sábado, 30 de maio de 2015

" Recomeços " parte 09 por Érika Prevideli

 " Recomeços "



Parte 09


Eu sentia todo meu sangue correr de forma desordenada, mas eu dei o melhor de mim, olhei para ele, abrindo um sorriso sarcástico e ergui meu copo. João Pedro ficou pálido no mesmo instante, deixando a vadia sozinha e vindo em minha direção.
Ele provavelmente estava cego, passava entre as pessoas sem ao menos notá-las em sua frente. E eu o acompanhando com o olhar, até que ele chegou até mim.
-Alice, o que você...
As palavras nem saiam da boca dele. Pude ver a loura nos olhando e saindo em seguida.
-Você ia dizer alguma coisa? Perguntei mantendo a calma.
João Pedro parecia estar tendo um infarto, sendo pego em flagrante.
-Eu não sei o que você viu, mas não é o que você está pensando.
Eu sorri e tomei um gole do meu drinque com toda minha elegância e calma. Sentia meu coração disparado, mas tentei não transparecer nervosismo nenhum.
-Ah, eu não estou pensando nada, não se preocupe João Pedro.
João afastou uma cadeira, sentando-se ao meu lado, parecia uma criança com medo dos pais depois de ser pega fazendo uma grande arte.
Eu suspirei, tomei outro gole do meu drinque e olhei para ele.
- E quanto ao que eu vi, vi o suficiente.
-Alice, eu posso explicar, não é o que você está pensando.
Eu fiz sinal para que ele parasse de falar e ele tentou segurar minha mão, e eu a soltei imediatamente.
- João, eu vi que vocês se conheceram há três dias, vi vocês ontem à noite toda, conversando animadamente, aliás que não tinha nenhum Eduardo e nenhum Carlos por aqui. E hoje presenciei todo esse espetáculo, com beijos ardentes, conversa animada, trocas de números de celulares. E ambos juntos de saída.
-Você estava me seguindo?
-Eu, te seguindo? De maneira alguma João. Eu apenas vim tentar encontrar você aqui, para ver se conseguia conversar com meu marido, aliás meu ex-marido, sem que ele estivesse bêbado, da maneira que estava chegando todas as noites em casa.
João Pedro me olhava aflito, tentando arrumar argumentos.
-Eu pensei em fazer uma surpresa para você. Chegando aqui de surpresa, eu pensei comigo, o João ficará feliz ao me ver em um ambiente que não fosse em nossa casa, vou me abrir com ele, dizer que estou disposta a recomeçar minha vida, nossa vida, outra vez. Mas então cheguei aqui e fui vendo essa aproximação entre você e uma vadia qualquer, e resolvi ver no que dava essa história, mas ao invés de eu lhe fazer uma surpresa, eu quem fui surpreendida, em ver com que rapidez você se envolveu com uma putinha de balcão de bar.
Eu suspirei tentando manter a elegância, pedi outra bebida em seguida.
-Ah, sabe que mais me deixou encantada nisso tudo, João Pedro? Foi ver sua reação ao vê-la chegar hoje, você ficou nitidamente feliz. Mas eu juro que esperava mais de você, do que tentar buscar sua felicidade numa foda à toa. Mas não perca essa chance, aproveita que agora você tem o número dela e a convida para sair, para trepar, sei lá, para o que você quiser fazer, pois agora, não precisa mais ser escondido, agora você é um homem livre. Aliás que, em nenhum momento estava sendo escondido, talvez você realmente quisesse mesmo ser visto com outra mulher para facilitar as coisas para você.
Eu me levantei, e João incrédulo levantou-se também.
-Alice, espera, vamos conversar.
-Eu realmente tinha muito que conversar com você, João Pedro, mas muito mesmo. Mas agora a única pessoa que irá conversar com você é o meu advogado.
Quando eu fui sair, João ameaçou ir atrás de mim.
-Você já pagou minha conta? Eu perguntei exasperada. –Porque você usou “meu” dinheiro ontem e hoje para pagar a conta de uma piranha desconhecida.
Saí do Village´s me sentindo por cima, mas por dentro estava destruída, desestruturada, sem saber o que fazer, ou para onde ir. Essa era mais uma mudança pela qual eu passaria em minha vida, primeiro sem meu filho, e em seguida sem o João.
Me segurei até o estacionamento, mas assim que entrei em meu carro desabei, não conseguia mais me controlar de tanto chorar, estava muito nervosa e resolvi ir para a casa da Malu e do Bruno.
Toquei o interfone uma vez mas ninguém atendeu, na segunda vez Malu atendeu com voz de sono.
-Malu sou eu, Alice.
-Ah, entra.
Malu abriu o portão e eu entrei com o carro atravessando todo o jardim e estacionando ao lado do Santa Fé de Malu, que veio correndo em minha direção, envolvida em seu hobby de seda.
-Alice, o que aconteceu? Ela disse aflita me abraçando.
E eu chorei ainda mais, abraçando-a.
-Ei, aconteceu alguma coisa? Disse Bruno aparecendo no jardim de pijama.
Eu olhei para ele, tentando secar minhas lágrimas.
-Bruno, me desculpa, mas eu não sabia para onde ir.
-Não, o que é isso, vamos entrar.
Malu continuou abraçada comigo, até chegarmos em sua enorme sala.
-Fala comigo Alice, o que houve?
-O João Pedro, Malu, eu acabei de vê-lo com outra.
-O quê? O que aquele cretino fez?
-O João! Não posso acreditar. Disse Bruno.
-Pois é, Bruno, aquele dia que eu vim conversar com você, você me deu a ideia de ir até ele, e eu fui. Mas ao chegar no Village´s, vi João Pedro sentado no balcão e uma garota ao lado. Eles pouco conversaram, e eu não tive coragem de chegar nele, então ele foi embora e eu voltei para casa e deixei quieto. Mas eu fiquei intrigada e voltei ontem sem que ele soubesse novamente, e a tal garota chegou novamente sentando-se ao lado dele, mas foi diferente, eles começaram a conversar com muita afinidade, conversaram por horas enquanto bebiam, e na hora de ir embora ele ainda pagou a conta dele e dela. Mas então ele foi para casa e já estava bem tarde. Eu fiquei arrasada, pois ele preferia conversar com uma estranha do que comigo.
-Mas você não disse a ele que tinha ido encontra-lo?
-Não. Depois que eu vi toda aquela afinidade entre eles que conversavam e riam de tudo, eu não consegui. Mas hoje eu fui disposta a não sair de lá sem falar com ele. E ele chegou todo arrumado, e eu o observei de longe, estava sentindo que algo aconteceria. Ele parecia ansioso, aflito, então ela chegou e se vocês vissem a expressão dele de felicidade, foi como uma facada no meu coração.
-E aí? Indagou Malu.
-E aí que a conversa entre eles era o máximo, bebida após bebida, risada após risada. Pareciam dois namorados, ela o beijou de surpresa e ele correspondeu muito bem, depois beijaram-se novamente e trocaram os números de celulares. João pagou a conta deles e os dois levantaram-se para ir sabe-se lá onde.
-Mas ele não sabe que você viu?
-O garçom foi levar a conta para mim, mas eu pedi que levasse a conta para o cara que estava saindo com a loura. O garçom não entendeu, mas eu disse que ele estava com meu dinheiro. Então ele foi e acabou interrompendo outro beijo apaixonado, assim que o garçom falou com ele, João olhou em pânico em minha direção, e foi até mim.
-Cara, eu não acredito. Disse Bruno colocando a mão sobre a cabeça. -Alice, eu nunca imaginei que minha ideia causaria tudo isso, por isso eu te peço perdão.
-Não Bruno, claro que não, seria perfeito, mas quem imaginaria uma coisa dessas. E eu disse para o João, pois ele em momento nenhum sentiu necessidade de esconder para ninguém, beijou aquela vadia na frente de todo mundo, em um bar que frequentávamos juntos, então qualquer um poderia vê-lo, mas ele não se importou, pelo contrário, estava totalmente à vontade.
-Alice eu não sei o que te falar, não sei ao menos que conselho lhe dar.
O celular de Bruno começou a tocar e ele levantou-se para atendê-lo. Malu me abraçou e eu chorei novamente.
-Malu, é tanta coisa acontecendo de uma só vez, que eu não vou aguentar.
-Você vai sim, perder um marido não é nada comparado a dor de perder um filho. E outra, vocês ainda podem conversar e sei lá...
-Não Malu, não dá mais. Eu disse secando as lagrimas. Se nossa relação estava ruim antes disso, agora então é impossível de continuarmos juntos.
Bruno voltou suspirando fundo.
-Quem era? Perguntou Malu.
-É o João Pedro, ele está desesperado atrás de você Alice. Ele já foi para a casa de vocês, foi até no apartamento da sua mãe, agora está vindo aqui.
-Eu vou embora, então.
-Não senhora, você fica aqui. Amanhã vocês conversam com calma. Disse Malu.
-Não Malu, não adianta adiar essa conversa, é melhor resolvermos de uma vez por todas.
-E o que você vai fazer? Indagou Bruno.
-Bruno, não tem mais nada a fazer.
Bruno não disse nada, estava pensativo. O interfone tocou e meu coração acelerou.
Bruno correu atender e demorou para voltar.
-Malu, eu vou embora, já incomodei vocês demais.
-Não Alice, por favor, fica aqui, vocês podem conversar aqui, não tem problema, mas eu fico mais tranquila se você estiver perto de nós.
Bruno voltou acompanhado de João Pedro.
-Bela palhaçada hein João, esperava mais de você. Disse Malu.
-Malu, agora não, isso é entre eles. Bruno a advertiu.
-Entre eles uma ova, a Alice é mais do que minha irmã, quero ver se fosse o contrário, tenho certeza que você faria o mesmo.
-Malu por favor, não briga com seu marido, eu não vim aqui para isso, por favor. Eu disse abraçando-a.
-Eu vou para casa João, vamos conversar lá.
João Pedro concordou no mesmo instante, mas sem dizer uma única palavra.
-Bruno, desculpa por colocar vocês nisso. E obrigada por me receber essa hora.
-Sempre que quiser Alice, a qualquer hora. Você sabe disso. Disse Bruno me abraçando em seguida.
Fui até meu carro e João seguiu no dele.
Dirigi o caminho todo pensando no que dizer para João Pedro, pensando que decisão tomar, e como seria após minha decisão. Mas não havia possibilidade de continuarmos mais juntos. Cheguei em nossa casa, e aquilo me doeu ainda mais. Tanta coisa vivida ali, tantas alegrias e depois apenas coisas ruins, tantas lágrimas derrubadas e agora o fim de tudo.
A Range Rover de João Pedro estava na garagem no lugar de sempre, eu estacionei o meu logo atrás o dele. Ao entrar na sala me deparei com ele sentado com a cabeça baixa e as mãos escondendo seu rosto; eu não sabia se subia para meu quarto ou se conversava com ele, então ele me olhou com o rosto todo molhado de lagrimas, olhos vermelhos de tanto chorar.
Eu coloquei minha bolsa sobre uma poltrona e fui até a vidraça que dava para o jardim.
-Alice, eu lhe imploro, me perdoa! Eu fiz a pior burrada da minha vida, mas me perdoa, por favor. Ele disse vindo até mim. –Olha para mim, eu não posso viver sem você, eu não me vejo sem você.
Eu olhava para ele impassível.
-Engraçado, mas não me pareceu que você estava sentindo minha falta a poucas horas atrás.
-Aquilo foi um erro.  Porra Alice, você sabe o que é passar cinco meses ao lado de alguém que não te olha mais nos olhos, que mal fala com você, te ignora completamente, e ainda por cima te olha com todo o rancor, toda a mágoa do mundo. Eu olhava para você e sabia que você me culpava pela morte do nosso filho!
João Pedro saiu de perto de mim e ficou andando pela sala.
-Não era só você que amava o Pedro, eu amava meu filho mais do que tudo, se eu pudesse eu teria trocado a vida dele pela minha, sem ao menos pensar. Eu queria tê-lo aqui com a gente, brincando, correndo, jogando bola.
Eu senti meu coração apertar e comecei a chorar, sentei-me no sofá e João sentou-se ao meu lado.
-Eu amava ele mais do que tudo nesse mundo, quando eu o vi caído naquela rua, senti o meu mundo caindo sobre mim, foi a pior dor que alguém poderia sentir. Toda vez que eu fecho meus olhos, eu me lembro daquela cena, vendo a caminhonete descer com toda velocidade e vendo-o vindo de encontro a mim, com um sorriso nos lábios. Isso não sai da minha cabeça, não sai. Ele disse batendo na cabeça.
-João eu...
-Alice, você se fechou em uma concha, se trancou nela, e ninguém mais conseguia ter acesso a você. Era como se você tivesse no automático. Aquilo ia me matando dia a dia, a culpa me corroía por dentro, e quando eu achei que fosse ter o seu apoio, você apenas me ignorava, me fazendo me sentir ainda mais culpado. Mas eu não tive culpa, por Deus, eu não tive culpa da morte do meu próprio filho.
João Pedro colocou o rosto entre as mãos e começou a chorar desesperadamente.
-João, eu não quis fazer isso. Eu simplesmente não soube lidar com a perda do Pedro, doeu demais, doí demais. Eu sei que me fechei para o mundo, para você, mas não foi por querer, eu tentava sair da redoma que eu construí ao meu redor, mas eu não conseguia, era maior do que eu.
Ele continuava com a cabeça baixa, chorando sem parar.
-Eu nunca culpei você, nunca achei que fosse você fosse o culpado.
-Você achou sim, você nunca me disse com palavras, mas me dizia a todo instante com seu jeito, com seu olhar, com seu silêncio.
Eu fiquei calada, sem saber o que dizer, no fundo ele tinha razão.
-Eu perdi meu filho e ao mesmo tempo perdi minha esposa, a mulher que eu sempre amei. Mesmo você estando ao meu lado, sentia que você não estava mais comigo.
João Pedro se levantou, puxando a mesinha de centro junto de mim, e sentou-se de frente comigo.
-Eu tinha receio de tentar falar com você, de tocar em você. Te convidei inúmeras vezes para sair comigo e você nem ao menos me respondia. Naquela noite que eu lhe procurei, eu me senti a pior espécie do mundo. Minha mulher não sentia mais nada por mim além de indiferença.
Eu sentia minhas lágrimas escorrerem em meu rosto.
-Por isso que eu comecei a beber, eu sei que isso não justifica, mas eu não via outra solução, eu só trabalhava e voltava para casa sem ninguém para conversar, para desabafar. Então eu bebia para tentar amenizar minha dor, embora não adiantasse nada.
-Eu nunca saí de dentro da nossa casa e fui me consolar com outro cara.
-Eu não me consolei com ninguém Alice. Eu nunca olhei para outra mulher, nunca me interessei por outra pessoa, mas nosso casamento chegou num ponto insustentável, e eu achei que você simplesmente não me quisesse mais, mas não tinha coragem de assumir.
-Então você está justificando seu erro baseado em uma suposição?
-Não, claro que não. Eu errei, errei muito, admito isso. Quando aquela garota começou a conversar comigo, achei uma coisa natural, era simplesmente alguém tentando puxar assunto no balcão de um bar, e para mim foi assim, tanto que eu falava que precisava ir embora e simplesmente ia. Mas hoje ela acabou me beijando e infelizmente eu acabei cedendo à tentação, mas eu me arrependo profundamente por isso, é por isso que eu estou aqui implorando para que você me perdoe.
-Sobre o que vocês conversaram nesses últimos dias?
-Nada relevante; falamos sobre trabalho, sei lá, a conversa foi fluindo, e eu estava alterado alcoolicamente, reconheço isso.
Soltei uma risada irônica.
-João eu fiquei observando vocês ontem e hoje, e o entrosamento entre vocês dois era nítido, ela dizia coisas que você ria, você dizia coisas fazendo-a rir, pareciam um casal de namorados, chegou até a ser romântico. Então imagina como eu me senti? Eu estava lá, para falar com você, para que a gente pudesse dar uma chance para o nosso casamento, e então me deparo com essa cena! Isso não é justo. E hoje vocês quando vi vocês saindo juntos, que logicamente iriam para um motel ou sei lá, para o apartamento dela. E vocês fariam isso em um próximo encontro, vocês com certeza iriam trocar várias mensagens, marcariam encontros e mais encontros e eu ia continuar em casa, sem saber de nada, achando que era a minha culpa do nosso casamento estar assim. Mas quer saber de uma coisa? A culpa não foi só minha, se você quisesse, você teria vindo até mim antes, me cobrando sobre o que estava errado. Mas você não fez isso, eu me calei, mas você também se calou. Só que eu não sou idiota, esse encontro entre você e aquela vadia, sim, porque ela não passa de uma vadia dando em cima de um cara que ela viu que era casado, não ia parar por aí. Hoje enquanto eu assistia a cena do beijo explicito entre vocês, um cara do bar perguntou se eu estava sozinha, se ele podia se sentar comigo, sabe o que eu fiz? Eu disse a ele que estava esperando o meu marido, então ele foi embora. Se eu não faço isso, nós iríamos “conversar” a noite toda e eu também poderia acabar na cama com ele, mas eu diferente de você, tive decência.
-Você está certa, está coberta de razão.
-Eu sei, e nada nesse mundo vai apagar a imagem de vocês dois se beijando daquela maneira. Eu não vou dizer a você que eu te desculpo, que perdoo você, pois isso não vai acontecer, pelo menos não agora.
-E o que você quer dizer com isso?
-Que o nosso casamento acabou! Se antes estava insustentável como você mesmo disse, com certeza ficaria ainda pior depois do que aconteceu, e eu não quero viver assim. Não seria justo comigo. Eu demorei cinco meses, mas decidi juntar os meus cacos, decidi sair da minha concha como você disse, e retomar nossa vida à dois era o meu principal objetivo, mas eu descobri que estava errada, pois esse casamento acabou, o respeito acabou e junto com ele a confiança.
João Pedro ficou imóvel, assim como eu. No fundo eu não sabia como iria viver sem o João ao meu lado, ele era a minha base, meu porto seguro e me vi totalmente sem chão, desamparada.
Soltei um riso de tristeza.
-E o pior é que justamente no momento que eu decido “sair da minha concha” eu saio e encontro minha vida totalmente de ponta cabeça, vou ter que aprender a recomeçar minha vida do zero, sem meu filho e sem meu marido.
-Então vamos recomeçar juntos? Eu prometo que tudo será como antes, eu vou provar isso para você.
Balancei a cabeça em tom de negação.
-Não João Pedro. Eu recomecei minha vida há alguns dias, tenho tentado falar com você várias noites seguidas. Preparei jantar para você, para que pudéssemos conversar e você chegou de madrugada. No outro dia a mesma coisa, e no outro. E então resolvo ir atrás de você e me deparo com isso? Tentar bater nessa mesma tecla, não significa recomeçar, nós vamos continuar onde estamos. E eu não quero mais isso.
Eu me levantei e subi as escadas. Fui até meu quarto e resolvi tomar um banho para me libertar de todo aquele sentimento negativo. Tirei meus sapatos, meu vestido, meu colar e fui até o meu banheiro. Olhei-me no espelho me sentindo uma idiota, trocada por uma vadia qualquer. Minhas expressões estavam pesadas, me sentia cansada, derrotada.
Tirei minha lingerie e fui para debaixo do chuveiro e deixei a água morna lavar meu corpo, levando embora todas as energias negativas dos últimos dias, e comecei a chorar pensando na situação em que eu me encontrava, pois antes me sentia a pessoa mais feliz do mundo, com meu filho maravilhoso, meu casamento perfeito com um homem maravilhoso que além do meu melhor amigo era o amor da minha vida. E em seguida, me vi sem nada, sem filho, sem o amor da minha vida, e não sabia mais nem se eu ainda tinha um emprego.
A porta do box se abriu e eu continuei de costas. Ele me abraçou enquanto eu estava de costas, e eu senti seu corpo nu encontrando o meu. Senti um arrepio por todo meu corpo, e não consegui ao menos tentar afastá-lo de mim.
João Pedro me virou para que eu ficasse de frente para ele, eu me virei, mas estava com a cabeça baixa, então ele delicadamente levantou minha cabeça me fazendo olhar para ele. Vi nos seus olhos, o mesmo desejo que eu via há tempos, era o meu João, o João por quem me apaixonei.
João abriu a boca, vindo de encontro a minha e nós nos beijamos como não nos beijávamos a meses. Confesso que nem me lembrei que às algumas horas atrás, os lábios dele estavam em outra boca que não fosse a minha.
Aquele beijo me deixava com gosto de quero mais, sentia um calor correr por todo meu corpo, assim como sentia a ereção dele me pressionar. João fechou o chuveiro e me pegou no colo, abrindo a porta do box e seguindo em direção ao quarto. Meu corpo todo molhado entrou em contato com o ar de fora fez com que eu me arrepiasse toda. Então João delicadamente me colocou sobre a nossa cama e começou a me beijar novamente, beijou todo meu corpo, saindo da boca, passando pelo pescoço, ombros, seios, barriga... meu corpo arqueava de tanto prazer, então ele desceu pelas coxas e depois foi ao ponto principal, e nesse momento eu quase morri de tanto prazer. Eu o puxei sobre meu corpo e ele delicadamente penetrou em mim.
Depois que nossos corpos encontraram juntos o mesmo objetivo. João olhou para mim, passando a mão pelo meu rosto.
-Eu te amo Alice, eu nunca amei ninguém em toda a minha vida como eu amo você.
-Eu também te amo!
João me beijou novamente, e quando vi, meu corpo novamente buscando o dele, assim como o corpo dele buscava o meu, e fizemos amor novamente.
Mais tarde, João estava apoiado sobre o cotovelo, me olhando, passando a mão pelo meu corpo.
-Você está tão linda, você é tão linda.
Eu sorri sentindo-me sem graça.
-Esses dias quando eu chegava em casa e não via você, e não sabia onde você estava, eu ficava louco, não queria dar o braço a torcer, mas eu ficava louco. Você me disse que saiu com uma tal de Fernanda na noite anterior, então hoje eu liguei na revista, mas não tinha ninguém com esse nome. Então eu vim atrás de você hoje à tarde, queria saber o que estava acontecendo. Mas você não estava e a Bel não sabia para onde você tinha ido. E eu fiquei ainda mais irado.
Eu o ouvi caladamente.
-Quando eu te vi naquele bar, eu fiquei cego pelo o que havia acontecido. Me senti um farrapo, um idiota, e você lá sentada tão linda, tão dona de si. Era a Alice pela qual me apaixonei, essa Alice decidida, confiante. Eu vi que você estava novamente aberta para a vida quando doou todas as coisas do Pedro. Confesso que chegar em casa e não ver mais as coisas dele foi um choque. Todo o dia quando eu chegava, eu sempre passava pelo quartinho dele e dava uma olhada. Era como se eu tivesse um pouquinho dele fazendo isso. E quando vi tudo vazio, foi um baque. Mas sua atitude foi a mais nobre possível, levando as coisas para o orfanato, e eu lhe confesso que não teria a mesma força que você teve.
Eu suspirei fundo impedindo-me de chorar.
-Alice, eu não posso me imaginar sem você, eu morreria mil vezes sem você ao meu lado. Você é a coisa mais importante para mim agora, eu só tenho você.
-João, o quê...
-Shiuuu. Ele disse colocando seu dedo para que eu não terminasse a frase. -Se você me deixar Alice, a minha outra metade que restou morrerá, aí não sobrará mais nada. Eu te amo!
Eu permaneci em silêncio. Então ele se deitou ao meu lado, colocando minha cabeça ore o peito dele e nós adormecemos.
Acordei no meio da madrugada e João estava todo enroscado em meu corpo. Não ficávamos assim desde que Pedro tinha partido. E percebi o quanto eu ainda o amava, mas a imagem dele beijando a moça do bar não parava de martelar em minha cabeça, por mais que eu tentasse me livrar daqueles pensamentos. E eu sabia que seria assim toda vez; seria uma tortura, assim como seria uma tortura toda vez que ele se atrasasse pois eu com certeza desconfiaria dele, imaginaria ele trocando mensagens com ela, encontrando-se com ela e depois voltando para casa, para mim. Eu não saberia viver daquela maneira, não saberia viver um relacionamento cheio de desconfiança.
Comecei a rezar silenciosamente para que aqueles pensamentos saíssem de minha cabeça e em seguida peguei no sono novamente.
Acordei novamente tendo pesadelos, então resolvi descer e tomar um pouco d’água. Quando passei pela sala, vi o celular do João Pedro junto com a chave do carro sobre o aparador e institivamente fui olhá-lo e me deparei com duas mensagens não lidas que João recebeu enquanto estávamos dormindo, então abri a primeira mensagem.
João, primeiramente adorei sentir o gosto dos seus lábios, e eu acertei quando eu lhe disse que você tinha lábios de quem beijava bem, aliás, você beija maravilhosamente bem. Espero repetir beijos como aqueles muitas e muitas vezes.
Camilla
Senti meu sangue ferver de ódio dentro do meu corpo. Então vi a segunda mensagem.
João, quem era aquela mulher? Não me diga que é sua esposa?
Fiquei preocupada com você. Espero que fique tudo bem.
Me liga sem falta! Beijos
Camilla
-Maldita! Disse para mim mesma.
Nunca imaginei sentir em toda minha vida tamanho ódio de uma pessoa, como senti dela. Ela era o tipo de mulher que não desistiria enquanto não fosse para cama com ele. E eu não estava preparada psicologicamente para lidar com isso. Voltei para meu quarto silenciosamente, fui para o closet, peguei minhas duas malas e então comecei a colocar minhas coisas mais importantes dentro delas. Roupas que eu mais gostava e mais usava, sapatos, maquiagens, joias, perfumes, lingeries...
Abri uma gaveta com documentos importantes e onde eu guardava um dinheiro meu. Peguei todo esse dinheiro e o coloquei em minha bolsa. Saí do quarto levando as malas para o corredor. Fui até o escritório, peguei meu laptop, e uma caixa de fotos que eu havia separado.
Voltei para o quarto, João ainda estava na mesma posição, tudo o que eu mais queria naquele momento era deitar-me ao lado dele e abraça-lo sem nenhuma preocupação. Cheguei a me culpar, por não ter falado com ele no primeiro dia que fui no bar, assim nada daquilo teria acontecido. Olhei para ver as horas e passava das sete da manhã.  Então tomei um banho, coloquei uma calça jeans com uma blusa preta que deixava meus ombros à mostra, uma sapatilha em seguida prendi meus cabelos em um rabo de cavalo e fiz uma maquiagem apenas para disfarçar minhas olheiras.  
Fui até o quarto que era do Pedro e fiquei lembrando de como ele foi feliz naquele lugar, mas infelizmente teve tão pouco tempo, assim como eu tive tão pouco tempo com ele. Então fechei meus olhos, suspirei fundo como se dissesse adeus. Depois desci carregando minhas malas. Fui até a cozinha e preparei o café da manhã. Tive a impressão de ter alguém me observando, quando olhei para trás me deparei com João.
O olhar de João era triste. Ele estava usando apena cuecas boxer branca.
-Por que dessas malas? Eu achei que pelo menos você pudesse pensar mais um pouco.
Eu coloquei o bule de café sobre o balcão da cozinha e sentei-me em uma banqueta me servindo do café.
-Posso colocar para você?
Ele não disse nada, apenas ficou me observando, mas depois de uns segundos sentou-se ficando de frente para mim. Tomei um gole do café e coloquei delicadamente a xícara sobre o pires.
-Fala comigo, por favor? Diga que vai pensar sobre nós. Foi tão perfeito ter você de volta em meus braços, então significa que não acabou, que podemos tentar.
Eu suspirei fundo, tentando encontrar as palavras certas.
-João Pedro, eu não vou saber lidar com minha insegurança. Sabe, eu até pensei mesmo em tentar, mas quando fechei os olhos, aquela imagem não saía da minha cabeça. Tentei dormir novamente, mas então sonhei com tudo aquilo novamente. E quer saber, vai ser assim até que eu consiga perdoar você, mas agora eu sinceramente não consigo. Foi perfeito mesmo ter você novamente, mas não é o suficiente.
João me olhou decepcionado.
-A Camilla sua nova amiga, deixou duas mensagens em seu celular. É bom você dar uma olhada, quem sabe isso não te anime um pouco.
-Alice, ela não interessa para mim, o que me interessa é você, é nosso casamento.
-Se você tivesse se lembrado disso ontem antes de ir para aquele bar, tenho certeza que tudo seria diferente. Nós teríamos nos entendido sem que nada disso tivesse acontecido. Mas você estava tão ansioso em encontrá-la novamente que nem lembrou que tinha uma esposa que pudesse estar te esperando numa noite de sexta-feira. E eu disse que não pararia só naquele beijo, não precisei nem me esforçar para adivinhar o que vinha depois, a prova está lá no seu celular.
Desci da banqueta, coloquei a xícara dentro da pia, peguei uma das malas e levei para o carro, quando entrei vi que João estava chorando, peguei a outra mala e também a coloquei no porta-malas e voltei para a sala para pegar o resto das coisas.
Fui até ele e dei-lhe um beijo no rosto.
-Se cuida!
-Eu te amo Alice, não faz isso comigo. Ele disse tentando me segurar.
-Não João! Não torne as coisas ainda mais difíceis, por favor. Eu disse me soltando dele.
Então fui para o meu carro, e ele foi atrás de mim.
-Não Alice, não vai, por favor. Ele disse segurando minha mão.
-Adeus, João Pedro.
Entrei em meu carro e saí em seguida, sem olhar para trás.

5 comentários:

  1. Está ficando cada vez mais triste! Mas ele se amam, e acho que merecem uma segunda chance!

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  2. ai Deus.... como ela é forte ... kkk.. eu acho que já teria dado uma segunda chance no momento em que ele deu o primeiro beijo kkkkkkk .... vamos aguardar. ..

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  3. que triste espero q eles .se entendam pois eles se amam muito

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