Parte 11
20
A casa nada convencional
André ligou o
ar quente do carro enquanto eu dirigia.
-Alice, não
querendo abusar da sua boa vontade, mas hoje eu não vou para o hotel vou para a
minha casa, mas é perto daqui.
-Ah, tudo
bem.
Então dirigi
pelo caminho que André foi em ensinando, até que saímos da cidade e estávamos
em uma estrada perto das montanhas. A chuva começou a aumentar, tanto que o
para-brisa estava no máximo.
-Você se
esconde por um acaso?
Ele riu.
-Está
chegando, só virar à esquerda e na próxima à esquerda novamente.
Estávamos em
uma estrada de terra, não que fosse muito longe do café, mas era um lugar
totalmente isolado. Então eu vi uma clareira e entrei.
-É bem ali.
Ele disse apontando para frente.
A chuva
estava um pouco forte, mas pude ver um motorhome bem próximo de nós.
-Eu não
acredito! Você mora aqui, em um trailer, motorhome, sei lá. Mas aqui no meio do
nada?
-É meu
paraíso isso aqui. Ele respondeu imediatamente.
Parei meu
carro ao lado do motorhome, a chuva ainda estava forte, André olhou para mim
parecendo divertir-se com minha cara de espanto.
-Vem, vamos
conhecer minha casa.
-Não, está
tarde, mas eu venho outro dia. Respondi timidamente.
-Alice, o que
tem demais, vem, é rápido. Ele disse abrindo a porta do carro e saindo correndo
em seguida.
Meu Deus que
loucura é essa! Vou ou não vou? Pensei comigo mesma.
Olhava para
fora e via André fazendo sinal para que eu descesse, eu ri de mim mesma, então
abri a porta e corri em direção a ele. A chuva estava fria e o ar congelante.
André veio em minha direção, abraçando-me, tentando me proteger da chuva e
imediatamente abriu a porta de sua casa pouco tradicional e meu queixo caiu
assim que entramos. A casa nada tradicional de André era toda decorada em
branco e amadeirado, era espaçosa, moderna e luxuosa. Olhei tudo atentamente
sem acreditar no que eu estava vendo, não que eu nunca tivesse visto um antes,
mas não como aquele.
-Caramba,
André, não acredito, é maravilhoso. Disse encantada.
-Não é? Ele
disse orgulhoso. Saiu em seguida, caminhando até o final do corredor, indo
possivelmente a um quarto.
Eu olhava ao
redor, vendo aquela casa sobre rodas em meio aquele bosque, sem vizinhos, sem
barulho, sem sequer um ponto de luz ao redor. Era um verdadeiro paraíso. André
voltou rapidamente com uma manta.
-Vem aqui,
você está toda molhada. Ele disse colocando a manta sobre mim.
Estava tão
encantada que nem sentia o frio em meu corpo.
-Obrigada
André. Disse segurando a manta. –Eu simplesmente amei, você já saiu por aí com
ele?
-Apenas uma
vez, fui com minhas filhas para uma praia. Mas depois disso não saí mais. Mas
se você quiser, poderíamos tirar uns dias. Ele disse maliciosamente.
-Você deve
fazer esse convite para todas as mulheres que vêem a sua casa.
-Eu raramente
trago alguém para cá. Esse é meu canto, jamais correria o risco de perder minha
privacidade, meu sossego.
Nesse momento
eu percebi que André estava jogando comigo, ninguém poderia ser tão perfeito
assim como ele se dizia. Ele tinha todas as chances de ser um homem de diversas
mulheres sim, nada o impedia, não era casado, suas filhas moravam longe, além
de ser lindo, atraente e com uma posição social muito boa. Então era óbvio que
ele só queria me conquistar e me levar para cama.
Eu o olhei
intrigada, tentando adivinhar o que se passava na cabeça dele, enquanto ele me
secava com os olhos. Olhei para fora e vi que a chuva já estava diminuindo, era
hora de ir embora antes que eu não respondesse mais por mim.
-Bom André,
meus parabéns, sinceramente fiquei surpresa com esse lugar; é perfeito, lindo,
calmo, então confesso que você me surpreendeu mais uma vez, mas eu realmente
preciso ir embora. Falei tirando a manta na qual eu estava enrolada.
-Alice, a
chuva ainda está forte, fique aqui essa noite.
Olhei
incrédula para ele.
-Não, não
pensar.
André chegou
tão perto de mim que eu podia sentir a respiração dele em minha pele.
-Você
realmente não confia em mim, não é mesmo? O que eu poderia fazer para você me
dar um voto de confiança?
-Se eu não
confiasse em você, eu nem estaria aqui, pode ter certeza. Eu não costumo
visitar homens dos quais eu não confio nem um pouco, no meio da madrugada. Eu
só preciso ir embora, estou cansada, e você também. Nos vemos amanhã, é sério.
André apenas
concordou com a cabeça sem dizer mais nada. Eu fui em direção a porta, peguei
minha chave e saí em seguida. Quando estávamos do lado de fora, André me puxou,
virando-me de frente para ele.
-Obrigada por
essa noite, você não faz ideia do quanto me deixou feliz quando eu vi você
chegar no café.
Eu sorri
sentindo-me lisonjeada.
-Eu também
fiquei muito feliz em poder ajudar você. Me despedi em seguida e corri em
direção ao meu carro.
André
observou cada movimento meu e ficou me olhando até perder meu carro de vista.
Voltei para o hotel sentindo-me estranhamente envolvida. Eu sabia que se eu
quisesse, acabaríamos nos envolvendo com certeza, mas não era isso que eu fui
buscar em São Joaquim. Eu buscava paz, não mais problemas.
Cheguei em
meu quarto cansada demais para me questionar, mas acontece que eu não conseguia
mais deixar de pensar no assunto; não conseguia esquecer do quanto ele estava
gentil e eu fechava meus olhos e pensava nos olhos dele sobre mim. Mas aí então
eu também pensava no João Pedro, afinal ele era parte de mim e sinceramente não
me imaginava com outro homem.
As
comparações entre André e João eram inevitáveis. Os dois pareciam muito iguais
em alguns aspectos, mas totalmente diferentes em outros. Não sabia explicar o
porquê, mas João Pedro me inspirou segurança assim que eu o conheci, tanto que
não liguei em nenhum momento em deixar oito anos de namoro para ficar com ele.
Ele era o oposto de Otávio, era alguém que me identifiquei de cara, era doce,
sedutor, romântico e seus olhos transbordavam sinceridade. João Pedro era
alguém transparente e foi assim ao longo dos anos que convivemos juntos. Agora
André era um homem sedutor, envolvente, atraente, porém parecia misterioso, não
me parecia transparente o bastante para que eu sentisse confiança nele. Não que
ele não fosse uma pessoa boa, talvez era apenas uma tática para seduzir as
mulheres das quais ele estivesse interessado.
Dormi pouco
tempo depois da minha análise sobre o desconhecido que estava tirando meu
sossego. Mas meu corpo começou a gritar bem cedo, sentia necessidade de sair
para uma corrida, que era algo que eu precisava fazer quando estava tensa.
Então levantei-me ainda bem cedo, coloquei minha roupa de corrida e saí para
minha sessão terapêutica ao ar livre, voltando para o hotel pouco mais de duas
horas depois.
Depois de um
banho desci até a recepção do hotel e deixei minhas estadias até a próxima
segunda-feira pagas, já que nesse dia sairia logo após o almoço para ir para
Florianópolis. Em seguida fui tomar meu café da manhã e dei de cara com André
sentado na mesma mesa que eu o vi da primeira vez. Passei por ele dando apenas
um sorriso e ele fez o mesmo, porém, com uma piscadinha de brinde. Servi-me de
suco de laranja, queijos, presunto e duas torradas e fui em direção as mesas.
André me olhou e fez sinal para que eu me sentasse com ele, fiquei sem jeito em
negar, caminhei sem graça até a mesa onde ele estava e me sentei.
-Bom dia,
André.
-Bom dia
Alice, dormiu bem?
-Dormi sim,
estava cansada, então apaguei. Só acordei cedo para não perder o costume de
correr.
André me
observava enquanto tomei um gole do meu suco.
-E você
dormiu bem? Perguntei fitando-o com os olhos.
-Hum, poderia
ter dormido melhor, mas até que sim, acho que você deixou bons fluídos em minha
casa.
-Oh,
obrigada. Falei dando-lhe um sorriso.
-Alice, eu
estava pensando em fazer um passeio com você hoje à tarde. Tem umas cachoeiras
lindas por aqui, seria legal que você conhecesse, e eu gostaria de mostrá-las a
você.
Eu
rapidamente pensei nos prós e nos contras, mas em minha cabeça, só os contras
vinham em minha mente. Tomei um gole do meu suco, tentando ganhar mais alguns
segundos para responder.
-André, eu
até gostaria. Mas hoje eu não estou muito no clima. Eu também tenho umas coisas
para fazer, então...
-Não, tudo
bem! Sem problemas. Quando quiser ir é só me avisar.
Eu sorri sem
graça e ele não disfarçou a decepção.
Um dos
garçons se aproximou de nós.
-André, sua
filha está no telefone.
-Estranho,
porque ela não ligou no meu celular?
O garçom fez
que não sabia.
-Tudo bem, eu
estou indo.
Ele olhou
para mim parecendo preocupado.
-Alice, me dá
um minuto?
-Claro que
sim.
Ele saiu para
atender a filha e eu agradeci aos céus por poder ficar sozinha. Mais tarde
liguei para Malu e conversamos muito. Ela me disse que na noite anterior, João
Pedro viajou com o pai e o irmão; o que me deixou mais tranquila, pois eu sabia
que João Pedro estava em excelente companhia. Porém, Malu me disse que João não
parecia nenhum pouco feliz, implorou a ela o meu novo número de celular, mas
ela jurou que não sabia, o que o deixou ainda mais para baixo. Pensei em ligar
para ele, desejando-lhe uma boa viagem, mas isso poderia deixá-lo ainda pior,
então não o fiz.
Sentei na
cama e comecei a rever fotos do Pedro e do João, aquilo me estilhaçou por
dentro. Ver aquele sorrisinho me fazia lembrar do quanto eu estava vazia e
totalmente sozinha.
Devo ter
ficado horas deitada em posição fetal, chorando feito louca, até que peguei no
sono. Acordei já era tarde, tomei um banho e desci com meu notebook para
escrever um pouco. Escrevi horas afinco, sem que nada me atrapalhasse. Mas
quando já estava anoitecendo, meus amigos chegaram de um passeio, fazendo a
maior algazarra.
-Alice, que
bom que está aqui. Disse Elza vindo de encontro a mim. –Vamos subir e tomar um
banho, mas logo desceremos para jantar e em seguida iremos jogar. Você está
dentro?
-Com certeza.
Respondi sem hesitar.
-Excelente!
Ela disse saindo em seguida.
E foi o que
fizemos. Após o jantar passamos horas e horas jogando. Foi a primeira vez que
eu ri tanto desde a partida do Pedro. Eles eram pessoas maravilhosas. Em grupo
de dez pessoas, todos na melhor idade e bem mais ativos do que eu. Eu adorava
ficar na companhia dele.
Por volta das
onze horas da noite, André apareceu no hotel, passou por nós e nos cumprimentou
de longe, indo para o escritório. Alguns minutos depois ele retornou e
juntou-se a nós.
Eu estranhei
o fato dele estar ali, afinal, uma noite de sexta-feira, com certeza o café
estava lotado, mas preferi não dizer nada. André jogou algumas partidas com a
gente, mas logo o grupo deu os primeiros sinais de cansaço. E minutos depois
subiram para seus quartos, deixando apenas eu e André.
Ele olhou
para mim parecendo triste.
-Aconteceu
alguma coisa? Indaguei.
-Então você
vai embora segunda-feira?
Olhei confusa
para ele.
-Na verdade
eu ainda não sei como vai ser daqui para frente, mas é que na terça-feira eu
preciso estar em Florianópolis porque tenho um congresso da revista que durará
a semana toda. E não posso perder de maneira nenhuma. Meu emprego depende
disso.
André desviou
os olhos de mim e abaixou a cabeça.
-Você não me
disse em momento algum que ficaria tão pouco tempo.
-Não, é que
na verdade eu ainda não sei o que vou fazer depois desse congresso, mas é bem
provável que eu volte para cá novamente por mais uns dias, eu... (fiz uma
pausa) eu ainda não sei o que fazer, mas eu preciso resolver minha vida também.
Falei dando um suspiro.
André ficou
em silêncio. Caminhou até a porta de correr que dava para o jardim, ficando de
costas para mim, mas depois voltou vindo em minha direção.
-Você tem
razão, precisa resolver sua vida. Só espero que você considere a possibilidade
de sei lá, ficar por aqui.
Eu soltei um
riso triste, na verdade não era uma possibilidade ficar em São Joaquim, pois
minha vida era em Curitiba.
-Bom, eu
preciso escrever mais um pouco. Disse levantando-me em seguida.
-Ah sim, eu
também preciso voltar para o café, deixei a Silvinha sozinha, mas vejo você
amanhã.
Concordei com
a cabeça e dei-lhe um sorriso tímido. Liguei para minha mãe assim que cheguei
em meu quarto e passamos longos minutos nos falando. E sim, o assunto principal
era o João Pedro. Ela me contou que ele esteve no apartamento dela diversas
vezes e cada dia mais arrasado. E que mesmo viajando com Zé Pedro e Bruno, ele
ligou para ela para saber se eu havia dado notícias.
Na manhã
seguinte, após minha corrida e meu banho, desci para tomar meu café e vi André
sentado ao lado de duas belas garotas. Assim que ele me viu, virou-se para mim
e abriu um largo sorriso. Fiquei sem reação, afinal, ele estava acompanhado.
Depois que me
servi de um suco de maçã e algumas frutas, André fez sinal para que eu me
aproximasse deles. Coloquei a bandeja sobre uma mesa e em seguida fui até eles.
-Bom dia
Alice, essas são as minhas filhas. Ele disse apontando as garotas.
Uma delas
abriu um largo sorriso assim como o de André, a outra me olhou franzindo o
o cenho.
-Essa é a
Mirela. (Ele disse apontando para à garota sorridente), e essa é a Lavínia (a
garota séria).
-Olá,
meninas, bom dia. Eu sou a Alice.
-Já sabemos
quem você é! Disse Lavínia sem ao menos olhar em minha direção.
-Bom dia
Alice, como vai? Perguntou-me Mirela.
Estava com as
pernas trêmulas, não sabia ao certo o porquê, mas provavelmente era pelo fato
de estar conhecendo as filhas de André.
-Tudo bem
Mirela, é um prazer conhecê-las.
-Meu pai
disse que você é escritora, quando eu soube que era você eu nem acreditei, eu
li seus livros e acompanhava sua coluna na revista.
-Sério? Eu disse surpresa. –Fico imensamente feliz em saber disso.
-Mirela, anda logo com isso, que eu quero sair com o papai. Disse
Lavínia secamente.
-Bom eu vou tomar meu café da manhã, não quero atrapalhá-los. E André
parabéns pelas suas filhas, são lindas.
Lavínia me olhou balançando a cabeça com desdém, Mirela sorriu ainda mais.
Eu saí e voltei para minha mesa onde não sei nem de que jeito tomei meu café da
manhã.
Uma coisa era certa, Lavínia, a filha de André me odiava.
Naquele dia, passei a tarde toda escrevendo em meu quarto. No final da
tarde, bateram na porta do meu quarto, assim que abri a porta, vi Dona Elza
toda tímida, que foi me chamar para uma partida de cacheta.
Jogamos inúmeras partidas na sala de jogos do hotel. Começamos com
cacheta, depois tranca, pôquer e por último truco. Paramos já era tarde da
noite para fazer um lanche, e em seguida todos fomos dormir.
Minha vida havia se resumido em comer, dormir, escrever e jogar cartas.
21
Você precisa me ouvir!
Minhas coisas estavam quase todas prontas já estava quase na da hora do
almoço, mesmo assim, desci um pouco para usar a piscina do hotel. Assim que
cheguei na piscina aquecida, me deparei com Lavínia debruçada na borda da
piscina, que fez careta ao me ver. Eu não tinha como voltar atrás, pensei até
em disfarçar e voltar para o quarto, mas ficaria ainda mais chato.
Então tirei minha roupa e entrei na piscina, ficando do lado oposto
dela. Dei um mergulho e voltei onde eu estava, então ela se virou para mim.
Eu sorri e acenei para ela, mas ela me ignorou por completo.
-O que eu faço? O que eu faço? Perguntava para mim mesma.
Suspirei fundo e mergulhei até a tal garota. Quando ela me viu se
aproximar, arregalou os olhos descrente.
-E aí Laís, como vai? Perguntei dando a ela meu melhor sorriso.
-Bem até agora, por quê?
-Você não deveria ter vindo até aqui, sua boba. Pensei comigo mesma.
-Não, por nada. Só quis ser educada. Eu disse sem graça.
-Você está saindo com meu pai? Ela disse sem rodeios.
Olhei assustada para ela, sem saber o que dizer.
-Por que você está perguntando isso?
-Porque eu não sou boba. Eu vi a maneira que ele olha para você, e vi
como ele falou sobre você. E você também pareceu bem desconcertada na frente
dele.
-Não, você está enganada. Quer dizer, nos conversamos algumas vezes sim,
mas não aconteceu nada entre nós. Eu estou aqui apenas há uma semana, e estou
indo embora. Seu pai foi muito gentil e é uma pessoa maravilhosa, e confesso
que nos tornamos amigos, mas não passa disso.
Lavínia me olhou sem entender.
-Sério? Você e meu pai (ela fez uma pausa) não rolou nada.
Eu sorri.
-Não, pode ficar tranquila. –Vou te confessar uma coisa, na verdade eu
vim para cá, porque precisava pensar um pouco sobre minha vida. Eu perdi meu
filho há alguns meses e meu casamento desde então entrou em crise. E eu vi meu
marido com outra garota, e doeu e confesso que está doendo demais. Então eu
meio que fugi para cá, assim, sem saber para onde ir. Mas agora eu preciso
voltar e encarar de fato o que eu devo fazer.
Lavínia me olhou perplexa. E eu fiquei ainda mais perplexa com a minha
sinceridade que tinha acabado de escorregar pelos meus lábios.
-E o que você vai fazer?
Eu ri sem graça.
-Aí que está o problema, eu ainda não sei o que fazer. Meu marido estava
beijando outra mulher em um barzinho, e eu os vi. Sei que depois disso não
aconteceu mais nada, porque ele me viu e.... bom enfim...eu não sei o que
fazer, mas eu preciso voltar. Tenho que trabalhar e minha vida inteira está em
Curitiba.
-Alice, me desculpa, eu não sabia e ainda por cima fui extremamente
indelicada com você.
-Não precisa se desculpar. É seu pai e você está tentando protegê-lo. E
você está certa, porque ele é uma pessoa muito legal e pelo pouco que eu
conversei com ele, percebi que ele ama muito vocês.
-É, nós decidimos vir visitá-lo sem avisá-lo por isso mesmo. Acho que
não estamos demonstrando e o quanto amamos ele, sei lá, talvez ele precise mais
da nossa presença, eu até estou cogitando a possibilidade e voltar para cá.
Ajudá-lo com o hotel e com o café, não sei, ainda não decidi, mas estou pensando
seriamente.
-Sinceramente acho que ele iria amar em ter as filhas por perto.
Ela sorriu e calou-se, talvez analisando as possibilidades.
Alguns minutos depois Mirela chegou e ficamos conversando sobre o
romance que escrevi. Fiquei com as meninas na piscina por algumas horas e
depois saímos para almoçar.
No restaurante, quando André chegou, mal podia se caber de felicidade me
ver sentada ao lado das filhas dele. Ele sentou-se com a gente e aprecia não
acreditar que aquilo estava acontecendo.
Assim que terminamos, eles me convidaram para fazer um passeio em uma
cachoeira. Eu recusei o convite, pois não queria atrapalhar aquele momento
entre pai e filhas. Só que Lavínia (para meu espanto), e Mirela insistiram
incansavelmente para que eu fosse, e mais uma vez me vi em uma saia justa e
acabei cedendo ao convite, afinal, não teria nada demais sair com o André e as
filhas.
No caminho para a cachoeira, Lavínia que estava sentada no banco da
frente da caminhonete de André, virou para mim.
-Alice, quando você vai embora?
André me olhou pelo retrovisor parecendo surpreso.
-Eu ainda não sei, mas mais tardar amanhã, porque eu tenho um congresso
na terça-feira logo pela manhã em Florianópolis.
-Nossa, mais já? Achei que você ainda ficasse essa semana aqui com a
gente.
Disse Lavínia parecendo chateada.
Eu disfarcei e olhei para André que mudou o semblante.
A tarde na cachoeira foi excelente. Nadei com as meninas, tiramos
inúmeras fotos, rimos muito. André parecia chateado, mas tentou disfarçar ao
máximo. Na volta paramos no café, onde ficamos até anoitecer. Quando voltamos
para o hotel, o celular de Lavínia tocou e ela saiu de perto para atender.
Mirela também saiu repentinamente do estacionamento, como se quisesse me deixar
com André para trás. Eu o esperei estacionar a caminhonete e em seguida ele
veio em minha direção, me pegando pela mão e me levando para um canto mais
escuro.
-Alice, eu preciso fazer uma coisa senão vou ficar louco.
Eu suspirei com dificuldade, pois estava entre ele e a parede.
-André, é melhor não...
-Você está me tirando do sério. Eu não sei o que aconteceu comigo, mas
não consigo mais tirar meus olhos de você e quando não estou perto, fico
arrumando motivos para te ver.
André olhou para mim, e aproximou-se ainda mais de mim.
-Quando eu vi você com as minhas filhas, eu não acreditei, você não tem
ideia do quanto me deixou feliz, ver vocês se dando tão bem.
-Eu gostei muito delas. Falei sem hesitar.
Respirei com dificuldade e meus olhos se cruzaram com os olhos dele.
Senti minha vista escurecer. Eu queria sair correndo dali, mas ao mesmo tempo,
queria beijar os lábios dele.
Ele me encarou e sem que eu visse, já estava me beijando. A princípio
pensei em relutar, mas depois acabei cedendo. Só que alguns minutos depois
minha consciência pesou demais. Quando eu fui afastá-lo de mim, para não ser
flagrada por uma das filhas dele, ouvi uma voz, muito mais do que familiar
chamar pelo meu nome.
-Alice?
Eu dei um pulo e olhei em seguida, e quando vi, não pude acreditar. Era
João Pedro parado em minha frente, me pegando em flagrante beijando André.
-João Pedro? O que você está fazendo aqui?
João me olhou com ódio nos olhos. Foi a primeira vez que eu o vi me
olhar daquela maneira. Talvez ele tivesse sentido aquele ódio em meu olhar por
meses, desde a morte do nosso filho, até quando eu o flagrei com a tal garota.
E confesso que doeu demais sentir o desprezo vindo dele.
-O que eu estou fazendo aqui? O que você está fazendo aqui? Com esse
cara?
André se afastou de mim, como se quisesse se explicar.
-Olha, me desculpe, mas a culpa foi toda minha. Disse André exasperado.
-Cala sua boca, não perguntei nada a você. Meu assunto é com ela. Disse
João.
-João, o André é um amigo, é só isso. Vamos conversar que eu te
explicarei.
-Amigo? Então é assim que você faz com seus amigos? Você vem para esse
fim de mundo, sem dar sinal de vida, para se vingar Alice? Você quis pagar na
mesma moeda e se tacou nos braços do primeiro cara que você viu pela frente! É
essa a explicação. Não tem mais nada a
ser dito, é como você disse, nosso casamento acabou, mas só agora que eu estou
me dando conta.
João Pedro me deu as costas e saiu pisando duro.
-João, volta aqui. Eu disse indo em direção a ele.
Ele não olhou para trás.
-João Pedro. Eu o chamei e segurei no braço dele.
João olhou para mim e eu pude ver as lágrimas rolarem uma atrás da outra
dos olhos dele.
-Alice, eu juro que corri para cá, na esperança de levar você para nossa
casa. Estava disposto a fazer tudo o eu você quisesse para te fazer feliz.
Sofri feito um louco todos esses dias sem saber de você. E sim eu mereci, mas
aí chego aqui e descubro que você saiu para um passeio. Te esperei durante
horas e quando descubro que você chegou, venho até a porra desse estacionamento
e pego você nos braços desse cara. Um cara que você nunca viu na frente. Ou
será que vocês já se conheciam, e eu que não sabia de nada.
-Não João, você sabe que não. Eu conheci o André aqui, faz uma semana.
Ele é um amigo, como eu te disse, e não aconteceu nada entre nós, eu juro.
João me pegou pelos braços e me chacoalhou em seguida.
-Eu vi você nos braços dele, e quer saber? Você correspondia muito bem
aos beijos dele. Você me disse isso há alguns dias, lembra? E me amaldiçoou por
uma semana, sem saber de você, se você estava bem, onde você estava. Eu quase
morri sem você todos esses dias Alice, quase morri de tristeza, pois tudo tinha
sido por minha culpa. E em menos de uma semana você está aos beijos com outro
cara? Que espécie de casamento é esse? Olha onde nós chegamos. Eu errei, errei sim. E confesso que me
arrependo arduamente por isso. Mas eu nunca imaginei que você agiria dessa
forma.
-João, vamos conversar. Vamos sair daqui eu preciso que você me escute.
Eu escutei você quando tudo aquilo aconteceu, agora sou eu quem peço para que
você me escute.
-Você me escutou, mas me abandonou na manhã seguinte. Eu vou ser mais direto, não irei esperar até
amanhã, Alice.
Ele disse me soltando.
-Eu vou embora agora. Acabou.
João saiu, não sei dizer como, nem por onde. Mas quando eu vi, eu estava
sozinha naquele estacionamento, chorando. Senti uma mão em meus ombros, e
quando me virei na esperança de ser João, vi André aflito.
-Alice, eu nem sei o que dizer.
Fiz sinal para ele não me dizer nada. E saí em direção ao meu
quarto. Onde fiquei trancada e chorando
por horas. Então percebi que mais uma vez minha vida estava passando por uma
nova mudança. E sim, meu casamento tinha desmoronado de vez.
Liguei para Malu, e ouvi o sermão dela por minutos. Ela tinha tentado
falar comigo a tarde toda. Mas eu não tinha levado meu celular. Ela sabia que
João Pedro havia descoberto onde eu estava, pois eu caí na besteira de pagar a
conta do hotel com meu cartão de crédito, e ele acessou o site do banco assim
que chegou da pescaria com o pai e o irmão, e viu que eu tinha finalmente usado
o cartão, e com isso soube exatamente onde eu estava. Malu me disse que ele
fretou no mesmo instante um avião e alugou um carro aqui na cidade, e que havia
chegado no início da tarde, pois ligou para Bruno todo animado assim que
chegou, avisando que tinha encontrado o lugar e que era onde eu realmente
estava hospedada. Conversei com Malu por horas, e até antes de desligarmos, ela
ainda não sabia nem uma notícia de João.
Tomei um banho e tive a ideia de dar uma rodada na cidade atrás de João
Pedro. Andei por horas, mas não tive nenhum sinal dele. Então voltei para o
hotel arrasada. Já era tarde da noite, alguém bateu na porta do meu quarto. Fui
atender toda esperançosa, mas quando vi era André.
-Alice, eu sei que é tarde, mas eu não consigo parar de pensar em você.
E eu ferrei com tudo, me desculpa, eu te imploro?
-André, não foi sua culpa. Na verdade, eu estava errada, não deveria ter
ido a esse passeio com vocês, era um dia só de vocês, eu tinha que ter seguido
meus instintos e ter ficado. Talvez até ter ido embora, sei lá. A culpa foi
minha também. Mas não se preocupe, eu não estou com raiva de você de hipótese
alguma. Agora eu só preciso dormir, amanhã a gente se fala, pode ser?
André ficou nitidamente chateado e preocupado. Mas concordou no mesmo
instante.
-Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, é só me falar.
Eu soltei um riso triste.
-Obrigada!
Instante depois estava deitada, com os olhos estatelados sem conseguir
dormir, e foi assim a noite toda, chorando sem parar.

agora quem tem que perdoar é ele ,porque ela foi longe demais com essa história .......................
ResponderExcluirQue dó do João.....
ResponderExcluirMinha nossaaaaaa kkkkk..... sem comentários..... mais uma vez, acho que Alice e João merecem ficar juntos, mas está bem difícil não. ? Vou aguardar ansiosamente, a próxima postagem.
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