" Recomeços "
Parte 10
Dirigi a esmo por horas,
já havia deixado o estado paranaense para trás e entrado no estado catarinense
a horas. Parei em um posto de gasolina para abastecer o carro, e um senhor
muito simpático me atendeu e pedi para que ele completasse o tanque.
-Vai
para onde?
-Olha,
estou me fazendo essa mesma pergunta a horas, o que o senhor me sugere?
-Depende,
o que a senhora procura? Serra ou litoral? Agito ou tranquilidade?
-Humm.
Fiz uma pausa, analisando as opções me dada. –Tranquilidade, é só disso que
preciso, estava até pensando em ir para o litoral, mas acho que nessa fase da
minha vida vou de serra.
-Boa
escolha. Eu morei anos da minha vida na serra catarinense, só saí porque minha
esposa na época começou a trabalhar por esses lados.
-Que
lugar o senhor me indica?
-Olha,
eu sou suspeito falar, mas gosto muito de São Joaquim, nasci lá, me criei lá e
se Deus quiser passarei o resto da minha velhice lá.
-Então
é para lá que eu vou. Eu disse sorrindo em agradecimento.
-Você
não vai se arrepender. Ele disse enquanto eu pagava.
Nos
despedimos, ele me desejou sorte e segui rumo à São Joaquim. Um pouco menos de
seis horas após ter saído de Curitiba cheguei ao meu destino desejado.
Realmente
São Joaquim era uma cidade muito acolhedora, tranquila e aconchegante. Era o
que eu estava precisando. Minha barriga roncava de fome, então dei uma rodada
na cidade e achei um café muito simpático.
O
café era um lugar muito confortável, rústico e moderno ao mesmo tempo. Fiz o
meu pedido e quando a atendente saiu, peguei meu celular de dentro da bolsa e o
liguei para verificar se João Pedro tinha me ligado. E claro, vi inúmeras
chamadas não atendidas dele e de Malu e várias mensagens de texto. A atendente
trouxe meu pedido e então guardei meu celular novamente na bolsa deixando para
ler as mensagens mais tarde.
Quando
fui pagar minha comanda, a atendente me deu um sorriso.
-Veio
conhecer a cidade?
-É,
digamos que sim. Vou passar uns dias aqui.
-É
a primeira vez?
-É
sim.
-É
muito bom aqui, você vai gostar.
-Falando
nisso, conhece algum lugar bom que eu possa me instalar por uns dias.
-Você
está com sorte. Disse a atendente entregando-me um cartão de um hotel. –É um
lugar um pouco afastado, mas é muito bonito e confortável. Atrás do cartão
ensina como chegar até lá.
Olhei
o cartão e sorri. Tudo estava dando certo até aquele presente momento. Saí do
café depois de agradecer a Silvia, a atendente do café.
Alguns
minutos depois cheguei em frente ao hotel. Era realmente um lugar lindo, todo
feito de madeira e pedras, em meio a vegetação.
Fiz
o check in e fui para meu quarto, a camareira me ajudou com as malas e saiu em
seguida. O quarto era todo romântico, possivelmente era uma suíte para casais
em lua de mel, contava com uma enorme varanda com vista para um lindo bosque.
-E
agora, o que eu faço? Disse para mim mesma me jogando na cama.
Fiquei
alguns minutos olhando para o teto do quarto, mas instantes depois peguei meu
celular para ler as mensagens.
Alice, estou
desesperado, eu amo você, sei que fui um tremendo idiota, mas me perdoa por
favor!
JP
Alice, não me
deixa! Eu não sei viver sem você! O que eu posso fazer para você me perdoar?
Amo você mais do
que tudo!
JP
Senti
meu coração despedaçado, e ainda havia várias mensagens de João Pedro, mas se
eu as lesse naquele momento, ficaria mais depressiva. Então desliguei meu
celular e tentei dormir um pouco.
Acordei
já era noite, me vi entediada, perdida, sem saber o que fazer num sábado à
noite, em uma cidade desconhecida e o pior de tudo, totalmente sozinha. Tomei
um banho de banheira e bebi champanhe rindo da minha própria desgraça, a
solidão. Me perguntava a todo momento como estaria João Pedro, queria poder
abraçá-lo, beijá-lo e amá-lo como na noite anterior.
Coloquei
um pijama, liguei meu notebook para saber mais sobre a cidade que eu estava e
continuei tomando champanhe. De pesquisas atrações na cidade, fui para as redes
sociais e digitei o nome da tal garota, mas era impossível saber algo sobre ela
sem um sobrenome, então desisti da minha busca lunática e liguei para a minha
mãe.
-Oi,
Alice! Onde você está? Estou te ligando o dia todo.
-Oi
mãe, é bom falar com você também.
-Filha,
o João Pedro esteve aqui atrás de você, estava arrasado. Ele me contou sobre o
que você viu.
-Pois
é mãe, uma vez você me disse que nenhum amor era eterno, e você estava coberta
de razão.
-Alice,
o João ama você. Ele errou, mas todo mundo erra.
-Eu
sei, mãe, é por isso que eu preciso de um tempo para mim. O João me magoou
muito, eu não sei se seria capaz de perdoá-lo. Talvez se ficarmos juntos eu vou
ficar com esse gosto amargo para o resto dos nossos dias. E eu quero estar em
paz para poder recomeçar minha vida.
-Filha,
eu não vou tirar sua razão. Pensa sobre tudo isso, mas não se esqueça de que o
João Pedro é uma pessoa maravilhosa, e ele a ama, e você também ama seu marido.
Se você resolver perdoá-lo, não se sinta mal por isso, você não será a primeira
nem a última pessoa a fazer isso. E as coisas estavam realmente complicadas
entre vocês, então dê a ele um voto de confiança. Tenho certeza que ele faria o
mesmo por você.
Fiquei
pensativa.
-Mas
onde você está?
-Eu
viajei um pouco, mas não estou longe, depois eu digo onde estou. Só liguei para
avisar que está tudo bem, eu estou bem na medida do possível.
-Mas,
filha, que cidade você está?
-Mãe!
-Tá
bom, não precisa dizer. E eu não iria contar para o João, só queria saber.
-Sei.
-Alice,
eu te amo. O que você precisar pode contar comigo.
-Eu
sei mãe, por isso que eu liguei. Queria ouvir a voz de alguém, mas eu vou
desligar, vou comer alguma coisa e amanhã eu ligo para você.
-Filha,
fica bem. Eu amo você.
-Também
amo você.
Eu
desliguei o telefone ciente que minha mãe era uma advogada de defesa do João
Pedro, e sabia que ela estaria ligando no mesmo segundo em que eu desliguei o
telefone, para dizer a ele que eu estava bem. Outra garrafa de champanhe
depois, me vi chorando revendo fotos minha com o João Pedro e com nosso filho.
Eu
olhava meu celular que estava desligado e minha vontade era de ligá-lo, pois eu
sabia que João estava tentando me ligar. Mas eu não o fiz. Mais uma vez, fui
para o notebook e tentei começar a idealizar uma nova história, um novo livro.
Mas nada me vinha em mente. Olhei no relógio e ainda era nove horas da noite.
Então decidi me trocar e descer para comer alguma coisa.
No
restaurante do hotel tinham casais jovens, casais velhinhos, famílias com seus
filhos. Só não tinha ninguém tão solitário assim como eu, com quem pudesse
dividir uma mesa para conversar. Tomei um caldo quente e logo voltei para meu
quarto.
No
outro dia, acordei bem cedo, pois havia ido dormir muito cedo também, coloquei
uma roupa de corrida e saí. Corri cerca de duas horas, passando pela cidade e
por bosques que cercavam o hotel. Voltei para o hotel, tomei um banho e só
então fui tomar café da manhã.
Estava
sentada tomando um café preto, e observei um homem tão solitário quanto eu.
Provavelmente esperava por sua mulher. Era alto, louro e olhos azuis da cor do
céu.
Algumas
vezes ele olhava para mim, e quando eu olhava ele disfarçava e lia o jornal.
Senti-me sem graça e olhava em todos os lugares, menos para ele. O tempo
passou, meu café acabou, assim como meus queijos e o pão. Ou eu me levantada e
saía ou voltaria para pegar mais alguma coisa, então levantei-me e me servi de
mais café, também peguei um exemplar do jornal e comecei a folheá-lo.
Sentia
os olhos do tal homem sobre mim, a cada virada de página do jornal, ele
disfarçava e olhava outra direção. Acabei o segundo café, devolvi o jornal no
lugar que o encontrei e saí sentido ao jardim.
O
dia estava bem gelado, dei uma volta pelo jardim, mas logo subi para o quarto
novamente, que já estava impecável.
-Meu
Deus, o que eu vou ficar fazendo aqui! Eu disse colocando as mãos na cabeça e
andando em círculos.
Olhei
no relógio e ainda eram nove horas da manhã, e eu já não tinha mais nada para
fazer. Peguei minhas malas e comecei a colocar as roupas novamente dentro dela.
Fui até a sacada, sentei-me na espreguiçadeira e fiquei colocando minhas ideias
em ordem.
Algumas
horas depois, estava quase tendo uma overdose de tanto tédio, peguei o carro e
fui conhecer a cidade, que era toda charmosa e romântica. Fui ao parque, ao
lago, a igreja, depois parei para almoçar em um restaurante local. Mais tarde
voltei para o hotel e caí em tentação em ligar para Malu.
-Eu
vou matar você Alice! Eu entendo que você queira se isolar, dar um tempo, mas
achei que pelo menos eu saberia.
Eu
sorri por dentro, essa era a Malu que eu conhecia e da qual estava morrendo de
saudades.
-Oh,
minha amiga, queria tanto que você estivesse comigo.
-Alice,
me fala, como você está.
-Malu,
eu... eu nem sei o que dizer, não sei o que pensar, estou muito confusa.
-O
João Pedro está aqui.
Senti
minhas pernas ficarem bambas.
-Mas
fica tranquila que eu estou no quarto com a Mariah.
-E
como ele está?
-Péssimo,
acredita que chegou até a me dar pena dele, sim, porque eu estava com muito
ódio, mas depois que eu vi a situação dele hoje, senti pena.
Fechei
os olhos, tentando imaginá-lo.
-O
Bruno foi até lá ontem pela manhã, assim que você saiu ele ligou desesperado;
parece que a fulana ligou para ele, então quando ele viu que era ela ele
arremessou o celular e o destruiu por completo. O Bruno tentou acalmá-lo,
dizendo que a sua saída era provisória, que tudo voltaria ao normal, mas o João
acha que pelo o modo que você saiu, foi definitivo.
-Malu,
eu queria dar uma guinada em minha vida, queria começar pelo meu casamento, mas
depois do que houve, eu não ia conseguir, e no fundo eu sabia que não pararia
por aí, tanto que ontem pela manhã eu vi duas mensagens que ela mandou para o
João, e deduzi que seria um inferno. Por isso decidi me afastar e tentar
recomeçar, mas dessa vez sem o João Pedro. Mas está sendo tão difícil, é como
se.... Eu suspirei tentando encontrar as melhores palavras. –Eu não sei se vou
me encaixar em uma nova rotina, em uma vida diferente, me sinto perdida, sem
saber onde ir, sem saber o que fazer, e as horas não passam.
-Alice,
eu imagino que não deve estar sendo nada fácil, e também nem sei o que lhe
aconselhar, porque sinceramente eu não sei o que faria em seu lugar. Não é
justo aceitar o que aconteceu, mas será que é certo entregá-lo de bandeja para
um oportunista? Porque ela o conheceu, viu que ele estava visivelmente triste,
com problemas, jogou uma conversa nele e ele foi caindo. Viu que o cara é
bonito, tem dinheiro e estava totalmente carente, então ela deu o bote. E você
o deixando sozinho, é como oferecer carne aos leões.
Eu
não tinha pensado naquela possibilidade. Realmente o João enchia os olhos de
qualquer mulher, em diferentes aspectos.
-É
amiga, você acabou de me deixar ainda mais confusa.
-Aiii
não, eu não quero lhe influenciar. Essa decisão só cabe exclusivamente a você.
Mas eu espero que você pelo menos tenha escolhido um lugar badaladíssimo para
ter esse “tempo”, escolheu, não é?
Eu
ri.
-Não,
pelo amor de Deus, que foi essa risada, tenho até medo da sua escolha.
-Você
me conhece, um lugar badaladíssimo seria a minha escolha?
-Não!
Não vai me dizer que você que acabou de romper um casamento, temporariamente ou
definitivamente, eu não sei, e escolheu um lugar pacato e nostálgico para dar
ainda mais ênfase em sua tristeza.
-Eu
diria, tranquilo e acolhedor.
-Aí
Alice, você me decepciona amiga, se você estivesse em um lugar agitado você com
certeza não me ligaria toda deprimida.
Eu
suspirei concordando.
-Talvez
eu precise de um pouco de mais agito mesmo, mas calma, eu chego lá.
-Espero,
amiga. E quanto ao João, estarei de olhos grudados nele, qualquer coisa eu
aviso você. E vê se atende pelo menos minha ligação sua vaca.
Ri
ao ouvir o elogio da minha melhor amiga.
-Amo
você! Falei.
-Eu
amo você, e se cuida.
O
João Pedro na casa da Malu. Fiquei imaginando que para ele estar na casa dela
em pleno domingo, é porque ele estava realmente muito mal, pois aos domingos,
João queria apenas relaxar e ficar quieto em casa como de costume.
No
outro dia, a primeira coisa que eu fiz após chegar da minha corrida, foi ligar
para minha editora chefe da revista, a Fabi.
-Oi
Alice, quanto tempo, como você está?
-Oi
Fabi, estou melhor, você acaba aprendendo a lidar com a própria dor.
-Minha
amiga, eu sei bem como se sente.
-É
Fabi, eu sabia que você me entenderia. Mas Fabi, depois de todos esses meses,
decidi que preciso voltar a trabalhar, por isso resolvi te ligar. Você ainda
tem um emprego para mim?
-Olha,
Alice, a diretoria toda foi mexida, alguns editores foram dispensados e novos
foram contratados, então eu não sei se eles aceitariam ter você em nossa equipe
nas suas condições, a não ser que você volte a trabalhar aqui com a gente
fisicamente.
-Fabi,
o pior é que outras coisas aconteceram, eu e o João Pedro estamos passando por
uma situação complicada em nosso casamento, e eu precisei sair da cidade, por
isso que nesse momento, eu teria que continuar trabalhando à distância. Mas
você sabe que mesmo nas minhas condições, sempre entreguei meu trabalho antes
do prazo pedido.
-Claro
que eu sei. Mas acontece que agora não depende só de mim, mas eu vou ver o que
eu posso fazer por você, pode ter certeza que no que depender de mim você está
dentro.
Eu
sorri.
-Obrigada,
Fabi. Eu conto com sua ajuda. Eu vou dar a você o número do hotel que eu estou,
e você me liga, pois, meu celular fica desligado quase o tempo todo.
-Assim
que eu tiver uma posição, eu ligo para você, pode ficar tranquila.
Passei
o número do hotel à Fabi, que era além de minha chefe, uma ótima amiga, que a
alguns anos atrás, ela e a sua companheira perderam uma filha com meses de
idade por motivo de doença, por isso que ela sabia o tamanho da minha dor.
A
falta de Pedro era algo indescritível e eu sabia que eu nunca me acostumaria a
ficar sem ele.
Aos
poucos você começa a aprender a lidar com a saudade, com a falta, mas cada vez
que eu colocava a cabeça no travesseiro era nele que eu pensava em primeiro
lugar. Todos os lugares que eu ia, imaginava o quanto iria gostar daquele
lugar, ou não iria gostar. É como eu disse, você aprende a lidar com a dor, mas
nunca deixará de senti-la.
16
André
Depois do banho, desci
para tomar café da manhã, e novamente encontrei o tal homem do dia anterior,
que assim como no dia anterior, estava tomando seu café da manhã, ele era
atraente o suficiente para chamar a atenção de todos os olhares femininos que
passavam por ele.
Deixei
a chave do meu carro, juntamente com meu celular sobre uma mesa ao lado da
janela e fui até o buffet me servir. Decidi começar pelas frutas, já que minha
vida estava entrando em uma nova fase, era ideal começar a me alimentar de
forma mais saudável.
Quando
estava me servindo com alguns pedaços de mamão, o senhor olhos azuis parou ao
meu lado, segurando um prato vazio.
-Dizem
que não se acha frutas por aí, como essas que eles servem aqui.
Eu
o olhei desconfiada.
-Sério?
E qual o segredo delas?
-Elas
são totalmente livres de agrotóxicos e a maioria delas são produzidas
especialmente para uso do hotel e de um café bar aqui perto.
Eu
não sabia se ele estava querendo ser simpático, ou se fazia propaganda das
frutas que ele produzia, ou se estava me paquerando.
-Experimente
esse morango. Disse ele, espetando uma das metades de morango que estavam em
seu prato.
Fiquei
ruborizada e totalmente sem ação. Abri minha boca e ele enfiou o morango e eu o
mordi em seguida. Era realmente doce, macio e parecia leve. Realmente diferente
dos que eu costumava comprar em Curitiba.
-Humm,
é bem gostoso, bem diferente dos que eu costumo comprar.
Ele
abriu um sorriso, e comeu o pedaço do morango que havia sobrado no garfo. Eu em
seguida, peguei um guardanapo de papel e levei-o até a boca, para o caso de
haver algum vestígio de morango em meus lábios.
Fiquei
tão sem graça que adicionei mais morangos em meu prato e em seguida servi-me de
suco de laranja e fui até a mesa.
O
senhor olhos azuis foi até a mesa dele, mas eu não fiquei olhando, segundos
depois ele estava em frente minha mesa, segurando seu prato de frutas com uma
meleca em cima, que eu deduzi ser mel com aveia.
-Posso?
-Hum,
claro, fica à vontade.
Então
ele se sentou, colocando o celular sobre a mesa.
-Você
provavelmente deve ser o rapaz das frutas, acertei?
Ele
sorriu de forma espontânea.
-Não,
definitivamente não.
-E
você deve ser modelo fotográfica, acertei?
Eu
quase me engasguei com meu suco de laranja.
-Nossa,
acertou em cheio.
Ele
levantou as sobrancelhas e sorriu. Eu não sabia o porquê estava querendo
parecer engraçada, talvez era uma forma para esconder meu nervosismo.
-E
você está gostando da cidade? É sua primeira vez aqui, ou veio por causa da
festa?
-É
a minha primeira vez, na verdade eu cheguei aqui por acaso, mas estou gostando
sim, e que festa é essa que você está falando?
Quando
ele ia responder, o celular dele tocou. Eu disfarcei e mordi um pedaço de
mamão, olhando para o jardim através da janela.
-Oi
Silvinha, bom dia! Sério? Isso é ótimo, avise-o que chegarei por volta das
treze horas.
Ele
fez uma pausa.
-Está
certo, e se precisar de algo me ligue. Tchau, obrigado.
O
senhor olhos azuis colocou o celular sobre a mesa.
-Desculpa,
mas era importante.
-Não,
tudo bem.
-Então
essa semana está sendo realizada uma festa aqui na cidade, é uma feira com
eventos, diversas atrações, vem gente do país inteiro prestigiar, então logo
mais isso aqui assim como todos os outros hotéis, restaurantes e bares da
cidade estarão lotados.
-Sério?
Eu não sabia mesmo.
-É
bem legal, se tiver um tempo essa semana, dê uma passada de lá, você vai
gostar. Mas a cidade também tem outras coisas legais para conhecer, próximo da
cidade têm inúmeras cachoeiras que são verdadeiros espetáculos.
Eu
sorri maliciosamente.
-Então
você é guia turístico, acertei dessa vez?
Ele
riu alto dessa vez.
-Não,
bem longe disso. Aliás, eu sou o André. Ele disse estendendo-me a mão.
-Eu
sou a Alice. Disse apertando a mão dele.
-Do
país das maravilhas?
Ao
ouvir essas palavras, instantaneamente senti meu coração apertado, me fazendo
me lembrar do João Pedro. Meu rosto possivelmente mudou de expressão no mesmo
instante.
Nesse
momento, um dos garçons aproximou de nossa mesa.
-Com
licença. Ele disse olhando para mim e em seguida para André. André o fornecedor
está aí, trouxe tudo que você pediu e umas coisas que a Silvinha pediu, você
quer ir até lá conferir?
-Humm,
que bom. Mas pode dispensá-lo que eu ainda vou demorar um pouco por aqui, assim
que terminar eu confiro tudo.
O
garçom concordou, meneando a cabeça.
-Está
certo, eu digo a ele. Com licença.
-Então
você é o homem que compra as frutas?
Ele
balançou a cabeça concordando.
-É,
de certa forma você está certa, eu sou o proprietário do hotel.
Eu
concordei enquanto mastigava meu morango.
-Humm,
é bom saber, pois o banheiro do meu quarto está com um grande vazamento, e eu
não sabia a quem recorrer.
Ele
me olhou incrédulo, e eu comecei a rir.
-Não,
é brincadeira. Aliás, meus parabéns, esse hotel é realmente lindo, eu amei.
André
sorriu.
-Fico
feliz em agradá-la, Alice.
Ficamos
em silêncio por alguns instantes. Eu tomei outro gole do meu suco e percebi
André me olhando com seus olhos azuis. Um frio percorreu todo meu corpo.
-Você
disse que está aqui por acaso, como assim?
Eu
sorri timidamente.
-Eu
na verdade não sabia para onde ir, sabe quando você chega naquela fase da vida
em que tudo parece estar de ponta cabeça? Eu estou me sentindo exatamente
assim, então resolvi sair por aí, atrás de um pouco de sossego.
Eu
sorri lembrando-me do porquê cheguei a São Joaquim.
-Vou
vai rir, mas eu parei em um posto de gasolina e um senhor me atendeu
perguntando-me para onde eu estava indo e eu o perguntei o que ele me sugeria,
como eu queria tranquilidade e sossego ele me indicou São Joaquim, e aqui estou
eu.
André
me observou como se tentasse me desvendar.
-Eu
preciso conhecer esse frentista para agradecê-lo.
Senti
o sangue aquecer todo meu rosto.
-Com
isso você ganhou mais uma hospede. Disse fingindo não entender.
-Pois
é. Ele disse sorrindo e desviando o olhar.
-Bom,
eu preciso dar uma corrida até o centro da cidade, preciso resolver algumas
coisas. Eu disse olhando no relógio.
-Eu
também preciso ir resolver umas coisas, mas muito obrigada pela companhia Alice
e foi um prazer conhecê-la.
Eu
sorri.
-Obrigada
você pela companhia André, e o prazer foi todo meu.
Nos
levantamos ao mesmo tempo. André me acompanhou até a porta do restaurante.
-Bom
então, até mais. Eu falei tentando não parecer tímida.
-Até
mais. Ele respondeu dando-me um beijo no rosto.
Senti
minhas pernas bambas, seu cheiro me lembrava do perfume de João Pedro.
Quando
estava saindo, ele veio até mim.
-Alice,
tem um café-bar aqui perto, é um lugar bem bacana, e hoje à noite vai ter uma
banda da região, toca um pouco de rock dos anos oitenta e blues, aparece lá,
vai ser muito bom.
-Eu
vou ver, mas qualquer coisa eu vou sim, onde fica?
André
tirou um cartão do bolso e me entregou. Eu peguei o cartão e vi que era o café
onde eu havia ido.
-Ah,
eu conheço, estive lá ontem, assim que eu cheguei. –Obrigada André. Eu disse
sorrindo e saindo em seguida.
Estava
me sentindo muito estranha, era a primeira vez em anos que me senti paquerada
por outra pessoa que não fosse o João Pedro, e para ser sincera, achei muito
bom, pelo menos fez com que eu me sentisse melhor. Fui até uma agência do meu
banco e fiz um saque, para o caso de algum imprevisto, em seguida comprei um
chip novo para meu celular. Parei uma imobiliária e me informei sobre alguns
chalés par alugar, mas nenhum deles me interessou, então a atendente me deu o
número de alguns contatos. Depois de andar pelo centro da cidade, fui até uma
praça, vi alguns garotos jogando bola, e me sentei para observá-los.
Eram
meninos em torno dos oito anos, todos tão cheios de vida, sorrindo, brincando.
Era impossível não me lembrar do Pedro, que gostava tanto de brincar de bola
com o pai.
Às vezes a revolta batia forte, pois um menino
tão lindo, tão puro, educado, saudável; ter ido embora tão cedo, sem ter tido a
chance de conhecer tanta coisa, de viver mais, de ser independente, de ter uma
namorada, de fazer uma faculdade, de ter seu próprio carro. Enfim, Pedro só
estava no comecinho da vida e me foi arrancado de uma forma tão violenta, tão
brutal. Eu tentava não ficar revoltada, mas às vezes era impossível, era difícil
de entender e aceitar.
Vi
que algumas mães chegaram para buscar suas crianças, algumas delas abraçavam
seus filhos, outras não. Talvez se elas imaginassem como era a dor de nunca
mais poder abraçar um filho, elas nunca mais os deixariam ou os buscariam sem
um grande beijo e um abraço apertado. Eu daria tudo para poder abraçar e beijar
Pedro, pelo menos mais uma vez na minha vida.
Quando
todas as crianças foram embora eu me levantei, tirei qualquer vestígio de grama
que estava em minha saia e voltei para o hotel. Assim que cheguei no hotel, fui
informada que Fabi havia me ligado, subi para meu quarto e liguei imediatamente
de volta para ela.
-Fabi,
é Alice.
-Oi
minha querida, é o seguinte, conversei com o pessoal e na próxima semana,
haverá um congresso em Florianópolis para os editores da revista. Todos
precisaram participar, pois os informará sobre algumas mudanças e algumas
novidades para a revista, então se você puder estar participando, o emprego é
seu.
Eu
vibrei de felicidade.
-Fabi,
participarei com certeza.
Ela
suspirou aliviada.
-Que
bom Alice, fico feliz. Eu vou te mandar um e-mail, lhe passando todas as
informações, horários e programações do congresso, daqui alguns minutos pode
acessar seu e-mail para conferir e qualquer dúvida me liga.
-Muito
obrigada Fabi, não sei nem o que lhe dizer.
-Alice,
não precisa me agradecer, eu passei por isso também, e sei o quanto é
importante quando se decide retomar a vida e as pessoas ao seu redor lhe
apoiam.
-Fabi,
nunca irei me esquecer do que está fazendo por mim, obrigada por tudo, e vejo
você no congresso.
-Até
o congresso, e seja bem-vinda de volta! Beijos amiga e se cuida.
Desliguei
o telefone, estava me sentindo radiante, as coisas pareciam estar começando a
se encaixarem. Sentei-me um pouco na espreguiçadeira observando a paisagem
linda que havia ao redor do hotel. Fechei os olhos para relaxar, e foi como se
uma luz se acendesse dentro da minha cabeça com uma nova história de amor. Eu
imediatamente peguei uma água mineral, bebendo quase meia garrafa, sentei-me em
frente ao meu notebook e comecei a rasurar um novo romance.
Sem
que eu percebesse, passei mais de cinco horas digitando. Só parei porque me
lembrei do e-mail da Fabi com as instruções para o congresso. Então salvei a
minha mais nova história e em seguida fui verificar minha caixa de e-mail.
O
e-mail da Fabi já estava lá, com todos os dados que eu precisava. Data, hora,
local, hotel que iríamos ficar, programação, enfim, meu itinerário completo.
Seria na próxima semana, mais exatamente na terça-feira, então era bom que eu
saísse na segunda-feira de São Joaquim, dormisse em Florianópolis, para na
terça-feira, oito horas da manhã começar minhas palestras.
Havia
dezenas de e-mails de João Pedro, e eu nem imaginava. Mas só de ver o nome dele
em minha caixa de entrada, sentia meu coração mais acelerado que o normal.
Abri
o primeiro deles, que foi no sábado.
Alice, espero que
um dia você possa me perdoar e voltar para mim. Saiba que ter você em meus
braços na noite passada, foi sem dúvida a melhor coisa que me aconteceu nos
últimos meses. Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida.
Amo você!
JP
Alice, estou
ficando maluco nessa casa sem você. Já procurei você por toda a cidade! Pelo
menos me manda uma mensagem dizendo que está tudo bem, senão vou pirar.
Destruí meu
celular e prometo que nunca mais voltarei naquele bar, sem que seja ao seu
lado. E prometo nunca mais falar com aquela pessoa, nunca, nunca mais.
Eu amo você! João
Pedro.
Eu
suspirei, pois, eu sabia que no fundo, João Pedro também estava sofrendo. Abri
a próxima mensagem.
Alice, sua mãe me
ligou dizendo que você está bem. Fico mais aliviado, mas ainda preciso falar
com você! Por favor, não me castigue ainda mais.
Amo você, JP.
Eu
ri sozinha, sabia que minha mãe iria ligar para o João no mesmo instante que eu
desliguei o telefone.
Então
abri a próxima, que foi no domingo de manhã.
Alice, em toda a
minha vida, durante esses trinta e três anos, tive duas noites que foram as
piores da minha vida. A primeira delas foi quando uma parte de mim se foi,
junto com nosso filho, achei que não fosse suportar tamanha dor. A segunda pior
noite foi ontem, sem você aqui, meu mundo não tem mais sentido, o resto que
sobrou de mim, foi embora com você! A dor de não saber como você está, o que
você está fazendo e onde você está chega a ser desumana.
Por favor, me dá
uma chance de provar que tudo ficará bem outra vez! Amo você!
JP
A
próxima mensagem foi no domingo à noite. Eu já estava com os olhos encharcados
de lágrimas.
Hoje eu passei o
dia na casa do Bruno e da Malu.
Não sei o que é
pior, ficar aqui sem você, ou ficar com eles durante um dia todo, só falando de
você, só pensando em você e sem saber o que você vai fazer em relação a nós
dois.
Sinto sua falta.
Amo você.
JP
Nesse
momento, eu já estava chorando sem parar, levantei-me e fiquei andando de um
lado para o outro, estava arrasada. Fui desligar o notebook, mas decidi ler
apenas mais um e-mail.
Três dias sem
você, e quer saber? A dor só tende a aumentar.
Hoje fui até o
orfanato onde você doou os brinquedos do nosso filho. Reconheci imediatamente
alguns brinquedos nas mãos dos pequenos, além das roupas que alguns dos
garotinhos estavam usando. Foi estranho ver alguém vestindo uma camiseta do
Pedro, fiquei um pouco em choque no começo, mas depois, tive uma sensação tão
boa, uma paz invadiu meu peito, que era como se eu pudesse senti-lo perto de
mim.
Estou no
escritório agora, mas não consigo esquecer aquela sensação.
Só queria que
soubesse!
Ah, vou sair do
escritório e vou direto para a nossa casa! Preciso de você lá, ao meu lado!
Amo Você Alice.
João Pedro.
Esse
foi sem dúvida o e-mail mais lindo que eu recebi em toda a minha vida. Então
não resisti e mandei um e-mail para João.
João Pedro, estou
sentada nesse exato momento, de frente para meu notebook onde eu acabei de ler
alguns e-mails seu. Confesso que não sabia da existência deles, pois estava
desconectada com o mundo.
Quer saber? Minhas
lágrimas não param de rolar.
Fiquei muito
emocionada com o e-mail sobre o orfanato, foi sem dúvida lindo, me deixou sem
palavras. Eu também fiquei confusa quando vi as crianças brincando com as
coisinhas do Pedro, cheguei até a sentir ciúmes no começo, mas depois, ao
vê-los tão felizes, percebi que havia feito a melhor coisa.
Tenho certeza que
Pedro estava ao seu lado, por isso a sensação de paz que você teve!
Ufaaa, é estranho,
não é? Eu e você tão longe e ao mesmo tempo tão perto em pensamento.
Bom, mas
respondendo suas perguntas, eu estou bem! Estou em um lugar muito bonito,
tranquilo, do jeito que eu gosto. Ah, e hoje tive uma notícia ótima, estou de
volta ao trabalho, e por falar nisso, trabalhei à tarde toda e estou cheia de
novas ideias.
Quanto a ir direto
para casa, se fosse há semana que você tivesse tido essa atitude, provavelmente
essa troca de e-mails não existiria. Mas enfim, não posso colocar a culpa
somente em você, eu também tive a minha parcela de culpa ultimamente. Espero
que você fique bem e que pare de beber, pois isso também foi um dos fatores,
aliás, foi o que te levou a fazer o que fez.
Saiba que apesar
de tudo, sinto sua falta também!
Alice
Li,
reli, e não sabia se enviava, mas depois de alguns minutos acabei enviando.
Levantei-me e fui tomar um banho, já passava das oito horas da noite, e eu
estava morrendo de fome, pois nem me lembrei sequer de almoçar.
Fiquei
me ensaboando e lembrando do meu último banho com João que foi sensacional
mesmo após a decepção que tive, por causa da vadia do bar.
17
Gran Reserva 890
Após o banho, comecei a
passar creme em meu corpo, me decidindo se tomava uma sopa ou saía para comer
alguma coisa de diferente. Peguei minhas roupas que estavam espalhadas no
banheiro, pois no dia seguinte, a camareira ia buscá-las para lavar. Verifiquei
os bolsos para ver se não havia esquecido nada, e então encontrei o cartão que
André me deu, do Café Bar. Eu sorri por dentro, e minha dúvida entre a sopa e
sair sumiu, então, optei por sair.
Sequei
meus cabelos. Coloquei uma saia justinha ao corpo, toda bordada de preto e
dourado, uma camisetinha branca de malha, por cima uma jaquetinha preta, estava
em dúvida entre scarpin ou sandália, mas optei pelas sandálias pretas de salto
alto. Fiz uma maquiagem bem neutra e saí.
Assim
que saí, senti o ar gelado penetrar em minha pele, mas não quis voltar para me
trocar. Quando eu cheguei no café, era de fato o que eu havia ido no sábado, e
mesmo sendo uma segunda-feira havia fila para entrar, na qual eu fiquei pelo
menos uns dez minutos. Quando entrei, o Café que era bem espaçoso estava
lotado.
-Você
tem reserva? Perguntou-me uma garçonete.
-Humm,
sinceramente não. Respondi.
-Olha,
eu sinto muito, mas estamos lotados, e só temos mais algumas mesas que estão
reservadas, se você não se importar de ficar na mesa bistrô pelo menos por
enquanto, até eu ver o que posso fazer por você.
-Não,
claro, sem problemas. Eu disse elevando a voz, porque a banda já estava tocando
uma música do Led Zeppelin que eu adorava.
Então
eu vi André vindo em minha direção. Ele vestia calça jeans escura e camisa
preta, com as mangas dobradas, deixando a amostra seu relógio e uma pulseira de
couro. Quando ele chegou bem perto de mim, uma garota que estava sentada, fez
um pedido a ele, que anotou em um bloco de papel, enquanto me fez sinal para
que eu esperasse. Alguns instantes depois, ele estava bem à minha frente.
-Achei
que não viria mais. Ele me disse dando-me um lindo sorriso. –Vem, eu reservei
uma mesa para você. Ele disse me guiando.
A
atendente olhou para mim sem entender e foi junto comigo. Paramos em uma mesa,
perto da janela, com uma visão excelente para os meninos que tocavam, embora
não tão perto, por causa do som; diria que era um lugar privilegiado.
-André,
mas ela me disse que não fez reserva. Disse a atendente.
André
olhou sério para ela e retrucou.
-Eu
fiz a reserva para ela.
-Ah,
sim, me desculpa, com licença. Disse a moça que ficou envergonhada, e saiu em
seguida.
-Aqui
está! Disse André afastando-me a cadeira para que eu me sentasse.
-Obrigada!
Falei tentando descobrir de fato o que ele fazia naquele café.
Provavelmente
também deve ser dele. Pensei comigo mesma.
-Alice,
eu quero que se sinta à vontade, esta noite você é minha convidada de honra.
Devo
ter ficado vermelha feito pimenta.
-Fico
lisonjeada. Aliás parabéns mais uma vez, esse lugar é incrível, e o mais
incrível é como que a atmosfera dele muda do dia para a noite! Nem parece o
mesmo lugar.
De
fato, pois o café estava com uma iluminação difusa e aconchegante, o que tornou
o lugar ainda mais sofisticado.
André
parecia satisfeito e feliz ao me ver, o que me deixava cada vez mais sem jeito
perto dele.
-É,
realmente é bem legal aqui, e fico feliz por você ter gostado. Bom, mas o que
você vai beber?
-Eu
não sei, o que me sugere?
-Depende
do que tipo de bebida você gosta, eu diria que um bom vinho combina mais com
você.
-Eu
vou de vinho então.
-Eu
vou buscar a carta de vinhos.
-Não!
Vou deixar que você escolha.
André
sorriu.
-Deixa
comigo. Ele disse saindo em seguida.
Me
sentia totalmente estranha por estar em um lugar totalmente novo, e com um cara
que eu nunca imaginei conhecer me cortejando.
Fiquei
observando André de longe. Ele se dividia dando atenção aos clientes, alguns o
paravam para cumprimentá-lo, outros o paravam para fazer algum pedido e ele
ainda nem tinha conseguido chegar ao bar. Fiquei olhando para a banda e
imaginando Malu ali comigo e fazendo os típicos comentários dela em relação ao
André.
Uma
mulher parou André, e ele conversou com ela sendo todo simpático, mas olhava
para mim de vez em quando. Depois uma funcionária o chamou e ele foi ver o que
ela queria, ou seja, ele não teria muito tempo para ficar de conversa comigo. O
que na verdade me deixava mais aliviada.
Então
ele trouxe uma garrafa de Gran Reserva 890 com duas taças.
-Posso
lhe fazer companhia? Indagou.
-Claro!
Respondi sentindo-me totalmente sem graça.
André
sentou-se de frente para mim, abriu a garrafa de vinho e colocou um pouco em
cada taça, entregando-me uma.
-Tim
tim. Ele disse batendo em minha taça.
Nós
bebemos nossos vinhos em seguida, que era encorpado e intenso.
-Hum,
e por que vinho combina comigo?
André
me olhou com olhar investigativo.
-Porque
você é uma mulher moderna, elegante, requintada.
-Uau,
obrigada pelos elogios, mas de vez em quando eu também chuto o balde, tomo um
chope, cerveja, uísque.
-E
quem não chuta? Ele falou com olhar impetuoso.
-O
hotel e o café. Você toca sozinho, ou alguém lhe ajuda?
André
passou a mão pelos cabelos claros, olhou ao redor e em seguida penetrou seus
olhos azuis feito céu nos meus.
-O
hotel é o meu negócio, meu sei lá, ganha pão. Mas esse café é a minha paixão.
Sempre tive vontade de ter algo do gênero, queria um lugar onde as pessoas
pudessem sair à noite, mas não para jantar, apenas para beber, beliscar alguma
coisa, ouvir boa música, um lugar que fosse aconchegante e moderno ao mesmo
tempo. Já a minha esposa queria um lugar onde as pessoas pudessem sentar-se
numa tarde fria e pudesse degustar um bom achocolatado, ou cappuccino, mas sem
ser em uma padaria qualquer, um lugar como esses cafés em Paris. Então
resolvemos unir as duas ideias, e deu certo. Hoje meu público alvo engloba
todas as idades, e o que eu mais gosto, é que na parte da noite, os
frequentadores do bar são pessoas de vinte e poucos anos para cima, sem muito
agito, muito barulho. São pessoas mais sérias, e a grande maioria vem das
cidades vizinhas, o que diversifica muito o público.
Que
ótimo! Eu estava sentada, tomando um vinho com um homem casado. Sério mesmo
Alice? Pensei comigo mesma.
-Muito
bem, você e sua esposa acertaram em cheio. Eu disse bebericando meu vinho.
-Sim,
eu diria que sim. Ele respondeu.
Um
garçom passou ao nosso lado e André o chamou pedindo-lhe algo que eu não
consegui ouvir. Talvez fosse a esposa dele para que eu a conhecesse.
Os
meninos estavam tocando Pink Floyd, o que me lembrou de João Pedro, que adorava
a banda. O garçom saiu em seguida e André novamente olhou em minha direção
enquanto bebia seu vinho.
-E
você Alice, além de modelo faz o quê?
Eu
quase soltei uma gargalhada.
-Não,
aliás obrigada pelo elogio de hoje cedo, mas eu não sou modelo, quem me dera.
Eu disse revirando os olhos.
-Sério?
Eu jurava que sim. Aliás que o Mauro, o recepcionista do hotel me disse que
ligaram para você de uma revista, hoje após o almoço.
-Sim,
é verdade, mas eu sou escritora. Na revista que eu trabalho eu tenho uma
coluna, escrevo para as mulheres, sobre relacionamentos, dia a dia, filhos,
trabalho, sexo, vícios, enfim faço textos que as instigam a pensar nesses
determinados fatos e que estão presentes em nosso dia a dia. É uma revista
semanal então tenho que agir rápido, estar sempre cheia de ideias e
pesquisando. E escrevo romances também, já lancei dois livros e comecei o
terceiro.
-Nossa,
fiquei surpreso agora. E para qual revista você trabalha?
-“
Vaidosas”.
-Sim,
eu conheço. Ele falou surpreso. Fico lisonjeado em estar sentado tomando um
vinho com uma escritora famosa.
-Não,
imagina, famosa nada, mas eu amo o que eu faço. Eu amo escrever, é como se eu
emprestasse minhas mãos para minha alma.
-Eu
admiro, é um dom. André disse dando outro gole em seu vinho.
Eu
queria saber mais sobre a esposa, mas não sabia como abordar o tema, olhei para
a mão dele, mas não havia sinal de aliança. Olhei para a minha mão e a minha
marca era gritante
O
garçom chegou trazendo uma tábua de queijos e embutidos.
-Mas
e vocês moram onde? No hotel mesmo? Eu perguntei sondando.
A
banda a essa altura tocava Eagles, Hotel California.
E
mais uma vez me lembrei do João Pedro.
-Eu!
Ele falou sem rodeios.
Eu
o olhei intrigada, então ele pegou um prato pequeno e colocou uma porção de
queijo e outra de embutidos e me entregou, em seguida pegou outro prato.
-A
Valentina, minha esposa, faleceu há quatro anos. Ele falou enquanto se servia.
-Ah,
eu sinto muito, me desculpa.
-Não,
você não sabia, sem problema. Mas ela tinha um problema gravíssimo no coração,
e teve uma noite que ela se deitou para dormir e não acordou mais. Faleceu com
trinta e dois anos.
Eu
o olhei sem saber o que dizer, então ele espetou um queijo e o colocou em sua
boca.
-Nossa
André, que terrível, nem sei o que lhe dizer.
-O
tempo acaba amenizando as dores, elas passam de insuportáveis para toleráveis,
então você acaba se acostumando a elas.
Eu
olhei pela janela sentindo uma grande tristeza no peito, sabendo que na verdade
ele estava coberto de razão.
-É
eu sei bem o que é perder alguém que a gente ama.
André
me olhou compassivo.
-Por
quê? Você perdeu alguém próximo também?
Eu
beberiquei meu vinho novamente.
-Sim,
eu... (fiz uma pausa) perdi meu filho de quatro anos, há alguns meses. É muito
recente ainda, e confesso que ainda não deu tempo de amenizar a dor.
-Nossa
Alice, eu nem imaginava, me desculpe por ter tocado nesse assunto.
-Não,
é como você mesmo disse, você acaba a se acostumando com a dor. Quando o Pedro
faleceu, parte de mim foi junto com ele, levei meses para me recuperar, aliás
agora que eu estou começando a juntar meus pedaços. Falei com um sorriso triste
nos lábios. –Mas é bem difícil recomeçar. Eu me sinto perdida. É bem
complicado.
-É,
você olha a pessoa e nem imagina as dores que elas carregam. Eu jurava que você
era uma pessoa totalmente livre de problemas, de sofrimentos, enfim...
Os
meninos começaram a dedilhar Nothing Else Mathers do Mettalica.
Senti
um nó se formar em minha garganta e me segurei para não desabar na frente de um
estranho.
-Você
estava redondamente enganado. Estou passando pela maior tempestade de problemas
de toda a minha vida, por isso vim parar aqui. Graças ao frentista. Eu disse
dando risada da minha própria desgraça.
-Um
brinde ao frentista. André disse erguendo a taça.
E
nós brindamos em seguida, e eu tomei outro gole de vinho.
-Adorei
esses meninos. São excelentes. Falei convicta.
-Eles
são realmente muito bons. Amanhã vem um garoto que toca apenas rock nacional, e
no dia seguinte vem uma garota da região que toca Alanis Morissete,
Cramberries, Janis Joplin.
-Sério?
Não posso perder então. Eu amo Alanis, amo Janis Joplin, escutei minha
adolescência inteira. Eu sempre
gostei das músicas mais antigas, Led Zeppelin, Janis, Rolling Stones, Doors,
nossa eu amava Doors.
-Eu também, sabia todas. Ele disse mastigando
outro queijo.
-Nós desviamos o assunto, mas você não me disse
onde mora. Insisti.
-Eu na verdade moro em dois lugares. Quando a
Valentina faleceu, minhas filhas (depois eu falo delas para não perder o foco
novamente).
Eu concordei sorrindo.
-Minhas filhas foram morar com os avós, os pais
da Valentina. Eles moram em Porto Alegre, e como lá é tudo mais complexo,
agitado, sei lá, elas preferiram ficar por lá. Na verdade, tudo aqui lembrava
demais a mãe delas, por isso elas preferiram seguir a vida em um lugar
diferente.
-Filhas, que máximo. Quantos anos?
-Uma tem dezoito e a outra vinte.
Eu quase engasguei com o queijo.
-Caramba, com quantos anos você foi pai? Com
nove? Brinquei.
-Oito, na verdade.
-Seu bobo, fala sério. Eu lhe disse tacando-lhe
um sachê de sal.
-Eu engravidei a Valentina quando ela tinha
dezesseis anos e eu tinha dezessete.
-Nossa, apressado você, hein?
Ele sorriu perversamente e passou a mão pelo
cabelo.
-Pois é, quando a cabeça não pensa... –Mas elas
são minha vida, são tudo para mim.
-Qual o nome delas?
-Mirela e Lavínia.
-Lindos, adorei.
André virou a taça de vinho, acabando com o
restinho que estava na taça, servindo-se novamente e completando minha taça.
-Não vou conseguir achar o caminho do hotel desse
jeito.
-Puts, ainda não disse onde eu moro. Ele disse
dando risada.
Eu comecei a rir também, não sabia se era porque
eu estava ficando bêbada ou porque não conseguíamos chegar ao assunto
questionado.
-Pois é, percebi que você está querendo guardar
segredo, então...
-Segredo nenhum, aliás, eu te desafio a ir
conhecer minha casa, quando nós sairmos daqui, topa?
Fiquei estagnada por um momento, sem saber o que
responder. Virei outro gole de vinho para tomar coragem.
-Melhor não. Talvez você seja um maníaco, um
tarado, sei lá.
André ficou sério, cruzando os braços em frente
ao corpo.
-Você acha que estou embebedando você à toa? Está
tudo planejado.
Eu revirei os olhos.
-Saiba que eu ando armada.
-Humm, eu gosto de mulheres precavidas, sabia?
André chamou o garçom pedindo outra garrafa de
vinho.
-Não, mas é sério, eu moro perto daqui, é um
lugar fantástico, e agora não vou lhe dizer onde é. Assim quando você não se
aguentar mais de curiosidade você vai comigo para conhecer. Só conhecer! Ele
disse levantando as mãos.
-Humm, quem sabe um dia desses. Falei tentando
não estender o assunto.
-Na verdade eu vendi minha casa, me trazia
recordações demais, e era grande demais só para mim. E quando eu não estou
nesse lugar que eu quero que você conheça, eu fico no hotel. Eu tenho uma suíte
com algumas coisas, mas é difícil eu ficar por lá.
-É como se você dormisse no trabalho, não é?
-Isso, exatamente isso.
O garçom trouxe outra garrafa de vinho, colocando
sobre nossa mesa.
-Com licença! Ele disse olhando para nós. –André
a Silvinha está precisando de você no caixa.
-Tudo bem, estou indo.
-Com licença. Disse o garçom saindo em seguida.
-Eu vou ver o que ela precisa, mas já volto.
-Ah, sim, fica à vontade. Respondi.
André, um cara louro, cabelos jogados, barba por
fazer, olhos azuis, muito charmoso, extremamente lindo, envolvente e sedutor;
viúvo, com duas filhas, muito, muito sexy, está dando em cima de mim
descaradamente, eu que estou carente e prestes a me divorciar e com o ego
ferido. Humm, isso não vai prestar. Disse comigo mesma.
Ele caminhou até Silvia que estava no caixa,
conversou com ela, e eles riram de algo. Será que estão de mim? Pensei. Então
ele sumiu bar adentro, sem que eu pudesse vê-lo.
A banda estava tocando U2, caramba era
praticamente a trilha sonora minha e do João Pedro. Uma segunda-feira, eu em um
bar, em uma cidade desconhecida, com um cara gato desconhecido flertando
comigo, e eu totalmente sem sentir minhas pernas, pois já estava alta o
suficiente com tanto vinho. Como as coisas mudam de uma semana para outra, há
uma semana eu nunca me imaginaria nessa situação, e agora aqui estou eu. E o
João, como será que ele está? Será que ele está bem? Está se alimentando? Que
saudade dele perto de mim, do cheiro dele, do olhar dele todo cuidadoso, embora
os últimos dias foram terríveis, mas ele sempre me tratou como uma princesa, eu
não podia reclamar. Peguei meu celular e digitei o número da minha casa, quando
eu ia apertar para ligar, André voltou, sentando-se ao meu lado.
-Me desculpa Alice, mas a Silvinha estava sem
troco.
-Oh, sem problemas. Eu disse colocando o celular
sobre a mesa.
-Você sabe que as nossas mãos nos dizem muitas
coisas, não sabe?
-Como assim? Perguntei curiosa.
-Me dê suas mãos. Ele disse estendendo as mãos
sobre a mesa.
Eu sem entender coloquei minhas duas mãos sobre a
mesa, assim como ele pediu. Então ele começou a passar o dedo indicador sentindo
as linhas das palmas das minhas mãos.
-Vejamos, aqui me diz que você tem uma ferida no
coração que ainda não cicatrizou.
-Isso eu te disse.
-Pelo jeito você não tem muitas habilidades
domésticas, pois sua pele é extremamente lisa e macia, sem sinal de marcas ou
calos.
Eu sorri, mas não disse nada.
-Deixa eu ver mais alguma coisa. Ele disse como
se estivesse lendo minha mão.
-Você está profundamente magoada com alguém, é
por isso que resolveu sair de cena.
Eu o olhei intrigada. Será que era tão obvio
assim?
-Provavelmente esse alguém é seu marido, ou
ex-marido. Estou certo? Ele falou me analisando.
Eu retirei minhas mãos das mãos dele.
-O que te leva a pensar sobre isso.
André
olhou-me fixamente, enquanto bebida seu vinho. Eu fiz o mesmo, bebendo o resto
do meu vinho da taça. Então ele imediatamente repôs minha bebida.
-Você tenta
não demonstrar, mas está triste, e é uma tristeza que não tem só a ver com a
perda do seu filho. Tem algo a mais que lhe feriu. É como se você quisesse
provar para si mesma que consegue seguir sozinha, sem essa pessoa ao seu lado,
mas parece que ao mesmo tempo, você se sente totalmente perdida e nostálgica.
-Humm, sério?
Estava me achando tão durona. Eu disse com um sorriso sarcástico.
-Cada música
que começa, é como se a expressão do seu rosto mudasse, parece que te lembra
algo a toda hora.
-Você está
blefando.
-Será? Eu
observei a tristeza que você ficou olhando o seu celular, como se quisesse
fazer algo, mas sentindo-se totalmente sem coragem.
-Agora você
está blefando.
Desgraçado,
como ele sabia de tudo isso. Eu imediatamente dei outro gole do meu vinho.
-E você
parece nervosa, sentindo-se questionada.
-De maneira
alguma. Eu falei, sentindo minhas pernas bambas, meu coração acelerar.
-E quanto ao
seu ex-marido, eu sei porque observei a marca de aliança tirada recentemente.
Não chegou nem ao menos pegar sol sobre ela.
Eu olhei para
meu dedo e a marca era realmente gritante.
-Isso é
verdade. Eu a tirei do dedo a alguns dias. Na verdade, no sábado para ser mais
exata.
-Depois que o
...
-Não Alice,
não precisa falar. Só fale quando estiver à vontade para falar, eu só falei
porque te achei muito triste. E quer saber? Você não tem que ficar triste, se
tiver vontade de ligar, ligue, se tiver vontade de voltar atrás, volte. Sem se preocupar
com opinião dos outros, mas se tiver vontade de mudar, virar o jogo, então vai
fundo. Mas seja lá o que você quiser fazer, faça, pois, a vida é muito curta
para você ficar se torturando.
-E quando
você não sabe o que fazer?
-Bom, nesse
caso, você precisa ter certeza do que quer, para não meter os pés pelas mãos, e
se arrepender depois.
-Nossa, além
do hotel, e do café você ainda é terapeuta?
-Não. Ele
disse dando um leve sorriso. É que eu não consigo tirar os olhos de você, por
isso captei cada sinal, cada mensagem, cada olhar, cada expressão.
Fiquei
totalmente sem fala com a resposta dele, ficando provavelmente com as bochechas
vermelhas.
-Você está
querendo me fazer com que eu me sinta melhor, e eu lhe agradeço. Mas eu estou
bem, é sério?
-Eu não
elogiei você para fazer você sentir-se melhor. Elogiei porque você é linda,
extremamente linda.
Eu o encarei.
-Você deve
agir assim com todas suas hospedes solitárias, aposto.
André
balançou a cabeça negativamente, olhando para o palco.
-Definitivamente
não. Eu nunca iria ficar me expondo com mulheres diferentes em meu próprio bar.
Você só está aqui, sentada comigo, porque realmente de uma certa forma
inexplicável mexeu comigo.
-André, eu
preciso ir embora, acho que nós já bebemos demais. Mas eu adorei sua companhia.
Eu falei levantando-me em seguida e sentindo-me totalmente zonza.
O bar deu uma
virada, fazendo com que eu quase caísse de volta na cadeira.
-Você está
bem? Ele perguntou me segurando.
-Sim, estou,
só fiquei um pouco tonta, mas já passou.
-Vamos, eu
levo você.
-Não, estou
com meu carro.
-Eu levo você
no seu carro. Eu não vou deixar você dirigir assim.
-É sério,
estou bem. Eu só vou pagar a conta. Eu disse saindo em seguida.
André foi
comigo até o caixa e quando eu fui pegar minha carteira. Ele colocou a mão
sobre a minha.
-Silvinha, eu
vou deixar meu carro aqui, mando alguém vim buscar, ou pego amanhã. Qualquer
coisa me liga.
-Tudo bem
André.
-André eu
prefiro ir sozinha se você não se importar, e que...
-Alice, você
é minha convidada e não posso deixar você voltar assim. Que tipo de homem eu
seria?
Concordei
relutantemente.
Quando
estávamos do lado de fora do bar, senti que o ar gelado perfurou minha pele,
era quase impossível de ficar ali fora de tanto frio.
-André, é
sério, estou bem e posso ir dirigindo.
-Alice, fica
tranquila, eu não vou agarrar você. Só vou dirigir seu carro até o hotel. Só
isso.
-Está bem. Eu
disse entregando-lhe a chave.
O caminho até
o carro foi bem complicado, não estava sentindo minhas pernas direito, por
causa do frio e do vinho.
Fui tentar
entrar no meu Volvo, me desequilibrei e quase caí. André me segurou e me ajudou
a entrar.
-Eu disse que
você ia me embebedar.
Ele riu e foi
para o lado do motorista.
-E agora vou
te levar em um lugar onde ninguém escutará você. Ele disse fazendo cara de
suspense.
Ri sem jeito.
Chegamos ao
hotel, André estacionou me carro na vaga que provavelmente era a dele. Me
ajudou a descer do carro, mas eu já me sentia melhor. Pelo menos conseguia
andar mais facilmente.
-E você? Como
vai embora?
-Eu disse que
tenho um quarto para certas emergências.
-Mas você nem
gosta de dormir aqui. Está vendo, acabei atrapalhando você. Vai com meu carro,
assim não precisa ficar.
-Quem disse
que eu não quero ficar. Ele disse encantadoramente.
Eu sorri e fui
entrando em seguida.
André me
acompanhou até a porta do meu quarto.
-Bom eu fico
por aqui. Eu disse sentindo-me totalmente sem graça.
-E o meu é
logo ali. Ele disse apontando para o último quarto do corredor.
-Eu não sei
nem como lhe agradecer por essa noite, foi excelente.
-Você não
precisa agradecer Alice, foi um prazer acompanhá-la. Ele respondeu todo
sorridente. Você tem certeza que vai ficar bem?
Concordei
balançando a cabeça. André fixou seus olhos nos meus, deixando-me totalmente
desconcertada.
-Bom, se
precisar, estarei logo ali, não hesite em me chamar.
-Mas estou
bem, pode ficar tranquilo.
André
balançou a cabeça e inclinou-se até mim, dando-me um beijo no rosto.
-Boa noite
Alice.
-Boa noite.
Respondi e entrei em seguida.
18
Surpresa no café da manhã
Quando me encarei no espelho assim que entrei em meu quarto, vi uma
mulher totalmente desnorteada, sem saber o que fazer de sua vida, e uma grande
tristeza invadiu meu peito. Era a primeira vez em muito tempo que eu tinha
tomado um porre, e sem o João Pedro, que era o que mais me doía. Deite-me em
minha cama, lembrando-me do desenho que Pedro tinha feito sobre a nossa família
que ele tanto amava, e como se alguém mexesse no fundo da minha ferida, comecei
a chorar desconsoladamente. A família que Pedro tanto amava, estava
dissolvendo-se cada vez mais, e tudo o que eu mais queria naquele momento era
que o tempo voltasse e que pudéssemos ficar juntos os três novamente.
Acabei
pegando no sono, e como em um passe de mágica, nós três estávamos juntos
novamente, brincando na piscina da nossa casa, brincando em nossa cama,
brincando em nosso jardim. Pedro corria em minha direção, me enchendo de beijos
e dizendo que me amava, então via João Pedro nos observando todo orgulhoso e
caminhava em nossa direção e nos abraçava, ficando assim os três bem juntinhos.
Era algo tão real que eu podia sentir o cheiro dos meus dois amores.
Quando
acordei, o sol invadia o quarto, e sentia minha cabeça doer tanto que parecia
querer explodir. Olhei ao redor e me vi sozinha em um quarto estranho. Então,
dei por mim que tudo tinha sido um sonho, e que eu estava sozinha novamente, e
o pior de ressaca. Olhei em meu relógio e passava das nove e meia da manhã. Me
arrastei até o banheiro e quando me vi até me assustei, com os olhos inchados
de tanto chorar da noite passada, olheiras, cara amassada e resto de maquiagem.
Fui tomar um banho e deixei a água cair sobre mim levando todo meu mal-estar.
Quando estava me secando ouvi alguém bater em meu quarto. Me enrolei no roupão
e fui abrir a porta. Era uma camareira com uma bandeja enorme de café da manhã.
-O Sr. André
pediu que lhe entregasse. Disse a moça.
-Ah, muito
obrigada. Respondi sem graça, pegando a bandeja e entrando em seguida.
Fiquei
surpresa com a atitude de André. Coloquei a bandeja de café sobre a mesinha e
notei um bilhete.
Alice fiquei preocupado e senti sua falta no café
da manhã! Espero que esteja bem! Caso precise, coloquei um analgésico para
você!
Tenha um bom dia, André.
Eu me peguei
soltando um sorriso com a surpresa. Peguei a bandeja e me sentei na varanda com
a vista para o bosque. Tomei o analgésico, pois realmente estava precisando e
em seguida me deliciei com o café da manhã que o André me preparou.
Meu celular
tocou e vi que era a Malu, então eu atendi e contei a ela tudo o que havia
acontecido.
-E eu aqui
morrendo de preocupação e você de ressaca em plena terça-feira, porque saiu com
um gato viúvo? Caramba amiga, você me surpreendeu agora.
-Não é bem
assim. O André só está sendo gentil, mas não tem nada a ver.
-Sei, sei. E
lhe mandou até café da manhã em seu quarto, quanto gentileza hein!
Eu ri sem
graça.
-Não, amiga.
Eu só quero que você fique bem, é sério.
Suspirei.
-Malu, ontem
depois de tudo isso, tive uma recaída. Tudo veio à tona, o João, o Pedro; eu
fiquei muito mal, eu não sei se vou conseguir superar tudo isso.
-Claro que
vai Alice. Para você ver como são as coisas, olha para você, me contando sobre
um cara, que você conheceu a alguns dias, e toda entusiasmada. As coisas são
assim, mudanças vem para nos fortalecer às vezes.
-Tomara que
você tenha razão, porque senão, eu não sei o que eu vou fazer. E o João, como
está?
-Alice, ele
está daquele jeito, arrasado, arrependido, com cara de cachorro de caiu da
mudança. Mas fica tranquila, qualquer coisa eu aviso você. Mas me promete que
vai ficar bem?
Eu ri sem
vontade.
-Eu vou
tentar.
-Amo você,
Alice.
Senti minhas
lágrimas rolarem novamente.
-Eu também
amo você, Malu.
Assim que
desliguei o celular, cai na cama novamente chorando com saudades da minha melhor
amiga, com saudades do João Pedro, imaginando como ele estaria naquele momento,
em que ele estava pensando, o que ele estaria fazendo.
Horas depois,
resolvi colocar uma roupa, peguei meu notebook e sai em busca de um lugar
tranquilo para escrever. Fui parar em um parque da cidade, onde sentei-me no
chão e passei algumas horas escrevendo, só parei porque a bateria do meu
notebook estava acabando, então fui até o hotel e me tranquei em meu quarto,
continuando a escrever mais um pouco. No final da tarde, resolvi descer para
usar a piscina e descansar um pouco. A piscina de fora estava muito fria, então
optei em usar a piscina aquecida, que estava divinamente gostosa.
Algum tempo
pedi um suco e o garçom foi me levar. Sentei-me em uma das cadeiras e quando estava
tomando meu suco André apareceu.
-Oi Alice,
tudo bem? Ele disse soltando um meio sorriso e sentando-se ao meu lado.
Fiquei
vermelha por estar apenas de biquíni ao lado dele, mas disfarcei minha
vergonha.
-Tudo bem e
você?
-Estou bem,
mas fiquei preocupado com você, você sumiu hoje pela manhã.
-Eu acabei
perdendo hora, e por falar nisso, muito obrigada pelo café da manhã, estava
delicioso. Eu falei dando-lhe um sorriso. E obrigada pelo analgésico, foi de
extrema serventia.
-Ah, eu
imaginei. Ele disse me observando. A piscina está boa?
-Nossa,
perfeita. Respondi dando um gole do meu suco. Eu passei a tarde toda
escrevendo, precisava dar uma relaxada então vim parar aqui, e confesso que foi
ótimo.
-Fico feliz
que esteja gostando. Ele falou sem desviar o olhar do meu.
Disfarcei
minha inquietação, tomando outro gole do suco.
-Estou
gostando muito. Falei sem hesitar. André olhou para a piscina e abriu um
sorriso.
Em me
levantei também e imediatamente vesti um roupão.
-É eu vou
ficar mais um tempo aqui, depois vou tomar um banho.
-E hoje à
noite, o que você vai fazer?
-Eu não sei
ainda, talvez eu vá na tal festa que você me disse, vamos ver.
-Você vai
gostar, tenho certeza. Bom, preciso ir. Ele disse olhando no relógio.
-André,
obrigada novamente pelo café da manhã, não precisava se preocupar.
-Alice é
claro que eu me preocupo, você é uma pessoa especial, pode ter certeza.
Senti minhas
bochechas esquentarem nesse momento.
-Até mais.
Ele disse dando-me uma piscadela.
-Até mais.
Respondi acanhada.
André saiu em
seguida, me deixando sozinha e totalmente sem jeito. Eu suspirei fundo, tirei
meu roupão novamente e caí na piscina, tentando amenizar o calor o que eu
estava sentindo devido a todo meu constrangimento.
-Caramba
Alice! Disse para mim mesma.
Depois de algum
tempo, outras pessoas estavam chegando para usar a piscina também e como eu já
estava a um bom tempo, resolvi sair. Fui para meu quarto e tomei um banho.
Coloquei uma calça preta bem justa ao corpo com uma blusa preta e branca um
pouco mais comprida e por cima uma jaqueta de couro mais curtinha, deixando
parte da blusa à mostra. Como estava frio, coloquei um cachecol preto por cima
e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo bem alto, calcei minhas botas pretas,
fiz uma maquiagem neutra, porem com os olhos bem marcados, peguei minha bolsa e
saí sem rumo. Depois de alguns minutos dirigindo pela cidade, passei em frente
ao café de André, que estava consideravelmente muito movimentado, mas não
parei, fui parar apenas no estacionamento da festa da cidade. Andei alguns
minutos pela feira e exposição, depois fui até o parque e me sentei vendo as
pessoas que iam e vinham. Fiquei olhando em especial para um carrossel que
estava cheio de crianças que se divertiam muito enquanto passeavam nele, via os
olhares dos pais orgulhosos em ver suas crianças felizes no brinquedo e me
imaginei no lugar deles, paparicando meu Pedro todo sorridente enquanto dava
voltas no carrossel, me lembrei do quanto ele amava ir a parques e eu e o João
Pedro amávamos ainda mais levá-lo e vê-lo tão feliz. Foi como se uma bola de
tênis parasse em minha garganta, senti meu coração apertado novamente e as
lágrimas brotaram em meus olhos. Impulsivamente para não chorar ali no meio de
todo mundo, levantei-me e comecei a andar entre as pessoas decidida a voltar
para o hotel. Após alguns minutos andando a esmo ouvi alguém chamar pelo meu
nome, quando olhei para trás, vi André caminhando apressadamente em minha
direção.
Senti algo
inexplicável naquele momento, fiquei feliz ao ver alguém de conhecido em meio a
tantas pessoas.
-Até que
enfim achei você, estou te procurando já faz um bom tempo. Achei que não lhe
encontraria mais.
-Mas você
veio aqui atrás de mim? Perguntei curiosa.
-Eu vim, quer
dizer, na verdade eu queria convidar você para vir comigo, mas fiquei sem
jeito. Achei que talvez você não aceitasse minha companhia, então como você
disse que possivelmente viria, pensei em lhe fazer uma surpresa.
-E fez. Eu
disse dando-lhe um sorriso. –Na verdade, estava indo embora, esses lugares não
combinam com pessoas sozinhas e deprimidas.
André passou
a mão pelo meu rosto.
-Você não
está sozinha Alice. E eu não quero que fique deprimida.
-Obrigada,
André. É que parques de diversões trazem muitas recordações, e é impossível não
lembrar do Pedro quando eu os vejo, por isso que eu estava indo embora.
-Vem aqui.
Ele disse me abraçando –Eu sei como são essas coisas.
Eu o abracei
e me senti protegida estando nos braços dele.
-Vamos sair
daqui, sei lá, ir jantar em algum lugar?
-Vamos.
Respondi no mesmo instante.
André pegou
em minha mão e começamos a caminhar entre as pessoas de mãos dadas. Quando ele
viu uma barraca de maçãs do amor, ele parou e comprou duas delas, me entregando
uma em seguida.
-Humm, a
quanto tempo não como uma dessas.
-Você não
pode sair daqui sem comer uma, isso é quase que obrigatório. Ele disse dando-me
um sorriso.
Sentamos em
um banco de cimento e ficamos comendo nossas maçãs enquanto conversamos algo
sobre a feira, ele me explicou sobre algumas tradições da festa, sobre as
exposições, sobre os costumes. Na hora de ir embora, fomos até o estacionamento
e quando cheguei lá, olhei ao redor procurando o carro dele.
-Onde está
seu carro?
-O Mauro
ficou com meu carro, ele me trouxe e levou meu carro para o hotel, vim disposto
a encontrar você.
-Mas e se
você não me encontrasse?
-Nesse caso
eu ligaria para ele vir me buscar.
-Você é
louco. Eu disse sorrindo e balançando a cabeça em negação.
-Realmente
estou ficando louco, sabia? Desde que eu conheci você, ando fazendo coisas, das
quais nunca fiz.
Olhei para
ele fingindo não entender.
-Meu carro
está logo ali. Disse saindo em seguida em direção ao meu Volvo.
Assim que
entramos no carro, um silêncio imensurável tomou conta do ambiente. Depois de
alguns minutos dirigindo olhei para ele.
-Bom, eu não
conheço nada aqui, o que você me indica?
André
suspirou, pensando sobre o assunto.
-Comida
japonesa, você gosta?
-Adoro.
Respondi sem hesitar.
-Então vamos
ao Takê, é logo aqui perto, e é excelente.
Eu concordei
e dirigi sendo guiada por ele. Em poucos minutos estávamos estacionando em
frente ao tal restaurante. Entrei no restaurante com o André, sentindo-me um
pouco em jeito, era a segunda noite que jantava na companhia dele, sendo que o
conhecia a apenas dois dias. André escolheu uma mesa perto de uma grande janela
com vista para um jardim todo iluminado. O garçom nos atendeu, fizemos os
pedidos e então ele saiu.
André me
olhou com um sorriso malicioso em seus lábios, que me deixou ainda mais
acanhada. Senti o rubor em meu rosto apenas ao cruzar meu olhar com o dele.
-E hoje você
não trabalha?
-Eu fiquei o
dia todo por lá, então resolvi me dar uma folga esta noite.
O garçom
trouxe nossas bebidas e brindamos em seguida.
-Estou
achando você quieta, está tudo bem?
-Está sim, é
só que é um pouco estranho, eu não sei nem se você tem uma namorada. Você tem?
André sorriu
e em seguida bebericou seu saquê.
-E se eu
tivesse, teria algum problema? Quer dizer, isso incomodaria você?
Mais uma vez
senti o sangue correr em direção ao meu rosto, acho que fui intrusa demais fazendo
tal pergunta.
-Não, sei lá,
não tem nada demais, só estamos conversando. Falei dando um gole em minha
bebida.
-Eu não tenho
ninguém. Eu tive algumas namoradas depois que a Valentina se foi, mas não deram
certo, é complicado quando se tem filhos envolvidos.
Eu suspirei
fundo, pois eu nunca saberia como seria conciliar um novo relacionamento com
filho.
-Me desculpe
Alice, não quis fazer você se lembrar, sinto muito. Ele disse balançando a
cabeça negativamente.
-Não, tudo
bem, fica tranquilo. Estou aprendendo a falar sobre isso, afinal essa dor eu
preciso carregar comigo e aprender a lidar com ela. Mas me fala, por que você
diz que é complicado? Suas ex-namoradas não aceitavam o fato de você ter suas
filhas? Ou suas filhas não aceitavam o fato de você estar namorando novamente.
-Acho que
minhas filhas não se oporiam se eu arrumasse alguém que realmente valesse a
pena, quer dizer, alguém que eu realmente amasse e que ela me amasse também.
André olhou
para o jardim como se pensasse em algo ou alguém.
-Eu conheci
uma pessoa há algum tempo, ficamos juntos uns meses e ela me parecia ideal, não
sei se era carência da minha parte, sei lá, mas eu achei que pudesse dar certo.
No começo ela aceitava o fato de eu ter que ir visitar minhas filhas, e elas
virem me visitar, mas depois de um tempo, ela começou se incomodar com essa
situação, então eu me sentia muito dividido.
-E suas
filhas a conheciam?
-Elas sabiam
sobre ela, mas ainda não tinham sido apresentadas. Eu queria ter certeza se
daria certo primeiro. Então uma vez eu precisava ir para Porto Alegre na
formatura da minha filha mais velha, e essa minha ex ficou furiosa, porque ela
havia feito planos para nosso final de semana, enfim, ela sabia há semanas
sobre minha ida para Porto Alegre, e quando chegou o dia, ela criou a maior
confusão. Mas eu fui mesmo assim, só que chegou lá, eu me sentia culpado por
não a ter levado comigo, e então eu decidi que tinha chegado o momento das
minhas filhas conhecê-la. Conversei com elas e pedi para que elas viessem para
cá no final de semana seguinte. Elas não se recusaram em momento nenhum, até
aceitaram numa boa. Aí eu voltei um dia antes do combinado, era para eu voltar
no domingo, mas eu voltei no sábado à noite, e quando cheguei aqui, fui atrás
dela e não a achei em lugar nenhum. Fiquei em frente ao prédio dela, sabia que
ela provavelmente havia saído com algumas amigas, sei lá. As horas passaram,
passaram, e eu acabei pegando no sono, dentro do carro mesmo. Acordei com o dia
amanhecendo e então a vi chegando de carro com um cara que trabalha com ela,
eles estacionaram o carro e se beijaram por longos minutos, então se despediram
e quando ela desceu do carro ele abriu o vidro e disse algo a ela, ela disse
alguma coisa e ele subiu para o apartamento dela.
André me
olhou totalmente chateado.
-Eu sinto
muito por ter tocado nesse assunto.
-Não se
preocupe, isso não me chateia mais. Depois eu descobri que o caso deles era
antigo, eles só não assumiam porque ele tinha uma noiva, enfim...
-Caramba, que
cretina. Falei sem pensar. –Desculpa, não devia ter disso isso.
-Não, você
tem razão. Ela foi muito ordinária comigo, me enganou por meses. Mas depois
veio atrás, se humilhou, pediu perdão, mas já era tarde demais.
Fiquei sem
saber o que dizer.
-Depois
conheci outras pessoas, você sabe, quando se está sozinho aparece um leque de
opções, mas nunca era nada realmente sério. Há alguns meses atrás eu estava com
uma garota, uns dez anos mais nova do que eu, Paola o nome dela, o que ela
tinha de bonita, tinha de imaturidade.
O garçom
chegou com nossos pedidos e nos serviu imediatamente, fazendo com que André
parasse de falar. E eu estava ansiosa para saber sobre o outro romance dele.
Assim que o
garçom nos deixou, André continuou a falar.
-Quando
estávamos juntos, no começo tudo parecia ótimo, mas depois a Paola foi
mostrando um lado dela que era extremamente ciumento, ela era insegura demais,
era possessiva demais, arrumava brigas por coisas pequenas. Me ligava de cinco
em cinco minutos e caso eu não a atendesse já era um motivo para uma nova discussão,
enfim, nosso relacionamento foi se tornando um inferno, e quando ela viu que as
coisas não estavam indo bem, não sei como, mas ela achou minha filha caçula nas
redes sociais e disse a ela sobre nosso relacionamento, e inventou que íamos
nos casar porque ela estava grávida, então imagina a cabeça da minha filha, uma
adolescente que tinha perdido a mãe há poucos anos e descobrir que o pai estava
namorando e iria se casar sem que elas soubessem! Foi terrível.
-Eu não
acredito! Mas ela estava realmente grávida?
-Não, claro
que não. Quando minha filha caçula nasceu, eu e a Valentina decidimos que eu
deveria me esterilizar. Mas eu nunca tinha comentado sobre isso com a Paola,
ela nem imaginava que eu não podia ter filhos.
-Mas e aí, o
que você fez?
-E aí, que
até para a família dela ela inventou essa história, e eu precisei ir
pessoalmente conversar com os pais dela e desmentir tudo. Minhas filhas ficaram
revoltadas, mesmo sabendo que tudo não se passava de uma mentira elas
continuaram sem falar comigo por semanas. Mas felizmente agora está tudo bem.
-Uau, você
realmente escolhe bem seus relacionamentos. Eu disse com um sorriso sarcástico.
-Para você
ver. Ele disse dando um sorriso e comendo um sushi em seguida.
-Mas eu ainda
não desisti de encontrar alguém que realmente faça valer a pena. Claro que
agora estou bem mais seletivo; não que eu era um homem de ter várias mulheres,
pelo contrário, sempre fui mais reservado, até mesmo porque é uma cidade
pequena, as pessoas me conhecem, sabem sobre minhas filhas, então eu sempre me
preservei, mas agora ainda mais, e eu quero me envolver com alguém quando eu
realmente achar que ela é a pessoa certa.
André olhou
para mim como se quisesse me dizer algo, mas eu disfarcei e fingi não perceber.
Coloquei um sashimi na boca e percebi ele me avaliando.
-Mas e você,
você acha que seu ex-marido valeu a pena, ou sei lá, ainda vale a pena?
Engoli minha
comida e tomei um gole da minha bebida, como se estivesse adiando em relação a
tocar nesse assunto. André fez o mesmo, porém, me observando em cada movimento.
-O João Pedro
ainda é o meu marido, é tudo muito recente, e foi por isso que eu precisei sair
um pouco de Curitiba, precisava pensar sobre tudo o que aconteceu, sobre nosso
relacionamento. Ele me magoou bastante também, mas eu também tive a minha
parcela de culpa pelo nosso casamento ter chegado ao ponto que chegou.
Ele me olhou
sem entender e eu tomei outro gole da minha bebida.
-Sim, ele
realmente valeu a pena, foram anos maravilhosos ao lado dele, tanto que quando
nos conhecemos, eu terminei um relacionamento de oito anos, sem ao menos termos
dado um único beijo. Eu fiquei apaixonada por ele e ele por mim assim que nos
conhecemos. E durou anos.
Dessa vez fui
eu quem olhei pela janela, vendo o jardim todo iluminado com uma luz verde bem
forte, evidenciando o verde das plantas.
Olhei para o
André e ele me encarava, como se estivesse lendo meus pensamentos.
-Acontece que
quando o Pedro se foi, eu não soube lidar com a perda dele, eu me trancafiei em
meu mundo, queria sentir minha dor sozinha. E no fundo, mesmo sem querer sentir
isso, eu meio que culpei o João pela morte do nosso filho. Quer dizer, é claro
que não foi culpa dele, o Pedro foi atropelado por um carro; mas mesmo assim,
inconscientemente eu o culpava. E eu acabei me afastando dele, me isolando cada
vez mais dentro da minha própria casa e isso foi deixando nosso casamento cada
vez mais insuportável. Até que um dia eu decidi que não dava mais para viver
assim, que eu precisava retomar minha vida e principalmente meu casamento, só
que era tarde demais, o João Pedro estava bebendo demais, chegava cada vez mais
tarde em casa, então foi aí que percebi que eu estava o perdendo. E há alguns
dias, eu fui atrás dele em um barzinho que ele costumava frequentar, mas quando
eu cheguei lá, vi que uma garota começou a conversar com ele, mas logo depois
ele foi embora. Eu fui para casa, mas não tive coragem de falar, então fui no
dia seguinte, e a tal garota mais uma vez sentou-se ao lado dele e eles
conversaram animadamente, e eu observando tudo de longe.
Eu soltei um
riso triste.
-Na verdade,
eu poderia ter ido até ele, e nada disso teria acontecido, mas era como se eu
precisasse ver até onde ele ia. Então ele foi embora novamente e deixou a
garota sozinha mais uma vez, e eu mais uma vez não disse nada. Só que no dia
seguinte, a garota chegou, eles conversaram bastante, e eu vi que as coisas
estavam ficando cada vez mais íntimas entre eles, até que ela o beijou, e não
foi nenhum beijinho não, pelo contrário, ele retribuiu aos beijos dela no meio
de todo mundo, em um barzinho que costumávamos frequentar juntos. Depois eles
conversaram novamente e trocaram números de telefones e mais uma vez se
beijaram.
-E você vendo
tudo?
-Eu vi tudo.
E foi então que eu fiz questão que ele soubesse que eu estava ali, assistindo a
tudo. Só que uma coisa é certa, se ele não tivesse me visto, com certeza essa
história não pararia por ali, é obvio que eles iriam até o fim.
-Sinto muito
Alice.
-Obrigada
André. Mas é por isso que eu digo que eu não posso culpar somente o João Pedro,
eu também errei, eu o afastei de mim, e ainda quis pagar para ver o que
aconteceria entre os dois. Só que eu não sei se conseguiria conviver com mais
isso. Eu queria salvar meu casamento sim, mas depois do que eu vi e sabendo o
que aconteceria em seguida, sinceramente mudei totalmente meus planos.
Tomei mais um
gole da minha bebida e meu olhar se encontrou com o de André.
-Bom respondendo
sua pergunta, o João Pedro valeu a pena sim, mas quanto a estar casada com ele,
já não sei se vale mais. Eu não vou mentir para você, dizendo que eu não o amo
mais, eu ainda amo o João e tenho certeza absoluta eu ele me ama, mas eu não
acho que o nosso casamento ainda tem solução. Sei lá, talvez daqui um tempo,
mas não agora.
André apenas
balançou a cabeça como se concordasse com o que eu tinha acabado de falar.
-Alice, você
é uma pessoa transparente, é sincera. Sei lá, você poderia estar se fazendo de durona,
dizendo que nunca mais o perdoará, que não quer mais vê-lo, mas não! Pelo
contrário, você acabou de assumir que ainda ama seu marido. Eu acho isso muito
íntegro da sua parte. A honestidade é umas das qualidades, senão a mais
importante qualidade de uma pessoa.
-Hum,
obrigada. Respondi sem graça. Mas é a verdade, as pessoas costumam a atacarem
seus parceiros quando o relacionamento acaba, só que foram muitos anos juntos,
e foram anos ótimos, então eu não posso simplesmente dizer que o João não é
mais importante, ele é sim, e eu me preocupo com ele. Só que agora eu quero
focar mais em mim, em minha carreira, sei lá, me colocar em primeiro lugar.
-Você está
certa Alice, um brinde à sua nova vida e aos nossos acertos e desacertos.
Nós brindamos
e eu bebi toda a bebida que estava em meu copo. Ficamos horas conversando sobre
nossas vidas, nosso acertos e desacertos como ele mesmo disse. Já era tarde
quando voltamos para o hotel. Atravessamos vagarosamente o jardim como se
estivéssemos ganhando mais tempo.
André
caminhou até um banco branco de madeira e sentou-se, eu me aproximei e fiquei
observando as flores ao redor.
-Alice, eu
acredito que tudo tem um porquê, sabia?
-Como assim?
-Você veio
parar aqui por acaso, nós dois nos conhecermos, e é como se eu conhecesse você
há muito tempo, não sei, é difícil explicar, mas é como se você já fizesse
parte da minha vida.
Eu ri sem
graça.
-É, realmente
estamos nos dando muito bem. Sua companhia está sendo muito agradável.
André
pareceu-me acanhado e sem jeito perto de mim, parecia nervoso com a minha
presença.
-Desde que eu
coloquei meus olhos em você, senti algo muito forte, você mexeu comigo de uma
maneira inexplicável, e quando estou com você é como se eu quisesse parar o
tempo para que as horas não passem.
André caminhou
até mim e senti que minhas pernas ficaram bambas.
-André, eu...
-Você não
precisa me dizer nada, eu sei que você está passando por um momento delicado,
eu só lhe falei essas coisas, porque eu precisava expor isso para você, estar
com você está sendo perfeito, só queria que você soubesse disso.
Balancei a
cabeça concordando com ele.
-Bom, está
tarde, e eu preciso subir, fiquei de ligar para minha amiga, e ainda não
consegui falar com ela.
-Vamos, eu
acompanho você. Ele disse colocando as mãos nos bolsos da calça e seguindo
comigo para dentro do hotel.
Não trocamos
mais nenhuma palavra até a porta do meu quarto.
Abri a porta
do quarto e André ficou ao meu lado.
-Bom, eu vou
indo então. Disse encabulada apontando para dentro do quarto.
-Obrigado
pela companhia, Alice.
-Eu quem devo
agradecer por você ir me resgatar naquela festa.
André riu,
inclinou-se até mim e beijou minha testa.
-Eu vou fazer
com que você perceba que eu posso valer a pena.
Meu coração
começou a bater descompassado, senti um frio percorrer por todo meu corpo.
-Boa noite!
Ele sussurrou em meu ouvido e saiu em seguida.
Entrei em meu
quarto e me joguei na cama.
-Não pode
ser, não pode ser! Isso só pode ser provação, só pode! Exclamei para mim mesma,
sem acreditar no que estava acontecendo.
Fiquei
deitada em minha cama, agarrada ao travesseiro pensando no que estava
acontecendo comigo, no que eu iria fazer. No que poderia acontecer. Pensei em
ligar para Malu, mas já era bem tarde, pensei então em minha mãe, mas ela era a
maior defensora do João. Horas depois consegui pegar no sono.
19
Evitando encontrá-lo
Logo que o dia amanheceu acordei sentindo-me totalmente perdida e
confusa, me arrumei e saí do hotel em seguida. Corri por horas, até minha
exaustão. Resolvi parar e tomar um café em outro lugar que não fosse o hotel.
Mais tarde
voltei para o hotel e entrei em disparada evitando encontrar com André. Tomei
um banho, peguei meu notebook, minha bolsa e saí novamente, mas dessa vez com
meu carro.
Dessa vez era
eu fugindo do desconhecido. Andei por horas sem saber onde ir, até que parei em
uma cidade vizinha de São Joaquim, onde encontrei um café muito aconchegante.
Chegando lá,
peguei meu celular e mandei uma mensagem de texto para Malu.
Malu, precisava de você aqui, as coisas estão
tornando-se tão confusas, não sei o que fazer e nem o que pensar. Ao mesmo
tempo que queria estar aí ao lado do João Pedro, quero também manter-me
afastada dele e esquecer o que ele me fez. Só que eu não consigo de parar de
pensar nele. Mas ao mesmo tempo que penso nele, minha vida está sendo guiada
para outro lado, o André meio que se declarou para mim ontem, disse que está
encantado comigo e que eu mexi muito com ele desde que ele me conheceu. O pior
é que eu também estou gostando de ser paparicada por ele. Então, o que eu
faço????? Hoje mesmo, saí da cidade, tentando pensar com mais clareza. Estou me
sentindo perdida!
Saudades, Alice
Coloquei meu
celular do lado, abri meu notebook e voltei a escrever meu novo livro. As horas
passaram rapidamente, e só parei de escrever quando meu celular vibrou, era a
Malu.
Querida Alice, não sei se poderia ajudar você
nesse momento, pois nem eu sei o que lhe dizer, é tudo muito complicado, porque
no mesmo momento que sinto ódio do João Pedro por ter causado tudo isso, também
sinto pena dele. Ontem mesmo foi terrível, ele ficou muito mal, saiu para beber
e o Bruno precisou ir buscá-lo e trazê-lo para nossa casa, chegando aqui ele
chorou muito por sentir sua falta. Fiquei mortificada por ele.
Eu sinceramente não sei o que lhe aconselhar,
queria poder ajudar você. Mas tenho medo de influenciar e algo sair errado. A
Maria Helena e o José Pedro vêm hoje para Curitiba, o Bruno ligou para eles e
contou o que havia acontecido, eles ainda nem sabiam sobre vocês.
Amiga, fica bem! Saudades
Malu
A mensagem de
Malu não me ajudou em nada, aliás, só me deixou mais confusa. Só voltei para o
hotel no começo da noite, onde tomei um banho e desci para comer alguma coisa.
Havia um grupo de senhoras e senhores que estavam jogando baralho, então me
aproximei deles e fiquei observando-os a jogarem. Me diverti vendo a maneira
que eles se alfinetavam, e logo fui convidada a jogar também.
Horas depois
de jogar cacheta e tranca, voltei para meu quarto. Estava sentindo-me mais
leve, sem ver o André o dia todo me deixou menos confusa. E as últimas horas com
meus novos amigos da terceira idade me deixou bem relaxada. Dormi bem cedo
naquela noite, e no dia seguinte fiz a mesma coisa, saí para correr assim que o
dia amanheceu, e depois do meu banho saí com meu carro e parei no mesmo café do
dia anterior. Assim que peguei meu celular, havia uma mensagem da Malu, ela
tinha acabado de enviar.
Alice, bom dia! Como se sente hoje? Novidades?
Por aqui as coisas foram bastante movimentadas.
Os nossos sogros chegaram no final da tarde, e logo depois o João Pedro chegou
também, então eles começaram a conversar com o João querendo saber de tudo, é
claro que eu me fiz presente, não deixaria de jeito nenhum o João Pedro
inverter a situação para amenizar a culpa dele, ele até que tentou justificar o
que ele fez pelo modo que você o tratava, mas eu interferi e defendi você até o
fim, disse que você errou, mas de jeito nenhum saiu por aí traindo ele,
enquanto ele estava em casa esperando por você.
Enfim, a Maria Helena ficou revoltadíssima com
ele, o José Pedro também, mas no fim, você sabe que os homens se protegem, não
é? Mas mesmo assim eles deram vários sermões para o João, que se ele perdesse
você, a culpa seria apenas dele. Sua sogra falou muita coisa para ele, disse
que se a situação entre vocês chegou a tal ponto, a culpa também foi dele que
nunca fez nada para melhorar, preferiu ver você sofrendo calada a ter uma
conversa franca. Ou seja, descobri que ela é sua fã e você é a queridinha dela,
minha amiga.
Tudo bem, senti um pouco de ciúmes, eu confesso.
(Risos). É nada, na verdade eu sempre soube que
ela gosta muito mais de você, também, quem não gosta?
Depois de tudo, eles ficaram por aqui, jantaram,
conversaram e acabaram dormindo aqui em casa, inclusive o João. (Ele nunca
frequentou tanto minha casa como ultimamente).
Agora uma boa notícia. Hoje no final da tarde, o
Bruno, o João Pedro e o pai deles irão viajar. Decidiram ficar uns dias fora,
arrumaram uma pescaria em alto mar. A Maria Helena volta para Florianópolis
sozinha (ufaaa, tive até medo eu ela quisesse ficar em minha casa durante esses
dias) pois ela tem alguns compromissos importantes.
Então garota, você tem alguns dias ainda para
pensar sobre o que fazer da sua vida. E eu estive pensando... você só está passando por tudo isso, por culpa
do João Pedro que pensou em se dar bem saindo com uma vadiazinha qualquer. Ele
não pensou que poderia estar facilitando as coisas para que você também
conhecesse alguém, e foi exatamente o que aconteceu. Agora, o meu conselho
(droga, eu disse que não me meteria), já que está aí, absorva todas as
experiências que essa cidade lhe oferece, inclusive o bonitão. Bom, só falei o
que eu faria em seu lugar, mas cabe a você decidir. E volte logo, pois estou
morrendo de saudades.
Malu
Eu ri ao ler
a mensagem de Malu, era aquela a Malu que eu conhecia, que falava por ela, no
que ela faria, e lógico que ela não deixaria essa história passar em branco.
Comecei a
escrever, dando continuidade em meu novo livro. Percebia as pessoas indo e
vindo, mas não vi o tempo passar, era bom ter minha inspiração de volta. Após
uma breve parada para um lanche, voltei a escrever novamente.
Voltei para o
hotel já estava anoitecendo, sentia-me exausta depois de um dia todo
trabalhando, porém estava ficando muito feliz com o resultado do meu novo
romance. Cheguei em meu quarto e me troquei, trocando a roupa por um biquíni,
coloquei uma saída de banho por cima e fui enfrentar a piscina de água quente
do hotel, já que o frio estava terrível. Fiquei algum tempo o suficiente para
relaxar, mas depois de algum tempo resolvi subir, tomar um banho e descer para
jantar e quem sabe encontrar meus novos companheiros de cartas.
Despois do
banho, me arrumei colocando um jeans claro, botas escuras café e uma blusa de
linha preta que deixava parte dos meus ombros de fora. Sequei meus cabelos
deixando-o bem lisos e passei uma maquiagem para amenizar minha cara de
cansaço.
Segui para o
restaurante, mas nenhum dos meus amigos estavam por perto. Tomei um caldo e
depois fui até a sala que eles costumavam ficar, mas também não estavam.
Encontrei Mauro, o gerente do hotel que estava saindo apressado, mas que ao me
ver abriu um largo sorriso.
-Boa noite
dona Alice.
-Boa noite
Mauro, indo para casa?
-Não senhora,
estou indo para o café, pois faltaram quatro funcionárias essa noite e o André
está sozinho, já mandei um funcionário aqui do hotel e agora vou correr lá para
dar uma mão. A Silvinha gerente do café está com o filho doente, e três outras
atendentes também não puderam ir, aquilo está um tumulto, e justo nesta noite
até os clientes aqui do hotel foram para lá para conhecer o café a convite do
André.
Aí que
entendi o porquê nenhum deles estavam no hotel.
-Eu tentei
ligar para minha esposa vir me buscar, mas não consegui falar com ela, na certa
ela desligou o telefone porque nossa filha dormiu. Então eu vou andando.
-Você quer
uma carona, eu ia mesmo sair para dar uma volta.
-Mas não vai
atrapalhar a senhora?
-Não Mauro,
claro que não. Só vou buscar minha bolsa e te deixo lá.
-Então nesse
caso eu aceito. Ele disse sem hesitar.
Corri para
meu quarto, peguei minha bolsa e fui com o Mauro até o café. Minutos depois,
estacionei do outro lado da rua, onde dava para ver a fila se formando do lado
de fora do café. Mauro se despediu e me agradeceu várias vezes pela a carona.
Quando ele
foi atravessar a rua, eu involuntariamente o chamei.
-Mauro, me
espera, vou com você.
-Então vamos
dona Alice, o André vai ficar muito feliz com a sua presença.
Soltei um
riso encabulado peguei minha bolsa e fui em direção ao Mauro. Atravessamos a
rua que estava bem movimentada e passamos por toda a fila, entrando sem esperar
um só minuto. Alguns clientes reclamaram, mas o funcionário do hotel que estava
de segurança, explicou que éramos funcionários da casa.
Assim que
entramos no café que estava lotado, vi uma mesa no canto com todos os meus
novos amigos, e olhei ao redor a procura de André, mas nada. Mauro parou para
cumprimentar alguém que eu não conhecia, e então vi André, de calça jeans
escura e blusa de malha de manga longa branca, vindo em minha direção.
-Alice, como
você está? Você sumiu. Queria ligar para
você, mas não tinha o seu número, te procurei ontem e hoje, mas não a
encontrei.
Soltei um
meio sorriso.
-É eu passei
esses dias escrevendo, quando eu estou inspirada, eu tenho o hábito de sumir do
mapa. Eu falei olhando nos olhos dele.
Ele em
seguida se inclinou, beijando meu rosto.
-Vou arrumar
uma mesa para você, isso aqui está uma loucura hoje.
-Eu pensei em
ajudar. Soube que você está com poucos funcionários, então se eu puder fazer
alguma coisa.
-É sério? Ele
perguntou com um sorriso de orelha a orelha.
-É sim.
André olhou
ao redor, como se pensasse em algo para eu fazer.
-Então faz
assim, a Marília que me ajuda a atender foi para o caixa, vou pedir para ela
explicar a você como funciona, assim ela pode vir me ajudar a atender
novamente, junto com o Mauro.
-Ótimo, sou
boa com números. Falei dando-lhe uma piscadela. –Mas antes eu só vou
cumprimentar meus novos amigos e já vou para o caixa. Completei.
-É, eu fiquei
sabendo das suas habilidades com as cartas. Ele falou todo sorridente.
Fui dar um
alô para meus amigos, que disseram que foram me procurar no início da tarde
para vir com eles ao café, mas não me encontraram. Fiquei feliz ao saber que
eles se importaram em me convidar. Conversei um pouco mais com eles e expliquei
que precisava ajudar o André.
Minutos
depois, já estava ao lado de Marília que parecia mais atrapalhada do que eu
lidando com números. Ela me explicou como fechar as comandas e eu peguei
facilmente o jeito. Alguns instantes depois, ela já estava atendendo nas mesas,
junto com Mauro e André, e as coisas já estavam ficando mais controladas com os
três atendendo.
De vez em
quando eu via André olhando para mim sem disfarçar e eu apenas lhe dava um
sorriso sem jeito. O movimento do caixa começou a aumentar, não me dando tempo
nem de respirar. Um mocinho com seus vinte e poucos anos foi fechar uma comanda
e começou a me encarar, deixando-me sem jeito.
-Ei, não
conhecia você. Você é nova por aqui?
-Sou sim.
Respondi sem olhar para ele. – Cento e vinte reais. Disse somando a comanda.
O rapaz de me
entregou o dinheiro, me encarando incansavelmente.
-E você mora
aqui por perto? Quer dizer, se precisar de uma carona eu posso levar você.
-Aqui seu
troco. Falei entregando trinta reais para ele.
-Não, pode
ficar. Ele disse ainda me encarando.
-Qual é o seu
nome?
-Alice. Falei
entregando-lhe as notas novamente.
-Alice, meu
nome é Guto, é um prazer conhecê-la. Ele disse esticando-me a mão.
Fiquei sem
graça, ainda mais, aliás, e estiquei minha mão e apertei a dele em seguida.
-Você tem
namorado?
-Olha Guto,
não queira nem saber. Mas eu lhe agradeço pela carona, só que eu estou de
carro, não se preocupe.
-Mas eu
poderia esperar você, assim a gente pode conversar com mais tranquilidade.
Nisso senti
uma mão passando pelos meus ombros.
-Guto, já vi
que conheceu a Alice. Disse André me abraçando.
-Ei cara, como
vai, conheci sim. Não vai me dizer que...
-É pois é
cara, ela está comigo, e não quero que ninguém a incomode, tudo bem?
-Não, claro
André, me desculpe, eu não sabia. E Alice, me desculpe também. Boa noite para
vocês. Ele disse todo sem graça e saindo em seguida.
-Nossa que
cara chato. Disse André ainda com as mãos ao redor dos meus ombros.
Eu fiquei
congelada.
-Obrigada por
me livrar dessa saia justa, mas sou bem grandinha, não acha?
André deu um
sorriso malicioso.
-Eu conheço
esses caras, ele insistiria até o final da noite. Mas também não o culpo. Falou
André com segundas intenções.
Eu balancei a
cabeça negativamente, dando um sorriso e ele saiu em seguida.
Mais tarde,
André chegou entregando-me uma taça de uma bebida de frutas com champanhe.
-Essa é para
a moça mais linda desse lugar. Ele disse sussurrando em meu ouvido. Em seguida
colocou a taça sobre o balcão e saiu em seguida.
Eu ri, mas
acabei tomando o coquetel, que era delicioso.
Meus novos
amigos logo foram embora, e todos se despediram de mim, dando-me um abraços e
beijos. Eles eram pessoas extremamente simpáticas e educadas.
-Esperamos
você amanhã hein. Disse Dona Elza, uma senhora muito simpática.
-Pode deixar,
amanhã ninguém segura a gente. Falei dando-lhe um abraço apertado.
Algumas horas
depois o café estava quase vazio. Olhei no relógio e passava das duas da manhã.
Peguei todas as comandas e as somei. Em seguida conferi o dinheiro que estava
batendo corretamente com o valor das comandas.
As duas
últimas mesas foram embora poucos minutos depois. André veio até mim, parecia
exausto, mas estava feliz.
-Alice, não
sei nem como lhe agradecer.
-Você não
precisa me agradecer. Eu disse serenamente.
-Eu vou pagar
a banda e os meninos e já venho.
-Aqui está o
dinheiro André, e as comandas. Já conferi tudo, mas depois você confere
novamente. André pegou o dinheiro e as comandas, mas as jogou no lixo sem ao
menos conferi-las.
-André!
-Só que me
faltava eu precisar conferir o que você fez. Ele disse saindo em seguida.
Minutos
depois a banda também se foi, e Mauro e os funcionários do hotel também vieram
onde eu estava.
-Mauro, fica
com meu carro, leva os meninos. Amanhã você pode ficar de folga, eu mando
alguém pegar o carro em sua casa.
André o
agradeceu e Mauro despediu-se de mim saindo em seguida com os meninos do hotel.
Marília e as funcionárias da cozinha também se despediram de nós e saíram em
disparada. Eu suspirei nervosamente. André foi em direção ao bar, mas eu não
podia ver o que ele estava fazendo. Então ele apareceu com um balde de gelo com
duas champanhes e sentou-se ao meu lado em uma das mesas. Mas levantou-se
novamente e nesse momento eu pude ver que ele trancou a porta do café, para que
ninguém mais entrasse, e voltou para a mesa.
-E então,
cansada?
-Um pouco,
mas é bem gostoso. As horas passaram que eu nem vi.
-É, quando se
faz parte da sua rotina, torna-se desgastante, mas não é tão ruim assim. Ele
disse abrindo a champanhe.
-Eu admiro
isso em você. Você é muito esforçado, é simpático com seus clientes, acho que
esse é um dos segredos para esse café estar sempre cheio.
-É, eles
gostam de mim sim. Mas eles gostam mais do ambiente, das músicas e dos outros
funcionários que são bem atenciosos.
Eu o
observava conversar enquanto nos servia champanhe.
-E aquele
cara hein? Fiquei louco quando eu o vi dando em cima de você.
Senti meu
rosto corar, e involuntariamente soltei uma risada.
-É eu vi você
espantando o único carinha que se aproximou de mim essa noite, isso não se faz.
Disse fazendo uma careta.
-Pode ter
certeza que ele não foi o único que se interessou por você. Eu vi vários caras
olhando para você essa noite. Meu caixa nunca foi tão badalado como hoje.
Eu ri alto
dessa vez.
-André você é
doido, sabia.
-Eu mesmo não
conseguia tirar os olhos do caixa. Era como se tivesse um imã, atraindo meu
olhar.
Eu balancei a
cabeça negativamente, riso sem graça e virei a taça bebendo todo o resto do
champanhe. Em seguida olhei para o relógio e era mais de três da manhã.
-Eu preciso
ir. Já está tarde.
-Vamos. Ele
disse parecendo chateado. –Eu preciso de uma carona.
-Claro, eu
levo você. Eu disse levantando-me em seguida.

Olhaaa.... acho que apesar da dificuldade da Alice em se decidir no momento, nada melhor do que uma paquera para a auto estima se elevar neste momento tão difícil.... vamos aguardar decisão de Alice... adoreiii a postagem de hoje
ResponderExcluirDecisão dificil a da Alice....mas estou super ansiosa pra saber o que acontecerá...
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