijos e embutidos.
-Mas e vocês moram onde? No hotel mesmo? Eu perguntei sondando.
A banda a essa altura tocava Eagles, Hotel California.
E mais uma vez me lembrei do João Pedro.
-Eu! Ele falou sem rodeios.
Eu o olhei intrigada, então ele pegou um prato pequeno e colocou uma porção de queijo e outra de embutidos e me entregou, em seguida pegou outro prato.
-A Valentina, minha esposa, faleceu há quatro anos. Ele falou enquanto se servia.
-Ah, eu sinto muito, me desculpa.
-Não, você não sabia, sem problema. Mas ela tinha um problema gravíssimo no coração, e teve uma noite que ela se deitou para dormir e não acordou mais. Faleceu com trinta e dois anos.
Eu o olhei sem saber o que dizer, então ele espetou um queijo e o colocou em sua boca.
-Nossa André, que terrível, nem sei o que lhe dizer.
-O tempo acaba amenizando as dores, elas passam de insuportáveis para toleráveis, então você acaba se acostumando a elas.
Eu olhei pela janela sentindo uma grande tristeza no peito, sabendo que na verdade ele estava coberto de razão.
-É eu sei bem o que é perder alguém que a gente ama.
André me olhou compassivo.
-Por quê? Você perdeu alguém próximo também?
Eu beberiquei meu vinho novamente.
-Sim, eu... (fiz uma pausa) perdi meu filho de quatro anos, há alguns meses. É muito recente ainda, e confesso que ainda não deu tempo de amenizar a dor.
-Nossa Alice, eu nem imaginava, me desculpe por ter tocado nesse assunto.
-Não, é como você mesmo disse, você acaba a se acostumando com a dor. Quando o Pedro faleceu, parte de mim foi junto com ele, levei meses para me recuperar, aliás agora que eu estou começando a juntar meus pedaços. Falei com um sorriso triste nos lábios. –Mas é bem difícil recomeçar. Eu me sinto perdida. É bem complicado.
-É, você olha a pessoa e nem imagina as dores que elas carregam. Eu jurava que você era uma pessoa totalmente livre de problemas, de sofrimentos, enfim...
Os meninos começaram a dedilhar Nothing Else Mathers do Mettalica.
Senti um nó se formar em minha garganta e me segurei para não desabar na frente de um estranho.
-Você estava redondamente enganado. Estou passando pela maior tempestade de problemas de toda a minha vida, por isso vim parar aqui. Graças ao frentista. Eu disse dando risada da minha própria desgraça.
-Um brinde ao frentista. André disse erguendo a taça.
E nós brindamos em seguida, e eu tomei outro gole de vinho.
-Adorei esses meninos. São excelentes. Falei convicta.
-Eles são realmente muito bons. Amanhã vem um garoto que toca apenas rock nacional, e no dia seguinte vem uma garota da região que toca Alanis Morissete, Cramberries, Janis Joplin.
-Sério? Não posso perder então. Eu amo Alanis, amo Janis Joplin, escutei minha adolescência inteira. Eu sempre gostei das músicas mais antigas, Led Zeppelin, Janis, Rolling Stones, Doors, nossa eu amava Doors.
-Eu também, sabia todas. Ele disse mastigando outro queijo.
-Nós desviamos o assunto, mas você não me disse onde mora. Insisti.
-Eu na verdade moro em dois lugares. Quando a Valentina faleceu, minhas filhas (depois eu falo delas para não perder o foco novamente).
Eu concordei sorrindo.
-Minhas filhas foram morar com os avós, os pais da Valentina. Eles moram em Porto Alegre, e como lá é tudo mais complexo, agitado, sei lá, elas preferiram ficar por lá. Na verdade, tudo aqui lembrava demais a mãe delas, por isso elas preferiram seguir a vida em um lugar diferente.
-Filhas, que máximo. Quantos anos?
-Uma tem dezoito e a outra vinte.
Eu quase engasguei com o queijo.
-Caramba, com quantos anos você foi pai? Com nove? Brinquei.
-Oito, na verdade.
-Seu bobo, fala sério. Eu lhe disse tacando-lhe um sachê de sal.
-Eu engravidei a Valentina quando ela tinha dezesseis anos e eu tinha dezessete.
-Nossa, apressado você, hein?
Ele sorriu perversamente e passou a mão pelo cabelo.
-Pois é, quando a cabeça não pensa... –Mas elas são minha vida, são tudo para mim.
-Qual o nome delas?
-Mirela e Lavínia.
-Lindos, adorei.
André virou a taça de vinho, acabando com o restinho que estava na taça, servindo-se novamente e completando minha taça.
-Não vou conseguir achar o caminho do hotel desse jeito.
-Puts, ainda não disse onde eu moro. Ele disse dando risada.
Eu comecei a rir também, não sabia se era porque eu estava ficando bêbada ou porque não conseguíamos chegar ao assunto questionado.
-Pois é, percebi que você está querendo guardar segredo, então...
-Segredo nenhum, aliás, eu te desafio a ir conhecer minha casa, quando nós sairmos daqui, topa?
Fiquei estagnada por um momento, sem saber o que responder. Virei outro gole de vinho para tomar coragem.
-Melhor não. Talvez você seja um maníaco, um tarado, sei lá.
André ficou sério, cruzando os braços em frente ao corpo.
-Você acha que estou embebedando você à toa? Está tudo planejado.
Eu revirei os olhos.
-Saiba que eu ando armada.
-Humm, eu gosto de mulheres precavidas, sabia?
André chamou o garçom pedindo outra garrafa de vinho.
-Não, mas é sério, eu moro perto daqui, é um lugar fantástico, e agora não vou lhe dizer onde é. Assim quando você não se aguentar mais de curiosidade você vai comigo para conhecer. Só conhecer! Ele disse levantando as mãos.
-Humm, quem sabe um dia desses. Falei tentando não estender o assunto.
-Na verdade eu vendi minha casa, me trazia recordações demais, e era grande demais só para mim. E quando eu não estou nesse lugar que eu quero que você conheça, eu fico no hotel. Eu tenho uma suíte com algumas coisas, mas é difícil eu ficar por lá.
-É como se você dormisse no trabalho, não é?
-Isso, exatamente isso.
O garçom trouxe outra garrafa de vinho, colocando sobre nossa mesa.
-Com licença! Ele disse olhando para nós. –André a Silvinha está precisando de você no caixa.
-Tudo bem, estou indo.
-Com licença. Disse o garçom saindo em seguida.
-Eu vou ver o que ela precisa, mas já volto.
-Ah, sim, fica à vontade. Respondi.
André, um cara louro, cabelos jogados, barba por fazer, olhos azuis, muito charmoso, extremamente lindo, envolvente e sedutor; viúvo, com duas filhas, muito, muito sexy, está dando em cima de mim descaradamente, eu que estou carente e prestes a me divorciar e com o ego ferido. Humm, isso não vai prestar. Disse comigo mesma.
Ele caminhou até Silvia que estava no caixa, conversou com ela, e eles riram de algo. Será que estão de mim? Pensei. Então ele sumiu bar adentro, sem que eu pudesse vê-lo.
A banda estava tocando U2, caramba era praticamente a trilha sonora minha e do João Pedro. Uma segunda-feira, eu em um bar, em uma cidade desconhecida, com um cara gato desconhecido flertando comigo, e eu totalmente sem sentir minhas pernas, pois já estava alta o suficiente com tanto vinho. Como as coisas mudam de uma semana para outra, há uma semana eu nunca me imaginaria nessa situação, e agora aqui estou eu. E o João, como será que ele está? Será que ele está bem? Está se alimentando? Que saudade dele perto de mim, do cheiro dele, do olhar dele todo cuidadoso, embora os últimos dias foram terríveis, mas ele sempre me tratou como uma princesa, eu não podia reclamar. Peguei meu celular e digitei o número da minha casa, quando eu ia apertar para ligar, André voltou, sentando-se ao meu lado.
-Me desculpa Alice, mas a Silvinha estava sem troco.
-Oh, sem problemas. Eu disse colocando o celular sobre a mesa.
-Você sabe que as nossas mãos nos dizem muitas coisas, não sabe?
-Como assim? Perguntei curiosa.
-Me dê suas mãos. Ele disse estendendo as mãos sobre a mesa.
Eu sem entender coloquei minhas duas mãos sobre a mesa, assim como ele pediu. Então ele começou a passar o dedo indicador sentindo as linhas das palmas das minhas mãos.
-Vejamos, aqui me diz que você tem uma ferida no coração que ainda não cicatrizou.
-Isso eu te disse.
-Pelo jeito você não tem muitas habilidades domésticas, pois sua pele é extremamente lisa e macia, sem sinal de marcas ou calos.
Eu sorri, mas não disse nada.
-Deixa eu ver mais alguma coisa. Ele disse como se estivesse lendo minha mão.
-Você está profundamente magoada com alguém, é por isso que resolveu sair de cena.
Eu o olhei intrigada. Será que era tão obvio assim?
-Provavelmente esse alguém é seu marido, ou ex-marido. Estou certo? Ele falou me analisando.
Eu retirei minhas mãos das mãos dele.
-O que te leva a pensar sobre isso.
André olhou-me fixamente, enquanto bebida seu vinho. Eu fiz o mesmo, bebendo o resto do meu vinho da taça. Então ele imediatamente repôs minha bebida.
-Você tenta não demonstrar, mas está triste, e é uma tristeza que não tem só a ver com a perda do seu filho. Tem algo a mais que lhe feriu. É como se você quisesse provar para si mesma que consegue seguir sozinha, sem essa pessoa ao seu lado, mas parece que ao mesmo tempo, você se sente totalmente perdida e nostálgica.
-Humm, sério? Estava me achando tão durona. Eu disse com um sorriso sarcástico.
-Cada música que começa, é como se a expressão do seu rosto mudasse, parece que te lembra algo a toda hora.
-Você está blefando.
-Será? Eu observei a tristeza que você ficou olhando o seu celular, como se quisesse fazer algo, mas sentindo-se totalmente sem coragem.
-Agora você está blefando.
Desgraçado, como ele sabia de tudo isso. Eu imediatamente dei outro gole do meu vinho.
-E você parece nervosa, sentindo-se questionada.
-De maneira alguma. Eu falei, sentindo minhas pernas bambas, meu coração acelerar.
-E quanto ao seu ex-marido, eu sei porque observei a marca de aliança tirada recentemente. Não chegou nem ao menos pegar sol sobre ela.
Eu olhei para meu dedo e a marca era realmente gritante.
-Isso é verdade. Eu a tirei do dedo a alguns dias. Na verdade, no sábado para ser mais exata.
-Depois que o ...
-Não Alice, não precisa falar. Só fale quando estiver à vontade para falar, eu só falei porque te achei muito triste. E quer saber? Você não tem que ficar triste, se tiver vontade de ligar, ligue, se tiver vontade de voltar atrás, volte. Sem se preocupar com opinião dos outros, mas se tiver vontade de mudar, virar o jogo, então vai fundo. Mas seja lá o que você quiser fazer, faça, pois, a vida é muito curta para você ficar se torturando.
-E quando você não sabe o que fazer?
-Bom, nesse caso, você precisa ter certeza do que quer, para não meter os pés pelas mãos, e se arrepender depois.
-Nossa, além do hotel, e do café você ainda é terapeuta?
-Não. Ele disse dando um leve sorriso. É que eu não consigo tirar os olhos de você, por isso captei cada sinal, cada mensagem, cada olhar, cada expressão.
Fiquei totalmente sem fala com a resposta dele, ficando provavelmente com as bochechas vermelhas.
-Você está querendo me fazer com que eu me sinta melhor, e eu lhe agradeço. Mas eu estou bem, é sério?
-Eu não elogiei você para fazer você sentir-se melhor. Elogiei porque você é linda, extremamente linda.
Eu o encarei.
-Você deve agir assim com todas suas hospedes solitárias, aposto.
André balançou a cabeça negativamente, olhando para o palco.
-Definitivamente não. Eu nunca iria ficar me expondo com mulheres diferentes em meu próprio bar. Você só está aqui, sentada comigo, porque realmente de uma certa forma inexplicável mexeu comigo.
-André, eu preciso ir embora, acho que nós já bebemos demais. Mas eu adorei sua companhia. Eu falei levantando-me em seguida e sentindo-me totalmente zonza.
O bar deu uma virada, fazendo com que eu quase caísse de volta na cadeira.
-Você está bem? Ele perguntou me segurando.
-Sim, estou, só fiquei um pouco tonta, mas já passou.
-Vamos, eu levo você.
-Não, estou com meu carro.
-Eu levo você no seu carro. Eu não vou deixar você dirigir assim.
-É sério, estou bem. Eu só vou pagar a conta. Eu disse saindo em seguida.
André foi comigo até o caixa e quando eu fui pegar minha carteira. Ele colocou a mão sobre a minha.
-Silvinha, eu vou deixar meu carro aqui, mando alguém vim buscar, ou pego amanhã. Qualquer coisa me liga.
-Tudo bem André.
-André eu prefiro ir sozinha se você não se importar, e que...
-Alice, você é minha convidada e não posso deixar você voltar assim. Que tipo de homem eu seria?
Concordei relutantemente.
Quando estávamos do lado de fora do bar, senti que o ar gelado perfurou minha pele, era quase impossível de ficar ali fora de tanto frio.
-André, é sério, estou bem e posso ir dirigindo.
-Alice, fica tranquila, eu não vou agarrar você. Só vou dirigir seu carro até o hotel. Só isso.
-Está bem. Eu disse entregando-lhe a chave.
O caminho até o carro foi bem complicado, não estava sentindo minhas pernas direito, por causa do frio e do vinho.
Fui tentar entrar no meu Volvo, me desequilibrei e quase caí. André me segurou e me ajudou a entrar.
-Eu disse que você ia me embebedar.
Ele riu e foi para o lado do motorista.
-E agora vou te levar em um lugar onde ninguém escutará você. Ele disse fazendo cara de suspense.
Ri sem jeito.
Chegamos ao hotel, André estacionou me carro na vaga que provavelmente era a dele. Me ajudou a descer do carro, mas eu já me sentia melhor. Pelo menos conseguia andar mais facilmente.
-E você? Como vai embora?
-Eu disse que tenho um quarto para certas emergências.
-Mas você nem gosta de dormir aqui. Está vendo, acabei atrapalhando você. Vai com meu carro, assim não precisa ficar.
-Quem disse que eu não quero ficar. Ele disse encantadoramente.
Eu sorri e fui entrando em seguida.
André me acompanhou até a porta do meu quarto.
-Bom eu fico por aqui. Eu disse sentindo-me totalmente sem graça.
-E o meu é logo ali. Ele disse apontando para o último quarto do corredor.
-Eu não sei nem como lhe agradecer por essa noite, foi excelente.
-Você não precisa agradecer Alice, foi um prazer acompanhá-la. Ele respondeu todo sorridente. Você tem certeza que vai ficar bem?
Concordei balançando a cabeça. André fixou seus olhos nos meus, deixando-me totalmente desconcertada.
-Bom, se precisar, estarei logo ali, não hesite em me chamar.
-Mas estou bem, pode ficar tranquilo.
André balançou a cabeça e inclinou-se até mim, dando-me um beijo no rosto.
-Boa noite Alice.
-Boa noite. Respondi e entrei em seguida.

   
18
Surpresa no café da manhã

Quando me encarei no espelho assim que entrei em meu quarto, vi uma mulher totalmente desnorteada, sem saber o que fazer de sua vida, e uma grande tristeza invadiu meu peito. Era a primeira vez em muito tempo que eu tinha tomado um porre, e sem o João Pedro, que era o que mais me doía. Deite-me em minha cama, lembrando-me do desenho que Pedro tinha feito sobre a nossa família que ele tanto amava, e como se alguém mexesse no fundo da minha ferida, comecei a chorar desconsoladamente. A família que Pedro tanto amava, estava dissolvendo-se cada vez mais, e tudo o que eu mais queria naquele momento era que o tempo voltasse e que pudéssemos ficar juntos os três novamente.
Acabei pegando no sono, e como em um passe de mágica, nós três estávamos juntos novamente, brincando na piscina da nossa casa, brincando em nossa cama, brincando em nosso jardim. Pedro corria em minha direção, me enchendo de beijos e dizendo que me amava, então via João Pedro nos observando todo orgulhoso e caminhava em nossa direção e nos abraçava, ficando assim os três bem juntinhos. Era algo tão real que eu podia sentir o cheiro dos meus dois amores.
Quando acordei, o sol invadia o quarto, e sentia minha cabeça doer tanto que parecia querer explodir. Olhei ao redor e me vi sozinha em um quarto estranho. Então, dei por mim que tudo tinha sido um sonho, e que eu estava sozinha novamente, e o pior de ressaca. Olhei em meu relógio e passava das nove e meia da manhã. Me arrastei até o banheiro e quando me vi até me assustei, com os olhos inchados de tanto chorar da noite passada, olheiras, cara amassada e resto de maquiagem. Fui tomar um banho e deixei a água cair sobre mim levando todo meu mal-estar. Quando estava me secando ouvi alguém bater em meu quarto. Me enrolei no roupão e fui abrir a porta. Era uma camareira com uma bandeja enorme de café da manhã.
-O Sr. André pediu que lhe entregasse. Disse a moça.
-Ah, muito obrigada. Respondi sem graça, pegando a bandeja e entrando em seguida.
Fiquei surpresa com a atitude de André. Coloquei a bandeja de café sobre a mesinha e notei um bilhete.

Alice fiquei preocupado e senti sua falta no café da manhã! Espero que esteja bem! Caso precise, coloquei um analgésico para você!
Tenha um bom dia, André.

Eu me peguei soltando um sorriso com a surpresa. Peguei a bandeja e me sentei na varanda com a vista para o bosque. Tomei o analgésico, pois realmente estava precisando e em seguida me deliciei com o café da manhã que o André me preparou.
Meu celular tocou e vi que era a Malu, então eu atendi e contei a ela tudo o que havia acontecido.
-E eu aqui morrendo de preocupação e você de ressaca em plena terça-feira, porque saiu com um gato viúvo? Caramba amiga, você me surpreendeu agora.
-Não é bem assim. O André só está sendo gentil, mas não tem nada a ver.
-Sei, sei. E lhe mandou até café da manhã em seu quarto, quanto gentileza hein!
Eu ri sem graça.
-Não, amiga. Eu só quero que você fique bem, é sério.
Suspirei.
-Malu, ontem depois de tudo isso, tive uma recaída. Tudo veio à tona, o João, o Pedro; eu fiquei muito mal, eu não sei se vou conseguir superar tudo isso.
-Claro que vai Alice. Para você ver como são as coisas, olha para você, me contando sobre um cara, que você conheceu a alguns dias, e toda entusiasmada. As coisas são assim, mudanças vem para nos fortalecer às vezes.
-Tomara que você tenha razão, porque senão, eu não sei o que eu vou fazer. E o João, como está?
-Alice, ele está daquele jeito, arrasado, arrependido, com cara de cachorro de caiu da mudança. Mas fica tranquila, qualquer coisa eu aviso você. Mas me promete que vai ficar bem?
Eu ri sem vontade.
-Eu vou tentar.
-Amo você, Alice.
Senti minhas lágrimas rolarem novamente.
-Eu também amo você, Malu.
Assim que desliguei o celular, cai na cama novamente chorando com saudades da minha melhor amiga, com saudades do João Pedro, imaginando como ele estaria naquele momento, em que ele estava pensando, o que ele estaria fazendo.
Horas depois, resolvi colocar uma roupa, peguei meu notebook e sai em busca de um lugar tranquilo para escrever. Fui parar em um parque da cidade, onde sentei-me no chão e passei algumas horas escrevendo, só parei porque a bateria do meu notebook estava acabando, então fui até o hotel e me tranquei em meu quarto, continuando a escrever mais um pouco. No final da tarde, resolvi descer para usar a piscina e descansar um pouco. A piscina de fora estava muito fria, então optei em usar a piscina aquecida, que estava divinamente gostosa.
Algum tempo pedi um suco e o garçom foi me levar. Sentei-me em uma das cadeiras e quando estava tomando meu suco André apareceu.
-Oi Alice, tudo bem? Ele disse soltando um meio sorriso e sentando-se ao meu lado.
Fiquei vermelha por estar apenas de biquíni ao lado dele, mas disfarcei minha vergonha.
-Tudo bem e você?
-Estou bem, mas fiquei preocupado com você, você sumiu hoje pela manhã.
-Eu acabei perdendo hora, e por falar nisso, muito obrigada pelo café da manhã, estava delicioso. Eu falei dando-lhe um sorriso. E obrigada pelo analgésico, foi de extrema serventia.
-Ah, eu imaginei. Ele disse me observando. A piscina está boa?
-Nossa, perfeita. Respondi dando um gole do meu suco. Eu passei a tarde toda escrevendo, precisava dar uma relaxada então vim parar aqui, e confesso que foi ótimo.
-Fico feliz que esteja gostando. Ele falou sem desviar o olhar do meu.
Disfarcei minha inquietação, tomando outro gole do suco.
-Estou gostando muito. Falei sem hesitar. André olhou para a piscina e abriu um sorriso.
Em me levantei também e imediatamente vesti um roupão.
-É eu vou ficar mais um tempo aqui, depois vou tomar um banho.
-E hoje à noite, o que você vai fazer?
-Eu não sei ainda, talvez eu vá na tal festa que você me disse, vamos ver.
-Você vai gostar, tenho certeza. Bom, preciso ir. Ele disse olhando no relógio.
-André, obrigada novamente pelo café da manhã, não precisava se preocupar.
-Alice é claro que eu me preocupo, você é uma pessoa especial, pode ter certeza.
Senti minhas bochechas esquentarem nesse momento.
-Até mais. Ele disse dando-me uma piscadela.
-Até mais. Respondi acanhada.
André saiu em seguida, me deixando sozinha e totalmente sem jeito. Eu suspirei fundo, tirei meu roupão novamente e caí na piscina, tentando amenizar o calor o que eu estava sentindo devido a todo meu constrangimento.
-Caramba Alice! Disse para mim mesma.
Depois de algum tempo, outras pessoas estavam chegando para usar a piscina também e como eu já estava a um bom tempo, resolvi sair. Fui para meu quarto e tomei um banho. Coloquei uma calça preta bem justa ao corpo com uma blusa preta e branca um pouco mais comprida e por cima uma jaqueta de couro mais curtinha, deixando parte da blusa à mostra. Como estava frio, coloquei um cachecol preto por cima e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo bem alto, calcei minhas botas pretas, fiz uma maquiagem neutra, porem com os olhos bem marcados, peguei minha bolsa e saí sem rumo. Depois de alguns minutos dirigindo pela cidade, passei em frente ao café de André, que estava consideravelmente muito movimentado, mas não parei, fui parar apenas no estacionamento da festa da cidade. Andei alguns minutos pela feira e exposição, depois fui até o parque e me sentei vendo as pessoas que iam e vinham. Fiquei olhando em especial para um carrossel que estava cheio de crianças que se divertiam muito enquanto passeavam nele, via os olhares dos pais orgulhosos em ver suas crianças felizes no brinquedo e me imaginei no lugar deles, paparicando meu Pedro todo sorridente enquanto dava voltas no carrossel, me lembrei do quanto ele amava ir a parques e eu e o João Pedro amávamos ainda mais levá-lo e vê-lo tão feliz. Foi como se uma bola de tênis parasse em minha garganta, senti meu coração apertado novamente e as lágrimas brotaram em meus olhos. Impulsivamente para não chorar ali no meio de todo mundo, levantei-me e comecei a andar entre as pessoas decidida a voltar para o hotel. Após alguns minutos andando a esmo ouvi alguém chamar pelo meu nome, quando olhei para trás, vi André caminhando apressadamente em minha direção.
Senti algo inexplicável naquele momento, fiquei feliz ao ver alguém de conhecido em meio a tantas pessoas.
-Até que enfim achei você, estou te procurando já faz um bom tempo. Achei que não lhe encontraria mais.
-Mas você veio aqui atrás de mim? Perguntei curiosa.
-Eu vim, quer dizer, na verdade eu queria convidar você para vir comigo, mas fiquei sem jeito. Achei que talvez você não aceitasse minha companhia, então como você disse que possivelmente viria, pensei em lhe fazer uma surpresa.
-E fez. Eu disse dando-lhe um sorriso. –Na verdade, estava indo embora, esses lugares não combinam com pessoas sozinhas e deprimidas.
André passou a mão pelo meu rosto.
-Você não está sozinha Alice. E eu não quero que fique deprimida.
-Obrigada, André. É que parques de diversões trazem muitas recordações, e é impossível não lembrar do Pedro quando eu os vejo, por isso que eu estava indo embora.
-Vem aqui. Ele disse me abraçando –Eu sei como são essas coisas.
Eu o abracei e me senti protegida estando nos braços dele.
-Vamos sair daqui, sei lá, ir jantar em algum lugar?
-Vamos. Respondi no mesmo instante.
André pegou em minha mão e começamos a caminhar entre as pessoas de mãos dadas. Quando ele viu uma barraca de maçãs do amor, ele parou e comprou duas delas, me entregando uma em seguida.
-Humm, a quanto tempo não como uma dessas.
-Você não pode sair daqui sem comer uma, isso é quase que obrigatório. Ele disse dando-me um sorriso.
Sentamos em um banco de cimento e ficamos comendo nossas maçãs enquanto conversamos algo sobre a feira, ele me explicou sobre algumas tradições da festa, sobre as exposições, sobre os costumes. Na hora de ir embora, fomos até o estacionamento e quando cheguei lá, olhei ao redor procurando o carro dele.
-Onde está seu carro?
-O Mauro ficou com meu carro, ele me trouxe e levou meu carro para o hotel, vim disposto a encontrar você.
-Mas e se você não me encontrasse?
-Nesse caso eu ligaria para ele vir me buscar.
-Você é louco. Eu disse sorrindo e balançando a cabeça em negação.
-Realmente estou ficando louco, sabia? Desde que eu conheci você, ando fazendo coisas, das quais nunca fiz.
Olhei para ele fingindo não entender.
-Meu carro está logo ali. Disse saindo em seguida em direção ao meu Volvo.
Assim que entramos no carro, um silêncio imensurável tomou conta do ambiente. Depois de alguns minutos dirigindo olhei para ele.
-Bom, eu não conheço nada aqui, o que você me indica?
André suspirou, pensando sobre o assunto.
-Comida japonesa, você gosta?
-Adoro. Respondi sem hesitar.
-Então vamos ao Takê, é logo aqui perto, e é excelente.
Eu concordei e dirigi sendo guiada por ele. Em poucos minutos estávamos estacionando em frente ao tal restaurante. Entrei no restaurante com o André, sentindo-me um pouco em jeito, era a segunda noite que jantava na companhia dele, sendo que o conhecia a apenas dois dias. André escolheu uma mesa perto de uma grande janela com vista para um jardim todo iluminado. O garçom nos atendeu, fizemos os pedidos e então ele saiu.
André me olhou com um sorriso malicioso em seus lábios, que me deixou ainda mais acanhada. Senti o rubor em meu rosto apenas ao cruzar meu olhar com o dele.
-E hoje você não trabalha?
-Eu fiquei o dia todo por lá, então resolvi me dar uma folga esta noite.
O garçom trouxe nossas bebidas e brindamos em seguida.
-Estou achando você quieta, está tudo bem?
-Está sim, é só que é um pouco estranho, eu não sei nem se você tem uma namorada. Você tem?
André sorriu e em seguida bebericou seu saquê.
-E se eu tivesse, teria algum problema? Quer dizer, isso incomodaria você?
Mais uma vez senti o sangue correr em direção ao meu rosto, acho que fui intrusa demais fazendo tal pergunta.
-Não, sei lá, não tem nada demais, só estamos conversando. Falei dando um gole em minha bebida.
-Eu não tenho ninguém. Eu tive algumas namoradas depois que a Valentina se foi, mas não deram certo, é complicado quando se tem filhos envolvidos.
Eu suspirei fundo, pois eu nunca saberia como seria conciliar um novo relacionamento com filho.
-Me desculpe Alice, não quis fazer você se lembrar, sinto muito. Ele disse balançando a cabeça negativamente.
-Não, tudo bem, fica tranquilo. Estou aprendendo a falar sobre isso, afinal essa dor eu preciso carregar comigo e aprender a lidar com ela. Mas me fala, por que você diz que é complicado? Suas ex-namoradas não aceitavam o fato de você ter suas filhas? Ou suas filhas não aceitavam o fato de você estar namorando novamente.
-Acho que minhas filhas não se oporiam se eu arrumasse alguém que realmente valesse a pena, quer dizer, alguém que eu realmente amasse e que ela me amasse também.
André olhou para o jardim como se pensasse em algo ou alguém.
-Eu conheci uma pessoa há algum tempo, ficamos juntos uns meses e ela me parecia ideal, não sei se era carência da minha parte, sei lá, mas eu achei que pudesse dar certo. No começo ela aceitava o fato de eu ter que ir visitar minhas filhas, e elas virem me visitar, mas depois de um tempo, ela começou se incomodar com essa situação, então eu me sentia muito dividido.
-E suas filhas a conheciam?
-Elas sabiam sobre ela, mas ainda não tinham sido apresentadas. Eu queria ter certeza se daria certo primeiro. Então uma vez eu precisava ir para Porto Alegre na formatura da minha filha mais velha, e essa minha ex ficou furiosa, porque ela havia feito planos para nosso final de semana, enfim, ela sabia há semanas sobre minha ida para Porto Alegre, e quando chegou o dia, ela criou a maior confusão. Mas eu fui mesmo assim, só que chegou lá, eu me sentia culpado por não a ter levado comigo, e então eu decidi que tinha chegado o momento das minhas filhas conhecê-la. Conversei com elas e pedi para que elas viessem para cá no final de semana seguinte. Elas não se recusaram em momento nenhum, até aceitaram numa boa. Aí eu voltei um dia antes do combinado, era para eu voltar no domingo, mas eu voltei no sábado à noite, e quando cheguei aqui, fui atrás dela e não a achei em lugar nenhum. Fiquei em frente ao prédio dela, sabia que ela provavelmente havia saído com algumas amigas, sei lá. As horas passaram, passaram, e eu acabei pegando no sono, dentro do carro mesmo. Acordei com o dia amanhecendo e então a vi chegando de carro com um cara que trabalha com ela, eles estacionaram o carro e se beijaram por longos minutos, então se despediram e quando ela desceu do carro ele abriu o vidro e disse algo a ela, ela disse alguma coisa e ele subiu para o apartamento dela.
André me olhou totalmente chateado.
-Eu sinto muito por ter tocado nesse assunto.
-Não se preocupe, isso não me chateia mais. Depois eu descobri que o caso deles era antigo, eles só não assumiam porque ele tinha uma noiva, enfim...
-Caramba, que cretina. Falei sem pensar. –Desculpa, não devia ter disso isso.
-Não, você tem razão. Ela foi muito ordinária comigo, me enganou por meses. Mas depois veio atrás, se humilhou, pediu perdão, mas já era tarde demais.
Fiquei sem saber o que dizer.
-Depois conheci outras pessoas, você sabe, quando se está sozinho aparece um leque de opções, mas nunca era nada realmente sério. Há alguns meses atrás eu estava com uma garota, uns dez anos mais nova do que eu, Paola o nome dela, o que ela tinha de bonita, tinha de imaturidade.
O garçom chegou com nossos pedidos e nos serviu imediatamente, fazendo com que André parasse de falar. E eu estava ansiosa para saber sobre o outro romance dele.
Assim que o garçom nos deixou, André continuou a falar.
-Quando estávamos juntos, no começo tudo parecia ótimo, mas depois a Paola foi mostrando um lado dela que era extremamente ciumento, ela era insegura demais, era possessiva demais, arrumava brigas por coisas pequenas. Me ligava de cinco em cinco minutos e caso eu não a atendesse já era um motivo para uma nova discussão, enfim, nosso relacionamento foi se tornando um inferno, e quando ela viu que as coisas não estavam indo bem, não sei como, mas ela achou minha filha caçula nas redes sociais e disse a ela sobre nosso relacionamento, e inventou que íamos nos casar porque ela estava grávida, então imagina a cabeça da minha filha, uma adolescente que tinha perdido a mãe há poucos anos e descobrir que o pai estava namorando e iria se casar sem que elas soubessem! Foi terrível.
-Eu não acredito! Mas ela estava realmente grávida?
-Não, claro que não. Quando minha filha caçula nasceu, eu e a Valentina decidimos que eu deveria me esterilizar. Mas eu nunca tinha comentado sobre isso com a Paola, ela nem imaginava que eu não podia ter filhos.
-Mas e aí, o que você fez?
-E aí, que até para a família dela ela inventou essa história, e eu precisei ir pessoalmente conversar com os pais dela e desmentir tudo. Minhas filhas ficaram revoltadas, mesmo sabendo que tudo não se passava de uma mentira elas continuaram sem falar comigo por semanas. Mas felizmente agora está tudo bem.
-Uau, você realmente escolhe bem seus relacionamentos. Eu disse com um sorriso sarcástico.
-Para você ver. Ele disse dando um sorriso e comendo um sushi em seguida.
-Mas eu ainda não desisti de encontrar alguém que realmente faça valer a pena. Claro que agora estou bem mais seletivo; não que eu era um homem de ter várias mulheres, pelo contrário, sempre fui mais reservado, até mesmo porque é uma cidade pequena, as pessoas me conhecem, sabem sobre minhas filhas, então eu sempre me preservei, mas agora ainda mais, e eu quero me envolver com alguém quando eu realmente achar que ela é a pessoa certa.
André olhou para mim como se quisesse me dizer algo, mas eu disfarcei e fingi não perceber. Coloquei um sashimi na boca e percebi ele me avaliando.
-Mas e você, você acha que seu ex-marido valeu a pena, ou sei lá, ainda vale a pena?
Engoli minha comida e tomei um gole da minha bebida, como se estivesse adiando em relação a tocar nesse assunto. André fez o mesmo, porém, me observando em cada movimento.
-O João Pedro ainda é o meu marido, é tudo muito recente, e foi por isso que eu precisei sair um pouco de Curitiba, precisava pensar sobre tudo o que aconteceu, sobre nosso relacionamento. Ele me magoou bastante também, mas eu também tive a minha parcela de culpa pelo nosso casamento ter chegado ao ponto que chegou.
Ele me olhou sem entender e eu tomei outro gole da minha bebida.
-Sim, ele realmente valeu a pena, foram anos maravilhosos ao lado dele, tanto que quando nos conhecemos, eu terminei um relacionamento de oito anos, sem ao menos termos dado um único beijo. Eu fiquei apaixonada por ele e ele por mim assim que nos conhecemos. E durou anos.
Dessa vez fui eu quem olhei pela janela, vendo o jardim todo iluminado com uma luz verde bem forte, evidenciando o verde das plantas.
Olhei para o André e ele me encarava, como se estivesse lendo meus pensamentos.
-Acontece que quando o Pedro se foi, eu não soube lidar com a perda dele, eu me trancafiei em meu mundo, queria sentir minha dor sozinha. E no fundo, mesmo sem querer sentir isso, eu meio que culpei o João pela morte do nosso filho. Quer dizer, é claro que não foi culpa dele, o Pedro foi atropelado por um carro; mas mesmo assim, inconscientemente eu o culpava. E eu acabei me afastando dele, me isolando cada vez mais dentro da minha própria casa e isso foi deixando nosso casamento cada vez mais insuportável. Até que um dia eu decidi que não dava mais para viver assim, que eu precisava retomar minha vida e principalmente meu casamento, só que era tarde demais, o João Pedro estava bebendo demais, chegava cada vez mais tarde em casa, então foi aí que percebi que eu estava o perdendo. E há alguns dias, eu fui atrás dele em um barzinho que ele costumava frequentar, mas quando eu cheguei lá, vi que uma garota começou a conversar com ele, mas logo depois ele foi embora. Eu fui para casa, mas não tive coragem de falar, então fui no dia seguinte, e a tal garota mais uma vez sentou-se ao lado dele e eles conversaram animadamente, e eu observando tudo de longe.
Eu soltei um riso triste.
-Na verdade, eu poderia ter ido até ele, e nada disso teria acontecido, mas era como se eu precisasse ver até onde ele ia. Então ele foi embora novamente e deixou a garota sozinha mais uma vez, e eu mais uma vez não disse nada. Só que no dia seguinte, a garota chegou, eles conversaram bastante, e eu vi que as coisas estavam ficando cada vez mais íntimas entre eles, até que ela o beijou, e não foi nenhum beijinho não, pelo contrário, ele retribuiu aos beijos dela no meio de todo mundo, em um barzinho que costumávamos frequentar juntos. Depois eles conversaram novamente e trocaram números de telefones e mais uma vez se beijaram.
-E você vendo tudo?
-Eu vi tudo. E foi então que eu fiz questão que ele soubesse que eu estava ali, assistindo a tudo. Só que uma coisa é certa, se ele não tivesse me visto, com certeza essa história não pararia por ali, é obvio que eles iriam até o fim.
-Sinto muito Alice.
-Obrigada André. Mas é por isso que eu digo que eu não posso culpar somente o João Pedro, eu também errei, eu o afastei de mim, e ainda quis pagar para ver o que aconteceria entre os dois. Só que eu não sei se conseguiria conviver com mais isso. Eu queria salvar meu casamento sim, mas depois do que eu vi e sabendo o que aconteceria em seguida, sinceramente mudei totalmente meus planos.
Tomei mais um gole da minha bebida e meu olhar se encontrou com o de André.
-Bom respondendo sua pergunta, o João Pedro valeu a pena sim, mas quanto a estar casada com ele, já não sei se vale mais. Eu não vou mentir para você, dizendo que eu não o amo mais, eu ainda amo o João e tenho certeza absoluta eu ele me ama, mas eu não acho que o nosso casamento ainda tem solução. Sei lá, talvez daqui um tempo, mas não agora.
André apenas balançou a cabeça como se concordasse com o que eu tinha acabado de falar.
-Alice, você é uma pessoa transparente, é sincera. Sei lá, você poderia estar se fazendo de durona, dizendo que nunca mais o perdoará, que não quer mais vê-lo, mas não! Pelo contrário, você acabou de assumir que ainda ama seu marido. Eu acho isso muito íntegro da sua parte. A honestidade é umas das qualidades, senão a mais importante qualidade de uma pessoa.
-Hum, obrigada. Respondi sem graça. Mas é a verdade, as pessoas costumam a atacarem seus parceiros quando o relacionamento acaba, só que foram muitos anos juntos, e foram anos ótimos, então eu não posso simplesmente dizer que o João não é mais importante, ele é sim, e eu me preocupo com ele. Só que agora eu quero focar mais em mim, em minha carreira, sei lá, me colocar em primeiro lugar.
-Você está certa Alice, um brinde à sua nova vida e aos nossos acertos e desacertos.
Nós brindamos e eu bebi toda a bebida que estava em meu copo. Ficamos horas conversando sobre nossas vidas, nosso acertos e desacertos como ele mesmo disse. Já era tarde quando voltamos para o hotel. Atravessamos vagarosamente o jardim como se estivéssemos ganhando mais tempo.
André caminhou até um banco branco de madeira e sentou-se, eu me aproximei e fiquei observando as flores ao redor.
-Alice, eu acredito que tudo tem um porquê, sabia?
-Como assim?
-Você veio parar aqui por acaso, nós dois nos conhecermos, e é como se eu conhecesse você há muito tempo, não sei, é difícil explicar, mas é como se você já fizesse parte da minha vida.
Eu ri sem graça.
-É, realmente estamos nos dando muito bem. Sua companhia está sendo muito agradável.
André pareceu-me acanhado e sem jeito perto de mim, parecia nervoso com a minha presença.
-Desde que eu coloquei meus olhos em você, senti algo muito forte, você mexeu comigo de uma maneira inexplicável, e quando estou com você é como se eu quisesse parar o tempo para que as horas não passem.
André caminhou até mim e senti que minhas pernas ficaram bambas.
-André, eu...
-Você não precisa me dizer nada, eu sei que você está passando por um momento delicado, eu só lhe falei essas coisas, porque eu precisava expor isso para você, estar com você está sendo perfeito, só queria que você soubesse disso.
Balancei a cabeça concordando com ele.
-Bom, está tarde, e eu preciso subir, fiquei de ligar para minha amiga, e ainda não consegui falar com ela.
-Vamos, eu acompanho você. Ele disse colocando as mãos nos bolsos da calça e seguindo comigo para dentro do hotel.
Não trocamos mais nenhuma palavra até a porta do meu quarto.
Abri a porta do quarto e André ficou ao meu lado.
-Bom, eu vou indo então. Disse encabulada apontando para dentro do quarto.
-Obrigado pela companhia, Alice.
-Eu quem devo agradecer por você ir me resgatar naquela festa.
André riu, inclinou-se até mim e beijou minha testa.
-Eu vou fazer com que você perceba que eu posso valer a pena.
Meu coração começou a bater descompassado, senti um frio percorrer por todo meu corpo.
-Boa noite! Ele sussurrou em meu ouvido e saiu em seguida.
Entrei em meu quarto e me joguei na cama.
-Não pode ser, não pode ser! Isso só pode ser provação, só pode! Exclamei para mim mesma, sem acreditar no que estava acontecendo.
Fiquei deitada em minha cama, agarrada ao travesseiro pensando no que estava acontecendo comigo, no que eu iria fazer. No que poderia acontecer. Pensei em ligar para Malu, mas já era bem tarde, pensei então em minha mãe, mas ela era a maior defensora do João. Horas depois consegui pegar no sono.

19
Evitando encontrá-lo

Logo que o dia amanheceu acordei sentindo-me totalmente perdida e confusa, me arrumei e saí do hotel em seguida. Corri por horas, até minha exaustão. Resolvi parar e tomar um café em outro lugar que não fosse o hotel.
Mais tarde voltei para o hotel e entrei em disparada evitando encontrar com André. Tomei um banho, peguei meu notebook, minha bolsa e saí novamente, mas dessa vez com meu carro.
Dessa vez era eu fugindo do desconhecido. Andei por horas sem saber onde ir, até que parei em uma cidade vizinha de São Joaquim, onde encontrei um café muito aconchegante.
Chegando lá, peguei meu celular e mandei uma mensagem de texto para Malu.

Malu, precisava de você aqui, as coisas estão tornando-se tão confusas, não sei o que fazer e nem o que pensar. Ao mesmo tempo que queria estar aí ao lado do João Pedro, quero também manter-me afastada dele e esquecer o que ele me fez. Só que eu não consigo de parar de pensar nele. Mas ao mesmo tempo que penso nele, minha vida está sendo guiada para outro lado, o André meio que se declarou para mim ontem, disse que está encantado comigo e que eu mexi muito com ele desde que ele me conheceu. O pior é que eu também estou gostando de ser paparicada por ele. Então, o que eu faço????? Hoje mesmo, saí da cidade, tentando pensar com mais clareza. Estou me sentindo perdida!
Saudades, Alice

Coloquei meu celular do lado, abri meu notebook e voltei a escrever meu novo livro. As horas passaram rapidamente, e só parei de escrever quando meu celular vibrou, era a Malu.

Querida Alice, não sei se poderia ajudar você nesse momento, pois nem eu sei o que lhe dizer, é tudo muito complicado, porque no mesmo momento que sinto ódio do João Pedro por ter causado tudo isso, também sinto pena dele. Ontem mesmo foi terrível, ele ficou muito mal, saiu para beber e o Bruno precisou ir buscá-lo e trazê-lo para nossa casa, chegando aqui ele chorou muito por sentir sua falta. Fiquei mortificada por ele.
Eu sinceramente não sei o que lhe aconselhar, queria poder ajudar você. Mas tenho medo de influenciar e algo sair errado. A Maria Helena e o José Pedro vêm hoje para Curitiba, o Bruno ligou para eles e contou o que havia acontecido, eles ainda nem sabiam sobre vocês.
Amiga, fica bem! Saudades
Malu

A mensagem de Malu não me ajudou em nada, aliás, só me deixou mais confusa. Só voltei para o hotel no começo da noite, onde tomei um banho e desci para comer alguma coisa. Havia um grupo de senhoras e senhores que estavam jogando baralho, então me aproximei deles e fiquei observando-os a jogarem. Me diverti vendo a maneira que eles se alfinetavam, e logo fui convidada a jogar também.
Horas depois de jogar cacheta e tranca, voltei para meu quarto. Estava sentindo-me mais leve, sem ver o André o dia todo me deixou menos confusa. E as últimas horas com meus novos amigos da terceira idade me deixou bem relaxada. Dormi bem cedo naquela noite, e no dia seguinte fiz a mesma coisa, saí para correr assim que o dia amanheceu, e depois do meu banho saí com meu carro e parei no mesmo café do dia anterior. Assim que peguei meu celular, havia uma mensagem da Malu, ela tinha acabado de enviar.

Alice, bom dia! Como se sente hoje? Novidades?
Por aqui as coisas foram bastante movimentadas. Os nossos sogros chegaram no final da tarde, e logo depois o João Pedro chegou também, então eles começaram a conversar com o João querendo saber de tudo, é claro que eu me fiz presente, não deixaria de jeito nenhum o João Pedro inverter a situação para amenizar a culpa dele, ele até que tentou justificar o que ele fez pelo modo que você o tratava, mas eu interferi e defendi você até o fim, disse que você errou, mas de jeito nenhum saiu por aí traindo ele, enquanto ele estava em casa esperando por você.
Enfim, a Maria Helena ficou revoltadíssima com ele, o José Pedro também, mas no fim, você sabe que os homens se protegem, não é? Mas mesmo assim eles deram vários sermões para o João, que se ele perdesse você, a culpa seria apenas dele. Sua sogra falou muita coisa para ele, disse que se a situação entre vocês chegou a tal ponto, a culpa também foi dele que nunca fez nada para melhorar, preferiu ver você sofrendo calada a ter uma conversa franca. Ou seja, descobri que ela é sua fã e você é a queridinha dela, minha amiga.
Tudo bem, senti um pouco de ciúmes, eu confesso.
(Risos). É nada, na verdade eu sempre soube que ela gosta muito mais de você, também, quem não gosta?
Depois de tudo, eles ficaram por aqui, jantaram, conversaram e acabaram dormindo aqui em casa, inclusive o João. (Ele nunca frequentou tanto minha casa como ultimamente).

Agora uma boa notícia. Hoje no final da tarde, o Bruno, o João Pedro e o pai deles irão viajar. Decidiram ficar uns dias fora, arrumaram uma pescaria em alto mar. A Maria Helena volta para Florianópolis sozinha (ufaaa, tive até medo eu ela quisesse ficar em minha casa durante esses dias) pois ela tem alguns compromissos importantes.
Então garota, você tem alguns dias ainda para pensar sobre o que fazer da sua vida. E eu estive pensando...  você só está passando por tudo isso, por culpa do João Pedro que pensou em se dar bem saindo com uma vadiazinha qualquer. Ele não pensou que poderia estar facilitando as coisas para que você também conhecesse alguém, e foi exatamente o que aconteceu. Agora, o meu conselho (droga, eu disse que não me meteria), já que está aí, absorva todas as experiências que essa cidade lhe oferece, inclusive o bonitão. Bom, só falei o que eu faria em seu lugar, mas cabe a você decidir. E volte logo, pois estou morrendo de saudades.
Malu

Eu ri ao ler a mensagem de Malu, era aquela a Malu que eu conhecia, que falava por ela, no que ela faria, e lógico que ela não deixaria essa história passar em branco.
Comecei a escrever, dando continuidade em meu novo livro. Percebia as pessoas indo e vindo, mas não vi o tempo passar, era bom ter minha inspiração de volta. Após uma breve parada para um lanche, voltei a escrever novamente.
Voltei para o hotel já estava anoitecendo, sentia-me exausta depois de um dia todo trabalhando, porém estava ficando muito feliz com o resultado do meu novo romance. Cheguei em meu quarto e me troquei, trocando a roupa por um biquíni, coloquei uma saída de banho por cima e fui enfrentar a piscina de água quente do hotel, já que o frio estava terrível. Fiquei algum tempo o suficiente para relaxar, mas depois de algum tempo resolvi subir, tomar um banho e descer para jantar e quem sabe encontrar meus novos companheiros de cartas.
Despois do banho, me arrumei colocando um jeans claro, botas escuras café e uma blusa de linha preta que deixava parte dos meus ombros de fora. Sequei meus cabelos deixando-o bem lisos e passei uma maquiagem para amenizar minha cara de cansaço.
Segui para o restaurante, mas nenhum dos meus amigos estavam por perto. Tomei um caldo e depois fui até a sala que eles costumavam ficar, mas também não estavam. Encontrei Mauro, o gerente do hotel que estava saindo apressado, mas que ao me ver abriu um largo sorriso.
-Boa noite dona Alice.
-Boa noite Mauro, indo para casa?
-Não senhora, estou indo para o café, pois faltaram quatro funcionárias essa noite e o André está sozinho, já mandei um funcionário aqui do hotel e agora vou correr lá para dar uma mão. A Silvinha gerente do café está com o filho doente, e três outras atendentes também não puderam ir, aquilo está um tumulto, e justo nesta noite até os clientes aqui do hotel foram para lá para conhecer o café a convite do André.
Aí que entendi o porquê nenhum deles estavam no hotel.
-Eu tentei ligar para minha esposa vir me buscar, mas não consegui falar com ela, na certa ela desligou o telefone porque nossa filha dormiu. Então eu vou andando.
-Você quer uma carona, eu ia mesmo sair para dar uma volta.
-Mas não vai atrapalhar a senhora?
-Não Mauro, claro que não. Só vou buscar minha bolsa e te deixo lá.
-Então nesse caso eu aceito. Ele disse sem hesitar.
Corri para meu quarto, peguei minha bolsa e fui com o Mauro até o café. Minutos depois, estacionei do outro lado da rua, onde dava para ver a fila se formando do lado de fora do café. Mauro se despediu e me agradeceu várias vezes pela a carona.
Quando ele foi atravessar a rua, eu involuntariamente o chamei.
-Mauro, me espera, vou com você.
-Então vamos dona Alice, o André vai ficar muito feliz com a sua presença.
Soltei um riso encabulado peguei minha bolsa e fui em direção ao Mauro. Atravessamos a rua que estava bem movimentada e passamos por toda a fila, entrando sem esperar um só minuto. Alguns clientes reclamaram, mas o funcionário do hotel que estava de segurança, explicou que éramos funcionários da casa.
Assim que entramos no café que estava lotado, vi uma mesa no canto com todos os meus novos amigos, e olhei ao redor a procura de André, mas nada. Mauro parou para cumprimentar alguém que eu não conhecia, e então vi André, de calça jeans escura e blusa de malha de manga longa branca, vindo em minha direção.
-Alice, como você está? Você sumiu.  Queria ligar para você, mas não tinha o seu número, te procurei ontem e hoje, mas não a encontrei.
Soltei um meio sorriso.
-É eu passei esses dias escrevendo, quando eu estou inspirada, eu tenho o hábito de sumir do mapa. Eu falei olhando nos olhos dele.
Ele em seguida se inclinou, beijando meu rosto.
-Vou arrumar uma mesa para você, isso aqui está uma loucura hoje.
-Eu pensei em ajudar. Soube que você está com poucos funcionários, então se eu puder fazer alguma coisa.
-É sério? Ele perguntou com um sorriso de orelha a orelha.
-É sim.
André olhou ao redor, como se pensasse em algo para eu fazer.
-Então faz assim, a Marília que me ajuda a atender foi para o caixa, vou pedir para ela explicar a você como funciona, assim ela pode vir me ajudar a atender novamente, junto com o Mauro.
-Ótimo, sou boa com números. Falei dando-lhe uma piscadela. –Mas antes eu só vou cumprimentar meus novos amigos e já vou para o caixa. Completei.
-É, eu fiquei sabendo das suas habilidades com as cartas. Ele falou todo sorridente.
Fui dar um alô para meus amigos, que disseram que foram me procurar no início da tarde para vir com eles ao café, mas não me encontraram. Fiquei feliz ao saber que eles se importaram em me convidar. Conversei um pouco mais com eles e expliquei que precisava ajudar o André.
Minutos depois, já estava ao lado de Marília que parecia mais atrapalhada do que eu lidando com números. Ela me explicou como fechar as comandas e eu peguei facilmente o jeito. Alguns instantes depois, ela já estava atendendo nas mesas, junto com Mauro e André, e as coisas já estavam ficando mais controladas com os três atendendo.
De vez em quando eu via André olhando para mim sem disfarçar e eu apenas lhe dava um sorriso sem jeito. O movimento do caixa começou a aumentar, não me dando tempo nem de respirar. Um mocinho com seus vinte e poucos anos foi fechar uma comanda e começou a me encarar, deixando-me sem jeito.
-Ei, não conhecia você. Você é nova por aqui?
-Sou sim. Respondi sem olhar para ele. – Cento e vinte reais. Disse somando a comanda.
O rapaz de me entregou o dinheiro, me encarando incansavelmente.
-E você mora aqui por perto? Quer dizer, se precisar de uma carona eu posso levar você.
-Aqui seu troco. Falei entregando trinta reais para ele.
-Não, pode ficar. Ele disse ainda me encarando.
-Qual é o seu nome?
-Alice. Falei entregando-lhe as notas novamente.
-Alice, meu nome é Guto, é um prazer conhecê-la. Ele disse esticando-me a mão.
Fiquei sem graça, ainda mais, aliás, e estiquei minha mão e apertei a dele em seguida.
-Você tem namorado?
-Olha Guto, não queira nem saber. Mas eu lhe agradeço pela carona, só que eu estou de carro, não se preocupe.
-Mas eu poderia esperar você, assim a gente pode conversar com mais tranquilidade.
Nisso senti uma mão passando pelos meus ombros.
-Guto, já vi que conheceu a Alice. Disse André me abraçando.
-Ei cara, como vai, conheci sim. Não vai me dizer que...
-É pois é cara, ela está comigo, e não quero que ninguém a incomode, tudo bem?
-Não, claro André, me desculpe, eu não sabia. E Alice, me desculpe também. Boa noite para vocês. Ele disse todo sem graça e saindo em seguida.
-Nossa que cara chato. Disse André ainda com as mãos ao redor dos meus ombros.
Eu fiquei congelada.
-Obrigada por me livrar dessa saia justa, mas sou bem grandinha, não acha?
André deu um sorriso malicioso.                                                                             
-Eu conheço esses caras, ele insistiria até o final da noite. Mas também não o culpo. Falou André com segundas intenções.
Eu balancei a cabeça negativamente, dando um sorriso e ele saiu em seguida.
Mais tarde, André chegou entregando-me uma taça de uma bebida de frutas com champanhe.
-Essa é para a moça mais linda desse lugar. Ele disse sussurrando em meu ouvido. Em seguida colocou a taça sobre o balcão e saiu em seguida.
Eu ri, mas acabei tomando o coquetel, que era delicioso.
Meus novos amigos logo foram embora, e todos se despediram de mim, dando-me um abraços e beijos. Eles eram pessoas extremamente simpáticas e educadas.
-Esperamos você amanhã hein. Disse Dona Elza, uma senhora muito simpática.
-Pode deixar, amanhã ninguém segura a gente. Falei dando-lhe um abraço apertado.
Algumas horas depois o café estava quase vazio. Olhei no relógio e passava das duas da manhã. Peguei todas as comandas e as somei. Em seguida conferi o dinheiro que estava batendo corretamente com o valor das comandas.
As duas últimas mesas foram embora poucos minutos depois. André veio até mim, parecia exausto, mas estava feliz.
-Alice, não sei nem como lhe agradecer.
-Você não precisa me agradecer. Eu disse serenamente.
-Eu vou pagar a banda e os meninos e já venho.
-Aqui está o dinheiro André, e as comandas. Já conferi tudo, mas depois você confere novamente. André pegou o dinheiro e as comandas, mas as jogou no lixo sem ao menos conferi-las.
-André!
-Só que me faltava eu precisar conferir o que você fez. Ele disse saindo em seguida.
Minutos depois a banda também se foi, e Mauro e os funcionários do hotel também vieram onde eu estava.
-Mauro, fica com meu carro, leva os meninos. Amanhã você pode ficar de folga, eu mando alguém pegar o carro em sua casa.
André o agradeceu e Mauro despediu-se de mim saindo em seguida com os meninos do hotel. Marília e as funcionárias da cozinha também se despediram de nós e saíram em disparada. Eu suspirei nervosamente. André foi em direção ao bar, mas eu não podia ver o que ele estava fazendo. Então ele apareceu com um balde de gelo com duas champanhes e sentou-se ao meu lado em uma das mesas. Mas levantou-se novamente e nesse momento eu pude ver que ele trancou a porta do café, para que ninguém mais entrasse, e voltou para a mesa.
-E então, cansada?
-Um pouco, mas é bem gostoso. As horas passaram que eu nem vi.
-É, quando se faz parte da sua rotina, torna-se desgastante, mas não é tão ruim assim. Ele disse abrindo a champanhe.
-Eu admiro isso em você. Você é muito esforçado, é simpático com seus clientes, acho que esse é um dos segredos para esse café estar sempre cheio.
-É, eles gostam de mim sim. Mas eles gostam mais do ambiente, das músicas e dos outros funcionários que são bem atenciosos.
Eu o observava conversar enquanto nos servia champanhe.
-E aquele cara hein? Fiquei louco quando eu o vi dando em cima de você.
Senti meu rosto corar, e involuntariamente soltei uma risada.
-É eu vi você espantando o único carinha que se aproximou de mim essa noite, isso não se faz. Disse fazendo uma careta.
-Pode ter certeza que ele não foi o único que se interessou por você. Eu vi vários caras olhando para você essa noite. Meu caixa nunca foi tão badalado como hoje.
Eu ri alto dessa vez.
-André você é doido, sabia.
-Eu mesmo não conseguia tirar os olhos do caixa. Era como se tivesse um imã, atraindo meu olhar.
Eu balancei a cabeça negativamente, riso sem graça e virei a taça bebendo todo o resto do champanhe. Em seguida olhei para o relógio e era mais de três da manhã.
-Eu preciso ir. Já está tarde.
-Vamos. Ele disse parecendo chateado. –Eu preciso de uma carona.
-Claro, eu levo você. Eu disse levantando-me em seguida.



2 comentários:

  1. Olhaaa.... acho que apesar da dificuldade da Alice em se decidir no momento, nada melhor do que uma paquera para a auto estima se elevar neste momento tão difícil.... vamos aguardar decisão de Alice... adoreiii a postagem de hoje

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  2. Decisão dificil a da Alice....mas estou super ansiosa pra saber o que acontecerá...

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