sexta-feira, 5 de junho de 2015

" Recomeços " Parte 16 por Érika Gomes Prevideli

" Recomeços " 


Parte 16


Semanas se passaram e somente depois de um mês que eu e André estávamos juntos, decidi contar para Malu, que ficou totalmente magoada ao saber.
No fundo eu queria tentar amar o André. E estava me esforçando.
 Quando não estávamos na minha casa, estávamos no trailer. Saíamos com alguns amigos dele que eram casados e fazíamos programas de casados. Cheguei a fazer até alguns jantares em minha casa para dois casais de amigos, e com isso ganhei duas amigas, que eram mulheres muito legais. Comecei a treinar com elas e elas corriam comigo todas as manhãs. Mas ainda assim não conseguia esquecer o João Pedro, pensava nele todos os dias, todo o momento.
Na primeira semana de fevereiro, numa sexta-feira após o almoço, eu estava saindo da minha casa para encontrar com o André no café e vi um carro chegando.
Fiquei parada em frente à minha Volvo para ver quem era, e quando o carro parou não pude acreditar. Era a Malu e a minha mãe. Corri em direção a elas feito maluca.
Malu desceu do carro e eu a abracei.
-Não acredito nisso! Eu disse sentindo-me a pessoa mais feliz do mundo.
Ela me abraçou, mas em seguida olhou ao redor tirando até os óculos escuros para ver melhor.
-Santo Deus, você se esconde da civilização?
-Não é lindo esse lugar?
Ela me olhou como se eu tivesse dito um insulto.
-Mãe que saudades. Eu disse abraçando minha mãe em seguida.
Minha mãe também olhou como se eu tivesse em uma selva.
-Minha filha, não é perigoso ficar aqui assim, sem ninguém por perto?
-Gente, eu amo esse lugar. Vem, vamos. Eu disse segurando-as pelas mãos e as levando em direção da minha casa.
-Tem certeza que não tem uns índios escondidos por aí? Só tem mato nesse lugar.
-Malu, eu também senti sua falta. Disse dando risada. –E são montanhas.
Elas entraram em minha casa e sorriram imediatamente.
-Que lindinha essa casa, parece de boneca. Falou minha mãe.
-É, é bonitinha. Se bem que a casa de bonecas da Mariah é mais luxuosa que essa. Alfinetou Malu.
-E a Mariah? Indaguei.
-Ela ficou com a Maria Helena. Os meninos foram pescar com o pai, então tiramos o final de semana para vir conhecer esse lugar tão...
-Malu, para com isso!
-Tão cheio de paz, de silêncio, de solidão. Calma, nem me deixou terminar a frase.
Eu olhei para ela e caímos na risada.
-Estou brincando. Senti sua falta. Ela disse me abraçando novamente. -Na verdade eu tenho ciúmes desse lugar que te roubou de mim.
-Nunca nada me roubará de você.
Malu me abraçou emocionada.
Mostrei a elas a casa inteira, que era pequena por sinal.
-É realmente um encanto. O lugar é lindo, mas para passear, não me vejo morando aqui. Disse minha mãe.
-Eu não vejo a Alice morando aqui, mas enfim. Disse Malu levantando as mãos.
-Isso porque vocês não viram onde o André mora.
-Por quê? Ela me olhou incrédula.
-Ele mora em um trailer, ou  motorhomme, na verdade.
-Como assim? Você está namorando um hippie, um.. sei lá ... disse Malu alarmada.
-Mas e o hotel? Indagou minha mãe.
-Ele não é hippie. Só quis um lugar pequeno e tranquilo.
-E quanto ao hotel? Achei que ele ficasse lá. Insistiu minha mãe.
-Ele mora um pouco nos dois, mas quando quer privacidade fica no trailer.
-Hum Karen, já entendi, quando eles querem fazer um sexo selvagem vão para o trailer.
-Pois é! Ela trocou uma casa gigante, um apartamento lindo por um trailer. Com certeza ele deve valer muito a pena. Completou minha mãe.
-Ei, parem vocês duas, não é nada disso. Falei ficando irritada.
Elas riram, mas não retiraram nada do que disseram. Preparei um chá da tarde e ficamos conversando enquanto tomávamos nosso chá no jardim da casa.
-Alice, na verdade, além de vir visitá-la, vim entregar meu convite de aniversário.
Malu me entregou um envelope preto, todo personalizado, onde estava o convite do aniversário dentro.
-Reservei a Dual, uma casa de festas nova, que está sendo muito bem frequentada, então, logicamente que você, em hipótese alguma deixará de comparecer.
-Malu, não sei se é boa ideia.
-Alice, minha filha, você precisa parar de fugir do seu passado e principalmente da sua vida.
-Mãe, não estou fugindo. Estou recomeçando, é diferente.
-Olha Alice, eu tenho que concordar com sua mãe. Você está deixando tudo para trás por medo de continuar sua vida. É como se você quisesse viver uma vida que não é sua. Olha para esse lugar. Ele é lindo, isso é verdade, mas não combina com seu estilo de vida, não tem nada de você aqui. Você precisar recomeçar sua vida, isso é fato, mas em seu meio, em seu lugar.
Fiquei em silêncio pensando nas palavras das duas.
-Filha, o João Pedro ama você, ele tem sofrido muito, assim como você. Seu olhar transmite uma tristeza enorme, isso é nítido. Os dois estão infelizes.
-Mãe, o João Pedro pediu o divórcio e quando eu achei que nos acertaríamos, ele simplesmente me entregou os papéis assinados, vocês presenciaram isso.
-Alice, não estamos aqui para julgá-la e muito menos defender o João. Ele errou, mas você também errou. Você quis achar um culpado pela morte do Pedro e acabou atribuindo a culpa ao João. E no fundo acho que você não o perdoou até hoje por isso. E no fundo ele também acaba se culpando. Então, enquanto vocês não aceitarem que o que houve com o Pedro foi uma fatalidade, vocês nunca serão felizes.
-Mãe, eu não culpo o João. No começo eu até atribuí a culpa ao João Pedro, mas agora não. Só eu tenho medo, medo de sei lá...
Todas ficamos em silêncio que foi quebrado alguns minutos depois.
-Alice, o medo é o nosso maior inimigo. Ele impede nossa felicidade. Vou te contar uma coisa que nunca tive coragem de falar, mas acho que chegou a hora.
Olhei para ela sem entender.
-Quando eu casei com seu pai, eu era uma menina. Não tinha vivido nada, não conhecia nada, começamos a namorar e então eu engravidei. A família dele me rejeitou porque eu era pobre, mas ainda assim ele me assumiu e casou-se comigo. Mas seu pai era um homem totalmente reservado, detestava sair de casa. Nós nunca saíamos, nunca íamos a um restaurante. Eu achava até que ele sentia vergonha de mim. Quando você nasceu, as coisas ainda pioraram. Ele pouco conversava comigo. No fundo me culpava por tê-lo afastado da família dele. Foi um inferno o começo do nosso casamento. Então simplesmente resolvi parar de viver em função dele e vivia para mim e para você, embora você nunca se deu conta disso. Eu sabia que no fundo ele me amava, mas nunca admitiu isso para mim. Então acabei conhecendo uma pessoa e foi quando eu o traí. Juro para você que quando isso aconteceu, fiquei maluca, sentia ódio de mim, pois eu amava seu pai. Meu remorso era tão grande que acabei contando a ele. Ele quase morreu de tristeza, de decepção e nos separamos em seguida. Só que por anos eu implorei pelo perdão dele. Deixei você morar com ele porque sabia que se tirasse isso dele também, ele me odiaria ainda mais. Sofri demais sem vocês dois, mas fiz isso por ele. Logo depois que nos separamos legalmente, ele me procurou, disse que me amava. Saímos centenas de vezes depois que nos separamos, mas ele tinha medo de me assumir novamente. Por três anos ele se encontrava comigo às escondidas, por medo do que os outros iriam falar. Até que um dia me cansei e decidir não sair mais com ele. Mas então nós conversamos e ele prometeu que voltaríamos oficialmente, não mais as escondidas. Só que no dia seguinte, ele teve um ataque no coração e faleceu e foi como se eu tivesse perdido parte de mim. Acho que por isso demorei para ter um relacionamento de verdade. Mas uma coisa eu posso me orgulhar, lutei por ele até o fim, nunca tive orgulho em se tratando de nós dois. Mas o medo dele sempre foi maior, maior até que o amor que ele sentia por mim. Então eu te pergunto, valeu a pena todo esse medo, todo esse rancor que ele sentia? Nós não seríamos mais felizes se ele tivesse me perdoado? Todo mundo tem o direito de errar, e eu errei e me arrependo até minha morte por isso. Mas ele nunca foi capaz de me perdoar, por medo e por orgulho.
-Mãe, eu nunca imaginei isso. Sempre achei que...
Ela riu.
-Eu sei! Você sempre me achou uma promiscua. Muitas vezes você foi me visitar e eu estava me arrumando para um encontro, e esses encontros sempre foram com seu pai. Mas eu não podia dizer nem a você. Senão corria o risco de perdê-lo de vez. Por isso me sujeitei em ficar em silêncio por tantos anos. E depois que ele se foi, não queria quebrar a imagem que você tinha dele. Ele era seu ídolo, e eu achava bonito isso, embora morria de ciúmes por dentro.
Eu imediatamente a abracei, sentindo-me a pior pessoa do mundo, por sempre tê-la julgado.
-Me perdoa mãe? Sempre a julguei sem saber a verdade. Me perdoa?
-Claro que sim, minha filha eu amo você e só quero sua felicidade. E não está aqui sua felicidade. Você sabe disso.
Malu me encarou exasperada, mas não disse nada.
-Na verdade eu tenho medo de voltar para Curitiba e ver o João Pedro sem poder estar com ele. Assim como voltar para lá e não o ver.   Ficaria maluca por estar na mesma cidade que ele, sem saber onde ele está, com quem ele está. Eu fico me imaginando ir a um restaurante e ficar olhando para a porta rezando para que ele entre a qualquer momento. Não estou pronta para isso.
-E para perdê-lo de vez, você está pronta? Falou Malu.
Olhei intrigada.
-O João Pedro também conheceu uma pessoa. Eu não pergunto muito isso para o Bruno. Mas soube que ele está saindo com uma garota há umas semanas. Me parece que é uma médica. Então, sei lá, talvez você perceba tarde demais que o que você está tentando fazer está sendo em vão.
Senti meu coração sendo esmagado ao imaginá-lo com outra mulher.
-Só que uma coisa é certa, se você voltar para valer e conversar com o João, tenho certeza que ele não pensará duas vezes para retomar o casamento, porque ele ama você. E digo isso por dois motivos, primeiro porque é nítido e depois porque eu o escutei falando com o Bruno, ele me disse que está com essa garota para tentar esquecer de você, porque a vida dele está um inferno sem você. Eu o ouvi dizer que... (Malu fez uma pausa). –Você percebeu que dei de ficar escutando as conversas dele com o Bruno? Olha só o que eu passei a fazer por sua causa! Ela exclamou revirando os olhos.
Eu dei um sorriso sem graça.
-Bom, enfim, ouvi acidentalmente, o João dizer ao Bruno ama você, mas precisa te esquecer, por isso que resolveu assumir essa namorada. Eles se conheceram em janeiro em uma festa. Ele disse que ela é legal, que estão se dando bem, mas ele não a ama. Isso foram as palavras dele. –Ele não a ama ainda. Essas são as minhas palavras. Então não corra o risco de isso acontecer, porque aí minha amiga, já era.
Balancei a cabeça positivamente e não disse mais nada.
Alguns instantes depois, André chegou, estacionando sua caminhonete ao lado do meu carro. Minha mãe e Malu o encararam até que ele se aproximasse de nós.
-Ele é bem rústico. Sussurrou Malu.
Tentei segurar, mas não consegui e acabei rindo.
-Ainda sou mais o João. Disse minha mãe quase inaudível.
Confesso que olhei para André o comparando com o João Pedro. “Eu também sou mais o João” pensei comigo mesma.
André parou em nossa frente exibindo um sorriso enorme. Levantei-me e imediatamente comecei as apresentações. Ele foi extremamente simpático com elas e elas com ele. Mas André foi embora logo, queria que eu curtisse minhas visitas ao máximo, mas antes, convidou Malu e minha mãe para conhecer o Café e combinamos em ir à noite.
A noite fomos ao Café, era a noite do Blues e a casa estava lotada. Porém nossa mesa estava reservada e André não sabia o que fazer para agradá-las. Embora elas não se deixaram levar pelos belos olhos azuis dele.
Malu algumas vezes falava de João Pedro perto dele, deixando-o totalmente sem jeito.
No sábado pela manhã o celular de Malu tocou, ela estava no banho e pediu para que eu atendesse.
-É o Bruno. Gritei ao ver a identificação no visor.
-Mais eu acabei de falar com ele! Atende e fala que eu ligo de volta. Ela gritou enquanto ensaboava o cabelo.
-Oi Bruno.
-Oi, Alice.
Minhas pernas amoleceram apenas em escutar a voz do João Pedro.
-Não é o Bruno, é o João Pedro.
Logicamente que ele não precisava me dizer, pois conhecia até a respiração dele.
-Ah, oi João, a Malu está no banho. Respondi sem graça.
-Minha mãe está tentando ligar para a Malu, mas ela não está conseguindo, e o Bruno está pescando com meu pai, e hoje eu fiquei para preparar o almoço.
Eu sorri imaginando-o cozinhar.
-Como você está João Pedro?
-Estou bem, quer dizer, vou levando. E você, como está?
-Bom, eu também vou levando, mas estou feliz com as minhas visitas.
-Eu imaginei mesmo o quanto ficaria feliz com elas perto de você. Elas sentem sua falta. Aliás, todos sentimos sua falta.
Minha boca secou nesse momento, não sabia o que responder.
-Eu sinto falta de todos também.
Malu saiu do chuveiro me olhando sem entender.
-Ah, ela já saiu do banho, vou passar para ela. E João, foi bom falar com você.
-Foi bom falar com você também Alice.
Entreguei o celular para Malu que falou com ele em poucos segundos.
-O que ele disse? Perguntou Malu desconfiada.
-Ele me disse que a Maria Helena estava tentando falar com você. E parece que o Bruno não estava por perto.
Malu riu balançando a cabeça negativamente.
-Falei com a Maria Helena ainda pouco, a Mariah está ótima, acho que foi um pretexto para falar com você.
-Mas como ele poderia imaginar que era eu quem atenderia seu celular?
-É simples, antes de entrar para o banho, tinha falado com o Bruno e disse a ele que ia tomar um banho para sairmos. Na certa ele comentou com o João e sei lá o João arriscou falar com você.
Vibrei de felicidade por dentro, mas não quis demonstrar. Confesso que só em ouvir a voz dele, ganhei meu dia.
Nosso final de semana passou voando. Levei minha mãe e Malu para conhecer a cidade, depois fomos almoçar em um restaurante maravilhoso. A noite saímos novamente e dessa vez André nos acompanhou. No domingo, almoçamos no hotel de André. Voltamos para minha casa e pouco tempo depois estava me despedindo da Malu e da minha mãe.
-Então, vejo você em dez dias. Disse Malu me abraçando. Se você não for eu não lhe perdoarei.
-Eu vou, não se preocupe.
-Ah bom, assim que eu gosto. Ela disse me abraçando.
Malu ficou emocionada ao me abraçar.
-Sinto sua falta Alice. Eu preciso de você perto de mim, tem sido tão difícil.
-Também sinto sua falta minha amiga. Falei enquanto a abraçava.
Malu secou as lágrimas e minha mãe me abraçou em seguida.
-Minha filha, me desculpe por ter tocado no assunto do seu pai, só fiz isso para que você não cometa os mesmos erros que ele. Não tenha medo de seguir seu coração. Tenho certeza que onde quer que esteja, o Pedro ficaria muito feliz em ver os pais que ele tanto amava juntos novamente.
Se tinha alguma coisa que me tirava lágrimas e lágrimas era ouvir falar do Pedro. Por mais tempo que passasse, lembrar do Pedro era extremamente doloroso. A falta que ele me fazia com certeza não seria preenchida nunca mais.

Após muitas lágrimas, elas se foram e novamente me vi sozinha naquela casa.

2 comentários:

  1. Nossa Erika...só deu vontade de quero mais....adorandooo..

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  2. ahhhhhh eu quero maissssss kkkkkk ..... mas né, fazer o que ? vamos aguardar. Espero que ela e João Pedro cheguem sozinhos na festa, sem seus respectivos namorados e se acertem logooooo.

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