quinta-feira, 28 de maio de 2015

" Recomeços " Parte 07

" Recomeços "


11
A pior dor do mundo
Uma semana se passou após o aniversário de Pedro. Era uma terça-feira, e naquela tarde eu havia marcado uma consulta com o oftalmologista, pois estava sentindo dificuldades para enxergar de longe; entrar na casa dos trinta anos já estava começando a pesar.
Acordei com o João Pedro me provocando, como ele sempre fazia. Fizemos um amor maravilhoso, e em seguida fomos tomar banho juntos.
-Amor, hoje vamos ter que revezar, eu levo o Pedro na escola e no final da tarde você pega ele, pode ser?
João estava lavando os cabelos e apenas concordou com a cabeça.
-É hoje sua consulta? Ele perguntou quando havia terminado.
-É, infelizmente, eu detesto ir a médicos, você sabe, mas dessa vez não tem escapatória.
-Bem-vinda aos trinta, minha linda. Disse ele me beijando em baixo da água que caia do chuveiro.
-Você me faz me sentir ainda mais velha. Eu disse brava.
-Você tem trinta mas parece que tem dezoito, é linda, sabe disso. Ele falou me pressionando contra a parede.
João era simplesmente maravilhoso, gostoso e sedutor, e incansável.
Após o banho, vesti um roupão e fui preparar o café da manhã. Instantes depois, João Pedro desceu, estava lindo, de terno e gravata, e muito cheiroso.
Tomamos nosso café da manhã, depois ele leu o jornal como todas as manhãs, e quando ele ia se despedir, Pedro apareceu na cozinha, com seu cheirinho. O cheirinho era um cobertorzinho de quando ele era bebê, ele não dormia sem o cheirinho.
-Mãe, deita comigo.                            
-Oh, meu amor, mas já acordou? Está muito cedo. Eu disse indo de encontro a ele.
-Vem, mãe, vamos.
-Filhão, bom dia! Disse João Pedro o abraçando e o pegando no colo. -O papai vai trabalhar, mas daqui a pouco venho brincar com você, tá bom?
-Jura, pai! Disse Pedro todo animado, abraçando o pai em seguida.
Nos despedimos de João Pedro e ele se foi. Fiz como Pedro me pediu, deitei com ele, cantei canções de ninar até que ele pegou no sono novamente. Fiquei observando meu filho dormir, era a visão mais angelical do mundo, o soninho dele era tranquilo e sereno.
Mais tarde, desci para passar para Bel, que era minha ajudante, o que ela faria para o almoço. Trabalhei um pouco no meu livro e logo fui acordar Pedro. Assistimos um pouco de desenho animado, brincamos e já estava na hora de tomar banho para a escola.
João Pedro chegou, nos almoçamos e depois ele ficou na sala brincando de carrinho com Pedro, enquanto eu tomava um banho e me arrumava para ir para a editora, depois passaria da revista e logo mais à tarde para minha consulta.
Troquei Pedro, coloquei seu uniforme escolar, passei perfume e ele quis passar até gel em seus cabelos castanhos claros.
-Mãe, hoje eu quero ir bem bonito.
-Ah, e posso saber por que mocinho?
-Porque sim, ué. Ele disse dando-me um sorriso.
-Ah meu amor, você já é lindo! Eu disse o abraçando.
Ele olhou no fundo dos meus olhos.
-Você é linda, mãe! É a melhor mãe de todas! Você é minha princesa, por isso que eu te amo. Eu te amo desse tamanho, olha... Ele disse abrindo os braços o máximo que conseguia.
-Oh, meu amor, e eu amo você do tamanho do mundo.
-Eu amo você do tamanho do mundo. Ele disse.
-Então nós nos amamos igual. Eu falei.
 João Pedro veio se despedir de mim, me pegou pela cintura e me girou em torno dele.
-Eu amo você!
-Eu também amo você. Eu disse beijando-o.
-E eu, ninguém ama?
-Claro que amamos você, amamos mais do que tudo. Disse João Pedro, agachando para abraçar o filho.
Eu fiz o mesmo, abraçando os dois. João Pedro levantou-se pegando Pedro no colo. Hoje o papai vai buscar você, que tal comprar um sorvete depois da aula?
-Oba, eu vou amar!
-Então vejo você mais tarde. Disse João abraçando Pedro.
-Amo você filho!
-Eu também amo você, pai.
João Pedro selou meus lábios e saiu em seguida.
Assim que cheguei em frente a escolinha, eu coloquei a lancheira de Pedro em suas costas e o abracei novamente.
-Fica com Deus, meu filho. Daqui a pouco você estará em casa.
Ele só fez que sim com a cabeça, mas seus olhinhos encheram d’água.
-O que foi, filho?
-É que eu vou sentir sua falta. Ele disse.
-Mas daqui a pouco nos veremos, eu prometo.
-Tá bom! Ele disse enxugando as lágrimas.
-Não fica assim, senão a mamãe fica triste.
Ele me olhou abrindo um sorriso, mas em seguida fez cara de assustado, abrindo a mochila de rodinhas e retirando algo de dentro dela.
-Mãe, fiz isso para você. Já estava me esquecendo. Ele disse me entregando uma folha dobrada.
Eu desdobrei a folha, era um desenho feito por ele, um homem, uma mulher, uma criança e um coração. É claro feio ao modo dele, que só as mães acham o desenho mais lindo do mundo. E era, para mim, era o desenho mais perfeito.
-Aqui está escrito que eu amo minha família. Disse ele apontando para uns risquinhos dentro do coração.
-E sua família ama você, você é nosso maior tesouro. Eu disse abraçando-o. Eu te amo meu filho.
-Eu também amo você mamãe.
Então a recepcionista que ficava no portão da escolinha veio de encontro a nós.
-Pedro, que bom que você chegou! Vamos lá?
Ele abriu um sorriso, pegou na mão dela e me deu tchau. Eu fiquei olhando Pedro entrar, até que não o vi mais.
Fui para o meu carro, sentindo algo estranho, então olhei para o desenho dele, e agradeci aos céus por ter meu príncipe ao meu lado.
Passei na editora, onde resolvi umas pendências, depois fui para a agência, onde teríamos uma reunião. Como eu trabalhava em casa, fiquei somente na reunião e de lá segui para o oftalmologista. Saí de lá, com a vista toda turva, e fui direto para casa.
Quando entrei em minha casa, uma tristeza muito grande bateu. Então eu liguei para João Pedro.
-Oi amor, como foi?
-Muito ruim. Minha vista está toda embaçada.
Ele riu.
-É assim mesmo, mas daqui a pouco passa. Deita um pouco e fica quietinha.
-João, se você quiser eu busco o Pedro.
-Não Alice, fica tranquila. Já adiantei tudo por aqui, daqui a pouco vou buscá-lo e leva-lo na sorveteria.
Eu sorri.
-Então espero vocês. Te amo.
-Eu também amo você.
Fui deitar um pouco e acabei pegando no sono.
Algum tempo depois, acordei com um sonho ruim, um pesadelo. Meu coração estava acelerado e eu estava toda suada. Passei pelo quarto de Pedro que estava todo arrumadinho, dei uma olhada, mas segui para a cozinha. Fui tomar um copo de água, pois ainda me sentia estranha, angustiada. Olhei no relógio e já passava da hora que Pedro havia saído, mas como ele iriam passar na sorveteria, com certeza eles chegariam logo. Me servi de um copo d’água e fui para o jardim, esperar por eles.
Sentei-me no banco de madeira que ficava no jardim, e uma borboleta pousou ao meu lado. Era linda, cor azul metálica. Eu aproximei minha mão delicadamente perto dela e ela veio em meu dedo indicador. Eu nunca tinha conseguido fazer aquilo antes; tanto eu, como João e Pedro, sempre tentávamos, mas elas sempre se espantavam e voavam. Mas o Pedro fazia sempre, era incrível.
Era a segunda vez que eu via uma borboleta como aquela, era linda, parecia uma pintura. Era toda azul, com as bordas das asas mais escuras.
Torcia para que Pedro chegasse logo para ver aquela cena, ele morreria de felicidade, com certeza. Eu mal me mexia com medo que ela voasse. Então o interfone tocou, e ela vou.
Corri atender, não era o João, pois ele tinha o controle do portão. Vi pela câmera que era minha mãe, abri o portão em seguida e ela entrou.
-Oi, mãe. Eu disse sorridente.
Eu adorava quando minha mãe me visitava, pois não era sempre que ela aparecia.
-Oi filha. Ela disse, com os olhos vermelhos.
-O que foi? O que aconteceu? Brigou com o Fábio.
Minha mãe, respirou fundo, seus olhos se encheram de lágrimas.
-O que aconteceu mãe? Eu disse aflita.
Sabia que era algo grave, pois ela nunca chorava à toa.
-Alice, você precisa ir comigo para o hospital, o João está lá com o Pedro.
-O quê? Como assim? O que houve?
-Filha, o Pedro sofreu um acidente, mas ele já está sendo atendido.
Eu fiquei cega, era como se uma neblina me impedisse de ver. Também não conseguia ouvir mais nada, minha mãe falava algo, mas era como se eu estivesse fora de mim. Quando eu vi, já estava dentro do carro com ela e com Fábio.
As lágrimas encharcaram meu rosto. Minha mãe, sentada ao meu lado no banco de trás do carro segurava minha mão.
-Calma Alice, vai ficar tudo bem. Fica calma.
O caminho para o hospital parecia interminável. Assim que chegamos, desci correndo do carro e adentrei o hospital com tudo. Minha mãe correu atrás de mim, e me levou na sala de espera do centro cirúrgico. Quando vi João Pedro, minhas pernas ficaram bambas. Ele estava sentado com a cabeça baixa, com o rosto entre as mãos, e soluçava de chorar.
-João, pelo amor de Deus, o que aconteceu? Eu disse chegando perto dele.
Ele levantou-se e me abraçou tão forte que eu mal conseguia respirar.
-Foi tudo culpa minha, tudo culpa minha.
-O que houve?
Ele não conseguia falar, apenas chorava e soluçava.
-Foi minha culpa, Alice.
-Me fala o que aconteceu! Eu disse alterando a voz mais do que eu pretendia.
Ele olhou para mim, minha mãe se aproximou dando a ele um lenço de papel.
-Você precisa se acalmar, meu filho. Precisamos ter calma.
-Fala, João, eu imploro.
Ele olhava para mim e as lágrimas rolavam em seu rosto.
-Eu fui buscá-lo na escola, ele estava todo feliz que iríamos tomar sorvete, e nós fomos. Quando eu fui pagar pelo sorvete, vi que havia esquecido a carteira no carro. Então eu pedi que ele me esperasse em frente a sorveteria, pois eu ia buscar a carteira do outro lado da rua. E ele ficou sentadinho terminando o sorvete.
Quando eu olhei, ele estava na calçada e começou a atravessar a rua sozinho, indo ao meu encontro.  Eu imediatamente olhei para ver se vinha vindo carro e gritei para ele voltar, mas era tarde...uma caminhonete vinha descendo com muita velocidade, e o acertou.
-Eu não acredito, não pode ser. Vocês só podem estar mentindo para mim. Eu disse sorrindo em desespero.
-Cadê o meu filho, onde ele está? Eu quero vê-lo. Eu gritei no corredor do hospital.
Uma enfermeira veio em minha direção, pedindo que eu me acalmasse.
-Eu quero meu filho, como ele está? O Pedro, é meu filho, ele está bem?
-Senhora, eu peço que se acalme, eu vou ver se consigo notícias e já volto. Mas por favor, acalme-se.
-É o Pedro meu filho, por favor, eu preciso vê-lo.
A enfermeira concordou e saiu em seguida.
João Pedro só chorava, minha mãe tentava acalmar a nós dois, Fábio parecia desolado. Alguns minutos depois, chegaram Maria Helena e José Pedro.
Maria Helena me abraçou chorando.
-Calma minha filha, nosso menino vai ficar bem, fica calma.
-Ele vai, ele vai, ele me disse hoje que amava nossa família, então tenho certeza que ele vai ficar bem. Eu dizia tentando me convencer.
José Pedro também me abraçou, com o rosto todo molhado de lágrimas. João Pedro chorava sem parar, sua mãe o abraçou, pedindo que ele ficasse calmo e ele chorava mais ainda. Minha mãe segurou minha mão e a beijou.
-Vai ficar tudo bem, minha filha.
Eu concordei com a cabeça. Fui até João Pedro e agachei-me ao lado dele.
-João, vai ar tudo certo. Fica calmo. Eu disse segurando as mãos dele.
Ele me abraçou e começou a se acalmar. Malu e Bruno chegaram em seguida.
Eu e João estávamos abraçados quando o cirurgião apareceu. Todos o cercaram imediatamente.
-Boa noite, eu peço que os pais do Pedro me acompanhem.
 Eu e João nos entreolhamos e eu me acalmei, pois iria ver o Pedro. Então o médico nos levou para uma salinha próxima ao centro cirúrgico.
-Onde ele está, doutor? Disse João.
-Ele está bem, doutor, já podemos ir vê-lo?
O médico nos olhou complacente.
-Esse momento é um momento muito delicado, pincipalmente quando se trata de uma criança. Mas tem de ser feito. E eu estou aqui...
Ele fez uma pausa, olhou para mim e depois para João.
-Eu sinto muito, tentamos de tudo. O Pedro chegou aqui ainda com vida, mas foi uma pancada muito forte, houve traumatismos e precisamos abri-lo com urgência, mas o coraçãozinho dele parou antes de terminarmos a cirurgia.
-Não, não, não fala isso! Meu filhinho! Não me fala isso, doutor. Disse João desesperado.
Eu senti uma dor tão forte, que era como se uma bala atravessasse meu cérebro.
-Eu sinto muito. Disse o médico novamente.
Eu comecei a chorar desesperada. Sem saber o que pensar, o que fazer.
-Não pode ser, não pode estar acontecendo isso com meu menino, não com meu menino. Eu dizia para mim mesma em voz alta.
O médico pediu que alguém nos acompanhasse, e quando vimos nossos familiares, todos eles perceberam o que havia acontecido, apenas em ver nosso desespero. O desespero era tanto que eu precisei ser sedada, então eu apaguei.
Eu acordei em minha cama, dando um pulo de susto, achava que tudo havia sido um pesadelo. Minha mãe estava sentada ao meu lado. Estranhei em vê-la ali, mas quando ela me olhou, com o rosto inchado e os olhos vermelhos, vi que não era um pesadelo.
-Não, mãe, me diz que foi um pesadelo, por favor, fala que foi um pesadelo. Eu gritei desesperada.
-Não filha, infelizmente não. Nosso menino precisou ir embora, nosso anjinho foi morar no céu. Ela disse sem conseguir se controlar.
Ela me abraçou e eu chorava ainda mais. Sentia falta de ar, uma dor terrível no peito, como se eu fosse morrer. Malu e Bel entraram em meu quarto e ambas me levaram para o banheiro, onde eu tomei um banho.
Chegamos ao velório, eu vi João Pedro que veio em minha direção inconsolável, estava um trapo humano.
-Dói demais, Alice, eu não vou conseguir aguentar!
-Nem eu. Respondi em prantos.
João Pedro me abraçou e desmoronamos em lágrimas.
E assim ele se foi. Meu principezinho, meu bebê, meu menino, havia partido e nos deixado, e ficamos pela metade, pois a outra metade de nós dois se foi com Pedro.
Antes de enterrar o Pedro, fiz questão de colocar o cheirinho que ele amava entre suas mãozinhas. Nesse momento eu me debrucei em prantos sobre ele, pois seria a última vez que eu o veria.
Quando se perde um ente querido, você sofre, dói, você chora. Mas aos poucos, a dor vai aliviando, o sofrimento vai passando e as lágrimas vão cessando. Mas quando se perde um filho, a dor é tão brutal que lhe mata aos poucos, lhe ferindo cada vez mais. O sofrimento é tão intenso que chega a sufocar. É indescritível, é desumano.
Eu senti que parte de mim foi enterrada junto com Pedro, pois para mim nada mais teria sentido, a vida não teria mais um propósito. Eu não me acostumaria viver sem ele, acordar sabendo que ele não estaria lá para me fazer sorri, ir dormir sem lhe dar boa noite e sem contar-lhe historinhas, ouvir dele que eu era a melhor mãe do mundo, e que ele me amava.
A voz dele nunca sairia do meu inconsciente, dizendo:
-Boa noite mãe, eu te amo.
Ou então
-Mãe, deita aqui comigo,
-Eu te amo, mãe. –Eu amo essa família. –Pai, mãe, vocês são os melhores pais do mundo.
E me doía lembrar que ao deixa-lo na porta da escola, ele me olhou todo tristonho, com os olhos cheios de lagrimas e disse:
-Eu vou sentir a sua falta, mãe.
Isso me matava por dentro, essas palavras me martelavam na cabeça o tempo todo.
  
12
Mudanças que nos destroem
A dor em meu peito não cessava, só me sufocava ainda mais. Abri os olhos, o sol estava estralando em meu rosto, minha cabeça parecia que queria explodir. Alguém bateu na porta do quarto, abrindo-a em seguida.
-Ei, está acorda minha filha? Levanta um pouco, vamos tomar um banho, você está aqui nesse quarto a três dias.
-Eu não consigo, mãe. Eu acho que nunca mais vou conseguir sair daqui, está doendo demais. Eu disse começando a chorar novamente.
Minha mãe caminhou até mim, sentando-se na cama e me abraçando em seguida.
-Alice, minha filha, eu sei que é uma dor inimaginável, mas você precisa pelo menos se levantar, o João Pedro também precisa de você, vocês só têm um ao outro agora, e precisam cuidar um do outro.
O João Pedro! Nem estava me lembrando dele.
-E como ele está, mãe?
-Ele está péssimo filha, fica se culpando o tempo todo.
-Onde ele está?
-No quarto que era do Pedro.
No quarto que era do Pedro, isso me feriu a alma, saber que ele nunca mais brincaria no quarto dele. Eu tirei forças de onde não tinha, mas fiz o que minha mãe disse, fui tomar um banho, depois me enfiei numa calça de moletom e camiseta. Em seguida fui até o quarto do Pedro, e ao entrar, senti um baque, mas respirei fundo e me segurei. João estava deitado na cama em posição fetal, então me aproximei e sentei-me ao seu lado.
-Oi.
João me olhou nos olhos, mas depois desviou o olhar.
-Ei, olha para mim, nós precisamos nos unir, um dando força ao outro. Eu só tenho você agora, e você só tem a mim. Então eu preciso que você fique bem. Você é o meu esteio, você sabe disso. Eu disse abraçando-o em seguida.
-Eu sinto tanto, Alice.
-Eu sei, mas vem, vamos tomar um banho, eu te ajudo.
João se levantou, estava ainda pior do que do dia do velório. Fomos para o banheiro do meu quarto onde ele tirou toda sua roupa e entrou no chuveiro quente. Eu fiquei sentada no vaso sanitário, sem saber o que fazer, perdida em minha dor.
Após o banho, nós descemos e tomamos uma sopa preparada pela Maria Helena que provavelmente também estava ficando ali. Ninguém conversava, o silêncio era mutuo.
Minha mãe subiu para trocar minha roupa de cama e Maria Helena foi com ela, elas mantinham-se fortes, mas não estavam suportando ficar ao nosso lado, senão elas também cairiam no choro.
Eu, João Pedro e o pai dele, assistimos um pouco de televisão, mas logo eu fui para o jardim, onde me sentei, encostei a cabeça na parede e fiquei renovando as energias que vinha do sol. As lembranças de Pedro correndo pelo gramado, não saia de minha cabeça, e quando eu vi, as lágrimas já estavam rolando novamente. João sentou-se ao meu lado, colocando a mão sobre minha perna.
-O que nós vamos fazer daqui pra frente?
Eu simplesmente balancei a cabeça em negação.
-Você acha melhor vender essa casa? São muitas lembranças aqui, Alice.
-Não. Eu acho que não. O Pedro amava essa casa, amava esse jardim.
Ficamos em silêncio remoendo nossa dor.
Essa foi mais uma mudança em minha vida, uma mudança que tirou meu chão, minha razão de viver; agora seríamos somente nós dois novamente, milhares de lembranças e uma ferida que nunca cicatrizaria.

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