" Recomeços "
Parte 08
Por Érika Gomes Prevideli
Os
dias foram passando, no começo, logo após a morte de Pedro, a casa estava mais
movimentada, pessoas iam e vinham para saberem como eu e o João estávamos
reagindo. Ao mesmo tempo que essas pessoas mexiam em nossas feridas, elas
também preenchiam um pouco da nossa solidão. Mas a vida precisava voltar ao
normal. Maria Helena e José Pedro voltaram para casa, assim como minha mãe e
Fábio. Malu e Bruno nos visitavam esporadicamente, talvez eles tivessem medo
que a presença de Mariah alavancasse ainda mais minha tristeza, e com certeza
era assim que eu me sentia ao ver a melhor amiga do meu filho.
Eu
e João Pedro passamos a ficar cada vez mais sozinhos, ele ainda não tinha
voltado a trabalhar, pois havia se afastado do emprego, então éramos apenas os
dois.
No
começo estávamos em perfeita sintonia, um ajudando o outro, um dando força para
o outro, mas depois o silêncio começou a nos rondar. Ele achava que eu o
culpava pelo acidente, chegou a me questionar várias vezes sobre isso, e eu
sempre negava. Mas no fundo, eu não conseguia entender o porquê ele não levou o
Pedro com ele, segurando na mãozinha dele, protegendo-o. Talvez Pedro tivesse
se assustado pensando que o pai fosse embora sem ele, talvez ele tivesse apenas
se distraído da ordem que o pai havia lhe dado, mas a questão era que ele não
tinha que ficar sozinho, em uma das esquinas mais movimentadas de Curitiba.
Provavelmente
meu olhar estivesse revelando o que eu sentia, ou meu silêncio falasse por mim.
Mas o fato foi que eu comecei a me tornar uma pessoa amarga, depressiva, calada
e totalmente sem perspectiva.
Muitas
vezes eu queria questionar o João Pedro, mas eu não tinha o direito de lhe
torturar ainda mais, ele já estava sofrendo o bastante. Mas eu também não
conseguia mais ser uma pessoa agradável ao lado dele, uma pessoa que lhe
isentasse de sua parcela de culpa, se é que ele tivesse.
Às
vezes eu olhava para ele, com vontade de consolá-lo, para que ele parasse de se
culpar, mas outras vezes, eu me pegava olhando para ele com ressentimento,
raiva, sei lá.
E
nós fomos nos afastando, nos afastando, nos silenciando cada vez mais. Nunca
chegamos a discutir, mas também nos falávamos somente o necessário.
Cerca de três meses após o acidente, João
Pedro me procurou na cama, ele me abraçou dizendo que sentia minha falta. Eu
não conseguia sequer abraça-lo, era como se estivesse congelada, mas eu acabei
cedendo, apenas para satisfazer as necessidades dele, então emprestei meu corpo
a ele. Quando João acabou de fazer o que estava querendo, ele saiu de cima do
meu corpo, olhou no fundo dos meus olhos e em seguida sentou-se na cama
balançando a cabeça negativamente.
-Você
nunca vai me perdoar, não é?
-João
Pedro eu só estou cansada, não é nada disso. Disse virando-me para o lado
oposto ao que ele estava.
Chorei
caladamente, pois eu queria poder abraçar meu marido com toda a ternura de
antes, mas eu não conseguia.
Depois
daquela noite, nossa relação ficou ainda mais fria, João Pedro saía bem cedo e
voltava à noite. Eu não perguntava a ele sobre seu dia, e nem ele sobre o meu.
Estávamos
em outubro, e no dia quatro Mariah faria aniversário. Mas a família inteira
estava sem clima, então Malu e Bruno fizeram apenas um bolo para ela, para
cantar os parabéns, somente para não passar em branco. Aquele dia foi para mim
um dos piores, pois eu imaginava o tempo todo Pedro brincando ao lado de
Mariah, depois cantando parabéns e ajudando-a a assoprar a velinha, como ele
amava fazer.
Saí
da casa de Malu disposta a colocar um fim em tudo, cheguei em casa, peguei
diversos comprimidos diferentes e fui ao banheiro. Assim que os coloquei em
minha boca, senti como se alguma coisa me impedisse, e me lembrei do Pedro
dizendo o quanto amava a família dele, e eu não tinha o direito de pôr fim no
que havia sobrado da nossa família.
Joguei
os remédios fora e caí no choro, me sentindo impotente.
...
Havia
passado quatro meses após o acidente, e na semana seguinte do aniversário de
Mariah, eu e minha mãe começamos a empacotar as coisas de Pedro, separei a
maioria das coisas para doação, e fiquei apenas com o que ele mais gostava. Eu
estava me desapegando das coisinhas dele, afinal, ver o quarto dele montado, me
dava a sensação de que ele voltaria a qualquer momento, e isso não iria
acontecer. Por mais que me doeu desfazer de tudo, era o melhor a ser feito.
Assim que minha mãe foi embora, toda a minha fortaleza, que até então eu estava
demonstrando, desabou. Entrei no quarto dele e estava completamente vazio,
assim como meu coração, e novamente eu desabei a chorar. João Pedro chegou mais
cedo naquele dia, e quando viu o quarto de Pedro sem nada, ficou parado pelo
menos uns quinze minutos em pé na porta do quarto, provavelmente ele teve a
mesma reação que eu. Cheguei ao lado dele e vi que ele estava chorando e
chorando muito, então eu o abracei, mas dessa vez foi ele quem não me abraçou,
e saiu em seguida me deixando sozinha em casa.
João
Pedro chegou de madrugada, eu estava deitada, mas sem conseguir dormir. Ele
entrou em nosso quarto, tentando fazer silêncio para que eu não acordasse.
-João,
onde você estava? Fiquei preocupada.
-Ah,
por favor Alice, não me venha com essa, você só tem me ignorado e agora diz que
ficou preocupada. Ele disse com desdém.
Foi
tomar banho e em seguida caiu em nossa cama, dormindo em segundos.
Na
noite seguinte foi a mesma coisa, João Pedro chegou de madrugada, cheirando a
bebida, apenas tomava um banho e caia na cama para dormir. E foi assim no dia
seguinte, e no outro e no outro.
Eu
estava enlouquecendo e nossa relação foi ficando cada vez mais insustentável.
Uma
semana após ter desmontado o quarto de Pedro, minha mãe e Malu apareceram em
minha casa, elas pareciam unidas para me dar uma chacoalhada.
Tomamos
um chá da tarde juntas, preparado por minha mãe. Falamos de outros assuntos,
sem ser de Pedro, de João Pedro, enfim da minha vida. Até que chegou um momento
em que minha mãe segurou minha mão.
-Pode
falar, mãe, o que vocês têm a me dizer? Eu percebi que vocês não vieram aqui à
toa.
Minha
mãe olhou para Malu, que pareceu mais determinada.
-Não
Alice, não viemos à toa mesmo. Eu e sua mãe precisamos falar com você, sobre
você, sobre sua vida, sobre seu marido.
Eu
suspirei fundo, pois elas cutucaram exatamente onde doía.
-Alice,
não há dor no mundo que se compare a dor de perder um filho, eu sei o que você
deve estar passando.
-Não
Malu, você não sabe, você não tem ideia da dor que eu estou passando, da dor em
saber que eu nunca mais verei meu filho entrar por aquela porta.
-Você
está certa Alice, eu não sei a dimensão da dor que você está sentindo, mas sabe
o que eu sei? Eu sei que infelizmente o Pedro se foi, é péssimo isso, é terrível,
mas ele se foi, só que você ficou. Eu não estou aqui para lhe pedir que você
esqueça o que passou, porque não dá! Ninguém nunca vai esquecer a dor de perder
um filho, mas eu preciso pedir a você que tente superar, que tente se reerguer
e seguir em frente. Se o Pedro visse você assim, ele provavelmente não gostaria
dessa Alice, olhe para você, você está um caco humano, está abatida, sem cor,
magra, desleixada. Essa não é a Alice que eu sempre tive orgulho, essa não é a
mãe do Pedro, que ele vivia dizendo que era linda.
-O
que vocês querem que eu faça? Me diga Malu?
-Sabe
o que eu quero que você faça, que você retome sua vida. Você nunca vai deixar
de ser a mãe do Pedro, e ele nunca sairá de dentro do seu coração e nem deve. Mas
leve-o consigo em seu coração e o deixe orgulhoso de você onde quer que ele
esteja. Os meses se passaram Alice, e você nem da sua casa conseguiu sair. Eu
sei que você está de luto, sim, é compreensível querer ter tido um tempo para
juntar os cacos, mas junte logo esses cacos antes que eles virem pó, ficando
impossíveis de se juntarem novamente. O Pedro foi a coisa mais linda que podia
acontecer em sua vida e aconteceu, mas agora ele se foi e você terá que seguir
sem ele. É duro, é cruel eu te dizer isso, eu sei que é, mas é a verdade. Olha
o seu casamento, olha o João Pedro a situação que se encontra.
-O
que tem o João Pedro? Malu me diz, se
fosse com o Bruno, se o Bruno tivesse sido negligente com a Mariah, provocando
uma fatalidade, você o perdoaria?
-Aí
é que está o grande problema minha filha, o João Pedro não causou nada. Você
está atribuindo uma culpa que não é dele, você o culpa diariamente, mesmo não o
acusando em palavras, mas sim em gestos, eu digo isso porque eu vejo você
agindo friamente com ele várias e várias vezes. Minha filha, ninguém teve
culpa, nem o João e nem o Pedro, e poderia ter sido com você. Você já pensou
nisso?
-Ah,
mãe, não me vem com essa, eu nunca deixaria o Pedro sozinho, nunca.
-Olha
Alice, eu conheço o João Pedro e presenciei o quanto ele foi um pai maravilhoso
esse tempo todo, tanto que o Pedro tinha adoração por ele, então, o João Pedro
assim como você, nunca faria algo que pudesse colocar a vida do Pedro em risco.
Por isso não o culpe, aliás que ele só estava fazendo a vontade do filho em
parar na sorveteria para tomar um sorvete. Quando é para acontecer algo, vai
acontecer pode ter certeza, mesmo que se vocês dois estivessem juntos, ou
tivessem vindo para a casa direto, ou mesmo se você tivesse ido buscá-lo, essas
coisas não têm explicação. Você não pode julgá-lo, ninguém pode. Só a culpa que
ele carrega, já é torturante demais, imagina saber que a própria esposa também
o culpa.
Eu
fiquei em silêncio, sem saber o que pensar.
-Eu
tento conversar com ele, mas não consigo, parece que uma parede foi construída
entre nós. Eu não sei mais como agir.
-Derruba
essa parede, Alice. Seu marido também precisa de ajuda, precisa ter a esposa
novamente ao lado dele, ele perdeu o filho e a esposa de uma vez só. Mas a
esposa ele pode ter de volta, basta ela querer.
-Ele
está bebendo demais, tem chegado toda a noite tarde, cheirando bebida.
-Eu
sei Alice, uma dessas noites ele bebeu assim em minha casa, estava desesperado
dizendo que não aguenta mais olhar para você e você ignorá-lo completamente,
disse que você nunca o culpou diretamente, mas que é nítido o que você pensa a
respeito, e o duro que isso é nítido para quem está perto de vocês, você não
consegue mais disfarçar.
-Filha
a Malu tem razão, eu tenho visto a tristeza do João Pedro e a sua também, mas
isso poderia acontecer com qualquer pessoa, e se fosse o contrário, como você
se sentiria? E se você tivesse ido buscar o Pedro e acontecesse um acidente,
será que João culparia você? Eu acho que não.
Eu
suspirei fundo, elas tinham razão.
-Eu
vou tentar falar com ele, eu prometo.
-E
quanto a você? Você também vai tentar melhorar?
-Eu
vou melhorar, vocês vão ver.
-Isso
minha amiga, é assim que eu precisava ouvir você dizer, não vai ser fácil, mas
vocês vão superar, ou pelo menos aceitar.
13
Saindo
da redoma que eu mesma criei
Naquele
final de tarde, saí de casa, fui para um salão de beleza, onde cortei meus
cabelos, pintei-os, fiz a sobrancelha, fiz as unhas e me depilei. Quando me
olhei no espelho, isso não me fez me sentir melhor, mas pelo menos estava mais
apresentável.
Me
arrumei, colocando um vestido azul, do qual João gostava muito, tomei uma taça
de vinho para tentar passar o nervosismo, mas não passava. As horas foram
passando, passando e novamente João chegou tardíssimo da noite e bêbado.
-João
eu preciso falar com você. Eu disse indo em direção a ele.
-Quer
saber Alice, vai a merda você e seus sermões. Ele disse passando por mim e indo
dormir no quarto de hospedes, batendo a porta na minha cara.
Na
noite seguinte, eu fui conversar com Bruno, pedindo que ele me ajudasse.
-Bruno,
você é o melhor amigo do João além de irmão. Talvez eu não tenha agido da
melhor forma, mas eu queria que alguém pelo menos tentasse me entender, a dor é
insuportável, eu fiquei até sem direção, sem noção das coisas, mas eu quero
reparar meus erros, eu preciso conversar com o João Pedro, mas agora é ele quem
não quer falar comigo, está chegando tarde todas as noites, está bebendo
demais, eu não sei o que fazer.
-Olha
Alice, assim como eu não quero que você culpe o João Pedro pelo o que
aconteceu, eu também não posso atirar pedras em você. Você perdeu seu filho,
seu bem mais preciso, e infelizmente não estava conseguindo superar isso, então
é compreensível, não que eu estou lhe dando razão, não é isso, mas eu sabia que
você ia cair em si mais cedo ou mais tarde, e esse momento chegou. Você estava
no fundo do poço, mas agora começou a se levantar e já está lutando para sair
dele. Agora é o João Pedro quem está mal, ele está na pior se você quer saber,
então estenda a mão para ele que juntos vocês dois vão sair dessa. Quer saber,
não o espere mais para falar com ele. Ele fica sempre no Village´s Bar, tanto
que é o barzinho preferido de vocês, então vá até ele.
-É,
você tem razão, eu preciso ter uma conversa com o João em um lugar neutro, sem
ser na nossa casa, será melhor.
-Isso,
Alice, tenho certeza que vai dar tudo certo. Ele só está esperando você se
reerguer. Vocês precisam seguir em frente.
Naquela
noite, acabei jantando com Malu, Mariah e Bruno. Malu ficou feliz em ver meu
visual, e eu devia isso a ela. Cheguei em casa, João já estava dormindo, o que
me deixou surpresa, afinal, ainda era cedo perto dos horários que ele vinha
chegando.
No
dia seguinte, levantei cedo, preparei o café da manhã para ele, quando ele
desceu ficou surpreso.
-Está
tudo bem?
-Está
ficando tudo bem.
-Você
está diferente, cortou o cabelo, voltou a sair de casa. Fico feliz em ver você
melhorando.
-Eu
sei João, não está sendo fácil nem para mim nem para você, mas nós vamos
superar isso.
João
Pedro apenas concordou.
-Bom,
eu preciso ir. Ele disse olhando para o relógio e levantando-se em seguida.
Eu
não tive reação em ir beijá-lo. Ele saiu, mas depois voltou me selando os
lábios.
-Vejo
você à noite. Ele disse e saiu em seguida.
Naquele
final de tarde me arrumei toda, coloquei minha melhor roupa, passei pelo quarto
de Pedro e tive uma saudade imensa de ver aquele quarto bagunçado, com
brinquedos espalhados. Mas não, só havia coisas encaixotadas. Respirei fundo e
saí.
Pouco
mais de meia hora, cheguei no Village’s. Sentei-me em uma mesa reservada, assim
quando João Pedro chegasse ficaríamos mais à vontade. Poucos minutos depois ele
entrou, carregando o terno em um dos braços. Sua aparência era abatida e
cansada. Quando fui me levantar, percebi que ele foi direto ao balcão,
sentando-se entre um outro cara engravatado e uma loura. Não havia nenhum lugar
para mim, então resolvi observá-lo de longe até tomar coragem, pois eu me sentia
nervosa.
O
cara engravatado disse alguma coisa para ele, e ele apenas concordou, em
seguida pediu um uísque. João olhava fixamente para dentro do bar, parecia
perdido, assim como eu. O cara engravatado disse mais alguma coisa, e saiu em
seguida. Peguei minhas coisas para me sentar ao lado dele, mas vi que dessa vez
era a moça loura ao lado dele que dizia algo e novamente ele concordava. Era
uma moça elegante e parecia ser bem nova. Aquilo me fez ferver por dentro. João
olhou para ela e eles começaram a conversar, até que eu vi um meio sorriso
saindo dos lábios dele. Eu queria ir até eles, tentar impedi-lo de o pior
acontecer, mas não conseguia, queria ver no que aquela conversa ia dar.
Ela
conversava, gesticulava e ele a observava, como se a admirasse. Eles riram de
algo e ele pediu outra bebida, ela também. Eu sentia meu coração esmigalhado só
em ver os sorrisos que ela havia conseguido arrancar dele. Eles conversaram
mais alguns minutos e então o celular dela tocou. Enquanto ela atendia, João
tirou a carteira do bolso, tirando algum dinheiro, deixando sobre o balcão e
saindo em seguida. Ele não me viu, e eu continuei ali para ver se a garota iria
sair atrás, mas logo chegou uma amiga e elas ficaram conversando e bebendo. Saí
do bar sem saber o que fazer, me sentia uma idiota, que estava seguindo o
próprio marido. Fiquei dirigindo sem rumo por algum tempo e voltei para casa. O
carro de João Pedro estava na garagem, e assim que cheguei vi que ele já havia
tomado banho e estava dormindo no quarto de hospedes. Senti meu coração
apertado, pois sentia meu casamento escorregar pelas minhas mãos. Fui até o
quarto de Pedro, onde peguei uma caixa e comecei a rever umas fotos da nossa
família. Chorei muito sem saber o que fazer, e fui para minha cama tarde da
madrugada.
No
outro dia, abri os olhos e assuntei quando vi João parado na porta do nosso
quarto.
-Você
chegou tarde ontem à noite, onde esteve?
-Eu
saí, precisava dar uma volta, e como você não tem mais horário para chegar em
casa, não quis ficar aqui sozinha.
-Eu
não demorei ontem, cheguei antes das nove horas.
Aquilo
era verdade, pelo horário que ele saiu do bar, chegaria esse horário mesmo.
-Nos
desencontramos então. Eu disse tentando tampar a claridade vindo da porta, pois
estava cega de dor de cabeça.
-Bom,
então, eu já vou indo. Ele disse saindo e encostando a porta do quarto e eu
afundei meu rosto entre os travesseiros, mas a dor era imensa. Levantei-me e
fui até a cozinha tomar um analgésico.
João
ainda estava na cozinha tomando um copo de suco, seu cheiro era delicioso,
cheiro de perfume misturado com limpeza.
-Achei
que fossemos tomar café juntos novamente. Ele disse.
-E
eu achei que meu marido fosse dormir em nossa cama, mas ele anda preferindo o
quarto de hospedes e os bares da cidade. Eu disse tomando meu analgésico e
voltando para o quarto.
Poucos
minutos depois, ouvi o carro dele saindo cantando pneus.
Naquela
tarde, peguei todos os brinquedos e as roupas de Pedro que estavam encaixotados
e levei a um orfanato da cidade. As crianças fizeram a festa, e eu me animei em
ver a alegria delas. Sabia que se Pedro visse aquilo, ficaria feliz em ajudar
aquelas crianças. Fiquei horas ali, conversei com várias crianças, cada uma
mais sofrida do que a outra e fiquei pensando como a vida é ingrata com algumas
pessoas, que sofrem tanto desde cedo.
Saí
do orfanato e fui finalmente fazer meus óculos, pois como não saía desde a
morte de Pedro, nem tive tempo para fazê-los. Fui para a casa de minha mãe onde
passei o resto da tarde. Eu tinha uma opção, ou voltava para casa, ou tentaria
falar com João no Village’s novamente, ou então pelo menos observava se ele
estaria conversando com a garota novamente. E foi isso que eu fiz.
Dessa
vez cheguei no Village´s e João Pedro já estava sentado no balcão bebendo
novamente. Estava novamente sem terno, camisa dobrada nas mangas e tomando
uísque. Então a tal loura chegou, com saia até o joelho, blusa de seda e um
terninho por cima, fazendo o estilo executiva. Ela parou deu uma olhada e
seguiu em direção ao balcão, sentando-se ao lado de João. Ela pediu uma bebida
e João a olhou cumprimentando-a sem graça.
A
bebida dela chegou, e ela retirou seu terninho, ficando apenas com a blusa de
seda de alcinha. João Pedro a olhou, disfarçando em seguida. Ele pediu outra
dose de uísque o quando o garçom entregou disse a ele alguma coisa, fazendo que
João desse um sorriso, a garota ao lado também sorriu e eles começaram a
conversar. Dessa vez o celular dela não tocou, e eles conversaram muito, e
repondo as bebidas assim que elas foram acabando. Eu me sentia traída, afinal
eu nunca saí procurando consolo com algum cara por aí. E as horas foram
passando, e a conversa deles ficando cada vez mais solta, assim como as
risadas. O que mais me doía era que João Pedro sabia que eu estava em casa sozinha,
mas ele parecia não se importar mais. Algum tempo depois, João Pedro olhou para
o relógio e provavelmente se espantou com os horários, pois passava da meia
noite. Ele pegou um dinheiro, e fez sinal para o garçom cobrar o dele e o dela,
ela disse alguma coisa para ele, mas ele apenas deu um sorriso, disse algo e
saiu em seguida.
E
eu novamente fiquei para ver a reação da garota, que até torceu o pescoço para
acompanhá-lo com os olhos. Fiquei me remoendo por dentro para saber o que tanto
os dois conversavam, e o pior, era que a vadia está vendo a aliança na mão
dele, mas parecia não se importar com o fato dele ser casado. A verdade era uma
só, a paquera estava lançada, e ambos estavam correspondendo, e tinha certeza
que se eu desse um pouco mais de corda, João Pedro se enforcaria.
Cheguei
em casa já passava das duas da manhã, estava arrasada e possessa ao mesmo
tempo, além de tudo, até a conta dela ele quem pagou com nosso dinheiro.
João
Pedro estava em nossa cama, deitado apenas de cueca boxers, me troquei e fui
para o quarto de hospedes, mas me arrependi e voltei para minha cama no mesmo
instante. Eu não ia além de tudo sair da minha cama.
Não
consegui pregar os olhos a noite toda. João Pedro desceu e a mesa do café
estava pronta. E eu estava sentada no sofá lendo jornal.
-Bom
dia!
-Bom
dia. Respondi sem olhar na direção dele.
-Você
saiu ontem novamente? Ele perguntou.
-É,
eu saí com uma amiga da revista que eu não via a algum tempo. Mas porque você
veio direto do escritório? Se eu soubesse nem teria saído.
-Não,
eu tomei uma com o pessoal do escritório, mas é que eu cheguei você não estava
novamente, achei estranho.
-Ah,
me desculpa se eu preocupei você, mas é que eu só saí para jantar, e a hora
passou que nós nem vimos.
-Que
amiga? Ele perguntou enquanto tomava um gole de café.
Pensei,
mas não vinha ninguém em mente.
-Ela
fez faculdade comigo, e começou a trabalhar na revista tem uns dois meses,
ontem quando eu passei de lá, nos encontramos e combinamos de sair, ela chama
Fernanda, você não conhece. Eu disse dobrando a folha do jornal e olhando
fixamente para ele. E você, com quem saiu?
-Com
o pessoal do escritório, já disse.
-Sim,
mas quem estava?
-
O Carlos e o Eduardo. Ele disse sem olhar para mim.
Maldito
mentiroso. Pensei comigo mesma. Levantei e me sentei ao lado dele.
-Ontem
eu fui a um orfanato e doei todos os brinquedos e todas as roupas do Pedro.
João me olhou sem palavras e eu senti que os olhos dele se encheram de
lágrimas.
-E
como você sente em relação a isso? Ele indagou.
Eu
suspirei, dando um sorriso apenas em me lembras daqueles sorrisos de
agradecimento.
-Me
senti abençoada por ter pelo menos colocado um sorriso naqueles rostinhos, você
não faz ideia das histórias que eu ouvi sobre a vida deles. Saí de lá certa de
que nós não somos os únicos que temos problemas, existem problemas ainda piores
por aí.
João
Pedro me olhou admirado.
-Eu
não esperava isso Alice. Vi você tão debilitada esses últimos dias que estou
orgulhoso em ver você seguindo em frente.
-Pois
é João, tenha certeza de uma coisa, depois do que aconteceu comigo, não tem
mais nada que me derrube, eu me fortaleci, você vai ver, vou dar a volta por
cima. Eu disse deixando-o sozinho na cozinha e voltando para a sala.
João
Pedro ficou tentando decifrar o que eu disse, mas não me perguntou nada e saiu
sem se despedir.
Naquela
tarde, saí com a Malu, onde fomos as compras, depois novamente ao salão e em
seguida a carreguei comigo para o orfanato. Ela ficou encantada assim como eu.
Eu não disse a ela o que estava acontecendo entre eu e o João Pedro. Voltei
para minha casa, e Bel me disse que João Pedro tinha passado de lá me
procurando e tentou me ligar várias vezes. Realmente verifiquei em meu celular
e vi várias chamadas perdida dele.
Eu
não liguei de volta. Mas daquela noite minha conversa com ele não passaria.
Coloquei
um vestidinho preto com a saia rodada, com as mangas que vinham na altura do
cotovelo, ele era charmoso, mas básico e combinei com um colar com vários fios
por cima e um scarpin preto. Meu cabelo estava lindo, muito liso e com leves
luzes acobreadas que havia feito naquela tarde. Estava me sentindo mais segura
de mim do que uns dias atrás. Fiz uma maquiagem marcada, mas não exagerada,
afinal ainda estávamos na sexta-feira.
Cheguei
no Village’s ainda era um pouco cedo e não tinha tanta gente como de costume, fiquei
com medo de João Pedro chegar e me ver, mas caso isso acontecesse, teria minha
conversa, que precisávamos ter, ali mesmo. Um cara com seus vinte e poucos anos,
sentou-se em uma mesa ao meu lado e não parava de me encarar, até que ele se
inclinou, aproximando ainda mais de mim.
-Está
esperando alguém? Posso me sentar aí?
Eu
sorri sem graça.
-Eu
estou esperando meu marido, sinto muito. Eu disse mostrando minha aliança a
ele.
-Oh,
me desculpa. Disse o carinha todo sem graça.
Eu
balancei a cabeça, dando um sorrisinho de desculpas e logo ele saiu. João Pedro
chegou alguns instantes depois, senti um frio na barriga ao vê-lo, dessa vez ele
não estava usando o terno, usava uma camisa preta com as mangas dobradas, calça
jeans e sapatos esportes, estava simplesmente de tirar o fôlego. Provavelmente
ele tinha tomado banho durante a tarde quando foi me procurar, o que me deixou
irada, cega de ciúmes; com certeza ele queria impressionar a vadia executiva.
Percebi
que João estava inquieto, como se procurasse alguém, olhando todo momento a
cada pessoa que entrava no bar, por sorte o bar estava ficando lotado como era
o habitual, assim ele não conseguia me ver, já eu, tinha uma visão privilegiada
de onde ele estava sentado, mesmo com tantas pessoas em minha frente. Foi então que ela chegou, com suas roupas
sociais, era uma vaca disfarçada. O que mais me magoou, foi ver a reação de
João ao vê-la entrar, era como se ele tivesse satisfeito, feliz, aliviado ao
vê-la, e ela abriu um largo sorriso quando o viu.
Comecei
a sentir meu rosto esquentar de raiva, minhas pernas ficaram trêmulas, um
coração estava descompassado.
A
tal moça chegou perto de João, cumprimentando-o com um beijo no rosto, e mesmo
de longe, percebi que ele ficou ruborizado. Ela pediu uma bebida para ela, e
ele pediu outra para ele. O garçom trouxe uma banqueta para ela, colocando bem
ao lado dele, o mais perto possível, e ela sentou-se em seguida, colocando a
bolsa no encosto da banqueta. E eles começaram a conversar animadamente. Era
nítido o estado de felicidade de João Pedro, parecia um adolescente com sua
nova paquera, e ela também não ficava atrás, parecia feliz e totalmente à
vontade ao lado dele.
Outra rodada de bebida para os dois que
continuavam conversando sem parar. Ficava me perguntando de onde eles tiravam
tantas conversas, talvez estivessem se conhecendo, um contava ao outro o que
mais gostava, ou não gostava, assim como fizemos quando nos conhecemos na casa
de praia de João. Mais uma rodada de bebida chegou, João deu um gole em seu
uísque e se levantou indo sentido ao banheiro, ela imediatamente abriu a bolsa,
colocando algo na boca, talvez uma bala ou chicletes, pegou um espelho pequeno
e olhou-se nele, verificando se estava tudo ok. João Pedro voltou, antes de
sentar-se deu uma olhada em torno do bar, como se estivesse analisando se
encontrava alguém de conhecido. Quando ele foi se sentar, ela disse algo a ele
e eu percebi que ele sorriu, e ela inclinou-se segurou o rosto dele e o beijou
na boca, ele meio que assustou com a atitude dela no começo, mas depois
correspondeu muito bem.
Meu
mundo caiu naquele momento, vendo meu marido, meu homem, beijando ou sendo
beijado descaradamente outra mulher, mulher essa que ele mal conhecia. Senti-me
uma patética ali no meio daquele bar sozinha e presenciando tudo aquilo. Chamei
o garçom e pedi outro drinque e a conta, eu não queria e não podia mais olhar
aquela cena, era muito pior que um tapa na cara. Eles pararam de se beijar e
pude perceber que ele ficou sem graça e ela abriu um sorriso e passou a mão
sobre o rosto dele, mas em seguida ela mexeu em sua bolsa e pegou o celular
enquanto dizia algo para ele, e ele respondeu, então eu a vi digitando no
teclado. Provavelmente ela estava pedindo o número do celular dele e claro que
ele falou. Segundos depois João também pegou seu celular repetindo a mesma
atitude dela.
Se
eles não fossem transar aquela noite, transariam a qualquer momento, e tudo
estaria mais facilitado com um sabendo do número do celular do outro.
Eu
estava cega de ódio, de decepção, de tristeza, não sabia mais nem o que pensar.
O garçom trouxe minha bebida, mas disse que a conta viria em seguida. Eu virei
o drinque bebendo-o de uma só vez e em seguida pedi outro drinque.
Olhei
novamente na direção que eles estavam e vi João olhando as horas, tirando em
seguida o dinheiro da carteira e novamente pedindo para o garçom cobrar o dele
e o dela. Apenas com os gestos dele eu sabia o que ele estava dizendo. O garçom
saiu e João Pedro disse algo a ela que colocou sua mão no pescoço dele enquanto
dizia algo, fazendo movimentos com os dedos, até que ela desceu da banqueta,
ficando de frente para ele que continuava sentado e sem nenhum pudor ou coisa
do tipo o beijou novamente, e ele correspondia muito bem cada gesto, cada
movimento.
Vi
que ela sussurrou alguma coisa no ouvido dele e ele concordou balançando a
cabeça.
Ela
pegou a bolsa e o terninho e os dois levantaram-se em seguida. Provavelmente
tinham combinado de irem para um outro lugar.
Eu
tentei não olhar mais para eles, um outro garçom veio trazer minha conta e meu
drinque, e foi então que eu tive uma ideia.
-Você
está vendo aquele cara de camisa preta que está saindo com aquela loura no
balcão?
O
garçom olhou na direção do bar e em seguida balançou a cabeça concordando.
-
Ele é quem vai pagar minha conta, ele está com meu dinheiro. Basta chegar nele
e entregar minha conta e dizer que foi a Alice quem pediu para que ele pagasse.
-Mas
senhora, eu não estou autorizado a fazer isso. E ele já está de saída.
-Isso
o quê? Não estou pedindo nada de absurdo. Eu lhe disse que meu dinheiro está
com ele. Se você não fizer isso darei um escândalo aqui mesmo.
O
garçom concordou seguindo em direção a João e parou sem jeito ao lado dos dois
que estavam saindo juntos.
Meu
coração parecia que ia saltar pela boca, não sabia se tinha feito o certo, mas
foi o melhor que pensei naquele momento.
Enquanto
eles caminhavam em direção da saída, ele a beijou novamente. João estava com as
mãos nas costas dela, passando pelos cabelos, mas provavelmente percebeu o
garçom ao lado deles, interrompendo o beijo no mesmo instante. O garçom disse
algo a ele, entregando-lhe a comanda e apontando em minha direção. João Pedro
imediatamente olhou em minha direção com cara de pânico e nossos olhares se
cruzaram.

😱😱😱😱 q ódio do João affffff q safado, td bem q ela q se afastou dele mas ele n tinha o direito de fazer issoooooo 😠😠😠😠😠
ResponderExcluirô glória .... que bafoo kkkk... esperaremos ansiosamente cenas dos próximos capítulos...não sei o que pensar dessa vez kkk.
ResponderExcluirPutz tadinha da Alice, como se já não bastasse td q ela está passando.....
ResponderExcluirnossa que safado ,...
ResponderExcluirna hora que ela mais precisa dele ele faz isso ........................
nossa que safado ,...
ResponderExcluirna hora que ela mais precisa dele ele faz isso ........................