sexta-feira, 5 de junho de 2015

" Recomeços" Parte 15 por Érika Gomes Prevideli

" Recomeços " 


Parte 15

As semanas foram se passando, e quando eu vi, já era a semana do Natal. Malu me ligou no início da semana, me intimando para que eu passasse o Natal na casa dela, já que a Maria Helena não faria a ceia na casa de praia como de costume. Mas eu fiquei de ver com minha mãe onde ela passaria a ceia de Natal, pois meu medo era de encontrar João Pedro na casa na casa da Malu.
No dia seguinte, fui com André (que estava sendo meu amigo para todas as horas) até o centro da cidade, onde compramos os presentes de Natal da nossa família.
Comprei um presente para minha mãe, para o Fábio, para Mariah, para Malu, para o Bruno e para meus ex-sogros. Mas tudo o que eu via, pensava em Pedro. Meu maior desejo naquele momento era comprar um carrinho, ou um jogo, uma bola, enfim, qualquer coisa que o fizesse feliz. Mas isso não era mais possível. André me viu parada no departamento infantil de uma loja, mas imediatamente me pegou pela mão e me tirou de lá, eu estava anestesiada.
29
 O primeiro Natal sem Pedro
Na quarta-feira após o almoço, finalmente havia concluído meu livro, o que para mim foi extremamente gratificante, principalmente pelo fato dele ter sido começado e concluído em meio a acontecimentos tão difíceis em minha vida.
O silêncio em minha casa estava me enlouquecendo, decidi descer para cuidar do meu jardim, quando vi a caminhonete de André se aproximar.
-Achei que tivesse ido? Perguntei sem entender, já que ele dissera que iria para Porto Alegre na quarta-feira, onde ajudaria as filhas dele com as compras de Natal, que seria na sexta-feira.
André desceu da caminhonete vindo ao meu encontro.
-Já estou indo, só passei para saber se você vai ficar bem.
-Claro que sim. Amanhã mesmo vou para casa da minha mãe, não se preocupe! Exclamei.
-Se você quiser vir comigo, eu iria adorar.
Eu sorri, balançando a cabeça negativamente.
-Não se preocupe André, eu vou ficar bem, vá ver suas filhas.
Ele suspirou fundo e em seguida me abraçou.
-No ano novo estarei aqui e faremos uma festa no hotel, então se você tiver por aqui, será minha convidada de honra.
-Eu acredito que estarei por aqui sim. Ah, e eu preciso pegar o presente das meninas que eu comprei. Eu disse indo em direção da minha casa.
Fui até a sala e abri o armário, onde estava o presente das filhas de André e o dele, e saí em seguida, encontrando-o na área.
-Aqui está um presente que comprei para elas. E este aqui é para você.
Ele abriu um largo sorriso. Seus olhos azuis brilhavam olhando nos meus.
-Você me comprou um presente? Eu não ganho um presente de Natal desde... faz muito tempo.
-Sério? Bom, é apenas uma lembrança, espero que goste.
-Eu já amei, mesmo sem saber o que é. Ele falou abraçando-me em seguida.
André colocou meu presente sobre o banco de madeira e em seguida abriu o bolso da calça cargo tirando de lá uma caixinha de presente da H.Stern e a entregou para mim.
-O que é isso? Indaguei apreensiva.
-Não se preocupe, não é uma aliança, mas quem sabe um dia você me proporcione essa alegria.
Eu ri balançando a cabeça negativamente.
-André, não precisava. Disse acanhada.
Abri a caixa e me deparei com um cordão e um pingente em forma de medalha em ouro amarelo polido e com um detalhe em brilhante adornado com um coração, e o que tornou aquela peça única, era que meu nome estava gravado nela.
-Uauu, nem sei o que lhe dizer! Eu amei!
Ele sorriu e em seguida me ajudou a colocar o cordão em meu pescoço.
-Ficou lindo em você.
-Hum obrigada, eu amei. Mas agora abra seu presente.
André abriu a embalagem e sorriu ao ver o relógio, colocando-o imediatamente.
-Alice, eu amei. Obrigado, como eu disse fazia muito tempo que eu não ganhava um presente de Natal. Mesmo das minhas filhas, pois elas nunca se preocuparam com isso, não que eu me importasse, mas vindo de você, me deixou ainda mais feliz.
Eu sorri.
-Bom, então tenha um feliz Natal. Eu disse o abraçando.
-Feliz Natal Alice.
André me encarou, seus olhos penetraram nos meus e alguns instantes depois inclinou-se dando-me um beijo em meu rosto.
Ele voltou para a caminhonete e então se foi, e me vi sozinha novamente.
Na sexta-feira, saí por volta das dez horas da manhã, passei no centro da cidade e comprei um porta-retratos, coloquei nele uma foto do último aniversário do Pedro, onde ele estava abraçado com Maria Helena e Zé Pedro, era uma foto lindíssima, e com certeza Maria Helena amaria ganha-la. Pedi que fizessem um embrulho no porta-retratos e segui em direção a Florianópolis. Queria deixar os presentes dela e de Zé Pedro e só depois seguir para Curitiba.
Algumas horas depois, estava entrando em Floripa, peguei meu telefone e liguei somente para confirmar se ela estava em casa, e ela estava. Meia hora depois, estacionei meu carro em frente a grande casa dos Moretto. Suspirei aliviada por não ver o carro de João Pedro.
Peguei os embrulhos dos presentes e o embrulho que estava a foto de Pedro e em seguida toquei o interfone. Maria Helena foi me receber e abriu um sorriso sincero ao me ver.
-Alice, como eu fiquei feliz ao saber que você passaria daqui. Disse ela me dando um forte abraço.
-Estou indo para a casa da minha mãe, mas eu precisava dar um abraço em vocês.
-Oh, minha querida, você sempre será muito bem-vinda aqui, viu! Vamos entrar. Ela disse pegando em minha mão.
-Maria Helena, o João não está aqui, não é?
Ela olhou aflita.
-Ele está na cidade, mas não em casa. Ele e o Zé Pedro saíram após o almoço e foram ao supermercado comprar umas coisas para o jantar, e eu acredito que o Zé Pedro não tinha comprado meu presente ainda, e levou o João para ajudá-lo, então não se preocupe, eles vão demorar.
Balancei a cabeça concordando e entramos em seguida. Maria Helena me levou até a sala de visitas e sentamos no amplo sofá.
-Bom, eu quis passar daqui para dar um abraço e desejar a vocês um Feliz Natal, pois vocês foram pessoas de extrema importância durante todo esse tempo para mim. E depois daquele acidente, vocês estiveram ao meu lado e ao lado do João o tempo todo. E eu nunca me esquecerei de como cuidaram de nós. Então eu só tenho que agradecer a você e ao Zé Pedro por tudo.
-Oh minha menina, você é como uma filha para mim. Você sem dúvida foi a melhor coisa que aconteceu na vida do meu filho, e com isso eu ganhei a filha que nunca tive. E o que eu puder fazer por você ainda, eu farei. O que me entristece é saber que você e meu filho não estão mais juntos, sendo que vocês ainda se amam, e eu digo isso porque eu vejo isso nos seus olhos e nos olhos do João. Pode ter certeza que ele ama você.
Soltei um riso triste.
-Eu realmente amo o João, ele foi o grande amor da minha vida e ainda é. Fiz uma pausa. -E é por isso que eu desejo que ele seja muito feliz. Bom, mas enfim.... Falei tentando disfarçar minha tristeza. – Passei por aqui também porque comprei uma lembrança para você e uma para o Zé Pedro.
Maria Helena abriu o embrulho e sorriu ao ver um cordão com uma medalha em ouro amarelo com a oração do Pai Nosso.
-Nossa é lindo, eu amei Alice. Ela disse com os olhos marejados e me abraçou em seguida.
-Me ajude a colocar, não vou tirar mais, sinto que estarei sempre protegida com essa medalha. Será meu amuleto.
Assim que colocamos o cordão, ela foi até um aparador para visualizar o cordão e em seguida veio em minha direção sorridente e satisfeita. O presente de Zé Pedro, eram abotoadoras em ouro branco, mas ela deixou para que ele abrisse.
-Eu também comprei um presente para você. Ela disse indo em direção ao quarto.
Maria Helena voltou com um embrulho de uma joalheria, me entregando em seguida.
Eu o abri emocionada. Era um par de brincos em ouro amarelo e ouro branco.
-Maria Helena, não precisava, mas eu amei. Disse vibrando e a abraçando em seguida.
-E esse embrulho aqui (eu disse segurando o porta-retratos) tem algo que é muito valioso e eu tenho certeza que vocês irão amar.
Nesse momento senti uma bola de golfe parada em minha garganta.
-Mas Alice, outro presente?
Entreguei a ela o embrulho e quando ela abriu não conseguiu segurar a emoção em ver ela o Zé Pedro, ambos sorrindo abraçando o neto. Foto essa que eles nem chegaram a ver, já que o acidente ocorreu poucos dias após o aniversário do Pedro.
Maria Helena abraçou o porta-retratos e começou a chorar. Ao ver aquela cena, não me segurei e também desabei. Ambas nos abraçamos e choramos juntas.
Momentos depois ela se levantou e pegou uma caixa de lenços de papel e entregou para mim.
-Sabe Alice, esse ano não teria sentido eu sair para comemorar o Natal. Como nós iriamos comemorar, sendo que nosso menino não está com a gente.
Maria Helena pegou um lenço e secou suas lágrimas.
-Por isso que eu e o João resolvemos ficar aqui em casa, seremos apenas nós três, o Bruno queria que eu passasse com eles, mas não tem sentido. Não esse ano, pois ainda dói demais.
-É, eu também me sinto assim. Sabe esses dias foram terríveis para mim. Era a época que o Pedro mais gostava, saíamos com ele quase todas as noites para comprar os presentes e ele ficava alucinado com as decorações das lojas, dos shoppings. Então cada vez que eu via uma luzinha de Natal acesa, era impossível não lembrar dos olhos dele brilhando de felicidade. E eu também não vou comemorar. Combinei com a minha mãe e seremos apenas nós duas, já que o Fabio passará com a família dele.
-Se vocês quiserem se juntar a nós seria um imenso prazer.
-Não, não dá. Falei secando minhas lágrimas.
-Bom, mas agora eu preciso ir. Manda um beijo para o Zé Pedro por mim e (fiz uma pausa) e um para o João.
Maria Helena apenas balançou a cabeça concordando.
-O João quer que eu faça aquele brigadeirão que você fazia sempre e ele amava, mas eu não tenho ideia de como fazer. Preciso até entrar na internet e pegar a receita.
Eu sorri ao lembrar do quanto ele realmente gostava daquela sobremesa. Ele comia quase tudo sozinho.
Olhei para ver quanto tempo eu estava lá, e já tinha passado cerca de uma hora.
-Bom, se você quiser eu faço para você e depois vou embora.
-Sério? Eu adoraria.
-Então vamos lá. Eu disse seguindo em direção à cozinha.
Minutos depois o brigadeirão estava assando em banho e maria no forno.
-Depois de assado é só desenformar e enfeitá-lo. O João gosta de bastante chocolate granulado.
-Pode deixar, vou caprichar.
-Agora eu preciso ir. Disse secando minhas mãos e saímos em seguida.
-Obrigada Alice, obrigada pelos presentes, obrigada por esse retrato que sem dúvida nenhuma foi o retrato mais lindo da minha vida e foi o melhor presente que eu já ganhei. E obrigada por ter feito a sobremesa preferida do João.
Eu a abracei e nos despedimos.
Dei partida em meu carro e saí, olhei no retrovisor e vi de longe o carro do João virando a esquina. Mas eu segui em frente.
Algumas horas depois cheguei a minha casa em Curitiba. Liguei para minha mãe, mas ela estava na casa dos pais de Fábio, onde passaria a ceia. Ela insistiu para que eu fosse com ela, mas menti, disse que passaria com a Malu. Só que eu não tinha condições de comemorar um natal, o primeiro natal sem o Pedro, na casa de quem quer que fosse. E então passei a noite de Natal deitada no quarto que era do Pedro, sozinha e chorando com saudades dele. Desde a morte dele, aquela foi uma das piores noites da minha vida.
Doía demais não ter meu filho comigo e sabia que era uma ferida que nunca mais cicatrizaria.
No outro dia, fui até o banheiro e me assustei ao me ver no espelho. Meu rosto estava deformado de tanto que eu tinha chorado na noite anterior.
Fiz umas compressas com água gelada e depois tomei um banho. Em seguida prendi meus cabelos em um rabo. Coloquei um vestido um pouco rodado que era todo florido, com cores suaves, todo romântico.
Respirei fundo, porque ainda tinha uma maratona, onde tinha que cumprimentar várias pessoas na casa de Malu e dar explicações de como eu estava. Por isso, decidi enrolar um pouco e fui até o orfanato, onde havia doado as coisas de Pedro. Cheguei lá e falei com uma das Madres, que autorizou minha entrada.
Assim que entrei, Irmã Clara me disse que João Pedro havia ido até o orfanato uns dias antes e levado um presente para cada criança. Saber daquilo me deixou ainda mais sensibilizada. Brinquei um pouco com as crianças e acabei até almoçando com elas.
Antes de ir embora, fiz um cheque e entreguei para a Madre, para que ela destinasse para algo importante para as crianças. A Madre me abraçou e agradeceu-me várias vezes.
Saí de lá após o almoço e fui direto para a casa de Malu. Ao chegar na casa dela, ela foi me fuzilando com os olhos, provavelmente por causa do horário.
-Alice, agora? Te esperei a manhã toda. Esperei você para almoçar com a gente.
-Desculpa Malu, eu passei antes no orfanato e acabei perdendo a hora.
-Poxa vida Alice, todos estavam esperando por você e nada de você chegar.
-Feliz Natal. Eu falei abraçando-a.
Olhei para Malu e suspirei.
-Malu, você sabe que essa data não está sendo fácil para mim, então pega leva. Só passei daqui para lhe dar um beijo e para ver a Mariah.
-Eu entendo você. Ela disse compreensiva.
 Peguei os pacotes de presentes que estavam no meu carro com a ajuda de Malu e entramos em seguida e foi como eu disse, várias pessoas me cumprimentando, perguntando como eu estava. Algumas delas me olhavam com pena, outras sensibilizadas, mas eu me mantive forte. Mariah correu me abraçar ao me ver. E eu a peguei em meu colo e a abracei com todo meu amor.
Bruno também me abraçou saudoso. Ele também sabia como eu estava, afinal o irmão dele provavelmente estava da mesma maneira.
-Está tudo diferente esse ano, não é? Ele disse enquanto me abraçava.
Meus olhos encheram-se de lágrimas.
-Pois é! A vida é implacável às vezes.
Tentei segurar minhas lágrimas, mas foi impossível. Então Bruno se pegou pela mão e me levou até o quarto de Mariah.
Ele também estava emocionado e ambos sentamos na cama de Mariah.
-Alice, eu sei que o que vocês têm passado não está sendo fácil. O João Pedro também não está bem. Ontem mesmo eu soube que ele ficou arrasado quando soube que você esteve na casa da minha mãe. Então, eu sei que não é hora para conselhos, mas vocês se gostam ainda, isso é fato. Então parem de perder tempo, o tempo é precioso e está correndo.
-Bruno, eu sei, mas...
-Você está namorando? Eu sei que eu não tenho nada com isso, mas é que o João tem certeza que você está. Já a Malu me jura que você não tem ninguém.
-Não, claro que não. Eu e o André somos amigos. Apenas amigos. Teve um único beijo, mas foi só isso.
-Então! Meu irmão é um burro! Exclamou ele balançando a cabeça em negação.
-Deixa para lá Bruno. Talvez não era para ser.
Mariah e Malu entraram em seguida no quarto e Malu me viu enxugando minhas lágrimas e me abraçou em seguida.
-Bom, vamos abrir os presentes. Disse Malu, disfarçando as lágrimas.
Mariah ficou alucinada ao abrir a caixa do presente dela. Era uma casa de bonecas de madeira de três andares que depois de montada, ficaria quase na altura dela; era toda romântica no estilo provençal. E para completar, comprei toda a decoração da casinha e uma família inteira de ursinhos que seriam os moradores da casa.
Para Malu, comprei uma bolsa de mão preta da Chanel e para Bruno um relógio igual ao que comprei para o André. Em seguida, Malu me entregou meu presente.
Era um scarpin preto Christian Louboutin e uma bolsa de mão combinando, ambos eram divinos. Depois de todos os agradecimentos, fiquei com a Mariah, tentando montar a casa de bonecas. Ficamos por mais de duas horas até a casa ficar pronta e decorada, isso com a ajuda da mãe da Malu.
No final da tarde, eu e Mariah fomos até a área de lazer (onde os convidados estavam reunidos), para beber alguma coisa, pois a Mariah estava com sede e exausta. Fui até o freezer e peguei um copo de água mineral e nos sentamos em uma das espreguiçadeiras e enquanto estava abrindo o copinho de água, ouvi uma voz conhecida. Olhei de relance e vi João Pedro entrando com um embrulho nas mãos, e o Bruno o acompanhando.
João Pedro olhou em minha direção e eu rapidamente desviei o olhar.
-Mariah, agora a tia Alice vai embora, mas depois eu volto para brincarmos com a sua casinha, tudo bem?
-Mas tia, por que não agora?
-A tia está com muita dor de cabeça, vou para casa e mais tarde eu volto.
Ela pareceu chateada, mas concordou com a cabeça.
Olhei e João estava vindo em nossa direção, totalmente desconcertado assim como eu.
-Olha, o tio João também veio te dar um presente. Eu disse dando a ela um sorriso, me levantando em seguida.
Ela me deu o copo de água para que eu segurasse e correu na direção a ele. João estava lindo. Estava de calça jeans desbotada e camiseta preta.
Ele imediatamente se agachou para abraçá-la e em seguida a pegou no colo, entregando a ela o pacote com o presente.
Joguei o copo na lixeira e ele veio em minha direção. Senti minhas pernas amolecerem naquele momento.
-Oi Alice.
-Oi João Pedro.
-Olha tia o que eu ganhei. Disse Mariah alegre com o presente.
-Nossa, o que será que tem aí dentro? Eu disse passando a mão pelos cabelos dela.
-Eu não sei. Ela respondeu fazendo careta.
-Então corre lá para abrir.
-Vamos tio! Maria exclamou animada.
-Vamos sim, Má. Ele falou ficando sem graça.
-Vamos com a gente Alice?
-Não João, fica à vontade. Eu disse dando a ele um meio sorriso.
João Pedro sussurrou alguma coisa no ouvido de Mariah, que em seguida deu um sorriso.
-Vamos com a gente tia Alice? Por favor?
Suspirei fundo tentando me recompor.
-Tudo bem, vamos lá. Eu disse dando de ombros e indo em direção ao quarto dela.
João Pedro a levou no colo até o quarto, e assim que entramos ele a colocou no chão e voltou-se para mim, dando-me um beijo no rosto.
-Feliz Natal! Novamente senti uma bola de golfe em minha garganta.
O cheiro que vinha dele era o suficiente para me deixar desorientada.
-Feliz Natal. Falei acanhada.
Mariah em seguida começou a rasgar o embrulho do presente, que era um Ipad dourado.
-Que lindo tio, mas eu já tenho um desses. Ela disse alarmada.
João Pedro pareceu chateado.
-Não Mariah, mas o seu não é assim! Esse é muito maior e mais moderno, você vai ver! E você pode baixar vários joguinhos. Falei amenizando o constrangimento de João.
-Sério, tia Alice?
-Sério, você vai ver.
Mariah abraçou João. E ele retribuiu ao abraço da maneira mais linda. Eu os observei de longe e me lembrei de como ele abraçava nosso filho, sempre esbanjando amor pelo Pedro.
Um momento que era para ser de pura felicidade foi para mim extremamente triste. Senti um nó em meu peito, mas disfarcei o suficiente para que ninguém percebesse.
 E nesse momento o celular dele tocou. João ficou todo sem graça e não atendeu, mas em seguida tocou novamente, então ele se levantou e pediu licença indo até a sacado do quarto atender.
Eu não consegui entender o teor da conversa, mas mil coisas vieram em minha cabeça.
-Mariah, agora a tia Alice vai embora, fala para o tio João Pedro baixar os joguinhos para você e depois mostra sua casinha nova para ele, ele vai amar.
Ela concordou sorridente e me deu um beijo. Eu saí em seguida, peguei meus presentes que estavam na sala e fui embora sem me despedir de ninguém.
Era uma garota falando com ele no celular, com certeza. Dizia para mim mesma enquanto dirigia.
Fui parar no cemitério, e logo na entrada comprei dois lindos vasos de flores naturais. Sentei-me no chão ao lado do túmulo e fiquei observando a foto do meu filho, que parecia estar olhando para mim e sorrindo.
Novamente não consegui segurar minha emoção e chorei muito. Foi a pior sensação do mundo, pois, eu nunca imaginara levar flores no túmulo do meu filho em pleno dia de Natal, ao invés de mimá-lo com os presentes que ele gostava. A dor me consumia por dentro. Todos me falavam que logo passaria, mas não era verdade. A saudade era cada vez maior e com isso a dor aumentava ainda mais.
Eu não conseguia me conformar o porquê do Pedro ter ido embora tão cedo, ter convivido comigo tão pouco.  De ter tido tão pouco tempo para dizer a ele o quanto eu o amava e precisava dele. Sim porque eu precisava dele mais do que tudo, sem ele, eu me via totalmente vazia, incompleta e perdida.
Saí de lá já estava escuro, e fiquei parada em meu carro sem ter para onde ir, sem saber o que fazer.
Quando dei por mim, já estava novamente na estrada, sentido São Joaquim. Parei apenas em um posto para abastecer e comer alguma coisa e no início da madrugada já estava novamente em minha casa.
Surpreendentemente o João Pedro me ligou várias vezes e eu só fui ver quando já estava em casa, e ele fez o mesmo no domingo. Mas eu não o atendi. Não sabia ao certo o porquê, talvez por medo, ou por raiva depois dele ter assinado os papéis, enfim, eu o evitei, então ele não ligou mais.
Na segunda-feira da semana fui até o café de André, mesmo sabendo que ele só chegaria no final da semana. Silvinha estava atropelada com tanta gente, com isso eu dei a ela uma mão, ficando no caixa enquanto ela ajudava no atendimento. Ajudei Silvinha  até na quinta-feira quando André chegou de viagem.
Quando ele soube, não sabia nem como me agradecer, mas aquilo havia me deixado ocupada e me distraia totalmente, então ele não tinha que agradecer.
Eu e ele saímos para jantar na quinta-feira em um restaurante da cidade e na sexta-feira, passei o dia todo o ajudando com os preparativos da festa de Réveillon, da qual ele não se conformava que eu não iria. Mas aleguei a André que estava totalmente sem clima e relutantemente ele aceitou.
30
Adeus ano de perdas
Voltei para casa já estava escuro e enquanto todos estavam se aprontando para celebrarem a virada de ano, eu estava colocando um pijama e me preparando para me deitar.
Eu estava esgotada, sentindo-me exausta, mas o sono não vinha de jeito nenhum, então olhei no relógio e eram quase onze horas da noite. Pensava no que o João estaria fazendo e fiquei imaginando ele comemorando ao lado de alguma garota, que era o que provavelmente ele estava fazendo.
Liguei para Malu e ela estava se arrumando para ir a uma festa.
-Mas Malu, daqui a pouco é meia noite. E você ainda está em casa?
-Alice, deitamos um pouco para descansar e perdemos hora. Acredita? Ah e sabe quem estará lá?
-Quem? Perguntei ansiosa.
-O Otávio, ele chegou ontem ao Brasil.
-Sério? Nossa faz muito tempo que não o vejo.
-Pois é, ele disse o mesmo quando perguntou sobre você.
Não respondi nada.
-E você, onde vai?
Eu suspirei.
-Vou dormir.
-Alice, por favor! O que é isso? É ano novo, eu entendo que no Natal você estava sensível, mas hoje é diferente. O seu novo ano depende dessa noite.
Eu ri. Aquilo era típico da Malu.
-O André está fazendo uma festa no hotel, será bem legal, mas eu não estou animada.
-Alice, não tem nada demais você se arrumar e dar adeus a esse ano terrível que passou e receber bem o próximo. Vai por mim, você vai chorar e chorar se ficar aí sozinha.
Fiquei pensativa e nisso ela tinha razão.
-Quer saber, eu vou!
-Isso, fica linda e me mande algumas fotos. Ela disse toda feliz.
Nos despedimos e sem seguida pulei da cama e fui me arrumar. Escovei meu cabelo e prendi somente uma parte dele. Coloquei um vestido bordado dourado fosco, que deixava parte das minhas costas de fora. Fiz uma maquiagem bem marcada, coloquei um scarpin nude e o cordão de ouro que André havia me dado.
Era quase quinze para a meia noite, e a distância da minha casa até o hotel, era exatamente cerca de quinze e vinte minutos.
Acelerei, sem ao menos parar nos pares, já que as ruas estavam tranquilas. Cheguei em frente ao hotel e havia carros por toda a parte. O manobrista me reconheceu e imediatamente levou meu carro.
Fui até o salão do hotel, onde estava tomado de gente e procurei por André, pois já estavam fazendo a contagem regressiva. Então eu o vi, estava todo de branco, com a taça levantada entre as filhas dele.
Peguei uma taça que o garçom estava servindo e me juntei a eles, que imediatamente sorriram ao me ver. Quando deu meia noite, elas o abraçaram demoradamente e eu fiquei os observando, porém, sentindo-me feliz por estar ali. Elas o largaram e juntas me abraçaram, e eu as abracei fortemente. Depois elas se abraçaram e foram cumprimentar as outras pessoas. André olhou para mim todo sorridente e aproximou-se o mais perto possível.
-Feliz ano novo! Eu disse dando-lhe um sorriso.
-Com certeza será muito feliz, vendo você no primeiro minuto do meu ano. Feliz ano novo Alice.
Nos abraçamos por minutos.
-Obrigada por ter sido meu companheiro todo esse tempo, não sei o que faria sem você.
-Você não tem que me agradecer. Ele disse olhando-me no fundo dos meus olhos.
Nós brindamos e depois várias pessoas foram cumprimentá-lo e me cumprimentavam também.
Naquela noite, eu e as filhas de André tiramos várias e várias fotos. Depois de várias taças de champanhe eu discretamente peguei minhas coisas para ir embora.
Cheguei em minha casa me sentindo alterada alcoolicamente. Saquei meu celular e sem pensar disquei o número do João. Três toques depois, uma garota atendeu, em um lugar com o som bem alto.
-Alô. Dizia ela quase gritando.
-É do celular do João. Eu disse com a voz trêmula.
-Alô. Ela disse novamente.
Dessa vez eu fiquei muda e cega de ciúmes.
-Seja lá quem for, o dono do celular não pode falar, depois ele te retorna. Ela gritou e desligou em seguida.
Fiquei paralisada segurando meu celular contra o peito. Minha história com o João passou em minha cabeça como se fosse um filme.
Claro que era apenas uma questão de tempo para ele arrumar alguém, eu sabia disso. Ele era lindo, charmoso, bem-sucedido, engraçado e um amante perfeito, então quem o conquistasse estaria feita.
Olhei-me no espelho e mal conseguia me enxergar de tanto nervoso. Comecei a chorar, andando em círculo dentro do meu próprio quarto. Algum tempo depois, eu já havia me acalmado. Desci para a cozinha e peguei uma garrafa de vinho, não queria ficar sóbria para não enlouquecer. Ouvi um carro parar e quando olhei pela janela, vi André vindo em direção da minha casa com um balde de gelo com champanhe.
Naquele momento me senti a pessoa mais feliz do mundo, pois era tudo o que eu precisava, um amigo. Abri a porta rapidamente e o esperei.
-Você foi embora sem se despedir. Disse ele vindo em minha direção.
Deixei que ele chegasse até a área e fui de encontro a ele.
-Eu estava ficando zonza, com tanto champanhe, então achei mais prudente vir embora.
-Eu te procurei por todo canto.
-Desculpa, não quis preocupar você. Mas eu estou bem.
-Bem mesmo? Parece que você andou chorando.
Eu balancei a cabeça negativamente e soltei um sorriso forçado.
-Estou bem, é sério.
-Mas eu aceito mais uma taça de champanhe. Eu falei estendendo a mão a ele, que a segurou em seguida e entramos em minha casa.
Bebemos as duas garrafas de champanhe sentados no chão da sala, e quando acabaram, fui até a geladeira e peguei o vinho. Fui em direção ao André, e quando fui me sentar, se não fosse ele, cairia no chão.
-Ei, você vai se matar desse jeito. Disse ele sorrindo para mim.
Eu ri em resposta e nesse momento nossos olhares se cruzaram e impulsivamente eu o beijei. Foram beijos e mais beijos envolventes. Mas eu tentava afastar o João da minha cabeça enquanto o beijava.
André me deitou no chão e começou a beijar meus ombros e meu pescoço. Eu queria tentar impedi-lo, mas estava envolvida demais para fazer isso.
Eu também o beijava com todo ardor e então ele se levantou e me ajudou a me levantar e em seguida pegou-me em seus braços e subiu as escadas em direção ao meu quarto.
André me colocou em minha cama e inclinou-se sobre meu corpo tornando me beijar. Lentamente ele levantou-se e tirou a camisa em seguida estendeu-me a mão para eu me levantasse e nesse momento ele tirou meu vestido, deixando-me apenas de lingerie.
Quando dei por mim, ele já estava totalmente nu sobre meu corpo que também estava nu, e sem pensar em mais nada, nós fizemos amor.
Assim que terminamos, ele olhou para mim e sorriu, em seguida inclinou-se em meu ouvido e sussurrou:
-Eu amo você.
Olhei atônita para ele conseguir falar o mesmo. Eu não esperava ouvir aquilo, não dele.
André eu...
-Shiu! Não diga nada. Ele disse colocando o dedo em meus lábios e em seguida me beijou novamente, tomando-me em seus braços.

31
Ano novo, nova vida
Acordei com o de café invadindo meu quarto. Abri os olhos e olhei ao redor não havia ninguém. Mas havia roupas espalhados por todo quarto. Levei a mão até a cabeça após lembrar do que eu tinha feito algumas horas antes.
Olhei no relógio e passava das nove horas da manhã. Levantei-me e fui até o banheiro. Eu estava horrível, maquiagem borrada, cabelo emaranhado e olheiras, muitas olheiras.
O cheiro de álcool ainda exalava pelo meu corpo. Tomei um banho, deixando a água quente escoar pela minha pele. Tentei não pensar em João Pedro, mas era impossível, pois me sentia traindo meu marido, embora ele não fosse mais meu marido.
Coloquei um vestido básico branco, acima dos joelhos, e penteei meus cabelos, calcei uma rasteira de pedras e quando fui sair do quarto meu celular tocou.
-Bom dia flor do dia. Disse Malu toda animada.
-Bom dia Malu.
-Nossa, o que aconteceu? Mau humor ou ressaca?
-Achoo que os dois. Eu disse indo em direção a minha janela.
-Ufaaaa! Você desentocou. E ontem como foi?
-Bem, sim acabei saindo e acho que extrapolei na bebida.
-Melhor na bebida do que em lágrimas. Disse ela.
-Pois é.
-E como foi sua festa?
-Humm, digamos que bem fraca, tanto que todos os nossos amigos resolveram vir para minha casa, onde beberam todas, jogaram cartas até amanhecer e nadaram, acredita? Ainda pela manhã tinha gente na piscina e o som rolando no último.
-Quanta animação. Disse revirando os olhos.
-Pois é, tudo bem que saíram algumas faíscas e alfinetadas entre o Otávio e o João Pedro, mas tudo bem.
-Como assim? O João estava aí?
-Estava. Bom, ele não ia sair de casa, mas o Bruno foi até o apartamento dele e o convenceu. Então ele foi com a gente para a festa, mas como os amigos do Bruno quiseram vir para minha casa, minha família também se ofereceu, inclusive o Otávio. Mas foi hilário vendo os dois juntos, jogando baralho e se estranhando o tempo todo. Você precisava ver de perto.
-O João ficou o tempo todo aí? Perguntei alarmada.
Mas ele estava com a garota. Pensei comigo mesma.
-Ele está aqui. Está desmaiado no quarto de hóspedes. O Bruno não deixou ele ir embora, pois ele tinha bebido muito. E por falar nisso, no auge da bebedeira dele, ele chamava você o tempo todo.
Levei a mão na cabeça, me arrependendo de cada coisa que havia feito horas atrás.
-Eu não acredito! Pensei alto.
-O que não acredita? Indagou Malu.
-Mas eu liguei no celular dele, e uma garota atendeu.
-Como assim? Ele não saiu daqui. Ela disse. -Ah, já sei Alice, quando eles pularam na piscina, deixaram os celulares sobre o balcão e a babá da Mariah atendeu um deles, e realmente era o do João. Eu pensei que tivesse sido a Maria Helena, senão teria falado com você, mas o som estava muito alto.
-Não acredito nisso. Pensei novamente em voz alta.
-Você achou que ele tivesse acompanhado?
-Hum hum.
-Não, coitado, ele estava bem inocente dessa vez. A única coisa que ele beijou foi meu vaso sanitário, porque vomitou várias vezes até apagar de vez.
Suspirei sem saber o que dizer.
-Alice, o Bruno acordou, depois ligo para você e quero saber os detalhes da sua festa.
-Tudo bem, beijos.
Desliguei sem acreditar no que havia acontecido. Coloquei o celular sobre a cômoda e desci as escadas em direção a cozinha, disposta a conversar com André, mas quando cheguei não tive coragem.
André havia arrumado a mesa de café da manhã com flores do meu próprio jardim. Tinha bolo, torradas, queijos, frutas e pães. Logicamente que alguém do hotel havia levado tudo aquilo.
-Bom dia! Disse ele vindo em minha direção.
-Bom dia. Respondi sem graça.
-Sente-se, vamos comer. Ele falou pegando em minha mão.
Eu concordei e sentei-me ao lado dele, sentindo-me totalmente desarmada.
Talvez era disso que eu precisava. Alguém como André, em um ambiente totalmente neutro para poder recomeçar. Pensava comigo mesma enquanto tomava uma xícara de café.
Não, acho que não! Me corrigi silenciosamente. Eu gostava do André, da companhia dele, mas eu amava o João na verdade.
Ele olhou para mim receoso.
-Você está bem? Parece arrependida. Se você quiser, sei lá, posso ir embora.
Eu hesitei em responder.
-André, eu... (fiz uma pausa).
Olhei para aquela mesa preparada com todo carinho, olhei para as flores colhidas por ele mesmo e em seguida olhei para ele que havia ficado totalmente sem chateado.
-Alice, não se preocupe, eu vou para casa, depois a gente se fala. Ele disse levantando-se em seguida.
Por que tem que ser tão difícil. Seria tão mais fácil se eu soubesse algo terrível sobre ele, ou se ele fosse um aproveitador. Mas não! Ele era um perfeito cavalheiro e isso me deixada péssima. Para qualquer pessoa ele seria o homem ideal, mas não para mim. Ainda assim, resolvi enfim dar a ele uma chance.
-Não. Eu disse segurando a mão dele. –Claro que não! Quero que fique. Eu só acordei com ressaca, e confesso que fiquei acanhada ao vê-lo depois da nossa noite. Mas eu não me arrependi de maneira alguma, eu gostei muito.
Eu menti. Eu tinha me arrependido no mesmo instante que abri os olhos. Não por ele, que foi incrível, mas por mim, por não o amar como deveria.
Ele sorriu parecendo aliviado.
-Agora podemos tomar nosso café em paz? Eu disse dando-lhe uma piscada.
Ele sorriu novamente.
-Com certeza.
Naquele dia, fomos almoçar no hotel, onde passamos o dia todo com as meninas. À noite, André as levou para o aeroporto e sem que eu soubesse, voltou em minha casa, onde ficamos até bem tarde.

Então eu me convenci de que talvez eu poderia recomeçar minha vida ao lado de André.

2 comentários:

  1. eu espero que ela mande esse André,pasta e volte com o João......

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  2. vou ler o restante de hoje, para poder dar opiniões kkkkkk

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