" Recomeços "
Parte 16
Semanas
se passaram e somente depois de um mês que eu e André estávamos juntos, decidi
contar para Malu, que ficou totalmente magoada ao saber.
No fundo
eu queria tentar amar o André. E estava me esforçando.
Quando não estávamos na minha casa, estávamos
no trailer. Saíamos com alguns amigos dele que eram casados e fazíamos
programas de casados. Cheguei a fazer até alguns jantares em minha casa para
dois casais de amigos, e com isso ganhei duas amigas, que eram mulheres muito
legais. Comecei a treinar com elas e elas corriam comigo todas as manhãs. Mas
ainda assim não conseguia esquecer o João Pedro, pensava nele todos os dias,
todo o momento.
Na
primeira semana de fevereiro, numa sexta-feira após o almoço, eu estava saindo
da minha casa para encontrar com o André no café e vi um carro chegando.
Fiquei
parada em frente à minha Volvo para ver quem era, e quando o carro parou não
pude acreditar. Era a Malu e a minha mãe. Corri em direção a elas feito maluca.
Malu
desceu do carro e eu a abracei.
-Não
acredito nisso! Eu disse sentindo-me a pessoa mais feliz do mundo.
Ela me
abraçou, mas em seguida olhou ao redor tirando até os óculos escuros para ver
melhor.
-Santo
Deus, você se esconde da civilização?
-Não é
lindo esse lugar?
Ela me
olhou como se eu tivesse dito um insulto.
-Mãe que
saudades. Eu disse abraçando minha mãe em seguida.
Minha
mãe também olhou como se eu tivesse em uma selva.
-Minha
filha, não é perigoso ficar aqui assim, sem ninguém por perto?
-Gente,
eu amo esse lugar. Vem, vamos. Eu disse segurando-as pelas mãos e as levando em
direção da minha casa.
-Tem
certeza que não tem uns índios escondidos por aí? Só tem mato nesse lugar.
-Malu,
eu também senti sua falta. Disse dando risada. –E são montanhas.
Elas
entraram em minha casa e sorriram imediatamente.
-Que
lindinha essa casa, parece de boneca. Falou minha mãe.
-É, é
bonitinha. Se bem que a casa de bonecas da Mariah é mais luxuosa que essa.
Alfinetou Malu.
-E a
Mariah? Indaguei.
-Ela
ficou com a Maria Helena. Os meninos foram pescar com o pai, então tiramos o
final de semana para vir conhecer esse lugar tão...
-Malu,
para com isso!
-Tão
cheio de paz, de silêncio, de solidão. Calma, nem me deixou terminar a frase.
Eu olhei
para ela e caímos na risada.
-Estou
brincando. Senti sua falta. Ela disse me abraçando novamente. -Na verdade eu
tenho ciúmes desse lugar que te roubou de mim.
-Nunca nada
me roubará de você.
Malu me
abraçou emocionada.
Mostrei
a elas a casa inteira, que era pequena por sinal.
-É
realmente um encanto. O lugar é lindo, mas para passear, não me vejo morando
aqui. Disse minha mãe.
-Eu não
vejo a Alice morando aqui, mas enfim. Disse Malu levantando as mãos.
-Isso
porque vocês não viram onde o André mora.
-Por
quê? Ela me olhou incrédula.
-Ele
mora em um trailer, ou motorhomme, na
verdade.
-Como
assim? Você está namorando um hippie, um.. sei lá ... disse Malu alarmada.
-Mas e o
hotel? Indagou minha mãe.
-Ele não
é hippie. Só quis um lugar pequeno e tranquilo.
-E
quanto ao hotel? Achei que ele ficasse lá. Insistiu minha mãe.
-Ele
mora um pouco nos dois, mas quando quer privacidade fica no trailer.
-Hum
Karen, já entendi, quando eles querem fazer um sexo selvagem vão para o
trailer.
-Pois é!
Ela trocou uma casa gigante, um apartamento lindo por um trailer. Com certeza
ele deve valer muito a pena. Completou minha mãe.
-Ei,
parem vocês duas, não é nada disso. Falei ficando irritada.
Elas
riram, mas não retiraram nada do que disseram. Preparei um chá da tarde e
ficamos conversando enquanto tomávamos nosso chá no jardim da casa.
-Alice,
na verdade, além de vir visitá-la, vim entregar meu convite de aniversário.
Malu me
entregou um envelope preto, todo personalizado, onde estava o convite do
aniversário dentro.
-Reservei
a Dual, uma casa de festas nova, que está sendo muito bem frequentada, então,
logicamente que você, em hipótese alguma deixará de comparecer.
-Malu,
não sei se é boa ideia.
-Alice,
minha filha, você precisa parar de fugir do seu passado e principalmente da sua
vida.
-Mãe,
não estou fugindo. Estou recomeçando, é diferente.
-Olha
Alice, eu tenho que concordar com sua mãe. Você está deixando tudo para trás
por medo de continuar sua vida. É como se você quisesse viver uma vida que não
é sua. Olha para esse lugar. Ele é lindo, isso é verdade, mas não combina com
seu estilo de vida, não tem nada de você aqui. Você precisar recomeçar sua
vida, isso é fato, mas em seu meio, em seu lugar.
Fiquei
em silêncio pensando nas palavras das duas.
-Filha,
o João Pedro ama você, ele tem sofrido muito, assim como você. Seu olhar
transmite uma tristeza enorme, isso é nítido. Os dois estão infelizes.
-Mãe, o
João Pedro pediu o divórcio e quando eu achei que nos acertaríamos, ele
simplesmente me entregou os papéis assinados, vocês presenciaram isso.
-Alice,
não estamos aqui para julgá-la e muito menos defender o João. Ele errou, mas
você também errou. Você quis achar um culpado pela morte do Pedro e acabou
atribuindo a culpa ao João. E no fundo acho que você não o perdoou até hoje por
isso. E no fundo ele também acaba se culpando. Então, enquanto vocês não
aceitarem que o que houve com o Pedro foi uma fatalidade, vocês nunca serão felizes.
-Mãe, eu
não culpo o João. No começo eu até atribuí a culpa ao João Pedro, mas agora
não. Só eu tenho medo, medo de sei lá...
Todas
ficamos em silêncio que foi quebrado alguns minutos depois.
-Alice,
o medo é o nosso maior inimigo. Ele impede nossa felicidade. Vou te contar uma
coisa que nunca tive coragem de falar, mas acho que chegou a hora.
Olhei
para ela sem entender.
-Quando
eu casei com seu pai, eu era uma menina. Não tinha vivido nada, não conhecia
nada, começamos a namorar e então eu engravidei. A família dele me rejeitou
porque eu era pobre, mas ainda assim ele me assumiu e casou-se comigo. Mas seu
pai era um homem totalmente reservado, detestava sair de casa. Nós nunca
saíamos, nunca íamos a um restaurante. Eu achava até que ele sentia vergonha de
mim. Quando você nasceu, as coisas ainda pioraram. Ele pouco conversava comigo.
No fundo me culpava por tê-lo afastado da família dele. Foi um inferno o começo
do nosso casamento. Então simplesmente resolvi parar de viver em função dele e
vivia para mim e para você, embora você nunca se deu conta disso. Eu sabia que
no fundo ele me amava, mas nunca admitiu isso para mim. Então acabei conhecendo
uma pessoa e foi quando eu o traí. Juro para você que quando isso aconteceu,
fiquei maluca, sentia ódio de mim, pois eu amava seu pai. Meu remorso era tão
grande que acabei contando a ele. Ele quase morreu de tristeza, de decepção e
nos separamos em seguida. Só que por anos eu implorei pelo perdão dele. Deixei
você morar com ele porque sabia que se tirasse isso dele também, ele me odiaria
ainda mais. Sofri demais sem vocês dois, mas fiz isso por ele. Logo depois que
nos separamos legalmente, ele me procurou, disse que me amava. Saímos centenas
de vezes depois que nos separamos, mas ele tinha medo de me assumir novamente.
Por três anos ele se encontrava comigo às escondidas, por medo do que os outros
iriam falar. Até que um dia me cansei e decidir não sair mais com ele. Mas
então nós conversamos e ele prometeu que voltaríamos oficialmente, não mais as
escondidas. Só que no dia seguinte, ele teve um ataque no coração e faleceu e
foi como se eu tivesse perdido parte de mim. Acho que por isso demorei para ter
um relacionamento de verdade. Mas uma coisa eu posso me orgulhar, lutei por ele
até o fim, nunca tive orgulho em se tratando de nós dois. Mas o medo dele
sempre foi maior, maior até que o amor que ele sentia por mim. Então eu te
pergunto, valeu a pena todo esse medo, todo esse rancor que ele sentia? Nós não
seríamos mais felizes se ele tivesse me perdoado? Todo mundo tem o direito de
errar, e eu errei e me arrependo até minha morte por isso. Mas ele nunca foi
capaz de me perdoar, por medo e por orgulho.
-Mãe, eu
nunca imaginei isso. Sempre achei que...
Ela riu.
-Eu sei!
Você sempre me achou uma promiscua. Muitas vezes você foi me visitar e eu
estava me arrumando para um encontro, e esses encontros sempre foram com seu
pai. Mas eu não podia dizer nem a você. Senão corria o risco de perdê-lo de
vez. Por isso me sujeitei em ficar em silêncio por tantos anos. E depois que
ele se foi, não queria quebrar a imagem que você tinha dele. Ele era seu ídolo,
e eu achava bonito isso, embora morria de ciúmes por dentro.
Eu
imediatamente a abracei, sentindo-me a pior pessoa do mundo, por sempre tê-la
julgado.
-Me
perdoa mãe? Sempre a julguei sem saber a verdade. Me perdoa?
-Claro
que sim, minha filha eu amo você e só quero sua felicidade. E não está aqui sua
felicidade. Você sabe disso.
Malu me
encarou exasperada, mas não disse nada.
-Na
verdade eu tenho medo de voltar para Curitiba e ver o João Pedro sem poder estar
com ele. Assim como voltar para lá e não o ver.
Ficaria maluca por estar na mesma
cidade que ele, sem saber onde ele está, com quem ele está. Eu fico me
imaginando ir a um restaurante e ficar olhando para a porta rezando para que
ele entre a qualquer momento. Não estou pronta para isso.
-E para
perdê-lo de vez, você está pronta? Falou Malu.
Olhei
intrigada.
-O João
Pedro também conheceu uma pessoa. Eu não pergunto muito isso para o Bruno. Mas
soube que ele está saindo com uma garota há umas semanas. Me parece que é uma
médica. Então, sei lá, talvez você perceba tarde demais que o que você está
tentando fazer está sendo em vão.
Senti
meu coração sendo esmagado ao imaginá-lo com outra mulher.
-Só que
uma coisa é certa, se você voltar para valer e conversar com o João, tenho
certeza que ele não pensará duas vezes para retomar o casamento, porque ele ama
você. E digo isso por dois motivos, primeiro porque é nítido e depois porque eu
o escutei falando com o Bruno, ele me disse que está com essa garota para
tentar esquecer de você, porque a vida dele está um inferno sem você. Eu o ouvi
dizer que... (Malu fez uma pausa). –Você percebeu que dei de ficar escutando as
conversas dele com o Bruno? Olha só o que eu passei a fazer por sua causa! Ela
exclamou revirando os olhos.
Eu dei
um sorriso sem graça.
-Bom,
enfim, ouvi acidentalmente, o João dizer ao Bruno ama você, mas precisa te
esquecer, por isso que resolveu assumir essa namorada. Eles se conheceram em
janeiro em uma festa. Ele disse que ela é legal, que estão se dando bem, mas
ele não a ama. Isso foram as palavras dele. –Ele não a ama ainda. Essas são as
minhas palavras. Então não corra o risco de isso acontecer, porque aí minha
amiga, já era.
Balancei
a cabeça positivamente e não disse mais nada.
Alguns
instantes depois, André chegou, estacionando sua caminhonete ao lado do meu
carro. Minha mãe e Malu o encararam até que ele se aproximasse de nós.
-Ele é
bem rústico. Sussurrou Malu.
Tentei
segurar, mas não consegui e acabei rindo.
-Ainda
sou mais o João. Disse minha mãe quase inaudível.
Confesso
que olhei para André o comparando com o João Pedro. “Eu também sou mais o João”
pensei comigo mesma.
André
parou em nossa frente exibindo um sorriso enorme. Levantei-me e imediatamente
comecei as apresentações. Ele foi extremamente simpático com elas e elas com
ele. Mas André foi embora logo, queria que eu curtisse minhas visitas ao
máximo, mas antes, convidou Malu e minha mãe para conhecer o Café e combinamos
em ir à noite.
A noite
fomos ao Café, era a noite do Blues e a casa estava lotada. Porém nossa mesa
estava reservada e André não sabia o que fazer para agradá-las. Embora elas não
se deixaram levar pelos belos olhos azuis dele.
Malu
algumas vezes falava de João Pedro perto dele, deixando-o totalmente sem jeito.
No
sábado pela manhã o celular de Malu tocou, ela estava no banho e pediu para que
eu atendesse.
-É o
Bruno. Gritei ao ver a identificação no visor.
-Mais eu
acabei de falar com ele! Atende e fala que eu ligo de volta. Ela gritou enquanto
ensaboava o cabelo.
-Oi
Bruno.
-Oi,
Alice.
Minhas
pernas amoleceram apenas em escutar a voz do João Pedro.
-Não é o
Bruno, é o João Pedro.
Logicamente
que ele não precisava me dizer, pois conhecia até a respiração dele.
-Ah, oi
João, a Malu está no banho. Respondi sem graça.
-Minha
mãe está tentando ligar para a Malu, mas ela não está conseguindo, e o Bruno
está pescando com meu pai, e hoje eu fiquei para preparar o almoço.
Eu sorri
imaginando-o cozinhar.
-Como
você está João Pedro?
-Estou
bem, quer dizer, vou levando. E você, como está?
-Bom, eu
também vou levando, mas estou feliz com as minhas visitas.
-Eu
imaginei mesmo o quanto ficaria feliz com elas perto de você. Elas sentem sua
falta. Aliás, todos sentimos sua falta.
Minha
boca secou nesse momento, não sabia o que responder.
-Eu
sinto falta de todos também.
Malu
saiu do chuveiro me olhando sem entender.
-Ah, ela
já saiu do banho, vou passar para ela. E João, foi bom falar com você.
-Foi bom
falar com você também Alice.
Entreguei
o celular para Malu que falou com ele em poucos segundos.
-O que
ele disse? Perguntou Malu desconfiada.
-Ele me
disse que a Maria Helena estava tentando falar com você. E parece que o Bruno
não estava por perto.
Malu riu
balançando a cabeça negativamente.
-Falei
com a Maria Helena ainda pouco, a Mariah está ótima, acho que foi um pretexto
para falar com você.
-Mas
como ele poderia imaginar que era eu quem atenderia seu celular?
-É
simples, antes de entrar para o banho, tinha falado com o Bruno e disse a ele
que ia tomar um banho para sairmos. Na certa ele comentou com o João e sei lá o
João arriscou falar com você.
Vibrei
de felicidade por dentro, mas não quis demonstrar. Confesso que só em ouvir a
voz dele, ganhei meu dia.
Nosso
final de semana passou voando. Levei minha mãe e Malu para conhecer a cidade,
depois fomos almoçar em um restaurante maravilhoso. A noite saímos novamente e
dessa vez André nos acompanhou. No domingo, almoçamos no hotel de André.
Voltamos para minha casa e pouco tempo depois estava me despedindo da Malu e da
minha mãe.
-Então,
vejo você em dez dias. Disse Malu me abraçando. Se você não for eu não lhe
perdoarei.
-Eu vou,
não se preocupe.
-Ah bom,
assim que eu gosto. Ela disse me abraçando.
Malu
ficou emocionada ao me abraçar.
-Sinto
sua falta Alice. Eu preciso de você perto de mim, tem sido tão difícil.
-Também
sinto sua falta minha amiga. Falei enquanto a abraçava.
Malu
secou as lágrimas e minha mãe me abraçou em seguida.
-Minha
filha, me desculpe por ter tocado no assunto do seu pai, só fiz isso para que
você não cometa os mesmos erros que ele. Não tenha medo de seguir seu coração.
Tenho certeza que onde quer que esteja, o Pedro ficaria muito feliz em ver os
pais que ele tanto amava juntos novamente.
Se tinha
alguma coisa que me tirava lágrimas e lágrimas era ouvir falar do Pedro. Por
mais tempo que passasse, lembrar do Pedro era extremamente doloroso. A falta
que ele me fazia com certeza não seria preenchida nunca mais.
Após
muitas lágrimas, elas se foram e novamente me vi sozinha naquela casa.

Nossa Erika...só deu vontade de quero mais....adorandooo..
ResponderExcluirahhhhhh eu quero maissssss kkkkkk ..... mas né, fazer o que ? vamos aguardar. Espero que ela e João Pedro cheguem sozinhos na festa, sem seus respectivos namorados e se acertem logooooo.
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