" Recomeços "
Parte 15
As
semanas foram se passando, e quando eu vi, já era a semana do Natal. Malu me
ligou no início da semana, me intimando para que eu passasse o Natal na casa
dela, já que a Maria Helena não faria a ceia na casa de praia como de costume.
Mas eu fiquei de ver com minha mãe onde ela passaria a ceia de Natal, pois meu
medo era de encontrar João Pedro na casa na casa da Malu.
No dia
seguinte, fui com André (que estava sendo meu amigo para todas as horas) até o
centro da cidade, onde compramos os presentes de Natal da nossa família.
Comprei
um presente para minha mãe, para o Fábio, para Mariah, para Malu, para o Bruno
e para meus ex-sogros. Mas tudo o que eu via, pensava em Pedro. Meu maior
desejo naquele momento era comprar um carrinho, ou um jogo, uma bola, enfim,
qualquer coisa que o fizesse feliz. Mas isso não era mais possível. André me
viu parada no departamento infantil de uma loja, mas imediatamente me pegou
pela mão e me tirou de lá, eu estava anestesiada.
29
O primeiro Natal sem
Pedro
O
silêncio em minha casa estava me enlouquecendo, decidi descer para cuidar do
meu jardim, quando vi a caminhonete de André se aproximar.
-Achei
que tivesse ido? Perguntei sem entender, já que ele dissera que iria para Porto
Alegre na quarta-feira, onde ajudaria as filhas dele com as compras de Natal,
que seria na sexta-feira.
André
desceu da caminhonete vindo ao meu encontro.
-Já
estou indo, só passei para saber se você vai ficar bem.
-Claro
que sim. Amanhã mesmo vou para casa da minha mãe, não se preocupe! Exclamei.
-Se você
quiser vir comigo, eu iria adorar.
Eu
sorri, balançando a cabeça negativamente.
-Não se
preocupe André, eu vou ficar bem, vá ver suas filhas.
Ele
suspirou fundo e em seguida me abraçou.
-No ano
novo estarei aqui e faremos uma festa no hotel, então se você tiver por aqui,
será minha convidada de honra.
-Eu acredito
que estarei por aqui sim. Ah, e eu preciso pegar o presente das meninas que eu
comprei. Eu disse indo em direção da minha casa.
Fui até
a sala e abri o armário, onde estava o presente das filhas de André e o dele, e
saí em seguida, encontrando-o na área.
-Aqui
está um presente que comprei para elas. E este aqui é para você.
Ele
abriu um largo sorriso. Seus olhos azuis brilhavam olhando nos meus.
-Você me
comprou um presente? Eu não ganho um presente de Natal desde... faz muito
tempo.
-Sério?
Bom, é apenas uma lembrança, espero que goste.
-Eu já
amei, mesmo sem saber o que é. Ele falou abraçando-me em seguida.
André
colocou meu presente sobre o banco de madeira e em seguida abriu o bolso da
calça cargo tirando de lá uma caixinha de presente da H.Stern e a entregou para
mim.
-O que é
isso? Indaguei apreensiva.
-Não se
preocupe, não é uma aliança, mas quem sabe um dia você me proporcione essa
alegria.
Eu ri
balançando a cabeça negativamente.
-André,
não precisava. Disse acanhada.
Abri a
caixa e me deparei com um cordão e um pingente em forma de medalha em ouro
amarelo polido e com um detalhe em brilhante adornado com um coração, e o que
tornou aquela peça única, era que meu nome estava gravado nela.
-Uauu,
nem sei o que lhe dizer! Eu amei!
Ele
sorriu e em seguida me ajudou a colocar o cordão em meu pescoço.
-Ficou
lindo em você.
-Hum
obrigada, eu amei. Mas agora abra seu presente.
André
abriu a embalagem e sorriu ao ver o relógio, colocando-o imediatamente.
-Alice,
eu amei. Obrigado, como eu disse fazia muito tempo que eu não ganhava um
presente de Natal. Mesmo das minhas filhas, pois elas nunca se preocuparam com
isso, não que eu me importasse, mas vindo de você, me deixou ainda mais feliz.
Eu
sorri.
-Bom,
então tenha um feliz Natal. Eu disse o abraçando.
-Feliz
Natal Alice.
André me
encarou, seus olhos penetraram nos meus e alguns instantes depois inclinou-se
dando-me um beijo em meu rosto.
Ele
voltou para a caminhonete e então se foi, e me vi sozinha novamente.
Na
sexta-feira, saí por volta das dez horas da manhã, passei no centro da cidade e
comprei um porta-retratos, coloquei nele uma foto do último aniversário do
Pedro, onde ele estava abraçado com Maria Helena e Zé Pedro, era uma foto
lindíssima, e com certeza Maria Helena amaria ganha-la. Pedi que fizessem um
embrulho no porta-retratos e segui em direção a Florianópolis. Queria deixar os
presentes dela e de Zé Pedro e só depois seguir para Curitiba.
Algumas
horas depois, estava entrando em Floripa, peguei meu telefone e liguei somente
para confirmar se ela estava em casa, e ela estava. Meia hora depois,
estacionei meu carro em frente a grande casa dos Moretto. Suspirei aliviada por
não ver o carro de João Pedro.
Peguei
os embrulhos dos presentes e o embrulho que estava a foto de Pedro e em seguida
toquei o interfone. Maria Helena foi me receber e abriu um sorriso sincero ao
me ver.
-Alice,
como eu fiquei feliz ao saber que você passaria daqui. Disse ela me dando um
forte abraço.
-Estou
indo para a casa da minha mãe, mas eu precisava dar um abraço em vocês.
-Oh,
minha querida, você sempre será muito bem-vinda aqui, viu! Vamos entrar. Ela
disse pegando em minha mão.
-Maria
Helena, o João não está aqui, não é?
Ela
olhou aflita.
-Ele
está na cidade, mas não em casa. Ele e o Zé Pedro saíram após o almoço e foram
ao supermercado comprar umas coisas para o jantar, e eu acredito que o Zé Pedro
não tinha comprado meu presente ainda, e levou o João para ajudá-lo, então não
se preocupe, eles vão demorar.
Balancei
a cabeça concordando e entramos em seguida. Maria Helena me levou até a sala de
visitas e sentamos no amplo sofá.
-Bom, eu
quis passar daqui para dar um abraço e desejar a vocês um Feliz Natal, pois
vocês foram pessoas de extrema importância durante todo esse tempo para mim. E
depois daquele acidente, vocês estiveram ao meu lado e ao lado do João o tempo
todo. E eu nunca me esquecerei de como cuidaram de nós. Então eu só tenho que agradecer
a você e ao Zé Pedro por tudo.
-Oh
minha menina, você é como uma filha para mim. Você sem dúvida foi a melhor
coisa que aconteceu na vida do meu filho, e com isso eu ganhei a filha que
nunca tive. E o que eu puder fazer por você ainda, eu farei. O que me
entristece é saber que você e meu filho não estão mais juntos, sendo que vocês
ainda se amam, e eu digo isso porque eu vejo isso nos seus olhos e nos olhos do
João. Pode ter certeza que ele ama você.
Soltei
um riso triste.
-Eu
realmente amo o João, ele foi o grande amor da minha vida e ainda é. Fiz uma
pausa. -E é por isso que eu desejo que ele seja muito feliz. Bom, mas enfim....
Falei tentando disfarçar minha tristeza. – Passei por aqui também porque comprei
uma lembrança para você e uma para o Zé Pedro.
Maria
Helena abriu o embrulho e sorriu ao ver um cordão com uma medalha em ouro
amarelo com a oração do Pai Nosso.
-Nossa é
lindo, eu amei Alice. Ela disse com os olhos marejados e me abraçou em seguida.
-Me
ajude a colocar, não vou tirar mais, sinto que estarei sempre protegida com
essa medalha. Será meu amuleto.
Assim
que colocamos o cordão, ela foi até um aparador para visualizar o cordão e em
seguida veio em minha direção sorridente e satisfeita. O presente de Zé Pedro,
eram abotoadoras em ouro branco, mas ela deixou para que ele abrisse.
-Eu
também comprei um presente para você. Ela disse indo em direção ao quarto.
Maria
Helena voltou com um embrulho de uma joalheria, me entregando em seguida.
Eu o
abri emocionada. Era um par de brincos em ouro amarelo e ouro branco.
-Maria
Helena, não precisava, mas eu amei. Disse vibrando e a abraçando em seguida.
-E esse
embrulho aqui (eu disse segurando o porta-retratos) tem algo que é muito
valioso e eu tenho certeza que vocês irão amar.
Nesse
momento senti uma bola de golfe parada em minha garganta.
-Mas
Alice, outro presente?
Entreguei
a ela o embrulho e quando ela abriu não conseguiu segurar a emoção em ver ela o
Zé Pedro, ambos sorrindo abraçando o neto. Foto essa que eles nem chegaram a
ver, já que o acidente ocorreu poucos dias após o aniversário do Pedro.
Maria
Helena abraçou o porta-retratos e começou a chorar. Ao ver aquela cena, não me
segurei e também desabei. Ambas nos abraçamos e choramos juntas.
Momentos
depois ela se levantou e pegou uma caixa de lenços de papel e entregou para
mim.
-Sabe
Alice, esse ano não teria sentido eu sair para comemorar o Natal. Como nós
iriamos comemorar, sendo que nosso menino não está com a gente.
Maria
Helena pegou um lenço e secou suas lágrimas.
-Por
isso que eu e o João resolvemos ficar aqui em casa, seremos apenas nós três, o
Bruno queria que eu passasse com eles, mas não tem sentido. Não esse ano, pois
ainda dói demais.
-É, eu
também me sinto assim. Sabe esses dias foram terríveis para mim. Era a época
que o Pedro mais gostava, saíamos com ele quase todas as noites para comprar os
presentes e ele ficava alucinado com as decorações das lojas, dos shoppings.
Então cada vez que eu via uma luzinha de Natal acesa, era impossível não
lembrar dos olhos dele brilhando de felicidade. E eu também não vou comemorar.
Combinei com a minha mãe e seremos apenas nós duas, já que o Fabio passará com
a família dele.
-Se
vocês quiserem se juntar a nós seria um imenso prazer.
-Não,
não dá. Falei secando minhas lágrimas.
-Bom,
mas agora eu preciso ir. Manda um beijo para o Zé Pedro por mim e (fiz uma
pausa) e um para o João.
Maria
Helena apenas balançou a cabeça concordando.
-O João
quer que eu faça aquele brigadeirão que você fazia sempre e ele amava, mas eu
não tenho ideia de como fazer. Preciso até entrar na internet e pegar a
receita.
Eu sorri
ao lembrar do quanto ele realmente gostava daquela sobremesa. Ele comia quase
tudo sozinho.
Olhei
para ver quanto tempo eu estava lá, e já tinha passado cerca de uma hora.
-Bom, se
você quiser eu faço para você e depois vou embora.
-Sério?
Eu adoraria.
-Então
vamos lá. Eu disse seguindo em direção à cozinha.
Minutos
depois o brigadeirão estava assando em banho e maria no forno.
-Depois
de assado é só desenformar e enfeitá-lo. O João gosta de bastante chocolate
granulado.
-Pode
deixar, vou caprichar.
-Agora
eu preciso ir. Disse secando minhas mãos e saímos em seguida.
-Obrigada
Alice, obrigada pelos presentes, obrigada por esse retrato que sem dúvida
nenhuma foi o retrato mais lindo da minha vida e foi o melhor presente que eu
já ganhei. E obrigada por ter feito a sobremesa preferida do João.
Eu a
abracei e nos despedimos.
Dei
partida em meu carro e saí, olhei no retrovisor e vi de longe o carro do João
virando a esquina. Mas eu segui em frente.
Algumas
horas depois cheguei a minha casa em Curitiba. Liguei para minha mãe, mas ela
estava na casa dos pais de Fábio, onde passaria a ceia. Ela insistiu para que
eu fosse com ela, mas menti, disse que passaria com a Malu. Só que eu não tinha
condições de comemorar um natal, o primeiro natal sem o Pedro, na casa de quem
quer que fosse. E então passei a noite de Natal deitada no quarto que era do
Pedro, sozinha e chorando com saudades dele. Desde a morte dele, aquela foi uma
das piores noites da minha vida.
Doía
demais não ter meu filho comigo e sabia que era uma ferida que nunca mais
cicatrizaria.
No outro
dia, fui até o banheiro e me assustei ao me ver no espelho. Meu rosto estava
deformado de tanto que eu tinha chorado na noite anterior.
Fiz umas
compressas com água gelada e depois tomei um banho. Em seguida prendi meus
cabelos em um rabo. Coloquei um vestido um pouco rodado que era todo florido,
com cores suaves, todo romântico.
Respirei
fundo, porque ainda tinha uma maratona, onde tinha que cumprimentar várias
pessoas na casa de Malu e dar explicações de como eu estava. Por isso, decidi
enrolar um pouco e fui até o orfanato, onde havia doado as coisas de Pedro. Cheguei
lá e falei com uma das Madres, que autorizou minha entrada.
Assim
que entrei, Irmã Clara me disse que João Pedro havia ido até o orfanato uns
dias antes e levado um presente para cada criança. Saber daquilo me deixou
ainda mais sensibilizada. Brinquei um pouco com as crianças e acabei até
almoçando com elas.
Antes de
ir embora, fiz um cheque e entreguei para a Madre, para que ela destinasse para
algo importante para as crianças. A Madre me abraçou e agradeceu-me várias
vezes.
Saí de
lá após o almoço e fui direto para a casa de Malu. Ao chegar na casa dela, ela
foi me fuzilando com os olhos, provavelmente por causa do horário.
-Alice,
agora? Te esperei a manhã toda. Esperei você para almoçar com a gente.
-Desculpa
Malu, eu passei antes no orfanato e acabei perdendo a hora.
-Poxa
vida Alice, todos estavam esperando por você e nada de você chegar.
-Feliz
Natal. Eu falei abraçando-a.
Olhei
para Malu e suspirei.
-Malu,
você sabe que essa data não está sendo fácil para mim, então pega leva. Só
passei daqui para lhe dar um beijo e para ver a Mariah.
-Eu
entendo você. Ela disse compreensiva.
Peguei os pacotes de presentes que estavam no
meu carro com a ajuda de Malu e entramos em seguida e foi como eu disse, várias
pessoas me cumprimentando, perguntando como eu estava. Algumas delas me olhavam
com pena, outras sensibilizadas, mas eu me mantive forte. Mariah correu me
abraçar ao me ver. E eu a peguei em meu colo e a abracei com todo meu amor.
Bruno
também me abraçou saudoso. Ele também sabia como eu estava, afinal o irmão dele
provavelmente estava da mesma maneira.
-Está
tudo diferente esse ano, não é? Ele disse enquanto me abraçava.
Meus
olhos encheram-se de lágrimas.
-Pois é!
A vida é implacável às vezes.
Tentei
segurar minhas lágrimas, mas foi impossível. Então Bruno se pegou pela mão e me
levou até o quarto de Mariah.
Ele
também estava emocionado e ambos sentamos na cama de Mariah.
-Alice,
eu sei que o que vocês têm passado não está sendo fácil. O João Pedro também
não está bem. Ontem mesmo eu soube que ele ficou arrasado quando soube que você
esteve na casa da minha mãe. Então, eu sei que não é hora para conselhos, mas
vocês se gostam ainda, isso é fato. Então parem de perder tempo, o tempo é
precioso e está correndo.
-Bruno,
eu sei, mas...
-Você
está namorando? Eu sei que eu não tenho nada com isso, mas é que o João tem
certeza que você está. Já a Malu me jura que você não tem ninguém.
-Não,
claro que não. Eu e o André somos amigos. Apenas amigos. Teve um único beijo,
mas foi só isso.
-Então!
Meu irmão é um burro! Exclamou ele balançando a cabeça em negação.
-Deixa
para lá Bruno. Talvez não era para ser.
Mariah e
Malu entraram em seguida no quarto e Malu me viu enxugando minhas lágrimas e me
abraçou em seguida.
-Bom,
vamos abrir os presentes. Disse Malu, disfarçando as lágrimas.
Mariah
ficou alucinada ao abrir a caixa do presente dela. Era uma casa de bonecas de
madeira de três andares que depois de montada, ficaria quase na altura dela;
era toda romântica no estilo provençal. E para completar, comprei toda a decoração
da casinha e uma família inteira de ursinhos que seriam os moradores da casa.
Para
Malu, comprei uma bolsa de mão preta da Chanel e para Bruno um relógio igual ao
que comprei para o André. Em seguida, Malu me entregou meu presente.
Era um
scarpin preto Christian Louboutin e uma bolsa de mão combinando, ambos eram
divinos. Depois de todos os agradecimentos, fiquei com a Mariah, tentando
montar a casa de bonecas. Ficamos por mais de duas horas até a casa ficar
pronta e decorada, isso com a ajuda da mãe da Malu.
No final
da tarde, eu e Mariah fomos até a área de lazer (onde os convidados estavam
reunidos), para beber alguma coisa, pois a Mariah estava com sede e exausta. Fui
até o freezer e peguei um copo de água mineral e nos sentamos em uma das
espreguiçadeiras e enquanto estava abrindo o copinho de água, ouvi uma voz
conhecida. Olhei de relance e vi João Pedro entrando com um embrulho nas mãos,
e o Bruno o acompanhando.
João
Pedro olhou em minha direção e eu rapidamente desviei o olhar.
-Mariah,
agora a tia Alice vai embora, mas depois eu volto para brincarmos com a sua
casinha, tudo bem?
-Mas
tia, por que não agora?
-A tia
está com muita dor de cabeça, vou para casa e mais tarde eu volto.
Ela
pareceu chateada, mas concordou com a cabeça.
Olhei e
João estava vindo em nossa direção, totalmente desconcertado assim como eu.
-Olha, o
tio João também veio te dar um presente. Eu disse dando a ela um sorriso, me
levantando em seguida.
Ela me
deu o copo de água para que eu segurasse e correu na direção a ele. João estava
lindo. Estava de calça jeans desbotada e camiseta preta.
Ele
imediatamente se agachou para abraçá-la e em seguida a pegou no colo,
entregando a ela o pacote com o presente.
Joguei o
copo na lixeira e ele veio em minha direção. Senti minhas pernas amolecerem
naquele momento.
-Oi
Alice.
-Oi João
Pedro.
-Olha
tia o que eu ganhei. Disse Mariah alegre com o presente.
-Nossa,
o que será que tem aí dentro? Eu disse passando a mão pelos cabelos dela.
-Eu não
sei. Ela respondeu fazendo careta.
-Então
corre lá para abrir.
-Vamos
tio! Maria exclamou animada.
-Vamos
sim, Má. Ele falou ficando sem graça.
-Vamos com
a gente Alice?
-Não
João, fica à vontade. Eu disse dando a ele um meio sorriso.
João
Pedro sussurrou alguma coisa no ouvido de Mariah, que em seguida deu um
sorriso.
-Vamos
com a gente tia Alice? Por favor?
Suspirei
fundo tentando me recompor.
-Tudo
bem, vamos lá. Eu disse dando de ombros e indo em direção ao quarto dela.
João
Pedro a levou no colo até o quarto, e assim que entramos ele a colocou no chão
e voltou-se para mim, dando-me um beijo no rosto.
-Feliz
Natal! Novamente senti uma bola de golfe em minha garganta.
O cheiro
que vinha dele era o suficiente para me deixar desorientada.
-Feliz
Natal. Falei acanhada.
Mariah
em seguida começou a rasgar o embrulho do presente, que era um Ipad dourado.
-Que
lindo tio, mas eu já tenho um desses. Ela disse alarmada.
João
Pedro pareceu chateado.
-Não
Mariah, mas o seu não é assim! Esse é muito maior e mais moderno, você vai ver!
E você pode baixar vários joguinhos. Falei amenizando o constrangimento de
João.
-Sério,
tia Alice?
-Sério,
você vai ver.
Mariah
abraçou João. E ele retribuiu ao abraço da maneira mais linda. Eu os observei
de longe e me lembrei de como ele abraçava nosso filho, sempre esbanjando amor
pelo Pedro.
Um
momento que era para ser de pura felicidade foi para mim extremamente triste.
Senti um nó em meu peito, mas disfarcei o suficiente para que ninguém
percebesse.
E nesse momento o
celular dele tocou. João ficou todo sem graça e não atendeu, mas em seguida
tocou novamente, então ele se levantou e pediu licença indo até a sacado do
quarto atender.
Eu não
consegui entender o teor da conversa, mas mil coisas vieram em minha cabeça.
-Mariah,
agora a tia Alice vai embora, fala para o tio João Pedro baixar os joguinhos
para você e depois mostra sua casinha nova para ele, ele vai amar.
Ela
concordou sorridente e me deu um beijo. Eu saí em seguida, peguei meus
presentes que estavam na sala e fui embora sem me despedir de ninguém.
Era uma
garota falando com ele no celular, com certeza. Dizia para mim mesma enquanto
dirigia.
Fui
parar no cemitério, e logo na entrada comprei dois lindos vasos de flores
naturais. Sentei-me no chão ao lado do túmulo e fiquei observando a foto do meu
filho, que parecia estar olhando para mim e sorrindo.
Novamente
não consegui segurar minha emoção e chorei muito. Foi a pior sensação do mundo,
pois, eu nunca imaginara levar flores no túmulo do meu filho em pleno dia de
Natal, ao invés de mimá-lo com os presentes que ele gostava. A dor me consumia
por dentro. Todos me falavam que logo passaria, mas não era verdade. A saudade
era cada vez maior e com isso a dor aumentava ainda mais.
Eu não
conseguia me conformar o porquê do Pedro ter ido embora tão cedo, ter convivido
comigo tão pouco. De ter tido tão pouco
tempo para dizer a ele o quanto eu o amava e precisava dele. Sim porque eu
precisava dele mais do que tudo, sem ele, eu me via totalmente vazia,
incompleta e perdida.
Saí de
lá já estava escuro, e fiquei parada em meu carro sem ter para onde ir, sem
saber o que fazer.
Quando
dei por mim, já estava novamente na estrada, sentido São Joaquim. Parei apenas
em um posto para abastecer e comer alguma coisa e no início da madrugada já
estava novamente em minha casa.
Surpreendentemente
o João Pedro me ligou várias vezes e eu só fui ver quando já estava em casa, e
ele fez o mesmo no domingo. Mas eu não o atendi. Não sabia ao certo o porquê,
talvez por medo, ou por raiva depois dele ter assinado os papéis, enfim, eu o
evitei, então ele não ligou mais.
Na
segunda-feira da semana fui até o café de André, mesmo sabendo que ele só
chegaria no final da semana. Silvinha estava atropelada com tanta gente, com
isso eu dei a ela uma mão, ficando no caixa enquanto ela ajudava no
atendimento. Ajudei Silvinha até na
quinta-feira quando André chegou de viagem.
Quando
ele soube, não sabia nem como me agradecer, mas aquilo havia me deixado ocupada
e me distraia totalmente, então ele não tinha que agradecer.
Eu e ele
saímos para jantar na quinta-feira em um restaurante da cidade e na
sexta-feira, passei o dia todo o ajudando com os preparativos da festa de Réveillon, da qual ele não se conformava que eu não iria. Mas aleguei a André
que estava totalmente sem clima e relutantemente ele aceitou.
Voltei para casa já estava escuro e
enquanto todos estavam se aprontando para celebrarem a virada de ano, eu estava
colocando um pijama e me preparando para me deitar.
Acordei com o de café invadindo meu
quarto. Abri os olhos e olhei ao redor não havia ninguém. Mas havia roupas
espalhados por todo quarto. Levei a mão até a cabeça após lembrar do que eu
tinha feito algumas horas antes.
30
Adeus ano de perdas
Eu
estava esgotada, sentindo-me exausta, mas o sono não vinha de jeito nenhum,
então olhei no relógio e eram quase onze horas da noite. Pensava no que o João
estaria fazendo e fiquei imaginando ele comemorando ao lado de alguma garota,
que era o que provavelmente ele estava fazendo.
Liguei
para Malu e ela estava se arrumando para ir a uma festa.
-Mas
Malu, daqui a pouco é meia noite. E você ainda está em casa?
-Alice,
deitamos um pouco para descansar e perdemos hora. Acredita? Ah e sabe quem
estará lá?
-Quem?
Perguntei ansiosa.
-O
Otávio, ele chegou ontem ao Brasil.
-Sério?
Nossa faz muito tempo que não o vejo.
-Pois é,
ele disse o mesmo quando perguntou sobre você.
Não
respondi nada.
-E você,
onde vai?
Eu
suspirei.
-Vou
dormir.
-Alice,
por favor! O que é isso? É ano novo, eu entendo que no Natal você estava
sensível, mas hoje é diferente. O seu novo ano depende dessa noite.
Eu ri.
Aquilo era típico da Malu.
-O André
está fazendo uma festa no hotel, será bem legal, mas eu não estou animada.
-Alice,
não tem nada demais você se arrumar e dar adeus a esse ano terrível que passou
e receber bem o próximo. Vai por mim, você vai chorar e chorar se ficar aí
sozinha.
Fiquei
pensativa e nisso ela tinha razão.
-Quer
saber, eu vou!
-Isso,
fica linda e me mande algumas fotos. Ela disse toda feliz.
Nos
despedimos e sem seguida pulei da cama e fui me arrumar. Escovei meu cabelo e
prendi somente uma parte dele. Coloquei um vestido bordado dourado fosco, que
deixava parte das minhas costas de fora. Fiz uma maquiagem bem marcada,
coloquei um scarpin nude e o cordão de ouro que André havia me dado.
Era
quase quinze para a meia noite, e a distância da minha casa até o hotel, era
exatamente cerca de quinze e vinte minutos.
Acelerei,
sem ao menos parar nos pares, já que as ruas estavam tranquilas. Cheguei em
frente ao hotel e havia carros por toda a parte. O manobrista me reconheceu e
imediatamente levou meu carro.
Fui até
o salão do hotel, onde estava tomado de gente e procurei por André, pois já
estavam fazendo a contagem regressiva. Então eu o vi, estava todo de branco, com
a taça levantada entre as filhas dele.
Peguei
uma taça que o garçom estava servindo e me juntei a eles, que imediatamente
sorriram ao me ver. Quando deu meia noite, elas o abraçaram demoradamente e eu
fiquei os observando, porém, sentindo-me feliz por estar ali. Elas o largaram e
juntas me abraçaram, e eu as abracei fortemente. Depois elas se abraçaram e
foram cumprimentar as outras pessoas. André olhou para mim todo sorridente e
aproximou-se o mais perto possível.
-Feliz
ano novo! Eu disse dando-lhe um sorriso.
-Com
certeza será muito feliz, vendo você no primeiro minuto do meu ano. Feliz ano
novo Alice.
Nos
abraçamos por minutos.
-Obrigada
por ter sido meu companheiro todo esse tempo, não sei o que faria sem você.
-Você
não tem que me agradecer. Ele disse olhando-me no fundo dos meus olhos.
Nós
brindamos e depois várias pessoas foram cumprimentá-lo e me cumprimentavam
também.
Naquela
noite, eu e as filhas de André tiramos várias e várias fotos. Depois de várias
taças de champanhe eu discretamente peguei minhas coisas para ir embora.
Cheguei
em minha casa me sentindo alterada alcoolicamente. Saquei meu celular e sem
pensar disquei o número do João. Três toques depois, uma garota atendeu, em um
lugar com o som bem alto.
-Alô.
Dizia ela quase gritando.
-É do
celular do João. Eu disse com a voz trêmula.
-Alô.
Ela disse novamente.
Dessa
vez eu fiquei muda e cega de ciúmes.
-Seja lá
quem for, o dono do celular não pode falar, depois ele te retorna. Ela gritou e
desligou em seguida.
Fiquei
paralisada segurando meu celular contra o peito. Minha história com o João
passou em minha cabeça como se fosse um filme.
Claro que era apenas uma questão de tempo para ele arrumar
alguém, eu sabia disso. Ele era lindo, charmoso, bem-sucedido, engraçado e um
amante perfeito, então quem o conquistasse estaria feita.
Olhei-me
no espelho e mal conseguia me enxergar de tanto nervoso. Comecei a chorar,
andando em círculo dentro do meu próprio quarto. Algum tempo depois, eu já
havia me acalmado. Desci para a cozinha e peguei uma garrafa de vinho, não
queria ficar sóbria para não enlouquecer. Ouvi um carro parar e quando olhei
pela janela, vi André vindo em direção da minha casa com um balde de gelo com
champanhe.
Naquele
momento me senti a pessoa mais feliz do mundo, pois era tudo o que eu
precisava, um amigo. Abri a porta rapidamente e o esperei.
-Você
foi embora sem se despedir. Disse ele vindo em minha direção.
Deixei
que ele chegasse até a área e fui de encontro a ele.
-Eu
estava ficando zonza, com tanto champanhe, então achei mais prudente vir
embora.
-Eu te
procurei por todo canto.
-Desculpa,
não quis preocupar você. Mas eu estou bem.
-Bem
mesmo? Parece que você andou chorando.
Eu
balancei a cabeça negativamente e soltei um sorriso forçado.
-Estou
bem, é sério.
-Mas eu
aceito mais uma taça de champanhe. Eu falei estendendo a mão a ele, que a
segurou em seguida e entramos em minha casa.
Bebemos
as duas garrafas de champanhe sentados no chão da sala, e quando acabaram, fui
até a geladeira e peguei o vinho. Fui em direção ao André, e quando fui me
sentar, se não fosse ele, cairia no chão.
-Ei,
você vai se matar desse jeito. Disse ele sorrindo para mim.
Eu ri em
resposta e nesse momento nossos olhares se cruzaram e impulsivamente eu o
beijei. Foram beijos e mais beijos envolventes. Mas eu tentava afastar o João
da minha cabeça enquanto o beijava.
André me
deitou no chão e começou a beijar meus ombros e meu pescoço. Eu queria tentar
impedi-lo, mas estava envolvida demais para fazer isso.
Eu
também o beijava com todo ardor e então ele se levantou e me ajudou a me
levantar e em seguida pegou-me em seus braços e subiu as escadas em direção ao
meu quarto.
André me
colocou em minha cama e inclinou-se sobre meu corpo tornando me beijar.
Lentamente ele levantou-se e tirou a camisa em seguida estendeu-me a mão para
eu me levantasse e nesse momento ele tirou meu vestido, deixando-me apenas de
lingerie.
Quando
dei por mim, ele já estava totalmente nu sobre meu corpo que também estava nu,
e sem pensar em mais nada, nós fizemos amor.
Assim
que terminamos, ele olhou para mim e sorriu, em seguida inclinou-se em meu
ouvido e sussurrou:
-Eu amo
você.
Olhei
atônita para ele conseguir falar o mesmo. Eu não esperava ouvir aquilo, não
dele.
André
eu...
-Shiu!
Não diga nada. Ele disse colocando o dedo em meus lábios e em seguida me beijou
novamente, tomando-me em seus braços.
31
Ano novo, nova vida
Olhei no
relógio e passava das nove horas da manhã. Levantei-me e fui até o banheiro. Eu
estava horrível, maquiagem borrada, cabelo emaranhado e olheiras, muitas
olheiras.
O cheiro
de álcool ainda exalava pelo meu corpo. Tomei um banho, deixando a água quente
escoar pela minha pele. Tentei não pensar em João Pedro, mas era impossível,
pois me sentia traindo meu marido, embora ele não fosse mais meu marido.
Coloquei
um vestido básico branco, acima dos joelhos, e penteei meus cabelos, calcei uma
rasteira de pedras e quando fui sair do quarto meu celular tocou.
-Bom dia
flor do dia. Disse Malu toda animada.
-Bom dia
Malu.
-Nossa,
o que aconteceu? Mau humor ou ressaca?
-Achoo
que os dois. Eu disse indo em direção a minha janela.
-Ufaaaa!
Você desentocou. E ontem como foi?
-Bem,
sim acabei saindo e acho que extrapolei na bebida.
-Melhor
na bebida do que em lágrimas. Disse ela.
-Pois é.
-E como
foi sua festa?
-Humm,
digamos que bem fraca, tanto que todos os nossos amigos resolveram vir para minha
casa, onde beberam todas, jogaram cartas até amanhecer e nadaram, acredita?
Ainda pela manhã tinha gente na piscina e o som rolando no último.
-Quanta
animação. Disse revirando os olhos.
-Pois é,
tudo bem que saíram algumas faíscas e alfinetadas entre o Otávio e o João
Pedro, mas tudo bem.
-Como
assim? O João estava aí?
-Estava.
Bom, ele não ia sair de casa, mas o Bruno foi até o apartamento dele e o
convenceu. Então ele foi com a gente para a festa, mas como os amigos do Bruno
quiseram vir para minha casa, minha família também se ofereceu, inclusive o
Otávio. Mas foi hilário vendo os dois juntos, jogando baralho e se estranhando
o tempo todo. Você precisava ver de perto.
-O João
ficou o tempo todo aí? Perguntei alarmada.
Mas ele
estava com a garota. Pensei comigo mesma.
-Ele
está aqui. Está desmaiado no quarto de hóspedes. O Bruno não deixou ele ir
embora, pois ele tinha bebido muito. E por falar nisso, no auge da bebedeira
dele, ele chamava você o tempo todo.
Levei a
mão na cabeça, me arrependendo de cada coisa que havia feito horas atrás.
-Eu não
acredito! Pensei alto.
-O que
não acredita? Indagou Malu.
-Mas eu
liguei no celular dele, e uma garota atendeu.
-Como
assim? Ele não saiu daqui. Ela disse. -Ah, já sei Alice, quando eles pularam na
piscina, deixaram os celulares sobre o balcão e a babá da Mariah atendeu um
deles, e realmente era o do João. Eu pensei que tivesse sido a Maria Helena,
senão teria falado com você, mas o som estava muito alto.
-Não
acredito nisso. Pensei novamente em voz alta.
-Você
achou que ele tivesse acompanhado?
-Hum
hum.
-Não,
coitado, ele estava bem inocente dessa vez. A única coisa que ele beijou foi
meu vaso sanitário, porque vomitou várias vezes até apagar de vez.
Suspirei
sem saber o que dizer.
-Alice,
o Bruno acordou, depois ligo para você e quero saber os detalhes da sua festa.
-Tudo
bem, beijos.
Desliguei
sem acreditar no que havia acontecido. Coloquei o celular sobre a cômoda e
desci as escadas em direção a cozinha, disposta a conversar com André, mas
quando cheguei não tive coragem.
André
havia arrumado a mesa de café da manhã com flores do meu próprio jardim. Tinha
bolo, torradas, queijos, frutas e pães. Logicamente que alguém do hotel havia
levado tudo aquilo.
-Bom
dia! Disse ele vindo em minha direção.
-Bom
dia. Respondi sem graça.
-Sente-se,
vamos comer. Ele falou pegando em minha mão.
Eu
concordei e sentei-me ao lado dele, sentindo-me totalmente desarmada.
Talvez
era disso que eu precisava. Alguém como André, em um ambiente totalmente neutro
para poder recomeçar. Pensava comigo mesma enquanto tomava uma xícara de café.
Não,
acho que não! Me corrigi silenciosamente. Eu gostava do André, da companhia
dele, mas eu amava o João na verdade.
Ele
olhou para mim receoso.
-Você
está bem? Parece arrependida. Se você quiser, sei lá, posso ir embora.
Eu
hesitei em responder.
-André,
eu... (fiz uma pausa).
Olhei
para aquela mesa preparada com todo carinho, olhei para as flores colhidas por
ele mesmo e em seguida olhei para ele que havia ficado totalmente sem chateado.
-Alice,
não se preocupe, eu vou para casa, depois a gente se fala. Ele disse
levantando-se em seguida.
Por que
tem que ser tão difícil. Seria tão mais fácil se eu soubesse algo terrível
sobre ele, ou se ele fosse um aproveitador. Mas não! Ele era um perfeito cavalheiro
e isso me deixada péssima. Para qualquer pessoa ele seria o homem ideal, mas
não para mim. Ainda assim, resolvi enfim dar a ele uma chance.
-Não. Eu
disse segurando a mão dele. –Claro que não! Quero que fique. Eu só acordei com
ressaca, e confesso que fiquei acanhada ao vê-lo depois da nossa noite. Mas eu
não me arrependi de maneira alguma, eu gostei muito.
Eu
menti. Eu tinha me arrependido no mesmo instante que abri os olhos. Não por ele,
que foi incrível, mas por mim, por não o amar como deveria.
Ele
sorriu parecendo aliviado.
-Agora
podemos tomar nosso café em paz? Eu disse dando-lhe uma piscada.
Ele
sorriu novamente.
-Com
certeza.
Naquele
dia, fomos almoçar no hotel, onde passamos o dia todo com as meninas. À noite,
André as levou para o aeroporto e sem que eu soubesse, voltou em minha casa,
onde ficamos até bem tarde.
Então eu
me convenci de que talvez eu poderia recomeçar minha vida ao lado de André.

eu espero que ela mande esse André,pasta e volte com o João......
ResponderExcluirvou ler o restante de hoje, para poder dar opiniões kkkkkk
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