quarta-feira, 3 de junho de 2015

" Recomeços " PARTE 13 por Érika Prevideli

 " Recomeços " 


Parte 13


24
A casa nas montanhas

Cheguei em São Joaquim por volta das três horas da manhã, o frio estava de cortar a pele. Fui direto para o hotel de André, mas o quarto em que estava hospedada anteriormente, já estava ocupado. Me arrumaram um outro quarto, no último andar, porém era tão aconchegante quanto o outro. Depois de  acomodar-me, caí na cama, e não sei nem como e quando, apaguei.
Acordei no outro dia, já passava das dez horas da manhã. Todos os meus músculos e ossos doíam, não sabia se era por ter dirigido sem parar por seis horas, ou se era a friagem que eu tomei quando cheguei, ou então o resumo dos meus últimos dias. Minha vontade era de nunca mais sair daquela cama. E eu apenas obedeci meu corpo e dormi mais algumas horas.
Levantei cerca de duas horas da tarde, tomei um banho e desci para comer alguma coisa. Decidi ir até o café do André, pois precisava falar com ele.
André não estava no café,  pelo menos não que eu tivesse visto. Pedi um chá de frutas vermelhas e uma torta. Não sabia o quanto estava com fome até começar a comer. Quando estava limpando o um prato com o garfo, aproveitando o último vestígio de ricota, André apareceu, ficando surpreso ao me ver.
-Alice! Ele exclamou. -A quanto tempo você está aqui? Ele perguntou vindo em minha direção.
Seu semblante mudou instantaneamente, parecendo mais feliz por eu estar ali.
Levantei-me e nos abraçamos em seguida.
-Não posso acreditar que você voltou! Como eu senti sua falta, você não faz ideia. Continuou André.
Eu me afastei dele, sentindo-me sem graça.
-Pois é, acabei parando aqui novamente. E eu vim até aqui  justamente para falar com você.
Ele me olhou desconfiado.
-Aconteceu alguma coisa?
-Não, é que eu queria que você me ajudasse, eu pretendo ficar algum tempo por aqui. Não sei ao certo por quanto tempo. Mas eu pretendo me instalar por aqui, por, sei lá, meses talvez, ainda não sei.
André abriu um sorriso como se eu tivesse dado a ele a melhor notícia.
-E eu queria saber se você me ajuda a arrumar algum lugar, preciso de um lugar tranquilo, onde eu possa escrever, pois eu preciso mandar minhas matérias semanalmente para a revista e ainda terminar meu livro. Então preciso de um lugar tranquilo e calmo para me inspirar e me concentrar.
-Mas e o hotel? Eu posso arrumar o melhor quarto para você.
-Eu sei disso, mas eu quero um canto para mim, um lugarzinho meu, com as minhas coisas, sei lá, me sentir em casa.
Ele concordou ficando pensativo. Em seguida pediu um chá para ele e outro para mim.
-Eu pensei em algo como um chalé, uma cabana, sei lá. Em meio à natureza. Se caso souber de alguma coisa.
-Eu até conheço um lugar, mas eu preciso ligar para os donos e ver se eles estão dispostos a alugar. O lugar é lindo, é incrível, tomara que dê certo.
-Jura? Mal posso esperar. E olha, não se preocupe com o valor, se o lugar realmente valer a pena, não me importo em pagar a mais.
-Se eles aceitarem, com certeza o lugar valerá a pena. Eu vou ligar para eles; eles não são da cidade, mas assim que tiver uma posição aviso você com certeza.
Nosso chá chegou e nós brindamos ao possível lugar.
-Bom, mas então eu suponho que você e seu ex-marido optaram pelo divórcio.
-Na verdade nós não nos vimos e nem nos falamos mais. Mas é o que tudo indica, os advogados dele irão entrar em contato comigo em breve, mas é como eu lhe disse, eu não sei quanto tempo irei ficar, mas por enquanto é aqui que eu estar.
André sorriu novamente parecendo mais do que satisfeito.
Nós conversamos sobre as filhas dele que foram embora no final de semana, eu disse a ele algumas coisas sobre minha semana em Florianópolis e em Curitiba. Mas eu não me sentia à vontade para dizer coisas para André como o João Pedro ter saído com outra garota, ou sei lá, sobre o que a Mariah me disse sobre o Pedro.
André me convidou para sairmos à noite, mas eu recusei o convite, alegando que estava cansada da viagem e precisava descansar. Ele ficou chateado, mas não insistiu.  Voltei para o hotel e comecei a escrever um pouco, estava com algumas ideias para um novo livro, deixando de lado o anterior que ainda nem havia acabado.
Fiquei algumas horas escrevendo, e quando vi, já passava das nove horas da noite. Tomei um banho e caí na cama, realmente cansada, mas quem disse que eu conseguia dormir. Não, não conseguia, rolava de um lado para o outro, pensando em João Pedro, imaginando ele naquela boate, no que teria acontecido de tivéssemos conversado, talvez teríamos voltado, ou teríamos discutido mais uma vez, mas isso era algo do qual eu nunca saberia, pois ele preferiu me evitar, assim como fez no escritório.
Peguei uma caixa que tinha levado comigo e comecei a retirar retratos antigos, retratos da época em que nos conhecemos na praia, da época do nosso começo de namoro, do nosso casamento, quando eu estava grávida e de quando Pedro nasceu. Fiquei passando meu dedo sobre o rostinho de Pedro, que era como uma porcelana. Senti um nó preso em minha garganta e instantaneamente minhas lágrimas começaram a cair. Havia fotos de nós três em nossa cama, brincando no jardim, do João e do Pedro na piscina, enfim, eram inúmeras delas, e cada carregava uma história diferente.
Me vi ali, naquele hotel, vendo todas aquelas fotos e totalmente sozinha, percebi o quanto eu estava infeliz e incompleta, minha vida estava fragmentada e eu sabia que nunca mais seria como antes.
No dia seguinte, acordei agarrada a uma foto do Pedro, e eu sorri ao ver aquele sorriso dele para mim. Algum tempo depois, desci para tomar café da manhã e André estava me esperando todo animado.
-Alice, deu certo! Podemos ir hoje mesmo ver a casa, se você quiser.
Só depois de alguns segundos absorvi sobre o que ele dizia.
-Ah, sério? Sim, eu quero muito conhecê-la.
-Só precisa de alguns retoques, afinal a casa está vazia a algum tempo, mas você vai gostar. Antes de vir para cá, passei de lá, abri toda a casa, e assim que você puder, eu levo você.
Eu dei o melhor sorriso que eu pude a ele.
-Nem sei como lhe agradecer, me diga você que horas estará disponível e nós iremos.
-A hora que você quiser. Ele me disse retribuindo-me o sorriso.
Sentamos para tomar café, e ele me disse sobre algumas melhorias que precisaria fazer na casa, mas coisa simples, tipo em uma semana já estaria tudo pronto.
Após o café da manhã, André saiu para resolver alguns assuntos do hotel e combinamos de nos encontrarmos no café.                                   
Por volta das dez horas da manhã eu fui até o café e de lá seguimos na caminhonete de André até a casa. Andamos alguns quilômetros e logo saímos da cidade. Passamos por alguns caminhos com diversas cabanas nas montanhas, e em cada uma delas, eu achava que era a tal casa, estava mais do que ansiosa. Cerca de vinte minutos depois de estrada, André adentrou em um caminho, onde só se viam árvores e muitas flores. Então eu avistei de longe uma cerca toda branquinha. Ele parou o carro em frente e abriu o portãozinho. Então eu a vi e foi amor à primeira vista. Meus lábios denunciaram toda a alegria que eu senti naquele momento, com o largo sorriso que eu dei. Era uma casa toda feita em madeira, com alguns detalhes em pedras, nos pilares de uma charmosa escada. Não era bem uma cabana como eu pretendia era uma casa, e linda por sinal, bem no estilo de casa de montanha. Uma área rodeava toda a casa, e havia painéis de vidro que certamente era possível ver toda a vegetação de dentro da casa. O jardim era perfeito, bem cuidado e ficava entre o caminho que nos levava até a casa.This is such a cute lake side cabin!

Olhei para André desconfiada.
-Tem certeza que ninguém mora aqui? É tudo tão bem cuidado. Eu disse apontando para o jardim.
-Tenho, essa casa é de um casal, eles dizem não estar mais na idade de morar longe da cidade, estão bem velhos, então preferem morar onde tem tudo por perto.
Eu concordei e então chegamos até a área.
-Estou encantada André, é perfeita. Eu disse sem ao menos entrar. A casa era toda rústica de madeira e pedra, toda decorada com móveis de época. Na sala, havia um sofá claro que estava com um lençol branco por cima, uma cadeira de balanço no canto da sala ao lado de uma mesinha cheia de livros, o que me deixou maravilhada. Na lareira, havia uma prateleira feita com as próprias pedras, onde havia alguns enfeites e um belo quadro um pouco mais acima. A televisão ficava na parede ao lado, acoplada em um painel rústico, porém extremamente elegante. No outro canto da sala, tinha uma mesa redonda com quatro cadeiras e um aparador ao lado também feito de madeira rústica. E de onde estávamos, era possível ver toda a parte externa, com vista para todo o jardim e a vegetação que cercava a casa.
Fomos até a cozinha, que era linda e pequenina, toda em madeira. Tinha apenas a pia, o armário embutido, geladeira e o fogão na ilha, onde saia o balcão para as refeições.
-Vem aqui, você vai amar esse lugar. Disse André pegando em minha mão e me guiando para o andar de cima.
O quarto de casal era um doce, como a cama com dossel, um gaveteiro enorme ao lado, com um abajur todo decorado sobre ele. E da cama também era possível ver toda a vegetação do lado de fora, através dos painéis de vidro. O banheiro do quarto tinha uma banheira bem em frente a um dos painéis, onde na hora do banho você tinha aquela vista de presente.
-Nossa estou sem palavras, pedi ajuda a pessoa certa, hein?
-Que bom que gostou. Ele disse ficando corado.
Cabin love-Vem aqui no outro quarto. Ele disse segurando novamente minha mão.
Eu desconfiei mais uma vez, pois ele era muito ambientado naquela casa, era como se ele conhecesse aquele lugar como ninguém.
Fomos a um quarto onde havia uma cama de solteiro entre duas paredes cheia de prateleiras de livros.
Eu ri alto. Aquilo era um sonho de consumo para quem gostava de ler.
-Uauuu, que tudo esse lugar! Eu disse parecendo uma criança em um parque de diversões.
-Agora o melhor. Disse André me apontando para um enorme biombo que ficava nesse mesmo quarto.
Olhei para ele curiosa e então ele tampou meus olhos com as mãos e me guiou para a tal surpresa.
Quando André tirou as mãos dos meus olhos, não acreditei no que vi. Uma espécie de escrivaninha em V no canto do quarto, todo em madeira rústica, com painéis de vidro que iam da altura da escrivaninha até o teto, e eu me imaginei sentada ali, escrevendo admirando toda aquela montanha.Land's End Development
-Você só pode estar de brincadeira comigo. Eu disse olhando atônita para ele.
-Quando você me disse que queria um lugar tranquilo para escrever, pensei na hora neste ambiente Alice, sabia que você gostaria.
Eu o olhei pensativa, depois do que ele disse, tive certeza que ele conhecia muito bem aquele lugar.
-André, por acaso essa casa é sua?
-Não, claro que não. De onde você tirou essa ideia? Ele me perguntou surpreso.
-Não sei, de repente você e sua família moravam aqui, ou passavam os finais de semana aqui. Você parece tão ambientado com esse lugar.
André passou a mão em seu cabelo e em seguida virou ficando de costas para mim. Senti um certo desconforto, talvez eu estivesse sendo mal-agradecida, ou egoísta, mas eu não estava falando por mal. Simplesmente não iria me sentir à vontade em uma casa onde ele morava com a esposa dele.
-Alice, os proprietários dessa casa nunca moraram aqui. Eles vinham apenas passar as férias. Mas eles são pessoas com uma certa idade, e não se sentem mais confiantes em ficar longe da cidade. A proprietária por exemplo tem alguns probleminhas de saúde e prefere não correr o risco de ficar longe do médico de confiança dela. Então a casa fica abondada. Eles até conheceram sim a Valentina, mas essa casa não é minha, e sendo assim eu nunca morei aqui com minha família. Só quis ajudar você. Quando você me perguntou sobre um lugar tranquilo para ficar, na hora pensei nesse lugar, mas eu não tinha certeza se eles alugariam. Só decidiram alugar porque disse a eles que você iria passar uns tempos aqui e que era escritora e precisava de um lugar tranquilo. Mas logicamente que é você quem tem que escolher o lugar ideal para você ficar. Essa casa é apenas uma sugestão. Você não precisa aceitar ficar aqui somente porque fui eu quem disse a você.
-Não André, eu amei esse lugar. Ele superou todas as minhas expectativas. Eu só perguntei, porque você conhece a casa como ninguém.
-Eles são meus amigos e não conhecem mais ninguém por aqui, por isso eu que me ofereci em de vez em quando mandar alguém para cuidar da casa, do jardim. Por isso que eu conheço a casa.
-Nesse caso me desculpe por ter tocado nesse assunto. E só tenho que lhe agradecer por ter feito com que eles aceitassem me alugar a casa.
André balançou a cabeça e não disse mais nada.
-Você acha melhor eu mesma falar com eles para fechar o negócio?
-Pode ser! Eu passo te passo o número deles e você mesmo conversa com eles. Ou se preferir eu posso intermediar, você quem sabe.
-Eu só não quero incomodar você.
-Não será incomodo. Vamos para o café e de lá nós ligamos para eles e já resolvemos isso.
Eu euforicamente concordei.
Voltamos para o café e fomos direto para o escritório de André, que era mais organizado do que eu imaginava.
André ligou para o tal casal. Seu Raul atendeu o telefone e André parecia bem próximo dele. Algum tempo depois eu mesma falei com Sr. Raul e expliquei que eu era escritora e estava passando uns tempos na cidade, mas precisava de um lugar tranquilo. Sr. Raul não entrou em detalhes, mas me disse que a casa realmente não estava disponível para alugar, mas por ser uma indicação do André, eles abririam uma exceção e também assim a casa ganharia um pouco de vida, em quanto eu estivesse lá.
Nós acertamos o valor do aluguel, e Sr. Raul me pediu apenas alguns dias, onde mandaria alguém para cuidar do jardim, verificar as instalações elétricas e para se certificar se tudo estava funcionando corretamente. Eu logicamente concordei e o agradeci várias vezes pela confiança.
Naquela noite eu e André ficamos até tarde no café, onde comemoramos meu novo lar. Quando voltamos para o hotel, André levou-me até a porta do meu quarto.
Assim que abri a porta, André inclinou-se e beijou meu rosto.
-Estou louco para beijar você, Alice.
-André, não! Eu não posso fazer isso novamente sem ao menos ter resolvido de uma vez por todas a minha situação. Afinal, eu ainda estou casada legalmente. E sendo assim, não posso sair beijando você ou qualquer outra pessoa, não é certo.
-Mas eu ainda tenho chance? Quer dizer, quando seu divórcio sair, eu vou poder beijar você?
Eu sorri sem saber o que dizer.
-Boa noite André. Eu disse entrando em seguida, sem dar a ele resposta alguma.
Minutos depois meu celular vibrou. Era uma mensagem de André.

Não ter resposta alguma é melhor do que um Não!
Beijos e boa noite
André.


...
Passei uma semana acompanhando de perto as revisões que estavam sendo feitas na casa. Sr. Raul fez questão de que as madeiras fossem envernizadas, mesmo sem precisar aparentemente. Um paisagista foi mandado para cuidar do jardim, que já era infinitamente bonito. Foram feitas revisões nos encanamentos e nas instalações elétricas. E cada canto da casa foi dedetizado.
Eu me via cada vez mais ansiosa para me instalar na nova casa, e aqueles dias foram muito importantes, pois me fizeram esquecer minhas dores, pelo menos por alguns momentos.
André estava todo o momento o meu lado, aliás, era ele quem contratava cada pessoa que estava trabalhando na casa.
Estávamos na segunda semana de novembro, e no final de semana a casa estava pronta para ser habitada novamente, não que antes não tivesse. Eu e André tiramos minhas coisas do hotel, e quando fui fechar minha conta, descobri que não devia nada, o que gerou uma discussão, afinal, passei mais de uma semana instalada ali e ele não quis receber de jeito nenhum centavo, e eu não achava aquilo certo. Depois de muita discussão, fomos para a casa que seria minha pelo menos por algum tempo. Assim que cheguei lá, percebi que ele parecia chateado, afinal, eu não estaria mais com ele todas as manhãs durante o café da manhã.
-Prontinho! Devidamente instalada. Disse ele ao colocar minha última mala dentro da sala.
-Pois é! Eu disse suspirando fundo. –Agora é só organizar minhas coisas e principalmente minha vida.
-Você vai ficar bem? Ele me perguntou apreensivo.
-Eu estou bem, não se preocupe. Mais tarde eu pretendo sair para comprar umas coisas, vou ao supermercado, quero comprar umas flores, sei lá, deixar a casa com cara de minha.
-Se você quiser posso ir com você.
-Não, já abusei demais do seu tempo. E além do mais adoro ir às compras.
Eu disse esquivando-me, pois na verdade eu precisava ficar sozinha em meu novo canto.
Ele concordou maneando a cabeça.
-Bom, então vou voltar para o hotel, tem um pessoal chegando de São Paulo, e eu preciso verificar se está tudo certo, mas se precisar de alguma coisa, é só me ligar. Ele disse compassivo.
-Pode deixar, qualquer coisa eu grito.
André se aproximou de mim e me abraçou em seguida. Senti minhas pernas bambearem com a proximidade dele.
-Vou sentir sua falta, sabia? Ele disse quase em sussurro.
-Eu também, mas não se preocupe, aparecerei todos os dias, e você também pode vir me visitar sempre que quiser.
Ele sorriu e instantes foi embora.
Quando voltei novamente para dentro da casa, olhei ao meu redor, e ao mesmo tempo que senti alívio em ter um novo canto só para mim, da maneira que eu queria, também me senti totalmente insegura em me ver naquele lugar totalmente sozinha.
Fui até meu novo quarto que ficava no andar de cima e organizei todas as minhas coisas. Em seguida fui para meu novo escritório com vista para as montanhas, onde coloquei meu notebook, minha impressora e vários porta-retratos do Pedro, inclusive o último desenho que ele fez sobre a nossa família.  Sentei-me e fiquei imaginando o quanto Pedro iria amar estar naquele lugar.
Depois de enfim organizar minhas coisas, que não eram muitas, fui até o meu carro e dirigi até o centro da cidade, onde comprei roupas de cama, mesa e banho.  Comprei também algumas decorações para minha sala; queria dar mais cor e vida para ela; comprei várias velas decorativas e aromatizadas; alguns vasos de flores naturais; incensos, almofadas e manta para meu sofá. Em seguida fui até o supermercado e comprei tudo o que precisava para abastecer a dispensa.
Voltei novamente para a casa e passei a tarde toda organizando a dispensa, colocando as novas roupas de cama, decorando minha nova sala e espalhando as velas aromatizadas tanto na sala, quanto no banheiro ao redor da banheira, e em meu quarto. Arrumei meus vasos de flores na janela da cozinha e na sacada do meu quarto.
Quando já estava anoitecendo, finalmente tomei um bom banho de banheira, onde conseguia observar toda a paisagem verde do lado de fora. Mais tarde, preparei algo para comer e quando estava colocando as louças na lava louça, meu celular tocou, era o André me convidando para sairmos para jantar. Mas eu estava realmente cansada, então acabei recusando o convite dele. Na verdade, eu sabia que André esperava que eu o convidasse para jantar comigo em minha nova casa, mas eu não o fiz.
Deitei em minha cama afim de relaxar, mas eu não conseguia parar de pensar em Pedro, no quanto eu queria que ele estivesse ali comigo, no quanto eu queria preparar um chocolate quente para ele, do jeito que ele mais gostava. Meu coração chegava a doer de tanta tristeza. Também comecei a pensar em João, em como e onde ele estaria naquela noite de sábado, e se ele estava acompanhado ou não. Assim, depois de chorar por horas, acabei pegando no sono.
No dia seguinte, acordei assustada após ouvir o barulho de um carro parando perto da casa. Desci as escadas rapidamente e ao abrir a porta da sala não vi ninguém. Mas havia uma enorme cesta de vime embrulhada em um celofane transparente, com um enorme laço e um cartão.
Peguei a cesta e comecei a rir sozinha ao ver um lindo vaso de orquídeas e um café da manhã completo. Fui para a cozinha e sentei-me em frente ao balcão, e em seguida abri o cartão que dizia:

-Bom dia Alice! Senti sua falta nessa manhã. Espero que tenha tido uma primeira noite tranquila em sua nova casa. Gostaria de ver você o mais breve possível.
Com carinho, André

Fiquei paralisada pensando na atitude de André. Eu gostava de ser paparicada por ele, mas não queria alimentar nenhum tipo de sentimento. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para ele em seguida.
-Bom dia André. Obrigada pela linda cesta de café da manhã. Você como sempre é muito atencioso. E sim, tive uma noite em paz e tranquila.
Alice.
Tomei meu café da manhã, me arrumei, arrumei meu quarto e em seguida fui até meu escritório onde passei horas escrevendo para minha nova coluna na revista. Depois de terminada, enviei a matéria para a Fabi, que analisaria o conteúdo e publicaria no final da semana posterior.
Naquela tarde liguei para Malu e contei cada detalhe da minha nova casa, e ela logicamente achou um absurdo eu estar morando tão longe de tudo e de todos, no meio do nada e isolada numa cabana. Eu não perguntei nada a ela de João Pedro, e nem ela me disse. Em seguida liguei para minha mãe, que parecia feliz em me ver mais animada.
Começou a escurecer e eu estava me sentindo totalmente entediada sem ninguém para conversar. Tomei um banho e me arrumei e poucos minutos depois estava sentada em uma igreja esperando a missa começar. Assim que a missa terminou, dirigi até o café de André, e assim que entrei, o vi conversando animadamente com um grupo de pessoas, com muito mais mulheres do que homens, e todas pareciam enfeitiçadas por ele. André não me viu, mas Silvinha me atendeu em seguida.
Apenas pedi uma bebida, paguei e quando estava saindo do café, Silvinha me avisou que ia chamar o André, pois ele não tinha me visto. Disse a ela que não precisava, pois eu estava com um pouco de pressa, e fui embora.
Dei uma volta pela cidade, sem ter onde ir e com quem conversar. Parei em um restaurante japonês e acabei jantando sozinha.
Algum tempo depois voltei para casa e vi o carro de André parado em frente ao portão de madeira. Saí do carro e ele estava parado, sentado no banco de madeira em minha área.
-Onde você estava? Estou aqui há horas. Ele disse chateado.
-Eu estava jantando. Não sabia que você viria. Eu falei despretensiosamente.
-Por que você não me esperou no café, quando a Silvinha me avisou, fui atrás de você, mas você já tinha saído.
-André, você estava ocupado, eu só queria dar um oi. Mas não era nada importante, nada que não pudesse esperar.
-Alice, você é importante. Falar com você é importante para mim, e eu fiquei extremamente magoado, pois desde ontem queria ver você, e quando você resolve ir até lá, você simplesmente decide não me chamar.
-Já disse que não quis atrapalhar, mas me desculpa se magoei você. Eu disse dando de ombros e abrindo a porta da sala.
Ele não entrou, e continuou sentado olhando para o nada. Assim que liguei todas as luzes, voltei para área e vi que ele não estava mais sentado no banco. Fui até o lado de fora e vi o carro dele saindo em seguida.
Tentei ligar para ele algumas vezes, mas ele não me atendeu. Não sabia o que tinha feito que o deixou tão irritado, mas desisti de falar com ele e logo fui me deitar.
 ...
  
Uma semana se passou. Eu realmente tinha encontrado a paz da qual necessitava para poder escrever, aliás que era tanta paz, me às vezes me dava até desespero de tanta solidão.
As únicas pessoas com quem eu conversa era com a Malu e com minha mãe. Passei o final de semana respondendo e-mails das minhas leitoras, já que a revista tinha saído na sexta-feira, com a minha primeira matéria sobre relacionamentos e seus desacertos.
A maioria dos e-mails que recebi, contavam sobre experiências em que mulheres largavam quase tudo e no final, não dava certo. Muitas delas desabafavam, outras pediam conselhos, e eu me vi desesperada, pois como eu aconselharia alguém sobre um relacionamento, se nem eu mesmo conseguia dar uma direção ao meu.
Liguei para Fabi e desabafei com ela, pois não queria me tornar uma conselheira amorosa. Queria sim escrever minhas matérias, mas sem precisar dar conselhos sobre o que fazer. Fabi me parabenizou, afinal minha matéria estava dando mais retorno do que ela imaginava. E pediu que eu continuasse nessa linha de pensamento, e não me importasse tanto com os e-mails.
Escrevi e enviei a ela outra matéria, dessa vez com o tema: Quando um relacionamento termina e você decide começar uma nova vida, isso implica que você está fugindo do seu amor, ou você está tentando esquecer o que passou e seguir em frente?
Na verdade, escrevi essa matéria baseada em mim, pois assim quem sabe, minhas leitoras me ajudariam a enxergar o que estava acontecendo comigo. Afinal, eu não sabia ao certo se estava tentando esquecer do João Pedro, ou se simplesmente estava fugindo do amor que ainda sentia por ele. Mandei a matéria para Fabi, que seria publicada apenas no próximo final de semana.
Outra semana se passou sem que eu tivesse notícias do João Pedro e de André, que não tinha me ligado mais, desde a noite que eu estive no café e não esperei por ele. Eu me sentia mal com isso, pois André era uma pessoa que me ajudava muito, aliás, eu devia a ele a casa onde eu estava.

25
Caro leitor

Naquele sábado, fui até o centro da cidade e me deparei com toda a decoração de natal. Havia me esquecido totalmente que o Natal estava se aproximando, e aquilo me deixou ainda mais nostálgica, pois era a época que eu, João Pedro e o Pedro mais amávamos. Saíamos as compras todas as noites e João amava mimar a mim e ao Pedro, chegando em casa semanas antes do natal, sempre nos dando presentinhos.
Uns dias antes da ceia, íamos para Bombinhas na casa de praia onde eu e João nos conhecemos, e lá passávamos tanto a ceia de Natal como a de Ano Novo. Mas dessa vez tudo seria diferente. Eu estava sozinha, sem minha família e sem nenhuma perspectiva do que fazer. Aliás, nenhum Natal no mundo teria sentido sem meu filho ao meu lado.
Vaguei pelas ruas de São Joaquim a esmo, sem ao menos me lembrar no que eu tinha ido fazer ali. Voltei para minha casa em questão de minutos e corri para meu quarto, onde havia guardado a caixa de fotos cheias de recordações do Pedro.
Vi várias fotos das ceias de Natal passadas, desde o primeiro Natal de Pedro, a felicidade minha e do João Pedro, assim como de Maria Helena e Zé Pedro era gritante.
Estava sentindo-me estraçalhada por dentro ao ver as fotos e relembrar daquela época tão feliz. A felicidade era tão grande, que eu achava que aqueles momentos seriam eternos. Mas a vida me deu uma rasteira, da qual estava sendo difícil me reerguer e seguir em frente. Doía demais começar uma nova vida, depois de ter sido tão feliz, e ter perdido tudo em tão pouco tempo.
Passei a tarde toda de sábado entregue as minhas lágrimas. Já não aguentava mais ficar dentro daquele quarto, então no final da tarde finalmente resolvi finalmente sair um pouco para correr. Corri por duas horas, mais ou menos e passei por perto do café de André, onde o vi de longe chegando em sua caminhonete, pensei em parar, mas não tive coragem.
Voltei para casa já estava escuro, tomei um banho e liguei para Malu.
Conversamos de tudo um pouco, mas eu percebi que Malu parecia diferente, era como se algo estivesse  a incomodando.
-Malu, aconteceu alguma coisa? Você está diferente.
-Não, claro que não. Só estou cansada. Hoje passei o dia todo atrás de roupas para a apresentação de balett da Mariah, e isso me deixa exausta. Falando nisso eu estive conversando com a Maria Helena e ela decidiu que esse ano não fará a ceia de Natal na casa de praia, ela também não está com clima para festas. Eu achei bom, pelo menos assim posso ver você aqui em Curitiba. Você vem para cá, não vem?
Suspirei sem saber o que responder, na verdade eu ainda não sabia o que iria fazer.
-Você vem, não é Alice?
-Sim, eu acho que sim, na verdade eu preciso ver com a minha mãe, mas confesso que estou totalmente sem clima.
-Eu sei Alice, mas é Natal e nós amamos você, não seria justo você nos negar isso.
-Tudo bem, vou ligar para minha mãe e combino alguma coisa com ela.
-Alice, eu sei que não vai ser a mesma coisa, aliás, será um Natal totalmente sem clima para todos nós, mas logo tudo isso irá passar, essa dor vai amenizar, você vai ver.
Ao ouvir Malu falando daquela maneira, não aguentei e comecei a chorar. Percebi o silêncio e em seguida ouvi Malu soluçar, chorando do outro lado da linha.
Sem mais clima para continuar nossa conversa, desligamos o telefone rapidamente.
Mais tarde naquela noite, fui acessar minha caixa de e-mail e confesso ter ficado surpresa com a quantidade de e-mails que havia recebido, após a revista ter chegado às bancas na sexta-feira, com a minha segunda parte da matéria. Eram dezenas e dezenas de e-mails, onde todas as leitoras davam seu ponto de vista. Achei até engraçado, era como se dessa vez elas estivessem esclarecendo o que eu estava passando. Li cada um deles, e a maioria achava que quando se tenta recomeçar uma vida em um lugar distante, é porque o amor ainda existe e nos deixa vulnerável.
Mas teve um dos e-mails que eu recebi que me deixou de pernas bambas, ninguém menos que João Pedro, havia escrito. Sim, era ele, o meu João, que havia lido minha matéria e me enviado um e-mail em seguida. Ansiosamente eu abri o e-mail que dizia:

Prezada escritora, li sua matéria e confesso ter ficado muito intrigado. Afinal, ao terminar seu texto, você nos deixa uma incógnita, pois não expressa sua opinião sobre o tema, deixando com que os leitores tirem suas próprias conclusões.
Em minha opinião, acho que quando um relacionamento não vai bem e começa a declinar, o mais sensato é que ambas as partes se atentem e se aliem para que juntos possam salvar o relacionamento. Creio que ao fugir, a pessoa fique propensa a cair em tentações e deixa seu parceiro sem saber como agir. Eu não estou atribuindo a culpa a apenas umas das partes, não me leve a mal, acredito que se o parceiro errou e arrependeu-se de seu erro, ele mereça uma segunda chance, afinal, todos merecem uma segunda chance. Mas se o outro decide fugir dos problemas ao invés de encará-los de frente, ele também tende a tropeçar nos mesmos erros que seu parceiro e aí os problemas acabam virando uma bola de neve. Mas enfim, é como eu disse, todos merecem uma segunda chance.
Agora eu lhe pergunto, em sua opinião, quando se decide recomeçar uma vida em um lugar distante ao término de um relacionamento, é para realmente esquecer o passado e seguir em frente ou para fugir dos seus próprios sentimentos?
João Pedro

Eu li e reli diversas vezes o e-mail que João Pedro havia me enviado. Fiquei sem ação, pois ele estava me colocando na parede. E ele queria uma resposta clara e objetiva.
Levantei-me ainda trêmula, fui até a cozinha e bebi um copo de água, era como se tivesse ganhando tempo para responder a temida pergunta dele, que nem eu sabia responder.
Voltei para meu escritório como se voltasse para um tribunal, onde eu daria meu depoimento. Sentei em frente ao meu notebook e comecei a digitar diversas respostas, mas ao final deletava todas elas.
Suspirei fundo pedindo luz para que através das minhas palavras eu conseguisse passar para o João tudo o que eu sentia. Então comecei a digitar um novo e-mail.

Prezado leitor, confesso ter ficado surpresa em saber que você esteja acompanhando meu trabalho, pois, eu mais do que ninguém sei o quanto você é uma pessoa ocupada, pois há alguns dias, me deixou plantada esperando para falar com você por horas. Mas enfim, você questiona o porquê eu não expressei de fato minha opinião. Saiba que este era o intuito da matéria, fazer com que os leitores tirem suas próprias conclusões e reflitam sobre elas. Isso não implica que cada pessoa tende a pensar de uma mesma forma, pelo contrário, recebi dezenas de e-mails e as opiniões eram muito diferenciadas.
Talvez você não deixe de ter razão, acredito sim que o casal precisa se unir quando se encontram em dificuldades, mas cada caso é um caso
Em minha opinião, quando um relacionamento no qual já não existe mais amor termina de fato, você pode recomeçar sua vida, dividindo o mesmo teto com seu ex-parceiro, pois nada que ele fizer atingirá você.
Mas esse não foi o meu caso, meu relacionamento terminou, mas o amor continua tão forte quanto antes, mesmo após tantos acontecimentos. Então decidi me afastar de tudo e de todos, mas descobri que não importa o quão longe eu esteja, pois, o amor continua ali, vivo. Mesmo assim, caro leitor, confesso que fugir dos meus sentimentos foi a única maneira que achei para seguir em frente. Errada ou não, pelo menos estou tentando.
Att. Alice

Li e reli meu e-mail para João, e eu uma escritora, sentia-me totalmente insegura em dar uma resposta coerente ao meu marido. Então fechei os olhos e enviei a resposta.
Fiquei parada em frente ao notebook esperando que talvez João Pedro pudesse me responder, mas algum tempo depois, levantei e desisti de esperar por uma resposta que certamente não viria. Fui para a sala e fiquei assistindo a um seriado, mas não conseguia parar de pensar se João havia lido ou não a minha resposta. Um tempo depois de lutar contra minha curiosidade, subi e acessei minha caixa de entrada do meu e-mail, mas não tinha nada de novidade.
Passei horas deitada em minha cama, pensando no que aconteceria se caso eu voltasse e encarasse de frente meus problemas, mas não me sentia forte o suficiente para isso. Sem conseguir dormir, resolvi levantar-me no meio da madrugada e continuar a escrever meu livro, a há dias não o escrevia.
As horas foram passando, e quando vi, o dia já havia chegado. Estava literalmente exausta, após passar horas e horas digitando. Só aí decidi deitar um pouco, onde dormi por horas seguidas. Essa era a única vantagem de se estar sozinha. Não tinha horário para nada, fazia o que queria, na hora que queria.
Acordei com o telefonema de Fabi, olhei para o relógio e vi que já passava das três horas da tarde do domingo. Fabi estava radiante, pois minha coluna estava sendo a mais comentada e a mais acessada da revista. Me parabenizou e me agradeceu por como sempre atender às expectativas dela.
Após tomar um banho e comer alguma coisa, sentei-me novamente em frente ao notebook e novamente não havia nenhuma mensagem de João Pedro, mas havia centenas de mensagens de outras leitoras.
Respondi algumas delas, e em seguida comecei a escrever minha nova matéria para a próxima revista, o tema fugia completamente de relacionamentos que davam em nada, queria evitar de expor minha vida a tantas pessoas.
Escrevi algo sobre filhos de pais separados, como era a visão deles sobre os relacionamentos, e em seguida o enviei para que Fabi analisasse. Depois voltei a escrever meu livro, onde novamente passei algumas horas em frente ao notebook.
Minha cabeça já estava doendo, foi aí que decidi sair para comer alguma coisa. Fui me arrumar, pois estava sentindo-me literalmente uma descabelada. Arrumei meus cabelos com o secador, coloquei um vestido preto e por cima uma jaqueta jeans, combinei com uma bota de cano curto; fiz uma maquiagem discreta e saí para ver um pouco de gente.
Parei em frente ao café de André era cerca de sete horas da noite, pensei um pouco antes de entrar, mas eu sentia falta de conversar com ele, então, quando dei por mim, já estava dentro do café procurando por uma mesa vazia.
Uma atendente levou-me até uma mesa, pedi um chope ela saiu em seguida. Olhei ao redor, mas não havia nem sinal de André. Duas canecas de chope depois, André entrou no café, olhou ao redor, conversou com a moça do caixa e entrou em seguida, acredito eu que para o escritório dele. Ele não havia me visto, mas eu tive medo que talvez ele tivesse apenas fingido não me ver. O garçom me levou a terceira caneca, e nesse momento André voltou e assumiu o caixa. Eu disfarcei, mas de repente nossos olhares se cruzaram, e quando ele me viu, involuntariamente abriu um largo sorriso, deixando-me mais aliviada.
Imediatamente ele chamou novamente a moça que estava no caixa de volta e caminhou até minha mesa.
-Alice, quanta honra você por aqui. Posso? Perguntou-me ele apontando para a mesa.
Eu sorri para ele e concordei com a cabeça.
-Estava passando por aqui e resolvi ver um amigo e não sei o porquê, mas simplesmente me abandonou.
André fitou meus olhos, mas depois desviou o olhar.
-Eu não quis mais forçar a barra. Sei lá, achei que você parecia sufocada com a minha presença constante. Tanto que foi eu me afastar um pouco e passei semanas sem ver você.
-Eu não me sentia sufocada com sua presença, apenas fui sincera com você, pois não queria me envolver com ninguém antes de resolver minha situação. Mas eu sinto sua falta, sinto falta de falar com você, sinto falta da sua amizade. Não queria que fosse assim, não quero ficar sem ver você, apenas por não estar pronta para uma relação.
-Eu também senti sua falta Alice, tanto que... (André fez uma pausa e riu em seguida) tanto que toda a noite quando saio daqui, passo em frente à sua casa, para ver se está tudo bem. Às vezes paro meu carro e fico de longe observando a luz do seu escritório ligada, e sei que naquele momento você só pode estar escrevendo. Então eu só quis dar a você o espaço que você estava precisando.
-Eu sentia vontade de vir até aqui para ver você. Mas tive medo de que talvez você não quisesse mais falar comigo, por isso não vim.
-Eu nunca deixaria de falar com você. Você se tornou alguém com quem eu sinto necessidade de conversar, sabia?
Eu ri. Aquele era o André do qual eu conhecia pouco, mas conhecia.
-Bom, mas e aí, me conta como está sua vida na nova casa, que aliás eu nem fui convidado para entrar quando fui ver você.
-Não, André, naquele dia eu entrei apenas para iluminar a casa, mas achei que você entraria atrás de mim, e quando saí para lhe chamar, você simplesmente tinha ido embora e depois não atendeu minhas ligações.
-Nossa Alice, aquele dia me senti muito mal, eu estava ali, sentado na área e você simplesmente entrou me deixando ali fora, plantado, achei que você quisesse que eu fosse embora, por isso eu fui. Saí de lá arrasado eu confesso, tanto que não atendi suas ligações.
-Me desculpa André, eu juro que nunca tive a intenção de magoar você, não você que só me ajudou; foi totalmente inocente o que eu fiz, tanto que quando vi que você não havia entrado, voltei para chamá-lo, mas você tinha saído.
André me encarou e em seguida segurou minhas duas mãos.
-Vamos esquecer isso então, pode ser?
-Claro eu sim, mas mesmo assim te peço desculpas novamente pelo mal-entendido.
André simplesmente balançou a cabeça concordando. Em seguida pediu um chope para ele e outro para mim. Conversamos por horas, e pela primeira vez em dias consegui enfim dar algumas risadas. Naquela noite, voltei para minha casa já estava bem tarde, André até queria me acompanhar, mas quando estávamos saindo o telefone dele tocou e ele precisou correr até o hotel resolver um problema de um funcionário.
Mais tarde ele me ligou preocupado, pois queria saber se eu tinha chegado bem em casa, mas eu já estava deitada, então combinamos de nos falarmos no dia seguinte.
No dia seguinte, liguei para André e o agradeci novamente pela noite passada e pela preocupação dele em saber se eu havia chegado bem em casa. Então o convidei para jantar em minha casa, pois me sentia na obrigação de convidá-lo formalmente para conhecê-la. André aceitou o convite no mesmo instante.
Trabalhei um pouco em meu livro, pois já estava quase nos capítulos finais e verifiquei novamente meus e-mails, mas ainda não tinha notícias do e-mail de João.
  
26
Desencontros

No final da tarde, fui até o supermercado e comprei as coisas que precisava para o jantar. Assim que cheguei, Malu me ligou para saber se eu havia falado com João Pedro, pois ele passou de lá todo feliz para falar com o Bruno, então eu corri verificar novamente minha caixa de entrada e me deparei com um e-mail de João Pedro. Mais uma vez senti minhas pernas tremerem e abri o e-mail que dizia assim:

Alice, já não aguento mais essa situação. Dói demais ficar sem ver você, sem saber o que você faz, e sem saber como você está. Eu não vou negar que quando fui até aí, fiquei cego de ciúmes, pois eu nunca esperava encontrar você com outra pessoa, e depois disso me coloquei em seu lugar e percebi o quanto você deve ter sofrido quando meu viu com aquela garota.
Hoje sinto que não me encaixo em lugar nenhum sem você, não me vejo no futuro sem você, mas só sei que se esse for meu destino, com certeza ele será muito triste.
Amo você. Espero que pense nisso e pare de fugir dos seus sentimentos, pois decidi não fugir mais dos meus.
Para sempre seu, João Pedro.

Meu coração se encheu de esperança ao ler aquelas palavras, e quando li para Malu o que João havia escrito, ela também ficou radiante.
Assim que desliguei o telefone, não sabia o que pensar, não sabia se ligava para João, ou sem simplesmente ficava na minha. Meus dedos me traíram e quando vi já estava discando o número do celular dele, mas só caia na caixa postal, liguei novamente e novamente, caixa postal novamente.
Liguei então no Ministério Público, mas não havia mais ninguém lá. Pudera, já passava das seis horas, e eu ainda tinha um jantar para preparar.
-Ai, o jantar! Caramba! Pensei comigo mesma, me arrependendo de ter convidado o André para ir até lá, justo naquela noite que eu estava tão confusa ao ver o e-mail do João.
Pensei em ligar para André cancelando, mas ficaria muito chato se fizesse isso. Então desci, e fui preparar o tal jantar. Depois de preparar todos os ingredientes; arrumei a mesa onde coloquei uma garrafa de cristal com algumas flores naturais, coloquei um bom vinho para gelar e em seguida corri tomar um banho.
Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo, coloquei uma saia em leque preta e branca e uma blusa preta de mangas ¾, coloquei um scarpin preto de salto baixo e fiz uma maquiagem nude e bem discreta.
Por volta das oito horas a campainha tocou, era o André com um buquê de flores em uma mão e um vinho em outra mão.
-Boa noite! Ele disse todo sorridente.
Eu ainda estava nervosa com o e-mail do João Pedro, mas não quis transparecer.
-Boa noite! Falei dando-lhe um meio sorriso. –Entre e sinta-se à vontade.
André me entregou as flores.
-André, que lindo, mas não precisava se incomodar.
-Alice, não foi incomodo algum. Só porque somos amigos, não significa que não posso dar-lhe flores.
-Tudo bem. Eu disse sorrindo. –Vou colocá-las em um vaso. Disse saindo em seguida.
Em seguida, chamei André para subir e mostrei a ele como havia ficado os cômodos, depois que eu tinha colocado minhas coisas. André adorou cada coisa e disse ter ficado surpreso de como a casa havia mudado com minha nova decoração.
Depois descemos e André foi nos servir o vinho que ele havia levado. Foi quando a campainha tocou. Eu o olhei preocupada, talvez alguém soubesse que ele estivesse lá e estava o procurando. Mas ele também me olhou sem entender.
-Você está esperando mais alguém? Ele indagou.
-Não! Respondi imediatamente.
Ele continuou na cozinha abrindo a garrafa de vinho e eu fui até a sala atender a porta. Abri a porta e me deparei com João Pedro do lado de fora, parado, com as mãos nos bolsos de sua calça jeans, olhando em meus olhos e abrindo um lindo sorriso ao me ver.
Senti minhas pernas amolecerem imediatamente, meu coração disparou, minha boca secou.
-João Pedro? Falei parecendo assustada.
Ele sorriu ainda mais.
-Demorei mais achei você.
Eu sorri, não sei se foi de nervoso ou felicidade.
-Alice, eu precisava ver você, falar com você, não estava mais aguentando de tanta saudade.
Fiquei totalmente inerte. Podia ouvir meus batimentos cardíacos a vários quilômetros de distância.
-João, eu...
-Não vai me convidar para entrar? Ele falou todo inocente.
Nesse momento André foi até a porta ver o que estava acontecendo. Quando João viu André chegando atrás de mim, seus olhos ficaram paralisados. Ele parecia totalmente desorientado, assim como eu.
-Alice, me desculpa, eu não tinha ideia que você estava com visita. Fui um tolo, devia pelo menos ter ligado para você. Mas é que meu celular está totalmente sem bateria.
-Não João! Não é o que você está pensando.
João Pedro balançou a cabeça em tom de negação e soltou um riso sem graça. Olhei para André que também ficou sem reação.
-Alice, eu volto uma outra hora. Disse André parecendo chateado.
-Não, tudo bem. Depois eu falo com você Alice. Disse João saindo em seguida.
Olhei para André sem saber o que fazer. Mas quando eu vi João Pedro descendo as escadas da área, com a cabeça baixa e as mãos nos bolsos da calça; corri atrás dele sem pensar.
-João Pedro, espera. Vamos conversar, não é o que você está pensando. O André apenas veio conhecer minha casa. Nós não nos víamos há dias. Foi justamente hoje que eu o encontrei e o convidei. Mas somos apenas amigos.
-Alice, não se preocupe. Você não me deve nenhuma explicação. Eu quem deveria ter ligado para você antes. Mas depois que lhe enviei aquele e-mail, simplesmente não me controlei mais e corri para cá.
Ele riu nervosamente.
-Mas depois a gente se fala.
João Pedro deu de ombros e saiu em direção a um Honda que era provavelmente alugado. Quando ele abriu a porta do carro, eu a segurei impedindo-o de entrar.
-João Pedro, por favor, não vá embora. Nós precisamos conversar.
Ele me olhou e eu pude sentir uma tristeza sem fim nos olhos dele.
-Alice, você está com uma visita lá dentro. E quer saber, você mesmo disse que estava tocando sua vida, e é isso que você está fazendo, e você está certa. Eu... (ele fez uma pausa) só achei que talvez pudéssemos tentar outra vez, mas não é tão simples assim.

João inclinou-se e me beijou o rosto e em seguida entrou em seu carro. Senti meu coração doer de tristeza. Ele me olhou, deu partida no carro e saiu em seguida.


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