" Recomeços "
Parte 18 - Final
Assim
que cheguei em frente ao requintado espaço de festas, o manobrista levou meu
carro para estacionar. Olhei ao meu redor e não vi ninguém conhecido.
Me senti
como quando eu voltei do aeroporto para a casa de praia em Bombinhas, onde
conheci o João Pedro, mas dessa vez sabia que ele não estava esperando por mim,
ou talvez tivesse. Deu meu nome para a recepcionista e entreguei a ela um
envelope com um cheque, já que a Malu pediu doações para uma instituição, ao
invés de presente. A recepcionista anotou meu nome e me acompanhou até a
entrada principal. O lugar estava perfeitamente decorado, a cara da Malu.
Ela
estava bem próxima a entrada, linda num vestido longo azul como a noite, e
soltou um gritinho assim que me viu. Meu coração ficava mais descompassado a
cada instante.
-Eu não
posso acreditar que você está aqui. Ela disse me abraçando em seguida.
-Parabéns
minha amiga! Você merece tudo de mais lindo nessa vida.
Malu
sorriu para mim e me abraçou novamente.
-Obrigada
por ter vindo, eu sei o quanto é difícil para você estar aqui.
-Por
você eu estaria em qualquer lugar, com certeza.
Alguns
minutos depois Bruno veio em minha direção.
-Alice,
como vai? Sentimos sua falta.
Ele
também me abraçou forte e em seguida beijou meu rosto.
-Estou
bem Bruno, e você?
-Hoje eu
sou o homem mais feliz do mundo. Ele falou abraçando a Malu.
Nisso
Mariah veio correndo e me abraçou.
-Tia,
que saudades.
-Oh meu
amor, quanto tempo não vejo você, como você está. Falei enquanto me abaixava
para ficar na mesma altura que ela.
Eu a
beijei por várias vezes.
-Alice,
e o André não veio? Perguntou Malu.
-Ah,
não.
-Eu
estou em pânico. Ela disse quase em sussurro. Na verdade, tinha colocado você
na mesa da Maria Helena e do José Pedro. Quando eu disse ao João Pedro que era
possível que você viesse acompanhada, ele resolveu trazer a.... (pausa) a tal
garota. Aí ia colocar você na mesa dos meus pais, mas o Otávio está lá, pois
ele está de passagem no Brasil, então...
Senti um
nó em minha garganta só de saber que o João estava com alguém e que eu os veria
em segundos.
-Malu,
não se preocupe. Eu me viro.
-Não! É
claro que me preocupo, mas eu vou colocar você com meus amigos do escritório.
Ela disse segurando minha mão enquanto me acompanhava.
No
caminho parei para cumprimentar algumas pessoas que eram do meu antigo círculo
social. Depois os pais de Malu vieram me abraçar.
Théo, um
amigo homossexual de Malu veio em minha direção.
-A Malu
pediu que eu desse a você toda atenção do mundo, já que esse território está
repleto de pessoas do seu passado incluindo seu ex. então amiga, se prepare que
nossa noite será incrível.
-Théo,
que saudade. Falei abraçando-o em seguida.
-Alice,
você senta na mesa do Théo, pode ser? Perguntou Malu sussurrando em meu ouvido,
parecendo aflita.
-Amiga,
não se preocupe. Fica tranquila, estou ótima.
-Hum,
imagino quão tranquila esteja. Disse Malu dando um sorriso forçado.
Algumas
pessoas chegaram e Malu precisou ir recebê-los.
-Vem.
Disse Théo segurando minha mão.
Me senti
a amiga solteirona, sem tem com quem sentar. Minha sorte foi ter o Théo de
companhia.
Quando
me aproximei da mesa, vi a mesa onde João estava sentado e ele me olhava sem
disfarçar. Parecia tão nervoso quanto eu.
Maria
Helena abriu um sorriso imenso ao me ver e não tinha como não ir
cumprimentá-los.
-Théo,
preciso ir cumprimentá-los. Falei aflita.
-Vai lá
e arrasa, enquanto pego umas bebidas para nós dois.
Respirei
fundo e fui até eles. Conforme me aproximei da mesa, Maria Helena e Zé Pedro
levantaram-se. Porém João permaneceu imóvel ao lado da garota que eu nem
conseguia olhar.
Quase
tive um desmaio, mas fui até eles.
-Alice,
como é bom ver você. Disse Maria Helena me abraçando forte.
Ela me
olhou em seguida e sorriu para mim.
-Como
você está linda, minha filha. A cada dia que passa você está mais linda.
Eu sorri
sem saber o que dizer. Na verdade, estava nervosa demais.
-É muito
bom ver você também.
-Como
vai minha garota? A quanto tempo não nos vemos! Disse Zé Pedro me abraçando em
seguida. –Saiba que você é a garota mais bonita dessa festa, ouviu? Ele
sussurrou em meu ouvido.
Olhei
para ele e dei-lhe um sorriso forçado. Eu sabia que ele estava sendo gentil, já
que João estava com outra garota ao meu lado.
-Senti
sua falta, Zé Pedro.
José
Pedro segurou minha mão e a beijou.
-Minha
filha, senti muito sua falta também. Ele
disse beijando meu rosto em seguida.
João
parecia estar em pânico. Olhei para ele e sorri indo em direção a ele e a tal
garota. Eles se levantaram em seguida.
-Oi João
Pedro, como vai? Disse apertando a mão dele e ele me abraçou em seguida.
-Eu vou
bem, e você?
Minha
voz não saiu, eu apenas balancei a cabeça positivamente.
-Olá, eu
sou a Alice. Disse estendendo a mão para a tal garota.
Ela
sorriu, parecia uma garota de propaganda de creme dental. Eu a odiei por
dentro.
-Oi, eu
sou a Carla. É um prazer conhecê-la Alice.
Dei um
sorriso totalmente forçado a ela.
-O
prazer é todo meu. –Muito bonita sua namorada João Pedro.
Ele
também forçou um sorriso e a Carla riu como o gato de Alice.
-Alice,
tem uma pessoa que quer você. Disse Théo parando ao meu lado.
Olhei
para Théo o agradecendo por ele ter ido me resgatar.
-Bom, eu
preciso ir cumprimentar uns amigos, com licença! Falei saindo em seguida.
Saí de
lá sem sentir minhas pernas.
-Como
você está? Sussurrou Théo em meu ouvido.
-Théo,
não estou sentindo mais minhas pernas e acho que meu coração entrou em colapso.
-Deixa
de ser boba, o cara quase teve um treco quando viu você.
Théo me
levou para a nossa mesa e eu cumprimentei todos os amigos de Malu, um a um.
Todos já
estavam em seus lugares e meu lugar era ao lado de Théo que para minha
infelicidade ficava bem de frente para o João Pedro. Ele não disfarçava e me
olhava a cada segundo. Eu estava totalmente nervosa, mas o nervosismo dele
também era nítido.
A banda
estava tocando uma música que eu e João amávamos. Théo conversava comigo sem
parar, tentando me distrair e ele me arrancou diversas risadas. Mas ainda assim
me sentia um peixe que viveu uma vida inteira em um aquário e depois foi jogado
ao mar, então eu não sabia para onde ir. Me sentia totalmente perdida.
Nossos
olhares se cruzaram de novo e de novo. E eu precisava sair de lá o quanto
antes.
-Vamos
buscar outra bebida? Falei para o Théo.
-Hum,
sim, eu imagino o porquê. Ele disse levantando-se em seguida todo sorridente.
Quando
estávamos passando na pista de dança, senti uma mão em meu ombro.
-Alice!
Olhei assustada e vi Otávio parado bem atrás de mim.
Otávio
estava o mesmo, porém mais bonito. Ele parecia um galã de novela.
-Otávio,
quanto tempo! Falei dando-lhe um sorriso.
Ele
sorriu maliciosamente para mim.
-E você
continua linda, quer dizer, ainda mais linda.
Eu sorri
para ele e vi João Pedro nos olhando parecendo irritado.
-Você
também está muito bem.
-Alice,
eu sinto muito pelo o que lhe aconteceu, sempre pensei em ligar para você, mas
é que é um assunto tão delicado.
-Ah, é
sim, mas obrigada mesmo assim.
Otávio
me encarava descaradamente.
-Você
quer tomar alguma coisa, sei lá, queria conversar mais com você.
Olhei
para Théo que me esperava balançando o corpo com o ritmo da música.
-Ah, meu
amigo está me esperando. Depois a gente se fala.
Ele
balançou a cabeça positivamente.
-Eu vou
cobrar.
Eu ri e
saí em seguida.
-Sortuda
você hein amiga. Já esteve com os caras mais gatos da festa. Falou Théo
enquanto andava e se balançava com a música.
Eu ri em
resposta. Pegamos champanhe e em seguida Théo parou para falar com uns amigos.
Ficamos conversando por algum tempo antes de voltarmos para a mesa.
Encontrei
até algumas amigas da época de escola e nos falamos por algum tempo e quando
voltamos para a mesa João Pedro ainda me encarava. Eu o encarei por um tempo
sem desviar o olhar, mas então vi a tal Carla segurando o rosto dele e fazendo
ele olhar para ela, ela o beijou em seguida.
Aquilo
para mim foi como um tiro no peito e me veio à tona a noite do bar, onde eu o
vi beijando aquela garota, onde todo o nosso processo de separação começou.
Decidi
simplesmente esquecer que o João estava no mesmo ambiente que eu e não olhei na
direção em que ele estava pelo o resto da noite. Meu coração doía, mas eu não
podia vê-lo com ela.
“Eu não
estou pronta para isso! Eu não estou pronta! Não deveria ter voltado, está
acontecendo o que eu mais temia. ”
Torturava a mim mesma.
Malu
veio em minha direção e me salvou daquela mesa, me arrastando para o banheiro.
-Você
está linda amiga. Ela disse toda orgulhosa.
Ela que
estava linda em seu longo azul noite.
-Como
você está?
-Eu não
sei Malu, quer dizer, eu sei sim. Estou fingindo estar bem a noite toda, mas
sinto que irei desmaiar a noite toda.
Ela me
abraçou.
-E o
André, por que não quis vir?
-Malu,
tenho tanta coisa para te contar. O André me pediu em casamento.
-Ele o
quê?
A
cerimonialista entrou chamando a Malu urgente.
-Depois
me conta isso, por favor. Ela disse saindo em seguida.
Eu me
encarei no espelho.
-Acho
que eu deveria ter aceitado me casar. Falei comigo mesma. –Não! Definitivamente
isso não me ajudaria em nada, tenho que encarar os problemas de frente.
Saí do
banheiro e Théo me esperava do lado de fora.
-Vem, já
vai cantar os parabéns, a Malu está no palco.
Olhei
para ele descrente.
-É bem a
cara dela. Falei sorrindo em seguida.
Todos
estavam ao redor do palco e Malu só começou os parabéns quando viu que eu me
aproximei. Após os parabéns, ela cortou o bolo e brindou com o Bruno e encheu a
Mariah de beijos.
Malu
pegou um microfone em seguida.
Olhei
para de relance e João estava parado com a tal Carla quase em minha frente e
não tirava os olhos de mim. Fingi que não os vi e continuei a prestar a atenção
na Malu.
-Eu
queria agradecer a presença de cada um de vocês. Estão presentes nessa noite,
apenas as pessoas que mais importam para mim. Sim claro, umas tenho mais
afinidades, outras nem tanto, mas saibam que amo todos vocês. Humm, deve ter
uma ou duas pessoas que não se incluem no que eu disse, mas tudo bem. Temos que
aceitar os agregados dos convidados.
Todos
riram em resposta. E eu congelei, pois sabia para quem tinha sido aquela
indireta.
-Que
garota louca. Falou Théo dando um meio sorriso.
-Hum
hum. Falei sem ao menos piscar.
-É claro
que se eu pudesse eu dividiria meu primeiro pedaço de bolo em diversas partes, pois
têm pessoas aqui que são a razão da minha vida; a minha filha, o meu marido, os
meus pais, o meu irmão e meus amigos. Mas enfim, dentre essas pessoas, tem uma
pessoa que é simplesmente minha alma gêmea. Nós dividimos os melhores e os
piores momentos juntas desde que éramos crianças. E eu não sei o que seria de
mim se eu não tivesse conhecido essa pessoa.
-De quem
ela está falando? Sussurrou Théo.
-Eu
ainda não sei. Respondi.
-Sei que
ela passou por alguns momentos bem delicados, mas nem por isso deixou de estar
aqui hoje. E sei que você só veio por minha causa. E eu a agradeço
infinitamente, pois minha festa e minha alegria não seria a mesma se você não
tivesse presente Alice.
Todos os
presentes da festa olharam em minha direção e eu devo ter ficado mais vermelha
do que uma pimenta dedo de moça.
-Eu amo
você minha amiga, então eu a agradeço do fundo do meu coração por estar aqui.
A festa
inteira estava olhando para mim e todos começaram a bater palmas.
-Você
vai ter que subir lá. Falou Théo.
Olhei em
pânico para ele.
Respirei
fundo e fui até onde Malu estava. Nós no abraçamos e todos bateram palma
novamente.
Eu
segurei o microfone em seguida e foquei meu olhar somente na Malu.
-Jamais
deixaria de estar aqui essa noite, porque essa noite é sua, e fiquei com medo
das ameaças que você me fez ao telefone.
Todos
riram em seguida.
-É, ela
é bem persuasiva às vezes. Falei em tom de deboche.
Malu
riu.
-É
brincadeira. Eu estou aqui porque não podia deixar de comparecer a essa festa,
da única verdadeira amiga que eu tenho desde os meus nove anos de idade. Saiba
que eu a amo e esse amor é um amor que resistiu ao tempo, à distância, as
tempestades, aos bons tempos. E em cada situação da minha vida, boa ou ruim,
você sempre esteve ao meu lado segurando minha mão. E eu nunca me esquecerei
disso. Você sempre esteve ao meu lado quando precisei, sempre secou minhas
lágrimas quando não as impediram de caírem. Sou muito grata a você Malu, você é
minha irmã de alma e de coração e eu agradeço a Deus por ter colocado você em
meu caminho.
Malu
sorriu emocionada e me abraçou em seguida. Todos bateram palmas, sem exceção.
Bruno e Mariah se juntaram a nós e alguns momentos depois Bruno começou um
discurso para a esposa. Nós tiramos várias fotos em seguida e depois eu desci,
juntando-me com o Théo novamente.
Alguns
amigos de Théo estavam na pista de dança e fomos até eles. Théo começou a
conversar com um deles enquanto dançava. Estava deslocada, sem vontade nenhuma
de dançar e tudo o que eu queria era sair de lá.
-Théo,
me espera aqui que vou ao banheiro.
Ele
balançou a cabeça e eu saí em seguida.
Enquanto
eu passava por entre as pessoas via o quanto elas pareciam felizes. Todas com
um sorriso enorme estampo em seus rostos. E eu não conseguia encontrar motivo
algum para sorrir, pelo contrário, eu me sentia a pessoa mais sozinha do
universo. Sim, literalmente sozinha, pois estava sem meu filho, que era para
estar ali entre as crianças correndo para lá e para cá; sem meu marido, que
estava acompanhado da nova namorada e sem amigos, pois minha única amiga estava
sendo totalmente disputada entre os vários e vários convidados. Peguei uma taça
de champanhe e fui tomar um ar fresco, longe de todos.
Sentei-me
em um banco que havia no jardim do salão. Alguns fumantes se refugiavam ali por
perto para fumarem seus cigarros com sossego.
Tomei um
gole da minha bebida e fiquei observando algumas crianças que estavam um pouco
distantes brincando de pega-pega. Suspirei fundo, sentindo meu coração
esmagado. Tudo o que eu mais queria era estar vendo o Pedro correr com seus
amigos, ficava imaginando ele me olhar e me dar um sorriso enquanto brincava
com os coleguinhas. Para ele, como se apenas meu olhar o protegesse, mesmo de
longe. O que mais me doía era saber que eu nunca mais veria aquele sorriso, nunca
mais o ouviria me chamar de mãe.
Pois é,
não existe solidão pior. Não existe dor pior no mundo do que a dor de nunca
mais poder ver seu filho sorrir para você, abraçar você e dizer que te ama.
Suspirei
fundo me segurando para não chorar. E entendi o porquê eu escolhi ficar tanto
tempo longe de tudo, pois tudo me fazia lembrar do Pedro e da minha antiga
vida.
-Daria
milhões pelos seus pensamentos. Disse uma voz masculina atrás de mim.
Nem
precisei olhar para saber quem era. Otávio parou em minha frente, com as mãos
no bolso da calça social.
-O pior
é que eles valem milhões mesmo. Eu falei dando a ele um sorriso triste.
Apontei
as crianças que estavam brincando e ele balançou a cabeça.
-Alice,
eu nem imagino o que você passou, eu sinto tanto por isso.
Apenas
concordei maneando a cabeça.
-De
passagem aqui no Brasil?
-É eu
decidi me aproximar mais da minha família, estou vindo mais vezes para cá
pensei até em voltar por definitivo, mas sei lá. Só sei que após tantos anos
longe de todos, descobri que o que mais vale é a família. Eu nem vi minha
sobrinha crescer, então eu me pergunto até que ponto vale a pena ficar distante
de tudo.
-É, é
realmente complicado, principalmente se você tem uma família tão linda quanto a
sua.
Otávio
sorriu.
-E minha
família ama você, você sabe disso. Acho que você faz mais parte dela do que eu
propriamente.
-Eu
também gosto muito da sua família. E a Malu você sabe, é mais do que uma irmã.
-Não
precisa nem dizer que ela sente o mesmo.
Dessa
vez fui eu quem deu risada.
-E sua
namorada, não veio dessa vez?
Otávio
disfarçou, passando o pé nas pedrinhas do jardim.
-Nós
terminamos já tem alguns meses. Ela está morando em outra cidade e isso foi
desgastando o relacionamento, acho que éramos incompatíveis profissionalmente,
quase não nos víamos mais.
Balancei
a cabeça positivamente.
-Alice,
eu mudei bastante. Quer dizer, depois que você terminou comigo, eu passei a ver
o quanto eu estava errado, o quanto agi errado com você, mas era porque eu
simplesmente não podia nem pensar em te perder, e quando isso aconteceu eu
quase enlouqueci. Mas com ela foi diferente, eu já não me importava mais, não
sentia ciúmes, tanto que ela até jogou isso na minha cara uma vez.
Eu ri
ficando sem graça.
-Tio
Otávio, minha avó quer falar com você, vem vamos! Disse Mariah chegando quase
sem fôlego de correr.
Otávio
abaixou ficando da altura de Mariah.
-Fala
para a vovó que o tio está conversando com uma amiga e vou daqui alguns
minutos.
-Não
tio, ela precisa falar com você urgente. Repetiu Mariah enquanto puxava o terno
dele.
-Pode
ser importante. Falei.
-Tá, eu
vou ver o que ela quer, mas Alice, pensei em sei lá, poderíamos sair para beber
alguma coisa, eu estarei na cidade até no domingo, então, amanhã queria ver
você, assim pelo menos conversaríamos com mais calma.
-Otávio,
eu ficaria muito feliz em conversar com você, mas é que eu só vim por causa do
aniversário da Malu, e amanhã eu preciso estar em São Joaquim sem falta. Tenho
um compromisso inadiável. Mesmo assim agradeço muito pelo convite.
Otávio
balançou a cabeça concordando sem disfarçar sua frustração.
-Bom, eu
vou ver o que minha mãe precisa, depois a gente se fala.
Eu
sorri.
-Foi bom
ver você.
Ele
sorriu consternado e saiu em seguida. Mariah sorriu para mim e deu um piscada
ao sair.
-É por
isso que eu amo essa garota. Disse João Pedro chegando segundos após Mariah
sair com o Otávio.
João
Pedro sentou-se ao meu lado, entregando-me outra taça de champanhe.
-O que
você disse a ela?
-Bom,
digamos que nós temos alguns segredinhos e ela me ajudou a despistar o outro
tio dela. Tenho certeza que ela tem uma certa preferência por mim do que pelo
outro tio.
Eu ri.
Meu coração estava acelerado e senti um frio percorrer toda minha espinha. João
Pedro exercia esse efeito em mim mesmo após tantos anos.
-Sua
namorada não vai gostar de ver você aqui fora. Alfinetei tentando parecer
indiferente.
João
Pedro não respondeu nada.
-E o seu
namorado? Achei que ele viria.
-Ah, eu
não achei prudente que ele viesse.
Nesse
momento me repreendi silenciosamente.
-Não que
não seja prudente você ter trazido a sua namorada, não me entenda mal. É que
sei lá, toda a família reunida, então...
-Não,
você tem razão. Eu também me arrependi de ter trazido a Carla. Sei lá, é tão
complicado.
João
Pedro ficou pensativo.
-A Carla é uma garota muito legal, ela me está
me ajudando bastante, mas é que...
Ficamos
em silêncio outra vez. Tomei um gole do meu champanhe e João fez o mesmo.
-É
difícil Alice. Quando você se perde uma pessoa que você ama, você fica
procurando as mesmas características dela em outra pessoa, as mesmas
qualidades, até os mesmos defeitos. Eu achei que com a Carla seria diferente,
mas não é! Na verdade, nós não combinamos em nada. Sabe, eu até que tentei, mas
hoje eu percebi que não adianta, eu posso estar com quem for, mas quando eu
vejo eu fico totalmente sem chão.
João
Pedro levantou a cabeça, olhando para o céu e passou a mão pelos cabelos.
-João eu
sei bem como é se sentir assim.
Ele me
olhou sem entender.
-O André
me pediu em casamento.
João
Pedro me olhou incrédulo. Sua face mudou totalmente de expressão.
-Alice,
me diga que isso não é verdade!
Olhei
para ele e balancei a cabeça positivamente.
-É
verdade sim. E por causa disso eu terminei com ele.
Nesse
momento eu vi um vislumbre de um sorriso.
-Como
assim? Você não está mais com ele?
-Não. O
André foi uma pessoa maravilhosa, foi um amigo muito importante para mim, mas
no fundo ele nunca passou disso, nunca passou de um amigo. E quando ele me
pediu em casamento, me vi em pânico. Como eu poderia me casar com alguém que eu
conheci a apenas três meses? E ele merece alguém que o ame de verdade, mas esse
alguém infelizmente não sou eu.
João
Pedro não disfarçou a felicidade.
-Você
não faz ideia de como eu me sinto em relação a essa notícia. Ele disse esbanjando
um sorriso. –Mas e agora, o que você vai fazer?
Conto ou
não conto para ele que estou de volta? Pensei. Sim, é claro que tenho que
contar. Concluí.
-Na
verdade ainda não disse a ninguém, quer dizer, somente minha mãe sabe. Nem para
a Malu eu contei, e sei que ela vai me matar quando souber que não disse a ela.
Mas eu vou contar para você.
João me
olhou intrigado.
-Depois que o André me pediu em casamento,
fiquei em pânico. E então decidi que era hora de voltar para casa, então eu
voltei. Estou aqui desde o começo da semana. E pela primeira vez desde que o
nosso filho se foi, estou em paz comigo mesma, e me sinto em paz em nossa casa.
Porque até então, eu não conseguia mais ficar lá, principalmente sozinha. Mas
dessa vez foi diferente. Eu até sonhei com o Pedro, sabia? E foi tão... (fiz
uma pausa e respirei fundo) foi tão real, foi maravilhoso.
João
Pedro olhou no fundo dos meus olhos e minha única vontade era de abraçá-lo
naquele momento. E foi como se ele lesse meus pensamentos e virou-se me
abraçando em seguida.
-Alice,
eu nem sei o que dizer. Estou me sentindo a pessoa mais feliz do mundo com essa
notícia. Eu juro para você que eu sonhava em ouvir você dizer isso, mas
confesso que já estava achando que isso nunca mais iria acontecer.
Eu
apenas o abracei, sentindo o cheiro maravilhoso do seu perfume que mexeu com
todas as minhas terminações nervosas.
-Ei
vocês estão aqui. Disse Mariah correndo em nossa direção.
Eu pulei
de susto ao escutar a voz dela. Como se tivesse sido pega em flagrante.
Ela nos
olhou e sorriu.
-Tia
Alice, vou contar uma coisa para vocês, mas vocês não podem contar nem para
minha mãe e nem para o meu pai.
Nos dois
olhamos para ela, concordando em seguida.
-O Pedro
está muito feliz. Ele vive dizendo que só ficaria feliz quando você e o tio
João se acertassem, e agora ele está muito feliz, sabia?
Olhei
para ela intrigada. João Pedro me olhou em seguida.
-Ele
estava com você? João perguntou.
-Hum
hum! Ela disse sorrindo.
-Ele
está aqui agora? Perguntei aflita.
-Não,
ele já foi. Ele estava com a irmãzinha dele.
-Irmãzinha
dele? Como assim?
-É, ele
tem uma irmãzinha. Ela está sempre com ele.
Olhei
para a Mariah sem saber o que dizer, então a abracei em seguida. João Pedro nos
abraçou também.
-Até que
enfim encontrei você. Disse uma voz feminina parando ao nosso lado.
Olhei e
vi a Carla olhando sem entender.
-João
Pedro, vamos, amanhã eu tenho plantão, então...
João
Pedro olhou sem saber o que fazer.
Olhei
para ele e fiz que tudo bem. Meu coração estava apertado, mas disfarcei o
quanto pude.
-Bom, eu
vou indo. Ele disse levantando-se.
-Tchau
Alice, até mais. Disse Carla me olhando fulminantemente.
-Tchau
Carla, boa noite.
João
abraçou Mariah e em seguida me deu um beijo no rosto.
-Eu falo
com você depois. Ele falou quase em sussurro.
Senti uma
tristeza gigantesca só de pensar ele indo embora com ela. E eles se foram.
Olhei para trás e no mesmo instante João Pedro também olhou.
-Vamos
entrar. Falei para Mariah.
-Tia
Alice, me leva ao banheiro?
-Claro
que sim. Falei pegando em sua mãozinha.
Voltamos
para o salão e Maria Helena estava me procurando para despedirem-se de mim.
-Alice,
eu só sinto muito por vocês.
-Maria
Helena, não se preocupe, estou bem. Menti.
Zé Pedro
e Maria Helena me abraçaram e logo foram embora.
Fui com
a Mariah ao banheiro e quando saí conversei com Théo, e alguns minutos depois
saí à francesa.
34
Você e eu
-O que
essa doida está fazendo aqui uma hora dessas? Perguntei para mim mesma enquanto
descia as escadas.
Novamente
o interfone tocou, e quando olhei pela câmera, vi que não era a Malu e sim o João
Pedro. Sorri involuntariamente feito uma boba e corri abrir a porta. João Pedro
me encarou quando abri a porta. Sua expressão era uma incógnita. Parecia feliz
e nervoso ao mesmo tempo.
-Precisava
ver você. Ele disse dando-me um sorriso.
Sorri
para ele e o puxei para dentro o beijando em seguida sem pensar nas
consequências.
De
repente parei, pois eu estava errando novamente, afinal, ele tinha uma
namorada.
-E sua
namorada?
-Ela não
é mais minha namorada, acabei de terminar com ela. Eu tentei Alice, mas não
consegui esquecer de você.
Eu sorri
para João Pedro. Estava me sentindo a pessoa mais feliz do mundo naquele
momento.
-João,
eu amo tanto você, mas eu preciso te pedir desculpa por ter descarregado sobre
você toda a minha raiva do mundo quando o Pedro se foi, me perdoa? Eu não sabia
o que fazer, me senti tão perdida.
João
Pedro colocou o dedo sobre meus lábios.
-Ele
está feliz agora, isso é o que importa. E eu sou o cara de mais sorte desse
mundo, pois estou tendo a segunda chance ao lado da única mulher que eu já
amei.
Nós nos
olhamos e nos beijamos em seguida por vários e vários minutos. Depois João
parou e me encarou.
-Tive
uma ideia!
Olhei
para ele surpresa.
-Quer ir
comigo para onde tudo começou? O que você de ir agora para Bombinhas? Amanhã
pela manhã estaremos lá, só você e eu.
-É tudo
o que eu mais quero. Disse sem disfarçar minha alegria.
João me
abraçou em seguida e começou a me beijar.
-Acho
que isso pode esperar mais alguns minutos. Ele me disse me pegando no colo e me
levando para nosso quarto.
Fizemos
o melhor amor que já tínhamos feito desde que nos conhecemos e acabamos pegando
no sono assim que terminamos.
Acordei
com o sol entrando em meu quarto. Fiquei assustada ao olhar para o lado e não
ver o João Pedro.
-Será
que ele se foi? Se arrependeu? Pensei comigo mesma.
Me
levantei e vi as roupas dele jogadas pelo chão junto com as minhas. Sorri por
dentro de felicidade. Coloquei a camisa dele e desci em seguida.
João
estava preparando nosso café da manhã e quando me viu, veio em minha direção e
me abraçou.
-Bom
dia, minha Alice.
-Bom dia
meu amor. Falei em seguida.
Nós nos
beijamos demoradamente. Tomamos café da manhã e em seguida nos arrumamos para
sairmos de viagem. Só passamos do apartamento dele para pegar as chaves da casa
de Bombinhas e algumas roupas e seguimos para Santa Catarina no Land Rover de
João Pedro. Seguimos a viagem sem pressa para nada, conversando alegremente,
dando risadas de tudo. Parecíamos um casal de adolescentes. João dirigiu quase
o tempo todo segurando minha mão e a acariciando e eu amei.
Por
volta da uma hora da tarde chegamos em Bombinhas. O caseiro já nos esperava,
com a casa perfeitamente arrumada e a geladeira abastecida. Ainda assim saímos
para almoçar em um restaurante. Naquele dia passamos parte da tarde na praia, e
depois voltamos para a casa, onde ficamos enamorados o resto do final de
semana. Ah, e um detalhe! Celulares desligados, assim não seríamos
interrompidos para nada, sendo assim, ninguém sabia onde estávamos e muito
menos que estávamos juntos.
João
estava deitado em meu colo, enquanto eu acariciava-lhe os cabelos. Ele me olhou
ternamente, dando-me um sorriso.
-Eu
ainda acho que estou sonhando.
Eu sorri
em resposta e o beijei.
-Isso
não é um sonho.
-Ainda
bem que não. Ele disse enquanto se sentava para me beijar novamente.
Eu
comecei a rir.
-O que
foi?
-João,
já pensou a cara da Malu quando souber onde estamos. Ela não vai acreditar.
-Ah vai
pirar quando souber que você não disse nada a ela. Com certeza. Queria ver a
cara dos dois. Quando o Bruno viu você chegar na festa foi até mim, achando que
eu não tivesse te visto. Ele apenas me fez sinal por causa da Carla.
-Humm,
por causa da sua namorada.
-Na
verdade ela nunca foi minha namorada. Nunca a pedi em namoro, só estávamos
saindo.
Olhei
para ele enciumada.
João
Pedro sorriu.
-E saber
que eu quase te perdi de vez! Eu não sei o que eu faria se você fosse se casar.
No fundo eu tinha medo de ver você entrar naquela festa com o tal... bom você
sabe... Mas quando eu vi você chegar sozinha e você estava tão linda, me deixou
atordoado. Eu olhava para a Carla ao me lado e queria simplesmente que ela
desaparecesse. A partir daquele momento eu simplesmente não conseguia tirar
meus olhos de você, de onde você estava. E todos na mesa perceberam. Teve um
momento que você saiu e eu não conseguia ver você. Eu faltei subir na cadeira
para te procurar, mas depois vi você falando com o Otávio e aquilo me destruiu
por dentro. Minha vontade era de arremessá-lo de perto de você. A Carla me
chamou a atenção por diversas vezes, dizendo que eu estava dando na cara. Ela
me beijou e eu nem conseguia corresponder o beijo dela e desde então ela não
trocou mais nenhuma palavra comigo durante a festa, apenas naquela hora que ela
nos viu.
-João,
no dia do nosso divórcio, eu estava tão feliz, tão contente por estar com você
e eu liguei para a Malu radiante. E você interpretou tudo errado. Eu confesso
que senti ódio de você naquele momento, quando você simplesmente me entregou os
papéis assinados e saiu.
-Alice,
eu vi que o tal de André tinha ligado em seu celular e depois vi você falando
no telefone, juro que achei que fosse com ele. Fiquei cego de ciúmes. Achei que
você estava dizendo a ele que estava ali para que eu assinasse os malditos
papéis. Naquele dia eu dirigi o dia todo e acabei vindo parar aqui, depois de
dirigir horas e horas a esmo. Fiquei muito mal com tudo aquilo, achei que você
não me amasse mais.
João
suspirou.
-Mas vem
aqui, vamos esquecer tudo isso, o que importa é que estamos juntos. E eu nunca
mais deixarei você fugir de mim.
Nós nos
beijamos novamente. João me colocou sentada sobre o colo dele e começou a me
despir. Nós fizemos amor novamente. Era como se não conseguíssemos mais ficar
longe um do outro.
Naquela
noite nós não resistimos e acabamos ligando para a Malu e para o Bruno. Malu
atendeu ao telefone furiosa.
-Eu não
posso acreditar que você voltou para São Joaquim sem ao menos se despedir de
mim.
Eu ri ao
imaginar a reação dela.
-É eu
viajei sem me despedir de você, mas não foi para São Joaquim.
-Como
assim? Onde você está?
Olhei
para o João que estava se divertindo assim como eu.
-Você
nunca acertaria.
-Alice,
fala logo. Estava doida atrás de você, queria conversar sobre o pedido de
casamento; sobre meu irmão dando em cima de você e falar sobre o João com
aquela vaca da tal médica.
- Malu,
acho bom você se sentar.
-Não!
Não me diga que você já se casou às pressas, escondido de todo mundo.
Fiz
careta para o João, pois ela não me deixava falar.
-Você se
lembra de uma vez que me você convenceu a ir passar as férias com você em uma
tal casa de praia em Bombinhas?
-Hum, e
o que tem isso?
-Então,
você sabe que eu amei aquele lugar, tanto que me casei lá e hoje estou aqui
novamente.
-Como
assim?
-Estou
na casa de praia.
Malu
ficou em silêncio.
-Em
Bombinhas? Alice, sua..., você está com o João Pedro e não me disse nada?
Eu ri
novamente.
-Eu
estava louca para te contar, mas é que estávamos tão ocupados. Falei ironicamente.
Malu
começou a rir descontroladamente.
-Bruno,
corre aqui que eu tenho uma notícia maravilhosa. Ela gritou.
-Eu não
posso acreditar nisso. Eu só vou perdoar você, porque você está com o João. Mas
e o casamento com o André? E a namorada do João Pedro?
-Eu ia
terminar de te contar na festa, mas você precisou sair. Quando o André (João
Pedro revirou os olhos, fazendo careta nesse momento) me pediu em casamento,
fiquei desesperada, pois eu não queria, então arrumei minhas coisas e terminei
com ele. E então voltei para Curitiba.
Fechei
os olhos pois eu tinha certeza que ela não me perdoaria por não ter contado a
ela.
-Quando
foi isso?
Fiz
outra careta.
- Na
terça-feira eu já estava em Curitiba. Mas não disse nada a ninguém. Eu queria
te contar, só que eu sabia que você estava tão envolvida em sua festa que eu
não quis te atrapalhar. E eu precisava também de um tempo para me adaptar na
minha casa novamente.
-Alice,
estou me sentindo um zero à esquerda. Você voltou e não me avisou? Ficou a
semana toda perto de mim sem que eu soubesse?
Eu mato você, juro que mato.
-Toma
fala com seu amigo. Ela disse entregando o celular para o Bruno.
-Bruno,
fala para ela me perdoar, por favor?
-Alice,
ela é louca, você sabe. Mas caramba, estou muito, mas muito feliz.
-É eu
mais ainda. Mas fala com o João Pedro, ele está aqui agoniado para falar com
você.
Entreguei
o celular para o João e eles se falaram por vários e vários minutos. Depois ele
virou-se para mim.
-A Malu
quer falar com você novamente.
Peguei o
telefone imediatamente.
-Eu
desculpo você somente porque você se declarou para mim naquela festa e foi
lindo. E porque você está de volta, porque para mim isso é a coisa mais
importante.
-Ah, eu
sabia que você me perdoaria.
-Humm,
mas depois quero saber cada detalhe que aconteceu entre vocês.
-Pode
deixar que lhe colocarei a par de tudo.
-Acho
bom, você me deve isso. Mas então ele terminou com a médica vadia?
-Sim,
claro. Falei sorrindo por ela se referir a Carla daquela maneira.
-Ah que
bom. Mas então vai lá curtir seu marido, imagino que vocês têm muitas coisas
para fazerem ainda. Amo você sua maluca.
-Eu
maluca? Também amo você Malu.
Passamos
a semana em Bombinhas. João Pedro ligou no Ministério Público e avisou que
ficaria fora a semana toda. Na quinta-feira após o almoço, Malu, Bruno e Mariah
chegaram. Na sexta-feira foi a vez da minha mãe e do Fábio chegarem. E no
sábado sem imaginarmos, chegaram de surpresa Zé Pedro e Maria Helena. Foi sem
dúvida um final de semana inesquecível para todos nós.
Quando
estávamos indo embora para Curitiba, no domingo à noite, João segurou minha mão
e a beijou.
Eu o
olhei agradecida e ele me olhou preocupado.
-O que
foi?
-Como
vai ser quando chegarmos lá?
-Como
assim? Indaguei.
Ele
suspirou fundo.
-Eu não
quero ficar longe de você por mais nenhum minuto.
-Ah, eu
achei que você fosse querer ficar em seu apartamento. Sei lá, pelo menos por
enquanto.
-Não,
claro que não! Além do mais, é perigoso você ficar sozinha naquela casa. Fora
que eu não consigo me acostumar a ficar sozinho no apartamento.
Eu ri.
-Bom,
minha casa é bem espaçosa, e minha cama é enorme. Se você quiser pode ficar lá
comigo. Eu moro sozinha e estou totalmente solteira, e pelo o que eu soube,
você também está bem solteiro. Então...
-Você
não está mais solteira. Mas espera! Você está me convidando para morar com
você? Ele me perguntou ironicamente.
-Eu já
disse, tenho uma casa enorme e quer saber? Eu não conseguiria mais ficar longe
de você.
João
Pedro me olhou radiante.
-Amo
você Alice.
-Eu amo
você João.
João
quis passar na mesma noite no apartamento dele, onde pegamos todas as coisas
dele e levamos para nossa casa. Após tomarmos banho, estávamos deitados em
nossa cama. João estava de frente para mim como se me admirasse.
-Eu fui
até o orfanato e conheci o Vinícius.
Ele me
olhou confuso.
-Você
foi até lá.
-Sim, na
verdade quando cheguei de volta aqui em Curitiba, fui a semana toda visitar as
crianças. Mas em especial o Vinícius. Sei lá, fiquei encantada por ele e quando
soube da história dele fiquei muito mexida.
-É, eu
também fiquei encantado com aquele garoto. Ele assim como as outras crianças
têm um passado muito triste, mas não sei o porquê tive uma afinidade muito
grande com ele.
-Amanhã
eu quero ir ao orfanato novamente. Falei.
-Nós
vamos, eu também quero ir com você.
Eu sorri
imaginando onde aquilo ia dar.
35
Feitos para nós
Nos
casamos novamente exatamente um mês após o aniversário de Malu. Fizemos apenas
uma cerimônia para minha mãe e o Fábio, para os pais de João, para Bruno e
Malu, para a Fabi e Leila, para o Théo e o Lú e para a dona Bel e o esposo
dela.
Em
seguida demos entrada nos papéis da adoção de Vinícius e ele contava os
segundos para ir para nova casa dele.
Estávamos
em dezembro, jantando no Aquarello´s, quando Ricardo, o advogado de João ligou
avisando que a adoção do Vinícius estava liberada. Nossa felicidade era
gritante e naquela noite nem eu e nem o João Pedro conseguimos dormir de tanta
ansiedade.
Na manhã
seguinte, quando chegamos ao orfanato, Vinícius veio ao nosso encontro. Seus
olhos estavam cheios de lágrimas. Ele me abraçou e começou a chorar.
-Ei,
chegou o grande dia! Vamos para nossa casa. Falei toda radiante.
João
Pedro o pegou no colo.
-Vinícius,
não precisa ter medo, você vai gostar, tenho certeza. Ah e seu quarto está
lindo, cheio de brinquedos, você precisa ver.
-Eu sei,
mas é que minha irmãzinha chegou aqui no orfanato ontem.
Olhei
para uma das Irmãs sem entender.
-João
Pedro, não se preocupe, eu disse que logo ela encontrará um novo lar. Disse a
Irmã Maria
-Que
irmã? Indagou João Pedro ainda com Vinícius no colo.
-Vamos
lá comigo buscar sua irmãzinha para a tia Alice conhecê-la? Disse Irmã Clara ao
Vinícius.
Ele
imediatamente pulou do colo do João para segui-la.
-A mãe
do Vinicius estava internada em uma clínica de reabilitação. E lá, ela
engravidou de um dos pacientes. Então os
dois fugiram e voltaram para as ruas e voltaram a usar o crack. No dia que ela
foi ter o bebê, ela teve uma overdose e faleceu, e a menina Vitória sobreviveu
por um milagre.
Senti um
nó em meu estomago. João olhou para mim e apertou minha mão.
-A tia
que cuidou do Vinicius ficou com a menina por um pouco mais de um mês, porém
eles são extremamente pobres. Mas o problema é que a Vitória nasceu
extremamente desnutrida e sofre algumas convulsões que provavelmente estão
relacionadas ao fato da mãe ter feito constante uso do crack durante a
gravidez. Dessa foram ela precisa de alguns cuidados e um bom acompanhamento
médico, sendo assim, a tia não teve condições de cuidar da menina e a trouxe
ontem pela manhã. E o Vinícius se encantou por ela.
João
Pedro me olhou consternado. E então a freira trouxe a bebê, que estava com um
macacão bem maior que seu tamanho, ela parecia se perder nas roupinhas de tão
pequenina e magra.
Eu a
peguei em meus braços e senti uma tristeza gigantesca. Ela parecia tão sofrida
com apenas dois meses de idade. Sua pele toda áspera, toda pipocada por causa do
calor. Ela começou a chorar, mas eu comecei a balançá-la e a cantar uma música
de ninar e em minutos ela adormeceu em meus braços. João também quis pegá-la e
vi que ele se emocionou ao ver a pequena Vitória.
-Bom vou
levá-la ao berçário. Disse a Irmã Clara pegando Vitória dos braços de João.
Ele a
entregou com dor no coração. Seus olhos demonstravam isso.
Vinícius
foi até ela e a Irmã Clara abaixou-se para que ele se despedisse da irmãzinha.
-Eu
ainda vou voltar para te buscar. Ele disse enquanto as lágrimas caiam.
Olhei
para o João Pedro e o vi enxugando as lágrimas que caiam dos olhos dele. Peguei
Vinícius em meu colo e saímos de lá com o coração partido. Eu não conseguia nem
conversar de tão abalada que eu estava ao ver a situação que a irmãzinha de
Vinícius se encontrava.
Passando pelo jardim, Vinícius abriu um
sorriso contagiante.
-Olha
ali. Ele disse apontando uma borboleta azul que estava em uma das flores.
Meu
coração disparou ao ver a borboleta. Senti uma paz imensurável naquele momento
e rezei pelo meu filho, pois sabia que ele estava mais próximo de mim do que eu
imaginava. João segurou minha mãe e sorriu para mim.
Assim
que entramos no carro, João Pedro me olhou.
-Você
está pensando na mesma coisa que eu?
-Eu acho
que sim.
Ele
olhou para a rua e ficou em silêncio.
-Em seu
sonho Pedro disse que a irmãzinha dele precisava muito de nós dois. E que
criança precisa mais da nossa ajuda do que a Vitória? A probabilidade de alguém
adotar dois irmãos é quase nula. Ainda mais alguém na situação dela, que
precisará de um bom acompanhamento médico e todos os cuidados desse mundo.
Eu o
abracei e comecei a chorar.
-Eu
estava com medo de lhe dizer isso, achei que você não aceitaria.
Ele me
olhou comovido.
-Quando
eu a peguei em meus braços, foi como se eu sentisse a presença do nosso filho
ao nosso lado. Parece que eu podia escutá-lo dizendo que era aquela a irmãzinha
dele. Foi sei lá, muito estranho, fiquei comovido demais com aquilo. Então eu
vi aquela tristeza no Vinicius, não tive dúvida que era um sinal.
Escutei
João Pedro sem dizer nada. Estava totalmente perdida em meus pensamentos.
Seguimos
para nossa casa em silêncio, sem festas e comemorações. Diferentemente do que
estávamos planejando.
Ambos
estávamos pensativos e calados e Vinícius apenas secava as lágrimas que
insistiam em cair.
Assim
que chegou em sua nova casa, Vinícius não conseguia acreditar no quão grande
ela era. Quando ele viu seu novo quarto ficou perplexo e começou a chorar de
emoção. Nunca me esquecerei daquele momento.
Epílogo
No
Natal, ela já estava em nossa casa. Já tinha seu quartinho todo cor-de-rosa ao
lado do quarto todo azul do irmão dela. Vinícius era a criança mais amável,
feliz e grata do mundo.
Vitória
ainda parecia assustada, e aos poucos estava ganhando peso. Porém, contratamos
o melhor neurologista de Curitiba para acompanhar o caso dela, que já estava
quase normalizado. Ela só precisaria de um acompanhamento e muito carinho, amor
e atenção da família dela, e isso ela teria de sobra.
Vinícius,
não se cabia ao ver uma árvore de Natal com tantos presentes e não podia
acreditar que ganharia um presente do Papai Noel.
-Pai,
mãe. Ele disse segurando nossas mãos. Sabia que esse é o primeiro Natal que o
Papai Noel se lembrou de mim? Eu nunca ganhei presentes dele antes. Eu mal
posso acreditar!
Eu e
João Pedro o abraçamos emocionados. Pois aquela fora a primeira vez que
Vinícius havia nos chamado de mãe e pai.
Vitória
acordou e eu a peguei em meus braços. Ela olhou para mim e sorriu. Eu a enchi
de beijos.
Ver o
sorriso dos meus novos filhos, era o melhor presente que eu poderia ganhar.
Soube
naquele momento que embora Vinícius e Vitória não tivessem nascido do amor
entre mim e João Pedro, eles foram feitos para que eu e João pudéssemos dar
todo nosso amor a eles.
João Pedro
estava no chão da sala brincando com Vinícius, eles me esperavam para que
pudéssemos começar a abrir os presentes. Fechei meus olhos e imaginei Pedro
sentado entre os irmãos dele. Era a única coisa que me faltava para que minha
alegria ficasse completa. Mas eu sabia que um dia nós nos encontraríamos, mesmo
que fosse em meus sonhos. E eu podia sentir a presença constante dele ao meu
lado, tanto que, cada vez que Vitória sorria, eu o imaginava brincando com ela.
Gostaria de agradecer a cada pessoa que perdeu alguns minutos durante dias, para acompanhar a história de Alice e João Pedro.
Dividi essa história com vocês com muita satisfação e muito amor!
Dedico essa história a uma amiga que mesmo estando longe, está presente em meu coração constantemente, e ela assim como a Alice, realizou o seu sonho de ser mãe com um principezinho que não nasceu dela, mas que foi feito para ela! E ela o ama incondicionalmente. E ele a ama mais do que tudo nessa vida! E eu só tenho a dizer que a admiro imensamente por isso.
Érika Gomes Prevideli

