" Recomeços "
11
A pior dor do mundo
Uma
semana se passou após o aniversário de Pedro. Era uma terça-feira, e naquela
tarde eu havia marcado uma consulta com o oftalmologista, pois estava sentindo
dificuldades para enxergar de longe; entrar na casa dos trinta anos já estava
começando a pesar.
Acordei
com o João Pedro me provocando, como ele sempre fazia. Fizemos um amor
maravilhoso, e em seguida fomos tomar banho juntos.
-Amor,
hoje vamos ter que revezar, eu levo o Pedro na escola e no final da tarde você
pega ele, pode ser?
João
estava lavando os cabelos e apenas concordou com a cabeça.
-É
hoje sua consulta? Ele perguntou quando havia terminado.
-É,
infelizmente, eu detesto ir a médicos, você sabe, mas dessa vez não tem
escapatória.
-Bem-vinda
aos trinta, minha linda. Disse ele me beijando em baixo da água que caia do
chuveiro.
-Você
me faz me sentir ainda mais velha. Eu disse brava.
-Você
tem trinta mas parece que tem dezoito, é linda, sabe disso. Ele falou me
pressionando contra a parede.
João
era simplesmente maravilhoso, gostoso e sedutor, e incansável.
Após
o banho, vesti um roupão e fui preparar o café da manhã. Instantes depois, João
Pedro desceu, estava lindo, de terno e gravata, e muito cheiroso.
Tomamos
nosso café da manhã, depois ele leu o jornal como todas as manhãs, e quando ele
ia se despedir, Pedro apareceu na cozinha, com seu cheirinho. O cheirinho era
um cobertorzinho de quando ele era bebê, ele não dormia sem o cheirinho.
-Mãe,
deita comigo.
-Oh,
meu amor, mas já acordou? Está muito cedo. Eu disse indo de encontro a ele.
-Vem,
mãe, vamos.
-Filhão,
bom dia! Disse João Pedro o abraçando e o pegando no colo. -O papai vai
trabalhar, mas daqui a pouco venho brincar com você, tá bom?
-Jura,
pai! Disse Pedro todo animado, abraçando o pai em seguida.
Nos
despedimos de João Pedro e ele se foi. Fiz como Pedro me pediu, deitei com ele,
cantei canções de ninar até que ele pegou no sono novamente. Fiquei observando
meu filho dormir, era a visão mais angelical do mundo, o soninho dele era
tranquilo e sereno.
Mais
tarde, desci para passar para Bel, que era minha ajudante, o que ela faria para
o almoço. Trabalhei um pouco no meu livro e logo fui acordar Pedro. Assistimos
um pouco de desenho animado, brincamos e já estava na hora de tomar banho para
a escola.
João
Pedro chegou, nos almoçamos e depois ele ficou na sala brincando de carrinho
com Pedro, enquanto eu tomava um banho e me arrumava para ir para a editora,
depois passaria da revista e logo mais à tarde para minha consulta.
Troquei
Pedro, coloquei seu uniforme escolar, passei perfume e ele quis passar até gel
em seus cabelos castanhos claros.
-Mãe,
hoje eu quero ir bem bonito.
-Ah,
e posso saber por que mocinho?
-Porque
sim, ué. Ele disse dando-me um sorriso.
-Ah
meu amor, você já é lindo! Eu disse o abraçando.
Ele
olhou no fundo dos meus olhos.
-Você
é linda, mãe! É a melhor mãe de todas! Você é minha princesa, por isso que eu
te amo. Eu te amo desse tamanho, olha... Ele disse abrindo os braços o máximo
que conseguia.
-Oh,
meu amor, e eu amo você do tamanho do mundo.
-Eu
amo você do tamanho do mundo. Ele disse.
-Então
nós nos amamos igual. Eu falei.
João Pedro veio se despedir de mim, me pegou
pela cintura e me girou em torno dele.
-Eu
amo você!
-Eu
também amo você. Eu disse beijando-o.
-E
eu, ninguém ama?
-Claro
que amamos você, amamos mais do que tudo. Disse João Pedro, agachando para
abraçar o filho.
Eu
fiz o mesmo, abraçando os dois. João Pedro levantou-se pegando Pedro no colo.
Hoje o papai vai buscar você, que tal comprar um sorvete depois da aula?
-Oba,
eu vou amar!
-Então
vejo você mais tarde. Disse João abraçando Pedro.
-Amo
você filho!
-Eu
também amo você, pai.
João
Pedro selou meus lábios e saiu em seguida.
Assim
que cheguei em frente a escolinha, eu coloquei a lancheira de Pedro em suas
costas e o abracei novamente.
-Fica
com Deus, meu filho. Daqui a pouco você estará em casa.
Ele
só fez que sim com a cabeça, mas seus olhinhos encheram d’água.
-O
que foi, filho?
-É
que eu vou sentir sua falta. Ele disse.
-Mas
daqui a pouco nos veremos, eu prometo.
-Tá
bom! Ele disse enxugando as lágrimas.
-Não
fica assim, senão a mamãe fica triste.
Ele
me olhou abrindo um sorriso, mas em seguida fez cara de assustado, abrindo a
mochila de rodinhas e retirando algo de dentro dela.
-Mãe,
fiz isso para você. Já estava me esquecendo. Ele disse me entregando uma folha
dobrada.
Eu
desdobrei a folha, era um desenho feito por ele, um homem, uma mulher, uma
criança e um coração. É claro feio ao modo dele, que só as mães acham o desenho
mais lindo do mundo. E era, para mim, era o desenho mais perfeito.
-Aqui
está escrito que eu amo minha família. Disse ele apontando para uns risquinhos
dentro do coração.
-E
sua família ama você, você é nosso maior tesouro. Eu disse abraçando-o. Eu te
amo meu filho.
-Eu
também amo você mamãe.
Então
a recepcionista que ficava no portão da escolinha veio de encontro a nós.
-Pedro,
que bom que você chegou! Vamos lá?
Ele
abriu um sorriso, pegou na mão dela e me deu tchau. Eu fiquei olhando Pedro
entrar, até que não o vi mais.
Fui
para o meu carro, sentindo algo estranho, então olhei para o desenho dele, e
agradeci aos céus por ter meu príncipe ao meu lado.
Passei
na editora, onde resolvi umas pendências, depois fui para a agência, onde
teríamos uma reunião. Como eu trabalhava em casa, fiquei somente na reunião e
de lá segui para o oftalmologista. Saí de lá, com a vista toda turva, e fui
direto para casa.
Quando
entrei em minha casa, uma tristeza muito grande bateu. Então eu liguei para
João Pedro.
-Oi
amor, como foi?
-Muito
ruim. Minha vista está toda embaçada.
Ele
riu.
-É
assim mesmo, mas daqui a pouco passa. Deita um pouco e fica quietinha.
-João,
se você quiser eu busco o Pedro.
-Não
Alice, fica tranquila. Já adiantei tudo por aqui, daqui a pouco vou buscá-lo e
leva-lo na sorveteria.
Eu
sorri.
-Então
espero vocês. Te amo.
-Eu
também amo você.
Fui
deitar um pouco e acabei pegando no sono.
Algum
tempo depois, acordei com um sonho ruim, um pesadelo. Meu coração estava
acelerado e eu estava toda suada. Passei pelo quarto de Pedro que estava todo
arrumadinho, dei uma olhada, mas segui para a cozinha. Fui tomar um copo de
água, pois ainda me sentia estranha, angustiada. Olhei no relógio e já passava
da hora que Pedro havia saído, mas como ele iriam passar na sorveteria, com
certeza eles chegariam logo. Me servi de um copo d’água e fui para o jardim,
esperar por eles.
Sentei-me
no banco de madeira que ficava no jardim, e uma borboleta pousou ao meu lado.
Era linda, cor azul metálica. Eu aproximei minha mão delicadamente perto dela e
ela veio em meu dedo indicador. Eu nunca tinha conseguido fazer aquilo antes;
tanto eu, como João e Pedro, sempre tentávamos, mas elas sempre se espantavam e
voavam. Mas o Pedro fazia sempre, era incrível.
Era
a segunda vez que eu via uma borboleta como aquela, era linda, parecia uma
pintura. Era toda azul, com as bordas das asas mais escuras.
Torcia
para que Pedro chegasse logo para ver aquela cena, ele morreria de felicidade,
com certeza. Eu mal me mexia com medo que ela voasse. Então o interfone tocou,
e ela vou.
Corri
atender, não era o João, pois ele tinha o controle do portão. Vi pela câmera
que era minha mãe, abri o portão em seguida e ela entrou.
-Oi,
mãe. Eu disse sorridente.
Eu
adorava quando minha mãe me visitava, pois não era sempre que ela aparecia.
-Oi
filha. Ela disse, com os olhos vermelhos.
-O
que foi? O que aconteceu? Brigou com o Fábio.
Minha
mãe, respirou fundo, seus olhos se encheram de lágrimas.
-O
que aconteceu mãe? Eu disse aflita.
Sabia
que era algo grave, pois ela nunca chorava à toa.
-Alice,
você precisa ir comigo para o hospital, o João está lá com o Pedro.
-O
quê? Como assim? O que houve?
-Filha,
o Pedro sofreu um acidente, mas ele já está sendo atendido.
Eu
fiquei cega, era como se uma neblina me impedisse de ver. Também não conseguia
ouvir mais nada, minha mãe falava algo, mas era como se eu estivesse fora de
mim. Quando eu vi, já estava dentro do carro com ela e com Fábio.
As
lágrimas encharcaram meu rosto. Minha mãe, sentada ao meu lado no banco de trás
do carro segurava minha mão.
-Calma
Alice, vai ficar tudo bem. Fica calma.
O
caminho para o hospital parecia interminável. Assim que chegamos, desci
correndo do carro e adentrei o hospital com tudo. Minha mãe correu atrás de
mim, e me levou na sala de espera do centro cirúrgico. Quando vi João Pedro,
minhas pernas ficaram bambas. Ele estava sentado com a cabeça baixa, com o
rosto entre as mãos, e soluçava de chorar.
-João,
pelo amor de Deus, o que aconteceu? Eu disse chegando perto dele.
Ele
levantou-se e me abraçou tão forte que eu mal conseguia respirar.
-Foi
tudo culpa minha, tudo culpa minha.
-O
que houve?
Ele
não conseguia falar, apenas chorava e soluçava.
-Foi
minha culpa, Alice.
-Me
fala o que aconteceu! Eu disse alterando a voz mais do que eu pretendia.
Ele
olhou para mim, minha mãe se aproximou dando a ele um lenço de papel.
-Você
precisa se acalmar, meu filho. Precisamos ter calma.
-Fala,
João, eu imploro.
Ele
olhava para mim e as lágrimas rolavam em seu rosto.
-Eu
fui buscá-lo na escola, ele estava todo feliz que iríamos tomar sorvete, e nós
fomos. Quando eu fui pagar pelo sorvete, vi que havia esquecido a carteira no
carro. Então eu pedi que ele me esperasse em frente a sorveteria, pois eu ia
buscar a carteira do outro lado da rua. E ele ficou sentadinho terminando o
sorvete.
Quando
eu olhei, ele estava na calçada e começou a atravessar a rua sozinho, indo ao
meu encontro. Eu imediatamente olhei
para ver se vinha vindo carro e gritei para ele voltar, mas era tarde...uma
caminhonete vinha descendo com muita velocidade, e o acertou.
-Eu
não acredito, não pode ser. Vocês só podem estar mentindo para mim. Eu disse
sorrindo em desespero.
-Cadê
o meu filho, onde ele está? Eu quero vê-lo. Eu gritei no corredor do hospital.
Uma
enfermeira veio em minha direção, pedindo que eu me acalmasse.
-Eu
quero meu filho, como ele está? O Pedro, é meu filho, ele está bem?
-Senhora,
eu peço que se acalme, eu vou ver se consigo notícias e já volto. Mas por
favor, acalme-se.
-É
o Pedro meu filho, por favor, eu preciso vê-lo.
A
enfermeira concordou e saiu em seguida.
João
Pedro só chorava, minha mãe tentava acalmar a nós dois, Fábio parecia desolado.
Alguns minutos depois, chegaram Maria Helena e José Pedro.
Maria
Helena me abraçou chorando.
-Calma
minha filha, nosso menino vai ficar bem, fica calma.
-Ele
vai, ele vai, ele me disse hoje que amava nossa família, então tenho certeza
que ele vai ficar bem. Eu dizia tentando me convencer.
José
Pedro também me abraçou, com o rosto todo molhado de lágrimas. João Pedro
chorava sem parar, sua mãe o abraçou, pedindo que ele ficasse calmo e ele
chorava mais ainda. Minha mãe segurou minha mão e a beijou.
-Vai
ficar tudo bem, minha filha.
Eu
concordei com a cabeça. Fui até João Pedro e agachei-me ao lado dele.
-João,
vai ar tudo certo. Fica calmo. Eu disse segurando as mãos dele.
Ele
me abraçou e começou a se acalmar. Malu e Bruno chegaram em seguida.
Eu
e João estávamos abraçados quando o cirurgião apareceu. Todos o cercaram
imediatamente.
-Boa
noite, eu peço que os pais do Pedro me acompanhem.
Eu e João nos entreolhamos e eu me acalmei,
pois iria ver o Pedro. Então o médico nos levou para uma salinha próxima ao
centro cirúrgico.
-Onde
ele está, doutor? Disse João.
-Ele
está bem, doutor, já podemos ir vê-lo?
O
médico nos olhou complacente.
-Esse
momento é um momento muito delicado, pincipalmente quando se trata de uma
criança. Mas tem de ser feito. E eu estou aqui...
Ele
fez uma pausa, olhou para mim e depois para João.
-Eu
sinto muito, tentamos de tudo. O Pedro chegou aqui ainda com vida, mas foi uma
pancada muito forte, houve traumatismos e precisamos abri-lo com urgência, mas
o coraçãozinho dele parou antes de terminarmos a cirurgia.
-Não,
não, não fala isso! Meu filhinho! Não me fala isso, doutor. Disse João
desesperado.
Eu
senti uma dor tão forte, que era como se uma bala atravessasse meu cérebro.
-Eu
sinto muito. Disse o médico novamente.
Eu
comecei a chorar desesperada. Sem saber o que pensar, o que fazer.
-Não
pode ser, não pode estar acontecendo isso com meu menino, não com meu menino.
Eu dizia para mim mesma em voz alta.
O
médico pediu que alguém nos acompanhasse, e quando vimos nossos familiares,
todos eles perceberam o que havia acontecido, apenas em ver nosso desespero. O
desespero era tanto que eu precisei ser sedada, então eu apaguei.
Eu
acordei em minha cama, dando um pulo de susto, achava que tudo havia sido um
pesadelo. Minha mãe estava sentada ao meu lado. Estranhei em vê-la ali, mas
quando ela me olhou, com o rosto inchado e os olhos vermelhos, vi que não era
um pesadelo.
-Não,
mãe, me diz que foi um pesadelo, por favor, fala que foi um pesadelo. Eu gritei
desesperada.
-Não
filha, infelizmente não. Nosso menino precisou ir embora, nosso anjinho foi
morar no céu. Ela disse sem conseguir se controlar.
Ela
me abraçou e eu chorava ainda mais. Sentia falta de ar, uma dor terrível no
peito, como se eu fosse morrer. Malu e Bel entraram em meu quarto e ambas me
levaram para o banheiro, onde eu tomei um banho.
Chegamos
ao velório, eu vi João Pedro que veio em minha direção inconsolável, estava um
trapo humano.
-Dói
demais, Alice, eu não vou conseguir aguentar!
-Nem
eu. Respondi em prantos.
João
Pedro me abraçou e desmoronamos em lágrimas.
E
assim ele se foi. Meu principezinho, meu bebê, meu menino, havia partido e nos
deixado, e ficamos pela metade, pois a outra metade de nós dois se foi com
Pedro.
Antes
de enterrar o Pedro, fiz questão de colocar o cheirinho que ele amava entre
suas mãozinhas. Nesse momento eu me debrucei em prantos sobre ele, pois seria a
última vez que eu o veria.
Quando
se perde um ente querido, você sofre, dói, você chora. Mas aos poucos, a dor
vai aliviando, o sofrimento vai passando e as lágrimas vão cessando. Mas quando
se perde um filho, a dor é tão brutal que lhe mata aos poucos, lhe ferindo cada
vez mais. O sofrimento é tão intenso que chega a sufocar. É indescritível, é
desumano.
Eu
senti que parte de mim foi enterrada junto com Pedro, pois para mim nada mais teria
sentido, a vida não teria mais um propósito. Eu não me acostumaria viver sem
ele, acordar sabendo que ele não estaria lá para me fazer sorri, ir dormir sem
lhe dar boa noite e sem contar-lhe historinhas, ouvir dele que eu era a melhor
mãe do mundo, e que ele me amava.
A
voz dele nunca sairia do meu inconsciente, dizendo:
-Boa
noite mãe, eu te amo.
Ou
então
-Mãe,
deita aqui comigo,
-Eu
te amo, mãe. –Eu amo essa família. –Pai, mãe, vocês são os melhores pais do
mundo.
E
me doía lembrar que ao deixa-lo na porta da escola, ele me olhou todo
tristonho, com os olhos cheios de lagrimas e disse:
-Eu
vou sentir a sua falta, mãe.
Isso
me matava por dentro, essas palavras me martelavam na cabeça o tempo todo.
12
Mudanças que nos destroem
A
dor em meu peito não cessava, só me sufocava ainda mais. Abri os olhos, o sol
estava estralando em meu rosto, minha cabeça parecia que queria explodir. Alguém
bateu na porta do quarto, abrindo-a em seguida.
-Ei,
está acorda minha filha? Levanta um pouco, vamos tomar um banho, você está aqui
nesse quarto a três dias.
-Eu
não consigo, mãe. Eu acho que nunca mais vou conseguir sair daqui, está doendo
demais. Eu disse começando a chorar novamente.
Minha
mãe caminhou até mim, sentando-se na cama e me abraçando em seguida.
-Alice,
minha filha, eu sei que é uma dor inimaginável, mas você precisa pelo menos se
levantar, o João Pedro também precisa de você, vocês só têm um ao outro agora,
e precisam cuidar um do outro.
O
João Pedro! Nem estava me lembrando dele.
-E
como ele está, mãe?
-Ele
está péssimo filha, fica se culpando o tempo todo.
-Onde
ele está?
-No
quarto que era do Pedro.
No
quarto que era do Pedro, isso me feriu a alma, saber que ele nunca mais
brincaria no quarto dele. Eu tirei forças de onde não tinha, mas fiz o que
minha mãe disse, fui tomar um banho, depois me enfiei numa calça de moletom e
camiseta. Em seguida fui até o quarto do Pedro, e ao entrar, senti um baque,
mas respirei fundo e me segurei. João estava deitado na cama em posição fetal,
então me aproximei e sentei-me ao seu lado.
-Oi.
João
me olhou nos olhos, mas depois desviou o olhar.
-Ei,
olha para mim, nós precisamos nos unir, um dando força ao outro. Eu só tenho
você agora, e você só tem a mim. Então eu preciso que você fique bem. Você é o
meu esteio, você sabe disso. Eu disse abraçando-o em seguida.
-Eu
sinto tanto, Alice.
-Eu
sei, mas vem, vamos tomar um banho, eu te ajudo.
João
se levantou, estava ainda pior do que do dia do velório. Fomos para o banheiro
do meu quarto onde ele tirou toda sua roupa e entrou no chuveiro quente. Eu
fiquei sentada no vaso sanitário, sem saber o que fazer, perdida em minha dor.
Após
o banho, nós descemos e tomamos uma sopa preparada pela Maria Helena que
provavelmente também estava ficando ali. Ninguém conversava, o silêncio era
mutuo.
Minha
mãe subiu para trocar minha roupa de cama e Maria Helena foi com ela, elas
mantinham-se fortes, mas não estavam suportando ficar ao nosso lado, senão elas
também cairiam no choro.
Eu,
João Pedro e o pai dele, assistimos um pouco de televisão, mas logo eu fui para
o jardim, onde me sentei, encostei a cabeça na parede e fiquei renovando as
energias que vinha do sol. As lembranças de Pedro correndo pelo gramado, não
saia de minha cabeça, e quando eu vi, as lágrimas já estavam rolando novamente.
João sentou-se ao meu lado, colocando a mão sobre minha perna.
-O
que nós vamos fazer daqui pra frente?
Eu
simplesmente balancei a cabeça em negação.
-Você
acha melhor vender essa casa? São muitas lembranças aqui, Alice.
-Não.
Eu acho que não. O Pedro amava essa casa, amava esse jardim.
Ficamos
em silêncio remoendo nossa dor.
Essa
foi mais uma mudança em minha vida, uma mudança que tirou meu chão, minha razão
de viver; agora seríamos somente nós dois novamente, milhares de lembranças e
uma ferida que nunca cicatrizaria.

Meu Deus que dor.......
ResponderExcluirÉ Simplesmente emocionante!
ResponderExcluiré triste demais ....................
ResponderExcluiré triste demais ....................
ResponderExcluirque tristeeee e está tão real que choreiiii horroressss. Não consigo opinar sobre o futuro deles no momento. Estou de lutooo
ResponderExcluirAi que triste.....sofrendo
ResponderExcluirAi que triste... Sofrendo
ResponderExcluir