sexta-feira, 29 de maio de 2015

" Recomeços " Parte 08 Por Érika Prevideli

" Recomeços "


Parte  08
Por Érika Gomes Prevideli

Os dias foram passando, no começo, logo após a morte de Pedro, a casa estava mais movimentada, pessoas iam e vinham para saberem como eu e o João estávamos reagindo. Ao mesmo tempo que essas pessoas mexiam em nossas feridas, elas também preenchiam um pouco da nossa solidão. Mas a vida precisava voltar ao normal. Maria Helena e José Pedro voltaram para casa, assim como minha mãe e Fábio. Malu e Bruno nos visitavam esporadicamente, talvez eles tivessem medo que a presença de Mariah alavancasse ainda mais minha tristeza, e com certeza era assim que eu me sentia ao ver a melhor amiga do meu filho.
Eu e João Pedro passamos a ficar cada vez mais sozinhos, ele ainda não tinha voltado a trabalhar, pois havia se afastado do emprego, então éramos apenas os dois.
No começo estávamos em perfeita sintonia, um ajudando o outro, um dando força para o outro, mas depois o silêncio começou a nos rondar. Ele achava que eu o culpava pelo acidente, chegou a me questionar várias vezes sobre isso, e eu sempre negava. Mas no fundo, eu não conseguia entender o porquê ele não levou o Pedro com ele, segurando na mãozinha dele, protegendo-o. Talvez Pedro tivesse se assustado pensando que o pai fosse embora sem ele, talvez ele tivesse apenas se distraído da ordem que o pai havia lhe dado, mas a questão era que ele não tinha que ficar sozinho, em uma das esquinas mais movimentadas de Curitiba.
Provavelmente meu olhar estivesse revelando o que eu sentia, ou meu silêncio falasse por mim. Mas o fato foi que eu comecei a me tornar uma pessoa amarga, depressiva, calada e totalmente sem perspectiva.
Muitas vezes eu queria questionar o João Pedro, mas eu não tinha o direito de lhe torturar ainda mais, ele já estava sofrendo o bastante. Mas eu também não conseguia mais ser uma pessoa agradável ao lado dele, uma pessoa que lhe isentasse de sua parcela de culpa, se é que ele tivesse.
Às vezes eu olhava para ele, com vontade de consolá-lo, para que ele parasse de se culpar, mas outras vezes, eu me pegava olhando para ele com ressentimento, raiva, sei lá.
E nós fomos nos afastando, nos afastando, nos silenciando cada vez mais. Nunca chegamos a discutir, mas também nos falávamos somente o necessário.
 Cerca de três meses após o acidente, João Pedro me procurou na cama, ele me abraçou dizendo que sentia minha falta. Eu não conseguia sequer abraça-lo, era como se estivesse congelada, mas eu acabei cedendo, apenas para satisfazer as necessidades dele, então emprestei meu corpo a ele. Quando João acabou de fazer o que estava querendo, ele saiu de cima do meu corpo, olhou no fundo dos meus olhos e em seguida sentou-se na cama balançando a cabeça negativamente.
-Você nunca vai me perdoar, não é?
-João Pedro eu só estou cansada, não é nada disso. Disse virando-me para o lado oposto ao que ele estava.
Chorei caladamente, pois eu queria poder abraçar meu marido com toda a ternura de antes, mas eu não conseguia.
Depois daquela noite, nossa relação ficou ainda mais fria, João Pedro saía bem cedo e voltava à noite. Eu não perguntava a ele sobre seu dia, e nem ele sobre o meu.
Estávamos em outubro, e no dia quatro Mariah faria aniversário. Mas a família inteira estava sem clima, então Malu e Bruno fizeram apenas um bolo para ela, para cantar os parabéns, somente para não passar em branco. Aquele dia foi para mim um dos piores, pois eu imaginava o tempo todo Pedro brincando ao lado de Mariah, depois cantando parabéns e ajudando-a a assoprar a velinha, como ele amava fazer.
Saí da casa de Malu disposta a colocar um fim em tudo, cheguei em casa, peguei diversos comprimidos diferentes e fui ao banheiro. Assim que os coloquei em minha boca, senti como se alguma coisa me impedisse, e me lembrei do Pedro dizendo o quanto amava a família dele, e eu não tinha o direito de pôr fim no que havia sobrado da nossa família.
Joguei os remédios fora e caí no choro, me sentindo impotente.
...
Havia passado quatro meses após o acidente, e na semana seguinte do aniversário de Mariah, eu e minha mãe começamos a empacotar as coisas de Pedro, separei a maioria das coisas para doação, e fiquei apenas com o que ele mais gostava. Eu estava me desapegando das coisinhas dele, afinal, ver o quarto dele montado, me dava a sensação de que ele voltaria a qualquer momento, e isso não iria acontecer. Por mais que me doeu desfazer de tudo, era o melhor a ser feito. Assim que minha mãe foi embora, toda a minha fortaleza, que até então eu estava demonstrando, desabou. Entrei no quarto dele e estava completamente vazio, assim como meu coração, e novamente eu desabei a chorar. João Pedro chegou mais cedo naquele dia, e quando viu o quarto de Pedro sem nada, ficou parado pelo menos uns quinze minutos em pé na porta do quarto, provavelmente ele teve a mesma reação que eu. Cheguei ao lado dele e vi que ele estava chorando e chorando muito, então eu o abracei, mas dessa vez foi ele quem não me abraçou, e saiu em seguida me deixando sozinha em casa.
João Pedro chegou de madrugada, eu estava deitada, mas sem conseguir dormir. Ele entrou em nosso quarto, tentando fazer silêncio para que eu não acordasse.
-João, onde você estava? Fiquei preocupada.
-Ah, por favor Alice, não me venha com essa, você só tem me ignorado e agora diz que ficou preocupada. Ele disse com desdém.
Foi tomar banho e em seguida caiu em nossa cama, dormindo em segundos.
Na noite seguinte foi a mesma coisa, João Pedro chegou de madrugada, cheirando a bebida, apenas tomava um banho e caia na cama para dormir. E foi assim no dia seguinte, e no outro e no outro.
Eu estava enlouquecendo e nossa relação foi ficando cada vez mais insustentável.
Uma semana após ter desmontado o quarto de Pedro, minha mãe e Malu apareceram em minha casa, elas pareciam unidas para me dar uma chacoalhada.
Tomamos um chá da tarde juntas, preparado por minha mãe. Falamos de outros assuntos, sem ser de Pedro, de João Pedro, enfim da minha vida. Até que chegou um momento em que minha mãe segurou minha mão.
-Pode falar, mãe, o que vocês têm a me dizer? Eu percebi que vocês não vieram aqui à toa.
Minha mãe olhou para Malu, que pareceu mais determinada.
-Não Alice, não viemos à toa mesmo. Eu e sua mãe precisamos falar com você, sobre você, sobre sua vida, sobre seu marido.
Eu suspirei fundo, pois elas cutucaram exatamente onde doía.
-Alice, não há dor no mundo que se compare a dor de perder um filho, eu sei o que você deve estar passando.
-Não Malu, você não sabe, você não tem ideia da dor que eu estou passando, da dor em saber que eu nunca mais verei meu filho entrar por aquela porta.
-Você está certa Alice, eu não sei a dimensão da dor que você está sentindo, mas sabe o que eu sei? Eu sei que infelizmente o Pedro se foi, é péssimo isso, é terrível, mas ele se foi, só que você ficou. Eu não estou aqui para lhe pedir que você esqueça o que passou, porque não dá! Ninguém nunca vai esquecer a dor de perder um filho, mas eu preciso pedir a você que tente superar, que tente se reerguer e seguir em frente. Se o Pedro visse você assim, ele provavelmente não gostaria dessa Alice, olhe para você, você está um caco humano, está abatida, sem cor, magra, desleixada. Essa não é a Alice que eu sempre tive orgulho, essa não é a mãe do Pedro, que ele vivia dizendo que era linda.
-O que vocês querem que eu faça? Me diga Malu?
-Sabe o que eu quero que você faça, que você retome sua vida. Você nunca vai deixar de ser a mãe do Pedro, e ele nunca sairá de dentro do seu coração e nem deve. Mas leve-o consigo em seu coração e o deixe orgulhoso de você onde quer que ele esteja. Os meses se passaram Alice, e você nem da sua casa conseguiu sair. Eu sei que você está de luto, sim, é compreensível querer ter tido um tempo para juntar os cacos, mas junte logo esses cacos antes que eles virem pó, ficando impossíveis de se juntarem novamente. O Pedro foi a coisa mais linda que podia acontecer em sua vida e aconteceu, mas agora ele se foi e você terá que seguir sem ele. É duro, é cruel eu te dizer isso, eu sei que é, mas é a verdade. Olha o seu casamento, olha o João Pedro a situação que se encontra.
-O que tem o João Pedro?  Malu me diz, se fosse com o Bruno, se o Bruno tivesse sido negligente com a Mariah, provocando uma fatalidade, você o perdoaria?
-Aí é que está o grande problema minha filha, o João Pedro não causou nada. Você está atribuindo uma culpa que não é dele, você o culpa diariamente, mesmo não o acusando em palavras, mas sim em gestos, eu digo isso porque eu vejo você agindo friamente com ele várias e várias vezes. Minha filha, ninguém teve culpa, nem o João e nem o Pedro, e poderia ter sido com você. Você já pensou nisso?
-Ah, mãe, não me vem com essa, eu nunca deixaria o Pedro sozinho, nunca.
-Olha Alice, eu conheço o João Pedro e presenciei o quanto ele foi um pai maravilhoso esse tempo todo, tanto que o Pedro tinha adoração por ele, então, o João Pedro assim como você, nunca faria algo que pudesse colocar a vida do Pedro em risco. Por isso não o culpe, aliás que ele só estava fazendo a vontade do filho em parar na sorveteria para tomar um sorvete. Quando é para acontecer algo, vai acontecer pode ter certeza, mesmo que se vocês dois estivessem juntos, ou tivessem vindo para a casa direto, ou mesmo se você tivesse ido buscá-lo, essas coisas não têm explicação. Você não pode julgá-lo, ninguém pode. Só a culpa que ele carrega, já é torturante demais, imagina saber que a própria esposa também o culpa.
Eu fiquei em silêncio, sem saber o que pensar.
-Eu tento conversar com ele, mas não consigo, parece que uma parede foi construída entre nós. Eu não sei mais como agir.
-Derruba essa parede, Alice. Seu marido também precisa de ajuda, precisa ter a esposa novamente ao lado dele, ele perdeu o filho e a esposa de uma vez só. Mas a esposa ele pode ter de volta, basta ela querer.
-Ele está bebendo demais, tem chegado toda a noite tarde, cheirando bebida.
-Eu sei Alice, uma dessas noites ele bebeu assim em minha casa, estava desesperado dizendo que não aguenta mais olhar para você e você ignorá-lo completamente, disse que você nunca o culpou diretamente, mas que é nítido o que você pensa a respeito, e o duro que isso é nítido para quem está perto de vocês, você não consegue mais disfarçar.
-Filha a Malu tem razão, eu tenho visto a tristeza do João Pedro e a sua também, mas isso poderia acontecer com qualquer pessoa, e se fosse o contrário, como você se sentiria? E se você tivesse ido buscar o Pedro e acontecesse um acidente, será que João culparia você? Eu acho que não.
Eu suspirei fundo, elas tinham razão.
-Eu vou tentar falar com ele, eu prometo.
-E quanto a você? Você também vai tentar melhorar?
-Eu vou melhorar, vocês vão ver.
-Isso minha amiga, é assim que eu precisava ouvir você dizer, não vai ser fácil, mas vocês vão superar, ou pelo menos aceitar.



13
Saindo da redoma que eu mesma criei

Naquele final de tarde, saí de casa, fui para um salão de beleza, onde cortei meus cabelos, pintei-os, fiz a sobrancelha, fiz as unhas e me depilei. Quando me olhei no espelho, isso não me fez me sentir melhor, mas pelo menos estava mais apresentável.
Me arrumei, colocando um vestido azul, do qual João gostava muito, tomei uma taça de vinho para tentar passar o nervosismo, mas não passava. As horas foram passando, passando e novamente João chegou tardíssimo da noite e bêbado.
-João eu preciso falar com você. Eu disse indo em direção a ele.
-Quer saber Alice, vai a merda você e seus sermões. Ele disse passando por mim e indo dormir no quarto de hospedes, batendo a porta na minha cara.
Na noite seguinte, eu fui conversar com Bruno, pedindo que ele me ajudasse.
-Bruno, você é o melhor amigo do João além de irmão. Talvez eu não tenha agido da melhor forma, mas eu queria que alguém pelo menos tentasse me entender, a dor é insuportável, eu fiquei até sem direção, sem noção das coisas, mas eu quero reparar meus erros, eu preciso conversar com o João Pedro, mas agora é ele quem não quer falar comigo, está chegando tarde todas as noites, está bebendo demais, eu não sei o que fazer.
-Olha Alice, assim como eu não quero que você culpe o João Pedro pelo o que aconteceu, eu também não posso atirar pedras em você. Você perdeu seu filho, seu bem mais preciso, e infelizmente não estava conseguindo superar isso, então é compreensível, não que eu estou lhe dando razão, não é isso, mas eu sabia que você ia cair em si mais cedo ou mais tarde, e esse momento chegou. Você estava no fundo do poço, mas agora começou a se levantar e já está lutando para sair dele. Agora é o João Pedro quem está mal, ele está na pior se você quer saber, então estenda a mão para ele que juntos vocês dois vão sair dessa. Quer saber, não o espere mais para falar com ele. Ele fica sempre no Village´s Bar, tanto que é o barzinho preferido de vocês, então vá até ele.
-É, você tem razão, eu preciso ter uma conversa com o João em um lugar neutro, sem ser na nossa casa, será melhor.
-Isso, Alice, tenho certeza que vai dar tudo certo. Ele só está esperando você se reerguer. Vocês precisam seguir em frente.
Naquela noite, acabei jantando com Malu, Mariah e Bruno. Malu ficou feliz em ver meu visual, e eu devia isso a ela. Cheguei em casa, João já estava dormindo, o que me deixou surpresa, afinal, ainda era cedo perto dos horários que ele vinha chegando.
No dia seguinte, levantei cedo, preparei o café da manhã para ele, quando ele desceu ficou surpreso.
-Está tudo bem?
-Está ficando tudo bem.
-Você está diferente, cortou o cabelo, voltou a sair de casa. Fico feliz em ver você melhorando.
-Eu sei João, não está sendo fácil nem para mim nem para você, mas nós vamos superar isso.
João Pedro apenas concordou.
-Bom, eu preciso ir. Ele disse olhando para o relógio e levantando-se em seguida.
Eu não tive reação em ir beijá-lo. Ele saiu, mas depois voltou me selando os lábios.
-Vejo você à noite. Ele disse e saiu em seguida.
Naquele final de tarde me arrumei toda, coloquei minha melhor roupa, passei pelo quarto de Pedro e tive uma saudade imensa de ver aquele quarto bagunçado, com brinquedos espalhados. Mas não, só havia coisas encaixotadas. Respirei fundo e saí.
Pouco mais de meia hora, cheguei no Village’s. Sentei-me em uma mesa reservada, assim quando João Pedro chegasse ficaríamos mais à vontade. Poucos minutos depois ele entrou, carregando o terno em um dos braços. Sua aparência era abatida e cansada. Quando fui me levantar, percebi que ele foi direto ao balcão, sentando-se entre um outro cara engravatado e uma loura. Não havia nenhum lugar para mim, então resolvi observá-lo de longe até tomar coragem, pois eu me sentia nervosa.
O cara engravatado disse alguma coisa para ele, e ele apenas concordou, em seguida pediu um uísque. João olhava fixamente para dentro do bar, parecia perdido, assim como eu. O cara engravatado disse mais alguma coisa, e saiu em seguida. Peguei minhas coisas para me sentar ao lado dele, mas vi que dessa vez era a moça loura ao lado dele que dizia algo e novamente ele concordava. Era uma moça elegante e parecia ser bem nova. Aquilo me fez ferver por dentro. João olhou para ela e eles começaram a conversar, até que eu vi um meio sorriso saindo dos lábios dele. Eu queria ir até eles, tentar impedi-lo de o pior acontecer, mas não conseguia, queria ver no que aquela conversa ia dar.
Ela conversava, gesticulava e ele a observava, como se a admirasse. Eles riram de algo e ele pediu outra bebida, ela também. Eu sentia meu coração esmigalhado só em ver os sorrisos que ela havia conseguido arrancar dele. Eles conversaram mais alguns minutos e então o celular dela tocou. Enquanto ela atendia, João tirou a carteira do bolso, tirando algum dinheiro, deixando sobre o balcão e saindo em seguida. Ele não me viu, e eu continuei ali para ver se a garota iria sair atrás, mas logo chegou uma amiga e elas ficaram conversando e bebendo. Saí do bar sem saber o que fazer, me sentia uma idiota, que estava seguindo o próprio marido. Fiquei dirigindo sem rumo por algum tempo e voltei para casa. O carro de João Pedro estava na garagem, e assim que cheguei vi que ele já havia tomado banho e estava dormindo no quarto de hospedes. Senti meu coração apertado, pois sentia meu casamento escorregar pelas minhas mãos. Fui até o quarto de Pedro, onde peguei uma caixa e comecei a rever umas fotos da nossa família. Chorei muito sem saber o que fazer, e fui para minha cama tarde da madrugada.
No outro dia, abri os olhos e assuntei quando vi João parado na porta do nosso quarto.
-Você chegou tarde ontem à noite, onde esteve?
-Eu saí, precisava dar uma volta, e como você não tem mais horário para chegar em casa, não quis ficar aqui sozinha.
-Eu não demorei ontem, cheguei antes das nove horas.
Aquilo era verdade, pelo horário que ele saiu do bar, chegaria esse horário mesmo.
-Nos desencontramos então. Eu disse tentando tampar a claridade vindo da porta, pois estava cega de dor de cabeça.
-Bom, então, eu já vou indo. Ele disse saindo e encostando a porta do quarto e eu afundei meu rosto entre os travesseiros, mas a dor era imensa. Levantei-me e fui até a cozinha tomar um analgésico.
João ainda estava na cozinha tomando um copo de suco, seu cheiro era delicioso, cheiro de perfume misturado com limpeza.
-Achei que fossemos tomar café juntos novamente. Ele disse.
-E eu achei que meu marido fosse dormir em nossa cama, mas ele anda preferindo o quarto de hospedes e os bares da cidade. Eu disse tomando meu analgésico e voltando para o quarto.
Poucos minutos depois, ouvi o carro dele saindo cantando pneus.
Naquela tarde, peguei todos os brinquedos e as roupas de Pedro que estavam encaixotados e levei a um orfanato da cidade. As crianças fizeram a festa, e eu me animei em ver a alegria delas. Sabia que se Pedro visse aquilo, ficaria feliz em ajudar aquelas crianças. Fiquei horas ali, conversei com várias crianças, cada uma mais sofrida do que a outra e fiquei pensando como a vida é ingrata com algumas pessoas, que sofrem tanto desde cedo.
Saí do orfanato e fui finalmente fazer meus óculos, pois como não saía desde a morte de Pedro, nem tive tempo para fazê-los. Fui para a casa de minha mãe onde passei o resto da tarde. Eu tinha uma opção, ou voltava para casa, ou tentaria falar com João no Village’s novamente, ou então pelo menos observava se ele estaria conversando com a garota novamente. E foi isso que eu fiz.
Dessa vez cheguei no Village´s e João Pedro já estava sentado no balcão bebendo novamente. Estava novamente sem terno, camisa dobrada nas mangas e tomando uísque. Então a tal loura chegou, com saia até o joelho, blusa de seda e um terninho por cima, fazendo o estilo executiva. Ela parou deu uma olhada e seguiu em direção ao balcão, sentando-se ao lado de João. Ela pediu uma bebida e João a olhou cumprimentando-a sem graça.
A bebida dela chegou, e ela retirou seu terninho, ficando apenas com a blusa de seda de alcinha. João Pedro a olhou, disfarçando em seguida. Ele pediu outra dose de uísque o quando o garçom entregou disse a ele alguma coisa, fazendo que João desse um sorriso, a garota ao lado também sorriu e eles começaram a conversar. Dessa vez o celular dela não tocou, e eles conversaram muito, e repondo as bebidas assim que elas foram acabando. Eu me sentia traída, afinal eu nunca saí procurando consolo com algum cara por aí. E as horas foram passando, e a conversa deles ficando cada vez mais solta, assim como as risadas. O que mais me doía era que João Pedro sabia que eu estava em casa sozinha, mas ele parecia não se importar mais. Algum tempo depois, João Pedro olhou para o relógio e provavelmente se espantou com os horários, pois passava da meia noite. Ele pegou um dinheiro, e fez sinal para o garçom cobrar o dele e o dela, ela disse alguma coisa para ele, mas ele apenas deu um sorriso, disse algo e saiu em seguida.
E eu novamente fiquei para ver a reação da garota, que até torceu o pescoço para acompanhá-lo com os olhos. Fiquei me remoendo por dentro para saber o que tanto os dois conversavam, e o pior, era que a vadia está vendo a aliança na mão dele, mas parecia não se importar com o fato dele ser casado. A verdade era uma só, a paquera estava lançada, e ambos estavam correspondendo, e tinha certeza que se eu desse um pouco mais de corda, João Pedro se enforcaria.
Cheguei em casa já passava das duas da manhã, estava arrasada e possessa ao mesmo tempo, além de tudo, até a conta dela ele quem pagou com nosso dinheiro.
João Pedro estava em nossa cama, deitado apenas de cueca boxers, me troquei e fui para o quarto de hospedes, mas me arrependi e voltei para minha cama no mesmo instante. Eu não ia além de tudo sair da minha cama.
Não consegui pregar os olhos a noite toda. João Pedro desceu e a mesa do café estava pronta. E eu estava sentada no sofá lendo jornal.
-Bom dia!
-Bom dia. Respondi sem olhar na direção dele.
-Você saiu ontem novamente? Ele perguntou.
-É, eu saí com uma amiga da revista que eu não via a algum tempo. Mas porque você veio direto do escritório? Se eu soubesse nem teria saído.
-Não, eu tomei uma com o pessoal do escritório, mas é que eu cheguei você não estava novamente, achei estranho.
-Ah, me desculpa se eu preocupei você, mas é que eu só saí para jantar, e a hora passou que nós nem vimos.
-Que amiga? Ele perguntou enquanto tomava um gole de café.
Pensei, mas não vinha ninguém em mente.
-Ela fez faculdade comigo, e começou a trabalhar na revista tem uns dois meses, ontem quando eu passei de lá, nos encontramos e combinamos de sair, ela chama Fernanda, você não conhece. Eu disse dobrando a folha do jornal e olhando fixamente para ele. E você, com quem saiu?
-Com o pessoal do escritório, já disse.
-Sim, mas quem estava?
- O Carlos e o Eduardo. Ele disse sem olhar para mim.
Maldito mentiroso. Pensei comigo mesma. Levantei e me sentei ao lado dele.
-Ontem eu fui a um orfanato e doei todos os brinquedos e todas as roupas do Pedro. João me olhou sem palavras e eu senti que os olhos dele se encheram de lágrimas.
-E como você sente em relação a isso? Ele indagou.
Eu suspirei, dando um sorriso apenas em me lembras daqueles sorrisos de agradecimento.
-Me senti abençoada por ter pelo menos colocado um sorriso naqueles rostinhos, você não faz ideia das histórias que eu ouvi sobre a vida deles. Saí de lá certa de que nós não somos os únicos que temos problemas, existem problemas ainda piores por aí.
João Pedro me olhou admirado.
-Eu não esperava isso Alice. Vi você tão debilitada esses últimos dias que estou orgulhoso em ver você seguindo em frente.
-Pois é João, tenha certeza de uma coisa, depois do que aconteceu comigo, não tem mais nada que me derrube, eu me fortaleci, você vai ver, vou dar a volta por cima. Eu disse deixando-o sozinho na cozinha e voltando para a sala.
João Pedro ficou tentando decifrar o que eu disse, mas não me perguntou nada e saiu sem se despedir.
Naquela tarde, saí com a Malu, onde fomos as compras, depois novamente ao salão e em seguida a carreguei comigo para o orfanato. Ela ficou encantada assim como eu. Eu não disse a ela o que estava acontecendo entre eu e o João Pedro. Voltei para minha casa, e Bel me disse que João Pedro tinha passado de lá me procurando e tentou me ligar várias vezes. Realmente verifiquei em meu celular e vi várias chamadas perdida dele.
Eu não liguei de volta. Mas daquela noite minha conversa com ele não passaria.
Coloquei um vestidinho preto com a saia rodada, com as mangas que vinham na altura do cotovelo, ele era charmoso, mas básico e combinei com um colar com vários fios por cima e um scarpin preto. Meu cabelo estava lindo, muito liso e com leves luzes acobreadas que havia feito naquela tarde. Estava me sentindo mais segura de mim do que uns dias atrás. Fiz uma maquiagem marcada, mas não exagerada, afinal ainda estávamos na sexta-feira.
Cheguei no Village’s ainda era um pouco cedo e não tinha tanta gente como de costume, fiquei com medo de João Pedro chegar e me ver, mas caso isso acontecesse, teria minha conversa, que precisávamos ter, ali mesmo. Um cara com seus vinte e poucos anos, sentou-se em uma mesa ao meu lado e não parava de me encarar, até que ele se inclinou, aproximando ainda mais de mim.
-Está esperando alguém? Posso me sentar aí?
Eu sorri sem graça.
-Eu estou esperando meu marido, sinto muito. Eu disse mostrando minha aliança a ele.
-Oh, me desculpa. Disse o carinha todo sem graça.
Eu balancei a cabeça, dando um sorrisinho de desculpas e logo ele saiu. João Pedro chegou alguns instantes depois, senti um frio na barriga ao vê-lo, dessa vez ele não estava usando o terno, usava uma camisa preta com as mangas dobradas, calça jeans e sapatos esportes, estava simplesmente de tirar o fôlego. Provavelmente ele tinha tomado banho durante a tarde quando foi me procurar, o que me deixou irada, cega de ciúmes; com certeza ele queria impressionar a vadia executiva.
Percebi que João estava inquieto, como se procurasse alguém, olhando todo momento a cada pessoa que entrava no bar, por sorte o bar estava ficando lotado como era o habitual, assim ele não conseguia me ver, já eu, tinha uma visão privilegiada de onde ele estava sentado, mesmo com tantas pessoas em minha frente.  Foi então que ela chegou, com suas roupas sociais, era uma vaca disfarçada. O que mais me magoou, foi ver a reação de João ao vê-la entrar, era como se ele tivesse satisfeito, feliz, aliviado ao vê-la, e ela abriu um largo sorriso quando o viu.
Comecei a sentir meu rosto esquentar de raiva, minhas pernas ficaram trêmulas, um coração estava descompassado.
A tal moça chegou perto de João, cumprimentando-o com um beijo no rosto, e mesmo de longe, percebi que ele ficou ruborizado. Ela pediu uma bebida para ela, e ele pediu outra para ele. O garçom trouxe uma banqueta para ela, colocando bem ao lado dele, o mais perto possível, e ela sentou-se em seguida, colocando a bolsa no encosto da banqueta. E eles começaram a conversar animadamente. Era nítido o estado de felicidade de João Pedro, parecia um adolescente com sua nova paquera, e ela também não ficava atrás, parecia feliz e totalmente à vontade ao lado dele.
 Outra rodada de bebida para os dois que continuavam conversando sem parar. Ficava me perguntando de onde eles tiravam tantas conversas, talvez estivessem se conhecendo, um contava ao outro o que mais gostava, ou não gostava, assim como fizemos quando nos conhecemos na casa de praia de João. Mais uma rodada de bebida chegou, João deu um gole em seu uísque e se levantou indo sentido ao banheiro, ela imediatamente abriu a bolsa, colocando algo na boca, talvez uma bala ou chicletes, pegou um espelho pequeno e olhou-se nele, verificando se estava tudo ok. João Pedro voltou, antes de sentar-se deu uma olhada em torno do bar, como se estivesse analisando se encontrava alguém de conhecido. Quando ele foi se sentar, ela disse algo a ele e eu percebi que ele sorriu, e ela inclinou-se segurou o rosto dele e o beijou na boca, ele meio que assustou com a atitude dela no começo, mas depois correspondeu muito bem.
Meu mundo caiu naquele momento, vendo meu marido, meu homem, beijando ou sendo beijado descaradamente outra mulher, mulher essa que ele mal conhecia. Senti-me uma patética ali no meio daquele bar sozinha e presenciando tudo aquilo. Chamei o garçom e pedi outro drinque e a conta, eu não queria e não podia mais olhar aquela cena, era muito pior que um tapa na cara. Eles pararam de se beijar e pude perceber que ele ficou sem graça e ela abriu um sorriso e passou a mão sobre o rosto dele, mas em seguida ela mexeu em sua bolsa e pegou o celular enquanto dizia algo para ele, e ele respondeu, então eu a vi digitando no teclado. Provavelmente ela estava pedindo o número do celular dele e claro que ele falou. Segundos depois João também pegou seu celular repetindo a mesma atitude dela.
Se eles não fossem transar aquela noite, transariam a qualquer momento, e tudo estaria mais facilitado com um sabendo do número do celular do outro.
Eu estava cega de ódio, de decepção, de tristeza, não sabia mais nem o que pensar. O garçom trouxe minha bebida, mas disse que a conta viria em seguida. Eu virei o drinque bebendo-o de uma só vez e em seguida pedi outro drinque.
Olhei novamente na direção que eles estavam e vi João olhando as horas, tirando em seguida o dinheiro da carteira e novamente pedindo para o garçom cobrar o dele e o dela. Apenas com os gestos dele eu sabia o que ele estava dizendo. O garçom saiu e João Pedro disse algo a ela que colocou sua mão no pescoço dele enquanto dizia algo, fazendo movimentos com os dedos, até que ela desceu da banqueta, ficando de frente para ele que continuava sentado e sem nenhum pudor ou coisa do tipo o beijou novamente, e ele correspondia muito bem cada gesto, cada movimento.
Vi que ela sussurrou alguma coisa no ouvido dele e ele concordou balançando a cabeça.
Ela pegou a bolsa e o terninho e os dois levantaram-se em seguida. Provavelmente tinham combinado de irem para um outro lugar.
Eu tentei não olhar mais para eles, um outro garçom veio trazer minha conta e meu drinque, e foi então que eu tive uma ideia.
-Você está vendo aquele cara de camisa preta que está saindo com aquela loura no balcão?
O garçom olhou na direção do bar e em seguida balançou a cabeça concordando.
- Ele é quem vai pagar minha conta, ele está com meu dinheiro. Basta chegar nele e entregar minha conta e dizer que foi a Alice quem pediu para que ele pagasse.
-Mas senhora, eu não estou autorizado a fazer isso. E ele já está de saída.
-Isso o quê? Não estou pedindo nada de absurdo. Eu lhe disse que meu dinheiro está com ele. Se você não fizer isso darei um escândalo aqui mesmo.
O garçom concordou seguindo em direção a João e parou sem jeito ao lado dos dois que estavam saindo juntos.
Meu coração parecia que ia saltar pela boca, não sabia se tinha feito o certo, mas foi o melhor que pensei naquele momento.

Enquanto eles caminhavam em direção da saída, ele a beijou novamente. João estava com as mãos nas costas dela, passando pelos cabelos, mas provavelmente percebeu o garçom ao lado deles, interrompendo o beijo no mesmo instante. O garçom disse algo a ele, entregando-lhe a comanda e apontando em minha direção. João Pedro imediatamente olhou em minha direção com cara de pânico e nossos olhares se cruzaram. 

5 comentários:

  1. 😱😱😱😱 q ódio do João affffff q safado, td bem q ela q se afastou dele mas ele n tinha o direito de fazer issoooooo 😠😠😠😠😠

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  2. ô glória .... que bafoo kkkk... esperaremos ansiosamente cenas dos próximos capítulos...não sei o que pensar dessa vez kkk.

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  3. Putz tadinha da Alice, como se já não bastasse td q ela está passando.....

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  4. nossa que safado ,...
    na hora que ela mais precisa dele ele faz isso ........................

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  5. nossa que safado ,...
    na hora que ela mais precisa dele ele faz isso ........................

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