" Recomeços "
Parte 13
24
A casa nas montanhas
Acordei no outro dia, já passava das dez horas da manhã. Todos os meus
músculos e ossos doíam, não sabia se era por ter dirigido sem parar por seis
horas, ou se era a friagem que eu tomei quando cheguei, ou então o resumo dos
meus últimos dias. Minha vontade era de nunca mais sair daquela cama. E eu
apenas obedeci meu corpo e dormi mais algumas horas.
Levantei cerca de duas horas da tarde, tomei um banho e desci para comer
alguma coisa. Decidi ir até o café do André, pois precisava falar
com ele.
André não estava no café, pelo menos não que eu tivesse visto. Pedi um chá de frutas vermelhas e
uma torta. Não sabia o quanto estava com fome até começar a comer. Quando
estava limpando o um prato com o garfo, aproveitando o último vestígio de
ricota, André apareceu, ficando surpreso ao me ver.
-Alice! Ele exclamou. -A quanto tempo você está aqui? Ele perguntou vindo em minha direção.
Seu semblante mudou instantaneamente, parecendo mais feliz por eu estar ali.
Levantei-me e nos abraçamos em seguida.
-Não posso acreditar que você voltou! Como eu senti sua falta, você
não faz ideia. Continuou André.
Eu me afastei dele, sentindo-me sem graça.
-Pois é, acabei parando aqui novamente. E eu vim até aqui justamente
para falar com você.
Ele me olhou desconfiado.
-Aconteceu alguma coisa?
-Não, é que eu queria que você me ajudasse, eu pretendo ficar algum
tempo por aqui. Não sei ao certo por quanto tempo. Mas eu pretendo me instalar
por aqui, por, sei lá, meses talvez, ainda não sei.
André abriu um sorriso como se eu tivesse dado a ele a melhor notícia.
-E eu queria saber se você me ajuda a arrumar algum lugar, preciso de
um lugar tranquilo, onde eu possa escrever, pois eu preciso mandar minhas
matérias semanalmente para a revista e ainda terminar meu livro. Então preciso
de um lugar tranquilo e calmo para me inspirar e me concentrar.
-Mas e o hotel? Eu posso arrumar o melhor quarto para você.
-Eu sei disso, mas eu quero um canto para mim, um lugarzinho meu, com as
minhas coisas, sei lá, me sentir em casa.
Ele concordou ficando pensativo. Em seguida pediu um chá para ele e
outro para mim.
-Eu pensei em algo como um chalé, uma cabana, sei lá. Em meio à
natureza. Se caso souber de alguma coisa.
-Eu até conheço um lugar, mas eu preciso ligar para os donos e ver se
eles estão dispostos a alugar. O lugar é lindo, é incrível, tomara que dê
certo.
-Jura? Mal posso esperar. E olha, não se preocupe com o valor, se o
lugar realmente valer a pena, não me importo em pagar a mais.
-Se eles aceitarem, com certeza o lugar valerá a pena. Eu vou ligar para
eles; eles não são da cidade, mas assim que tiver uma posição aviso você com
certeza.
Nosso chá chegou e nós brindamos ao possível lugar.
-Bom, mas então eu suponho que você e seu ex-marido optaram pelo
divórcio.
-Na verdade nós não nos vimos e nem nos falamos mais. Mas é o que tudo
indica, os advogados dele irão entrar em contato comigo em breve, mas é como eu
lhe disse, eu não sei quanto tempo irei ficar, mas por enquanto é aqui que eu
estar.
André sorriu novamente parecendo mais do que satisfeito.
Nós conversamos sobre as filhas dele que foram embora no final de
semana, eu disse a ele algumas coisas sobre minha semana em Florianópolis e em
Curitiba. Mas eu não me sentia à vontade para dizer coisas para André como o
João Pedro ter saído com outra garota, ou sei lá, sobre o que a Mariah me disse
sobre o Pedro.
André me convidou para sairmos à noite, mas eu recusei o convite,
alegando que estava cansada da viagem e precisava descansar. Ele ficou
chateado, mas não insistiu. Voltei para
o hotel e comecei a escrever um pouco, estava com algumas ideias para um novo
livro, deixando de lado o anterior que ainda nem havia acabado.
Fiquei algumas horas escrevendo, e quando vi, já passava das nove horas
da noite. Tomei um banho e caí na cama, realmente cansada, mas quem disse que
eu conseguia dormir. Não, não conseguia, rolava de um lado para o outro,
pensando em João Pedro, imaginando ele naquela boate, no que teria acontecido
de tivéssemos conversado, talvez teríamos voltado, ou teríamos discutido mais
uma vez, mas isso era algo do qual eu nunca saberia, pois ele preferiu me
evitar, assim como fez no escritório.
Peguei uma caixa que tinha levado comigo e comecei a retirar retratos
antigos, retratos da época em que nos conhecemos na praia, da época do nosso
começo de namoro, do nosso casamento, quando eu estava grávida e de quando
Pedro nasceu. Fiquei passando meu dedo sobre o rostinho de Pedro, que era como
uma porcelana. Senti um nó preso em minha garganta e instantaneamente minhas
lágrimas começaram a cair. Havia fotos de nós três em nossa cama, brincando no
jardim, do João e do Pedro na piscina, enfim, eram inúmeras delas, e cada
carregava uma história diferente.
Me vi ali, naquele hotel, vendo todas aquelas fotos e totalmente
sozinha, percebi o quanto eu estava infeliz e incompleta, minha vida estava
fragmentada e eu sabia que nunca mais seria como antes.
No dia seguinte, acordei agarrada a uma foto do Pedro, e eu sorri ao ver
aquele sorriso dele para mim. Algum tempo depois, desci para tomar café da
manhã e André estava me esperando todo animado.
-Alice, deu certo! Podemos ir hoje mesmo ver a casa, se você quiser.
Só depois de alguns segundos absorvi sobre o que ele dizia.
-Ah, sério? Sim, eu quero muito conhecê-la.
-Só precisa de alguns retoques, afinal a casa está vazia a algum tempo,
mas você vai gostar. Antes de vir para cá, passei de lá, abri toda a casa, e
assim que você puder, eu levo você.
Eu dei o melhor sorriso que eu pude a ele.
-Nem sei como lhe agradecer, me diga você que horas estará disponível e
nós iremos.
-A hora que você quiser. Ele me disse retribuindo-me o sorriso.
Sentamos para tomar café, e ele me disse sobre algumas melhorias que
precisaria fazer na casa, mas coisa simples, tipo em uma semana já estaria tudo
pronto.
Após o café da manhã, André saiu para resolver alguns assuntos do hotel
e combinamos de nos encontrarmos no café.
Por volta das dez horas da manhã eu fui até o café e de lá seguimos na
caminhonete de André até a casa. Andamos alguns quilômetros e logo saímos da
cidade. Passamos por alguns caminhos com diversas cabanas nas montanhas, e em
cada uma delas, eu achava que era a tal casa, estava mais do que ansiosa. Cerca
de vinte minutos depois de estrada, André adentrou em um caminho, onde só se
viam árvores e muitas flores. Então eu avistei de longe uma cerca toda
branquinha. Ele parou o carro em frente e abriu o portãozinho. Então eu a vi e
foi amor à primeira vista. Meus lábios denunciaram toda a alegria que eu senti
naquele momento, com o largo sorriso que eu dei. Era uma casa toda feita em
madeira, com alguns detalhes em pedras, nos pilares de uma charmosa escada. Não
era bem uma cabana como eu pretendia era uma casa, e linda por sinal, bem no
estilo de casa de montanha. Uma área rodeava toda a casa, e havia painéis de
vidro que certamente era possível ver toda a vegetação de dentro da casa. O
jardim era perfeito, bem cuidado e ficava entre o caminho que nos levava até a
casa.

Olhei para André desconfiada.
-Tem certeza que ninguém mora aqui? É tudo tão bem cuidado. Eu disse
apontando para o jardim.
-Tenho, essa casa é de um casal, eles dizem não estar mais na idade de
morar longe da cidade, estão bem velhos, então preferem morar onde tem tudo por
perto.
Eu concordei e então chegamos até a área.
-Estou encantada André, é perfeita. Eu disse sem ao menos entrar. A casa
era toda rústica de madeira e pedra, toda decorada com móveis de época. Na
sala, havia um sofá claro que estava com um lençol branco por cima, uma cadeira
de balanço no canto da sala ao lado de uma mesinha cheia de livros, o que me
deixou maravilhada. Na lareira, havia uma prateleira feita com as próprias
pedras, onde havia alguns enfeites e um belo quadro um pouco mais acima. A
televisão ficava na parede ao lado, acoplada em um painel rústico, porém extremamente
elegante. No outro canto da sala, tinha uma mesa redonda com quatro cadeiras e
um aparador ao lado também feito de madeira rústica. E de onde estávamos, era
possível ver toda a parte externa, com vista para todo o jardim e a vegetação
que cercava a casa.
Fomos até a cozinha, que era linda e pequenina, toda em madeira. Tinha
apenas a pia, o armário embutido, geladeira e o fogão na ilha, onde saia o
balcão para as refeições.
-Vem aqui, você vai amar esse lugar. Disse André pegando em minha mão e me
guiando para o andar de cima.
O quarto de casal era um doce, como a cama com dossel, um gaveteiro
enorme ao lado, com um abajur todo decorado sobre ele. E da cama também era
possível ver toda a vegetação do lado de fora, através dos painéis de vidro. O banheiro
do quarto tinha uma banheira bem em frente a um dos painéis, onde na hora do
banho você tinha aquela vista de presente.
-Nossa estou sem palavras, pedi ajuda a pessoa certa, hein?
-Que bom que gostou. Ele disse ficando corado.
Eu desconfiei mais uma vez, pois ele era muito ambientado naquela casa,
era como se ele conhecesse aquele lugar como ninguém.
Fomos a um quarto onde havia uma cama de solteiro entre duas paredes
cheia de prateleiras de livros.
Eu ri alto. Aquilo era um sonho de consumo para quem gostava de ler.
-Uauuu, que tudo esse lugar! Eu disse parecendo uma criança em um parque
de diversões.
-Agora o melhor. Disse André me apontando para um enorme biombo que
ficava nesse mesmo quarto.
Olhei para ele curiosa e então ele tampou meus olhos com as mãos e me
guiou para a tal surpresa.
Quando André tirou as mãos dos meus olhos, não acreditei no que vi. Uma
espécie de escrivaninha em V no canto do quarto, todo em madeira rústica, com
painéis de vidro que iam da altura da escrivaninha até o teto, e eu me imaginei
sentada ali, escrevendo admirando toda aquela montanha.

-Você só pode estar de brincadeira comigo. Eu disse olhando atônita para
ele.
-Quando você me disse que queria um lugar tranquilo para escrever,
pensei na hora neste ambiente Alice, sabia que você gostaria.
Eu o olhei pensativa, depois do que ele disse, tive certeza que ele
conhecia muito bem aquele lugar.
-André, por acaso essa casa é sua?
-Não, claro que não. De onde você tirou essa ideia? Ele me perguntou
surpreso.
-Não sei, de repente você e sua família moravam aqui, ou passavam os
finais de semana aqui. Você parece tão ambientado com esse lugar.
André passou a mão em seu cabelo e em seguida virou ficando de costas
para mim. Senti um certo desconforto, talvez eu estivesse sendo mal-agradecida,
ou egoísta, mas eu não estava falando por mal. Simplesmente não iria me sentir
à vontade em uma casa onde ele morava com a esposa dele.
-Alice, os proprietários dessa casa nunca moraram aqui. Eles vinham
apenas passar as férias. Mas eles são pessoas com uma certa idade, e não se
sentem mais confiantes em ficar longe da cidade. A proprietária por exemplo tem
alguns probleminhas de saúde e prefere não correr o risco de ficar longe do
médico de confiança dela. Então a casa fica abondada. Eles até conheceram sim a
Valentina, mas essa casa não é minha, e sendo assim eu nunca morei aqui com
minha família. Só quis ajudar você. Quando você me perguntou sobre um lugar
tranquilo para ficar, na hora pensei nesse lugar, mas eu não tinha certeza se
eles alugariam. Só decidiram alugar porque disse a eles que você iria passar
uns tempos aqui e que era escritora e precisava de um lugar tranquilo. Mas
logicamente que é você quem tem que escolher o lugar ideal para você ficar.
Essa casa é apenas uma sugestão. Você não precisa aceitar ficar aqui somente
porque fui eu quem disse a você.
-Não André, eu amei esse lugar. Ele superou todas as minhas
expectativas. Eu só perguntei, porque você conhece a casa como ninguém.
-Eles são meus amigos e não conhecem mais ninguém por aqui, por isso eu
que me ofereci em de vez em quando mandar alguém para cuidar da casa, do
jardim. Por isso que eu conheço a casa.
-Nesse caso me desculpe por ter tocado nesse assunto. E só tenho que lhe
agradecer por ter feito com que eles aceitassem me alugar a casa.
André balançou a cabeça e não disse mais nada.
-Você acha melhor eu mesma falar com eles para fechar o negócio?
-Pode ser! Eu passo te passo o número deles e você mesmo conversa com
eles. Ou se preferir eu posso intermediar, você quem sabe.
-Eu só não quero incomodar você.
-Não será incomodo. Vamos para o café e de lá nós ligamos para eles e já
resolvemos isso.
Eu euforicamente concordei.
Voltamos para o café e fomos direto para o escritório de André, que era
mais organizado do que eu imaginava.
André ligou para o tal casal. Seu Raul atendeu o telefone e André
parecia bem próximo dele. Algum tempo depois eu mesma falei com Sr. Raul e
expliquei que eu era escritora e estava passando uns tempos na cidade, mas
precisava de um lugar tranquilo. Sr. Raul não entrou em detalhes, mas me disse
que a casa realmente não estava disponível para alugar, mas por ser uma
indicação do André, eles abririam uma exceção e também assim a casa ganharia um
pouco de vida, em quanto eu estivesse lá.
Nós acertamos o valor do aluguel, e Sr. Raul me pediu apenas alguns
dias, onde mandaria alguém para cuidar do jardim, verificar as instalações
elétricas e para se certificar se tudo estava funcionando corretamente. Eu
logicamente concordei e o agradeci várias vezes pela confiança.
Naquela noite eu e André ficamos até tarde no café, onde comemoramos meu
novo lar. Quando voltamos para o hotel, André levou-me até a porta do meu
quarto.
Assim que abri a porta, André inclinou-se e beijou meu rosto.
-Estou louco para beijar você, Alice.
-André, não! Eu não posso fazer isso novamente sem ao menos ter
resolvido de uma vez por todas a minha situação. Afinal, eu ainda estou casada
legalmente. E sendo assim, não posso sair beijando você ou qualquer outra
pessoa, não é certo.
-Mas eu ainda tenho chance? Quer dizer, quando seu divórcio sair, eu vou
poder beijar você?
Eu sorri sem saber o que dizer.
-Boa noite André. Eu disse entrando em seguida, sem dar a ele resposta
alguma.
Minutos depois meu celular vibrou. Era uma mensagem de André.
Não ter resposta alguma é melhor do que um Não!
Beijos e boa noite
André.
...
Passei uma semana acompanhando de perto as revisões que estavam sendo
feitas na casa. Sr. Raul fez questão de que as madeiras fossem envernizadas,
mesmo sem precisar aparentemente. Um paisagista foi mandado para cuidar do
jardim, que já era infinitamente bonito. Foram feitas revisões nos encanamentos
e nas instalações elétricas. E cada canto da casa foi dedetizado.
Eu me
via cada vez mais ansiosa para me instalar na nova casa, e aqueles dias foram
muito importantes, pois me fizeram esquecer minhas dores, pelo menos por alguns
momentos.
André
estava todo o momento o meu lado, aliás, era ele quem contratava cada pessoa
que estava trabalhando na casa.
Estávamos
na segunda semana de novembro, e no final de semana a casa estava pronta para
ser habitada novamente, não que antes não tivesse. Eu e André tiramos minhas
coisas do hotel, e quando fui fechar minha conta, descobri que não devia nada,
o que gerou uma discussão, afinal, passei mais de uma semana instalada ali e
ele não quis receber de jeito nenhum centavo, e eu não achava aquilo certo.
Depois de muita discussão, fomos para a casa que seria minha pelo menos por
algum tempo. Assim que cheguei lá, percebi que ele parecia chateado, afinal, eu
não estaria mais com ele todas as manhãs durante o café da manhã.
-Prontinho!
Devidamente instalada. Disse ele ao colocar minha última mala dentro da sala.
-Pois é!
Eu disse suspirando fundo. –Agora é só organizar minhas coisas e principalmente
minha vida.
-Você
vai ficar bem? Ele me perguntou apreensivo.
-Eu
estou bem, não se preocupe. Mais tarde eu pretendo sair para comprar umas
coisas, vou ao supermercado, quero comprar umas flores, sei lá, deixar a casa
com cara de minha.
-Se você
quiser posso ir com você.
-Não, já
abusei demais do seu tempo. E além do mais adoro ir às compras.
Eu disse
esquivando-me, pois na verdade eu precisava ficar sozinha em meu novo canto.
Ele
concordou maneando a cabeça.
-Bom,
então vou voltar para o hotel, tem um pessoal chegando de São Paulo, e eu
preciso verificar se está tudo certo, mas se precisar de alguma coisa, é só me
ligar. Ele disse compassivo.
-Pode
deixar, qualquer coisa eu grito.
André se
aproximou de mim e me abraçou em seguida. Senti minhas pernas bambearem com a
proximidade dele.
-Vou
sentir sua falta, sabia? Ele disse quase em sussurro.
-Eu
também, mas não se preocupe, aparecerei todos os dias, e você também pode vir
me visitar sempre que quiser.
Ele
sorriu e instantes foi embora.
Quando
voltei novamente para dentro da casa, olhei ao meu redor, e ao mesmo tempo que
senti alívio em ter um novo canto só para mim, da maneira que eu queria, também
me senti totalmente insegura em me ver naquele lugar totalmente sozinha.
Fui até
meu novo quarto que ficava no andar de cima e organizei todas as minhas coisas.
Em seguida fui para meu novo escritório com vista para as montanhas, onde
coloquei meu notebook, minha impressora e vários porta-retratos do Pedro,
inclusive o último desenho que ele fez sobre a nossa família. Sentei-me e fiquei imaginando o quanto Pedro
iria amar estar naquele lugar.
Depois
de enfim organizar minhas coisas, que não eram muitas, fui até o meu carro e
dirigi até o centro da cidade, onde comprei roupas de cama, mesa e banho. Comprei também algumas decorações para minha
sala; queria dar mais cor e vida para ela; comprei várias velas decorativas e
aromatizadas; alguns vasos de flores naturais; incensos, almofadas e manta para
meu sofá. Em seguida fui até o supermercado e comprei tudo o que precisava para
abastecer a dispensa.
Voltei
novamente para a casa e passei a tarde toda organizando a dispensa, colocando
as novas roupas de cama, decorando minha nova sala e espalhando as velas
aromatizadas tanto na sala, quanto no banheiro ao redor da banheira, e em meu
quarto. Arrumei meus vasos de flores na janela da cozinha e na sacada do meu
quarto.
Quando
já estava anoitecendo, finalmente tomei um bom banho de banheira, onde
conseguia observar toda a paisagem verde do lado de fora. Mais tarde, preparei
algo para comer e quando estava colocando as louças na lava louça, meu celular
tocou, era o André me convidando para sairmos para jantar. Mas eu estava
realmente cansada, então acabei recusando o convite dele. Na verdade, eu sabia
que André esperava que eu o convidasse para jantar comigo em minha nova casa,
mas eu não o fiz.
Deitei em
minha cama afim de relaxar, mas eu não conseguia parar de pensar em Pedro, no
quanto eu queria que ele estivesse ali comigo, no quanto eu queria preparar um
chocolate quente para ele, do jeito que ele mais gostava. Meu coração chegava a
doer de tanta tristeza. Também comecei a pensar em João, em como e onde ele
estaria naquela noite de sábado, e se ele estava acompanhado ou não. Assim,
depois de chorar por horas, acabei pegando no sono.
No dia
seguinte, acordei assustada após ouvir o barulho de um carro parando perto da
casa. Desci as escadas rapidamente e ao abrir a porta da sala não vi ninguém.
Mas havia uma enorme cesta de vime embrulhada em um celofane transparente, com
um enorme laço e um cartão.
Peguei a
cesta e comecei a rir sozinha ao ver um lindo vaso de orquídeas e um café da
manhã completo. Fui para a cozinha e sentei-me em frente ao balcão, e em
seguida abri o cartão que dizia:
-Bom dia Alice! Senti sua falta nessa manhã. Espero que tenha
tido uma primeira noite tranquila em sua nova casa. Gostaria de ver você o mais
breve possível.
Com carinho, André
Fiquei
paralisada pensando na atitude de André. Eu gostava de ser paparicada por ele,
mas não queria alimentar nenhum tipo de sentimento. Peguei meu celular e
digitei uma mensagem para ele em seguida.
-Bom dia André. Obrigada pela linda cesta de café da manhã.
Você como sempre é muito atencioso. E sim, tive uma noite em paz e tranquila.
Alice.
Tomei
meu café da manhã, me arrumei, arrumei meu quarto e em seguida fui até meu
escritório onde passei horas escrevendo para minha nova coluna na revista.
Depois de terminada, enviei a matéria para a Fabi, que analisaria o conteúdo e
publicaria no final da semana posterior.
Naquela
tarde liguei para Malu e contei cada detalhe da minha nova casa, e ela
logicamente achou um absurdo eu estar morando tão longe de tudo e de todos, no
meio do nada e isolada numa cabana. Eu não perguntei nada a ela de João Pedro,
e nem ela me disse. Em seguida liguei para minha mãe, que parecia feliz em me
ver mais animada.
Começou
a escurecer e eu estava me sentindo totalmente entediada sem ninguém para
conversar. Tomei um banho e me arrumei e poucos minutos depois estava sentada
em uma igreja esperando a missa começar. Assim que a missa terminou, dirigi até
o café de André, e assim que entrei, o vi conversando animadamente com um grupo
de pessoas, com muito mais mulheres do que homens, e todas pareciam
enfeitiçadas por ele. André não me viu, mas Silvinha me atendeu em seguida.
Apenas
pedi uma bebida, paguei e quando estava saindo do café, Silvinha me avisou que
ia chamar o André, pois ele não tinha me visto. Disse a ela que não precisava,
pois eu estava com um pouco de pressa, e fui embora.
Dei uma
volta pela cidade, sem ter onde ir e com quem conversar. Parei em um
restaurante japonês e acabei jantando sozinha.
Algum
tempo depois voltei para casa e vi o carro de André parado em frente ao portão
de madeira. Saí do carro e ele estava parado, sentado no banco de madeira em
minha área.
-Onde
você estava? Estou aqui há horas. Ele disse chateado.
-Eu
estava jantando. Não sabia que você viria. Eu falei despretensiosamente.
-Por que
você não me esperou no café, quando a Silvinha me avisou, fui atrás de você,
mas você já tinha saído.
-André,
você estava ocupado, eu só queria dar um oi. Mas não era nada importante, nada
que não pudesse esperar.
-Alice,
você é importante. Falar com você é importante para mim, e eu fiquei
extremamente magoado, pois desde ontem queria ver você, e quando você resolve
ir até lá, você simplesmente decide não me chamar.
-Já
disse que não quis atrapalhar, mas me desculpa se magoei você. Eu disse dando
de ombros e abrindo a porta da sala.
Ele não
entrou, e continuou sentado olhando para o nada. Assim que liguei todas as luzes,
voltei para área e vi que ele não estava mais sentado no banco. Fui até o lado
de fora e vi o carro dele saindo em seguida.
Tentei
ligar para ele algumas vezes, mas ele não me atendeu. Não sabia o que tinha
feito que o deixou tão irritado, mas desisti de falar com ele e logo fui me
deitar.
Uma
semana se passou. Eu realmente tinha encontrado a paz da qual necessitava para
poder escrever, aliás que era tanta paz, me às vezes me dava até desespero de
tanta solidão.
As
únicas pessoas com quem eu conversa era com a Malu e com minha mãe. Passei o
final de semana respondendo e-mails das minhas leitoras, já que a revista tinha
saído na sexta-feira, com a minha primeira matéria sobre relacionamentos e seus
desacertos.
A
maioria dos e-mails que recebi, contavam sobre experiências em que mulheres
largavam quase tudo e no final, não dava certo. Muitas delas desabafavam,
outras pediam conselhos, e eu me vi desesperada, pois como eu aconselharia
alguém sobre um relacionamento, se nem eu mesmo conseguia dar uma direção ao
meu.
Liguei
para Fabi e desabafei com ela, pois não queria me tornar uma conselheira
amorosa. Queria sim escrever minhas matérias, mas sem precisar dar conselhos
sobre o que fazer. Fabi me parabenizou, afinal minha matéria estava dando mais
retorno do que ela imaginava. E pediu que eu continuasse nessa linha de
pensamento, e não me importasse tanto com os e-mails.
Escrevi
e enviei a ela outra matéria, dessa vez com o tema: Quando um relacionamento
termina e você decide começar uma nova vida, isso implica que você está fugindo
do seu amor, ou você está tentando esquecer o que passou e seguir em frente?
Na
verdade, escrevi essa matéria baseada em mim, pois assim quem sabe, minhas
leitoras me ajudariam a enxergar o que estava acontecendo comigo. Afinal, eu
não sabia ao certo se estava tentando esquecer do João Pedro, ou se
simplesmente estava fugindo do amor que ainda sentia por ele. Mandei a matéria
para Fabi, que seria publicada apenas no próximo final de semana.
Outra
semana se passou sem que eu tivesse notícias do João Pedro e de André, que não
tinha me ligado mais, desde a noite que eu estive no café e não esperei por
ele. Eu me sentia mal com isso, pois André era uma pessoa que me ajudava muito,
aliás, eu devia a ele a casa onde eu estava.
25
Caro leitor
Uns dias
antes da ceia, íamos para Bombinhas na casa de praia onde eu e João nos conhecemos,
e lá passávamos tanto a ceia de Natal como a de Ano Novo. Mas dessa vez tudo
seria diferente. Eu estava sozinha, sem minha família e sem nenhuma perspectiva
do que fazer. Aliás, nenhum Natal no mundo teria sentido sem meu filho ao meu
lado.
Vaguei
pelas ruas de São Joaquim a esmo, sem ao menos me lembrar no que eu tinha ido
fazer ali. Voltei para minha casa em questão de minutos e corri para meu
quarto, onde havia guardado a caixa de fotos cheias de recordações do Pedro.
Vi
várias fotos das ceias de Natal passadas, desde o primeiro Natal de Pedro, a
felicidade minha e do João Pedro, assim como de Maria Helena e Zé Pedro era
gritante.
Estava
sentindo-me estraçalhada por dentro ao ver as fotos e relembrar daquela época
tão feliz. A felicidade era tão grande, que eu achava que aqueles momentos
seriam eternos. Mas a vida me deu uma rasteira, da qual estava sendo difícil me
reerguer e seguir em frente. Doía demais começar uma nova vida, depois de ter
sido tão feliz, e ter perdido tudo em tão pouco tempo.
Passei a
tarde toda de sábado entregue as minhas lágrimas. Já não aguentava mais ficar
dentro daquele quarto, então no final da tarde finalmente resolvi finalmente
sair um pouco para correr. Corri por duas horas, mais ou menos e passei por
perto do café de André, onde o vi de longe chegando em sua caminhonete, pensei
em parar, mas não tive coragem.
Voltei
para casa já estava escuro, tomei um banho e liguei para Malu.
Conversamos
de tudo um pouco, mas eu percebi que Malu parecia diferente, era como se algo
estivesse a incomodando.
-Malu,
aconteceu alguma coisa? Você está diferente.
-Não,
claro que não. Só estou cansada. Hoje passei o dia todo atrás de roupas para a
apresentação de balett da Mariah, e isso me deixa exausta. Falando nisso eu
estive conversando com a Maria Helena e ela decidiu que esse ano não fará a
ceia de Natal na casa de praia, ela também não está com clima para festas. Eu
achei bom, pelo menos assim posso ver você aqui em Curitiba. Você vem para cá,
não vem?
Suspirei
sem saber o que responder, na verdade eu ainda não sabia o que iria fazer.
-Você
vem, não é Alice?
-Sim, eu
acho que sim, na verdade eu preciso ver com a minha mãe, mas confesso que estou
totalmente sem clima.
-Eu sei
Alice, mas é Natal e nós amamos você, não seria justo você nos negar isso.
-Tudo
bem, vou ligar para minha mãe e combino alguma coisa com ela.
-Alice,
eu sei que não vai ser a mesma coisa, aliás, será um Natal totalmente sem clima
para todos nós, mas logo tudo isso irá passar, essa dor vai amenizar, você vai ver.
Ao ouvir
Malu falando daquela maneira, não aguentei e comecei a chorar. Percebi o
silêncio e em seguida ouvi Malu soluçar, chorando do outro lado da linha.
Sem mais
clima para continuar nossa conversa, desligamos o telefone rapidamente.
Mais
tarde naquela noite, fui acessar minha caixa de e-mail e confesso ter ficado
surpresa com a quantidade de e-mails que havia recebido, após a revista ter
chegado às bancas na sexta-feira, com a minha segunda parte da matéria. Eram
dezenas e dezenas de e-mails, onde todas as leitoras davam seu ponto de vista.
Achei até engraçado, era como se dessa vez elas estivessem esclarecendo o que
eu estava passando. Li cada um deles, e a maioria achava que quando se tenta
recomeçar uma vida em um lugar distante, é porque o amor ainda existe e nos
deixa vulnerável.
Mas teve
um dos e-mails que eu recebi que me deixou de pernas bambas, ninguém menos que
João Pedro, havia escrito. Sim, era ele, o meu João, que havia lido minha
matéria e me enviado um e-mail em seguida. Ansiosamente eu abri o e-mail que
dizia:
Prezada escritora, li sua matéria e confesso ter ficado muito
intrigado. Afinal, ao terminar seu texto, você nos deixa uma incógnita, pois
não expressa sua opinião sobre o tema, deixando com que os leitores tirem suas
próprias conclusões.
Em minha opinião, acho que quando um relacionamento não vai
bem e começa a declinar, o mais sensato é que ambas as partes se atentem e se
aliem para que juntos possam salvar o relacionamento. Creio que ao fugir, a
pessoa fique propensa a cair em tentações e deixa seu parceiro sem saber como
agir. Eu não estou atribuindo a culpa a apenas umas das partes, não me leve a
mal, acredito que se o parceiro errou e arrependeu-se de seu erro, ele mereça
uma segunda chance, afinal, todos merecem uma segunda chance. Mas se o outro
decide fugir dos problemas ao invés de encará-los de frente, ele também tende a
tropeçar nos mesmos erros que seu parceiro e aí os problemas acabam virando uma
bola de neve. Mas enfim, é como eu disse, todos merecem uma segunda chance.
Agora eu lhe pergunto, em sua opinião, quando se decide
recomeçar uma vida em um lugar distante ao término de um relacionamento, é para
realmente esquecer o passado e seguir em frente ou para fugir dos seus próprios
sentimentos?
João Pedro
Eu li e
reli diversas vezes o e-mail que João Pedro havia me enviado. Fiquei sem ação,
pois ele estava me colocando na parede. E ele queria uma resposta clara e
objetiva.
Levantei-me
ainda trêmula, fui até a cozinha e bebi um copo de água, era como se tivesse
ganhando tempo para responder a temida pergunta dele, que nem eu sabia
responder.
Voltei
para meu escritório como se voltasse para um tribunal, onde eu daria meu
depoimento. Sentei em frente ao meu notebook e comecei a digitar diversas
respostas, mas ao final deletava todas elas.
Suspirei
fundo pedindo luz para que através das minhas palavras eu conseguisse passar
para o João tudo o que eu sentia. Então comecei a digitar um novo e-mail.
Prezado leitor, confesso ter ficado surpresa em saber que
você esteja acompanhando meu trabalho, pois, eu mais do que ninguém sei o
quanto você é uma pessoa ocupada, pois há alguns dias, me deixou plantada
esperando para falar com você por horas. Mas enfim, você questiona o porquê eu
não expressei de fato minha opinião. Saiba que este era o intuito da matéria,
fazer com que os leitores tirem suas próprias conclusões e reflitam sobre elas.
Isso não implica que cada pessoa tende a pensar de uma mesma forma, pelo
contrário, recebi dezenas de e-mails e as opiniões eram muito diferenciadas.
Talvez você não deixe de ter razão, acredito sim que o casal
precisa se unir quando se encontram em dificuldades, mas cada caso é um caso
Em minha opinião, quando um relacionamento no qual já não
existe mais amor termina de fato, você pode recomeçar sua vida, dividindo o
mesmo teto com seu ex-parceiro, pois nada que ele fizer atingirá você.
Mas esse não foi o meu caso, meu relacionamento terminou, mas
o amor continua tão forte quanto antes, mesmo após tantos acontecimentos. Então
decidi me afastar de tudo e de todos, mas descobri que não importa o quão longe
eu esteja, pois, o amor continua ali, vivo. Mesmo assim, caro leitor, confesso
que fugir dos meus sentimentos foi a única maneira que achei para seguir em
frente. Errada ou não, pelo menos estou tentando.
Att. Alice
Li e
reli meu e-mail para João, e eu uma escritora, sentia-me totalmente insegura em
dar uma resposta coerente ao meu marido. Então fechei os olhos e enviei a
resposta.
Fiquei
parada em frente ao notebook esperando que talvez João Pedro pudesse me
responder, mas algum tempo depois, levantei e desisti de esperar por uma
resposta que certamente não viria. Fui para a sala e fiquei assistindo a um
seriado, mas não conseguia parar de pensar se João havia lido ou não a minha
resposta. Um tempo depois de lutar contra minha curiosidade, subi e acessei
minha caixa de entrada do meu e-mail, mas não tinha nada de novidade.
Passei
horas deitada em minha cama, pensando no que aconteceria se caso eu voltasse e
encarasse de frente meus problemas, mas não me sentia forte o suficiente para
isso. Sem conseguir dormir, resolvi levantar-me no meio da madrugada e
continuar a escrever meu livro, a há dias não o escrevia.
As horas
foram passando, e quando vi, o dia já havia chegado. Estava literalmente
exausta, após passar horas e horas digitando. Só aí decidi deitar um pouco,
onde dormi por horas seguidas. Essa era a única vantagem de se estar sozinha.
Não tinha horário para nada, fazia o que queria, na hora que queria.
Acordei
com o telefonema de Fabi, olhei para o relógio e vi que já passava das três
horas da tarde do domingo. Fabi estava radiante, pois minha coluna estava sendo
a mais comentada e a mais acessada da revista. Me parabenizou e me agradeceu
por como sempre atender às expectativas dela.
Após
tomar um banho e comer alguma coisa, sentei-me novamente em frente ao notebook
e novamente não havia nenhuma mensagem de João Pedro, mas havia centenas de
mensagens de outras leitoras.
Respondi
algumas delas, e em seguida comecei a escrever minha nova matéria para a
próxima revista, o tema fugia completamente de relacionamentos que davam em
nada, queria evitar de expor minha vida a tantas pessoas.
Escrevi
algo sobre filhos de pais separados, como era a visão deles sobre os
relacionamentos, e em seguida o enviei para que Fabi analisasse. Depois voltei
a escrever meu livro, onde novamente passei algumas horas em frente ao
notebook.
Minha
cabeça já estava doendo, foi aí que decidi sair para comer alguma coisa. Fui me
arrumar, pois estava sentindo-me literalmente uma descabelada. Arrumei meus
cabelos com o secador, coloquei um vestido preto e por cima uma jaqueta jeans,
combinei com uma bota de cano curto; fiz uma maquiagem discreta e saí para ver
um pouco de gente.
Parei em
frente ao café de André era cerca de sete horas da noite, pensei um pouco antes
de entrar, mas eu sentia falta de conversar com ele, então, quando dei por mim,
já estava dentro do café procurando por uma mesa vazia.
Uma
atendente levou-me até uma mesa, pedi um chope ela saiu em seguida. Olhei ao
redor, mas não havia nem sinal de André. Duas canecas de chope depois, André
entrou no café, olhou ao redor, conversou com a moça do caixa e entrou em
seguida, acredito eu que para o escritório dele. Ele não havia me visto, mas eu
tive medo que talvez ele tivesse apenas fingido não me ver. O garçom me levou a
terceira caneca, e nesse momento André voltou e assumiu o caixa. Eu disfarcei,
mas de repente nossos olhares se cruzaram, e quando ele me viu, involuntariamente
abriu um largo sorriso, deixando-me mais aliviada.
Imediatamente
ele chamou novamente a moça que estava no caixa de volta e caminhou até minha
mesa.
-Alice,
quanta honra você por aqui. Posso? Perguntou-me ele apontando para a mesa.
Eu sorri
para ele e concordei com a cabeça.
-Estava
passando por aqui e resolvi ver um amigo e não sei o porquê, mas simplesmente
me abandonou.
André
fitou meus olhos, mas depois desviou o olhar.
-Eu não
quis mais forçar a barra. Sei lá, achei que você parecia sufocada com a minha
presença constante. Tanto que foi eu me afastar um pouco e passei semanas sem
ver você.
-Eu não
me sentia sufocada com sua presença, apenas fui sincera com você, pois não
queria me envolver com ninguém antes de resolver minha situação. Mas eu sinto sua
falta, sinto falta de falar com você, sinto falta da sua amizade. Não queria
que fosse assim, não quero ficar sem ver você, apenas por não estar pronta para
uma relação.
-Eu
também senti sua falta Alice, tanto que... (André fez uma pausa e riu em seguida)
tanto que toda a noite quando saio daqui, passo em frente à sua casa, para ver
se está tudo bem. Às vezes paro meu carro e fico de longe observando a luz do
seu escritório ligada, e sei que naquele momento você só pode estar escrevendo.
Então eu só quis dar a você o espaço que você estava precisando.
-Eu
sentia vontade de vir até aqui para ver você. Mas tive medo de que talvez você
não quisesse mais falar comigo, por isso não vim.
-Eu
nunca deixaria de falar com você. Você se tornou alguém com quem eu sinto
necessidade de conversar, sabia?
Eu ri.
Aquele era o André do qual eu conhecia pouco, mas conhecia.
-Bom,
mas e aí, me conta como está sua vida na nova casa, que aliás eu nem fui
convidado para entrar quando fui ver você.
-Não,
André, naquele dia eu entrei apenas para iluminar a casa, mas achei que você
entraria atrás de mim, e quando saí para lhe chamar, você simplesmente tinha
ido embora e depois não atendeu minhas ligações.
-Nossa
Alice, aquele dia me senti muito mal, eu estava ali, sentado na área e você
simplesmente entrou me deixando ali fora, plantado, achei que você quisesse que
eu fosse embora, por isso eu fui. Saí de lá arrasado eu confesso, tanto que não
atendi suas ligações.
-Me
desculpa André, eu juro que nunca tive a intenção de magoar você, não você que
só me ajudou; foi totalmente inocente o que eu fiz, tanto que quando vi que
você não havia entrado, voltei para chamá-lo, mas você tinha saído.
André me
encarou e em seguida segurou minhas duas mãos.
-Vamos
esquecer isso então, pode ser?
-Claro
eu sim, mas mesmo assim te peço desculpas novamente pelo mal-entendido.
André
simplesmente balançou a cabeça concordando. Em seguida pediu um chope para ele
e outro para mim. Conversamos por horas, e pela primeira vez em dias consegui
enfim dar algumas risadas. Naquela noite, voltei para minha casa já estava bem
tarde, André até queria me acompanhar, mas quando estávamos saindo o telefone
dele tocou e ele precisou correr até o hotel resolver um problema de um
funcionário.
Mais
tarde ele me ligou preocupado, pois queria saber se eu tinha chegado bem em
casa, mas eu já estava deitada, então combinamos de nos falarmos no dia
seguinte.
No dia
seguinte, liguei para André e o agradeci novamente pela noite passada e pela
preocupação dele em saber se eu havia chegado bem em casa. Então o convidei
para jantar em minha casa, pois me sentia na obrigação de convidá-lo
formalmente para conhecê-la. André aceitou o convite no mesmo instante.
Trabalhei
um pouco em meu livro, pois já estava quase nos capítulos finais e verifiquei
novamente meus e-mails, mas ainda não tinha notícias do e-mail de João.
26
Desencontros
Alice, já não aguento mais essa situação. Dói demais ficar
sem ver você, sem saber o que você faz, e sem saber como você está. Eu não vou
negar que quando fui até aí, fiquei cego de ciúmes, pois eu nunca esperava
encontrar você com outra pessoa, e depois disso me coloquei em seu lugar e
percebi o quanto você deve ter sofrido quando meu viu com aquela garota.
Hoje sinto que não me encaixo em lugar nenhum sem você, não
me vejo no futuro sem você, mas só sei que se esse for meu destino, com certeza
ele será muito triste.
Amo você. Espero que pense nisso e pare de fugir dos seus
sentimentos, pois decidi não fugir mais dos meus.
Para sempre seu, João Pedro.
Meu
coração se encheu de esperança ao ler aquelas palavras, e quando li para Malu o
que João havia escrito, ela também ficou radiante.
Assim
que desliguei o telefone, não sabia o que pensar, não sabia se ligava para
João, ou sem simplesmente ficava na minha. Meus dedos me traíram e quando vi já
estava discando o número do celular dele, mas só caia na caixa postal, liguei
novamente e novamente, caixa postal novamente.
Liguei
então no Ministério Público, mas não havia mais ninguém lá. Pudera, já passava
das seis horas, e eu ainda tinha um jantar para preparar.
-Ai, o
jantar! Caramba! Pensei comigo mesma, me arrependendo de ter convidado o André
para ir até lá, justo naquela noite que eu estava tão confusa ao ver o e-mail
do João.
Pensei
em ligar para André cancelando, mas ficaria muito chato se fizesse isso. Então
desci, e fui preparar o tal jantar. Depois de preparar todos os ingredientes;
arrumei a mesa onde coloquei uma garrafa de cristal com algumas flores
naturais, coloquei um bom vinho para gelar e em seguida corri tomar um banho.
Prendi
meus cabelos em um rabo de cavalo, coloquei uma saia em leque preta e branca e
uma blusa preta de mangas ¾, coloquei um scarpin preto de salto baixo e fiz uma
maquiagem nude e bem discreta.
Por
volta das oito horas a campainha tocou, era o André com um buquê de flores em
uma mão e um vinho em outra mão.
-Boa
noite! Ele disse todo sorridente.
Eu ainda
estava nervosa com o e-mail do João Pedro, mas não quis transparecer.
-Boa
noite! Falei dando-lhe um meio sorriso. –Entre e sinta-se à vontade.
André me
entregou as flores.
-André,
que lindo, mas não precisava se incomodar.
-Alice,
não foi incomodo algum. Só porque somos amigos, não significa que não posso
dar-lhe flores.
-Tudo
bem. Eu disse sorrindo. –Vou colocá-las em um vaso. Disse saindo em seguida.
Em
seguida, chamei André para subir e mostrei a ele como havia ficado os cômodos,
depois que eu tinha colocado minhas coisas. André adorou cada coisa e disse ter
ficado surpreso de como a casa havia mudado com minha nova decoração.
Depois
descemos e André foi nos servir o vinho que ele havia levado. Foi quando a
campainha tocou. Eu o olhei preocupada, talvez alguém soubesse que ele
estivesse lá e estava o procurando. Mas ele também me olhou sem entender.
-Você
está esperando mais alguém? Ele indagou.
-Não!
Respondi imediatamente.
Ele
continuou na cozinha abrindo a garrafa de vinho e eu fui até a sala atender a
porta. Abri a porta e me deparei com João Pedro do lado de fora, parado, com as
mãos nos bolsos de sua calça jeans, olhando em meus olhos e abrindo um lindo
sorriso ao me ver.
Senti
minhas pernas amolecerem imediatamente, meu coração disparou, minha boca secou.
-João
Pedro? Falei parecendo assustada.
Ele
sorriu ainda mais.
-Demorei
mais achei você.
Eu
sorri, não sei se foi de nervoso ou felicidade.
-Alice,
eu precisava ver você, falar com você, não estava mais aguentando de tanta
saudade.
Fiquei
totalmente inerte. Podia ouvir meus batimentos cardíacos a vários quilômetros
de distância.
-João,
eu...
-Não vai
me convidar para entrar? Ele falou todo inocente.
Nesse
momento André foi até a porta ver o que estava acontecendo. Quando João viu
André chegando atrás de mim, seus olhos ficaram paralisados. Ele parecia
totalmente desorientado, assim como eu.
-Alice,
me desculpa, eu não tinha ideia que você estava com visita. Fui um tolo, devia
pelo menos ter ligado para você. Mas é que meu celular está totalmente sem
bateria.
-Não
João! Não é o que você está pensando.
João
Pedro balançou a cabeça em tom de negação e soltou um riso sem graça. Olhei
para André que também ficou sem reação.
-Alice,
eu volto uma outra hora. Disse André parecendo chateado.
-Não,
tudo bem. Depois eu falo com você Alice. Disse João saindo em seguida.
Olhei
para André sem saber o que fazer. Mas quando eu vi João Pedro descendo as
escadas da área, com a cabeça baixa e as mãos nos bolsos da calça; corri atrás
dele sem pensar.
-João
Pedro, espera. Vamos conversar, não é o que você está pensando. O André apenas
veio conhecer minha casa. Nós não nos víamos há dias. Foi justamente hoje que
eu o encontrei e o convidei. Mas somos apenas amigos.
-Alice,
não se preocupe. Você não me deve nenhuma explicação. Eu quem deveria ter
ligado para você antes. Mas depois que lhe enviei aquele e-mail, simplesmente
não me controlei mais e corri para cá.
Ele riu
nervosamente.
-Mas
depois a gente se fala.
João
Pedro deu de ombros e saiu em direção a um Honda que era provavelmente alugado.
Quando ele abriu a porta do carro, eu a segurei impedindo-o de entrar.
-João
Pedro, por favor, não vá embora. Nós precisamos conversar.
Ele me
olhou e eu pude sentir uma tristeza sem fim nos olhos dele.
-Alice,
você está com uma visita lá dentro. E quer saber, você mesmo disse que estava
tocando sua vida, e é isso que você está fazendo, e você está certa. Eu... (ele
fez uma pausa) só achei que talvez pudéssemos tentar outra vez, mas não é tão
simples assim.
João
inclinou-se e me beijou o rosto e em seguida entrou em seu carro. Senti meu
coração doer de tristeza. Ele me olhou, deu partida no carro e saiu em seguida.


esses dois tem que se acertarem ...mais esta ficando cada vez mais dificil...
ResponderExcluirTo amando! Anciosa p14
ResponderExcluirolhaaa...to ficando nervosa kkkkk....quero ver maissss kkkkk.
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