" Recomeços"
Parte 01
Prólogo
Estava
deitada sobre a enorme cama da minha mãe. Me segurando ao máximo, pois a
vontade de chorar era imensa. Mas não queria demonstrar minha tristeza a ela
que estava radiante arrumando sua mala para um cruzeiro internacional por toda
a Europa com toda a minha família.
Minha
mãe sempre foi uma mulher linda, extremamente vaidosa e não aparentava em
hipótese alguma ser minha mãe, estava mais para uma irmã. Tipo aquelas irmãs mais
bonitas e mais descoladas.
Ela
e meu pai se casaram muito jovens, pois foram descuidados e eu entrei em cena
sem que eles tivessem planejado. Mas ele a amava, ou melhor, a idolatrava. Mas
infelizmente ela não o amava da mesma maneira. Ela sempre preferiu a
individualidade dela do que a família que eles formaram.
Eles
se separaram quando eu tinha apenas nove anos de idade, foi a primeira grande
mudança da minha vida, pois vivenciei a dissolução de uma família. E o mais
engraçado foi que minha mãe optou que eu morasse com meu pai, que era uma
pessoa muito mais responsável e amável do que ela.
Precisei
me adaptar a viver em um apartamento pequeno, tendo que me virar praticamente
sozinha e sem minha mãe ao meu lado. No começo foi complicado, mas em poucas semanas,
eu e meu pai nos tornamos melhores amigos. Ele era incrível e soube cuidar de
mim como ninguém antes havia cuidado.
Eu
amava meu pai, amava mais do que tudo, e ele também me amava acima de qualquer
coisa. Mesmo trabalhando fora, ele era muito presente, muito atencioso,
preocupado, amável, amigo, enfim, possuía sozinho, todas as qualidades que um
pai e uma mãe precisavam ter.
Meu
pai era professor doutor de uma grande faculdade em Curitiba; também era um dos
dois herdeiros de meu avô, que tinha algumas usinas pelo Brasil.
Então
meu pai sempre nos proporcionou uma vida com um padrão razoavelmente alto,
talvez essa tenha sido uma das qualidades de meu pai que mais atraiu minha mãe.
Digo isso porque depois que minha mãe o conheceu, ela nunca mais precisou se
preocupar com a situação financeira dela, que era sempre muito boa, mesmo
depois que o casamento acabou.
Mas
infelizmente, quando eu tinha doze anos, meu pai faleceu, teve um infarto
fulminante e precisei voltar a morar com a minha mãe.
Essa
foi a segunda grande mudança pela qual passei, e a primeira grande perda, pois
eu simplesmente havia perdido a pessoa com a qual mais me identificava e mais
amava nesse mundo. E novamente tive que me adaptar à minha nova vida, ao lado
de minha mãe desmiolada.
...
1
Você
só pode estar brincando!
-Tem
certeza de que você não quer ir? São suas férias, o Otávio não pode decidir
toda vez por você, Alice.
-Tenho
mãe. Prefiro ficar a ter que escutar ele falando sobre essa viagem por meses. Disse
tentando disfarçar minha frustração.
-Mas
Alice, são quatro semanas que ficarei fora. Você ficará entediada se ficar todo
esse tempo sozinha.
-Não
se preocupe mãe. Fica tranquila. Vou aproveitar para colocar minhas leituras em
dia. Com tanta coisa na faculdade, eu não tive nem tempo direito para ler.
Minha
mãe fez careta ao me ouvir falar. Ela não conseguia entender o porquê eu
gostava tanto de ler. Era mais do que claro que era por incentivo do meu pai.
-Você
tinha que puxar para seu pai!
Eu
sorri. Eu mais do que amava ter puxado a ele.
-E
o Otávio, já te ligou?
Otávio
era meu namorado, estávamos juntos há seis anos. Eu o conhecia desde ele
mudou-se com a família para o condomínio onde eu morava com meus pais, antes
mesmos deles se separarem. A partir daí, eu e a Malu, a irmã dele, nos tornamos
amigas inseparáveis.
Quando
eu tinha doze anos, fiquei com ele pela primeira vez. Ela já tinha seus
dezesseis anos, e era o garoto popular da escola. Só que Otávio, precisou se
mudar para o Canadá logo que terminou a faculdade, pois conseguiu um emprego
irrecusável em Vancouver, onde era cientista da computação. Mas ele vivia dizendo
que quando eu me formasse, nós nos casaríamos e eu iria embora com ele.
Eu
morria de medo disso acontecer, pois eu não tinha certeza se aguentaria morar
longe das pessoas que eu amava. E principalmente tinha minhas dúvidas em
relação a morar com ele, pois ele era extremamente ciumento e controlador, que
chegava a me sufocar. Mesmo morando tão longe ele conseguia controlar todos os
meus passos. Tanto que se opôs totalmente em eu viajar com minha mãe e com meus
tios, já que nesse cruzeiro iria um primo meu o qual Otávio morria de ciúmes
sem motivo algum. Então depois de tantas discussões por telefone e por
mensagens, eu acabei desistindo de aproveitar minhas férias. Estaria fadada a
passar vários dias sozinha, apenas para não ferir o ego dele e não perder a
minha paz.
-Bom
Alice, estamos na primeira semana de janeiro, você sabe que voltarei apenas em fevereiro,
e logo depois começam suas aulas. Tem certeza que vale a pena sacrificar um mês
de férias com sua família por alguém que nem está aqui com você?
Fiquei
em silêncio. É claro que ela estava certa, mas eu não conseguia argumentar com
meu namorado e sempre acabava fazendo os desejos dele.
...
No
outro dia pela manhã, levei minha mãe até o aeroporto, onde de lá ela iria para
a casa dos meus tios e somente no final de semana eles embarcariam na grande
viagem.
Quando
voltei para o apartamento que estava totalmente vazio, senti um aperto no coração.
Eu odiava toda vez que o Otávio brigava comigo, pois além de fazer o que ele
queria, ele me dava um gelo com forma de punição. E isso me deixava com a
sensação de impotência diante da minha própria vida.
Almocei
um lanche frio e comecei a ler um livro de Kafka. No final daquela tarde de
quarta-feira, meu celular tocou, era a Malu.
-Alice,
que saudades de você, onde você está?
-Malu,
quanto tempo! Eu disse sentindo-me animada.
-Muito
tempo, mas estou na cidade, já estou de férias graças a Deus! Ela disse
vibrando.
Malu
estava fazendo o curso de arquitetura, por isso estava morando em Laguna. Então
nos víamos algumas vezes por mês, quando ela voltava para Curitiba.
-Você
está em seu apartamento? Posso ir até aí?
Estou cheia de novidades para lhe contar.
-Claro
que sim. Respondi empolgada, pelo menos era certo que Malu não iria me deixar
na solidão.
Uma
hora depois, Malu já estava esparramada em meu sofá, me contando sobre os novos
amigos dela. Confesso que me senti enciumada, pois ela estava toda empolgada
com as novas amizades.
-Ah,
e o melhor, você não sabe! Ela disse vibrando,
Eu
revirei os olhos.
-A
Paula namora o Guilherme, que é amigo de um tal de Bruno Moretto. E esse Bruno tem uma casa em uma praia
particular em Bombinhas. Eles vão com uns amigos; umas quinze pessoas mais ou
menos, e irão ficar um mês nessa casa. E ela me convidou, e adivinha? Eu
aceitei.
-Sério?
Você vai? Perguntei fazendo cara de decepção.
-Nossa
amiga, por que essa cara?
-Não,
Malu, não é nada. Fiquei feliz por você. Menti.
-Só
aceitei ir, porque eu sei que nesse final de semana você tem aquela viagem com
sua mãe, então, o que eu faria aqui sem você?
-Claro,
você tem que ir sim, e aproveitar, você merece. Mas quanto a mim, eu desisti do
cruzeiro.
Malu
arregalou os olhos e sentou-se para me olhar melhor.
-Como
assim desistiu, por quê? Sua mãe não vai mais? Você estava toda empolgada.
Eu
suspirei, tinha certeza que assim que a Malu soubesse, ela teria vontade de me
matar.
-Pois
é, eu estava e muito. Mas você conhece seu irmão, não conhece? Ele simplesmente
fez um inferno quando eu disse que iria. Ficou dias me pilhando, até que eu
desisti. Mas minha mãe já foi para a casa da minha tia hoje pela manhã e eles
partem no final de semana.
Malu
começou a rir descrente.
-Você
só pode estar de brincadeira! Fala sério, Alice?
Eu
apenas concordei com a cabeça, toda sem graça.
-Cara,
como meu irmão é um ignorante. Não! Não pode ser! Nós não viemos da mesma
barriga! Não tem explicação.
Malu
levantou-se, andou pela minha sala e depois veio em minha direção.
-Alice,
eu não acredito que você desistiu de uma viagem pela Europa, que estava paga,
por causa de ciúmes do tolo do Otávio, que por sinal está morando do outro lado
do mundo. Como assim, amiga?
-Nem
me fala. Mas o Otávio é impossível, você sabe Malu, quando ele coloca uma coisa
na cabeça, ele não desiste, ele achou um absurdo eu ficar quase um mês presa em
um navio, com um cara que ele detesta, sendo que é o meu primo, não tem nem o
porquê ele sentir ciúmes.
-Alice,
você sabe que o Otávio vai apresentar o novo projeto deles amanhã à noite, e
depois eles terão uma festa na qual eles serão homenageados, e na próxima
semana eles viajarão para os Estados Unidos, depois para a Ásia para divulgar o
projeto. Ou seja, todos esses dias, ele estará totalmente ocupado e isso
implica que ele pouco terá tempo de falar com você. Então pensa bem, você acha
que vale a pena você se anular por causa dele?
Eu
não disse nada, pois Malu estava mais do que certa.
-Ah,
tive uma ideia. Ela disse dando-me um sorriso.
Eu
olhei para ela espantada.
-E
se você for viajar comigo. Seria maravilhoso! E nesse caso o Otávio não teria o
que falar, afinal, você estará na companhia da irmã dele. Ela disse dando uma
piscadinha.
-Você
está louca? Imagina ele ficar sabendo que eu viajei com um bando de pessoas das
quais eu nem conheço.
-Alice,
você estará comigo, ele não pode falar nada. Por favor, por favor, por favor!
Ela disse fazendo biquinho.
Confesso
que não achei uma ideia tão ruim.
-Eu
ligo para a Paula, mas acredito que não teria nenhum problema.
-Tá,
eu prometo que vou pensar.
Malu
começou a dar pulinhos e veio em minha direção me dar um beijo no rosto.
Em
seguida ela ligou para a tal da Paula, mas nesse caso ela teria que ligar para
o Bruno, o dono da casa. Então ela ligaria mais à noite. Mas no fundo essa
hipótese estava fora de cogitação. Se Otávio criou caso quando eu disse que
viajaria com minha mãe, com certeza quando ele soubesse que eu viajaria para
uma casa na praia, por um mês, cheia de amigos da Malu, ele me mataria.
Malu
foi embora já era bem tarde da noite, tentou ligar várias vezes para Bruno, mas
ele não atendia. Eu queria falar para ela deixar quieto, que não daria certo,
mas a empolgação dela era tamanha que fiquei sem coragem. Mas no dia seguinte
eu falaria com ela, que a ideia dela era fora de alcance para mim.
2
E
se eu fosse?
Eu
não conseguia dormir, já passava das duas da manhã, então peguei meu celular e
liguei para o Otávio, ele não atendeu. Liguei novamente, e mais uma vez ele não
atendeu.
No
dia seguinte liguei para a minha mãe. Ela ainda estava dormindo, pois tinham
ficado até tarde da madrugada comemorando o aniversário de um tio meu.
-Alô!
Disse ela quase sem voz.
-Mãe,
acordei você? Me desculpa, mas já está tarde. Eu disse olhando para meu relógio
que marcava quase dez horas da manhã.
-Filha,
estou de ressaca. Ontem nós saímos para beber para comemorar o aniversário do
tio Beto, e chegamos já era quase dia.
-Nossa,
quanta animação. Eu disse sentindo uma pontada de ciúmes.
-Mas
e você, o que ficou fazendo ontem? Ela disse entre uma bocejada e outra.
-A
Malu veio aqui, ficamos colocando a conversa em dia, ela até me convidou para
passar uns dias, em uma casa de praia, com uns amigos dela. Ela ficou louca
quando soube que eu desisti do cruzeiro.
-Só
você mesmo para desistir de um cruzeiro por causa daquele bostinha. Mas que
viagem é essa?
-Eu
não sei ao certo mãe, só sei que são uns amigos da faculdade da Malu. Eles irão
no sábado para Bombinhas e ficarão lá durante as férias. A casa é do filho de
um juiz, não sei ao certo.
-Filha,
por que você não vai? Aproveita Alice, você só tem dezenove anos. Afinal de contas, você estará com a irmã do
seu namorado, acredito que ele não vá criar empecilho com isso. Bom, se bem que
ele é um chute no saco, mas mesmo assim, lembre-se que os próximos dias dele
será bem agitado. Ele não terá tempo para você. Tenho certeza que ficará dias
sem te ligar, principalmente por que sabe que você mais uma vez fez o que ele
queria.
-Mãe,
não é bem assim. Eu vou tentar falar com ele sobre isso, quem sabe.
Minha
mãe bocejou novamente.
-Filha,
você quem sabe. Mas eu preciso de mais alguns minutos de sono, depois ligo para
você.
Eu
sorri.
-Falo
com você depois, mãe. Te amo.
-Tchau
Alice, também amo você. Disse ela desligando em seguida.
Eu
fiquei pensando na ideia de Malu, que estava bem tentadora. Após o almoço tocou
meu celular.
-Oi
meu amor. Disse Otávio.
-Oi,
com você está? Liguei ontem para você, você não atendeu, fiquei preocupada.
-Eu
vi hoje pela manhã. Alice, você não acredita, ontem à noite eles prepararam uma
grande recepção para minha equipe, estava tudo perfeito, você precisava ver. E
com isso nem escutei meu celular tocar.
-Ah,
sem problema. Eu disse chateada.
-E
sua mãe já viajou?
-Já,
ela foi ontem pela manhã, mas ainda não embarcou, ela foi antes para comemorar
o aniversário do meu tio.
-É
melhor assim. Obrigado amor, eu sabia que você não me decepcionaria. Ele disse
convicto.
Eu
me senti diminuída nesse momento. Ele vibrando com o modo que a vida dele
estava despontando e eu cada vez mais sozinha e sem amigos.
-Eu
preciso desligar agora, mais tarde ligo pra você. Ele disse parecendo
satisfeito.
-Tudo
bem Otávio, eu espero.
-Amo
você minha pequena. Ele falou desligando em seguida.
Mais
tarde Malu chegou em meu apartamento toda eufórica.
-Amiga,
o Bruno me ligou ontem já era bem tarde. Você não faz ideia da voz linda que
ele tem, sem contar que ele é muito legal, ficamos nos falando por horas, e ele
me disse que sem problemas levar você.
-Ah,
legal.
-Legal?
Como assim? Você não vai me deixar na mão, vai?
-Malu,
é complicado, você sabe.
-Já
chega Alice. Para de ser boba e submissa. O Otávio está fazendo sabe-se lá o quê!
Tudo bem que ele rala e muito e que ele ama você loucamente. Mas e a confiança?
Se ele te ama, precisa confiar em você. Então ergue essa cabeça e vamos arrumar
sua mala.
Me
vi entre a cruz e a espada, sem saber o que fazer.

Adorandooooo
ResponderExcluirMuito bom...ansiosa pela próxima parte...
ResponderExcluirJá deu 0:00...posta mais...amando
ResponderExcluirUauuu!!!! Adorei, ou melhor, adorando! Parabéns. Beijos, Ligia
ResponderExcluirSua história é legal e vc escreve bem, Erica. Parabéns, vou continuar lendo...
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