sábado, 6 de junho de 2015

" Recomeços " Parte 18 por Érika Gomes Prevideli

" Recomeços "


Parte 18 -  Final

Assim que cheguei em frente ao requintado espaço de festas, o manobrista levou meu carro para estacionar. Olhei ao meu redor e não vi ninguém conhecido.
Me senti como quando eu voltei do aeroporto para a casa de praia em Bombinhas, onde conheci o João Pedro, mas dessa vez sabia que ele não estava esperando por mim, ou talvez tivesse. Deu meu nome para a recepcionista e entreguei a ela um envelope com um cheque, já que a Malu pediu doações para uma instituição, ao invés de presente. A recepcionista anotou meu nome e me acompanhou até a entrada principal. O lugar estava perfeitamente decorado, a cara da Malu.
Ela estava bem próxima a entrada, linda num vestido longo azul como a noite, e soltou um gritinho assim que me viu. Meu coração ficava mais descompassado a cada instante.
-Eu não posso acreditar que você está aqui. Ela disse me abraçando em seguida.
-Parabéns minha amiga! Você merece tudo de mais lindo nessa vida.
Malu sorriu para mim e me abraçou novamente.
-Obrigada por ter vindo, eu sei o quanto é difícil para você estar aqui.
-Por você eu estaria em qualquer lugar, com certeza.
Alguns minutos depois Bruno veio em minha direção.
-Alice, como vai? Sentimos sua falta.
Ele também me abraçou forte e em seguida beijou meu rosto.
-Estou bem Bruno, e você?
-Hoje eu sou o homem mais feliz do mundo. Ele falou abraçando a Malu.
Nisso Mariah veio correndo e me abraçou.
-Tia, que saudades.
-Oh meu amor, quanto tempo não vejo você, como você está. Falei enquanto me abaixava para ficar na mesma altura que ela.
Eu a beijei por várias vezes.
-Alice, e o André não veio?  Perguntou Malu.
-Ah, não.
-Eu estou em pânico. Ela disse quase em sussurro. Na verdade, tinha colocado você na mesa da Maria Helena e do José Pedro. Quando eu disse ao João Pedro que era possível que você viesse acompanhada, ele resolveu trazer a.... (pausa) a tal garota. Aí ia colocar você na mesa dos meus pais, mas o Otávio está lá, pois ele está de passagem no Brasil, então...
Senti um nó em minha garganta só de saber que o João estava com alguém e que eu os veria em segundos.
-Malu, não se preocupe. Eu me viro.
-Não! É claro que me preocupo, mas eu vou colocar você com meus amigos do escritório. Ela disse segurando minha mão enquanto me acompanhava.
No caminho parei para cumprimentar algumas pessoas que eram do meu antigo círculo social. Depois os pais de Malu vieram me abraçar.
Théo, um amigo homossexual de Malu veio em minha direção.
-A Malu pediu que eu desse a você toda atenção do mundo, já que esse território está repleto de pessoas do seu passado incluindo seu ex. então amiga, se prepare que nossa noite será incrível.
-Théo, que saudade. Falei abraçando-o em seguida.
-Alice, você senta na mesa do Théo, pode ser? Perguntou Malu sussurrando em meu ouvido, parecendo aflita.
-Amiga, não se preocupe. Fica tranquila, estou ótima.
-Hum, imagino quão tranquila esteja. Disse Malu dando um sorriso forçado.
Algumas pessoas chegaram e Malu precisou ir recebê-los.
-Vem. Disse Théo segurando minha mão.
Me senti a amiga solteirona, sem tem com quem sentar. Minha sorte foi ter o Théo de companhia.
Quando me aproximei da mesa, vi a mesa onde João estava sentado e ele me olhava sem disfarçar. Parecia tão nervoso quanto eu.
Maria Helena abriu um sorriso imenso ao me ver e não tinha como não ir cumprimentá-los.
-Théo, preciso ir cumprimentá-los. Falei aflita.
-Vai lá e arrasa, enquanto pego umas bebidas para nós dois.
Respirei fundo e fui até eles. Conforme me aproximei da mesa, Maria Helena e Zé Pedro levantaram-se. Porém João permaneceu imóvel ao lado da garota que eu nem conseguia olhar.
Quase tive um desmaio, mas fui até eles.
-Alice, como é bom ver você. Disse Maria Helena me abraçando forte.
Ela me olhou em seguida e sorriu para mim.
-Como você está linda, minha filha. A cada dia que passa você está mais linda.
Eu sorri sem saber o que dizer. Na verdade, estava nervosa demais.
-É muito bom ver você também.
-Como vai minha garota? A quanto tempo não nos vemos! Disse Zé Pedro me abraçando em seguida. –Saiba que você é a garota mais bonita dessa festa, ouviu? Ele sussurrou em meu ouvido.
Olhei para ele e dei-lhe um sorriso forçado. Eu sabia que ele estava sendo gentil, já que João estava com outra garota ao meu lado.
-Senti sua falta, Zé Pedro.
José Pedro segurou minha mão e a beijou.
-Minha filha, senti muito sua falta também.  Ele disse beijando meu rosto em seguida.
João parecia estar em pânico. Olhei para ele e sorri indo em direção a ele e a tal garota. Eles se levantaram em seguida.
-Oi João Pedro, como vai? Disse apertando a mão dele e ele me abraçou em seguida.
-Eu vou bem, e você?
Minha voz não saiu, eu apenas balancei a cabeça positivamente.
-Olá, eu sou a Alice. Disse estendendo a mão para a tal garota.
Ela sorriu, parecia uma garota de propaganda de creme dental. Eu a odiei por dentro.
-Oi, eu sou a Carla. É um prazer conhecê-la Alice.
Dei um sorriso totalmente forçado a ela.
-O prazer é todo meu. –Muito bonita sua namorada João Pedro.
Ele também forçou um sorriso e a Carla riu como o gato de Alice.
-Alice, tem uma pessoa que quer você. Disse Théo parando ao meu lado.
Olhei para Théo o agradecendo por ele ter ido me resgatar.
-Bom, eu preciso ir cumprimentar uns amigos, com licença! Falei saindo em seguida.
Saí de lá sem sentir minhas pernas.
-Como você está? Sussurrou Théo em meu ouvido.
-Théo, não estou sentindo mais minhas pernas e acho que meu coração entrou em colapso.
-Deixa de ser boba, o cara quase teve um treco quando viu você.
Théo me levou para a nossa mesa e eu cumprimentei todos os amigos de Malu, um a um.
Todos já estavam em seus lugares e meu lugar era ao lado de Théo que para minha infelicidade ficava bem de frente para o João Pedro. Ele não disfarçava e me olhava a cada segundo. Eu estava totalmente nervosa, mas o nervosismo dele também era nítido.
A banda estava tocando uma música que eu e João amávamos. Théo conversava comigo sem parar, tentando me distrair e ele me arrancou diversas risadas. Mas ainda assim me sentia um peixe que viveu uma vida inteira em um aquário e depois foi jogado ao mar, então eu não sabia para onde ir. Me sentia totalmente perdida.
Nossos olhares se cruzaram de novo e de novo. E eu precisava sair de lá o quanto antes.
-Vamos buscar outra bebida? Falei para o Théo.
-Hum, sim, eu imagino o porquê. Ele disse levantando-se em seguida todo sorridente.
Quando estávamos passando na pista de dança, senti uma mão em meu ombro.
-Alice! Olhei assustada e vi Otávio parado bem atrás de mim.
Otávio estava o mesmo, porém mais bonito. Ele parecia um galã de novela.
-Otávio, quanto tempo! Falei dando-lhe um sorriso.
Ele sorriu maliciosamente para mim.
-E você continua linda, quer dizer, ainda mais linda.
Eu sorri para ele e vi João Pedro nos olhando parecendo irritado.
-Você também está muito bem.
-Alice, eu sinto muito pelo o que lhe aconteceu, sempre pensei em ligar para você, mas é que é um assunto tão delicado.
-Ah, é sim, mas obrigada mesmo assim.
Otávio me encarava descaradamente.
-Você quer tomar alguma coisa, sei lá, queria conversar mais com você.
Olhei para Théo que me esperava balançando o corpo com o ritmo da música.
-Ah, meu amigo está me esperando. Depois a gente se fala.
Ele balançou a cabeça positivamente.
-Eu vou cobrar.
Eu ri e saí em seguida.
-Sortuda você hein amiga. Já esteve com os caras mais gatos da festa. Falou Théo enquanto andava e se balançava com a música.
Eu ri em resposta. Pegamos champanhe e em seguida Théo parou para falar com uns amigos. Ficamos conversando por algum tempo antes de voltarmos para a mesa.
Encontrei até algumas amigas da época de escola e nos falamos por algum tempo e quando voltamos para a mesa João Pedro ainda me encarava. Eu o encarei por um tempo sem desviar o olhar, mas então vi a tal Carla segurando o rosto dele e fazendo ele olhar para ela, ela o beijou em seguida.
Aquilo para mim foi como um tiro no peito e me veio à tona a noite do bar, onde eu o vi beijando aquela garota, onde todo o nosso processo de separação começou.
Decidi simplesmente esquecer que o João estava no mesmo ambiente que eu e não olhei na direção em que ele estava pelo o resto da noite. Meu coração doía, mas eu não podia vê-lo com ela.
“Eu não estou pronta para isso! Eu não estou pronta! Não deveria ter voltado, está acontecendo o que eu mais temia. ”  Torturava a mim mesma.
Malu veio em minha direção e me salvou daquela mesa, me arrastando para o banheiro.
-Você está linda amiga. Ela disse toda orgulhosa.
Ela que estava linda em seu longo azul noite.
-Como você está?
-Eu não sei Malu, quer dizer, eu sei sim. Estou fingindo estar bem a noite toda, mas sinto que irei desmaiar a noite toda.
Ela me abraçou.
-E o André, por que não quis vir?
-Malu, tenho tanta coisa para te contar. O André me pediu em casamento.
-Ele o quê?
A cerimonialista entrou chamando a Malu urgente.
-Depois me conta isso, por favor. Ela disse saindo em seguida.
Eu me encarei no espelho.
-Acho que eu deveria ter aceitado me casar. Falei comigo mesma. –Não! Definitivamente isso não me ajudaria em nada, tenho que encarar os problemas de frente.
Saí do banheiro e Théo me esperava do lado de fora.
-Vem, já vai cantar os parabéns, a Malu está no palco.
Olhei para ele descrente.
-É bem a cara dela. Falei sorrindo em seguida.
Todos estavam ao redor do palco e Malu só começou os parabéns quando viu que eu me aproximei. Após os parabéns, ela cortou o bolo e brindou com o Bruno e encheu a Mariah de beijos.
Malu pegou um microfone em seguida.
Olhei para de relance e João estava parado com a tal Carla quase em minha frente e não tirava os olhos de mim. Fingi que não os vi e continuei a prestar a atenção na Malu.
-Eu queria agradecer a presença de cada um de vocês. Estão presentes nessa noite, apenas as pessoas que mais importam para mim. Sim claro, umas tenho mais afinidades, outras nem tanto, mas saibam que amo todos vocês. Humm, deve ter uma ou duas pessoas que não se incluem no que eu disse, mas tudo bem. Temos que aceitar os agregados dos convidados.
Todos riram em resposta. E eu congelei, pois sabia para quem tinha sido aquela indireta.
-Que garota louca. Falou Théo dando um meio sorriso.
-Hum hum. Falei sem ao menos piscar.
-É claro que se eu pudesse eu dividiria meu primeiro pedaço de bolo em diversas partes, pois têm pessoas aqui que são a razão da minha vida; a minha filha, o meu marido, os meus pais, o meu irmão e meus amigos. Mas enfim, dentre essas pessoas, tem uma pessoa que é simplesmente minha alma gêmea. Nós dividimos os melhores e os piores momentos juntas desde que éramos crianças. E eu não sei o que seria de mim se eu não tivesse conhecido essa pessoa.
-De quem ela está falando? Sussurrou Théo.
-Eu ainda não sei. Respondi.
-Sei que ela passou por alguns momentos bem delicados, mas nem por isso deixou de estar aqui hoje. E sei que você só veio por minha causa. E eu a agradeço infinitamente, pois minha festa e minha alegria não seria a mesma se você não tivesse presente Alice.
Todos os presentes da festa olharam em minha direção e eu devo ter ficado mais vermelha do que uma pimenta dedo de moça.
-Eu amo você minha amiga, então eu a agradeço do fundo do meu coração por estar aqui.
A festa inteira estava olhando para mim e todos começaram a bater palmas.
-Você vai ter que subir lá. Falou Théo.
Olhei em pânico para ele.
Respirei fundo e fui até onde Malu estava. Nós no abraçamos e todos bateram palma novamente.
Eu segurei o microfone em seguida e foquei meu olhar somente na Malu.
-Jamais deixaria de estar aqui essa noite, porque essa noite é sua, e fiquei com medo das ameaças que você me fez ao telefone.
Todos riram em seguida.
-É, ela é bem persuasiva às vezes. Falei em tom de deboche.
Malu riu.
-É brincadeira. Eu estou aqui porque não podia deixar de comparecer a essa festa, da única verdadeira amiga que eu tenho desde os meus nove anos de idade. Saiba que eu a amo e esse amor é um amor que resistiu ao tempo, à distância, as tempestades, aos bons tempos. E em cada situação da minha vida, boa ou ruim, você sempre esteve ao meu lado segurando minha mão. E eu nunca me esquecerei disso. Você sempre esteve ao meu lado quando precisei, sempre secou minhas lágrimas quando não as impediram de caírem. Sou muito grata a você Malu, você é minha irmã de alma e de coração e eu agradeço a Deus por ter colocado você em meu caminho.
Malu sorriu emocionada e me abraçou em seguida. Todos bateram palmas, sem exceção. Bruno e Mariah se juntaram a nós e alguns momentos depois Bruno começou um discurso para a esposa. Nós tiramos várias fotos em seguida e depois eu desci, juntando-me com o Théo novamente.
Alguns amigos de Théo estavam na pista de dança e fomos até eles. Théo começou a conversar com um deles enquanto dançava. Estava deslocada, sem vontade nenhuma de dançar e tudo o que eu queria era sair de lá.
-Théo, me espera aqui que vou ao banheiro.
Ele balançou a cabeça e eu saí em seguida.
Enquanto eu passava por entre as pessoas via o quanto elas pareciam felizes. Todas com um sorriso enorme estampo em seus rostos. E eu não conseguia encontrar motivo algum para sorrir, pelo contrário, eu me sentia a pessoa mais sozinha do universo. Sim, literalmente sozinha, pois estava sem meu filho, que era para estar ali entre as crianças correndo para lá e para cá; sem meu marido, que estava acompanhado da nova namorada e sem amigos, pois minha única amiga estava sendo totalmente disputada entre os vários e vários convidados. Peguei uma taça de champanhe e fui tomar um ar fresco, longe de todos.
Sentei-me em um banco que havia no jardim do salão. Alguns fumantes se refugiavam ali por perto para fumarem seus cigarros com sossego.
Tomei um gole da minha bebida e fiquei observando algumas crianças que estavam um pouco distantes brincando de pega-pega. Suspirei fundo, sentindo meu coração esmagado. Tudo o que eu mais queria era estar vendo o Pedro correr com seus amigos, ficava imaginando ele me olhar e me dar um sorriso enquanto brincava com os coleguinhas. Para ele, como se apenas meu olhar o protegesse, mesmo de longe. O que mais me doía era saber que eu nunca mais veria aquele sorriso, nunca mais o ouviria me chamar de mãe.
Pois é, não existe solidão pior. Não existe dor pior no mundo do que a dor de nunca mais poder ver seu filho sorrir para você, abraçar você e dizer que te ama.
Suspirei fundo me segurando para não chorar. E entendi o porquê eu escolhi ficar tanto tempo longe de tudo, pois tudo me fazia lembrar do Pedro e da minha antiga vida.
-Daria milhões pelos seus pensamentos. Disse uma voz masculina atrás de mim.
Nem precisei olhar para saber quem era. Otávio parou em minha frente, com as mãos no bolso da calça social.
-O pior é que eles valem milhões mesmo. Eu falei dando a ele um sorriso triste.
Apontei as crianças que estavam brincando e ele balançou a cabeça.
-Alice, eu nem imagino o que você passou, eu sinto tanto por isso.
Apenas concordei maneando a cabeça.
-De passagem aqui no Brasil?
-É eu decidi me aproximar mais da minha família, estou vindo mais vezes para cá pensei até em voltar por definitivo, mas sei lá. Só sei que após tantos anos longe de todos, descobri que o que mais vale é a família. Eu nem vi minha sobrinha crescer, então eu me pergunto até que ponto vale a pena ficar distante de tudo.
-É, é realmente complicado, principalmente se você tem uma família tão linda quanto a sua.
Otávio sorriu.
-E minha família ama você, você sabe disso. Acho que você faz mais parte dela do que eu propriamente.
-Eu também gosto muito da sua família. E a Malu você sabe, é mais do que uma irmã.
-Não precisa nem dizer que ela sente o mesmo.
Dessa vez fui eu quem deu risada.
-E sua namorada, não veio dessa vez?
Otávio disfarçou, passando o pé nas pedrinhas do jardim.
-Nós terminamos já tem alguns meses. Ela está morando em outra cidade e isso foi desgastando o relacionamento, acho que éramos incompatíveis profissionalmente, quase não nos víamos mais.
Balancei a cabeça positivamente.
-Alice, eu mudei bastante. Quer dizer, depois que você terminou comigo, eu passei a ver o quanto eu estava errado, o quanto agi errado com você, mas era porque eu simplesmente não podia nem pensar em te perder, e quando isso aconteceu eu quase enlouqueci. Mas com ela foi diferente, eu já não me importava mais, não sentia ciúmes, tanto que ela até jogou isso na minha cara uma vez.
Eu ri ficando sem graça.
-Tio Otávio, minha avó quer falar com você, vem vamos! Disse Mariah chegando quase sem fôlego de correr.
Otávio abaixou ficando da altura de Mariah.
-Fala para a vovó que o tio está conversando com uma amiga e vou daqui alguns minutos.
-Não tio, ela precisa falar com você urgente. Repetiu Mariah enquanto puxava o terno dele.
-Pode ser importante. Falei.
-Tá, eu vou ver o que ela quer, mas Alice, pensei em sei lá, poderíamos sair para beber alguma coisa, eu estarei na cidade até no domingo, então, amanhã queria ver você, assim pelo menos conversaríamos com mais calma.
-Otávio, eu ficaria muito feliz em conversar com você, mas é que eu só vim por causa do aniversário da Malu, e amanhã eu preciso estar em São Joaquim sem falta. Tenho um compromisso inadiável. Mesmo assim agradeço muito pelo convite.
Otávio balançou a cabeça concordando sem disfarçar sua frustração.
-Bom, eu vou ver o que minha mãe precisa, depois a gente se fala.
Eu sorri.
-Foi bom ver você.
Ele sorriu consternado e saiu em seguida. Mariah sorriu para mim e deu um piscada ao sair.
-É por isso que eu amo essa garota. Disse João Pedro chegando segundos após Mariah sair com o Otávio.
João Pedro sentou-se ao meu lado, entregando-me outra taça de champanhe.
-O que você disse a ela?
-Bom, digamos que nós temos alguns segredinhos e ela me ajudou a despistar o outro tio dela. Tenho certeza que ela tem uma certa preferência por mim do que pelo outro tio.
Eu ri. Meu coração estava acelerado e senti um frio percorrer toda minha espinha. João Pedro exercia esse efeito em mim mesmo após tantos anos.
-Sua namorada não vai gostar de ver você aqui fora. Alfinetei tentando parecer indiferente.
João Pedro não respondeu nada.
-E o seu namorado? Achei que ele viria.
-Ah, eu não achei prudente que ele viesse.
Nesse momento me repreendi silenciosamente.
-Não que não seja prudente você ter trazido a sua namorada, não me entenda mal. É que sei lá, toda a família reunida, então...
-Não, você tem razão. Eu também me arrependi de ter trazido a Carla. Sei lá, é tão complicado.
João Pedro ficou pensativo.
 -A Carla é uma garota muito legal, ela me está me ajudando bastante, mas é que...
Ficamos em silêncio outra vez. Tomei um gole do meu champanhe e João fez o mesmo.
-É difícil Alice. Quando você se perde uma pessoa que você ama, você fica procurando as mesmas características dela em outra pessoa, as mesmas qualidades, até os mesmos defeitos. Eu achei que com a Carla seria diferente, mas não é! Na verdade, nós não combinamos em nada. Sabe, eu até que tentei, mas hoje eu percebi que não adianta, eu posso estar com quem for, mas quando eu vejo eu fico totalmente sem chão.
João Pedro levantou a cabeça, olhando para o céu e passou a mão pelos cabelos.
-João eu sei bem como é se sentir assim.
Ele me olhou sem entender.
-O André me pediu em casamento.
João Pedro me olhou incrédulo. Sua face mudou totalmente de expressão.
-Alice, me diga que isso não é verdade!
Olhei para ele e balancei a cabeça positivamente.
-É verdade sim. E por causa disso eu terminei com ele.
Nesse momento eu vi um vislumbre de um sorriso.
-Como assim? Você não está mais com ele?
-Não. O André foi uma pessoa maravilhosa, foi um amigo muito importante para mim, mas no fundo ele nunca passou disso, nunca passou de um amigo. E quando ele me pediu em casamento, me vi em pânico. Como eu poderia me casar com alguém que eu conheci a apenas três meses? E ele merece alguém que o ame de verdade, mas esse alguém infelizmente não sou eu.
João Pedro não disfarçou a felicidade.
-Você não faz ideia de como eu me sinto em relação a essa notícia. Ele disse esbanjando um sorriso. –Mas e agora, o que você vai fazer?
Conto ou não conto para ele que estou de volta? Pensei. Sim, é claro que tenho que contar. Concluí.
-Na verdade ainda não disse a ninguém, quer dizer, somente minha mãe sabe. Nem para a Malu eu contei, e sei que ela vai me matar quando souber que não disse a ela. Mas eu vou contar para você.
João me olhou intrigado.
 -Depois que o André me pediu em casamento, fiquei em pânico. E então decidi que era hora de voltar para casa, então eu voltei. Estou aqui desde o começo da semana. E pela primeira vez desde que o nosso filho se foi, estou em paz comigo mesma, e me sinto em paz em nossa casa. Porque até então, eu não conseguia mais ficar lá, principalmente sozinha. Mas dessa vez foi diferente. Eu até sonhei com o Pedro, sabia? E foi tão... (fiz uma pausa e respirei fundo) foi tão real, foi maravilhoso.
João Pedro olhou no fundo dos meus olhos e minha única vontade era de abraçá-lo naquele momento. E foi como se ele lesse meus pensamentos e virou-se me abraçando em seguida.
-Alice, eu nem sei o que dizer. Estou me sentindo a pessoa mais feliz do mundo com essa notícia. Eu juro para você que eu sonhava em ouvir você dizer isso, mas confesso que já estava achando que isso nunca mais iria acontecer.
Eu apenas o abracei, sentindo o cheiro maravilhoso do seu perfume que mexeu com todas as minhas terminações nervosas.
-Ei vocês estão aqui. Disse Mariah correndo em nossa direção.
Eu pulei de susto ao escutar a voz dela. Como se tivesse sido pega em flagrante.
Ela nos olhou e sorriu.
-Tia Alice, vou contar uma coisa para vocês, mas vocês não podem contar nem para minha mãe e nem para o meu pai.
Nos dois olhamos para ela, concordando em seguida.
-O Pedro está muito feliz. Ele vive dizendo que só ficaria feliz quando você e o tio João se acertassem, e agora ele está muito feliz, sabia?
Olhei para ela intrigada. João Pedro me olhou em seguida.
-Ele estava com você? João perguntou.
-Hum hum! Ela disse sorrindo.
-Ele está aqui agora? Perguntei aflita.
-Não, ele já foi. Ele estava com a irmãzinha dele.
-Irmãzinha dele? Como assim?
-É, ele tem uma irmãzinha. Ela está sempre com ele.
Olhei para a Mariah sem saber o que dizer, então a abracei em seguida. João Pedro nos abraçou também.
-Até que enfim encontrei você. Disse uma voz feminina parando ao nosso lado.
Olhei e vi a Carla olhando sem entender.
-João Pedro, vamos, amanhã eu tenho plantão, então...
João Pedro olhou sem saber o que fazer.
Olhei para ele e fiz que tudo bem. Meu coração estava apertado, mas disfarcei o quanto pude.
-Bom, eu vou indo. Ele disse levantando-se.
-Tchau Alice, até mais. Disse Carla me olhando fulminantemente.
-Tchau Carla, boa noite.
João abraçou Mariah e em seguida me deu um beijo no rosto.
-Eu falo com você depois. Ele falou quase em sussurro.
Senti uma tristeza gigantesca só de pensar ele indo embora com ela. E eles se foram. Olhei para trás e no mesmo instante João Pedro também olhou.
-Vamos entrar. Falei para Mariah.
-Tia Alice, me leva ao banheiro?
-Claro que sim. Falei pegando em sua mãozinha.
Voltamos para o salão e Maria Helena estava me procurando para despedirem-se de mim.
-Alice, eu só sinto muito por vocês.
-Maria Helena, não se preocupe, estou bem. Menti.
Zé Pedro e Maria Helena me abraçaram e logo foram embora.
Fui com a Mariah ao banheiro e quando saí conversei com Théo, e alguns minutos depois saí à francesa.
34
Você e eu
Enquanto eu dirigia de volta para minha casa, não sabia se estava feliz com a reação do João Pedro ao saber sobre minha volta ou se estava arrasada por vê-lo indo embora com outra mulher. Cheguei em casa e fui direto para meu quarto, me jogando na cama em seguida. Repassando palavra por palavra que eu e João tínhamos conversado. Algum tempo depois, ouvi meu interfone tocar e estranhei pelo horário. Meu celular estava sobre a penteadeira e vi duas ligações perdidas de Malu.
-O que essa doida está fazendo aqui uma hora dessas? Perguntei para mim mesma enquanto descia as escadas.
Novamente o interfone tocou, e quando olhei pela câmera, vi que não era a Malu e sim o João Pedro. Sorri involuntariamente feito uma boba e corri abrir a porta. João Pedro me encarou quando abri a porta. Sua expressão era uma incógnita. Parecia feliz e nervoso ao mesmo tempo.
-Precisava ver você. Ele disse dando-me um sorriso.
Sorri para ele e o puxei para dentro o beijando em seguida sem pensar nas consequências.
De repente parei, pois eu estava errando novamente, afinal, ele tinha uma namorada.
-E sua namorada?
-Ela não é mais minha namorada, acabei de terminar com ela. Eu tentei Alice, mas não consegui esquecer de você.
Eu sorri para João Pedro. Estava me sentindo a pessoa mais feliz do mundo naquele momento.
-João, eu amo tanto você, mas eu preciso te pedir desculpa por ter descarregado sobre você toda a minha raiva do mundo quando o Pedro se foi, me perdoa? Eu não sabia o que fazer, me senti tão perdida.
João Pedro colocou o dedo sobre meus lábios.
-Ele está feliz agora, isso é o que importa. E eu sou o cara de mais sorte desse mundo, pois estou tendo a segunda chance ao lado da única mulher que eu já amei.
Nós nos olhamos e nos beijamos em seguida por vários e vários minutos. Depois João parou e me encarou.
-Tive uma ideia!
Olhei para ele surpresa.
-Quer ir comigo para onde tudo começou? O que você de ir agora para Bombinhas? Amanhã pela manhã estaremos lá, só você e eu.
-É tudo o que eu mais quero. Disse sem disfarçar minha alegria.
João me abraçou em seguida e começou a me beijar.
-Acho que isso pode esperar mais alguns minutos. Ele me disse me pegando no colo e me levando para nosso quarto.
Fizemos o melhor amor que já tínhamos feito desde que nos conhecemos e acabamos pegando no sono assim que terminamos.
Acordei com o sol entrando em meu quarto. Fiquei assustada ao olhar para o lado e não ver o João Pedro.
-Será que ele se foi? Se arrependeu? Pensei comigo mesma.
Me levantei e vi as roupas dele jogadas pelo chão junto com as minhas. Sorri por dentro de felicidade. Coloquei a camisa dele e desci em seguida.
João estava preparando nosso café da manhã e quando me viu, veio em minha direção e me abraçou.
-Bom dia, minha Alice.
-Bom dia meu amor. Falei em seguida.
Nós nos beijamos demoradamente. Tomamos café da manhã e em seguida nos arrumamos para sairmos de viagem. Só passamos do apartamento dele para pegar as chaves da casa de Bombinhas e algumas roupas e seguimos para Santa Catarina no Land Rover de João Pedro. Seguimos a viagem sem pressa para nada, conversando alegremente, dando risadas de tudo. Parecíamos um casal de adolescentes. João dirigiu quase o tempo todo segurando minha mão e a acariciando e eu amei.
Por volta da uma hora da tarde chegamos em Bombinhas. O caseiro já nos esperava, com a casa perfeitamente arrumada e a geladeira abastecida. Ainda assim saímos para almoçar em um restaurante. Naquele dia passamos parte da tarde na praia, e depois voltamos para a casa, onde ficamos enamorados o resto do final de semana. Ah, e um detalhe! Celulares desligados, assim não seríamos interrompidos para nada, sendo assim, ninguém sabia onde estávamos e muito menos que estávamos juntos.
João estava deitado em meu colo, enquanto eu acariciava-lhe os cabelos. Ele me olhou ternamente, dando-me um sorriso.
-Eu ainda acho que estou sonhando.
Eu sorri em resposta e o beijei.
-Isso não é um sonho.
-Ainda bem que não. Ele disse enquanto se sentava para me beijar novamente.
Eu comecei a rir.
-O que foi?
-João, já pensou a cara da Malu quando souber onde estamos. Ela não vai acreditar.
-Ah vai pirar quando souber que você não disse nada a ela. Com certeza. Queria ver a cara dos dois. Quando o Bruno viu você chegar na festa foi até mim, achando que eu não tivesse te visto. Ele apenas me fez sinal por causa da Carla.
-Humm, por causa da sua namorada.
-Na verdade ela nunca foi minha namorada. Nunca a pedi em namoro, só estávamos saindo.
Olhei para ele enciumada.
João Pedro sorriu.
-E saber que eu quase te perdi de vez! Eu não sei o que eu faria se você fosse se casar. No fundo eu tinha medo de ver você entrar naquela festa com o tal... bom você sabe... Mas quando eu vi você chegar sozinha e você estava tão linda, me deixou atordoado. Eu olhava para a Carla ao me lado e queria simplesmente que ela desaparecesse. A partir daquele momento eu simplesmente não conseguia tirar meus olhos de você, de onde você estava. E todos na mesa perceberam. Teve um momento que você saiu e eu não conseguia ver você. Eu faltei subir na cadeira para te procurar, mas depois vi você falando com o Otávio e aquilo me destruiu por dentro. Minha vontade era de arremessá-lo de perto de você. A Carla me chamou a atenção por diversas vezes, dizendo que eu estava dando na cara. Ela me beijou e eu nem conseguia corresponder o beijo dela e desde então ela não trocou mais nenhuma palavra comigo durante a festa, apenas naquela hora que ela nos viu.
-João, no dia do nosso divórcio, eu estava tão feliz, tão contente por estar com você e eu liguei para a Malu radiante. E você interpretou tudo errado. Eu confesso que senti ódio de você naquele momento, quando você simplesmente me entregou os papéis assinados e saiu.
-Alice, eu vi que o tal de André tinha ligado em seu celular e depois vi você falando no telefone, juro que achei que fosse com ele. Fiquei cego de ciúmes. Achei que você estava dizendo a ele que estava ali para que eu assinasse os malditos papéis. Naquele dia eu dirigi o dia todo e acabei vindo parar aqui, depois de dirigir horas e horas a esmo. Fiquei muito mal com tudo aquilo, achei que você não me amasse mais.
João suspirou.
-Mas vem aqui, vamos esquecer tudo isso, o que importa é que estamos juntos. E eu nunca mais deixarei você fugir de mim.
Nós nos beijamos novamente. João me colocou sentada sobre o colo dele e começou a me despir. Nós fizemos amor novamente. Era como se não conseguíssemos mais ficar longe um do outro.
Naquela noite nós não resistimos e acabamos ligando para a Malu e para o Bruno. Malu atendeu ao telefone furiosa.
-Eu não posso acreditar que você voltou para São Joaquim sem ao menos se despedir de mim.
Eu ri ao imaginar a reação dela.
-É eu viajei sem me despedir de você, mas não foi para São Joaquim.
-Como assim? Onde você está?
Olhei para o João que estava se divertindo assim como eu.
-Você nunca acertaria.
-Alice, fala logo. Estava doida atrás de você, queria conversar sobre o pedido de casamento; sobre meu irmão dando em cima de você e falar sobre o João com aquela vaca da tal médica.
- Malu, acho bom você se sentar.
-Não! Não me diga que você já se casou às pressas, escondido de todo mundo.
Fiz careta para o João, pois ela não me deixava falar.
-Você se lembra de uma vez que me você convenceu a ir passar as férias com você em uma tal casa de praia em Bombinhas?
-Hum, e o que tem isso?
-Então, você sabe que eu amei aquele lugar, tanto que me casei lá e hoje estou aqui novamente.
-Como assim?
-Estou na casa de praia.
Malu ficou em silêncio.
-Em Bombinhas? Alice, sua..., você está com o João Pedro e não me disse nada?
Eu ri novamente.
-Eu estava louca para te contar, mas é que estávamos tão ocupados. Falei ironicamente.
Malu começou a rir descontroladamente.
-Bruno, corre aqui que eu tenho uma notícia maravilhosa. Ela gritou.
-Eu não posso acreditar nisso. Eu só vou perdoar você, porque você está com o João. Mas e o casamento com o André? E a namorada do João Pedro?
-Eu ia terminar de te contar na festa, mas você precisou sair. Quando o André (João Pedro revirou os olhos, fazendo careta nesse momento) me pediu em casamento, fiquei desesperada, pois eu não queria, então arrumei minhas coisas e terminei com ele. E então voltei para Curitiba.
Fechei os olhos pois eu tinha certeza que ela não me perdoaria por não ter contado a ela.
-Quando foi isso?
Fiz outra careta.
- Na terça-feira eu já estava em Curitiba. Mas não disse nada a ninguém. Eu queria te contar, só que eu sabia que você estava tão envolvida em sua festa que eu não quis te atrapalhar. E eu precisava também de um tempo para me adaptar na minha casa novamente.
-Alice, estou me sentindo um zero à esquerda. Você voltou e não me avisou? Ficou a semana toda perto de mim sem que eu soubesse?  Eu mato você, juro que mato.
-Toma fala com seu amigo. Ela disse entregando o celular para o Bruno.
-Bruno, fala para ela me perdoar, por favor?
-Alice, ela é louca, você sabe. Mas caramba, estou muito, mas muito feliz.
-É eu mais ainda. Mas fala com o João Pedro, ele está aqui agoniado para falar com você.
Entreguei o celular para o João e eles se falaram por vários e vários minutos. Depois ele virou-se para mim.
-A Malu quer falar com você novamente.
Peguei o telefone imediatamente.
-Eu desculpo você somente porque você se declarou para mim naquela festa e foi lindo. E porque você está de volta, porque para mim isso é a coisa mais importante.
-Ah, eu sabia que você me perdoaria.
-Humm, mas depois quero saber cada detalhe que aconteceu entre vocês.
-Pode deixar que lhe colocarei a par de tudo.
-Acho bom, você me deve isso. Mas então ele terminou com a médica vadia?
-Sim, claro. Falei sorrindo por ela se referir a Carla daquela maneira.
-Ah que bom. Mas então vai lá curtir seu marido, imagino que vocês têm muitas coisas para fazerem ainda. Amo você sua maluca.
-Eu maluca? Também amo você Malu.
Passamos a semana em Bombinhas. João Pedro ligou no Ministério Público e avisou que ficaria fora a semana toda. Na quinta-feira após o almoço, Malu, Bruno e Mariah chegaram. Na sexta-feira foi a vez da minha mãe e do Fábio chegarem. E no sábado sem imaginarmos, chegaram de surpresa Zé Pedro e Maria Helena. Foi sem dúvida um final de semana inesquecível para todos nós.
Quando estávamos indo embora para Curitiba, no domingo à noite, João segurou minha mão e a beijou.
Eu o olhei agradecida e ele me olhou preocupado.
-O que foi?
-Como vai ser quando chegarmos lá?
-Como assim? Indaguei.
Ele suspirou fundo.
-Eu não quero ficar longe de você por mais nenhum minuto.
-Ah, eu achei que você fosse querer ficar em seu apartamento. Sei lá, pelo menos por enquanto.
-Não, claro que não! Além do mais, é perigoso você ficar sozinha naquela casa. Fora que eu não consigo me acostumar a ficar sozinho no apartamento.
Eu ri.
-Bom, minha casa é bem espaçosa, e minha cama é enorme. Se você quiser pode ficar lá comigo. Eu moro sozinha e estou totalmente solteira, e pelo o que eu soube, você também está bem solteiro. Então...
-Você não está mais solteira. Mas espera! Você está me convidando para morar com você? Ele me perguntou ironicamente.
-Eu já disse, tenho uma casa enorme e quer saber? Eu não conseguiria mais ficar longe de você.
João Pedro me olhou radiante.
-Amo você Alice.
-Eu amo você João.
João quis passar na mesma noite no apartamento dele, onde pegamos todas as coisas dele e levamos para nossa casa. Após tomarmos banho, estávamos deitados em nossa cama. João estava de frente para mim como se me admirasse.
-Eu fui até o orfanato e conheci o Vinícius.
Ele me olhou confuso.
-Você foi até lá.
-Sim, na verdade quando cheguei de volta aqui em Curitiba, fui a semana toda visitar as crianças. Mas em especial o Vinícius. Sei lá, fiquei encantada por ele e quando soube da história dele fiquei muito mexida.
-É, eu também fiquei encantado com aquele garoto. Ele assim como as outras crianças têm um passado muito triste, mas não sei o porquê tive uma afinidade muito grande com ele.
-Amanhã eu quero ir ao orfanato novamente. Falei.
-Nós vamos, eu também quero ir com você.
Eu sorri imaginando onde aquilo ia dar.
35
Feitos para nós
Eu e João Pedro íamos quase todos os dias visitar Vinícius, que amava estar com a gente, e doía deixá-lo chorando toda vez que íamos embora.
Nos casamos novamente exatamente um mês após o aniversário de Malu. Fizemos apenas uma cerimônia para minha mãe e o Fábio, para os pais de João, para Bruno e Malu, para a Fabi e Leila, para o Théo e o Lú e para a dona Bel e o esposo dela.
Em seguida demos entrada nos papéis da adoção de Vinícius e ele contava os segundos para ir para nova casa dele.
Estávamos em dezembro, jantando no Aquarello´s, quando Ricardo, o advogado de João ligou avisando que a adoção do Vinícius estava liberada. Nossa felicidade era gritante e naquela noite nem eu e nem o João Pedro conseguimos dormir de tanta ansiedade.
Na manhã seguinte, quando chegamos ao orfanato, Vinícius veio ao nosso encontro. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ele me abraçou e começou a chorar.
-Ei, chegou o grande dia! Vamos para nossa casa. Falei toda radiante.
João Pedro o pegou no colo.
-Vinícius, não precisa ter medo, você vai gostar, tenho certeza. Ah e seu quarto está lindo, cheio de brinquedos, você precisa ver.
-Eu sei, mas é que minha irmãzinha chegou aqui no orfanato ontem.
Olhei para uma das Irmãs sem entender.
-João Pedro, não se preocupe, eu disse que logo ela encontrará um novo lar. Disse a Irmã Maria
-Que irmã? Indagou João Pedro ainda com Vinícius no colo.
-Vamos lá comigo buscar sua irmãzinha para a tia Alice conhecê-la? Disse Irmã Clara ao Vinícius.
Ele imediatamente pulou do colo do João para segui-la.
-A mãe do Vinicius estava internada em uma clínica de reabilitação. E lá, ela engravidou de um dos pacientes.  Então os dois fugiram e voltaram para as ruas e voltaram a usar o crack. No dia que ela foi ter o bebê, ela teve uma overdose e faleceu, e a menina Vitória sobreviveu por um milagre.
Senti um nó em meu estomago. João olhou para mim e apertou minha mão.
-A tia que cuidou do Vinicius ficou com a menina por um pouco mais de um mês, porém eles são extremamente pobres. Mas o problema é que a Vitória nasceu extremamente desnutrida e sofre algumas convulsões que provavelmente estão relacionadas ao fato da mãe ter feito constante uso do crack durante a gravidez. Dessa foram ela precisa de alguns cuidados e um bom acompanhamento médico, sendo assim, a tia não teve condições de cuidar da menina e a trouxe ontem pela manhã. E o Vinícius se encantou por ela.
João Pedro me olhou consternado. E então a freira trouxe a bebê, que estava com um macacão bem maior que seu tamanho, ela parecia se perder nas roupinhas de tão pequenina e magra.
Eu a peguei em meus braços e senti uma tristeza gigantesca. Ela parecia tão sofrida com apenas dois meses de idade. Sua pele toda áspera, toda pipocada por causa do calor. Ela começou a chorar, mas eu comecei a balançá-la e a cantar uma música de ninar e em minutos ela adormeceu em meus braços. João também quis pegá-la e vi que ele se emocionou ao ver a pequena Vitória.
-Bom vou levá-la ao berçário. Disse a Irmã Clara pegando Vitória dos braços de João.
Ele a entregou com dor no coração. Seus olhos demonstravam isso.
Vinícius foi até ela e a Irmã Clara abaixou-se para que ele se despedisse da irmãzinha.
-Eu ainda vou voltar para te buscar. Ele disse enquanto as lágrimas caiam.
Olhei para o João Pedro e o vi enxugando as lágrimas que caiam dos olhos dele. Peguei Vinícius em meu colo e saímos de lá com o coração partido. Eu não conseguia nem conversar de tão abalada que eu estava ao ver a situação que a irmãzinha de Vinícius se encontrava.
 Passando pelo jardim, Vinícius abriu um sorriso contagiante.
-Olha ali. Ele disse apontando uma borboleta azul que estava em uma das flores.
Meu coração disparou ao ver a borboleta. Senti uma paz imensurável naquele momento e rezei pelo meu filho, pois sabia que ele estava mais próximo de mim do que eu imaginava. João segurou minha mãe e sorriu para mim.
Assim que entramos no carro, João Pedro me olhou.
-Você está pensando na mesma coisa que eu?
-Eu acho que sim.
Ele olhou para a rua e ficou em silêncio.
-Em seu sonho Pedro disse que a irmãzinha dele precisava muito de nós dois. E que criança precisa mais da nossa ajuda do que a Vitória? A probabilidade de alguém adotar dois irmãos é quase nula. Ainda mais alguém na situação dela, que precisará de um bom acompanhamento médico e todos os cuidados desse mundo.
Eu o abracei e comecei a chorar.
-Eu estava com medo de lhe dizer isso, achei que você não aceitaria.
Ele me olhou comovido.
-Quando eu a peguei em meus braços, foi como se eu sentisse a presença do nosso filho ao nosso lado. Parece que eu podia escutá-lo dizendo que era aquela a irmãzinha dele. Foi sei lá, muito estranho, fiquei comovido demais com aquilo. Então eu vi aquela tristeza no Vinicius, não tive dúvida que era um sinal.
Escutei João Pedro sem dizer nada. Estava totalmente perdida em meus pensamentos.
Seguimos para nossa casa em silêncio, sem festas e comemorações. Diferentemente do que estávamos planejando.
Ambos estávamos pensativos e calados e Vinícius apenas secava as lágrimas que insistiam em cair.
Assim que chegou em sua nova casa, Vinícius não conseguia acreditar no quão grande ela era. Quando ele viu seu novo quarto ficou perplexo e começou a chorar de emoção. Nunca me esquecerei daquele momento.



Epílogo
Alguns dias depois tivemos uma grande vitória, não sei se foi por um milagre ou pela influência do João Pedro e de seu pai.  Pois, dias depois de Vinícius estar em nossa casa, recebemos a notícia que Vitória também se juntaria a nós.
No Natal, ela já estava em nossa casa. Já tinha seu quartinho todo cor-de-rosa ao lado do quarto todo azul do irmão dela. Vinícius era a criança mais amável, feliz e grata do mundo.
Vitória ainda parecia assustada, e aos poucos estava ganhando peso. Porém, contratamos o melhor neurologista de Curitiba para acompanhar o caso dela, que já estava quase normalizado. Ela só precisaria de um acompanhamento e muito carinho, amor e atenção da família dela, e isso ela teria de sobra.
Vinícius, não se cabia ao ver uma árvore de Natal com tantos presentes e não podia acreditar que ganharia um presente do Papai Noel.
-Pai, mãe. Ele disse segurando nossas mãos. Sabia que esse é o primeiro Natal que o Papai Noel se lembrou de mim? Eu nunca ganhei presentes dele antes. Eu mal posso acreditar!
Eu e João Pedro o abraçamos emocionados. Pois aquela fora a primeira vez que Vinícius havia nos chamado de mãe e pai.
Vitória acordou e eu a peguei em meus braços. Ela olhou para mim e sorriu. Eu a enchi de beijos.
Ver o sorriso dos meus novos filhos, era o melhor presente que eu poderia ganhar.
Soube naquele momento que embora Vinícius e Vitória não tivessem nascido do amor entre mim e João Pedro, eles foram feitos para que eu e João pudéssemos dar todo nosso amor a eles.
João Pedro estava no chão da sala brincando com Vinícius, eles me esperavam para que pudéssemos começar a abrir os presentes. Fechei meus olhos e imaginei Pedro sentado entre os irmãos dele. Era a única coisa que me faltava para que minha alegria ficasse completa. Mas eu sabia que um dia nós nos encontraríamos, mesmo que fosse em meus sonhos. E eu podia sentir a presença constante dele ao meu lado, tanto que, cada vez que Vitória sorria, eu o imaginava brincando com ela.


Fim










Gostaria de agradecer a cada pessoa que perdeu alguns minutos durante dias, para acompanhar a história de Alice e João Pedro.

 Dividi essa história com vocês com muita satisfação e muito amor!

Dedico essa história a uma amiga que mesmo estando longe, está presente em meu coração constantemente, e ela assim como a Alice, realizou o  seu sonho de ser mãe com um principezinho que não nasceu dela, mas que foi feito para ela! E ela o ama incondicionalmente. E ele a ama mais do que tudo nessa vida! E eu só tenho a dizer que a admiro imensamente por isso.


Érika Gomes Prevideli

9 comentários:

  1. Parabéns Érika! Amei a história, valeu cada tarde e noite que lia e reelia, ainda cheguei a imaginar que eles teriam uma filha fruto do amor deles,mas foi lindo o gesto de adotar! Parabéns novamente!

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  2. Aaaiiii que lindo, Érika. Adorei ler cada parágrafo dessa linda história de amor que você compartilhou conosco. Eu estou tão apaixonada pelo João e pela Alice, que estou até com vontade de trazê-los para casa. Espero que ele seja publicado em breve. Um grande beijo e parabéns.

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  3. Amiga.....parabénssssss.....Além de linda a história, ela nos ensina muitas coisas boas. Você sendo assim especial sempre, só poderia mesmo escrever coisas maravilhosas. Fico até sem palavras para expressar minha felicidade, em saber que se tornou uma escritora espetacular. ahhhh e olha, como dica para a capa do livro, adorei essa mão com a borboleta azul. bejus querida.

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  4. Parabéns Erika...amei passar as tardes lendo seu livro... História linda e apaixonante...continue escrevendo....

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  5. Filha estou sem palavras ,pra dizer o quanto estou orgulhosa de vc ,essa história é simplesmente linda ,me emocionei muito pois o final foi lindo demais .amei amei amei .................................

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  6. Parabéns! Linda história amei, esperando a próxima...

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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